a Poesia do Herói . : . [o que significa vencer os arqui-inimigos]

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O que significa Ser herói? E o que significa Ser vilão?

Se nós formos, por exemplo, analisar o cérebro usando a teoria do neurocientista Paul MacLean, e dividi-lo em três partes, nós teremos o cérebro reptiliano, o cérebro límbico e neocórtex, e iremos descobrir que há várias simbologias que podemos ver através de um bom entretenimento, de um Pã que toca uma flauta para nos divertir enquanto caminhamos reto, e ele que nos seguindo atrás, sempre atrás de nós, então, que atrás de nós ele toque sua flauta e nos entretenha por um momento.

Vejamos a questão dos heróis e dos vilões.

Vilão vem de vil e a palavra vil vem de algo que perdeu seu valor, que é baixo, e se nós tomamos a moeda como exemplo do que sai de circulação, ela se torna uma moeda vil, ela não vale mais, e aquilo que não vale se torna vil, então ela se torna a representação de um vilão. Tanto que se ela circular no meio das moedas correntes, é dinheiro falso, é um vilão propriamente, você não está recebendo o justo pela troca que está acontecendo. Isso sem entrar nos casos em que uma moeda antiga se torna raridade, portanto, uma relíquia.

Mas, a priori, a moeda é um excelente símbolo, apesar da gente deturpar tanto ele. E por que ela é um símbolo bom? Porque a moeda, a cara e a coroa, simboliza dois princípios fundantes, assim como o masculino e o feminino, a Lei da Lógica e da Analogia, assim como o positivo e o negativo, então podemos observar que, assim como uma moeda só tem valor e só é uma moeda de fato se a cara está fundida à coroa, e por isso moedas são de metal – porque precisa haver uma fundição de uma coisa na outra, um mar de moedas é um mar fundido, mar de fundição, que foi fundido -, então nós podemos observar que o masculino sem o feminino não tem valor, o negativo sem o positivo não tem valor, a analogia sem a lógica não tem valor, e por consequência todo o inverso é verdadeiro: a lógica sem analogia, o positivo sem o negativo, masculino sem feminino enfim…

Porque o que se revela é que esses dois, duas coisas que são polos, unidas, geram um eixo, e que sendo um eixo, esses que são dois se tornam um só, ou seja, nós teremos pela Lei da Lógica que 1+1 = 2 porque cara + coroa = cara e coroa, mas ao mesmo tempo pela Lei da Analogia nós teremos que 1 + 1 = 1 porque cara e coroa = moeda, e teremos também que 1 + 1 = 3, porque a moeda não é nem a cara nem a coroa, mas um terceiro elemento que se apresenta a partir daquele eixo: o que aquele eixo crea é a moeda, ou seja, a moeda é a criação de uma cara e uma coroa, porque a cara com qualquer outro princípio, por assim dizer, se houvesse algum outro, por exemplo, uma cara com outra cara, não forma eixo, coroa com coroa não forma eixo, no sentido de que não formam moeda, mas cara com coroa formam moedas, então chegamos ao fato de que se nós pegamos os 3 cérebros, como dito ao começo, e vemos que um é o reptiliano, outro o límbico e outro o neocórtex, nós podemos analogamente e logicamente, tomando sempre essa moeda como nossa moeda de valor – a analogia junto à lógica, podemos, com ela, observar o seguinte:

Se o primeiro cérebro é um réptil, algo que rasteja, o segundo nós poderíamos dizer que é algo que anda, que o límbico é um cérebro mamífero, e que o neocórtex é uma ave, pois ele está acima dos outros, pairando sobre os outros. Então nós temos três cérebros: um que é um réptil, um que é um mamífero e um que é uma ave. Em termos simbólicos.

Se nós observamos nas tradições, as caras e coroas, como no Egito, se olhamos as coroas que são os Faraós e seus reinos, e os deuses egípcios, e observamos suas caras, nós iremos ver que elas são representadas como animais, porque os animais mostravam em que grau de ação, de emoção e de ciência se estava, porque o reptiliano tem relação com a ação irracional, o límbico com a emoção e o neocórtex com a ciência, ou o racional. Então conseguimos ver pelos desenhos quem eram pessoas mais avançadas que eram representadas justamente com cabeças de mamíferos e até mesmo de aves, porque o desenvolvimento cerebral em cada um, a tomada dessa técnica, não se dá de maneira igualitária, ela se dá na mesma proporção de potencialidade, mas não de igualdade material, ou seja, nem todos têm o uso de um cérebro igual, ainda que todos tenham cérebro. Todos têm a potência de usar um cérebro, desenvolver um cérebro, mas nem todos desenvolveram ele materialmente da mesma maneira, tem pessoas que usam o neocórtex de maneira mais avançada do que outras. E por que isso, essa desigualdade material, por assim dizer? Ainda que todos tenham potência de atingir o mesmo grau de sabedoria… Porque eu nasço com um corpo como todo mundo, mas tem gente que… tem um Bolt que corre 45km por hora, e eu, por mais que eu treine essa minha vida inteira, eu não ire correr o mesmo que ele, ou seja, a capacidade corporal de cada um de usar o corpo para uma especialização, ou seja, a técnica de cada um, ou seja, técnico, em grego tékne, que o latim vai nos trazer até o português como Arte de cada um, a técnica de cada um, corporal, será de acordo com seu foco, não sendo igual para todo mundo: um tem foco em se desenvolver dentro das matérias com algo chamado corrida, e essa é a Arte daquela pessoa, e eu, por exemplo, procuro me desenvolver escrevendo, creando texto. São duas técnicas diferentes, mas ambos estão se especializando em algo, porque o mais importante não é a técnica em si mesma, não é a Arte em si mesma, porque não é a Ciência e o método científico, não é a Obra o que salva, mas sim a Fé! Como diz São Paulo.

E isso mostra que depende do nosso fator divino, do nosso lado divino, em acreditar que aquilo me levará a algo mais longe. É como dizer que, um Bolt, para se tornar um Bolt, para correr 45 km/h, ele precisa se tornar aquilo que ele Ainda Não É, ou seja, Nietzsche, que nos falou para nos tornarmos aquilo que nós já somos, estava errado, porque não somos nada enquanto não nos tornamos o que devemos divinamente Ser. Um Bolt não nasce correndo 45 km/h, ele precisou acreditar que um dia ele iria correr 45 km/h. Talvez, aliás, um dia ele tenha acreditado que ele ia correr 30 km, 40 no máximo… e jamais tivesse passado pela cabeça dele ser o maior corredor do mundo, que já existiu, e aí, pelo tamanho do esforço, da entrega dele para aquele ato, para aquela lapidação, para a creação daquela moeda enquanto valor, ele se esforça enquanto homem e, tendo fé de que chegará mais longe do que onde ele está e do que aquilo que ele é, Deus concede a dádiva dele ir inclusive mais longe.

E aí vemos que a corrida é arte porque é gerado o espanto, e a Arte é a arte do espanto genuíno, e passamos a nos espantarmos com nós mesmos, no ‘opa, eu não esperava chegar aqui, eu não fiz tudo isso esperando chegar tão longe, não fiz esperando receber tudo isso em troca’. Por isso é muito, muito importante sempre fazer cada vez mais sem esperar nada em troca, porque eu duvido que um Bolt tenha começado a correr pensando: um dia serei o maior corredor do planeta.

Nós podemos ter esse sonho de forma narcísica, um bom narciso, para tomar ciência do que queremos na vida e assim nos tornamos cientes da nossa técnica, um cientista da corrida, e, tal qual a arte, pensarmos: nossa, eu sou bom mesmo nisso, vou continuar seguindo reto nesse caminho! Vou fazer só isso! E quem sabe se esmerar e querer estar ao lado dos melhores, chegar o mais longe possível. Mas não por vaidade em si mesmo, e sim porque passa horas ralando para vencer a Si próprio. Um esportista sabe que, de todos os competidores que estão ao lado dele, realmente o maior inimigo é ele mesmo. Aliás um artista de palco sabe disso também muito bem, porque se o cérebro dele, o pensamento dele levar ele pra outro lugar, quando o que ele tem é que estar de olho é no Agora, completamente presente, vivendo inteiramente, integralmente para aquele momento, porque ele treinou a vida inteira para que chegasse aquela hora, mas se o cérebro ou pensamento dele leva ele pra algum outro ponto, ele esquece a fala, dá branco, ele diminui a velocidade e sem querer, inconscientemente ele perde a corrida, ele perde o ato, ele erra o passo de dança porque ele foi prum outro lugar em fração de segundos, sem que ninguém precisasse passar na frente dele de propósito ou porque eram melhores de fato.

E isso nos mostra que todas as tradições, voltando ao Egito, trazem a referência da cabeça. A cabeça como um centro de consciência que vai sendo alterado, e vai se elevando.

Num terreiro de umbanda só o Pai ou Mãe de Santo pode tocar a cabeça de quem faz parte, ou seja, só o ser espiritualmente mais elevado pode tocar aquela mente, aquela consciência, o resto que é impuro não pode, que estão abaixo espiritualmente, não pode. Então começa a haver uma purificação daquilo que me toca.

Nós vemos que Cristo fala e Paulo confirma que pensar é pecar, que basta pensar para estar em adultério. Para pecar, ter a queda, não é preciso o ato. E o que isso nos revela? Revela que é mais do que alguém poder ou não tocar nossa cabeça, mas sim, inclusive, os pensamentos. No caso do Pai ou da Mãe de Santo, eles se tornam representantes para que eu tome ciência de que são os pensamentos também que não devem me tocar, só os temas da fé. Claro, sem me tornar cego nesse processo, para as coisas do mundo. Não é um processo às cegas, mas tendo ciência do que se escolhe passar, e aí é um processo lindo porque se torna arquetípico e sincrônico alguém não tocar minha cabeça porque somente coisas e seres elevados podem tocar minha cabeça, eu começo a tomar ciência do que isso significa no meu templo interno, para além do templo externo – ainda que seja prudente os dois templos caminharem juntos, ou seja, nem pessoas impuras nos tocarem e nem pensamentos impuros nos tocarem.

E tendo essa visão dos três cérebros, nós podemos ver como elas vêm de tradições, cada uma representando com seus animais próprios, porque esses animais também vão representar e revelar graus de ação, emoção, ciência e consciência dentro desses cérebros, porque não é igual para todo mundo. Então um macaco vai representar algo diferente de um elefante, diferente de um cachorro, lobo, assim como aves diferentes também representarão graus diferentes de ciência e de uso do neocórtex, como uma coruja e uma águia. Mas sempre tendo esses três grupos: réptil, mamíferos e aves como representantes simbólicos dos que estão num processo evolutivo (repteis representando as pessoas que trabalham o cérebro reptiliano, mamíferos representando as pessoas que trabalham o cérebro límbico e aves representando pessoas que trabalham o neocórtex, por assim dizer).

Se nós nos permitirmos dançar um pouco ao som da flauta de Pã, que atrás de nós caminha, podemos usar dessa diversão para ver um pouco sobre os heróis e os vilões. Voltando à moeda: a moeda que saiu de circulação é uma vilã, relevando que uma moeda que esteja sendo usada para troca, que esteja ativa no mercado, ela é, logicamente e analogamente, um herói! Então os filmes de herói e vilão, originalmente, foram feitos para nós tomarmos ciência disso, por isso são pertinentes para aqueles que são crianças ou pré-adolescentes, mas claro que hoje em dia tem se deturpado tudo, aí se coloca vilões como heróis, e heróis e heroínas hipersexualizados, se tornando praticamente vilões, e cada vez mais as crianças estão em processos precoces em termos de erotismo – dum mau erotismo, duma pornografia. Por que será né? Filmar vilões como heróis é pornografia simbólica. Não serve de nada.

Quem faz isso é profundamente ignorante: sendo uma pessoa estúpida ou , que são graus duma mesma coisa.

Mas como nada surge do nada, existe uma lógica que está sendo prostituída para se fazer isso, que é: todo herói se torna vilão um dia. Ainda que um vilão não volte a ser herói. E isso é importantíssimo de ser compreendido! Pois uma moeda pode sair de circulação, mas todos sabemos que é retrocesso voltar a usar as moedas antigas.

Então nem todo herói será tão herói assim com o passar dos anos, com o passar do tempo. Ou seja, todo herói é substituído, ainda que enquanto ele é herói, deva ser tratado como tal para que o próximo possa se tornar conhecido.

Se nós olhamos para o cérebro reptiliano, um cérebro irracional, que reage, nós podemos nos lembrar de uma personagem: o Coringa. Ele é um mistério, ninguém sabe sobre ele, o que esperar dele, ele não planeja nada, ele só reage. Você faz algo e ele irracionalmente reage. Se você perguntar o por quê, ele não sabe. É uma resposta irracional, inconsciente. Então usemos ele aqui enquanto uma moeda de relíquia, em sua originalidade, para mostrar o cérebro reptiliano em ação.

O Coringa é um homem que ri por qualquer coisa, reage quando é algo alegre, reage do mesmo jeito quando é algo triste, ele não age, ele não planeja, porque agir é ação ciente, é uma ação científica, ainda que não planejada, mas ciente de si mesma e dos fatos que a cercam, sendo a reação uma ação impensada, inconsciente, que apenas se reproduz – como os repteis, se reproduzem faz milhões de anos e continuam com o mesmo corpo de dinossauro, não evoluem, não se tornam cientes como cachorros que podem ser totalmente adestrados. Ainda que isso esteja mudando muito lentamente, no caso dos animais. Mas os repteis são muito demorados, jurássicos.

Então o Coringa podemos ver que tudo ele ri, ele ri por rir, como um espasmo, como um choque que ele toma, mas não por compreender algo, e sim apenas como reação ao meio em que se encontra. Não como Buda, que ri como um ser iluminado. Ele só ri porque é a única coisa que ele aprendeu: rir, rir e rir, está feliz? Ri, está triste? Ri também, num eterno repetir! Numa roda, como uma serpente engolindo o rabo, girando e girando atrás de si mesma engolindo a si própria sem fazer mais nada. Então temos essa personagem existindo nesse mundo, essa existência que surge para fazer caos e trazer reações à tona.

E depois podemos ver como que um outro vilão, um pouco superior a ele, também vai sendo forjado. Porque o Coringa, nós não sabemos a gênese dele, não sabemos de onde ele veio, a gente não sabe nada sobre o surgimento do cérebro reptiliano em nós também, nós não nos lembramos do tempo em que tínhamos apenas esse cérebro como possibilidade, ao menos não lembramos a princípio. Mas o Duas Caras nós conseguimos ver o surgimento…

E ele é aquele que funde a cara e a coroa, mas guarda aquela moeda de tal forma que ela se torna vil, em vez dele usar como moeda de troca no seu valor realmente, em vez de usá-la no tempo apropriado e da forma apropriada, que é com o outro, porque como é troca eu preciso do outro, ele perde o tempo dela e guarda por muito tempo com ele mesmo, de maneira egoísta, enterrando-a, por um conservadorismo exacerbado, inclusive – o conservadorismo representando ideologias de grupo, porque ele vai representar o cérebro límbico (o vilão apaixonado, político, que vai se casar, que quer ter uma família, o desejo dele!), então ele representa as ideologias que nos conservam em grupos, ideologias de ‘só’: só pode mulher, só pode homem, só pode hétero, só pode branco, só pode preto, só pode água, só pode fogo, só pode norte, só pode sul, só pode direita, só pode esquerda, ou seja: só pode quem faz parte das regras que são aceitas politicamente por aquele grupo, que é a polis, que nada mais é do que um grupo organizado com leis que regulam a ele próprio.

Ou seja, indivíduos opostos, porque ninguém no fundo é igual a ninguém, que encontram algo de valor similar entre eles e resolvem fundir esse valor para criar uma única coisa. Então eu sou Le Tícia e você é você, mas por termos um mesmo gênero (por ex. feminismo ou machismo), uma mesma cor (nazismo ou antifa), uma mesma religião (meu terreiro ou minha igreja), um mesmo país (patriotismo), ou mesmo por termos o mesmo grau de ciência, nós nos juntamos formando algo de valor: uma moeda, e então colocamos ela em circulação forçosamente como valor ou a tiramos de circulação, tratando como uma relíquia dentro dum grupo de pessoas selecionadas, sem ver que a relíquia também é, por consequência, um vilão mesmo que “apenas” em vigência interna de um grupo. Por isso é possível ver que um dia haverá uma só moeda para nós comprarmos qualquer coisa no mundo inteiro, por exemplo. Por isso um dia acabarão as nações, um dia acabarão os governos, as polis. É um processo muito lento, óbvio, mas é um processo de evolução daqueles que vão se tornando cientes de como as coisas devem caminhar se se tornam conscientes, ou seja, uma ciência conjunta de fato, que é fazer um caminho: retamente. Sem circular nada!

Então o Duas Caras é a representação de tudo isso: de dois diferentes que encontram algo em comum e forjam uma fundição para assim começarem algo único, como uma família, em que dois se somam para formá-la. Então todo conservadorismo é em relação a algo que foi fundido e entre nós acreditamos que tem valor, pois pros outros pode não importar minha mãe morrer, mas para mim importa porque fui fundida a ela, eu sou sangue dela e ela meu. Então temos a ideia de que todos aqueles com quem nos fundimos é nosso grupo, é o que tem valor, o que passa a ser nossa moeda. Agora, claro, devemos lembrar mais uma vez que: uma moeda vigente de fato, de verdade, ela tem valor em si mesma. Ou seja, se eu acredito que família é de quem eu nasço biologicamente, eu preciso viver isso enquanto valor. Se acredito que família é quem eu cientificamente, ou seja, com a ciência de um valor do outro, assim o escolho para ser minha família, eu preciso viver isso enquanto realidade, mas são graus da mesma coisa: viver em grupo, e querendo ou não o que me une àquele grupo, seja a hereditariedade, seja o fato de serem só mulheres, ou o fato de ser só trans, só brancos, só pretos, só só só, não nos enganemos, só meu grupinho político, só meu partido, então não nos enganemos: é uma moeda que logo perde o valor frente ao fato de que: família não é o que escolhemos, neste aspecto, porque, a princípio, eu não escolhi ser preta, não escolhi ser filha dos meus pais, não escolhi ser cis, não escolhi várias coisas que tem a ver com a minha materialidade aparente, então caso eu olhe pra tudo isso com uma visão materialista, puramente materialista no sentido científico de hoje em dia, eu não escolhi nada da minha vida.

Mas se eu olho espiritualmente, verei que sim, eu escolho o grupo a que vou pertencer, como o grupo da família, o grupo da cor, o grupo do gênero, mas daí algo para além se apresenta no olhar espiritual, que é: a principal escolha que fiz não é do gênero, nem da cor, e nem da família, mas sim o fato de que eu escolhi nascer, assim como todos os outros que estão aqui.

Nós todos somos uma moeda única, porque frente ao espiritual, todos nós escolhemos estar aqui, juntos, no mesmo planeta, passando pelo mesmo espaço-tempo, ou seja, experiências. E isso se chama humanidade.

Nós humanizamos verdadeiramente quando passamos a enxergar no outro o fato de que ele está aqui porque eu também estou, e eu estou aqui porque ele também está.

E isso muda radicalmente a maneira como a gente enxerga hoje a realidade.

Porque a gente passa a se perguntar por que alguém escolheu nascer agora, junto de nós, em vez de pressupor que ter nascido em um país diferente, de cor diferente, de religião diferente, enfim, numa prática diferente gerando uma teoria diferente. Então se eu escolhi ser brasileira a teoria é de que eu sou atrasada diferente dos que estão na América do Norte que são muito avançados, quer dizer, teorias diferentes, como assim?

