Dou-me

Dai-me de teu Sol, meu Amor
que em mim tudo brilha
dai-me teus raios para que eu me mova
com espanto e júbilo
impregnando tudo com alegria.
Dai-me tua Luz
para que a terra seja menos fria
presenteia-me com as cores do cristal
fazendo-me receptáculo do espectro
em sua inteireza.
Dai-me de teu Amor
para que na unidade eu encontre
a nós dois
como corpo que abraça o espírito
sabendo-se semelhante alma-gêmea.
Dai-me de tua Vida
permitindo assim que a morte
calada e frígida
goze da eternidade de se saber viva
em nossa consciência.
Dai-me de tua Verdade
para que na infinitude das possibilidades
o caminho seja único
a chegar sempre em teus braços
mantos que me enlaçam.
Dai-me Tu, óh amada estrela-guia
para que sob tua vista eu floresça
criando um jardim ao ver-te
ressurgir nas semente das frutas ao cresceres
em todos os seres que em me seio, todas as manhãs, semeias.

 

 

“Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Eu Sou a Verdadeira Videira.
Eu Sou o Pão da Vida.
Eu Sou a Porta das Ovelhas.
Eu Sou o Bom Pastor.
Eu Sou a Luz do Mundo.
Eu Sou a Ressurreição e a Vida.”

Cristo

 

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

Curva Retilínea

Curva Retilínea

Talvez tu quisesses, mas já não sei de teu querer
pois o nosso arco, caso houvesse,
neste momento se quebra e verga
no oposto que críamos ir – para chegar ao Amor:
tal qual flecha, precisávamos, em dois, partir.

Eu aponto, e tu olhas o outro lado,
admirando o braço que te apertou
te estrangulou ambos os calcanhares
ao te prostrar de joelhos, porque não nos foi prometido nada mais
que dor.

E agora a noite arqueira se faz distante pelo sofrer constante
apenas para se revelar, ao alto, como fogo depois…
Já não importa se a queimar no chão ou no éter
pois está a nos purificar, tal qual líquido sol celeste.

E não pinga fumaça na calada da madrugada dentro do peito
de quem, arfando um beijo, entrega a si mesmo
a seus perseguidores? Ao invés de subir, desce!
Ao céu ou à terra, já nada mais me interessa.
Meu caminho torto, em tua companhia percorri.

Quão fracos são os homens, sussurram os altos planos…
Pois bem, assim como permitiram: traí e matei a mim.

Mas eis-me aqui sob as mesmas estrelas, debaixo dos mesmos riscos humanos
para, pela primeira vez, saber o que é ser grato por poder escolher
e ser testemunha de que o prazer da flecha é voar para todo lado
mas que a verdadeira liberdade é sair das mãos do rigor que a segura
para atingir o alvo que, por ele, foi designado.

Em tua companhia eu vi a reta se tornar curva.


Mas foi sozinho, cravado no alvo no meio do caminho,

que vi a curva voltar a ser um ponto retilíneo.

em conversa com o poema Curso da vida, de Hölderlin:

♥ tradução Paulo Quintela

Coisas maiores querias tu também, mas o amor

A todos vence, a dor curva ainda mais,
E não é em vão que o nosso círculo
Volta ao ponto donde veio!

Para cima ou para baixo! Não sopra em noite sagrada,

Onde a Natureza muda medita dias futuros,
Não domina no Orco mais torto
Um direito, uma justiça também?

Foi isso que aprendi. Pois nunca, como os mestres mortais,

Vós, ó celestiais, ó deuses que tudo mantendes,
Que eu saiba, nunca com cuidado
Me guiastes por caminho plano.

Tudo experimente o homem, dizem os deuses,

Que ele, alimentado com forte mantença, aprenda a ser grato por tudo,
E compreenda a liberdade
De partir para onde queira.

♥  tradução Miguel Monteiro

Tu querias algo maior, mas o Amor empurra
nos para baixo, o sofrimento curva-se violentamente,
Mas não é em vão que nosso arco
Se vira para lá donde veio.

Para cima ou para baixo! ou já não impera na noite sagrada,
Onde a muda Natureza a sucessão dos dias medita,
Já não impera nas profundezas do Orco
Uma Medida, uma Lei?

Por isto passei eu. Pois jamais, como os Mestre mortais fazem,
Vós, Celestes, Vós que Sois Sempre,
Que eu tenha sabido, com precaução
Me haveis guiado no caminho certo.

Tudo o Humano põe à prova, dizem os Celestes,
Para que, poderosamente nutrido, aprenda a dar graças por tudo,
E compreenda a liberdade
De partir para adonde deseja.

