a Poesia do Intencionar . : . [3D: profundidade, movimento e con-fiar]

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O que é a intencionalidade?

O que é a intenção?

O que é Intencionar?

Se nós olharmos para a etimologia de intencionar, seja com ‘c’ ou com ‘s’, porque intenção tem com ‘ç’ e com ‘s’ (intenção & intensão), nós encontraremos a mesma raiz:  intensio – que significa alongamento, estiramento, esforço .

          Intensio/Intendere :  |in– que significa ‘em’| & |-tendere, que significa ‘esticar’, ‘estender’|.

Então a intenção é eu esticar algo, é eu ampliar esse algo e ver camadas. Quando eu pego um objeto, seja desde coisa física densa até um assunto sutil, e o estico, e o alongo, prolongo, eu faço com que seja possível ver os detalhes que estão dentro dele, daquele pedaço.

          Assim como, se eu pego um ponto e o estico, ele se torna uma linha.

Entre a intenção e a pretensão há uma larga diferença. Eu comentei sobre isso no vídeo passado e torno a falar para que nos aprofundemos nessa questão.

Pretensão vem de praetensus, que é dissimular algo no sentido de ‘apresentar ou alegar uma suposição’. Então a gente pressupõe algo na pretensão: se eu venho aqui na pretensão de ensinar algo, eu estou supondo que eu vou ensinar algo e alguém irá aprender. Isso em si não é ensinar e nem mesmo aprender, pois a pretensão é um ponto parado no Tempo. Por ela ser uma suposição, ela supõe um começo e um fim – então eu traço uma reta, uma linha de um ponto ao outro, tendo começo e fim, supondo que eu farei esse trajeto ininterruptamente.

Na intenção o que há é o ampliamento, o estiramento de um ponto. Não é eu ir de A para B, mas eu chegar tão próximo ao A ou ao B que eu perco a noção de começo e de fim daquele ponto. Eu sei que ele pode ter um começo e um fim, mas eu perco isso por um momento, eu me descolo no Tempo e crio movimento de aprofundamento através da intenção. Na pretensão se está parado.

Pretensão em inglês também deriva uma palavra que é pretender, to pretend. Tem uma música do Freddie Mercury que eu particularmente gosto muito, em que ele canta: oh, yes, I’m the great pretender, pretending that I’m doing well… [The Great Pretender]

Pretender é eu fingir algo, é eu fingir um movimento: eu sou um grande fingidor, fingindo que tudo vai bem [tradução livre da música] – então eu finjo um movimento. Na intenção eu sou capaz de produzir esse movimento.

No vídeo anterior eu comentei sobre o Símbolo de Aquário, da Era de Aquário, Signo de Aquário, enfim, que é o Homem com o Cântaro de barro que jorra Água. Dentro desse arquétipo e dessa analogia que nós fizemos, na Água que cai quando eu coloco uma intenção ou várias intenções eu sou capaz de observar e estar presente e atento ao fato de que, ao cair a Água, esse filamento de Água, eu posso dar uma altura para ele, eu posso sentir a temperatura desse jarro, eu posso colocar características que são inerentes a esse movimento, o movimento de derramar essa Água.

Então eu sou capaz de dar movimento, intenções que pertencem inerentemente a esse movimento, do jorrar essa Água que cai do meu jarro de barro, esse Cântaro. Eu não transformo a Água em outra composição, eu não altero quimicamente a Água e sua composição, o que acontece é que eu uso de características desse ‘Princípio do Jorrar’ (que é o ‘Princípio do Movimento’ em uma camada mais densa, mais específica) para dar intenções ao cair dessa Água, ao verter essa Água e fazer com que ela atinja uma finalidade, ou várias finalidades.

Finalidades essas que não sou eu quem concebo, mas quem chega é aquele que a traz. Finalidade que pode ser uma ou podem ser muitas, cabe a quem recebe dessa Água estabelecê-la, assim sendo, por um momento essa Água sai de mim e chega até um outro ser, como você, que me ouve e pensa comigo e fia junto e conversa, ainda que aí, em silêncio e em diferentes tempos.

Se eu tenho a pretensão de algo, não seria possível aprender em tempos diferentes, não seria possível isso se perpetuar em tempos diferentes, isso se torna uma restrição cada vez maior, mas na intenção aquilo que parte de mim chega até ti e por um momento toca um ponto, ou vários pontos, que é uma finalidade ou várias finalidades.

E é claro que pressupõe-se, ainda que não necessariamente venha a ser assim, que seja necessária essa finalidade para que essa Água assente, para que as impurezas, que também são inevitáveis, assentem – pois eu não sou e a minha Água não é a Água cristalina e pura como se deveria ser para que houvesse um movimento realmente fluido, mas tendo ela impurezas, é necessário que encontre finalidades em ti e decante, decantando as impurezas, as particularidades.

Então, se ela sai quente de mim ou sai fria de mim, é necessário que em ti ela encontre a temperatura exata, a tua temperatura para que você saiba absorvê-la. Então por um momento, sim, ela descansa no tempo, mas sendo o movimento sempre necessário, um princípio da vida – e nós sabendo já inclusive cientificamente que água parada é algo que mata a vida, em algum momento é preciso que ela encontre outras intenções para que ela saia de ti e parta em busca de outras finalidades, assim como hoje a minha sai de mim e busca a finalidade em ti.

          E o movimento continua…

Quando eu verto na intenção de que essa Água encontre um ponto onde ela decante, eu estou fazendo com que esse fio d’água esteja em você, encontre você e esteja em você, para que eu possa fiar esse fio d’água em você, e você possa fiar um outro fio d’água em outras pessoas e em mim também.

Quando nós fiamos em alguém, nós con-fiamos, pois confiar é fiar juntamente de alguém, e nós confiamos em alguém, nós fiamos juntos em alguém.

Então para que minha Água verta de fato e para que ela encontre uma finalidade em ti é necessário que nós confiemos uns nos outros. A pretensão, na pretensão, não é necessário: nem movimento nem confiança, ainda que se possa ter um fio. Mas é preciso ver que ir de A até B, partir de um ponto até outro ponto, e formar essa linha, seja ela uma reta uma curva o que seja, é como traçar isso num papel: fica na segunda dimensão.

É possível ter relações de segunda dimensão? Sim, é possível. Faz parte da realidade? Sim, faz parte da realidade. Mas podemos já ter relações 3D? Sim, podemos e temos! Ou deveríamos ter.

3D é justamente a profundidade. É quando deixa de ser pretensão, que pode ser boa, porque é a vontade de movimento, mas é quando deixa de ser apenas uma vontade para que se torne movimento de fato! E cause esse aprofundamento.

Então meu fio sai de mim e vai até ti e adentra novos espaços. Abre campos, se torna rizomático.

Rizomático é algo que parte de um ponto, mas vai criando tantos caminhos, tantas possibilidades partindo desses outros pontos também que se torna uma teia, não é possível mais encontrar de onde partiu e nem para onde chega.

E mesmo que sejamos capazes de dizer: partiu dela, momentaneamente, neste momento está partindo dela. Ainda assim quando se olha essa teia, quando se olha a ideia, e não apenas a ação em si, mas o que a ação carrega, nós vemos que é algo justamente muito maior do que um ponto ou dois ou três pontos, é algo que engloba todos os pontos e forma uma grande cadeia, uma grande teia.

No vídeo anterior eu também falei sobre eu acreditar que talvez não seja possível poluir a Água que cai do Cântaro. Mas a verdade é que eu conscientemente não soube conceber que: não é que eu acredite que a Água não possa ser poluída, mas eu não acredito de que sejamos capazes, digo, de que seja possível poluir a Fonte. Pois a Água talvez sim, talvez seja possível poluí-la. Eu não sei, assim como eu também não sei sobre ser possível poluir a Fonte. São conceitos que eu estabeleço neste momento da minha vida para que eu possa justamente aprofundar. Então eu crio esses pontos para aprofundar, e talvez inclusive descobrir que ali não era um caminho.

Mas hoje creio que talvez a Fonte não seja possível ser poluída, mas que a Água seja sim passível de poluição, porque enquanto essa Água cai eu posso jogar coisas ali junto, eu posso inclusive cuspir nessa Água, assim como principalmente o Jarro: se o Cântaro estiver poluído, sujo, essa Água inevitavelmente cairá de uma forma não muito agradável.

Não sei se é possível alterar a composição da Água, sei que tem pessoas que acreditam que isso seja possível e tentam. Mas ainda que façamos isso, se torna cada vez mais claro que isso está acontecendo e passa a poder ser evitado, se somos capazes de ter escolhas conscientes: tanto capazes de evitar que minha Água seja poluída, quanto de beber duma Água que esteja poluída, duma Água que esteja deformada, deturpada, enfim…

Se voltarmos à intencionalidade, se intencionalidade já são as características próprias do cair dessa Água, às quais eu deveria estar atenta minimamente ao despejá-la, ao vertê-la, e se inevitavelmente ela estará presente, isso significa que se eu não estou consciente das minhas intencionalidades, ou uma intencionalidade, quantas sejam, mas se eu não estou consciente das intencionalidades ao derramar essa Água e a estou derramando de toda forma, porque nós nos relacionamos de todo jeito, então isso talvez nos revele que: se eu não tenho clareza da intencionalidade da minha Água, do que eu intenciono com ela a cada momento, a cada vez, a cada palavra, a cada respiro, isso significa que cada gota minha está sendo poluída com a intenção de fora, pois se eu não estou prestando atenção aqui, se eu estou prestando atenção em qualquer outra coisa, eu continuo vertendo e vertendo e vertendo baseada nessa outra coisa que está por aí, e que passa a determinar a maneira como eu verto.