Mas não, a teoria e a prática são as mesmas para todos, ainda que se revelem de forma fragmentada, fractalizada, fracionada. Ou seja, eu posso estar aqui para evoluir uma determinada característica minha, e o outro pode estar aqui para evoluir um outro grau de ciência e característica dele. Mas não nos faz diferentes em termos de escolha. Porque o cerne dela é de que estamos aqui para mudar em nós alguma coisa.

Quem acredita que existem diferentes teorias e diferentes práticas, acaba se fechando em grupos, se fechando em si mesmos, tal qual o Duas Caras, e passa a agir somente de acordo com o lado emocional, ou seja, o cérebro límbico. Ele queria ser político, ele queria casar, ele sentia muitas coisas apaixonadas pela cidade, pela noiva dele, ele era apaixonado pelos grupos ao qual ele fazia parte ou queria pertencer, mas nós sabemos que o cérebro límbico atua junto ao cérebro reptiliano, que é o Coringa. E às vezes o Coringa nos dá uma paulada.

É curioso vermos como Iscariotes, o sobrenome de Judas na Bíblia, vem do hebraico Ish-Qeriyoth, “habitante de Kerioth”, sendo que em hebraico “qeriyoth” significa “cidades”, plural de “qiryah” (“cidade”). Ou seja, nós podemos ver como ser um político, alguém da polis, é ser Iscariotes. Nisso vemos também que Platão deve ser superado, como constatou Nietzsche, mas não nos tornando o que já somos, como ele alegou falsamente, porque Nietzsche se perdeu a tal grau dentro do conservadorismo que voltou para os tempos persas – Zaratustra , julgando que regredir seria ultrapassar o Cristianismo, quando não, ultrapassar o Cristianismo enquanto grupo, enquanto instituição, requer ir para o indivíduo que significa se tornar aquilo que não se é, porque enquanto se pertence a um grupo, seja persa seja católico, não se é indivíduo de fato, ainda que o despertar do indivíduo seja dentro do grupo, para depois, como fez Cristo Jesus, sair do grupo e andar sozinho, ou seja, ir para o deserto.

Uma criança não é o adulto, mas o adulto é aquilo que a criança, não sendo, se torna. Essa seria a fórmula para a cura para Nietzsche, se tornar adulto sendo criança, como ele vislumbrou, em alguns de seus aforismos, mas, por fim, a própria vida dele nos mostra que ele não logrou.

Voltando ao Duas Caras e ao Coringa…

Nós vemos que os cérebros reptiliano e límbico estão conectados, e o encontro de ambos revela como se dá a união deles e como as emoções límbicas nos conectam às reações, tal qual uma moeda, e o Duas Caras, em vez de escolher como irá agir, ele já não reage como o Coringa, não é só reptiliano, mas ele também não usa o neocórtex, que seria a escolha por si mesmo, mas deixa a moeda escolher por ele, então se dá cara eu faço X se der coroa eu faço Y. Ele deixa que a moeda escolha por ele, ou seja, ele deixa que o valor do grupo escolha por ele, e internamente isso significa também que, uma pessoa dessas, mesmo fora de um grupo, ela deixa que os cérebros ajam aleatoriamente decidindo a vez de quem que é, se eu reajo emocionalmente chorando, rindo, me enfurecendo, irando, ficando eufórica etc. ou se reajo com uma reação dando porrada, por exemplo. Ele já não é o que reage em termos de ação apenas, mas também de emoção: sentindo ira, raiva, ódio, fúria mesmo sem mover um centímetro dele próprio. Ou seja, a moeda escolhe para ele se ele vai reagir – agir novamente através de uma ação já conhecida, ou se vai ser um ressentido – vai sentir novamente alguma emoção já conhecida.

E nisso ele se torna um vilão porque depois desses dois surge uma outra figura, que é o Batman! E é muito pertinente olhar para o Batman porque frente aos dois o Batman é o herói, e realmente, frente aos dois, ele é um herói. Pois, vejam, ele é um morcego.

Se nós voltamos a olhar os cérebros e os animais veremos mais uma vez que são representados: o reptiliano por um réptil, o límbico por mamíferos e o neocórtex por aves. Nós vemos então que o Batman, sendo um morcego, é um mamífero que voa, ou seja, esse cara ainda não tem ciência do uso do neocórtex, tanto que morcegos voam à noite, ou seja, é inconsciente o uso que se faz do neocórtex, é noturno. E o morcego, além de voar, é mamífero, revelando um neocórtex que submete o límbico a ele. Ou seja, é quando eu uso os dois superiores para combater os dois inferiores, seja o límbico com o reptiliano, seja apenas o reptiliano.

Como o Coringa e o Duas Caras são vilões cientes de si mesmos, ou seja, humanos, eles personificam sujeitos sociopatas, no caso do Duas Caras – aquele sujeito cujas escolhas não são mais baseadas nele mesmo enquanto indivíduo, mas nas paixões, nas reações e ressentimentos relacionados ao grupo, e psicopatas, o Coringa – aquele sujeito cujas escolhas não são baseadas em ninguém além dele mesmo enquanto uma psique que, sem Eros (amante dela mitologicamente na Grécia), se torna, sem o Eros, apaixonada por si mesma, numa espécie de “alto grau de psicose”, entre aspas, por assim dizer. Sendo que ambos nada mais são do que pessoas que têm problemas nesses dois cérebros – os sociopatas e os psicopatas são pessoas que têm problemas no cérebro reptiliano e límbico, como suspeitava e chegou a confirmar o autor da teoria dos três cérebros, o neurocientista já citado, Paul MacLean.

Então nós vemos como os sociopatas são os que baseiam suas paixões no social e o psicopata é o que se apaixona pela própria psique. Ou seja, o Coringa não é um sujeito que se relaciona com Eros inconscientemente, mas sim sem Eros, ele não tem amor, porque Eros é amor, ele é baseado só na própria cabeça, ou seja, na sua psique, sem se conectar com o externo, sendo como um Narciso, mas de espelho quebrado, Narciso ruim, de águas turbulentas, que em vez de mostrar uma imagem unificada e cristalina, pura, ele acaba por ver só a si mesmo multiplicado infinitamente e de forma impura, bem como o amor erótico do Duas Caras morre, porque o Coringa, irracionalmente, mata a noiva dele, sendo que ambos representam essa natureza decaída de quem, em vez de escolher se tornar aquilo que não são: o Batman, se tornam hierarquicamente os inimigos dele, porque hierarquicamente o neocórtex é o cérebro que está acima, em todos os sentidos, literalmente. Ou seja, a hierarquia, que nos dá a raiz arché-, vai nos revelar que eles, o Coringa e o Duas Caras, são arqui-inimigos do Batman.

Nisso podemos ver que o Batman também vai sendo contestado como herói porque temos chegado num tempo em que não usamos o neocórtex de forma obscura, mas sim de maneira um pouquinho mais clara, mais lúcida, somos um pouquinho mais racionais. Sendo que também já é possível termos uma maturidade tal que nos tornamos cada vez mais capazes de usá-lo separadamente do límbico, ou seja, a representação do animal muda, já não é um morcego, mas se torna uma ave diurna. Ainda que, claro, não é matar o cérebro reptiliano nem o límbico literalmente, mas mantê-los sob nossa vontade, nossas escolhas, nosso querer, para isso lapidando nosso livre-arbítrio, aprendendo a fazer escolhas cada vez mais cientes das consequências, dos efeitos que terão ao eu me tornar herói ou vilão.

E é muito lindo se pararmos pra pensar em quem vem depois do Batman – no caso de alguém que consegue, por esforço próprio, desenvolver a ciência do neocórtex, porque a sua sucessora seria a Mulher Maravilha. Ela é a melhor expressão do que seria essa ave virgem, nascida do barro pelo esforço técnico de sua mãe, Hipolyta, em lapidá-la. E claro que, por ser entretenimento (e entretenimento querendo ou não se se prolonga se torna ainda mais raso e nos deixa estúpidos), ele visa dinheiro e fama, status, então assim como usá-lo como referência por tempo demais nos torna estúpidos, estúpido ter apenas entretenimentos como referência, é estupidez ficar criando mil e uma personagens como o fazem, podendo dizer que há a Batgirl. Realmente, se poderia criar diversas personagens baseadas nessas lógicas cerebrais e analogias com os diversos graus de ciência de nós mesmos enquanto criaturas e seres.

Mas a Mulher Maravilha, pra finalizar, é muito apropriada por seu símbolo ser inclusive a águia dourada, e ela possui uma tiara na cabeça com uma estrela vermelha, cor do sangue, mas elevado e em forma de estrela – simbolizando também um cérebro irrigado, voltado para coisas celestes. Como dito, claro que essas coisas todas são feitas para vender, e, portanto, não são as moedas mais valorosas de se usar de fato, ainda que hoje em dia, de algo valem, ainda – se os filmes e HQs possuírem seus símbolos originais, sem deturparem e deformarem a interpretação, como se faz hodiernamente. Pois a Mulher Maravilha, por exemplo, era simbolizada pela águia – a sabedoria, uma mulher amazona, filha de mãe virgem, é aquela que sai de entre as mulheres puras, da Ilha do Paraíso, para curar a ‘terra dos homens’. Ou seja, não eram mulheres apaixonadas, não eram impuras, não eram sexualizadas, e tudo o mais que acontece hoje, porque a Mulher Maravilha está hipersexualizada e agora, além de homem querê-la, mulher também, ou seja, a gente já não tem o desejo de Ser a Mulher Maravilha, nascida do barro, vivida de forma pura, casta, numa Ilha do Paraíso, não, a gente quer possuir sexualmente essa mulher, que simbolicamente é prostituição do símbolo.

Assim como um filme do Coringa, com o Joaquin Phoenix – porque o com Batman ainda, é válido, mas o do Coringa, ele é praticamente posto como herói da garotada, imaginem, um psicopata herói, era só o que faltava! Se essas coisas de perversão do símbolo não são pura estupidez, a única palavra que sobra é maldade!

Então, se nós pedimos para Pã parar de tocar sua flauta, parar de nos entreter nesse caminho que fazemos, e olharmos novamente para o início e o fim desse caminho em si mesmo, nós conseguimos observar que Maria, mãe de Jesus, mãe de Deus, ela possui uma oração que começa e que se dá assim:

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco

Bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores

Agora e na hora de nossa morte.

Amém.

– Gostaria de deixar claro, antes de continuar que:
Eu Sei que Maria foi e É um Ser verdadeiro,
que tudo o que nos tenha a aparência de mitologia É real,
ela, Maria – pessoa , existe. –

E aí nós podemos ver, tomando a existência deste ser, como a vida dela nos serviu para ver e ouvir a ave, porque Maria começa sendo ave: Ave Maria, é uma ave pura. Maria – cuja etimologia remete a muitos significados, entre eles: a primeira entre as mulheres, a exaltada, forte, senhora soberana, pura, aquela que tem contumácia, ou ainda, aquela que tem amargura. E aí podemos notar os diversos graus de ciência que um ser humano pode ter no seu neocórtex, que é simbolizado pela ave, sabendo que esse terceiro cérebro é o que menos nós sabemos usar de fato, podendo gerar desde a ciência da amargura que é tentar dominar a si mesmo, ser uma pessoa sábia realmente e o quanto isso é dificílimo, amarguíssimo de se aprender, a até a exaltação e soberania que aguarda aqueles que se esforçam e o logram paulatinamente.

Ou seja, viver a Ave Maria é termos ciência de que somos homens, que somos húmus, feitos do barro – seres da terra junto à água, da lágrima que salga a terra ao mesmo tempo em que nos lava, que santifica Maria, ou seja, purifica o pensamento.

E então vemos que o Senhor é convosco porque ela, o tempo todo, está lá sendo cuidada desde de esse alto, pois quanto maior a altitude, quanto mais alto o ar que eu respiro, mais elevado eu me torno, mais próximo de Deus eu sou e fico. Então o senhor está com ela o tempo todo porque ela, enquanto ave, respira esse ar altivo, e é bendita dentre todas as mulheres porque, dentre todas as partes do nosso cérebro, aquele que é a bendição é o neocórtex, sendo necessário ela rogar por nós na hora de nossa morte porque é preciso realmente, efetivamente, morrer para nossa natureza inferior (sem, contudo, matar os desejos e ações próprias, por isso é dificílimo! Não é se livrar do cérebro, é aprender a usá-lo enquanto mente, enquanto pensamentos, desejos, escolhas de forma elevada)… e bendito o fruto do ventre porque, ao desenvolvermos o neocórtex de forma virgem, nós desenvolvemos também, como semente, um quarto cérebro.

Esse quarto cérebro é representado por Jesus.

Maria se torna santa porque, para conseguirmos fazer com que Jesus nasça em nós, fazer com que esse quarto cérebro se desenvolva em nós, é preciso se tornar santo, e santo de casto, de puro, de virginal. E aí seremos mãe de Deus, porque esse quarto cérebro é o cérebro etérico, de funções etéricas, cérebro dos anjos, de luz. Por isso os santos são pintados com auréolas, e para além de auréolas, com aquela aura amarela ao redor da cabeça. Por isso no cristianismo as representações já não são mais de animais, fora a ave Maria, mas sim da luz, da cabeça de luz porque é a representação desse cérebro que está acima das aves, um cérebro angélico, sendo que os anjos não voam na horizontal como as aves, mas na vertical: para além do nosso tempo e do nosso espaço.

E isso se dá porque começa a ser ativado o que a gente popularmente chama de terceiro olho, esse seria como quarto cérebro nosso, mas não apenas a pineal sozinha enquanto quarto cérebro. A pineal, dentro do quarto cérebro, trabalha junto da pituitária.

Lembrando que, se há pessoas que usam apenas o cérebro reptiliano e límbico, e muitas ainda estão inconscientes desenvolvendo o neocórtex, ao modelo do Batman, isso significa que ainda demora um pouco para chegar no desenvolvimento pleno desse quarto cérebro, e inclusive do nascimento dele de fato, porque o nascimento do quarto cérebro, quer queira quer não, é fazer com que Jesus nasça em nós, é levar uma vida tal qual Maria. Muitas pessoas começam a ativar a glândula pineal sem terem real estrutura cerebral e espiritual para aguentar o tranco. Então melhor seria caminhar um passo de cada vez do que correr e acabar enlouquecendo, caindo pelo precipício ou batendo num poste. Mas claro, caminhando sempre. Se planeja andar uma milha, ande duas três, se planeja caminhar 6 quilômetros, ande 7, 8, 9, 10.

Para compreender o mistério das glândulas em si, a fundo, eu recomendo e os convido para que se estude a ciência da Fraternidade Rosacruz dos Cristãos Místicos. Esta Rosacruz especificamente, nenhuma outra. Isso sem proselitismo, apenas um convite para quem queira se aprofundar no assunto. Eu coloquei links no final do texto. E deixo dito que a Fraternidade tem a capacidade de trazer a ciência a respeito do que tudo isso representa, aos poucos. Nada é da noite pro dia!

Porque na vida é preciso estudar, se esforçar. Um Bolt não seria um Bolt se não tivesse treinado horas e mais horas e dedicado uma vida inteira para isso. Tem uma passagem do Heitor Villa-Lobos em que um rapaz fala para ele: nossa eu daria minha vida para tocar como você toca, no que o Heitor responde: pois é, eu dei a minha vida. Ou seja, ninguém conquista algo sem o próprio sacrifício. Ninguém. Ainda que, lembremos, sem barganhas vaidosas, sem esperar recompensas, mas se esforçando porque na natureza nós sabemos que tudo é movimento, é algo simplesmente necessário de ser feito, ainda que, inevitavelmente, as coisas vão caminhar, mesmo que por regressão devido a preguiça e inércia. Quem para no meio da corrida não fica no meio da corrida simplesmente, porque o resto continua indo para frente, ou seja, quem para de caminhar fica de fora como um todo, porque não chega na linha final, mesmo que em último lugar. Por isso o pior não é quem fica em último, mas chega, e sim aquele que nem começa ou desiste de tentar.

E nisso nós podemos ver como precisamos vencer os vilões, tratando-os pelo que são: vilões, e evoluirmos ao não nos contentarmos em sermos 1 herói, em ser Batman apenas, e ficar preso nesse processo, mas sempre estar almejando o próximo passo, o próximo símbolo que me unirá a um conhecimento maior, a uma águia, e, quem sabe, um dia, ao quarto cérebro nascido, e aos poucos lapidado. Que é se unir a Jesus, e depois a Cristo, e consequentemente ao Pai.

Que sigamos em frente, reto, ouvindo a flauta de Pã – caso convenha, mas tendo ouvidos principalmente para a Lira de Apolo, o Sol, e sabendo, por fim, que é a Cristo Jesus que se está seguindo e dando nascimento, do princípio ao fim, o tempo inteiro.

Caminhemos!…

 

Que as Rosas Floresçam em Vossa Cruz!

Fraternidade Rosacruz:
http://www.fraternidaderosacruz.com.br
http://fraternidaderosacruz.com/
http://www.christianrosenkreuz.org/
https://www.youtube.com/channel/UCl1GlJmegbTQGg4sE6yaqBw

Fontes quanto à etimologia de Iscariotes, acesso em 23 de junho de 2020:

https://origemdapalavra.com.br/palavras/iscariotes/

https://igrejaplenaclimabom.webnode.com.br/products/chamados-e-escolhidos/

a Poesia do Artista . : . [o artífice celeste e o metal, a pedra e a pérola]

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O que é Ser Artista? O que é um Artista, em Verdade?

Se sabemos que Arte vem de tékne, em grego, que significa literalmente técnica, temos pela Lei da Lógica que o Artista é aquele que tem consigo enquanto dom, dádiva, talento, graça celestes a capacidade técnica de produzir algo. Contudo, sabendo que o entretenimento, por exemplo, é também uma capacidade técnica de nos ter dentro de outro meio, se assemelhando à Arte, no que se refere ao espanto que o entretenimento causa em nós mesmos, devemos firmar uma crucial diferença entre ambos: Arte é o que, te espantando e com isso te tirando dos problemas do dia-a-dia, possibilita que você seja devolvido ao seu centro, ou seja, a Arte causa um centramento, a possibilidade de um centramento, e, por isso, após termos contato com uma Obra de Arte, saímos dela mais inteiros, mais íntegros. Já o entretenimento nos rapta e nos mantém dentro dele, ou seja, não nos devolve a nós mesmos, mas nos mantém nele como centro nosso, substituindo nosso centro verdadeiro.

Assim sendo, a Arte é o que abre a possibilidade de um milagre acontecer, pois estarmos centrados em nós mesmos é quando algo divino nos toca e nos presentificamos. Existem graus para essa consciência de si e cada um dará um nome para isso, mas basicamente é quando ouvimos nosso espírito e, consequentemente, Deus fala conosco. Não que nosso espírito seja Deus, mas através dele Deus fala conosco como Seus Verdadeiros Filhos.

A Arte, a Obra de Arte possibilita que uma ligação celeste desta aconteça, ou que, no mínimo, o caminho para que isso aconteça seja, aos poucos, limpo e aberto, não importando a religião daquele que ali se encontra frente a ela.

Então o Artista é aquele que lavra a terra pronta para receber as sementes a serem dadas para que os frutos sejam multiplicados, abrindo espaços para que sejam recebidas, bem como é aquele que ergue os olhos aos campos e vê que estão brancos para a colheita, e nisto, a Obra, a sua Arte enquanto Artífice, a sua técnica, sua ferramenta lapidada, é justo a lâmina que, além de lavrar, ceifa, abre a brecha, o rasgo possível para que, por milagre, por vontade da Fé de quem a Arte recebe, ou seja, seu espírito, e de Deus, a quem se sobe e Aquele que a nós, por misericórdia, desce, o milagre aconteça, que nada mais é do que um encontro superior, elevado, celeste.

