a Poesia da Inteligência, a Poesia do Conhecimento e a Poesia da Sabedoria . : . [a Arte de escolher os Frutos, unir-se ao Outro e saborear a Vida]

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Eu novamente te convido a caminharmos mentalmente e conversarmos, desta vez sobre qual é a Poesia da Inteligência, a Poesia do Conhecimento e a Poesia da Sabedoria, porque, como veremos, as três andam intimamente ligadas, então não me atreverei a separá-las, mas ousarei observar e meditar uma a uma ao trançá-las.

Se nós analisamos a etimologia da palavra sabedoria, ela vem do latim sapere, que significa ‘saber’ e também ‘sentir o gosto’. Então nós podemos ver que a sabedoria é sentir o gosto de algo, provar um determinado fruto, ser capaz de senti-lo, degustar o saber que ali se encontra. Logo, sabedoria se relaciona com o paladar, com a língua, com a boca.

inteligência vem do latim intelligentia, que significa ‘discernir, compreender, entender’, formada por inter-, que significa ‘entre’, e legere, que significa ‘escolher, separar o que interessa, ler’, ou seja, se ela é o que separamos como que nos interessa isso significa que ela é um passo junto à sabedoria, porque eu só gosto, eu só sinto o gosto, eu só sou capaz de sentir aquilo que eu escolho e separo, seja um separar pelo tato, seja um separar com os olhos, podendo eu separar aquilo que eu nunca comi e que convém ou não comer, assim como separar aquilo que eu já comi e sei que convém ou não voltar a comer.

Podemos, com isso, observar o quanto a inteligência e a sabedoria estão unidas, não significando a mesma coisa, mas andando juntas de mãos dadas, como a Sefirá Binah e a Sefirá Hokhmah, respectivamente (eu não irei tratar aqui diretamente de Kabbalah, mas fica como incentivo para que a estudemos), sendo necessário passar pela inteligência para ir até a sabedoria, ou pela sabedoria para se chegar à inteligência, e nisso vermos também que a inteligência não vem daquilo que hoje acreditamos rasamente ser um estudo enciclopédico das coisas, mas sim da capacidade de escolher quais frutos provar, de quais frutos comer ou não. A pessoa inteligente não é aquela que possui mais frutos, que sabe mais detalhes técnicos necessariamente, mas sim aquele que soube escolher o próprio saber, tendo o discernimento das próprias oportunidades e escolhas. Então uma pessoa que come apenas de um fruto pode ser mais inteligente do que uma pessoa que prova de tudo.

Não há aqui a intenção de propor fórmulas, cada um saberá dentro de si mesmo se deve comer muitos frutos ou um único fruto, mas são apenas analogias que nós vamos construindo junto da lógica para que possamos observar como isso se dá em suas várias possibilidades (e digo analogia junto da lógica porque analogia sozinha é reprodução insana e a lógica solitária é esterilidade racional, então ambas devem andar sempre juntas para criar frutos saudáveis, quem anda só com a lógica ou só com a analogia tende a errar).

Muitas vezes o nosso pensamento é cristalizado em apenas uma faceta de possibilidade, o que faz com que a possibilidade de experiência se torne rasa, fazendo com que a sabedoria seja deformada, como acreditar que no Brasil há somente pessoas desvirtuadas, ou que todas as mulheres são frágeis e histéricas, ou que pretos e pobres são sempre sem educação, só porque eu experimentei desses frutos uma vez, encontrei pessoas assim uma vez, ou ainda que várias vezes, eu deixo de captar o todo que esses frutos oferecem se eu passo a acreditar apenas na parcela que me foi apresentada ou mesmo parcela que meus olhos cegos conseguem ver enquanto vultos – criando então uma separação que causa malefícios diretos e indiretos através, por exemplo, do ódio, nojo, asco, repúdio, sarcasmo a um povo, a uma nação, ao sul e norte do mundo, a uma etnia, a uma classe, a um gênero etc..