É claro que todas as coisas alteram as nossas intenções, alteram o jorrar dessa Água – é claro que ao ter, por exemplo, um grande barulho lá fora eu passo a falar do barulho lá fora, mas se eu sei de maneira consciente a forma como isso me afeta e afeta o meu jorrar, eu uso isso a favor. Então nós podemos deixar essa pedra passar, esse pó passar, esse momento passar…

O que não quer dizer que ele não tenha a sua pureza em si, que seja necessariamente poluído, pois é isso – a poluição talvez comece no fato de não termos consciência ou negarmos e eu começar a gritar fingindo que nada está acontecendo lá fora, pressupondo que se eu gritar não se vai ouvir o barulho grande que está lá fora, então eu finjo e grito em vez de assumir que isso altera e faz parte, em vez de confiar no movimento do mundo e naquilo que ele me oferece, deixar que venha esse fio de fora e fie junto comigo o que eu aqui traço, o que eu aqui fio também.

Então é muito importante que se tenha clareza das intenções quando vertemos a nossa Água, cada gota dela, pois se eu não a determino, algo externo a determinará. Assim como muitas vezes estarei julgando estar vertendo e estarei segurando o jarro sem verter de fato. Nós vemos isso acontecer, é simples, é como estar pondo um suco num copo, chá, água num copo e alguém nos chama ‘fulano, fulana’ e por um momento a gente presta atenção em outra coisa e acaba derramando ou para de derramar para que possa prestar atenção – muitas vezes nós paramos e não vemos, não percebemos que paramos: nós não fizemos uma escolha consciente, foi o corpo que automaticamente parou porque ele conhece esse caminho. Mas há corpos que não conhecem esse caminho, e justamente derramam, continuam vertendo e acabam fazendo uma lambança.

E não tem problema algum em fazer lambanças de vez em quando ou não verter, o problema reside sempre, sempre, na inconsciência, na ignorância do que se está fazendo. Se somos uma pessoa estabanada, que sempre derrama, é preciso aprender a tomar consciência de quando se está um momento antes de derramar para que se evite esse derrame.

É um dever aprender a estar fiando de maneira a con-fiar no mundo e fazer com que o mundo possa con-fiar conosco, ainda que ninguém tenha obrigação disso porque “ninguém é obrigado a nada” – como dizem por aí, mas há deveres a se cumprir, e nós devemos fiar de maneira que o mundo possa confiar conosco, e se os nossos atos são estabanados sempre, de maneira que nunca alteramos isso ou nem tentamos, o mundo não pode confiar em nós e nem conosco. Se torna mais complicado, mais difícil.

É possível poluir a Água? Eu não sei. Mas no meio do caminho talvez seja possível alterá-la. E é preciso então lembrar que a intencionalidade é aquilo que convém, pois não convém eu vir aqui ofertar algo que eu gosto para uma criança por exemplo: uma criança não bebe álcool, se eu gosto de álcool, eu não posso – não convém que eu ofereça uma bebida alcoólica a uma criança, assim como a um diabético não convém que eu ofereça algo com açúcar como um refrigerante, assim como alguém que não gosta de suco não convém que eu ofereça suco.

E aí talvez comecemos a perceber porque que é Água o que cai do Cântaro, o que é vertido do Cântaro. A Água: esse solvente universal!

Pois não convém lavar as mãos em chá. Nem lavar os pés na lama. E talvez, talvez, nós ainda estejamos em uma fase em que ofereceremos (o que gostamos) uns aos outros – e eu esteja aqui já a fazer isso (pois é claro, como eu disse já, não é Água pura o que cai aqui), mas talvez oferecendo com o máximo de honestidade e sinceridade e clareza e consciência aquilo que eu tenho para oferecer porque eu gosto e, principalmente, aquilo que eu tenho para oferecer e neste momento convém oferecer porque é o melhor que eu tenho, então aos poucos veremos que o movimento da intencionalidade um dia irá se purificar, pois o princípio desse movimento – do cair da Água do Cântaro – é o de, justamente, encontrar outros pontos, conectar vários pontos.

E não é possível, ainda, conectar todos os pontos se um oferece refrigerante, o outro oferece chá, e o outro vinho e o outro, cerveja, enfim… são Águas poluídas, por mais gostosas que sejam. Pois o ‘Princípio da Água’ é a cristalinidade (ou seja, a Pureza).

E aí talvez, um dia, quando todos os Cântaros forem limpos e a Água de todos os Cântaros se tornar cristalina, a intencionalidade, a profundidade venha a encontrar uma quarta camada e flua… para além do que é profundo, conectando todos esses pontos, encontrando em todos algo para além de finalidades, formando o Todo.

          Que possamos purificar as nossas Águas. Assim confiaremos uns nos outros e descobriremos o que é a União, de verdade!

 

a Poesia do Conversar . : . [o Cântaro com Água & o Homem: Símbolo de Aquário]

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O que é uma conversa?

O que é Conversar?

Quando eu olho primeiramente para a etimologia dessa palavra: conversar, conversa – eu consigo identificar o con-, que significa junto, e -vertere, que é ‘virar algo, tornar algo, verter algo’.

Isso me lembra muito um símbolo que é do Homem com um Cântaro de barro, um Jarro vertendo Água, que é símbolo, por exemplo, do Signo de Aquário. Esse Homem, que segura esse Jarro, ele verte essa Água e a partir da hora que tem alguém que se lave nessa Água, que beba dessa Água, que usufrua de alguma maneira dessa Água, isso se torna uma Conversa.

Nós temos um péssimo hábito, quer dizer, não sei se necessariamente péssimo, mas temos esse hábito, de acreditarmos que uma conversa, um diálogo, é composto de duas pessoas que falam, supõe-se que as duas estão falando, sendo que nem sempre, não necessariamente.

Diálogo não vem de di-álogo, como se o di- significasse dois – como muitas pessoas pensam, mas vem de diá-, que neste caso significa através, e Logos, que é Palavra. Então isso quer dizer que de alguma forma eu estou atravessando algo com as palavras, causando um atravessamento através das palavras. Não quer dizer necessariamente que duas pessoas falem, até porque a natureza da palavra, para que ela exista, alguém fala e alguém ouve, é preciso que haja mais de um Verbo atuando: o falar e o ouvir. Como duas faces da mesma moeda.

Assim sendo, conversar é quando nós vertemos juntos esse algo, seja conhecimento (preferencialmente), podendo ser também informação e outras formas daquilo que temos a comunicar. Mas pensando que eu venho até aqui para conversar, isso nos coloca num ponto de observação em que devemos pensar: o que há é que alguém está vertendo algo junto de um outro alguém. Como eu estou gravando e falando, o que pressupõe-se, e é feito trabalho para, é que seja possível que alguém use disso que eu verto, para que isso tenha alguma finalidade, para que isso ganhe alguma finalidade em outros aspectos. E as finalidades podem ser muitas, isso vai depender daquele que chega para verter junto.

Pois quem chega pode fazer desse verter um local para banhar o corpo, para banhar somente a cabeça, um local para beber essa Água, um local apenas de admiração, de sentar e ver o que está sendo vertido, de observação, de meditação. Pode ser um local apenas para se ouvir o barulho daquilo que se verte, como quem escuta uma Fonte d’Água jorrando incessantemente.

Mas que não haja um equívoco: que é confundir o Homem que segura o Jarro com a própria Água, e o Jarro com a Água.

Nesse símbolo, há três instâncias, há três figuras: a Água, o Cântaro e o Homem.

Eles não se confundem entre si, ainda que se complementem, e nesse caso só serão completos se houver um quarto elemento que se agregue a eles, pois em si mesmos eles não significam algo em termos de Serviço, de estar servindo a alguma finalidade alheia.

Se eu chego com esse Jarro já com uma finalidade estabelecida nesta conversa, querendo ensinar algo, convencer de algo, persuadir a algo, induzir algo, mesmo deduzir algo, se eu chego com finalidades já acabadas eu não permito que todos possam fazer uso dessa Água – que não é minha, pois a Água não pertence ao Homem nem ao Jarro.

A Água é a Água. Ela pertence à Fonte.

E se eu chego com uma finalidade estabelecida eu faço com que esse Jarro vire um chuveiro para se tomar banho, um copo para matar a sede, uma torneirinha, um bidê, e até mesmo um vaso sanitário (desses molhados que a gente usa em casa, não do seco, porque existem sanitários secos, mas), se deturpa de todas as formas, é possível deturpar de todas as formas o símbolo primordial, que deveria ser conservado.

A finalidade é diferente do dever: o símbolo dever ser conservado é diferente dele guardar em si mesmo uma finalidade já pré-estabelecida. O dever é que ele sirva a todos. Isso não pressupõe uma finalidade, ao contrário, isso abre portas para que várias finalidades se acheguem até ele e façam uso dele.

Então isso pode levar alguém a deduzir algo, conceber algo, matar a sua sede, se banhar, se refrescar, relaxar, acalmar, enfim, inclusive se afogar. Isso abre portas para várias finalidades, mas para abrir várias portas é preciso que, antes, ele cumpra um dever.

Então quando eu venho até aqui conversar, quando nós conversamos no dia a dia em qualquer instância, a qualquer momento, com qualquer ser que Há, nós estamos abrindo várias portas – quando conversamos na raiz do que conversar significa, mantendo em sua concretude o símbolo arquetípico que o sustenta.

Então nós podemos verter juntos: não porque ambos faremos, ou todos faremos a mesma ação de virar o Jarro, mas porque tendo um se proposto a virar esse Jarro, a verter essa Água, os Outros podem ter outras ações em relação a isso. E nisso escutar é também conversar, ainda que não se diga uma palavra.