Artista é aquele que lavra na terra que outros pisaram, bem como o que ceifa nos campos em que outros trabalharam. Ele que possibilita a multiplicação e a colheita, como um Saturno em Libra, exaltado, bem como em Capricórnio, a terra dele mesmo, em Capricórnio como multiplicação e em Libra como colheita. Mas não confundamos, porque, como diz São Paulo, não são as Obras que salvam, não são elas que fazem a real diferença, ou melhor, talvez a real diferença se dê através delas, mas não são elas que fazem a verdadeira diferença. A verdadeira diferença é a Fé de quem é tocado por elas.

De nada adianta campos secos, árvores que são secas estarem na presença de uma Obra de Arte, bem como de nada adianta reproduzir mil e uma obras de arte, ainda que aparente ser uma produção virginal, ou seja, nova, nunca feita, como uma música nunca tocada por outro alguém, se não há nela o principal conteúdo que é a Fé, se ela não é um sujeito por dádiva da doação de quem a concebe, não sendo um Tu que se apresenta, mas um vazio ou uma forma meio-cheia, sem vitalidade para continuar vivendo em si mesma. Ou seja, se ela não é uma faceta, ainda que mínima, infinitesimal, fractal, de quem, por ser Filho, imita o Pai que também trabalha, que também crea sua Obra espiritual na matéria.

É a Fé que possibilita que tudo aconteça, que seja vivo o processo. A Obra em si, a materialidade apenas, é como a terra que simplesmente emoldura as águas, a terra – a Obra – não é o principal, assim como a moldura de um quadro não é o principal, mas ela torna mais visível, ela exalta, ela justamente coroa, enquadra, foca, sinaliza, enfim, haveria diversos verbos para se expressar o que isso significa, mas é ela que aponta aquilo que é principal. Ou seja, a Obra não é o principal, mas ela se une àquilo que é principal para que o verdadeiro milagre aconteça. Para que a Verdadeira Obra, de uma matéria superior àquela matéria física que se apresenta, se manifeste através dela, e por isso ela é ponte. Por isso ela revela.

O Artista, o Artífice, ele nada mais é senão aquele que é capaz de devotamente e criativamente, unir tanto a obediência quanto o próprio fazer e vontade interna, ou seja, unir a obediência verdadeira, humilde, em se saber ignorante (como disse Sócrates: só sei que nada sei) e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, ter a ousadia em usar as próprias mãos para crear algo junto a Deus, pondo em movimento seu livre-arbítrio junto à matéria que já foi dada por Deus de maneira perfeita ao torná-la ainda mais bela, mais bondosa e verdadeira.

Isso não significa que ela, a matéria, não seja tudo isso nela mesma, ela é por conta de instâncias superiores, instâncias espirituais superiores ao ser humano, mas o fato de existirmos e termos essa possibilidade de aprofundamento da lapidação, inclusive como um dever e desafio humano, faz com que seja possível embelezar e vivificar ainda mais a Obra dos Céus, revelando nossa essência divina!

É preciso saber para ser Artífice, Verdadeiro Artífice. Porque reproduzir qualquer coisa tecnicamente, ser um cientista eXotérico, cientista de coisas exteriores, cientista das coisas que se repetem, ou seja, das coisas físicas e químicas, porque a repetição na matéria física é imensa, toda aparência se repete, porque é como o corpo humano, todo dia eu acordo com a mesma aparência, com o mesmo físico, então ser um médico de corpo, do meu físico e aparência, um artista da parte química e física, fazer alterações na composição química dos elementos da natureza, isso muitos podem ser, assim como ser religioso devoto, ir na igreja ou mesmo na loja maçônica, por exemplo, como muitos também podem, por mais fechada que uma congregação ou um grupo seja. Mas ter a capacidade de união da devoção religiosa, de se saber num templo o tempo inteiro e junto disso se saber conhecedor e, portanto, responsável por fazer escolhas elevadas cada vez mais para lapidar esse conhecer e tornar assim uma Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal em uma Árvore da Vida, não por mérito próprio, não por um querer vaidoso e egoísta, mas como quem trabalha sem esperar receber salário em troca, isto sim é muito raro e é o que significa ser o Verdadeiro Artista, ou Artífice! Ainda mais hoje em dia em que a tendência, há exceções, mas a tendência é trabalhar apenas quando há valores, de status e monetário, envolvidos.

Começar a fazer esse movimento, no mínimo começá-lo, é o trabalho dos Verdadeiros Artistas, eles já não pegam em pedras brutas (como os maçons, que é um termo para o pedreiro espiritual) e já não precisam estar de joelhos (como devotos de igrejas), porque eles já podem estar de pé e observar que a pedra, que era bruta, foi lapidada, a pérola foi arduamente conquistada, transmutando o grão de areia dentro de cada vida fechada em si mesma, na fricção das experiências, unindo assim a pedra lapidada, tal qual diamante que é firme e nada quebra, numa devoção sem igual, junto à maleabilidade do metal, que ao passar pelo fogo e pela água, toma a forma desejada, formando verdadeiramente uma aliança de noivado e um colar de pérolas, bem como uma coroa com as pérolas, o metal e as pedras.

Não em rodas que giram entorno de si mesmas, como quem casa consigo e reina sob a própria vaidade, mas como quem realmente pega o rigor das leis, da moral, lapidada com o tempo, e, junto àquele metal que passa pelo fogo e pela água vida após vida para ganhar forma e àquela pérola que se transformou através das fricções nas experiências no mundo, faz com que se tornem joias verdadeiras, e, portanto, uma coisa só, e nisso, Artistas e Artífices que são, possam se tornar verdadeiros noivos e noivas de Cristo: usando a aliança em sinal de fidelidade e lealdade às leis (a pedra) junto das experiências necessárias do corpo (o metal), tendo no pescoço o colar de pérolas enfeitando a garganta apenas com as sabedorias que nos são dadas pela ação do tempo (o grão de areia dentro da ostra) e honrando nossa cabeça com a soma desses três fatores, em uma coroa, sendo preciso humildade pra recebê-la, pois que todo aquele que é coroado tem o dever de baixar a cabeça para apenas depois ter a honra de ver Aquele que nos coroa, face-a-face. Ou seja, não é possível colocar nem anéis, nem colares, nem coroas em si mesmo.

Pois se é noivo à medida que se espera dentro do templo o tempo todo, quieto e paciente, em silêncio, atentamente, presente, pronto para A Hora, a grande hora em que as portas se abrirão para que a noiva entre. E ao mesmo tempo sendo noiva à medida que esse anel está em nosso dedo, nos lembrando o tempo inteiro do nosso compromisso com aquele que nos espera no verdadeiro templo. Sendo aquela também que carrega cada uma das pérolas, tal qual sabedoria, no pescoço, com a coroa em santíssima trindade segurando o véu para que apenas o noivo o erga e para que, mesmo depois de casados, já sem véu, ainda assim jamais se tire essa joia, tal qual também uma aliança sobre nossa cabeça a nos lembrar que nosso casamento não é apenas com o Filho à nossa frente dentro da igreja, mas também com o Pai, e todo o Seu vertical reino.

O Artista, o Verdadeiro Artífice, é aquele que crea essas possibilidades em si mesmo e, creando-as em si mesmo, ele pode ser escolhido para que se torne um exemplo do que acontece quando o casamento é verdadeiro, e, portanto, motive, movimente outros a se tornarem também forjadores de joias de máximo valor por sua lapidação, união e, principalmente, por sua pureza. Por isso que apesar de termos uma ideia romântica do artista ser só aquele que viveu de maneira mundana, como quem se entretém consigo mesmo, na verdade é todo o contrário, Artífice, Artista é aquele que é capaz do elevado.

E esse ato espiritual se reflete na matéria químico-física, claro. Por isso um Santo também escreve e deixa livros, que são Obras de Arte, ou seja, Santos também são Artífices em Verdade. Eles são noivos e noivas completos de Cristo, assim como também são Santos os Verdadeiros Artistas! É por isso que existe, por exemplo, uma Bíblia, um livro tão lindo, o mais poético de todos que já foi escrito! Não há livro que supere sua beleza, ainda que haja outros que cheguem próximos de tal beleza, porque são raios dela inclusive, são eles que se espelham nela, aquela que veio depois deles, mas é anterior a eles, como os livros de tradições que são mais antigos do que ela, mas não a superam em termos de Verdade, Bondade e Beleza!

O Artífice é aquele que tem a capacidade de manejar os quatro elementos para crear algo. A gente tem uma ideia piegas, muito tacanha e obtusa, muito pequena de que saber manejar os quatro elementos, água, fogo, ar e terra, seja para fazer entretenimento, ou seja, para entreter uma plateia, para crear algo de vontade própria, que a gente vaidosamente gostaria de mostrar que sabe fazer e, portanto, “produzir”.

Então a gente fica achando que não é possível um Santo ser um Artífice. Que um simples livro não é saber manejar quatro elementos, a gente fica achando que saber manejar os quatro elementos é eu dar ordem pras ondinas, ordem para fadas, silfos, duendes, gnomos e salamandras, quando na verdade o Verdadeiro Artífice é aquele que é servo dos que estão sob seu comando.

Por isso Cristo Jesus é o maior Servo e ao mesmo tempo Rei.

A nossa política deturpa tudo e a gente fica sem saber o que é um rei servir seus súditos, ou temos uma ideia piegas, romantizada, ideologizada e estereotipada do que seja isso. Mas Cristo é Rei e ao mesmo tempo Servo, o maior de todos os Reis e o maior de todos os Servos.

Por isso Arte é Cura. Assim como Cura é Arte, sendo Arte a Consciência, ou seja, con-sciência, que nada mais é que uma ciência conjunta! A cura é a capacidade de manejar os quatro elementos, de equilibrá-los em alguém que precisa e esteja preparado para tal feito, equilibrando-os em mim mesmo ao mesmo tempo, tal qual a Rosa, que é a flor cuja presença desses quatro elementos, água, fogo, ar e terra, é em perfeito equilíbrio e, portanto, pode substituir qualquer outra flor numa receita de espagíria, por exemplo!

Então se nós compreendermos esse Princípio, aquele que se apresenta como Príncipe, num primeiro momento – sendo ele futuro rei herdeiro do reino, nós veremos que ele opera através do Arquétipo, que etimologicamente significa ‘original (no sentido material)’, ou seja, ele opera através daquilo que é o molde original, o primeiro bater de martelo do Artífice que veio antes dele, trabalhando o tempo inteiro através do arquétipo, sendo ambos um só, nisso compreendemos porque a Arte cura, porque a Verdadeira Arte cura, porque ela, justamente por o Artífice saber mexer com os quatro elementos, com a matéria original, eles são reequilibrados em nós, ou seja, o Artífice equilibra os quatro elementos em nós, se tivermos olhos e ouvidos que nos permitam ver e ouvir isso acontecendo a cada momento. Sempre e Agora.

Isso revela também que o Artista, já tendo, entre aspas e com toda a cautela com o que será dito, pois cada um tem seu grau, mas entre aspas o Artista é aquele que “já tendo minimamente aprendido a manusear esses quatro elementos de maneira técnica, começa a trabalhar outros elementos em si mesmo”, os quatro elementos, água, fogo, ar e terra, se externalizam, então ele consegue trabalhá-los numa tela, escultura, livro, música, enfim, e na área que for, seja como cozinheiro, como jardineiro, como engenheiro etc. não há fórmula, sendo inclusive “apenas” conversando, através da Palavra, e começa dentro dele uma outra batalha, que já não é mais desses elementos propriamente, ainda que eles continuem fazendo parte, claro. Mas já não é mais entre água e fogo, por exemplo, ou ar e terra e as combinações que sejam, o ponto focal a ser trabalhado, mas sim elementos superiores a esses.

Por isso são muito incompreendidos, porque estão numa batalha que realmente é diferente da maioria, da maioria que tem um outro tipo de foco. Porque mesmo os Santos nós não compreendemos, às vezes demoramos anos após a morte até dizermos que foram Santos mesmo.

E não significa de modo algum que ser incompreendido seja ser Artista, Artífice, porque o poder, o dinheiro, o sexo e a fama, bem como a ausência deles, enganam, enganam violentamente. Então não adianta pegar fórmulas já prontas e achar que é artista porque se força a passar por determinadas experiências, ou viver de um determinado jeito. Não adianta!

Artista pode ser alguém totalmente anônimo, ou alguém completamente conhecido, famoso e rico, com vários quadros sendo amplamente vendidos pode ser apenas alguém imerso em profunda ignorância, e eu, Le Tícia Conde, incluo a maldade (como magia negra) na ignorância, inclusive.

Para quem se eleva um pouco, a gente passa a compreender que o mal existe, a maldade existe, mas frente ao Bem, não passa de ignorância. Mesmo que na Árvore do Conhecimento o mal seja um de seus frutos, frente ao Bem, ele é ignorante, assim como frente ao fruto do último galho, que está no topo, todo o resto está abaixo, e mesmo os que caem ao chão, eles são frutos do Conhecimento também, frutos da mesma árvore, mas já não servem como alimento, são podres, começam a fermentar para que algo ali possa se renovar e ser aproveitado, como alimentos em si são mortos ou semi-mortos, já não convém tanto assim enquanto fonte de vitalidade. Então o mal, por fim, é ignorância também, ignorância se alimentar dum fruto desse, por mais que ele em si mesmo seja um fruto da Árvore do Conhecimento, entende?

O Artista, o Artífice, o Iniciado, o Mago Branco é aquele que faz, antes de tudo, da própria vida uma Obra de Arte. Hoje em dia as pessoas fazem de suas vidas um entretenimento, inclusive indo literalmente para a mídia, para o público, não doar algo de centramento, mas sim de roubo do Tempo, como sabermos que é, na maior parte das vezes, perder tempo ficar em Facebook por exemplo, onde as vidas são um entreter o outro, tirá-lo de seu centro. Isso não faz com que o veículo em si seja bom ou mau, mas sim o uso que se faz dele.

Artífice é aquele que cura os meios e os torna pontes que ligam o fim ao começo e nisso haja a possibilidade de, sob a ponte que se ergue, um abismo se abra e a sombra de baixo se manifeste, bem como a luz de cima se revele, ou seja, o milagre aconteça, sendo de responsabilidade de cada um descobrir o que fazer depois de chegar ali. Uns deverão repetir o encontro muitas vezes, outros deverão aprender a ter devoção frente a um encontro desses, outros ainda silenciosamente observarão, até que um dia se tenha discernimento de ouvir e ver para qual lado ir.

Artista é aquele que Crea a ponte porque Conhece o Princípio e o Fim.

Artista é aquele que Vive para o Princípio e para o Fim.

O que resta é o livre-arbítrio do Eu
que recebe esse Tu
que se apresenta na Obra de Arte
desenvolver o Desejo e Vontade
de seguir O Caminho
que o Artista fez para chegar
até Aqui
.
.
.

a Poesia da Arte . : . [reação, ressentimento e reprodução]

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O que é Arte?

Se nós observarmos essa pergunta primeiro em seu avesso: o que não é arte, nós podemos nos despir ou tentar nos despir a respeito das cristalizações que já temos em relação àquilo que é efetivamente arte.

Hoje em dia nós vivemos um relativismo absoluto em que tudo pode ser arte, afinal, sua descrição se tornou uma capacidade de abstração tão grande que depende apenas do sujeito dizer que aquele objeto é arte, esquecendo que talvez o cerne da arte em si mesma seja justamente não haver ali um objeto, mas sim dois sujeitos.

Então para começar, observemos seu avesso: o que não é Arte? Se nós olhamos para algo que está próximo da arte hoje em dia, talvez possamos chegar a algum discernimento, por exemplo através do entretenimento, a mídia. Observemos como o entretenimento é capaz de nos levar a diversas esferas, cumprindo justo com a promessa do relativismo absoluto: tudo pode se tornar atração, e eu passo a me sentir atraído por tudo.

Entretenimento vem de entre-tenir que é manter junto, mas um manter junto de segurar, de algo que te captura de ti mesmo, então se observarmos junto de entretenimento a etimologia da palavra arte, encontraremos Ars em latim e Tékne em grego, que significa literalmente técnica. Então podemos ver uma grande diferença entre entretenimento e arte: Arte é a técnica que Eu possuo, entretenimento, ao contrário, é aquilo que Me possui, é aquilo que me mantém junto dele quase como num rapto de mim mesmo. Então no entretenimento, tomando ele como oposto à Arte, dado à etimologia dele mesmo, é aquilo que me sequestra do meu centro para estar preso ao algo que aquela mídia oferece. Então tudo o que me tira do meu centro, tudo o que não me devolve a mim mesmo enquanto técnica, enquanto alguém técnico em termos elevados, é um entretenimento, a priori, ou seja, algo que me entre-tem, me segura dentro de um outro algo.

Então o que é arte? Se arte é a capacidade de desenvolver técnica, para ser artista eu tenho que ter um centro, porque toda técnica vem de uma concentração de um saber, de uma sabedoria, e aqui não estou confundindo a técnica com ultra-especialização, pois a ultra-especialização no nosso mundo, na atual vivência dela, é algo que deturpa, nos faz rasos para todo o resto, não sendo simbologia, não sendo o que me une a algo elevado de fato, mas apenas me separando do todo, me tornando uma fração ínfima solta no espaço. Mas o verdadeiro técnico ou artista, é justo a fração, técnica, a especialização que, por ser profunda, também cria altivez, pois o que é profundo está na verticalidade, então também cria a possibilidade do altivo, da altitude, mas o que me tira do meu centro porque é raso, está na horizontalidade, e tudo o que é raso é possível tocar com os olhos da carne.

Então o mar, por mais profundo que seja, eu apenas verei seu raso, porque quando estou de frente para o mar vejo suas águas correrem até o horizonte, e essa água é o raso dele mesmo, eu só vejo a profundidade de algo que está na orla, vejo a água cristalina enquanto eu ainda estou na orla, porque depois de um momento em que a verticalidade se torna maior, até mesmo extrema , eu já não vejo o fundo, assim como no céu não há fundo, ainda que o mar tenha fundo, sendo apenas metaforicamente a mesma imagem do fundo que não se alcança, ainda que ele exista num primeiro momento, como fundo do poço: não se vê, senão apenas caindo dentro, mas quando se cai, se põe o pé nesse raso e perdemos a noção do que é altivo, do que está acima, pois se nos pautamos apenas na sensação horizontal, apenas no que conheço horizontalmente, eu perco essa noção daquilo que vem de cima.

Se paramos para observar, os pés são talvez a única parte do nosso corpo que está na horizontal de fato, ainda que outras partes possam ficar na horizontal caso eu deseje, minha mão pode ficar na horizontal em relação ao chão quando eu assim deseje, por exemplo, mas a priori, quando relaxado, o corpo todo está na vertical e os pés, se ativos, pisam ao chão, estando na horizontal, assim como o inverso é verdadeiro, quando me deito os pés se verticalizam enquanto o resto do corpo toma horizontalidade e adormece para que outro tipo de profundidade amanheça em mim mesmo.

Então o que não é arte? Não é arte aquilo que justo me mantém na horizontalidade. Pois a arte é a técnica que se aprofunda, porque qualquer um que tenha habilidade técnica sabe que requer muito aprofundamento num conhecimento e numa prática, ou seja, na junção da teoria e da prática por uma grande profundidade de horas, sendo que sabemos que a arte inevitavelmente provém de um profundo, de uma verticalidade, quando é Arte (com A maiúsculo), fazendo realmente uma distinção entre o que é Arte e não-arte, em vez de supor que qualquer coisa que se faça seja arte, porque nem tudo, aliás a maioria das coisas que nós fazemos, não são profundas realmente, não são uniões de teoria com prática e de aprofundamento em horas na lapidação daquele conhecer. Mas, basicamente, são apenas reproduções, repetições.

Nós hoje estamos na era da reprodutibilidade, Walter Benjamim tem um excelente texto sobre isso, aliás, e se pensamos até em termos de sentimentos, a maior parte dos sentimentos, que julgamos ter, são ressentimentos.