♥ Original em Alemão:

Lebenslauf

Größers wolltest auch du, aber die Liebe zwingt
All uns nieder, das Leid beuget gewaltiger,
Doch es kehret umsonst nicht
Unser Bogen, woher er kommt.
Aufwärts oder hinab! herrschet in heilger Nacht,
Wo die stumme Natur werdende Tage sinnt,
Herrscht im schiefesten Orkus
Nicht ein Grades, ein Recht noch auch ?

Dies erfuhr ich. Denn nie, sterblichen Meistern gleich,
Habt ihr Himmlischen, ihr Alleserhaltenden,
Daß ich wüßte, mit Vorsicht
Mich des ebenen Pfades geführt.

Alles prüfe der Mensch, sagen die Himmlischen,
Daß er, kräftig genährt, danken für Alles lern,
Und verstehe die Freiheit,
Aufzubrechen, wohin er will.

fontes: http://www.elfikurten.com.br/2016/01/friedrich-holderlin.html
http://pedradaponte.blogspot.com/2016/03/curso-da-vida-um-poema-do-holderlin.html

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

Hierarquia divina, eis aqui uma filha!

Hierarquia divina, eis aqui uma filha!

Potências, óh essências do que anseio um dia
no peito, com zelo, recriar tal qual filha.
Se consigo isto, por um segundo na vida, pode toda a noite me devorar
que já não dormirei mais
pois saberei que não tarda a hora de novamente praticar
o que nos é dado por ensinamento nesta escola,
humilde casa nossa, do verão que vemos passar…

Eis que o inverno chega e nos assola, e por isso peço
que nos seja dada a glória
de ver todos os nossos como poetas a voar na Palavra vossa
para que hajam no exemplo que pregas
perfurando a alma com princípios que purificam a forma
para então descansar no refúgio e repouso
das asas de tal ser, bondoso, que fez todas as fórmulas
para que sejamos ainda mais cônscios
da Luz que nos acorda…

Ah, que desperto, e sem perder hora
peço, Virtudes honrosas:
me amanheçam do pesadelo de mim!

Em sacrifício oferto o repouso da cabeça em qualquer agora
para eternamente, com louvor, servir
até que seja possível contemplar os que em tronos nos olham
e, juntos, sustentam a vitória
do Amor em todos os poros
na miséria de sentir o coração pleno a cada existir.

Pois, meu Deus, se isso não é ser poesia do começo ao fim
que eu morra, sem que tenham dó de mim.
Mas, se poesia for, que, como poeta, eu seja capaz de forjar em toda dor
por graça e herança hierárquica, tais Seres dentro de mim.

em conversa com a poesia Às Parcas, de Hölderlin:

♥ trad. Manuel Bandeira:

Mais um verão, mais um outono, ó Parcas,
Para amadurecimento do meu canto
Peço me concedais. Então, saciando
Do doce jogo, o coração me morra.

Não sossegará no Orco a alma que em vida
Não teve a sua parte de divino.
Mas se em meu coração acontecesse
O sagrado, o que importa, o poema, um dia:

Teu silêncio entrarei, mundo das sombras,
Contente, ainda que as notas do meu canto
Não me acompanhem, que uma vez ao menos
Como os deuses vivi, nem mais desejo.

♥ trad. José Paulo Paes:

Dai-me, Potestades, mais um verão apenas,
Apenas um outono de maduro canto,
Que de bom grado, o coração já farto
Do suave jogo, morrerei então.

A alma que em vida nunca desfrutou os seus
Direitos divinos nem no Orco acha repouso;
Mas se eu lograr o que é sagrado, o que
Trago em meu coração, a Poesia,

Serás bem-vinda então, paz do mundo das sombras!
Contente ficarei, mesmo que a minha lira
Não leve comigo; uma vez, ao menos,
Vivi como os deuses, e é quanto basta.

♥ trad. Wagner Schadeck:

Pra mim, um só estio, Potestades,
E um só outono de canções maduras,
E, satisfeito desse doce jogo,
Meu coração apronta-se a morrer.

A alma que em vida não servira às leis
Divinas no Orco não repousará;
Mas surgindo o sagrado, que me habita
O coração, sucede-me a Poesia:

Bem-vindo sejas, ó sombrio reino!
Irei alegre, embora a minha lira
Não me acompanhe. Mas por uma vez
Vivera eu como os deuses. E isto basta.

♥ trad. Guilherme Gontijo Flores:

Ó Potestades, peço mais um verão,
mais um outono pra madurar canções,
meu coração tranquilo neste
jogo tão doce e depois a morte!

A alma que na vida não segue as leis
divinas, no Orco nunca recebe a paz,
mas se eu lograr o que é sagrado
no coração, o poema brota.