É claro que quando alguém termina de falar e eu começo a minha fala, isso pode ser muito bom no sentido de me permitir, permitir a quem primeiro verteu, a também se banhar, também matar sua sede, ouvir, relaxar, meditar, observar etc., abre porta para que o Outro também adentre, para que aquele que primeiro abriu também possa adentrar outros espaços. Mas isso não é algo que aconteça necessariamente.

Então por que nós ficamos tão chateados quando numa conversa alguém fala e muitas vezes nós não temos tempo para responder?

É claro que muitas vezes nos chateamos não porque deixamos de participar daquilo, mas porque o outro realmente não abriu portas – em termos de ele já vir com uma finalidade: ele veio com a finalidade de que você escute a Água dele e somente isso, não atrapalhe, para que “todos escutem a sua Água” (em tom vaidoso e arrogante). Ele impõe uma finalidade para a ação dele, sendo que não há finalidade para as ações em si.

Nós tendemos a confundir, como já falei e volto a repetir, finalidades com deveres, responsabilidades, e mesmo intenção. Eu posso verter um Jarro d’Água na intenção de matar a sede de alguém ou possibilitar que alguém se banhe, que alguém lave os pés, isso não quer dizer que saberão fazer uso disso em termos de que irão de fato lavar os pés.

E tudo bem… se isso servir ao Outro de alguma outra forma, ele encontra uma outra finalidade e continua servindo. Problemático é quando não há serviço, quando já venho com a minha finalidade, esperando que o Outro faça uso dessa finalidade, que o Outro queira essa finalidade, ou venham pessoas com apenas uma única finalidade tal qual a minha, tal qual a que eu intenciono, e privo Outros que poderiam se beneficiar disso enquanto um serviço, enquanto um servir, porque a palavra serviço também está muito deturpada nos dias de hoje, mas enquanto um servir. Eu evito que o Outro possa se servir e que isto sirva e Eu esteja a serviço do Outro.

Eu passo a servir e a estar a serviço apenas daqueles que me agradam, daqueles que me convêm, daqueles com quem eu vou com a cara, com os quais eu concordo, que pensam igual a mim, que tomam as mesmas ações que eu, ou que façam uso do que eu tenho… passo a tratar as coisas inclusive como posse, sendo que o Jarro não é do Homem e a Água não é do Jarro, é da Fonte.

Mas passo a acreditar justamente que aquilo é meu então eu posso embutir uma finalidade e exigir que o Outro esteja de acordo com a finalidade daquilo que é meu, pois Eu estou segurando o Jarro que contém a Água, não é mesmo?

Se a Água pertence à Fonte, o Cântaro – o Jarro, pertence a o quê? A que instância? E o Homem: qual será a Fonte do Homem que segura esse Jarro e que verte essa Água junto de alguém? De onde Ele vem?

Sendo um Jarro um recipiente fechado, ou semi-aberto no sentido de haver uma boca por onde se verte a Água, como é possível que essa Água continue vertendo infinitamente?

Se o Cântaro é de barro, e o Cântaro é o que possui a boca por onde sai a Água, sendo o Jarro de barro feito da terra, feito da matéria: e o Homem que segura esse Jarro?

Ele não abre a boca, não é dele que sai a Água. Ele é aquele que direciona e que age ao direcionar. Direcionar não de dar uma finalidade, de verter para a esquerda ou direita, mas direcionar no sentido de criar um foco para que a Água caia, criar gravidade.

Se a Água são as palavras que Eu verto, e se elas saem da boca que é este corpo que vos fala, onde está o Homem que me segura? O que é essa instância mais sutil que segura o Jarro para que caia esta Água?

Não é o agregar dos elementos uma conversa já, ainda mais sutil do que a que temos agora no plano literal das palavras? Se três elementos  (Água, Cântaro e Homem) já estão conjugados, unidos, não estão eles já sendo vertidos um em relação ao outro?

Pois sem uma conversa entre a Água e o Jarro e entre o Jarro e o Homem, seria possível verter essa Água o Homem?

Essa conversa em que não há uma só palavra, mas apenas silêncio…

E ainda assim é uma conversa de gigantes!

[Então será que quando eu tenho uma conversa dessas temporárias na rua com alguém, em casa, com amigos, em uma festa, ou quando eu desabafo, trocamos ideias, fofocamos ou o que seja, mas dessas conversas em que duas pessoas falam e falam e falam… será que isso é uma conversa de fato?

Será que para eu reconhecer uma conversa nesse plano material de maneira densa, usando as palavras literais, eu não tenha que saber ter da conversa silenciosa entre as palavras que eu irei pronunciar, o Jarro, que é esse corpo que as carrega e as segura o tempo todo, e esse Homem, que me segura no colo sem que eu caia, sem que eu quebre, sem que eu desperdice uma gota de palavra?

E o que será que acontece com pessoas que falam vertendo pra todo lado? O que será desse Homem que segura esse Jarro que respiga Água para todos os lados, que afoga pessoas, que dá banhos, que queima com Água quente e que congela com Água fria, que espanta que… que molha o que já é úmido e deixa seco o que há tanto tempo espera por uma Água porque é árido? Aquele que se apega ao Jarro e sua Água e em pleno deserto não compartilha com ninguém, o que acontece com esses homens? Com esses Jarros tão precários, muitas vezes já rachados, pingando, gotejando pelo caminho…

Será que não é hora de compreendermos que para começarmos a conversar de fato é preciso que as palavras, o corpo, e este Ser representado por um grande Homem que sustenta esse Jarro, será que não é necessário que essa tríplice aliança, essa trindade mais densa esteja alinhada?

Será que o Homem que está dançando com seu Jarro sabe realmente o que está fazendo quando se lança ao caos e sai freneticamente bailando por aí, segurando esse Jarro, correndo risco de desperdiçar essa Água a qualquer momento, se já não o está fazendo? Será que ele é capaz de ver quando alguém necessita que ele simplesmente pare e silencie e se agache e se ajoelhe para verter esta Água aos pequenos?

Não será a dança o verter do Jarro em si mesmo? Não será a dança o cair eterno da Água de um Jarro que é limitado, e ainda assim dentro de si encontra a Fonte?

O que é uma conversa de fato?

Será que a gente já conversou de verdade? Evocando esse arquétipo de quem verte junto algo?

Eu não sei se eu sou capaz de fazer isso, e não venho aqui na intenção e pretensão de me crer cumprindo essa finalidade, pois eu me coloco a serviço da conversa como um dever e espero não fazer dela uma finalidade em termos de restrição para quem se achega.

É claro que ao escolher palavras, escolher um tema, uma pergunta para que nós observemos até onde ela é capaz de nos levar em termos de espaço, é claro que de alguma forma eu limito, delimito, às vezes até saborizo a Água, vou colocando algo junto disso: temperatura, altura desse Jarro… mas ainda assim, essas são as características necessárias e inevitáveis, pois não é possível, ao menos ainda, que a Água verta diretamente do Homem, sem passar pelo Jarro.

Então não é possível ignorá-lo, bem como o Homem, não sendo perfeito ainda (ou eu assim supondo), ora vai virar demais, ora de menos, até encontrar o equilíbrio exato desse Jarro. Talvez tenha hora em que fique cansado e isso mesmo altere a maneira como se segura o Jarro e como se deixa verter uma gota e outra gota e já não um fio d’Água, ou já não permite o desperdício, ou de forma egoísta passa a negar uma maior quantidade de Água.

Portanto façamos bom uso desse Jarro, saibamos apreciar e dar uma finalidade pessoal, do indivíduo, para essa Água (que chega), para que esses três elementos: o Homem o Jarro e a Água possam estar a serviço e servindo de alguma maneira, cumprindo assim o seu dever com responsabilidade.

Que tenhamos mais portas a abrir ao conversarmos, mais pessoas, para que muitas lavem os pés, muitas lavem as cabeças, as mãos, e a parte que julgarem ser necessária, ainda que nós falhamente olhemos e pensemos: “nossa, ela deveria estar fazendo outra coisa com essa Água”. Mas não nos equivoquemos – isso é um julgamento da nossa parte, é um julgamento de quem ainda busca uma finalidade específica (para a própria Água). É claro que sim, há ações que convêm mais do que outras, então alguém que está limpo não é preciso banhar-se, talvez fosse mais conveniente que bebesse da Água, e não se banhasse na Água.

É preciso conhecer-se para saber a conveniência daquele servir e então a responsabilidade esteja de fato presente. Nem sempre é fazer o que se deseja, mas saber o que se necessita.

Isso não é fácil com certeza, mas a gente conversa para tentar isso de alguma maneira. A gente tenta…

Que tenhamos mais consciência ao tentarmos e ao conversarmos. Mais consciência dos elementos que temos a nosso serviço quando agimos. Quando usamos um Verbo como por exemplo, Conversar, e vertemos juntos algo para que isso nos sirva de alguma maneira, para cumprir algum dever cuja responsabilidade nos espera.

Para conversar nem sempre é preciso responder, às vezes responder é respingar.

Então que olhemos com mais Amor para essa Água, esse Jarro e este Homem que todos São e carregam, e saibamos que às vezes mesmo alguém com um Jarro quebrado, pingando Água entre os braços, se você se coloca ao lado dessa pessoa e silenciosamente põe as mãos sob essa goteira, ou os pés, é possível que você esteja ajudando, num simples ato silencioso, a fazer com que aquele Homem e aquele Jarro sirvam a algo.

E a Água… às vezes nós poluímos nossas palavras, mas será que é possível poluir a Água da Fonte Infinita?