Ressentir é como reagir, é reação emocional, porque a ação quando não é consciente e de vontade do indivíduo, quando não se tem plena consciência do fazer físico, ela é vazia, é fazer por fazer, reprodução de uma ação que conheci um dia: como porque tenho que comer, respiro porque tenho que respirar senão morrerei, mas não faço de maneira a escolher cada piscar, cada falar, cada respirar, cada mastigar…

As pessoas inclusive acham isso insuportável, a consciência de cada ato, de cada simples movimento do corpo físico. E quando há movimento emocional, sentimental, a maior parte das vezes não é genuíno o que eu sinto, porque, na verdade, eu re-sinto.

Eu constantemente estou ressentindo algo que já senti por alguém. E isso não é só no pejorativo, de ressentir de mágoa, de reter um sentimento de paralisia em relação a alguém, como diz um amigo muito amado, uma má-água, mágoa, uma água parada em relação a alguém, não, o ressentimento é também de gostar, de apaixonar, a reafirmação de gostar por gostar também é ressentir a partir da hora em que a relação não é construída novamente em cada encontro. Porque é muito trabalhoso construir relações a partir de cada encontro, é extremamente trabalhoso, então é mais fácil nos pautarmos em relações que já estão supostamente construídas, então partimos de pressupostos ressentindo tudo o que já foi sentido um dia, e isso obviamente torna muito mais difícil nós amarmos outras pessoas, gostarmos de outras pessoas, perdoarmos as pessoas, e inclusive vermos quando alguém nos faz mal, porque insistimos ‘eu gosto daquela pessoa, mas eu gosto, eu gosto’, porque aprendi a sentir um gostar, seja pelo motivo que for, então passo a ressentir, reafirmar, reagir a este sentimento em vez de simplesmente ter coragem de assumir que a partir de agora não gosto mais daquela pessoa porque a relação acabou, inclusive porque o outro não quer mais construir no hoje, no agora.

Quantas mulheres não passam por isso, há homens também, mas sabemos haver uma preponderância feminina em estar em relações abusivas emocionalmente. E por que continuamos nessas situações senão pelo ressentir? E terminamos ressentidas realmente com os homens e as coisas em geral.

Em termos de grupo isso também se dá, as ideias coletivistas de grupos, o ressentir porque eu, enquanto mulher preta, passo por relações de racismo, então me ressinto em relação aos brancos, aí qualquer branco que falar ou me olhar torto eu vou ressentir o racismo pelo que passei e isso me gerará julgamentos em que não darei a chance da pessoa me olhar torto simplesmente porque passei batom na cara e não vi, porque tem alface no meio do meu dente, e não propriamente ser a minha cor o problema, mas um olhar torto em relação talvez a outro fator do meu físico que não aquele ao qual eu ressinto.

É claro que isso é muito complexo porque não temos capacidade de ver, nem de neutralidade nossa em relação ao acontecimento, nem de clarividência em relação ao pensamento, uma telepatia, de ver o que o outro pensa de fato e saber se o olhar é em relação à cor, gênero ou à alface, algo passageiro, ou se inclusive a pessoa me olhou torto pensando no chefe dela, não em mim, ou se eu lembro ela da esposa, amiga, inimiga, sei lá, alguém que seja uma megera, ou seja, se lembrou de alguém e também ressentiu, e por isso gerou um olhar torto, não pra mim em mim mesma, mas porque sentiu através de mim um sentimento lá do passado dela, eu não tenho nada com isso. Nós estamos ressentindo o tempo inteiro e reagindo o tempo inteiro.

Freud, quando nos diz que sentimos atração pelos pais e com eles nos casamos, é ressentimento, estamos ressentindo algo da infância, o desejo de possuir um dos pais na infância. O ressentimento é necessário para a formulação de si mesmo, sim, ele é necessário, mas não é através dele que se avança, não é através de teorias freudianas que se avança. Elas constatam realmente o passado, mas não formulam o futuro. O ressentimento, nós não deveríamos, a priori, usá-lo para nos casar com nossos pais, mas sim com outros seres, por quem sentimos sentimentos novos. Fazer novas todas as coisas realmente.

Então quando aprofundamos essas ideias vemos que muitas vezes os próprios preconceitos estruturais já não existem mais em si mesmos em termos de genuinidade. E prestemos atenção nisso, o que quero dizer com preconceitos estruturais já não existirem em si mesmos em termos de genuinidade, ou seja, os pretos não são inferiores aos brancos, não importa qual teoria se use para pautar isso: de que a pele vai se tornar etérica etc., bem como mulheres não são mais frágeis, bem como ser gordo não significa doença, bem como nascer na África ou no sul do mundo não significa mais ser atrasado, não importa quantos mapas astrais eu use para corroborar este preconceito, pois todas essas visões são sim ressentimentos, são re-sentir um patriotismo, re-sentir um orgulho da raça, da cor, do ser ariano, o que seja, re-sentir uma situação de enfrentamento, que nada tem a ver com o indivíduo que está ali na minha frente, mas por conta de um traço me faz ressentir o passado e portanto também reagir frente a relação que tenho para construir ali, em vez de construir uma relação genuína presentemente, ou seja, eu acabo construindo com base numa memória ressentida, reagida e portanto, paradoxalmente, não ressignificada, não renovada, mas morta. Não é uma relação viva realmente.

E quando vemos isso em termos do artista, o verdadeiro artista é aquele que consegue ter esse avivamento e fazer com que se crie o espanto. A arte é a capacidade técnica de se criar espanto, espanto nada mais é do que o estupefato, aquilo que te tira do que te prende no dia-a-dia e dá a possibilidade de você voltar ao seu próprio centro, voltar a si mesmo. Para quem conhece astrologia, essa ferramenta romana magnífica, é como Saturno, tão temido, causador de pânico e pandemia em oitavas mais baixas, mas também a panaceia em oitavas exaltadas, quando em Libra. Sabendo que Libra está intimamente relacionada à Arte, bem como Vênus.

É claro que, aí é que está, o que acontece quando não é arte? O que acontece quando é entretenimento é que isso te tira do que te prende no dia-a-dia, mas, para isso, te prende em outro meio, a tal ponto que o estado de estupefação, de estar estupefato, se torna estupidez, porque um estado de espanto prolongado se torna estupidez, que seria como um Saturno em Áries, polo oposto de Libra. Então arte é aquela que te tira das coisas do dia-a-dia, mas tem técnica para te devolver a ti mesmo, porque ela não cria objetos, mas sujeitos.

Uma Monalisa não é um objeto, um quadro simplesmente, mas um sujeito que se apresenta a partir da hora em que você a olha. Isso se dá com qualquer Arte com A maiúsculo, uma verdadeira música, verdadeiro quadro, verdadeira literatura, uma verdadeira escultura. E mesmo uma verdadeira Ciência, uma verdadeira Religião, elas te tiram da lama do dia-a-dia para que se tenha possibilidade de que, encontrando esse outro sujeito que se apresenta, esse outro Conhecimento, uma relação seja construída e você, por ter saído das reações do dia-a-dia, saia também do ressentimento do dia-a-dia, e ali, numa ação genuína, num sentimento genuíno, uma ideia verdadeira seja construída, e nisso, por haver dois sujeitos que ali se unificam, você volte ao seu centro.

Depois de ver uma Obra de Arte a gente volta, no mínimo, mais inteiro para si mesmo.

É como uma boa música que faz você lembrar que tem partes do corpo que já não sabia, isso normalmente quem faz é a doença, uma parte adoece para lembrarmos que ela existe. A arte faz isso de maneira elevada, por isso ela cura, por isso é panaceia, que vem do mesmo pânico que adoenta. Pois ela faz com que você se lembre de todos os pedaços que carrega de si mesmo, claro que dentro da capacidade de cada um, e consciência de cada um, dentro do grau de iluminação ou escuridão de si, isso vai depender de cada um, mas ela em si é uma ferramenta, uma ponte simplesmente.

Já o entretenimento, aquilo que não é arte, te rapta e não te devolve a esfera nenhuma, a ponto de te deixar estúpido, é como pisar na orla: nem areia nem água, é um estado estúpido de entremeios, claro que pessoas com boas intenções dirão: encontrei o equilíbrio, é a orla, entre terra e água, entre a água e o sol.

Mas sabemos que grandes são os sofismas também para compactuar em não ser frio nem quente, nem mergulhado nem secando ao sol, ou seja, não ser inteiro, então fica aquela água dividindo meio a meio, nem lá nem cá, tanto por medo de afogar quanto por medo de secar ao sol, medo de insolação, por assim dizer, de se queimar. Medo do risco do que significa ser e estar inteiro numa experiência.

Então nós criamos dizeres falaciosos para justificar nosso lugar raso de vivência, e o entretenimento compactua com isso, as pessoas passam a inclusive julgar quem vê o entretenimento como problema como elas sendo rasas, afinal podemos ver profundidade em tudo, Deus está em tudo, então posso ver profundidade em qualquer coisa que eu queira.

Claro, eu posso pegar um filme pornográfico e usar como exemplo para ver teorias de Freud, e realmente dá, dá para ver num filme pornográfico como existe um começo, meio e fim e como os atos aliás, as fantasias que ali ocorrem, têm relação com a infância nossa e de quem escreveu aquele filme, se formos levar a um rigor extremo, óbvio que posso usar de qualquer coisa, qualquer prática para unir a qualquer teoria, mas é preciso ter cautela, pois é justo a união de qualquer forma com qualquer conteúdo que cria as grandes deformações que hoje vemos.

É preciso lembrar a todo tempo que se eu sou vivo e busco coisas elevadas, devo ser o exemplo de como se alimentar de coisas elevadas, em vez de me tornar necrófilo para falar a língua dos que comem mortos.

E aí, com base em me rebaixar para falar com mortos ou com os que ‘dormem’, vemos um bando de entretenimento achando que é algo que me alimenta, quando não é qualquer coisa que eu engulo literalmente pela garganta que seja alimento de fato. Existem alimentos que são mortos, e quem vai levando a vida mais a sério em termos de procurar saúde, não num pieguismo de cartilha, de isso pode isso não pode porque mamãe mandou ou papai do céu gosta ou não gosta, mas simplesmente porque coisas fazem bem e fazem mal, passamos a selecionar o que nos entra, seja pela boca, seja pelos ouvidos, seja pelos olhos. Nós sabemos que qualquer alimento refinado por exemplo faz mal. Quer comer? Problema de cada um. Mas é um alimento de fato? Não é. Porque a maneira como ele chega até nós, já morreu, todas as propriedades que ele tinha já morreram em sua maioria, é no máximo um alimento zumbi, um morto-vivo.

Então vejam que capcioso e difícil, porque nós nos alimentamos de carniça mesmo sendo vegetarianos.

Se vamos tendo mais rigor, nada industrializado deveria entrar no corpo. Corpo que empacotou é porque morreu, está em caixa – caixão – está morto. Pessoas vivas dormem em locais abertos, não hermeticamente fechadas. Então quanto mais fresca e livre a comida, mais será um Alimento com A maiúsculo de fato, mais nos devolverá ao nosso centro.

E mais uma vez não significa que não se deva comer o que se gosta e quer, faça o que você quiser, as contas se acertam solitariamente. Mas tenha nessa conta que o incentivo e oferta de comer porcaria aos que nos rodeiam é de nossa responsabilidade, e haverá consequências em se ofertar cadáver aos outros, ofertar entretenimento quando se poderia e já se sabe que se tem o dever de ofertar Arte, por exemplo.

Cada um aceitará e acertará solitariamente, eu não tenho nada com isso nesse patamar de estar aqui para ensinar alguma coisa, não sou ninguém para isso, mas é meu dever proporcionar a possibilidade de pensarmos em teorias e práticas diferentes das que estamos acostumados no dia-a-dia. Mas é aquilo, quanto mais é dado, mais é cobrado, e não é o outro que cobra, mas nós mesmos, bem lá no fundo, pois sabemos quando um alimento nos faz mal, ainda que tenhamos um imenso vício em relação a ele. Se esse conhecer gerará mudança ou não, é com cada um. Eu não estou aqui para tomar conta de vida de ninguém. No tempo de cada um, e na possibilidade da força interna e do querer de cada um e do dever de cada um, essas vão ocorrendo ou não. Não me compete julgar, não estou aqui para julgar, mas apenas para renovar palavras que já foram ditas de muitas outras formas faz milênios.

Assim sendo, não deveríamos ingerir ou deveríamos, no mínimo, nos acautelarmos quanto às ingestões do entretenimento e tudo o que não é arte. Arte vem de um indivíduo que está minimamente acordado para si mesmo, não precisa ser O iluminado, mas a verdadeira Arte vem de indivíduos que têm consciência um pouco mais a frente do que as pessoas da sua época, como Van Gogh, Beethoven, que por mais que seja aplaudido em seu tempo, demora para cair a ficha sobre o tamanho desses seres, seres extremamente solitários, repudiados, tidos como ignorantes, até mesmo burros, rasos, porque são os outros, as pessoas, que não compreendiam, e às vezes até hoje não veem, a profundidade deles e do que eles ofertavam.

Quem vê com os olhos da carne, vê apenas rasidão no mar inteiro, e julga ser através de qualquer raso que se chega ao profundo, mas quem é capaz de caminhar por cima das águas sabe que é sobre um abismo que se caminha desde o começo, e que é ao abismo que se vence.

É preciso ter um tremendo respeito em relação a isso, porque isso é justamente ter consciência todo o tempo do tamanho da profundidade sobre aquilo que se caminha e se faz, de alguma forma, um verdadeiro trajeto.

E mesmo quando se fala: “vamos ver a parte positiva das coisas, vamos ver o lado profundo”, normalmente das duas uma: ou ver o lado profundo daquilo que é raso, em verdade é raso, é a capacidade da pessoa em, com suas ferramentas, fazer um furo na orla, um buraco no chão e provocar ali uma profundidade, o que se pode dizer que tem seu mérito enquanto obra, ainda que ao mesmo tempo tenha o lado da boa intenção, da qual o inferno está cheio, porque não adianta querer ensinar as pessoas a fazerem furos no raso para tornar o raso profundo, é uma falácia, uma deformação grave, ou, numa segunda hipótese, é maldade e perversidade de quem assim ensina! Então eu não sei, não sei mesmo, se convém ficar nessa busca frenética de hoje em dia de encontrar o lado positivo e profundo de tudo.

Sabe pré-adolescente que a gente não pode dizer: peitos, mamilos, pinto, vagina, que ele ri? Pessoas que são espiritualmente dessa idade: riem quando falamos de magia negra, de bem e mal, de dualidades enquanto eixos, sendo que sabemos que há uma grande possibilidade de hipnose quando se cria entretenimentos que nos levam todos a sentir as mesmas paixões e ver as mesmas coisas, a ter as mesmas conexões, especialmente aquelas que eram a intenção do autor. Por mais que ele tenha da esperteza de se dizer neutro, que ele não tinha a intenção de nada disso, ou inclusive se calar em relação à interpretação daquele texto. A responsabilidade de quem faz algo para a massa é imensa, não vejamos tudo isso com olhos tão inocentes assim. Ainda que não seja preciso criar teorias de conspiração, pois isso também é estar tão doente quanto crer que tudo é lindo e belo em si mesmo, bastando a existência. Basta existir para ser lindo, assim como basta o mal existir para ser a conspiração contra mim, querem me pegar, querem me hipnotizar, quem conhece hipnose sabe: só cai em hipnose aquele que se permite cair em hipnose. Então não é um processo inocente, não é um processo de todo passivo. As teorias de conspiração tiram a responsabilidade daqueles que estão em hipnose em terem se permitido estar sob hipnose. Então nos atentemos. Há Responsabilidade para todos os lados, e é preciso se lembrar todas as vezes dela quando se trata desses assuntos.

Entretenimento é simplesmente raso, não tem lado profundo: um filme pornô é só um filme pornográfico, um filme de terror é só um filme de terror, assim como funk é só funk, não adianta querer escutar notas de violoncelo no meio que não vai ter, ainda que tenha notas, mas não dá para ficar fazendo analogias aleatoriamente.

Esse é o problema do analfabetismo funcional em relação à analogia, por ser um lado da moeda cujo verso é a lei da lógica, ela pode, entre aspas, entre muitas aspas, “prescindir da lógica”, então não há lógica comparar funk com orquestra sinfônica, com filarmônica, contudo, entretanto é tudo música, tudo soa nota, então dá para fazer analogias e metáforas, na qual ambas se cruzem em algum ponto. Realmente em algum ponto vão se cruzar, mas nem tudo convém, nem todas as analogias convêm de serem feitas, então eu não sei, não sei se convém, por exemplo, usar de noticiários, quando já sabemos (quem está um pouco mais ciente, com a ciência dos fatos) que notícias, seja o jornal que for, há uma hipertendência a subjetividades deformadas, e subjetividades tais que uma mesma teoria pode divergir os olhares, e podemos falar de diversidade, mas no caso da mídia sabemos que não é a diversidade o que ela visa, mas o marketing, a publicidade e venda de si mesma na propagação de ideias ao inclusive contratar pessoas que sabem dar formas um pouco mais definidas aos pensamentos para que essas ideias se propaguem, ou seja, procuram pessoas que são fôrmas para assar o cérebro alheio e vender o bolo. Então não sei até onde convém pegarmos algo assim e procurarmos o lado positivo disso, como quem diz ‘para olharmos o profundo, só chafurdando na merda, indo na lama que nasce a lótus’.

Há uma grande confusão em relação a essa metáfora e analogia da lama: porque lama não é esgoto, lama não é lixo, lama não é merda, lama é água com terra, só isso.

O Buda Gautama vivia em palácio, tinha família, grandes bens, boas oportunidades de vida, como se diria hoje em dia: ele era um privilegiado, tinha suas regalias. E não é a merda que acontece com ele, ele não larga tudo para ir à merda, ele abandona tudo simplesmente para ir conhecer o sofrimento, para ir conhecer o sufoco de não ter uma terra firme onde pisar, nem uma água límpida a ponto de se conseguir ver, ele escolhe se dar em experiências que são crucificantes, que são sofríveis: de privação de lar, de privação de comida, de companhia, de higiene, de planos, privação de várias coisas que hoje nos confortam, inclusive numa zona de conforto mesmo, no termo negativo dessas escolhas, ainda que elas tenham sim seu lado positivo. E assim também, de maneira mais elevada, oitavas acima, mas seguindo analogamente este específico princípio, está o Cristo, que abandona pai e mãe para ir por aí, com galera com pedra na mão para matá-lo, sem garantia de casa, comida, conforto, e nem mesmo de vida, tanto que termina morto.

Então só com esses dois exemplos já conseguimos ver que os espinhos de uma rosa, bem como a lama de uma lótus, não é a mesma coisa que chafurdar na merda do dia-a-dia, não é. As pessoas têm essa falsa crença para si, seja por comiseração de si mesmas, seja por astúcia, por não saírem de sua zona de conforto, seja por mornidão, seja por fraqueza, pelo motivo qualquer que seja, elas repetem para si mesmas que se chafurdar na merda da sociedade, na podridão das relações, na rasidão do entretenimento etc. é fazer os espinhos cravarem na pele e fazer a lama cobrir a semente, quando isso não é real, é ilusório, porque o que esses seres passaram, seja num grau de Buda, seja num grau de Cristo – e entram aqui vários outros de várias tradições – nada tem a ver com a nossa pobreza e miséria nossa cotidiana, tem a ver, sim, com miséria de si mesmo, uma miséria tão grande de si mesmo que se entregam ao mundo com uma plenitude que justamente é dificílimo de ser alcançada, senão todo mundo era Buda e se cristificava, mas isso é dificílimo, dificílimo. Eu sinceramente não sei até onde o esgoto faz parte, não sei, não sei mesmo! Talvez fazer parte inclusive faça, mas aí é que está, por que torná-lo foco? Por quê? O foco não está no adubo, mas na terra que se lavra, o adubo é consequência dos animais que ali mesmo passam. Não é preciso buscar cocô para haver cocô na terra se ali há uma biodiversidade de fato, é diferente.