Assim também acontece com uma sabedoria que seja pautada numa inteligência que engole de tudo: quem relativiza e aceita tudo como verdade, seja para pôr em prática ou apenas como teoria, não está sabendo escolher, então não é inteligência de fato. Assim, nós começamos a ver que não é questão só de quantidade, uma pessoa pode comer de tudo, pode comer muito, pode comer vários frutos ou apenas um único tipo de fruto a vida inteira desde que ela esteja escolhendo aqueles frutos. A chave está na escolha, se ela se responsabiliza por comer aquilo – se não é uma escolha comer de todos os frutos, ou se não é uma escolha inclusive a abstinência de certos frutos, ou até de todos, se é uma decisão cega, vaidosa, ou mesmo induzida, mandada, coagida etc., então não é inteligência de fato, pois a escolha rasa, fútil ou às escuras revela a ignorância, e, quando muito, a maldade.

Conhecimento vem do latim cognoscere, que significa ‘conhecer; saber’ formado por com- que significa ‘junto’, + gnoscere, que é ‘obter conhecimento, chegar a saber’, então por que é importante ter o conhecimento junto da inteligência e da sabedoria?

Porque, na verdade, para a inteligência passar a ser sabedoria é preciso que ela seja um conhecimento em algum momento desse processo. Assim como para a sabedoria passar a ser inteligência. E sendo o conhecimento algo que ‘se sabe (gnoscere) junto (com-)’ [cognoscere] ou que se ‘obtém junto’, isso revela que é preciso do Outro, de um outro ser para que eu chegue de fato a saber algo, para que eu chegue de fato a degustar algo ou obter algum alimento de fato.

Conhecimento é o mesmo que intuição, mas nós usamos recorrentemente essa segunda expressão sem sabermos da lógica subjacente ao processo intuitivo, contudo, há uma lógica: espiritual. É tua alma que possui um conhecimento prévio (adquirido em outras experiências junto a outros seres) que o disponibiliza na hora, ou algum ser de dimensões superiores, de matérias ditas mais sutis, que se comunica e, por não sermos capazes de vê-lo e ouvi-lo, pensamos ser algo inexplicável. Contudo, isso não se mistura, isso não se confunde com a pseudo-intuição, que advém de pessoas que sentem coisas que não sabem explicar, como em casos de mediunidade (seja por obsessão, seja por uma simples canalização), em que não se entende claramente qual a mensagem, ou mesmo pseudo-intuições que apenas nos dão ganhos materiais ou evitam perdas materiais, mas não geram, de fato, um ganho espiritual, um aumento de ciência e consciência espiritual. A intuição verdadeira nos ensina a seguirmos um caminho cada vez mais independente, ao passo que a mediunidade nos deixa dependentes de outros seres, que muitas vezes sequer sabemos realmente se são benéficos ou maléficos para nossa vivência. Por fim, todos sabemos que “sentir espíritos” não é intuição, e viver sob sugestões deles é correr o risco de se tornar alguém obsedado. Por isso tudo, o Conhecimento, ou a Intuição, se liga à Sefirá Daath (para quem queira estudar através da Kabbalah, e para se compreender porque uso aqui essas três Poesias, essas três esferas de atuação para trançar o conteúdo do texto).

Então, voltando aos alimentos, o conhecimento revela que na verdade os frutos que eu escolhi como inteligência para comer, enquanto algo que eu separei porque me interessa, não é para mim mesmo que devo ofertar – no sentido de que quem põe a mesa para se sentar e se banquetear sozinho -, mas sim um fazer a mesa para que o outro prove daquilo que eu escolhi, porque é preciso ter um movimento e que seja um movimento junto ao outro, para comer junto do outro aquilo que ambos escolhem em algum momento.

A própria palavra ignorância vem de in-, que significa não, + gnarus, que está relacionado a gnoscere, que é justamente o conhecer, ou seja, alguém que não conhece, que não possui a gnose. Então a ignorância não se opõe à sabedoria ou à inteligência, mas ao conhecimento, que é aquilo que nós conhecemos, ou deixamos de conhecer e, portanto, ignoramos, e que ignoramos justamente quando não é junto, quando não fazemos desse saber algo conjunto, algo que se possui junto.