Eu não acredito que isso seja possível, acredito que antes que ela se suje o Jarro seca, mas não beba da Água que julgar que não deva beber, não se lave na Água que julgar que não deva se banhar, mas escolha com consciência:

sabendo que ainda há um Jarro e ainda há um Homem segurando esse Jarro e que isso significa muito mais do que a gente pensa!

a Poesia da Personalidade . : . [Espectro & Frequências: a serviçal do Eu]

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O que é a Personalidade?         

 

No vídeo anterior eu comentei sobre o que acontece quando nós usamos, o risco que corremos quando nós usamos a personalidade ao falar e ao escutar. Como que a nossa fala, as nossas palavras são um convite a adentrar um espaço, e como a personalidade é aquilo que enche de alegorias esse espaço, enche de características que são momentâneas, porque elas dependem (a personalidade depende) do que eu estou sendo nesta vida, do meu estado, da minha condição nesta vida.

É claro que há um espectro que a nossa personalidade comporta, talvez ela seja justamente isso.

Eu não sei nada de teorias psicológicas, eu não sei nada de teorias. A ideia aqui não é um debate teórico, a ideia não é nem um debate, a ideia é só tentar pensar alguma coisa, alguma tentativa de se chegar a algum caminhar, não a algum lugar, mas a algum caminhar.

Então, talvez a personalidade de cada um seja a capacidade de espectro, que nós temos, de manifestação do nosso Eu nesta vida. Como a luz, como as ondas – que a gente sabe que algumas a gente capta de um tanto ao outro -, como as do som também, em que a gente sabe de que frequência até qual frequência nós somos capazes de ouvir e ver, até que saibamos que elas em si extrapolam os nossos órgãos sensoriais, as nossas capacidades de sentido.

A personalidade talvez tenha uma semelhança com isso: à medida que o Eu, o Ser, ultrapassa qualquer capacidade que tenhamos de espectro, de definição de um espectro. Mas cada Ser aqui da Terra, humano, necessariamente – porque animais ainda não têm personalidades, eles ainda não são indivíduos a ponto de terem personalidade, ainda que tenham traços próprios de cada um, como que brotando esse princípio no futuro, uma futura possibilidade de personalidade, mas sem levar isso em consideração por agora, sendo que somente os humanos são capazes de um processo de individuação, de consciência, de uso da mente enquanto uma lente focal para se observar o mundo, a Personalidade talvez seja isso: um espectro do que é o Eu – que não há limite, ou se há nós desconhecemos ainda.

E dentro desse espectro, nossa capacidade de usá-lo em termos de características que são pertencentes a ele é o que dá cor, vida, som, o que dá gosto, sabores, é o que dá o encontro com o mundo. É a membrana pela qual a gente encosta e sente o mundo, os sentidos pelos quais a gente entra em contato com o mundo, em termos de individuo, em termos de Eu.

Sob esse ponto de vista (que não é o meu ponto de vista), sob esse parâmetro de discernimento (de que a personalidade é esse espectro e cada um tem o seu), sendo ele necessário para que nós consigamos ter consciência da manifestação do Eu, assim como o limitar das frequências das ondas é necessário para que consigamos estar em contato com as ondas e captá-las (ainda que um dia possamos alargar nossos sentidos e observar outras maiores e menores frequências dessas ondas, mas…), levando em consideração que, para começo de vida, nós precisamos aprender a estar nessa faixa limite para conseguirmos começar a observá-la como um Ser dentro da nossa consciência, a personalidade também se torna necessária para que consigamos nos observar uns aos Outros e a Si mesmo.

Isso faz com que qualquer fala que eu tenha não seja possível estar fora desse espectro, mas seja possível escolher se em maior ou menor frequência, em qual cor, em qual nota, em qual volume, timbre, tudo, o degradê para que eu fale com o Outro. Então escolher qual frequência da minha personalidade eu irei usar ao falar com o Outro, ver aquela que faz com que o cômodo (o qual eu irei apresentar ao Outro), o espaço (no qual eu irei abrir a porta para que o Outro adentre), seja agradável.

Então, talvez nós possamos observar que não só as palavras que eu escolho ao falar com o Outro, mas toda e qualquer vibração presente em mim que eu escolha, sendo uma delas a minha personalidade, vai modular, vai dar cor, vai vibrar, construindo esse local em que o Outro irá adentrar enquanto eu falo. Porque o falar é a construção constante deste local.

Cada vez que eu acrescento uma palavra uma tonalidade, ou uma expressão da minha personalidade, uma característica da minha personalidade, é algo a mais que eu mostro: é um lustre que eu revelo, um móvel que eu coloco dentro, é uma flor, um detalhe, seja qual for, é um papel de parede, e o detalhe que cada um quiser que seja. E aqui é só uma analogia, é claro. Mas nós começamos a ver que, é isso – se eu faço o uso desenfreado da personalidade, isso significa que eu estou abarrotando de coisas muitas vezes, abarrotando de coisas de maneira caótica, porque se eu não tenho consciência do espectro ao qual eu estou sujeito nessa vida e quais são a frequências dentro dele que eu consigo utilizar, e de qual eu tenho consciência (porque às vezes eu tenho o espectro dum tamanho, mas a consciência menor do que ele, tem isso também), se eu tenho consciência só dum pequeno tamanho do espectro, é só isso que irei usar, ainda que meu estar no mundo pudesse ser maior. Então usar a personalidade de maneira caótica, desenfreada, inconsciente faz com que eu coloque uma cama no teto.

No vídeo passado eu dei o exemplo da luz apagada e o chão cravejado de diamantes ou cheio de pérolas: quem entra em um cômodo escuro, não importa qual pedra preciosa haja no chão, vai ser só uma pedra!

              A preciosidade da pedra não está na pedra em si mesma,
              mas na luz que se lança sobre ela!

Se eu aprendo a ter consciência da minha personalidade, eu aprendo a manejá-la! Mas não de maneira maniqueísta. (Porque é claro que pode se tornar algo maniqueísta, algo de perverso e há pessoas que fazem isso, nós sabemos, há profissões que inclusive exigem isso em termos de que são recheadas de pessoas imorais porque fazem uso até mesmo do carisma para angariar desejos realizados, fazer com que o povo realize os desejos pessoais da pessoa e ela não realizar os desejos de quem ela prometeu realizar, por exemplo).  Pois há como utilizar a personalidade com fins escusos, sim, há como utilizar a consciência para fins maléficos, mas sem entrar nesses méritos, que não são méritos algum, pelo contrário, mas sem fazer alarde sobre isso, ainda assim, dando a liberdade de cada um fazer o que quiser com o conhecimento, lembrando que há consequência… Sempre há consequência…:

 A consequência é uma Lei, e sendo uma Lei ela é um Ser Vivo, e é um Ser muito mais evoluído do que nós. Então não adianta querer estar acima dela, isso é pateticamente impossível. É possível ser amiga dela, estar acima não. Mas ok. Não entremos nesses méritos também, é desnecessário, mas sabendo que há consequências, ainda assim falemos da personalidade e da maneira de manejá-la…

Quanto mais nós tomamos consciência da nossa personalidade, a nossa possibilidade do nosso Eu estar aqui, estar agora aqui, mais nós somos capazes de criar coisas dentro desse cômodo: criar ideias, criar arte, criar coisas, criar pessoas, relações… e criar escuridão. Gerar escuridão e também dar espaço para a luz. É uma escolha.

E quando não se tem consciência dessas escolhas que nós temos que fazer, seja consciente ou inconscientemente, nós acabamos por lançar as pessoas ou em cômodos escuros, ou cômodos abarrotados de coisas, ou cômodos vazios, ou abismos, em caos, tempestades de areia, em desertos (porque tem pessoas que abrem portas que só dão em desertos), e talvez então nós vamos ver que não seja possível realmente, nem desejável, escapar da personalidade, e seja qualquer o tom afetivo que eu use aqui, seja de extroversão ou introversão, de alegria ou tristeza, de ansiedade ou quietude, de bom ou mal, alegre ou triste e os adjetivos que se quiser, serão apenas temporários. E se eles estiverem dentro do espectro da minha personalidade eles serão reais. Então qual é realmente o problema com a personalidade?

Os orientais veem isso como um problema tão grave, que tradicionalmente se busca o Nirvana, que é justamente a dissolução para que a personalidade não se manifeste, para que nem se corra o perigo de se perder crendo que seu Eu é esse espectro – porque há pessoas que acreditam nisso e que são inclusive aparentemente boas, que acreditam que por serem boas elas são essa bondade, sendo que não, ser bom, bom é um adjetivo, não é o que você É.

É muito difícil ter consciência do espectro dessa nossa personalidade: até onde a gente consegue ampliar isso e até onde está sendo limitado e usado de maneira desordenada. Mas se ela é uma ferramenta para ofertar ao Outro coisas que eu posso criar para estar em contato com o Outro, então talvez o Outro seja uma boa medida em relação a Eu estar em relação com a minha personalidade.

É claro que no mundo em que nós estamos é difícil a prática de tudo isso, e não há fórmulas, há Forma: Forma há, porque senão as coisas se deformam. Forma há! Mas forma não é fórmula, e a fórmula para se chegar à forma é que é um mistério. E o passo difícil.

Se nós partirmos do que foi falado no vídeo anterior sobre a fala e a escuta, sobre as palavras, se eu começo a observar o cômodo que eu construo para que o Outro habite (não importa o Outro estar ou não consciente de que ele está habitando um cômodo que eu construo, não importa ele estar ou não consciente da própria personalidade), eu conseguirei ver ainda assim como construir para que aquele Ser habite, mas para isso é preciso que eu também veja com muita clareza tudo isso. E aí nós entramos numa outra questão que é:

O que é a visão? O que é eu ver claramente um processo?