Não sei até onde isso é só uma astúcia nossa em ficar reproduzindo literalmente merda e nos ensinando a reproduzir e, pior, achar que a merda é necessária para acrescimento e desenvolvimento enquanto homens, sendo que grandes homens, como um Hiram Abiff, jamais perderia seu tempo com outra coisa senão a creação de si mesmo, a busca e o encontrar exercícios que justo o levem para o céu de assalto, que garantam que consiga se elevar, em hora alguma isso é chafurdar na merda. Esses homens não chafurdaram na merda do ser humano, pelo contrário, no máximo, chafurdam na merda de si mesmos, mas isso não significa fazer merda, e sim conhecer a merda que inevitavelmente historicamente se tem feito. Não sei se é possível ver, mas é abismalmente diferente.

Ainda que sim, tenham sido capazes de ver pérolas nos dentes do cachorro, isso é verdade. Mas quando é necessário, quando convém, porque os outros ficavam falando do morto, porque os outros ficavam falando do cachorro morto e falando de morte. Então é necessário vivificar? É, mas sabendo exatamente o que convém falar para que aquilo ganhe beleza, não é com base numa mentira, porque certamente o dente daquele cachorro devia ser branco como uma pérola, não é como se um dente meio podre ou amarelo, por falseamento, Cristo falasse que era como uma pérola, ele não precisava mentir nem falsear para ver a beleza e bondade das coisas, inclusive na morte, inclusive na tragédia.

A tragédia é cheia de beleza, vide os teatros e peças gregas, são belíssimas, titânicas, altamente eletrocutantes, cortantes, castradoras, catárticas, levam para a caverna, sendo que ainda assim, inegavelmente, são belas! Todo o caos, toda a destruição, angústia, obscuridade humanas estão ali, e belas! Não é o negar pelo negar, não é o não ver o morto…

É completamente diferente de ficar procurando elevação onde só há superficialidade, pois também é um ensinamento não jogar pérolas aos porcos, bem como não atirar coisas santas aos cães [Mateus 7:6]. Que dirá ver pérolas e coisas santas saírem da boca de porcos! Certamente esse também não é um ensinamento. E mais, a pérola estava na boca de um cachorro, não de um porco. E ter discernimento para conseguir compreender essa diferença entre os animais é crucial, pois aí reside um ensinamento também. Não se compra gato por lebre, e nem se deve confundir mamíferos só porque aparentemente pertencem a um mesmo grupo. As aparências enganam, para o bem e para o mal, por isso que de boas intenções o inferno está lotado!

É preciso saber o que se vê, ter uma grande observação e um imenso discernimento. Senão a gente fica achando que evolução é aumentar o estado de miséria em que nos encontramos, enquanto que misericórdia é esvaziar o coração dos nossos próprios preconceitos, sendo que preconceito não é só quanto a etnias e coisas de grupos, mas também quando eu preconcebo que tudo é lindo e vou encontrar gota de beleza em algo que é completamente feio, e pior, quando eu não sei ver a beleza real daquilo, por aquilo ser si mesmo, porque a beleza do que é raso é ser raso, e não cavar um buraco e dizer que é profundo porque eu vejo.

Encontrar a beleza daquilo que é o que chamamos de mal está em ser mal em si mesmo, não em transformar em bem, ainda que ele contenha o bem como gota potencial dentro, e podendo vir a se tornar um, quem sabe… Mas as pessoas têm dificuldade em compreender a beleza do mal pelo mal em si mesmo, e quando mostramos que algo é raso e só raso mesmo, elas se ressentem, tornando a ficarem eufóricas e alegres em encontrarem o bem dentro do mal como semente.

O ressentido é aquele que espera sentir novamente um determinado sentimento em relação a algo ou alguém. Nós tendemos, por cegueira nossa, ver como ressentimento apenas aquele que fica triste, frustrado ou com teorias que alimentam uma interpretação torta, deformada em relação ao ocorrido dentro da relação, mas mesmo aquele que sente a alegria e euforia de se contentar com algo dentro de uma expectativa é um ressentido, nós apenas não vemos porque tendemos a analisar ressentimento apenas como algo negativo, de perda.

O entretenimento é raso, a partir da hora em que se interpreta como algo profundo, não se vê o fato em si, e se alguém diz que é raso, a gente se ressente e cava mais um pouco o buraco na orla da praia para se convencer de que ‘olha, é profundo sim, eu vejo’.

É claro que o que é profundo para uns pode ser raso para outros, então claro que uma criança pode dizer, numa análise, que um determinado ponto da praia é profundo para ela, quando um adulto compreende que não é profundo em si mesmo, mas em relação a ela – criança, bem como raso em relação a ele – adulto.

Aí surge uma outra questão: como sair de uma interpretação subjetiva deformada, ou mesmo objetiva, cristalizada, mas que é pautada somente em mim, em um eu adulto ou infantil? A saída talvez seja através dos Outros. É como observarmos uma personagem somente pela sua gênese e nisso dizer se o texto é profundo ou raso, sem vermos as personagens e todos os atos ao redor. Ver o todo depende de ver os seres que ali se encontram e, ainda mais, as relações que foram criadas.

Se sabemos que a analogia, e mesmo a lógica, carrega Outros ao lado, porque na lógica há mais do que apenas uma constatação objetiva baseada em um sujeito – a lógica não pressupõe apenas uma afirmação derivada de mim mesmo, bem como a analogia também faz com que vejamos que, se tomamos um espelho, ao mexer meu braço, as figuras, imagens, os ‘sujeitos’ que estão ao redor irão também se mover de maneira análoga, ainda que não necessariamente idêntica, então temos a oportunidade de ver que algo será minimamente profundo se outros ao redor também aprofundam algo naquele fato em si mesmos, não porque eu cavo um buraco e mostro, mas porque eles aprendem a cavar buracos por si próprios, aprendem a praticar profundamente a teoria que eu mostro, e mais, aprendem a ver que não é preciso que eu abra buracos nem mostre o raso, isso já há em todos os lugares. Ganha-se a capacidade de constatar, de observar, e a partir daí discernir que o verdadeiro ato não está em reproduzir o que já está criado, dado, mas sim em crear uma nova forma de se relacionar com o raso da orla e o abismo do mar em si. Como, por exemplo, em vez de cavar, voar, em vez de afundar, levitar, caminhar sobre qualquer superfície que se queira, ainda que não haja sequer lama onde deitar a raiz.

A raiz em si passa a estar naquilo que é invisível aos olhos, sem com isso fazer com que qualquer coisa se torne necessariamente boa.

Há um moralismo em querer transformar, quase que de forma infantil, tudo o que é mal em algo bom, o que é feio em belo, em vez de se aceitar que são polos, e sendo polos de um mesmo eixo, precisam ser trabalhados como são em si mesmos. Isso é encontrar a possibilidade de um centro. Não precisar transformar o Outro em algo outro senão ele mesmo, ainda que isso signifique rasidão, obscuridade e baixeza.

A palavra vilão, por exemplo, vem etimologicamente de algo que se torna baixo, sem valor. Oras, se tornarmos como exemplo uma moeda antiga, ela não tem valor em si mesma no mercado de trocas, eu não compro nada com ela, mas ela tem valor sim como relíquia, como tendo sido necessária num tempo outro, tendo se tornado sombra da luz de agora. Não é preciso fazer com que ela volte a circular, querer dar valor de mercado para ela, mas sabendo que, se se vende e compra este tipo de moeda, é por conta dos valores além do que ela representa em si mesma. Isso só se torna possível por conta dos valores que a ultrapassam e do mercado de trocas que continua circulando e acontecendo, o mérito não é dela, mas daquilo, ou daquele que a ressignifica e, portanto, a torna nova aos olhos de quem a veja. Mas não é possível conversar sobre valores de mercado, sobre vida corrente, usando moedas antigas como exemplo, querendo fazer delas o valor hodierno, não vai dar certo. O que passou, passou, ainda que seja preciso ter seu grau de valor justo pela mudança que se possibilitou através daquela moeda enquanto ferramenta. Mas veja, enquanto uma moeda circula ela não é vil, porque ela é aquela que simboliza o valor em si mesma, ela se torna uma representante do valor, um símbolo do valor. Ela se torna vil quando deixa de estar em circulação para ser substituída por outra.

Quando nós acreditamos muito no entretenimento podemos observar que ele compõe a cultura. Agora, pensem: um Leonardo da Vinci não é a cultura de um povo, um Shakespeare não é cultura de um povo, por mais que se diga e que seja o maior poeta inglês, maior poeta italiano (eu coloco Leonardo como poeta no sentido tradicional grego, de Diotima), por mais que os países onde eles nasceram os tenham patrioticamente como seus poetas, tais quais seus donos, ainda assim, a verdade é que um país é pequeno demais para comportar nomes como esses, seres como esses, é como se eles fossem não só do mundo inteiro, mas inclusive de outros planetas. É como se fosse pequeno eles pertencerem só à Terra, só à Inglaterra ou uma cidadezinha onde nasceram.

A cultura por outro lado é pontual, cultura daqui, cultura de lá, de um bairro, de uma periferia, cultura de uma cor, de uma etnia… acabou aquele povo acaba aquela cultura, aquele jeito de fazer e pensar, por assim dizer.

Mas um Shakespeare pode nascer e morrer quantas vezes ele quiser, ele nunca vai acabar. Um Shakespeare é eterno, né. E não porque se torna um nome na materialidade, porque os nomes passam: Shakespeare também irá passar, ainda que seja prudente ler até hoje Homero, mas ainda assim tudo o que esses seres construíram vai continuar sendo construído por outras pessoas, individualmente, porque a técnica vai sendo passada para frente e vai elevando cada um que a recebe como dom, como graça, como dádiva celeste.

É justamente por conta do próximo que carrega a técnica que o artista continua vivo. Ele ama o próximo como a si mesmo, em todas as extensões do termo. Ele ama em cada palavra, em cada pincelada, em cada tela, em cada nota, em cada pedra, em cada bater de martelo!

Tudo o que tem a ver com altitude tem relação com fogo: o fogo é vertical, assim como o ar também o é. Mesmo que aparentemente se possa dizer que o ar é horizontal por passar entre nós, seu princípio é verticalizante, quem observa o nariz sabe, pois uma boa respiração revela essa verticalidade.

A maior parte das pessoas respira pela boca, mas a verdadeira respiração é pelo nariz, pelas narinas, e elas são verticais, assim como o diafragma sobe e desce. Então o verdadeiro ar, quando elevado em sua prática, faz com que a teoria se apresente também de maneira elevada por nos elevar até um patamar de centramento em si mesmo, centramento esse em que eu escolho cada respiro que dou – ainda que para muitas pessoas isso pareça absurdo, porque maior parte do tempo respiramos de maneira automática, involuntariamente.

Um bom exercício é ler livros em voz alta, falar em voz alta, sem intenção de nada, sem estar dando aula, sem ter intenção, sem estar proferindo um discurso apaixonado, mas só falar, só ler… e se possível gravar. Nós vamos vendo que a maior parte dos erros, senão todos, que se comete tem a ver com uma inconsciência do respirar. E quanto mais se quer ser assertivo no que se fala, no sentido de ter uma fala limpa e não ter que se corrigir, em uma palavra que se tropeça, ou numa oração, numa entonação ou numa conotação errada que se dá, isso só se melhora se aprendemos a respirar.

Então cada respiro começa a se tornar extremamente importante, e começamos a ver que eles fazem parte do texto junto com as palavras. Que para eu aprender a ter técnica para exalar o ar, porque falar nada mais é que exalar o ar na horizontal, que vem de uma vertical profunda e sai numa horizontal, eu preciso antes aprender a inspirar com o órgão que é mais elevado do que a boca, aliás: um ar superior que entra para que um saber inferior saia, porque obviamente perto d’Aquele que me inspira eu nada sei e nada sou em verdade.

Perto do silencio que me penetra, meu dizer nada é senão vãs palavras.

E ainda assim, paradoxalmente, é necessário dizer, é necessário expirar.

Se observarmos aquilo que é raso veremos que é também infinito, pois se observarmos o infinito, fotos da galáxia por exemplo, é quase como se ela fosse chata, por isso a ideia da Terra plana, ela não existe à toa, ainda que falsa, porque a Terra é redonda, mas a galáxia dá a impressão de ser quase plana, se repararmos, porque o infinito é justo a impressão desse raso aos olhos da carne, o raso que se perpetua até não poder mais, o horizontal, o infinito que é o horizontal, assim como o eterno é vertical, aprofundando ao elevar.

Talvez um dia a gente venha a descobrir que a galáxia também não é essa ideia que nós temos em foto de que é como um rastro de planetas e luzes, como uma nuvem que se estendeu de forma achatadamente espiralar. Talvez um dia venhamos a acordar para uma realidade esférica da galáxia também, e espiralar em profundidade, e não em achatamento.

Tudo aquilo que é esférico possui um centro, porque o que é infinito obviamente em relação ao que é eterno forma a cruz e em um ponto eles se encontram – porque o infinito é horizontal, o eterno é vertical, então o infinito em relação ao eterno forma uma cruz e onde eles se encontram tem esse ponto, e esse encontro, esse ponto, forma o centro. Então quem passa pela cruz, pra quem passa pelo encontro do profundo e elevado com o infinito e raso (superficial em termos não só pejorativos, mas também bons no sentido de que é necessário e belo, sendo no raso que se coloca os bebês e girinos e peixes, no raso que a vida se dá e muito da beleza do nascimento da vida pode ser visto), para quem passa pela experiência da cruz em seu sentido mais simbólico e belo e bom e verdadeiro, claro que é o encontro do infinito com a eternidade e vai ser necessário vivenciar ambos, então vai haver horas de entretenimento e horas de Arte, horas de coisas mundanas e horas de coisas elevadas, celestes, espirituais. Vai haver hora para tudo, contudo, não confundamos: as coisas mundanas já nos são ofertadas a todo instante. Então quando for produzir e ofertar uma experiência, por que não deixar de ofertar o entretenimento para oferecer Arte, e com isso gerar atração, não para a infinitude de quem reproduz à vontade, mas sim para exaltar o que nos eleva por ter eterna profundidade?

Sabemos também, se paramos para pensar em seres elevados, homens e mulheres elevados, que nós os admiramos justamente por sua capacidade de alta técnica, alta capacidade de creação, e não de reação, mas de ação no mundo, não de ressentimentos, mas de sentimentos genuínos e verdadeiros, de concepção de ideias imaculadas, então paremos para pensar: será que Beethoven teria tempo de ir ao cinema, por exemplo? Isso para não citar Cristo, Buda, porque daí é ‘não’ com certeza. Mas claro, um Beethoven, assim como um Cristo e um Buda, eu penso, pode ser inocência minha, mas, se fossem, um Beethoven estaria pensando em quê? Na Música. Um Buda em quê? Na Iluminação. Um Cristo em quê? Na Cura, na Ressurreição. E não vendo o filme propriamente, o cinema seria apenas um pano de fundo, um local em que ninguém fosse incomodá-los, por exemplo – apesar de hoje todos buzinarem na orelha mesmo com um filme na tela e o som no talo.

Mas se pensamos num Fernando Pessoa: ele não saia de sua casa quase, uma Emily Dickinson: ela não saia de seu quarto… Leonardo da Vinci aos trinta anos chegou a escrever que já havia perdido tempo demais… meu deus, se um Leonardo da Vinci, aos trinta anos, perdeu tempo demais, o que tenho eu feito da vida então??? O que nós estamos fazendo??? Perdendo mais e mais Tempo! Porque não é se livrar do Tempo, pelo contrário, não o perca, porque Tempo tem a ver com Cronos, que tem a ver com Pan, eles são figuras que estão relacionadas, arquétipos que estão relacionados em relação de oitavas, e Pan assustava quem andava pela floresta desatento, inconsciente, de maneira involuntária. Se nós perdemos Tempo, Pan com certeza irá assustar-nos.

Será que um Shakespeare teria tempo para ouvir qualquer coisa que fosse da moda? Que fosse da cultura? Eu duvido. Porque eram seres ocupados demais em servir através de um serviço próprio, não porque fossem vaidosos – ainda que isso não signifique que não houvesse vaidade envolvida, não eram perfeitos, a não ser Cristo, mas tomando aqui somente aqueles que não são Deus, ainda, porque sim, seremos deuses, está inclusive na Bíblia e todas as tradições nos trazem isso, porém não sendo ainda perfeitos, há vaidade envolvida, mas não era apenas vaidade e egocentrismo, mas eram pessoas que queriam genuinamente deixar algo maior para humanidade, porque elas sabiam, olhavam pra tudo e viam, basta a gente parar e olhar pra tudo que a gente vai ver que tudo é reprodutibilidade – tudo é reação, ressentimento e reprodução, e, olha, estamos falando de 500 anos atrás. Imagina hoje em dia, o quanto não necessitamos urgentemente de seres tão elevados quanto! Urgentemente! Que eles tenham piedade e desçam à Terra para realmente fazer novas todas as coisas em conjunto, seguir o exemplo máximo que nos legou Cristo Jesus. Porque é sobre isso que se trata! Sobre renovar essa reprodutibilidade vazia que nos cerca e nos afoga na merda e a gente ainda jura que é o espinho da Rosa que um dia vai ser desabrochada.

Claro que o problema de Leis da Lógica, das Leis elevadas, dos Axiomas herméticos, é que eles dependem muito, senão exclusivamente, de uma alfabetização que está muito além do que hoje a gente é capaz de compreender e apreender; nós repetimos Axiomas herméticos e Leis de Lógica e de Analogia e as usamos de qualquer jeito, quando na verdade se tivéssemos realmente capacidade de ver o que nós fazemos, nós veríamos que, meu deus, nós ainda não sabemos o que fazemos, e Cristo Jesus repetiria uma vez mais: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem. [Lucas 23:34]. Nós não sabemos o que fazemos, e isso não significa sair fazendo qualquer coisa: quanto mais se faz qualquer coisa, mais não se sabe o que se faz.

Nós ainda compactuamos com astúcias e usamos da Analogia e da Lógica e de saídas fáceis, como quem diz ‘assim como em cima, embaixo’ para justificar que se o profundo é sombras, se o fundo do mar é pressão a ponto de implodir, ser obscuro e quase, quase, não haver vida, então tudo bem eu crer que deus está morto e sair explodindo tudo, porque afinal profundidade é implosão, e o que será o elevado senão seu oposto, explosão? E aí fica acreditando em Big-Bang e recorrendo a Leis de Lógica e Analogia que são puro sofismas por conta de um analfabetismo funcional nosso em relação aos Axiomas que são Verdadeiros de maneira muito mais profunda do que temos capacidade de compreender e apreender no atual estado e momento.

Nós começamos a usá-los para analisar qualquer coisa e dizer sandices. E não pretendo com isso fazer um julgamento: isso não é uma corte e uma sentença de nenhuma forma, mas apenas um apontamento, porque nós estamos muito cegos e usamos de nossa ignorância para justificar e continuar reproduzindo cegueira, reagindo, ressentindo, reproduzindo mais do mesmo, e se convencendo que esse ‘mais do mesmo’ é elevação do ser, quando não é, não é! Porque elevar-se tem a ver com técnica, tem a ver com Arte, com propriedade técnica que é Ciência, passa pela Ciência, assim como ela, sendo Conhecimento, passa antes pela Religião – a Religião, que nada mais é do que a aceitação simplesmente, porque é preciso primeiro aceitar as coisas serem como são, para depois parar de se aceitar para querer conhecer propriamente, ou seja, tomar ciência por si mesmo. Se olharmos a sério, não estamos ainda num patamar de ciência de fato, apesar de toda a ciência que falsamente existe de uma técnica rasa, e não elevada, ainda que a técnica elevada, na ciência, haja: porque há a ciência elevada, como a Ciência Esotérica, por exemplo. Então há a medicina de um Paracelso, extremamente elevada, uma ciência extremamente elevada como os alquimistas, enfim, várias tradições e suas escolas, suas sabedorias milenares. Mas para a grande parte da população, essas coisas ainda são desconhecidas, ou mesmo quando se está em um estudo desses são, muitas vezes, rasamente conhecidas.