Bem vinda seja a calma dos ínferos!
Irei alegre mesmo que a cítara
não venha junto — tive um dia
vida de deuses e mais não peço.

♥ Original em alemão:

AN DIE PARZEN


Nur einen Sommer gönnt, ihr Gewaltigen!
Und einen Herbst zu reifem Gesange mir,
Daß williger mein Herz, vom süßen
Spiele gesättiget, dann mir sterbe!

Die Seele, der im Leben ihr göttlich Recht
Nicht ward, sie ruht auch drunten im Orkus nicht;
Doch ist mir einst das Heilge, das am
Herzen mir liegt, das Gedicht gelungen:

Willkommen dann, o Stille der Schattenwelt!
Zufrieden bin ich, wenn auch mein Saitenspiel
Mich nicht hinabgeleitet; einmal
Lebt ich, wie Götter, und mehr bedarfs nicht.

fonte: http://formasfixas.blogspot.com/2019/06/para-as-parcas-de-friedrich-holderlin.html

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

I. A. Ireland | Final para um Conto Fantástico | uma crítica poética

          Em um momento fora, em outro dentro, as possibilidades: estar trancado em um recinto; estar num corpo e não conseguir sair, não lograr estar em outros cômodos, em outros estados de si; ao buscar conhecer-se acabar preso; não ser capaz de ir além do que uma única porta permite… E quando o estado de imaturidade é permanente, quando se ainda é moça ou moço por dentro, a chance de cair em armadilhas é maior ainda, pois o adolescente não se rebela contra o crescimento tão inevitável e iminente de si?

          Não é preciso trancar a chave para que o contato com o externo não se dê: basta não ter espaço para estender a mão, basta evitar o toque – uma porta sem maçaneta, basta não ter espaço para a passagem dos olhos, do olhar que leva além, por uma fechadura que revela que há algo do outro lado também, esperando para ser conhecido, aguardando que tenhamos coragem de, um dia, seguirmos viagem, de nos abrirmos, de nos encontrarmos…

        É claro que a porta pode ser também de onde se vem vindo, sendo um estado adolescente da criatividade de quem sabe que, se não se obrigar a crescer na vida, vai ficar sempre nos mesmos lugares. Então é preciso se fechar para que não haja a possibilidade de volta, assim, quem sabe, se descobre uma janela, uma lareira, uma sacada, uma outra porta:

          Talvez como em Alice, a passagem seja tão diminuta que será preciso se despir do corpo com o qual se entrou ali para poder seguir – diminuir de tamanho, ganhar humildade, se ver pequeno, morrer e matar quem se era até aquele momento. Ou quem sabe se tornar ainda maior e mais forte para poder escalar as paredes e ao fim descobrir que era vertical a nova rota – um novo caminho a percorrer, um novo horizonte que se abre sobre nossas cabeças, tal qual ter a vista “trancada” por montanhas para que asas nos nasça ao invés de mãos para inexistentes maçanetas.

Sublimar, transpassar, transformar, transmutar, transfigurar, sutilizar para ressurgir.

          Por fim, o importante é compreender que neste momento do caminho, o que quer que tenha nos levado até ali, chegamos juntos, mas é somente “sozinho” que se conseguirá sair.

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

 

Conto:

Final para um Conto Fantástico

– Que estranho! – disse a moça, avançando cautelosamente. – Que porta mais pesada! – Tocou-a, ao falar, e ela se fechou de repente, com uma batida.

– Meu Deus! – disse o homem. – Parece que não tem maçaneta do lado de dentro. Mas como?, você nos trancou aqui! Nós dois!

– Nós dois, não. Só um – disse a moça.

Passou através da porta e desapareceu.

Guerras e Pandemias e a futura presentificação pelo Amor e pela Cura

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde         

 

         O ódio e o medo são rasos, “por isso” se estendem pela História com poucas mudanças de conteúdo e na adoção de qualquer forma que se fixa como aparência – muda a forma das materializações das armas, por exemplo, mas o conteúdo é o mesmo, independente de quantas sejam feitas (pandemia é pandemia, guerra é guerra, só descobre-se diversas maneiras de se amedrontar e matar mais gente); pra odiar e ter medo, basta a existência…

         O Amor e a Cura são profundos – conteúdos de aparência impalpável por Amar e Curar serem um ato simples, não necessariamente fácil: não é possível enviar amor dentro dum míssil, e nem entregar rosas a garantia de ser amável, assim como tomar remédio não é garantia de cura nem de ser saudável.