Quando o Outro está dentro do cômodo que eu construo, quando eu vejo o Outro ali, ele pode estar passando mal, se eu me conheço, se eu tenho clareza sobre mim e sobre minha personalidade, eu sei qual parte do meu espectro eu preciso acessar para que eu construa um hospital para o Outro, para que eu ofereça uma cama, um chá, para que eu ofereça uma maca, uma banheira, uma camisa de força se necessária, para que eu ofereça algo que alivie o que o Outro está passando.

Ah, mas eu quero construir shopping, livraria, eu quero ofertar livro para os outros, em termos de conhecimento, eu quero ofertar bonecas, quero ofertar roupas, quero ofertar carro… teoria, igreja…

Bom, se você quer ofertar algo para o Outro em termos da sua personalidade e de construção, então muito provavelmente você não tem clareza: nem da construção de si mesmo, muito menos do Outro. Porque essa ferramenta, se nós checamos essa observação de que a minha personalidade é para construir um cômodo para o Outro (em termos de como eu o revisto, com que eu o enfeito, qual tom esse cômodo terá, se é um jardim – quais flores florescerão, quais árvores darão sombra, enfim, a analogia que se tiver a capacidade de imaginar, ou que se tenha capacidade de imaginar), se eu observo e chego a esse ponto de observação: de que a personalidade é para essa construção dos detalhes daquilo que estou a ofertar, então talvez nós possamos observar também que muito provavelmente esse espectro da personalidade não é para que eu construa o que eu quero, que a personalidade não existe para que eu satisfaça os meus desejos: ela existe para que eu ofereça ao Outro algo do meu Eu.

E nisso nós vamos ver que no mundo, neste ponto em que estamos, há muitas pessoas que justamente não têm a plena capacidade de uso – não direi consciência, porque eu não sei da consciência alheia, eu posso supor que a maioria não tenha consciência da própria personalidade, não tenha uma boa subjetividade, mas ainda que tenha o princípio de uma boa subjetividade, coloquemos assim, creio que ainda é muito difícil encontrar quem tenha o pleno domínio disso enquanto ferramenta: ah, eu sou extrovertida, introvertida, a b c d e f g h i j… enfim, o alfabeto inteiro… Quando eu chego ao ponto de observar que a personalidade está a serviço do Outro, eu compreendo que quando estou alegre ou triste, quando estou deprimida, quando estou feliz, quando estou ansiosa, enfim, de bem com a vida, mal com a vida, quando eu estou em algum estado de ânimo ou desânimo, é claro que isso diz muito a meu respeito, diz respeito à saúde do meu sutil, mas em relação ao Outro, na construção que a gente faz, em termos mais elevados, aquilo que eu estou construindo perante o Outro, que eu estou sendo perante o Outro, é para o Outro!

Então toda possibilidade do espectro da minha personalidade deveria ser pautada na escolha daquilo que eu quero mostrar ao Outro, compartilhar com o Outro, construir com o Outro, vivenciar com o Outro, e à medida que eu faço essa construção junto ao Outro (e o Outro muitas vezes não vai ter a capacidade de observar certos detalhes do meu espectro, assim como ele vai ter capacidade de ver coisas que eu não vejo nesse meu espectro, detalhes desse degradê, dessa tonalidade, dessas frequências para as quais eu não estava desperto, atento, talvez…), isso diz a meu respeito e diz principalmente a respeito do Outro, porque o que o Outro também é capaz de ver nesse meu espectro é de acordo com o limite do olhar dele.

É claro que eu empurrar alguém, eu colocar alguém em um cômodo escuro com pedras pelo chão, sejam preciosas ou não, é algo que, a priori, parece um equívoco, e que na maior parte das vezes, na nossa humanidade, é um equívoco, porque a gente não sabe que está fazendo isso, e quando nós colocamos alguém em um cômodo de maneira inconsciente é um grande equívoco: a inconsciência, a ignorância, é o único equivoco, único erro real nisso – não exatamente a escuridão em si e nem as pedras no chão, mas eu não ter consciência da escuridão e das pedras, e de que estou colocando alguém lá.

Mas quando eu sei que estou colocando alguém em um quarto escuro e lanço pérolas nesse quarto escuro e a pessoa não é capaz de ver, porque ela não tem outros sentidos tão desenvolvidos quanto a visão, então ela se apega à visão e estando escuro ela não vai ver o que eu joguei no chão ou em qualquer espaço desse cômodo que seja, pode ser um jardim cheio de flores, se elas não tiverem odor, a pessoa não irá ver… então, ela passa a ter medo, e ela passa a julgar, a ofender, a xingar, e todo julgamento é um equívoco a partir da hora em que eu estou deixando de ver a essência do Outro.

Porque a minha personalidade está aqui a trabalho do Outro, está a serviço do Outro para que meu Eu trabalhe: a personalidade está a serviço do Eu para que o Eu trabalhe ao Outro, então a personalidade também está a serviço do Outro ao ser serviçal do Eu, do Espírito. E nesse imbricar das situações, eu consigo ver que aquele que não sabe, não tem ou não consegue, ou o Verbo que seja (ainda assim é um Verbo), em relação à sua própria personalidade, aquele que não tem a consciência e manejo da própria personalidade para que saiba me apresentar um cômodo aprazível e saudável, para que me apresente um belo quadro, enfim, frequências elevadas dessa personalidade, ainda que ele me apresente as frequências mais baixas, e obscuras e graves, a minha obrigação, o meu dever, a minha responsabilidade é a de que, a partir da hora em que alguém me coloque num cômodo escuro, cheio de coisas que ela própria não vê, eu use do meus outros sentidos para ver e lançar Luz nessa escuridão.

Porque a escuridão do cômodo não é o cômodo. Então eu posso xingar a pessoa de ignorante, de chata, de egoísta, mesquinha, de alguém que eu não vou com a cara, que eu não gosto, que é vazia, que é obscura, que é psicótica, maluca, louca, eu posso adjetivar a pessoa como eu quiser: aquilo é a escuridão dela, não é ela, e o fato d’eu estar falando sobre a escuridão dela mostra apenas que eu não tenho algo para além dos olhos. E quando eu não tenho órgãos para além dos olhos, isso me revela que eu sou cego.

Então o que é enxergar? O que é enxergar?

É eu ver que a escuridão é escuridão, e que um cômodo é um cômodo, e uma cama é uma cama, uma flor é uma flor, uma pedra é uma pedra, e uma pérola é uma pérola. Mas, para que isso aconteça, para que cada Forma esteja unida ao seu Conteúdo, eu preciso ser capaz de ver para além do escuro que se me apresenta. E isso é difícil. E raro!

Assim como é preciso que eu veja para além do claro, porque há cômodos de pessoas que querem ser tão cheias de luz, frequência tão altas, tão boas, tão alegres, tão positivas, tão ‘não pode chorar nem sangrar na vida’, que elas também estão cegas e cegando os outros devido a esse excesso de luz. Então também é minha obrigação ver que elas não são essa luz, por mais que seja lindo no pensamento delas que elas sejam, elas não são.

Talvez nada passe para fora, por fora do espectro da personalidade nessa densidade de vida, nessa materialidade em que a gente se encontra, nesse grau, nível, nessa instância. Mas é possível, e é recomendável, que se faça uso dela para estar a serviço do Outro.

A personalidade não é para eu ser quem eu gosto de ser. Porque se eu construo um cômodo no qual eu gostaria de habitar e no qual eu passo a habitar, sendo que esse cômodo é aquilo que eu construo através de uma conversa, de um diálogo, de uma observação, de uma meditação, de uma contemplação, adoração (que são escalas que a gente vai subindo nessa escada), isso significa que muito provavelmente eu estou falando sozinho e sou um esquizofrênico, não esquizofrênico clínico, que são casos que eu não pretendo tratar aqui – não é disso que eu falo, da densidade da doença em si, de quem tem alucinações, enfim, quem já foi completamente fragmentado em relação a essa realidade em todos os níveis e apresenta realmente um grau de densidade da doença muito grave -, mas, aquele que está falando sozinho consigo, construindo um cômodo falando sozinho, em nível sutil essa é a sutileza da esquizofrenia, e talvez em alguma vida você venha a ser um esquizofrênico de fato, clínico, porque isso vai se densificando. Vai se cristalizando, se tornando realidade.

Então, o que é a personalidade?

Ela talvez seja uma chave, a chave dessa porta que a gente abre para que o Outro habite em nós, em nosso Eu. E não estando o Outro limitado pela nossa personalidade (porque o Outro não sou eu, eu fisicamente, eu Le Tícia, você não sou eu Le Tícia, não estou falando de instância superior do Todo onde Tudo é Uno)… mantendo a nossa individualidade e dentro dessa individualidade em que cada Um é um, o Outro não está limitado pelo meu raio de visão e de abrangência na vida, de vibração (ainda que ele tenha o limite dele, mas), não estando limitado pelo meu, ao ele adentrar um cômodo que eu construo para que ele entre, isso é de uma grandeza tão grande que, se o Outro souber onde ele está entrando, se ele tiver consciência, essa é a hora da oportunidade de entrar e ver o verdadeiro Eu de quem o convida a entrar nesse espaço que se constrói.

A personalidade, se usada de uma maneira inconsciente, pode fazer com que o Outro se apegue aos detalhes que você colocou ali, e às vezes inclusive quer que ele veja, porque você acha bonito, você gosta, acredita que você é aquilo, nós fazemos isso – não é como se eu não fizesse -, mas se o Outro tiver consciência, se nós tivermos o mínimo de consciência e o Outro também um pouco de consciência ao adentrar esse cômodo, ele vê que o começo são aparências, mas que há um para-além, que se ele souber também observar junto com aquilo que você está propondo que ele observe, talvez aí é que a gente consiga ver e se enxergar: que é quando os detalhes acabam, quando os detalhes são só detalhes.