Então, daquilo que se aceitava enquanto tradição (a Religião) passa-se ao conhecimento, em termos de tomar ciência em si mesmo daquilo que era passivamente aceito, e ainda haverá um momento em que essa ciência será consciência, será uma ciência conjunta, que é o que possibilita a Arte.

Não é propriamente a Religião que religa, a Religião é a ligação natural que já há sendo reproduzida, ou seja, é a reprodução da ligação natural que já existe, mas a Arte, a Arte enquanto ponte, enquanto ferramenta que apresenta um sujeito ao outro, e presentifica o Eu através do Tu que se creou com forças internas de algum creador, de algum homem-creador, a Arte, ela realmente religa no sentido de elevar, de inovar, e nos devolver ao centro de nós mesmo e, nisso, ao voltarmos ao nosso centro, ou talvez estarmos e sermos nele pela primeira vez conscientes, nós temos a possibilidade, não é a Arte que faz isso, mas ela gera a possibilidade de, tendo e sendo neste estado, configurando esse conjunto de fatores sincrônicos e arquetipicamente postos e centralizados, com isso, se abrir uma brecha para que o milagre aconteça, para que Deus apareça e Cristo nos fale.

É claro que eu poderia falar de outras tradições e outros ditos avataras etc., mas meu dever aqui é falar de Cristo, porque Eu Sei que Ele é o centralizador de todas as tradições, Ele é o centro de todas as tradições, ainda que em cada tradição a gente vá encontrar um ser que reflita Ele, que represente Ele, uma possibilidade de faceta d’Ele em cada tradição através de cada ser, de cada mestre espiritual que existiu em cada tradição, e aí cada um irá identificar esse arquétipo dependendo do seu grau de consciência, e tudo bem existirem facetas, mas o maior grau possível de ser alcançado hoje do face-a-face é através do Filho e do Pai, ou seja, não é sequer somente através do Cristo, mas do Pai-Cristo, pois que são um só em Verdade. E claro, sabendo que para além disso, há também o Espírito Santo, que é aquela Forma, aquele Ser que está preparado para se unir a esses Seres mais elevados.

Então é preciso tomar muito cuidado e nos acautelarmos em relação àquilo que ingerimos, porque claro que posso assistir um filme pornográfico, como dito, e estudar teorias psicológicas em relação a isso, nós podemos fazer toda uma abstração semiótica em relação à movimentação e fantasias relacionadas ao desejo daqueles atores, daquele enredo, porque por mais esdrúxula que essa ideia pareça, sabemos que há um enredo a ser seguido à risca, pois filmes pornográficos são muito bem pensados, pois é isso, se não souberem fazer um roteiro e sequência de imagens que mexa duma maneira especifica com o público, a máscara cai facilmente, e não acreditamos no que vemos, fica explicita a vulgaridade do ato, a vulgaridade no sentido mais cru dela mesma, porque o ato sexual em si pode não ser vulgar, o ato mais vulgar num filme pornográfico é o quererem te embutir falsos prazeres e falsas ideias, porque os próprios atores muitas vezes não sentem prazer algum ao fazer aquele ato entre eles, não é algo prazeroso, por assim dizer, é apenas morno… Então a vulgaridade está na perversidade em vender uma falsa relação, a relação mais básica, o sexo animalesco, pois até os animais se relacionam sexualmente, e ainda assim nós conseguimos falsear até mesmo isso, essa é a maior das perversidades: falsidade e vulgaridade num filme pornográfico é isso, e não o sexo em si mesmo. O que não significa que o sexo está liberado, mas são etapas dum processo. Antes um sexo vivo que um sexo morto ou morno, a morte e a mornidão são muito mais vulgares do que um ato, ainda que sexual, vivo. Pois não há vergonha naquilo que é vivo, mas quem é vivo sabe que nem tudo convém. Apenas isso. E sexo passa a não convir depois de determinado tempo.

Claro que consigo usar até mesmo um filme pornográfico para analisar a mente humana, a infância, problemas psicológicos ou não que cada um vai ter, manias, fetiches, taras, parafilias, o nome que se dê. Resta perguntar então, convém fazer isso? Não convém, é desnecessário. Com tantas opções do que analisar, é desnecessário. E é isso, não é sendo moralista, porque a margem faz parte da água, faz parte do oceano, talvez aliás sua grande beleza esteja na praia, no encontro do mar que se torna raso para poder encontrar a terra, mas ainda assim, não se vive somente disso, a quem quer ir longe: é preciso correr o risco de morrer afogado, é preciso correr o risco de morrer de uma insolação, isso separando o sol da água, o fogo da água, porque se unimos, é preciso correr o risco de afogar-se, de andar sobre as águas e afundar, tal qual pedra, mas ainda assim é preciso, primeiro, estar num barco, navegar, e uma hora se despir do barco, descer dele e ver que andar sobre o mar é caminhar sobre o abismo com as próprias asas.

É claro que é inocência acreditar também que as asas são nossas propriamente, mas um dia serão, pois nos são dadas, foram feitas para que nos sejam genuinamente dadas se nós quisermos construir uma relação com elas, fortalecer os músculos nessa caminhada, nesse bater de asas, senão é igual Darwin escreveu: elas atrofiam. Quem não usa determinado músculo, atrofia, bem como determinado órgão, e como pássaros que não usam as asas, nós deixamos de voar um dia, então as asas não são nossas, mas nos foram dadas para que sejam apropriadas por nós. E apropriadas no sentido mais elevado do termo: de tornar próprio, tornar de uso privado, ou seja, tornar de uso do indivíduo algo que é comum a todos. Todos têm a potencialidade de ter asas, mas poucos realizam o trabalho técnico de se apropriarem dessa ferramenta de fato.

Então pensemos melhor sobre o que é Arte e sobre os entretenimentos que escolhemos para que façam parte da orla da praia, que saibamos ter sabedoria em relação a ambos, e, principalmente, que aprendamos a observar e discernir um de outro e saber quando convém cada um, porque há entretenimentos que simplesmente não convêm hora alguma, como jornais que só geram coisas ruins, músicas que só causam ruídos dentro de nós, filmes que não nos devolvem a nós mesmos, mas nos lançam ao furor das paixões baixas e da crendice de massa ou a um passado materialmente histórico violento (remetendo a Marx)…

Que estejamos atentos para que, dentro do nosso espanto e estupefação, não nos tornemos estúpidos demais. Sabendo que faz parte da estupidez crer que a asa é própria, ela é para apropriação, mas não própria do indivíduo: Não somos super-homens (como alegou Nietzsche), mas podemos nos tornar seres que levitam, que voam e que fazem coisas que hoje a nossa imaginação duvida!

Que saibamos ter da estupefação, e que o espanto, acima de tudo, seja na horizontal ou na vertical, nos devolva ao ponto em que nos vejamos realmente postos entre estas duas instâncias, e que vejamos que no meio delas, bem onde se encontram, está nosso Coração. Que nós o ouçamos e que a Arte, a Ciência e a Religião, ou seja, a Verdadeira Espiritualidade, nos tire das reações, dos ressentimentos, das reproduções e nos devolva ao nosso verdadeiro Centro para que possamos verdadeiramente nos ligar a algo superior, algo a mais:

a Arte como ponte ao Outro, Irmão a quem Eu encontro, por finalmente voltar

ao Pai.

Lavramento

 

Mestre, hoje eu te chamo de boca cheia
pois tenho espaço sobrando no coração, meu estômago da vida,
com tecido que digere tudo e me une ao mundo
então peço, houve tempo de murmúrio
ouve agora minhas preces. Conduz-me ao caminho das frutas
que já sei dos tempos de sementes
pois sob o sol quente semeei lavoura doura de trigo
para o corpo como sustento – salpicado sal na terra
aprendi a medida das chuvas, choro apenas o tempo certo
apropriado para verter umidade à semeadura;
a raiz presa à terra precisa da sutil fonte para tornar-se barro
modelar-se às mãos que irão se fartar do futuro pão –
que eu saiba dividir minha seiva, assim como ofertas a todos a tua água.

Mestre, que me ensines a hora exata da colheita
a hora em que o caule em flor está pronto para ser cortado
pois bem sei que a flor tombará beleza seja em solo que lhe faz barriga
seja em arranjos para os olhos alheios
– tenho dentro de casa buquês e vasos espalhados
e do balcão de vidro observo o campo:
é tempo de seca.

Mestre, me ensina a molhar a boca com teu nome
para que eu encha não só os olhos da fome mas também os ouvidos da sede,
sei que no vento vibra o pólen sagrado que faz com que a natureza esteja sempre cheia,
e assim também quero meu pasto, com verdes gramas
para que amorteçam a queda dos que vêm a cambaleantes passos
e eu mostre na matéria as marcas dos que vieram atrás de ti antes.
O vento sopra e traz o pão, este quero ressoar
estremecer a plantação, revelar à visão e audição
que o horizonte é reta que se encurva e sobe
e estamos nela, andando a buscar dias de sol
que também compreendi ser necessário fogo em fragrância de raio
para que o crescimento seja constante;
e como oração que alimenta através do ar
que tua luz seja inebriante, pois se à lua tua grandeza já clareia
dividindo o brilho com outras estrelas, é de dia que transferes toda tua força
até a quem adormece em profunda cegueira.

Mestre, que eu seja capaz de te chamar em mantras ao constantemente trabalhar
nos crepúsculos, pois as horas em que tua generosidade e força se encontram
é quando a beleza e harmonia se tornam potência de começo e fim
um ciclo comum a todos que têm o suor a pingar no pó junto de tua chama a subir
e as mãos a cozinhar os frutos em fogo brando ao te contemplar em brasas até sumir…

Que o que foi preparado nos ciclos diários seja degustado à mesa, cheia:
de pratos fartos com elaborados sabores, de pessoas boas cuja simplicidade é sua maior riqueza,
que sabem o valor dos ingredientes, que admiram as estações e suas transformações,
que prezam a determinação do tempo em tornar tudo sempre mais saboroso
– aquilo que para uns é mera repetição, e que nós,
ao sentirmos tua energia na iguaria que sustenta nosso corpo,
temos certeza de que é o gosto que se depura
ao nos fartarmos com teu singular manjar de ouro!

Mestre, meu peito oferto a ti, o pedido é sincero
da terra que vejo
da água que verto
do vento que ouço
do fogo que ofereço
faz dos infindos pastos lugar de floreio
que a primavera arda no coração da mata – sei que após as pedras
há um oceano imenso, e entre o mar e minha casa
há que se ter das germinações para que um dia seja flores esta
então me ensina a plantar com perseverança e determinação
com profundidade e altivez ao multiplicar o que é de tua natureza.

Mestre, não peço muito, que nessa vida nada desejo
senão saciar os corações do mundo com o amor que cresce
no quintal que me deste para que junto de ti eu aprenda
a ter humanidade no cultivo
e sabedoria na colheita.

 

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a Comum Idade e a Diversa Idade

Dedicado a Fernando!
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Comunidade.

Eis uma palavra que tomo a liberdade de usar como brinquedo. Se pensamos nela como um duplo, com dois lados, tal qual moeda (para que de algo nos valha), qual seria seu avesso? Ou ainda, comunidade sendo ‘coroa’, qual palavra seria sua ‘cara’?

Ao olharmos ela de perto nesse brincar, para ver seus detalhes, podemos desmembrá-la, apenas a título de imaginação e curiosidade, em dois termos: uma Comum Idade. Assim sendo, seu avesso seria uma Diversa Idade, ou seja, diversidade – que etimologicamente significa voltar-se a diferentes direções.

Tendo essas duas como cara e coroa desse nosso brinquedo de palavras, recordo o que disse Manoel de Barros em seu poema ‘o livro sobre nada’: “Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”, e assim sendo, sentencio, junto ao laudo poético e Manoel de Barros como meu advogado, por digna, inocente e, portanto, livre essa nossa caminhada.

Tendo Comunidade e seu avesso, Diversidade, podemos observar como nações antigas ou mesmo tribos (que hoje chamamos justo de comunidades indígenas ou aborígenes etc.) carregam o tradicional como forte traço de seu passo. Assim, se analisamos o Japão, por exemplo, vemos um país extremamente rígido quanto a regras e leis, normas que seguem enquanto tradicionalismo, tendo todos, ainda que uns mais velhos que outros fisicamente, uma ‘comum idade’, ou seja, os mesmos valores, mesmos princípios, mesma raiz voltada para o mesmo patamar de consciência, por assim dizer – ao menos em sua maioria, mesmo que isso signifique uma vivência forçada.

Lá podemos ver que há realmente algo de rígido, sendo um dos países com maior índice de suicídio por não aguentarem tamanha rigidez, aliás. O que nos mostra que mesmo que se alegue que há diversidade na forma de se vestir e de se preferir algo, ainda assim, o tradicional é tão profundo, que a tentativa de divergir se torna apenas superficial, externa: na forma como me visto, mas não muda a forma como se relacionam, sendo tão duras as relações que algumas pessoas vivem um isolamento completo, a ponto de preferirem robôs e mecanicidades a interações reais e de vivacidade.

O mesmo observamos, ainda que sob um diferente ângulo, em comunidades tradicionais indígenas. Não irei citar etnias, creio ser desnecessário, mas já passei pela vivência de ouvir em alto e bom tom publicamente um líder indígena dizer que homossexualidade “é doença de branco da cidade, lá a gente mata quando nasce pra não crescer e virar praga”. Sim, ele disse que matam, literalmente matam os homossexuais quando pequenos para não crescerem e acabarem passando essa doença para os outros que são heteros, vulgo, normais – o comum. Mas ninguém quer discutir a homofobia que existe no Brasil, por exemplo, ser diretamente ligada às raízes indígenas, pois, até onde eu saiba, os ‘brancos’ sempre fizeram altas orgias – vide os incestos e endogamia da aristocracia, vide Sodoma e Gomorra: está até na Bíblia!

E onde se chega com tudo isso? Se chega no fato de que romantizamos a ‘comum idade’, pensamos que viver em comunidade é algo belo e primoroso, claro, pois todos temos necessidade de raízes e tradição quanto aos nossos laços. Buscamos isso enquanto sangue, enquanto consciência de grupo com o qual eu busco me identificar por não saber quem eu sou de fato. Então sendo preta irei buscar minhas raízes pretas, sendo indígena idem, sendo branco também (e daí provém o perigo do nazismo, aliás), mas basicamente todas as identificações com etnias vem de uma busca pelo grupo ao qual pertenço, com o qual eu deveria ter uma ‘comum idade’, afinal, temos a mesma raiz, a mesma tradição, nos unem as mesmas crenças e sensações quanto aos fatos vividos e nossos antepassados.

Mas a realidade é que a diversidade se torna cada vez mais preponderante, especialmente no Ocidente: lar que recebeu tudo quanto é tipo de gente. Muitas comunidades vieram para cá, fosse para serem exploradas, fossem para povoar. Aqui se tornou um terreno que recebeu cada hora um grupo diferente, com idades diferentes, criando uma idade diversa na soma de todos eles.

Claro que isso foi e ainda é às custas de comunidades tradicionais. Então surge a questão: como fazer com que comunidade e diversidade sejam realmente uma moeda, não de troca, mas de valor nela mesma? Ou seja, como nos valorizarmos sem destruirmos algum dos dois polos? – Pois uma moeda sem cara ou sem coroa não vale nada, pois deixa de ser ela mesma em essência e em externalidade.

Eis o difícil, encontrar a vivência da dualidade (ou seja, das duas idades) sem que ambas queiram se matar, se destruir, se aniquilar, pois o instinto nosso de sobrevivência é, ainda, o de anulação do lado que nos for oposto, por cegueira nossa em não vermos que todo oposto é complementar.

Proponho poeticamente outra resolução: para um duplo, há que haver algo a colá-los, tornando-os uma unidade em una idade, integralidade em uma íntegra ou integral idade, ou seja, encontrar uma ação comum entre aquilo que é diversidade e comunidade, em outras palavras, encontrar uma comum ação, uma comunicação: uma ação que comunique algo em comum àquilo que seja tradicional e àquilo que seja o novo.

Claro que isso é dificílimo, pois se comunicar é uma das coisas mais difíceis que há, especialmente quando o outro fala uma língua diferente da nossa.

Por certo sempre há os caras-de-pau, que falam tudo errado e não estão nem aí, mas esses não são válidos aqui porque não estão interessados em comunicar de fato, pois alguém que tenha verdadeiro anseio por comunicar algo irá buscar justamente uma ação em comum, irá buscar ser claro, ser verdadeiro, ainda que cometendo erros, mas dará o melhor de si observando se quem ouve compreende, ainda que na mímica ou no desenho.

Ou seja, para falar uma língua que não se sabe ao certo, é preciso ter coragem, que etimologicamente nos remete a uma poesia belíssima que é: agir com o coração!

O pulsar de nossos corações quando encontramos uma solução junto a alguém que é nosso oposto nos torna iguais por um momento.

Isso não faz com que quem fale português passe a falar alemão, nem que quem fale alemão aprenda português, mas por um instante ambos se comunicam até mesmo com os olhos – todos nós sabemos essa sensação, mesmo com animais nós chegamos a ter, em algum momento, esse tipo de encontro, que se dá em nosso centro: o peito.

Podemos ser céticos, nos perguntarmos, mas será? Será que foi tudo isso mesmo? Pois normalmente esses encontros estão para além da compreensão… Contudo, quando se trata de comunidade e diversidade, isso se tornará evidente, pois essa comum ação faz com que o passado ganhe extensões no presente e o presente se justifique no passado, gerando frutos – o que significa desde pensamentos inovadores a fisicalidades, gera desde posturas interiores de respeito, de um segundo olhar para aquele que é diferente, a até políticas comprometidas com ambos os aspectos. Ou seja, gera nobreza e justiça internas e externas.

É simples, ainda que não seja fácil. É difícil, ainda que não seja complexo. Basta agirmos juntos, observando nossos passos, pois uma comum ação é comunicar para além do linguajar de quem verbaliza desejos egoístas e insensatos. É compreender que certas fronteiras devem ser respeitadas, que devemos conservar e, portanto, ser conservadores de raízes – sejam elas do grupo que for: vermelho, preto, amarelo, bem como branco – e também abrirmos as portas para um mundo novo, criando novos galhos – que depois, na hora certa, darão frutos ou serão podados, conforme ditar o tempo, sem pressa e sem pressão, apenas seguindo o curso de crescimento, ou seja, progredindo, sendo progressistas para que a semente que é a tradição multiplique e ganhe mais vida.

Tudo isso, obviamente, está para além de convenções e dizeres de ‘tome sua cerca’ (num viés tradicionalista conservador) e ‘tome seu espaço para crescer esse galho’ (num viés progressista renovador), com desdém e receio um do outro. É preciso, antes, pulsar no sangue, na ação do coração – na coragem – a capacidade de aceitar tanto o sangue arterial (inspiração: dos pulmões para o coração e de lá para os órgãos todos), quanto o sangue venoso (dos órgãos todos para o coração e de lá para os pulmões: expiração), recebendo o que vem como tradição, e colhendo o fruto que sai de nós para doar a quem precisa enquanto nova idade: novidade.