          No Amor e na Cura, há a adoção de muitas formas, formas mutáveis dentro da vivência de cada, mas o conteúdo é sempre o mesmo: doar-se para o Ser Amado, esquecer-se para ser Curado, “por isso” não se vê uma “guerra de amor” nem “pandemia de cura” – não é possível esquecer-se ao lembrar ao mesmo tempo de todos (isso seria onisciência), nem possível ao mesmo tempo olhar no fundo de todos os olhos (isso seria onipresença), é preciso, antes, crer que o ‘todos-juntos’ está contido em Uma Mente e Um Olho que nos mira, formando um princípio e um fim para acreditarmos no Caminho: para Amar e Curar não basta a existência, o Amor e a Cura requerem Presença na Experiência do Ato. É Ser e Estar no profundo do Outro e de Si.

           Reconhecer o ódio ou medo como luva, capa ou máscara rasa é necessário – seja capa fraca que protege o ombro esquerdo, o direito, o peito, as mãos ou a boca -, entrar em contato com o profundo assusta, pois é desmascarar-se, é desencapar-se e se pôr em risco de choque pela alta tensão: é como subir aos picos altos, mergulhar ao fundo dos mares, é morrer-se indo sem nem saber o que irá encontrar, ou morrer após ter chego [crendo que atingiu o aparente ponto final, quando o Amor e a Cura são infinitos] – nosso apego à vida existencialmente material ainda é imenso, e morremos por simplesmente crermos nisso: na morte trazida pelo ódio ou pelo medo, como uma doença.

          Só o que se permite ser breve pode chegar a ser longo: a existência é requisito para a presença. E só o que se sabe ser longo pode compreender o breve e ter profunda paz e esperança: a presença que sabe que existir é o 1º passo de qualquer movimento – o único problema é não se mover depois disso, ainda que o universo, invariavelmente, obrigue, pois não-ação é permanente estado de ignorância.

         Rasidão não sustenta peixe, e se algum bicho aparecer na orla: Cuidado! – o raso é lugar de filhotes, e tudo bem ter do raso e fácil quando se é frágil, mas cá uns nunca crescem, ficam para sempre à margem da mente, existindo através do imaginário fraco. Mas cuidado também com a profundidade, pois ficar só nela leva a uma cegueira ao resto, seja por escuridão ou claridade, gerando isolamento por se sentir presente em algo imenso: não no outro que junto forma o símbolo da unidade que une o que pareça ter diferença, como todo ecossistema, mas apenas na vertigem do ar rarefeito que o faz temporariamente se sentir existindo ao mesmo tempo sem fazer parte da presentificação do ecossistema, levando à explosão ou implosão da materialidade (material que nos é de responsabilidade, não dá para ignorar que se é um peixe e que encontrar outros seres faz parte)…

        Não há a vivência, em ambos os casos, nem de uma Cura e nem de um Amor dissolvidos (verdadeiramente profundos), ou concentrados (verdadeiramente rasos, no sentido de simples), menos ainda iluminados, mas dissociados dos indivíduos e, portanto, ilusoriamente estendidos ao coletivo. São vivências de pessoas que creem que existir sentindo-se parte do Todo basta; não, não basta, Amar e Curar é o processo de Presentificação, existir somente é abrir espaço para o ódio e o medo na mente, ainda que se viva de forma desapegada – eles irão criar guerras e pandemias para serem encontrados e termos de lidar cara-a-cara, transformando tudo através de Atos!

          A grande questão talvez seja, ao saber que há quem morra por fome – por achar que vive sem alimento ao matar tudo, se isolando do mundo -, e que há quem morra por gula – por ter sede da água da vida e sair caoticamente inalando e degustando tudo, encalhando na rasidão do mundo, como, por fim, saber a quantidade de alimento certo para se Presentificar ao Amar e Curar esse mesmo mundo? Talvez a resposta seja apenas uma:

não são os peixes que sabem do seu alimento, mas o Oceano – Aquele que provê o sustento antes mesmo que saibamos.

          Saber viver é dificílimo. Saber onde está o alimento em cada momento, e qual peixe ou lobo ou felino ou ave alimentar dentro de nós é a Busca. Quem sabe um dia alimentemos um Dragão – que sobe ao céu e anda na terra, e não perde o fogo quando molhado – seja pelo mar, seja pelas chuvas. E não se deixa levar – nem pelo ar no céu e a possibilidade de se viver só, distante, cuidando da Terra – seja do Sol, seja da Lua…

          Quem sabe um dia Amemos e Curemos e assim consigamos nos Presentificar ao nos doarmos e nos esquecermos. Sim, virar dragão que não se olha no espelho, que nem se sabe dragão porque não vive para ver seu reflexo se manifestar, mas sim para que, ao Amar e Curar, um dia todos possam, juntos, voar!

 

Curai os enfermos e Amai-vos uns aos outros.
[Mateus 10:8 e João 15:17]