A porta é um detalhe da passagem, a porta é um detalhe da parede, que é um detalhe do quarto, que é o detalhe de uma casa, que é o detalhe de uma rua, de um bairro, um país, de um planeta, de um sistema, de uma galáxia, e assim segue, em ninhos de galáxias e ninhos de ninhos de galáxias…

Nós podemos oferecer uma porta e algumas coisas dentro dessa porta, e talvez o Outro saiba entrar e ver que atrás dessa porta há um lar: um lar onde não são essas coisas que moram, mas quem construiu essas coisas. E então através das coisas, ele talvez consiga ver como é a forma de trabalho desse Ser. Porque as coisas que nós construímos com a personalidade, as nossas criações para o Outro, dizem respeito a quem as criou, então quando eu sei usar o espectro da minha personalidade, quando eu sei fazer escolhas dentro dessa paleta de cores e vibrações e sonoridades e frequências, sutilezas, isso revela que o meu Eu, para além desse espectro, está aprendendo a observar e a fazer escolhas.

E tal qual uma criança ele pode começar a escolher com qual detalhe desse espectro ele quer brincar. Porque se a gente começa a levar muito a sério também, fica só nisso, e esquece que o espectro pode mudar, porque às vezes a gente acha que um tanto dele é tudo, sendo que poderia ser muito mais. Saber ver para além daquilo que nos é imposto como limite do espectro, ver para-além do limite do espectro com essa leveza da criança, que sabe que tem limite – isso é a consciência e, portanto, criança analogamente em termos de liberdade, mas não de cabeça: há que se ter uma grande responsabilidade, de adulto, perante esse limite – o rigor do foco de saber o que você está escolhendo dentro disso, mas ao mesmo tempo a leveza infantil de quem sabe que um dia pode descobrir que aquilo ali era um tanto pequeno de si, era só um brinquedo, mas tem muito mais, muitos outros brinquedos.

E que inclusive cada um que chega, se chega de maneira consciente nesse cômodo que a gente cria para quem chega (para cada um é um cômodo especial, ou eu espero que assim seja), esse Outro pode chegar trazendo um brinquedo novo também e sem querer a gente pode descobrir que o espectro que está no Outro é nosso também, e aprender a acessar isso dentro da minha personalidade se eu permitir que o Outro me ensine.

Se livrar da personalidade seria como jogar fora a minha lente que o espírito usa para olhar e brincar com esse lado material. Mas se eu não souber como usar, isso também pode se tornar um ponto focal onde eu meto fogo em tudo e se torna um caos, um caos horrendo que não é um Caos produtivo do Cosmos. Não. Esse a gente não sabe o que é ainda, e nem está perto de saber, a gente acha que sabe do Caos… a gente não sabe nem ver a escuridão, quando a gente vê a escuridão a gente sai apontando dedo, sai chutando coisa, gritando, com medo. A gente na hora fica perturbado, com receio, incomodado sem ver que, no final das contas, a escuridão alheia acaba falando mais sobre a gente do que sobre o Outro, porque ela revela que eu só me relaciono com ela através de reação: reação em vê-la, e não em compreendê-la para além de si mesma. De entender que ela é uma parte do espectro. E então conseguir fazer com que meu Eu converse com a essência de cada um que está oculta por esta escuridão ou pelo excesso de luz que o Outro, pela sua ignorância, pela nossa incapacidade de manejo das ferramentas que são as possibilidades da nossa personalidade, por falta desse manejo acabamos, enfim, deixando tudo muito escuro, muito claro, muito alguma coisa sempre, muito leve, muito pesado, só rosa, só azul, só verde, só homem, só mulher, só branco, só preto, só baixo, só alto…

E a gente faz da unidade, do , algo que mete medo.

Se torna autoritário. Se torna um rigor que é de falta de zelo. Falta de cuidado consigo e com o Outro, porque não se sabe ser um construtor de fato.

Então usemos a personalidade, mas com consciência, com escolhas do que se está mostrando dessa personalidade, sem usar de desculpas e de respostas fáceis para essas escolhas. Mas com sinceridade de quem experimenta uma pitada de cada possibilidade para ver o que acontece, isso é muito bonito ver, é como a gente começar a observar que quando a gente está alegre, ao redor as pessoas começam a ficar alegres também, e quando a gente ri os outros começam a rir, e quando a gente também constrói um cômodo escuro e começa a falar da escuridão as pessoas também entram nessa escuridão – não é só o sorriso e o riso que são contagiosos, a ansiedade também é contagiosa, a tristeza etc., muito contagiosas. A gente é que não sabe reconhecer que sofreu um contágio.

E como saber que sofremos um contágio? Quando a gente só vê o escuro, lembra?

Quando a gente fala sobre a coisa e não sobre a essência. Quando pisa em pedra e acha que é pedregulho, e esquece de ver com os outros sentidos que no fundo era pérola, era pérola o que havia, mas ninguém tinha uma lamparina.

Então, que da próxima vez e sempre, usemos da nossa personalidade com cautela, com discernimento, com pureza de escolha, com consciência, obedecendo aquilo que é necessário para construir o que sirva ao Outro, sem fazer um manicômio para que eu more dentro.

 

a Poesia do Ouvir . : . [a Fala & a Fome]

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O que é Ouvir? 

       

Quando nós conversamos, cada vez mais é possível ver que há no mundo muita surdez, muita gente que fala muito sem saber o que está falando.

        Muitos dizem o que sabem, poucos falam sabendo-o.

A palavra nos foi dada como um dom: a linguagem, que é algo tão elevado, tão desenvolvido para que possamos ser uma comunidade para além das aparências, inclusive das línguas, porque linguagem é trabalhar com signos e símbolos para além de apenas a forma, unindo a forma e o conteúdo deles. Como estamos em um estado em que a palavra foi deturpada a tal ponto que, mesmo quando é pronunciada, nós estamos surdos e não conseguimos ouvir, quando alguém diz, quando alguém fala algo, quando eu me coloco aqui para falar algo e alguém escute o que estou me propondo é abrir uma porta e quem me ouve automaticamente adentra essa porta: é uma escolha me ouvir, mas a partir da hora em que se está me ouvindo, eu te transporto para outro lugar, um quarto, um cômodo, e existem várias formas de se lidar com nossos cômodos, quartos e espaços, sejam quais forem, que estão atrás dessas portas.

Quando nós usamos da personalidade para falar, quando nós falamos ‘porque eu sou assim e gostamos de ser assim’, então usamos esse ‘assim’, este estado que é a personalidade, para nos comunicarmos, a gente pinta esse quarto, a gente enfeita esse quarto, esse cômodo. A maneira como nós escolhemos nos comunicar, falar, é a maneira como nós apresentaremos esse espaço ao qual nós convidamos o outro a adentrar. 

Quando nós não pensamos no outro, mas apenas em nós mesmos, nós não adaptamos esse cômodo para as necessidades do outro que irá nos ouvir, nós não sabemos se ele ouve em libras, em português, inglês, espanhol, alemão, chinês, em algum dialeto, em tupi-guarani, em alguma língua morta: latim, nós não sabemos, e deixamos de nos importar com quem ele É e mesmo com quem a pessoa Está Sendo neste estado de vida.

Nós não levamos em conta nem a Personalidade do outro nem o Ser do outro.

Quando eu falo do jeito que ‘eu quero, como eu quero, porque eu sou assim e porque eu gosto assim, porque eu gosto de rosa então vou pintar o quarto de rosa e enfiar as pessoas num quarto rosa e elas que se virem se gostam ou não de rosa’, é algo mesquinho da nossa parte, ao menos me parece.

Quando não levamos em consideração até mesmo a capacidade do outro ouvir, sendo uma pessoa de idade mais avançada que normalmente, nem sempre, mas normalmente, tem dificuldade em ouvir no mesmo volume que pessoas mais jovens, nós não nos importamos em colocá-la em um ambiente que tenha uma melhor acústica, que tenha um volume apropriado, às vezes inclusive a gente grita, porque fica injuriado em ter que fazer uma modificação em nós para que o outro ouça.

E em vez de levá-la a um teatro, a um lugar de ópera, de concerto, de shows – que tem uma acústica boa: nós gritamos. Em vez de alterarmos os espaços dentro de nós, nós queremos que o outro altere o espaço dele, o ouvido dele para nos ouvir.

Eu espero e trabalho para isso, para que a minha fala chegue até você de alguma forma que não seja só o que eu preciso dizer, mas também o como você precisa ouvir, mesmo sem nos conhecermos, e que possamos adentrar esse espaço que seja agradável a ambos, pois hoje em dia, nesse mundo caótico, é muito visível o quanto nós não nos escutamos. É o excesso de informação, é a falta de conexão com nós mesmos, sem conhecer meus espaços internos eu não sei que espaço oferecer ao outro, eu não sei se ele escutará melhor num jardim, em uma praça, em um quarto, em uma sala, até mesmo num banheiro cheio de azulejos, enfim, para se cantar no chuveiro, ser cúmplice de alguma brincadeira – sem malícias é claro.

Mas é possível ver o quanto falamos, falamos e não falamos nada, tentamos nos comunicar, porque muita gente quer ser ouvida: nossa surdez é tanta que nós falamos sobre nós mesmos o tempo inteiro esperando que alguém escute, em vez de sermos simplesmente aquele que fala sobre o outro para que ele veja que está sendo ouvido. 

Então como fazer para que haja realmente uma escuta? Como reconhecer a surdez do outro sem que eu julgue com mão pesada, severa? Ainda que sem deixar de fazer a crítica, sem deixar de ver que há uma dor imensa no mundo, porque não ser escutado e não escutar é de uma grande solidão.