Sabemos que da nossa respiração o que sai é: dióxido de carbono + vapor d’água, sendo que esses dois componentes são justo o que as plantas precisam; assim como as plantas fazem a fotossíntese com: luz solar + dióxido de carbono + água, nos devolvendo oxigênio e açúcares para a atmosfera, tanto em forma de matéria inorgânica, no ar, como em matéria orgânica, nas sementes e frutas. Isso sem contar o oxigênio e açúcar que elas usam para a respiração e manutenção de si mesmas, para além de procriar, que nada mais é do que gerar frutos para colheita.

Ou seja, o homem, o humano, são palavras que vêm de húmus, e portanto dão significado ao ser que vem da terra. Somos a contraparte vermelha de todo o verde, pois as cores verde e vermelho também são opostos complementares. O que nos revela que, assim como a tradição e a inovação, ou, a comunidade e a diversidade se retroalimentam, formando um sistema maior do que a gente consegue observar por mesquinhez e brigas internas, o ser humano e as plantas também se retroalimentam formando um ciclo belíssimo de manutenção entre os mesmos.

Isso mostra que é preciso modificar a natureza como a conhecemos, pois a nossa inovação é a complementariedade da permanência tradicional dela, mas claro, sem matá-la, pois neste caso, assim como temos exemplificado, é também encontrar uma comum ação – comunicação – entre a existência (capacidade de estar – permanência – de algumas plantas) da flora, a senciência (capacidade de sentir – de alguns animais) da fauna e a ciência (capacidade de raciocinar – de alguns homens) da humanidade. Então nem todas as plantas permanecerão, nem todos os animais sentirão, assim como nem todos os humanos raciocinarão, há graus de desenvolvimento e de despertar, mas basicamente, esses são os três passos com os quais temos que lidar.

É realmente trabalhoso encontrar o ponto de isostasia, que é a busca da natureza por equilíbrio, pois o eterno movimento faz com que o que chamamos de equilíbrio ganhe novo rumo a cada momento. Não há um ponto final no trabalho de todos, não há uma linha de chegada…

Tudo o que podemos fazer é nos lapidarmos para tornar a comunidade e a diversidade uma moeda que valha, e integrarmos ambos os lados através de uma comunicação para além de vãs ações e vazios vocábulos.

Então que enchamos nossos pulmões de ar e nossos corações de sangue, que eles pulsem em dilatações e contrações que nos levem à conservação do profundo ao inovarem tudo por serem a latência de uma una idade que retamente enraíza à medida que, a seus galhos, tortuosamente espalha.

Todo o processo é belíssimo!

E somente depois dessa união de contrários através de seres grupalmente individualizados é que nos tornaremos um coletivo, como foi observado e meditado no texto anterior…

Eis a semeadura!

Que cada um seja, conforme a força de seu pulmão e ação de seu coração, um lavrador.

a Poesia da Igualdade . : . [Lutas, Violência e Sociedade, como Caminharmos?]

Atenção:

Eu sei que a Verdade não pode ser reduzida, bem como nem mesmo seus três pilares: ciência, religião e arte, a uma explanação ou texto, por mais longo que seja. Nada do que se diz aqui pretende ser Teoria de saúde, comportamental, científica, filosófica etc., mas, antes, intenciona-se Poetizar uma Prática (uma possibilidade de Ação Humana) em relação a teorias que se mostram vigentes no mundo que nos cerca. O que faço é usar da Analogia para revelar o estado em que nos encontramos e como podemos alterá-lo através da Vontade, observando melhor nós mesmos e tudo ao redor, bem como tendo mais discernimento dentro do que me cabe enquanto Trabalho de Evolução Interna e Serviço em relação à Evolução do Outro, este sendo especialmente através do espelho: Seja um exemplo Vivo de Ações elevadas dentro de Teu caminhar e o Outro se espelhará em Ti para ver a Si mesmo.

Pela Compreensão, agradeço!

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Eu gostaria de conversar sobre: o que é uma luta antirracista? O que é racismo, o que são essas lutas e para onde isso nos leva hoje em dia? No USA há manifestações pacificas e manifestações em que as pessoas metem fogo em tudo. No Brasil, dado à nossa cultura, que é muito apaixonada, dado a recentes acontecimentos, doenças, como Covid-19, que vão nos fazendo ficar mais nervosos quanto a mazelas do mundo, enfim, por N motivos, nós acabamos tendo muita opinião, muito pulmão e dedos para digitar muitas coisas e eu gostaria de questionar isso, nossas posturas no dia-a-dia em relação a várias coisas que se relacionam com a vida, à luta pela vida, porque, por fim, talvez esse nervosismo todo que temos passado possa se resumir nisso: uma luta pela vida.

Uma pandemia se instala, e revela esse Pan. Pan é um deus diabólico grego, a origem dele remonta tradições anteriores à grega, mas ele foi incorporado, e era um deus que não fazia nada com as pessoas além de assustar as que andavam pela floresta. Por causa dele se instaura a palavra pânico, mas Pan não tem só uma face horrenda, ele também dá origem a palavras como panaceia, uma cura… então olhemos com mais cuidado para as coisas que nos assaltam, nos pegam de surpresa pelo caminho, porque o trabalho de Pan é esse: nos pegar de surpresa pelo caminho.

Várias coisas têm nos pego de surpresa, então como citei, as manifestações estão acontecendo nos USA, umas pacíficas outras metendo fogo em tudo, e nós, apaixonados que somos, também acabamos criando hashtags e stickers (não sei o nome) de figuras que colocamos no facebook, sendo que grande parte das pessoas que vejo tendo esse discurso são pessoas, em maioria, brancas, pessoas que talvez ainda não tenham se dado conta, mas só o fato de serem brancas já faz com que sejam racistas, intrinsecamente, pois é inerente à cor de pele delas porque há pressupostos na nossa sociedade de que se você é branco você vai ter certas regalias e privilégios, e isso pode ser simplesmente a maneira como alguém te olha e te julga. Nós todos, humanos que somos, sabemos o quão ruim e pesado pode ser o julgamento de alguém e como podemos ficar doentes imaginando o que o outro pode estar pensando de mim.

Isso se exacerba, isso ganha medidas catastróficas quando eu sou preta, por exemplo, e sei que as pessoas terão uma grande predominância, ainda que inconsciente, de um julgamento que vai me inferiorizar, ainda que num segundo momento elas possam me elevar, mas a primeira tendência é automaticamente haver um julgamento inferior das minhas capacidades.  Então não é tão difícil assim compreender que nós somos estruturalmente racistas, violentos, porque todos vão estar impregnados com uma violência: eu sou cis serei transfóbica, quem é branco será racista, quem é heterossexual será homofóbico e por aí adiante. Porque nós somos violentos por natureza. A natureza é violenta.

Olha esse vírus, esse vírus vem e ataca todos (e não vamos entrar em questões de classe, de quem consegue ou não se proteger), mas a princípio, qualquer vírus qualquer bactéria, gruda em qualquer um que passar pelo caminho dela, ela não faz uma seleção, vai ser seleção natural no máximo de quem passou levou, ela não fala: você é preta, não vou com você, vou lá com a branca, e assim vai… não existe isso, o vírus é cego para a materialidade – neste aspecto, e o vírus é uma natureza extremamente primitiva.

Se nós analisarmos o nosso cérebro ele tem divisões, sub-regiões, e uma delas é nosso cérebro dito reptiliano, de réptil, porque ele está lá no meio e faz com que reajamos ao meio externo, tenhamos reações ao meio, assim como os animais, é como um cérebro instintivo. E durante muitos milhões de anos nós estivemos sob domínio dele, no sentido de que usávamos somente essa parte do cérebro durante muitos milhões de anos. Depois uma segunda parte se desenvolveu com as emoções e aí temos um período também de desenvolvimento dessas emoções, tanto que nós somos, principalmente aqui no Brasil, super apaixonados, melodramáticos, novelas, gostamos de uma história, drama, aventura, enfim, tudo o que gera calor em termos passionais. Nós somos muito passionais, torcidas organizadas que tempo todo são passionais, para o bom e para o ruim… enfim, agimos em prol daquilo pelo qual estamos apaixonados, assim como, se amanhã perdemos a paixão, deixamos de agir em prol daquilo.

E nós temos uma terceira camada, o neocórtex, que é quando a gente começa a ter capacidade de realmente refrear tudo isso e, talvez, ter os primeiros vislumbres de “o que eu quero sentir? O que eu quero escolher?”, ter escolhas mais conscientes. Então deixamos de ser tão reféns das paixões e dos instintos e passamos a desenvolver raciocínio, a ter um cérebro mais racional, a optar por pensar antes de agir, por assim dizer. Isso é muito difícil porque em comparação com o cérebro pequeno reptiliano que nós temos dentro, que por milhões de anos está lá funcionando, o neocórtex é muito mais recente, não tem comparação, então é claro que ele vai ser mais frágil e mais fraco, em certos termos.

Por que estou falando de cérebro e tudo isso? Porque nós temos uma tendência muito grande a agir instintivamente, a reagir às coisas, depois a gente até fala “nossa, onde é que eu estava com a cabeça?”, porque agimos de forma inconsciente, nós só respondemos, revidamos, reagimos, re-agir não é uma ação, eu não estou agindo, escolhendo para agir, estou apenas reproduzindo uma ação, ou seja, eu estou andando atrás da própria cauda, igual cachorro que corre atrás do rabo. Cachorro que corre atrás do rabo está numa reação: ele vê o rabo e corre atrás, ele vê o rabo ele reage, ele vê o rabo ele reage. Em muitos sentidos nós somos assim.

A natureza, as primeiras vidas mais primitivas e aquilo que temos de mais primitivo, não é a igualdade e amor e a beleza, mas justamente o selvagem, a luta, a guerra, o instintivo, a reação, a animosidade, enfim, todo o nosso lado grotesco. Grotesco vem de grotta, que é caverna. Então todo nosso lado cavernoso, grotesco, todo nosso lado caverna de Platão, inconsciente, que a gente acha sempre que é só o outro, mas todos nós temos isso, ele é muito presente, ainda.

Sendo que se nós repararmos, tudo o que é muito novo na natureza, como vírus, bactérias, são vidas recém-formadas, por assim dizer, são sempre vidas pequenas, animais pequenos, quanto menores mais nós conseguimos observar isso, que há algo de primitivo que ataca qualquer um. Um vírus ataca qualquer um, ele não escolhe. “Ah, o covid não é preconceituoso”, há discussões sobre ele ter colocado todos em pé de igualdade, mas todos os vírus colocam todo mundo em pé de igualdade, todas as bactérias, elas não selecionam por você é rico você é pobre, vou te atacar não vou te atacar, mas é claro, pessoas que têm recursos para não chegarem próximas a zonas de infecção, não serão atacadas, então vai-se criando distinções entre quem fica doente e quem não fica por conta dos recursos que cada um tem para não encontrar esse vírus na rua ou bactéria, o que seja.

O que isso tudo tem a ver com racismo?

Isso tudo tem relação com racismo porque nós instintivamente e apaixonadamente queremos um mundo melhor, queremos fazer parte das lutas e fazer a diferença, a gente apaixonadamente realmente quer, mas o simples fato de eu nascer preta, mulata, moreninha, o que seja, afrodescendente, e o fato de alguém nascer branco faz com que não importa o nome que me dê, de morena a mulata a preta, vai ser diferente. Ponto. Por que? Porque é isso, instintivamente nós lutamos uns contra os outros, e nós sabemos que a materialidade nossa, a partir da hora em que fomos ganhando consciência de grupo, nós fomos nos distinguindo um do outro. Então é claro que nós não somos iguais, naturalmente não somos iguais, porque ser preto é diferente de ser branco, ainda que inconscientemente, assim como um cachorro ataca um gato – é tudo animal, mas um ataca o outro porque são naturalmente distintos, então temos um branco e um preto, naturalmente distintos, porque é natural nascer com uma cor de pele, ou ser albino, não ter cor entre aspas, mas se tomamos as etnias ou raças, o cachorro ataca o gato, o gato ataca o rato etc., mas o ser humano, a partir da hora em que fomos criando consciência, a partir da hora em que vamos acordando para a realidade, começamos a ter a capacidade de questionar: por que que eu que sou cachorro estou atacando o gato? Por que eu que sou gato estou atacando o rato? E o grande problema é: nem todo mundo chegou nesse patamar ainda, aliás a maioria não chegou.

Instintivamente aprendemos a atacar um ao outro, fosse por território, comida, grupos atacavam uns aos outros, e isso foi tomando outras configurações, à medida que fomos tomando consciência isso foi tomando outras formas, então já não era possível eu atacar alguém de outra comunidade só porque é outra comunidade, então a gente começa a criar padrões apaixonados: é minha cor, é meu povo, eu sinto algo que me une a eles, preciso proteger o meu, é minha família, minha igreja, meu terreiro.

Nós começamos a criar, para além do instintivo (eu preciso atacar o outro porque é diferente de mim e ponto), maneiras apaixonadas como desculpa para atacar o outro, para continuar fazendo aquilo que aprendi por milhões de anos, porque por milhões de anos eu aprendi que eu tenho que atacar você: morra. Nós fizemos isso por milhões de anos. Milhões.

Depois a gente aprendeu a colocar nossas paixões no meio: eu preciso atacar você porque eu sinto que você é uma ameaça, eu não sei explicar, mas eu sinto, então eu ataco. Claro, à medida que vamos tomando consciência de características, eu passo a sentir que sua cor é uma ameaça, que sua igreja é uma ameaça, que seu jeito, seu tamanho, seu gênero é uma ameaça, enfim… nós vamos usando do racional, do terceiro cérebro, do neocórtex, da nossa capacidade de escolha e de pensar, para corroborar aquilo que eu sinto, porque eu sinto que tenho que atacar o outro por motivos de sobrevivência e então eu encontro motivos racionais para fazer isso. Mas claro, quem está amadurecido sabe que não são motivos racionais, que por mais que se explique e sejam racionais enquanto explicação, não servem para realmente utilizar seu sistema reptiliano, de bicho, para ir lá dar porrada no outro.

Ou seja, estamos numa grande encruzilhada enquanto seres humanos, porque não somos iguais, ‘eu sou preta, e os outros amarelos, brancos, vermelhos’, então somos todos diferentes e sabemos disso instintivamente, assim como eu sinto de maneira diferente as minhas crenças etc., então como nós seremos iguais, se por milhões de anos nós aprendemos que nós somos diferentes? Porque nós somos diferentes! Porque um vírus é diferente de uma bactéria, porque um cachorro é diferente de um gato, e aliás, cada célula é diferente da outra, um dedo não é igual ao outro, assim como as digitais, os DNA, cada fio de cabelo vai ser um diferente do outro, mas sem entrar em questões das particularidades e individualidade do ser, ainda antes, mesmo em grupo: é diferente ser preto e passar pela experiência de ser preto da experiência de ser branco.

Passar pela experiência de ser branco inclui passar pela experiência de ser racista, porque está entranhado, e se tornou estrutural. Se tornou um pensamento preponderante, achar inconscientemente que aquele grupo, o grupo preto, é inferior. Então cada vez que eu identifico uma pessoa que faça parte do grupo de pretos eu automaticamente a classifico como inferior. Até que algo aconteça para que eu mude de ideia, claro, e tome consciência de algo maior. Mas o primeiro passo instintivo nosso é nos diferenciarmos uns dos outros e a maneira como nos diferenciamos uns dos outros ainda é grupal, para a maioria de nós. Então os brancos serão racistas, passarão pela experiência, ainda que inconsciente, de serem racistas.

E onde isso nos leva? Nos leva ao fato de que quando eu coloco num facebook de maneira apaixonada que eu sou antirracista e sou uma pessoa branca, isso é problemático… por quê? Porque o que eu vejo muito são falas de pessoas que são a favor de tacar fogo, destruir tudo, quebrar e dar de louco, sendo que a própria pessoa está muito bem obrigada na casa dela, sem tacar fogo em nada nem ninguém, aliás se oferecerem um trabalho para ela, dificilmente ela irá parar pra pensar: “será que estão querendo me contratar porque sou branca e deixaram de contratar um preto? Não, eu não vou querer esse emprego, contrate o preto no meu lugar”. Dar o seu lugar de privilégio para quem não gozou desse privilégio ninguém quer, não é? Mas incitar a violência, querer que o preto pobre vá lá tacar fogo nos racistas, isso quer. Sendo que se formos levar a sério tacar fogo em racista, a gente queima todos os brancos do país e do mundo inteiro, porque instintivamente todos os brancos são racistas, e isso não é motivo para “ai, coitado de mim, sou branco, sou racista, vou me flagelar porque sou racista”. A gente só é o que é, está tudo bem.

Não está tudo bem ser racista. Mas aí é que está, como a gente faz para separar? A gente começa a separar quando aquilo que é um impulso inconsciente ganha artimanhas passionais e intelectuais para se viabilizar enquanto ação de violência. Então eu, pessoa branca, penso: “estruturalmente e inconscientemente sei que sou diferente do preto…” aí eu começo a criar teorias, como o nazismo, de supremacia branca, porque “eu tenho que me impor”, então como vou me impor? Com violência. Eu preciso fazer algo para tomar o poder e mandar em tudo.

É usar de algo que é inconsciente e histórico como pressuposto para construção de algo sutil e imediato, então vejam:

quando eu uso da materialidade histórica, sim, materialismo histórico, teoria de Marx, quando eu uso da matéria histórica para basear meu pensamento, eu estou usando meu inconsciente e cérebro reptiliano e passional para me conduzir a raciocínio presente e sutil, ou seja, a-histórico porque ainda não entrou na história, à medida que ele acontece a cada instante, e sutil porque ele ainda não se tornou uma materialidade, então ele está acima da matéria.

O fato de eu usar o cérebro reptiliano instintivo por milhões de anos para nos distinguirmos enquanto grupos fez com que eu depois passionalmente encontrasse desculpas passionais para continuar fazendo a mesma coisa que eu já fazia instintivamente. E depois eu pego um cérebro racional e intelectual para corroborar um cérebro emocional e corroborar um cérebro reptiliano, ou seja, quando eu uso da materialidade histórica, eu uso da matéria que a história me dá. E o que a história me dá? Um cérebro emocional e um reptiliano… quando eu uso desses dois cérebros como base para formar meu neocórtex, meu cérebro racional, intelectual pensante, eu estou usando o materialismo histórico para pautar o meu fazer, as minhas escolhas, e isso vai corroborar com todo o assassínio que se carrega.

É importante conhecer Marx, mas quando achamos que o materialismo histórico vai fazer sair disso, não vai, Marx constatou isso, ele não liberta disso.

Então, para eu parar de ser alguém que inconscientemente reproduz, e, isto é para pretos e brancos (não estou falando só para brancos aqui, não me entendam errado), preciso deixar de usar da materialidade histórica para pautar as minhas escolhas conscientes no presente, ou seja, ativar meu neocórtex sem ser refém do meu sistema límbico e reptiliano.

Se eu uso a matéria histórica para constatar que “eu sou transfóbica, preconceituosa, filha duma Madalena cheia de sete pecados, sou, ok”, vou então usar meu neocórtex para corroborar e continuar sendo? Não, vou tomar decisões outras! Isso faz com que eu deixe de ser uma pessoa violência lá no fundo? Não, porque eu não estou tirando fora o cérebro reptiliano que diz: “mata o outro, é diferente, mata, mata”. MAS sim que só eu, por esforço próprio, aprendo a calar a boca desse cérebro reptiliano, a calar a boca do cérebro límbico, das minhas emoções, do meu sangue que ferve querendo meter fogo em racista, para ouvir a tal da voz da razão que vai me dizer “você pode ser diferente do que você foi durante milhões de anos, porque faz milhões de anos que você está sendo igual. Cada hora é uma desculpa: uma hora é a pele, uma hora é a classe, uma hora é gordura, uma hora é altura, uma hora é território, cada hora uma coisa, um dia vai ser uma pinta na testa, sei lá”. Eu começo a ver que o que se reproduz historicamente feito uma roda que gira em torno de si mesma é o fato de que eu encontro o tempo inteiro, naquilo que é diferente, a desculpa para ser violenta, para agir com violência e passionalidade.

Isso não significa que não deva ter consequências para quem é racista, deve ter! E severas, assim como para qualquer um que tenta ser violento, e principalmente para aqueles que agem com violência racionalmente, que são os que vão pondo pé na psicopatia, esses batem porque “é preto e tem que morrer mesmo”, esse tipo isolemos, põe numa gaiola e isola da sociedade porque não tem jeito – se tem eu não conheço. Acho que tem caso que não tem solução mesmo, mas o caso é, queridos seres humanos:

Faz milhões de anos que estamos reproduzindo violência e encontrando formas instintivas e passionais para agirmos com violência, isso mostra que há pelo menos três tipos de seres humanos vivendo: os que ainda agem, preponderantemente, por instinto, inconscientemente, estando em profundo sono; os que agem, preponderantemente, passionalmente, encontrando desculpas para sua inconsciência continuar agindo, já não é tão inconsciente assim, mas nem tão consciente, é meio um estado de letargia, a massa que vai e não sente, meio letárgico, meio dopado, pessoas que deixam o passional falar mesmo, às vezes tendo vislumbres de “olha, melhor calar a bocaaaaaah mas eu falo mesmo!!! E blablabla”, e acaba que não consegue se segurar, mas ouviu uma voz que dizia algo lá no começo ‘pare, refreie’ – a gente sabe bem como é isso! E o terceiro tipo de pessoa, que são os acordados, que estão acordando, raríssimos, mas há. É claro, tem uns que estão acordados, mas escolhendo fazer maldades ainda assim, e esses… nem ouso dizer que tipo de punição deva ter, ou se é punição mesmo, não acredito em correção, acho que é caso de isolamento mesmo, mas… tem os vários bons, as pessoas verdadeiramente boas, que vão se dando conta de que não vale a pena agir passionalmente: “até sinto vontade, uma vontade inexplicável de matar alguém, de pôr pra fora essa dor de alguma forma, violentar alguém de alguma forma porque me sinto violentada de alguma maneira”, então tenho vontade de reproduzir, e vem a vontade e o sangue pode ferver, inclusive, pois são graus, e no começo o sangue ferve mesmo e grita para que a gente bata… igual meme com um bichinho pegando fogo para dizer aquilo que está corroendo por dentro, e ele se segurando com uma fala dizendo “não vou brigar, não vou.”. Esse bichinho pegando fogo é um excelente exercício, porque não é reprimir involuntariamente.

Se for uma repressão da passionalidade inconsciente, se eu não presto atenção que estou fazendo isso, claro que vira problema, vem Freud e explica como isso pode se tornar um problema inclusive maior se eu simplesmente soltasse meu grito ou escrevesse o que penso, mas se eu faço isso de maneira consciente: “eu realmente Quero parar de agir impulsivamente e passionalmente, quero parar de responder a tudo e todos, quero parar…” no começo vai queimar, claro, vai queimar, porque a paixão queima, paixão é fogo né… “o amor é um fogo que arde sem se ver”, vai ver a paixão seja o fogo que arde e se vê, a gente vê arder, a gente vê quando o outro está doido para dar um soco, para responder e está ali vermelho, o sangue mostra isso, o sangue revela nosso lado passional.

Até que uma hora a gente chega a ser o terceiro tipo de pessoa que é aquele que nem queima, já não passa pela tentação de escrever, falar, bater e agir com violência, a gente começa a romper com essa cadeia de milhões e milhões de anos reproduzindo a mesma coisinha várias e várias vezes, seja por acreditar em várias vidas, seja por acreditar que geneticamente isso vai sendo passado até chegar em mim, de uma forma ou de outra, vivemos isso, nós vivemos o materialismo histórico, em termos intrínsecos, realmente, mas é preciso superá-lo para seguir em frente verdadeiramente.

Não é através do materialismo histórico que nos libertaremos das lutas e de toda a violência. Ele serve para que consigamos ver e passar para depois dele, porque a tomada de consciência é posterior a ele. Mas é através dele que conseguimos ver essa história material anterior e espiritual, para quem acredita… aqui falo tentando deixar de lado a espiritualidade, mesmo ela sendo intrínseca a tudo e saber que ao falar e materialidade estou falando e espiritualidade… esse é o paradoxo: quando se fala de demônios também se fala de Deus. O mal é escravo do Bem. Mas tudo bem, voltemos….

É preciso ultrapassar toda a violência, tudo isso de ruim, essa reprodução que a gente vem historicamente fazendo e se matando… para se ter uma ideia, o Leonardo da Vinci, na Renascença, escreveu uma espécie de regras de etiqueta para os convidados do jantar da nobreza, uma das regras era não ser permitido pessoas se matarem à mesa, mas caso acontecesse, era para ser de tal forma que o sangue não respingasse na comida, na mesa, sendo logo o corpo retirado e trocado pelo próximo da lista de espera. E isso não tem muito tempo. É impressionante, se pensamos 500 anos… descobrimento do Brasil, Shakespeare, enfim… é impressionante como se matava por nada, e não temos ideia, achamos que é só uma peça de teatro, se envenenava, mas era só uma peça. Mas até ontem se queimava pessoas em fogueira. Até hoje se eletrocuta pessoas, ainda existem sentenças de morte, ainda existem pessoas que são sentenciadas à morte por apedrejamento.

Acha que é muita coisa tacar fogo em prédio? Imagina o que é morrer apedrejado! Procure um vídeo, eu já vi num programa sobre algum local do Oriente Médio, onde existem países em que as pessoas podem apedrejar. As pessoas enterram até a cabeça o sentenciado, deixa só a cabeça e pescoço de fora, enterrando braço e tudo, e junta gente para tacar pedra. Imagina! Faça esse exercício de empatia de imaginar teu corpo imobilizado dentro da terra e pessoas tacando pedra na tua cabeça até você morrer, porque “deu na telha”.

A verdade é que a gente arranja desculpa para matar até hoje, não só pretos, lésbicas, mulheres, gays, trans, travestis, gordos… a gente mata porque a gente aprendeu isso por milhões de anos, porque a matéria histórica que nos forma, inclusive cerebralmente falando, ela é assassina. É claro que é horripilante nos darmos conta disso, é amedrontador, causa pânico…

Mas pânico vem de Pan e Pan também gera Panaceia. E Panaceia é a possibilidade de cura, de bem-estar a todos, e isso significa que ao nos darmos conta de que somos seres materialmente históricos feitos para matar, nós podemos fazer algo para pararmos de matar, para pararmos de tratar mal, para pararmos de julgar, para pararmos de criar diferença.

A Simone de Beauvoir tem uma frase muito conhecida que diz “não se nasce mulher, torna-se.”. Eu não li ela, tentei, mas não foi pra frente, não sou muito fã. Contudo tomo a liberdade de usar essa frase para dizer algo que é: nós nascemos desiguais. Ou seja, “nós não nascemos iguais, nós nos tornamos iguais”, e nos tornamos a partir da hora em que eu uso do meu pensamento para refrear as minhas paixões e coordenar o meu instinto, e nisso frear com uma cadeira histórica que vem gritando que eu tenho que matar o outro porque o outro é diferente. O que acontece é que o outro não vai passar a ser igual porque eu meto fogo, dou porrada… não adianta eu tacar fogo nos brancos isso não vai fazer brancos serem iguais a pretos, somos diferentes! Assim como a experiência de ser mulher é diferente da experiência de ser homem, ponto. E para isso seja trans seja cis, é diferente. Cada experiência é diferente.

Mas o fato de sermos capazes de raciocinar faz com que nós possamos nos tornar iguais em algo superior à matéria. O materialismo histórico me mostra que um preto é diferente de um branco, mas se eu ultrapassar a história e encontrar algo para além da matéria, então nós podemos nos tornar iguais.

Esse é o difícil!

O materialismo histórico serve para isso: nos fazer olhar e constatar o que nos trouxe até aqui materialmente, mas não serve para nos mostrar para onde vamos. Quando usamos dele para nos mostrar para onde vamos, quando a gente acredita que temos que lutar etc., ou seja, seguir nossas paixões, continuamos reféns do cérebro límbico. Procurem essas coisas, estudem, vejam o que significa vivenciar cada um desses cérebros, como isso se liga a teorias, como essas teorias servem de apoio para compreensão de certas coisas, mas para outras é atraso…

Pois, quando eu sou a favor de tacar fogo em tudo, mas não estou tacando fogo em tudo, é o que eu questiono: se você é a favor de tacar fogo então VAI, taca fogo em tudo, faça, a sério! Vai e mete o louco, faça o caos. Se precisa tacar fogo pra ver que não adianta, vai e taca fogo que vai ver que não adianta, porque se guerra adiantasse de algo, se guerra gerasse igualdade, o mundo não estava como está. Não é guerra que gerou igualdade.

O ser humano bate em outro ser humano desde que o ser humano é ser humano no sentido mais animalesco, inclusive, do termo. Os animais se batem o tempo todo, no sentido de caça etc., aliás, o tempo todo não, eles são muito mais desenvolvidos em termos instintivos, eles não ficam brigando aleatoriamente mais, a gente vê muitos vídeos bonitinhos de cachorros que se dão com gatos e espécies diferentes interagindo muito bem, coisas inesperadas né. Até os animais estão num processo que é possível ver que é superior ao nosso em termos de cérebro reptiliano e límbico, são mais avançados, então é possível notar isso, como nós e o fato de brigarmos o tempo todo, tudo usarmos de violência, é um atraso, e acreditar que é por violência que vai mudar, desculpe, mas é um equívoco e imaturidade de nossa parte…

Agora, claro, tem pessoas que estão num sono tão profundo, que são tão profundamente reptilianas ainda que só na agressão que vão acordar e ver que tem algo acontecendo, mas parem e pensem: cérebro reptiliano é um cérebro animal, e alguém que não pensa e não sente a gente normalmente dá nome de sociopata e psicopata, essas pessoas não vão passar a sentir, não importa quanto se bata e tamanho do fogo que se gere. Então é preciso tomar cuidado para onde essas brigas todas levam.

Se a revolução realmente acontecesse, se o povo mais miserável (não eu e você que podemos ver isso na internet), as pessoas que não vivem com 1 real por dia para comer, ou seja, nem 30 reais por mês, se essa galera resolve tacar fogo na gente… porque todos que eu conheço que querem tacar fogo e matar não percebem que nós somos o topo da pirâmide deles, nós estamos acima e se a galera da base realmente resolve tacar fogo em tudo… para pra pensar no que vem depois – todos os miseráveis tacam fogo em todos que estão acima deles, eu pergunto: eles sabem ler, sabem fazer cálculos matemáticos? Sabem fazer alguma coisa? Eles sabem fazer algo efetivamente em termos científicos?

Isso não é menosprezar “eles não sabem fazer nada”, com ironia. Eles só não sabem, não sabem porque não têm acesso! Não adianta dar diploma e enfiar debaixo do braço (igual gente que anda com bíblia debaixo do sovaco), e que só por entrar na faculdade e ir passando de ano acha que sabe! Não sabe! Isso é uma grande mentira! Abrir universidade e colocar todo mundo dentro e dar diploma não faz de nós pessoas pensantes, que saibam construir um futuro. Mentiram para nós, e eu sinto muito!

Mas a galera que realmente não tem recurso, se eles matam quem sabe usar dos recursos, o que acontece é que logo eles vão morrer, porque esse país volta a ser uma selva. Literalmente. Isso não é menosprezar, não é preconceito. Se você larga uma criança no meio da mata, ela não vai transformar a mata, a mata vai transformar ela. E o mesmo acontece com quem não tem recurso. E pior!: se em meio aos cegos um caolho ficar vivo, ele vira rei! E todas essas pessoas não vão depender de várias que estão acima delas, vão depender de um só, e isso se chama ditadura, autoritarismo do mais grotesco nível possível.

Ou seja, a gente precisa ter muito cuidado quando acredita que meter fogo, matar todo mundo, guilhotinar geral vai adiantar alguma coisa. Tem que se tomar muito cuidado. Especialmente com quem você vai deixar vivo, porque se quem ficar vivo for mais espero do que você, vai tirar vantagem. E se você não tiver recurso intelectual para discernir que estão pisando em você, estão tirando vantagem de você, aí a coisa realmente fica problemática.

Isso não quer dizer que isso não aconteça em larga escala, em muitos sentidos isso ainda acontece porque a gente reproduz o que vem fazendo por milhões de anos. Governos fazem guerras, então claro que continuamos fazendo e propagando muita coisa ruim até hoje, e é claro que os que estão acima estão pisando nos de baixo. E com tudo isso não estou querendo fazer uma apologia ao opressor, a única coisa que acontece é:

É ilusão achar que matando todo mundo que está em cima a gente vai saber o que fazer depois.

Não tem fórmula fácil.

O único jeito é aprendendo. Se educando. Se conhecendo.

Uma criança não aprende que todos são iguais se você bater nela. Digamos que você tenha um filho e esse filho trata o outro amiguinho, pelo motivo que for, racial ou não, enfim, só por ser um outro diferente dele, trata mal, a gente pode bater no próprio filho: “não, você não pode fazer isso porque tem que tratar bem pois o outro é um igual!”. Vai aprender? Ou vai sentir mais raiva ainda porque ele apanhou por conta daquele que é diferente?

A criança não tem a lógica do ser humano adulto, maduro, ela não vai pensar: “ah, ok, me bateram porque realmente eu fiz algo errado, compreendi, obrigada, papai, por ter me batido”. Ela vai se re-sentir (re-agir passionalmente), vai virar mais um trauma e ela ainda vai ficar com mais raiva do outro, porque ela apanhou por causa do outro. Ou seja, além dela querer bater no outro naturalmente, instintivamente, ainda por cima ela apanhou, então ela vai querer bater mais ainda. Ou seja, isso se torna um mecanismo consciente passional para bater realmente, para revidar, se vingar, reagir.

A gente cresce, mas não muda. É como se fossemos crianças ainda. Tem criança que você tem que dar um grito mesmo para ela parar de puxar o cabelo do amiguinho, então grite quando for necessário, meta fogo quando for necessário… mas não incite os outros a fazerem isso. Não incite pessoas pretas ou pessoas pobres a irem tacar fogo enquanto você vai continuar fechadinho em casa com medo até de covid. Tem medo de um vírus que nem se vê e acha que vai tacar fogo em alguém?! Vamos cair na real, né! Menos, sabe… vamos ser mais ‘ser humano’.

Hoje em dia a gente está cada um com uma luta de estimação porque assim eu posso ensinar pro outro o que é ter valores. Você já se perguntou hoje se você já aprendeu um valor novo hoje? Não é se você tem, porque talvez todos tenham um valor ao menos, sendo otimista, então não é se perguntar se eu tenho ou não tenho valor, mas se perguntar todo dia sinceramente na frente do espelho: eu aprendi um novo valor hoje? Eu aprendi a ser alguém realmente melhor hoje? Eu taquei fogo em algum preconceito meu hoje? Eu quis usar meu cérebro reptiliano, eu quis meter fogo em alguém e aprendi a usar meu neocórtex hoje? O quanto estamos realmente interessados em nos lapidarmos antes de lapidar o outro? A gente não sabe usar nem o neocórtex e quer ensinar o outro a usar o límbico, é isso?

Porque a galera que se mata é galera reptiliana, os preconceituosos que não sentem empatia, porque os que não sentem algo não tem um sistema límbico muito bom, são pessoas que não tem um cérebro límbico muito ok, estão ainda no reptiliano, sendo animaizinhos, reproduzindo muitos preconceitos e besteiras animalescas, e a gente, só porque deu um passo, passa a querer ensinar o outro que tem que vir um degrau acima, então mete fogo no reptiliano…

É claro que é como eu falei, pessoas que são maldosas é diferente, maldade é outra história, mas a partir da hora em que a pessoa é presa, que tem consequências racionais, tudo bem. Então é isso, vá ser juiz, vá ser alguém que possa ir atrás dessas pessoas usando o neocórtex sabe, porque pessoas maldosas sabem usar o neocórtex, aliás, elas não usam o sistema límbico como nós, por isso são muito safas, elas sabem arquitetar coisas inimagináveis.

Mas pessoas que são preconceituosas simplesmente porque estão reproduzindo algo em uma grande dormência, se elas não estiverem pisando no pescoço de alguém, larguem elas falando sozinhas, porque na solidão não tem como ser preconceituoso com ninguém. Larga sozinho!

Tomo a liberdade para citar um exemplo, quem sou eu para ser exemplo de algo, mas já tive colegas que vieram querendo que eu ensinasse a ser menos machista e ‘sai pra lá’, não vou ensinar, não vou, não sou essa pessoa. Mas a gente gosta de ter uma luta de estimação para dizer: “eu ensinei um cara a ser menos machista, desconstruí um macho hoje.”.

Que mérito há nisso? Se a pessoa se tornou alguém melhor, o mérito é dela ter se tornado alguém melhor, e não de quem ensina ou deixa de ensinar. É claro que há um trabalho mútuo, uma troca, isso significa então que ambos devem ter se tornado pessoas melhores após o aprendizado: não só o outro ter se desconstruído enquanto racista, machista etc., mas eu também me desconstruído da minha visão de julgamento em relação aos brancos aos homens, como “homem é assim mesmo, não muda” e eu passo a ver que, olha, homem muda! E que brancos podem ser estruturalmente racistas, isso não quer dizer que precisem expressar esse racismo e que não tenham e façam a opção de refrear isso e falar “não, não vou corroborar com o que é me dado historicamente, não vou corroborar com essa matéria, eu vou procurar algo acima da matéria para me tornar igual a você”. Isso é dificílimo! Dificílimo!

Porque se começamos a falar sobre o que está além da matéria, começamos a entrar em outros papos: espiritualidade, energia, vibração, calor, emanações outras que não só a pele.

Então, saibamos o porquê das coisas e realmente existem falas que são falaciosas, são enganosas, não é através da violência que vai mudar algo, não vai. No máximo através da violência a gente vai tornar alguém que é instintivamente preconceituoso em uma pessoa apaixonadamente preconceituosa, porque ela vai passar do reptiliano pro límbico, ou seja, mudou algo? Não mudou, profundamente não é tão grande a mudança assim. Mas se temos a capacidade de, em vez de tacar fogo, pensarmos… aí nós nos tornamos iguais, mesmo em meio a tanta diferença.

O fato é que enquanto um polo ensina a fazer coquetel molotov e o outro polo quer armas, revolver, espingarda, ambas as coisas são armas, as minhas mãos ficam atadas… é preciso estar desarmado para segurar uma caneta, um caderno, um lápis, pra segurar algo além, inclusive, de celular, copo, bebidas, cigarro, coisas que são só prazerosas, estimulam sempre só o límbico. Sempre que a gente está só no límbico é complicado, porque estamos só no passional, e tudo bem “há tempo para tudo, há tempo de tudo”, viva as experiências que você tiver que viver, só não queira ditar para os outros as experiências que os outros devem ter, porque pode ser que o outro tenha a capacidade de usar um cérebro que no fim das contas o atrasado seja você.

E isso não é uma competição, mas assim digo para que consigamos ver que há algo muito além de onde até onde a gente chegou. É muito bom ter chego onde chegamos. É muito bom que quando precisou de fogo tenhamos agido com fogo, foi o que tinha que ser, mas podemos também fazer diferente. Podemos pensar daqui pra frente. Não num raciocínio e racionalismo iluminista bobo, em que se continua acreditando em revolução e decepar cabeça. No fundo aquilo não era racionalismo né, não na beleza do que significa ser racional, porque ser racional de fato não vai usar da paixão para cometer atos de carnificina, e sim para Criar, para agir com criatividade afetiva.

Que pensemos melhor sobre tudo isso, porque um futuro muito, muito melhor certamente nos aguarda!