Há quem diga que a surdez física é o sentido que mais causa um isolamento e uma solidão neste mundo, os surdos-mudos, imagina – isso é num campo fisiológico, físico, mas há uma instância que está para além disso, que se a gente parar para reparar bem, nós sabemos: por mais que possamos não ter religião, ou tenhamos religião, mas estando para além de religiões, para além de certos paradigmas imediatos das crenças que seguimos, há uma instância que não foi feita para ser ou não seguida, porque não se segue a eternidade, ela só É, e, Sendo, ela permite que nós entremos em contato com a dor que é nós vermos que nós não sabemos ser dentro dessa instância. Que momentaneamente nós conversamos e buscamos, conversarmos e nos comunicarmos, mas que profundamente não estamos sendo ouvidos.

E se há tantas pessoas que sabem que estão numa solidão profunda porque não estão sendo ouvidas, isso também significa que nós não estamos sabendo falar, nós acreditamos que estamos falando e que são os outros que não estão ouvindo o tempo todo, mas somos nós que também não sabemos falar.

Nós não sabemos mais o que as palavras significam, a etimologia mesmo da palavra e o que ela no meu coração quer dizer e no coração do outro, porque os corações se ligam.

Para além de ideologias de uma palavra significar algo ou outra coisa em ideologias, mas saber realmente o que essas palavras significam em termos psicológicos, conscientes e inconscientes, simbólicos, arquetípicos, não do que eu creio que elas signifiquem, ‘ah, mas eu acho que, eu creio que’, não! É aquilo que o Todo me diz historicamente e metafisicamente, espiritualmente, o que ela significa.

Quando eu falo uma palavra: fome, quando eu falo a palavra: fome – todo mundo sabe o que isso significa. Nem todos passaram pela dor de senti-la fisicamente, mas todos sabem o que ela significa em alguma instância, em algum nível, em algum grau.

A realidade é feita de camadas, das mais sutis às mais densas, como os gases: os gases se misturam, mas se eu pegar na tabela periódica, se eu for analisar cientificamente, eles se separam e tenho os átomos isolados, e sei que um gás é um gás e o outro é o outro. Mas em termos sutis quando eu olho o espaço eu não sei o que há aqui, eu posso saber teoricamente, mas na prática, se há algum gás venenoso aqui eu não sei, eu virei a morrer, mas eu não sei enquanto eu não densifico essa sutileza e a observo em microcosmos atômico, eu não sei da existência dela, mas sei que ela existe, sei que é possível ter um gás venenoso aqui ainda que eu não veja. Não é preciso que eu saiba, em termos micro, aquilo que é macro para que o macro seja macro: o Todo é o Todo, independente d’eu saber identificá-lo, independentemente d’eu crer ou não.

E essa identificação, essa densificação desse sutil, passa por várias camadas, por vários graus de densificação até chegar no mais denso de todos, o grau químico, uma tabela periódica de fato.

É como a água, desde seu sólido e evaporar, subir e descer, não é possível mostrar o grau intermediário entre um e outro, nós sabemos que há e está ali, mas não é possível ver, nós sabemos quando já se tornou vapor e quando ainda é líquido, mas entre o liquido e o vapor nos não conseguimos observar quando ela é ambas as coisas, nós temos essa dificuldade em saber ver o todo inclusive em suas etapas de intermediação, de mediação de uma fase para a outra. Nós vemos etapas completas.

E esses graus, eles também existem para a fome: ela não existe só no grau atômico de eu sentir fome no estômago e me faltar minerais e propriedades, ela existe também em nível sutil, e aí é preciso se perguntar: o que é a fome em nível sutil? O que são as palavras em seu nível sutil de vivência?

Quando eu penso na fome, quando eu medito sobre a fome, ela é a falta de algum nutriente que me é essencial para a vida. Se em uma instância física é a falta de mineral, de vitaminas, de alimento, arroz e feijão, de elementos químicos de uma tabela periódica no meu corpo, para que isso se transforme em energia ou o que seja, se faz falta inclusive como excremento, porque é preciso que o corpo todo mantenha seu metabolismo e função, então eu preciso urinar e defecar, e se o alimento me auxilia inclusive nisso, não só em matar a fome, mas pôr para fora o que eu não necessito, o que será a fome em termos sutis?

E quando eu falo da surdez e de uma mudez sutis, o que se quer dizer com isso? Como é possível nós estarmos falando e não falarmos nada? Como é possível estar comendo uma comida e não estar comendo? É quando aquilo é algo ilusório. Não que eu pretenda dar uma resposta, mas tentando pensar sobre e desenvolver em termos palpáveis, é quando eu estou comendo algo, mas é um junk-food, é uma comida que não presta, que não me traz a saciedade de minerais, de vitaminas, de proteínas, de carboidratos que eu necessito de fato. É quando é um alimento supérfluo.

É preciso se perguntar: quando há algum mendigo de rua, algum pedinte e eu dou uma bolacha, eu estou alimentando essa pessoa? Eu estou matando a fome dessa pessoa? Se eu compro um lanche, qual marca seja, mas esses fast-foods, eu estou matando a fome dessa pessoa? Ou estou matando a minha necessidade de me sentir confortável perante uma situação que eu não sei resolver de fato?

Nós sabemos que já existem inclusive experimentos de pessoas que passaram dias comendo essas comidas que não são alimentos, que não alimentam o corpo, causam distúrbios, tem documentários, nós sabemos muito bem, em termos de informação nós a temos, mas e quanto às palavras? Será que já paramos para perceber que aquilo que se dá em termos materiais de alimento, se dá também em termos de espírito? Se nós não nos ouvimos, e desejamos ser ouvidos, nós temos fome disso, temos fome da audição alheia, e temos fome de palavras, e para além disso temos fome para que consigamos colocar inclusive as nossas palavras para fora.

Para isso é preciso que elas sejam alimento, mas para elas serem alimentos, como saber se elas irão nutrir? Como saber que elas têm propriedades que irão nutrir o outro?

Hoje nós já sabemos também que por mais que tenha tabelas que digam que eu tenho que me alimentar com 2500 calorias por dia, ainda assim se fazem mil e uma dietas e discussões porque no fundo nós sabemos que cada um tem uma necessidade, assim como o físico do corpo não diz nada sobre a saúde da pessoa, ele também não diz sobre o que ela necessita. 

Nós podemos tentar tabelar que mulheres precisam de tantas calorias, homens de tantas calorias, mas existem tantas exceções já, nós estamos rumando a etapas da nossa evolução humana de individuações que se dão em campo denso também, não só psicológico, mas denso também em que cada um vai precisar de um tipo especifico de alimentação, que então só você se conhecendo vai saber qual alimento o teu corpo está pedindo naquele momento.

E assim sendo, cada um também precisa de um tanto de palavras específicas.
E como é possível oferecer ao outro a palavra que ele precisa?

Só se eu conseguir ver a real necessidade do outro, ver a fome do outro. E se eu souber pegar daquilo que eu tenho como fonte de alimento, como fonte de nutrientes verbais para dar ao outro.

É quando eu pego a minha palavra e faço dela ação ao dar para o outro, para que o outro se nutra dela, mas para isso é preciso saber discernir que, assim como há alimentos que nos enganam e não são alimentos de fato porque não alimentam por mais que encham o estômago, há palavras que enchem o ouvido, mas que não se diz de fato e não se escuta, porque são ocas, não fazem sentido, não são cheias de sentido, pois quais são os nutrientes de uma palavra? As suas significações.

É preciso conhecer as palavras desde etimologicamente, que é algo formal, até o que elas reverberam na gente. Isso não quer dizer que uma pessoa que não saiba pegar um dicionário e ver seu significado, assim como uma pessoa que faça isso de maneira mecânica não quer dizer que quem faz de maneira mecânica está realmente aprendendo o significado de uma palavra, assim como quem não faça não tenha acesso ao significado dessa palavra, porque assim como o dicionário existe em campo denso na matéria, também existe um dicionário num campo sutil da matéria, para além da matéria. E muitas pessoas que são simples têm acesso a esse dicionário, que é mais sutil, que temos no inconsciente do nosso todo, do nosso coletivo.

Só que nós, na nossa correria, na nossa vida de hoje em dia, temos muita dificuldade em acessar esse dicionário sutil, assim sendo é preciso estudar então o dicionário formal. Antigamente muitas pessoas de zona rural por exemplo, em contato com exercícios com trabalhos muitas vezes pesados para o corpo inclusive, mas que mantinham a mente focada, permitiam que elas tivessem acesso a saberes, e muitas que ainda estão nessa vida focada, simples, humilde, têm acesso a esse saber que é coletivo, que é de quem aprende a ter uma capacidade de observação, porque está ali cultivando o solo de sol a sol todo dia. Esse é o rigor dessa pessoa, ela é obrigada a acordar cedo e ir lavrar o campo, tirar o leite da vaca, o que seja, ter seus trabalhos. E ela faz isso com rigor, porque ela sabe que se ela não fizer não há quem faça. Nós no dia-a-dia da cidade grande nos tornamos altamente substituíveis, se eu não vou pro trabalho, amanhã ou depois contratam outro. O que eu não faço alguém faz, e se eu não faço bem alguém faz melhor. Nós termos essa falsa percepção de sermos substituíveis e de que se eu não faço alguém faz, afrouxou o nosso rigor.

É claro, muito trabalho que há no campo é um trabalho escravo, forçado, não é sobre isso que estou falando, tenhamos discernimento pra saber o que é alguém que trabalha no campo porque leva uma vida rural de campo, de massa operaria que é explorada no campo, há uma grande diferença, mas mesmo os operários, mesmo alguém que trabalha no canavial, mesmo alguém que é obrigada a ter esse rigor, muitas vezes ela se torna muito mais sábia do que aquele que acredita que não precisa ter rigor algum, ou que não vê a necessidade do rigor, porque não está sendo obrigado a vê-la. Ninguém deveria ser obrigado a vê-la, senão a escravidão seria um ótimo exemplo de evolução, e não é, é algo execrável, mas se podemos tirar lição de todas as coisas que nos acontecem na vida e procurar pérolas em meio a essa lama, lótus que brotam desse pântano, talvez seja isso, de que toda vez em que alguém está sendo obrigado a realizar serviços de rigor, essa pessoa ao mesmo tempo está tendo a oportunidade de se tornar uma sábia em algo, porque se ela souber utilizar o rigor, ela vai aprender a arte da meditação através da observação.

Hoje poucas pessoas aguentam ver um vídeo ou ler um texto como esse, em que se fala de maneira pausada, baixa, de cara lavada, despida de qualquer resquício do que seja possível da minha personalidade, sem tentar convencer de nada, nem pelo emocional nem nada, tentando preencher com sutilezas e não densidades temporárias.

Mas tendo pouco tempo e tendo dificuldade da gente lidar com isso, nós passamos a acreditar que o rigor não é necessário ou é algo execrável, algo que cansa muito rápido, sendo que o rigor físico realmente pode se tornar justamente uma escravidão, um fascismo, e o rigor mental também pode levar à loucura, a uma falsa sabedoria que também se torna uma tirania do saber: do ‘eu sei em um mundo de ignorantes’. Mas, a partir da hora que, por conta de ter existido e existir as pessoas que fazem do rigor algo execrável, algo doentio, nós passamos a aboli-lo completamente, isso também é um equívoco, porque as extremidades são sempre polos.

É possível trabalhar com polos? Sim, mas machuca muito. É muito sofrido trabalhar com polaridades extremas, ainda que tudo seja polarizado: isso é uma Lei, um Axioma da realidade, Axiomas, Leis são seres vivos, como eu e você, mas isso fica para outra hora.

Trabalhar com polaridades extremas é difícil porque machuca muito, é como querer trabalhar com o vapor e com o gelo, segurar o vapor numa mão e o gelo na outra, vai doer. Em uma, você não vai conseguir segurar o vapor, e na outra, não vai conseguir segurar o gelo e muito provavelmente você irá queimar a mão, porque vapor queima e gelo também, então vai machucar feio, vai deixar em carne viva, vai aprender algo? Vai, mas existe outra maneira? Sim, existem muitas maneiras nessa vida.

     Então, como saber se minha palavra nutre?
E como saber se estou sendo nutrido pelas palavras?

Através do rigor dos seus significados e significações, através do rigor da observação e da meditação acerca disso, de cada palavra que eu escolho falar, porque todo esse texto, todo esse vídeo e toda frase, oração que seja, toda sentença é eu te colocar num cômodo, é eu te oferecer um espaço, e cada letra é um detalhe desse lugar.

Eu saber observar para compor esse lugar é de extrema preciosidade. Então é preciso saber ter esse rigor, o rigor de quem lavra a terra do outro para que cada palavra encoste nessa terra e semeie algo, para que eu não jogue sementes numa pedra, para que eu não jogue sementes ao ar, ou mesmo ao mar, crendo que eu vou semear uma lavoura.

E é muito interessante pensar também, por exemplo, quando eu falo o que eu quero e o que eu penso e o que me vem à cabeça em termos impensados, em termos de não estar em observação de si, quando eu estou sendo levado pela minha subjetividade, daquilo que eu gosto ou deixo de gostar, que eu vi ou deixei de ver, de coisas temporais, que estão no tempo e vão passar, porque pode ser que amanhã eu não goste mais de algo que eu gostava, ou goste de algo que não gostava, enfim, essas densificações que se tornam migalhas… É muito bom pensar que, se eu pego minha personalidade e minha subjetividade, que são temporais enquanto estou aqui nessa Terra neste momento sendo essa pessoa, e uso dela para falar algo, isso pode sair de muitas formas.

Porque eu posso usar da minha personalidade para falar de um jeito alegre, expressivo e usar da minha emoção para tentar transmitir algo de bom e falar ‘acreditem porque é possível a gente conversar e se ouvir, eu acredito e espero que você também.’. Não indo para autoajuda, porque não é isso, eu não estou aqui para ajudar ninguém, porque eu não consigo ajudar nem a mim, que dirá aos outros, mas usar da minha personalidade para brincar com tudo isso e quem sabe fazer pensar um pouco, e vocês pensarem ‘ah, eu gosto dela ou não gosto, ela é legal, ela é chata’, enfim.

Mas existe um risco quando eu faço isso, que é me deixar levar por essa subjetividade, pelas emoções, pelas minhas impressões, por aquilo que eu quero parecer para vocês e não simplesmente ser aquilo que eu sou. E quando nós fazemos isso, quando usamos da nossa personalidade de maneira não observada, por nós todos sermos muito surdos e cegos, é como se eu colocasse vocês todos num cômodo com a luz apagada, e aí entra todo mundo e eu posso estar falando várias pérolas, eu posso estar dando algo extremamente mágico, mas por isso estar encoberto por uma personalidade, por algo tão temporal, tão pueril, por algo tão… eu jogo vocês no escuro, e vocês acabam prestando atenção em coisas que não deveriam prestar atenção, ou pisam nas pérolas e acreditam que pérolas são pedregulhos, e começam a reclamar que está doendo e pedindo para que ‘me tirem daqui porque meu santo não bate’.

Todo santo sabe que existe um santo dentro do outro, não tem essa de santo não bater, enfim, talvez tenha num nível mais denso. Mas é isso, tem personalidades não se darem, tem eu ser uma pessoa introvertida e não me dar com uma pessoa extrovertida, tem eu gostar de futebol e não gostar de futebol, tem eu achar que política se discute ou não se discute, tem várias coisas, coisas… mas o Eu está em todo mundo. O Ser está em todo mundo. Porque todos nós Somos.

E para chegar nessa instância, a gente sofre muito antes. E se não sofrer tem algo errado, está empurrando para debaixo do tapete, tá? Mas também fica para outra hora isso, o caso é: se eu me deixo levar pelas minhas emoções, personalidade, subjetividade, eu empurro as pessoas para dentro dum quarto com a luz apagada, porque elas não estão conseguindo ver quem eu realmente sou, elas estão vendo quem eu estou no momento: se eu estou nervosa, ansiosa, alegre, triste, de bem com a vida, de mal com a vida, elas veem como eu Estou, e isso apaga a luz para aquilo que eu Sou.

Então elas entram num quarto, num cômodo escuro, eu enfio vocês em um cômodo escuro, e mesmo que o chão seja cravejado de diamantes, não é possível ver e eu vou julgar que diamantes são pedregulhos, e eu vou querer sair dali correndo, porque se eu estiver descalço não vai ter condições, dependendo do sapato que eu estou, se estou num salto também não fico, chinelo pode ser escorregadio, enfim, todas as variações possíveis disso, mas a analogia básica é: vamos supor que estejamos todos descalços, de pés limpos, descalços, vai machucar, vai doer, e eu não vou saber observar, até porque eu só aprendi a ver as coisas com esses olhos físicos…

Se eu contar que tenho olhos nos pés, se eu contar para vocês que nós temos olhos em todos os poros, fica difícil de crer. Mas se eu piso numa pedra eu vejo ela, talvez se eu pisasse por mais tempo em cima dela, eu visse ela melhor ainda. Ah, mas isso é o tato… é… a gente ainda está tateando, isso é verdade.

Quando eu uso da minha personalidade para falar, quando eu falo levando em consideração só quem eu estou, como estou, como eu acho que, como eu penso que… eu não levo em consideração o outro, não levo em consideração o sapato que o outro está vestindo, não levo em consideração o outro ter ou não olhos nos pés, não levo em consideração o outro ter ou não uma lanterna nas mãos, não levo em consideração a capacidade de ver no escuro ou não, eu só: empurro, e ponho ele em um cômodo e fico falando que tem diamantes, mas ele não vai ver, o que ele vai ver é a escuridão. E ele vai contar para todo mundo que você é uma pessoa escura, horrível em termos de trevas (e eu não estou falando de negritude, ok? Por favor! Não vamos confundir alhos com bugalhos).

A escuridão em si não tem nada de ruim.

Mas no momento em que estamos, ela não nos permite ver, e assim sendo isso se torna uma limitação, então quando você for colocar o outro dentro de um cômodo, preste atenção se tem alguma luz que você possa acender, uma janela que você possa abrir, algo a oferecer. E se for colocar num jardim, cuidado com o sol de meio-dia, cuidado com a chuva, tempestades… cuidado para não estar oferecendo dunas, tempestades de areia…

E eu espero que isso contribua em alguma medida para que as palavras nutram e sejam um pouquinho mais cheias.

Silver Light

For Time is
nothing if not amenable.
Elizabeth Bishop 

After the quietest second
the moon vibrates harmonies
of the resolute sun, secured by the wisdom
of knowing how to keep
in silver sparkling
the clarity and duplicity
of the dawn.
In agreement with Time
they measure the distance
knowing when
(from the human
sky)
the stars and satellites
can germinate life.
For any planet, so humus can rise above,
needs the gravity
of holding by the sole
the love.

You cherish me, my dear,
and in the basin I want to wash your hands
full of meteors that now and then
scribe
or dodge and hide
in silence
for after a time
from a shadow’s dive
emerge
soaked in flames.

 

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