Poderia se argumentar que é um possuir junto de si mesmo, que conhecimento é um cognoscere que não é necessariamente de compartilhar os frutos com o Outro, mas que essa partícula do com- é porque se carrega consigo, mas nós sabemos que alguém que carrega algo, por exemplo, eu, sendo uma mulher que possui biologicamente um útero, ovários e óvulos e os carrego comigo, isso não faz com que eu seja uma gestante, com que eu seja mãe só porque eu carrego tudo isso comigo, só porque eu carrego essa possibilidade de vivência enquanto potência. Porque potência é o quanto um carro pode atingir em velocidade, por exemplo, mas quando essa velocidade é atingida de fato, ela deixa de ser potência para ser realidade, vivência, experiência, ato. Assim como toda pessoa com um útero, a princípio, é potencialmente uma pessoa gestante, sendo que, caso ela venha a gestar, isso deixará de ser um potencial para se tornar um processo factual.

Então nós tendemos a confundir a posse de algo ou o poder algo com a prática efetiva daquilo enquanto uso por consequência (ou seja, causa e efeito: eu transo e engravido) ou por dever (por exemplo: eu tenho a missão de ser uma gestante, então engravido), porque eu posso possuir um óvulo e ele estar junto de mim enquanto algo que eu sei possuir e fazer uso, mas ele efetivamente só se unirá a mim, estará verdadeiramente junto a mim enquanto conhecimento de sua possibilidade de frutificação, de seu uso, se ele for fecundado por um esperma e ficar no meu útero, e lá ambos se desenvolverem juntos gerando um terceiro elemento: a vida enquanto fato espiritual e material concreto – e aí sim permanecer comigo, junto de mim, por muito tempo, sendo que para isso eu preciso do Outro Ser que tem o esperma, mesmo que eu desconheça esse ser, não importa, eu preciso do outro.

Assim também é com os frutos que nós carregamos enquanto frutos em si mesmos, são como espermas e óvulos não fecundados e sem fecundar: podemos dizer que temos vida conosco? Não, nós temos a potência para gerar uma vida, mas não é uma vida de fato, não está comigo em si de fato. Depois de um tempo, aquele óvulo irá sangrar e sair de mim, aquilo irá, de alguma forma, ser ejaculado para fora de mim.

Então em algum momento eu perderei estes frutos se eu não os compartilhar com o outro necessariamente, é somente através do compartilhar, desse movimento conjunto que de fato se torna possível conhecer algo. Então é quando a inteligência se transforma em conhecimento para que, através desse encontro com o outro, dessa alquimia que acontece, desse duplo que se torna um, eu possa, após essa criação conjunta, essa fecundação conjunta, após esse cozinhar junto esses frutos, compartilhando junto esses alimentos, finalmente formular um prato – seja simplesmente na forma de dispor as frutas na mesa, ou no prato para o outro, numa vasilha, numa taça, ou numa combinação simples como numa salada de frutas, ou ainda em algo complexo e elaborado, frito, cozido, assado, mas olhando para aquilo que eu crio através delas, fazendo com que se torne possível nós finalmente degustarmos delas, porque houve um preparo para se degustar aquele alimento.

É claro que há o caso de pessoas que pegam a fruta do pé e comem imediatamente, comem o que está disponível no campo para elas, sendo que o que a natureza lhes oferece elas aceitam, ou seja, possuem uma sabedoria desprovida de inteligência, neste caso é a sabedoria que irá conduzir para o conhecer, porque a pessoa sabe onde há um pé de determinada fruta e pode convidar o outro para ir lá comer desse fruto, por exemplo, e aí o outro gerará maneiras de se provar dele, receitas para se fazer com ele, lugares aonde se pode levar esse fruto e nisso alcançar a inteligência em algum momento.

Como eu disse, não proponho fórmulas (como: a + b + c = d, ou, c + b + a = d, faça assim ou faça assado), mas há forma (no exemplo citado, a forma seria somar os fatores e gerar uma mesma resposta), mas se tomarmos o caminho que passa pela inteligência e depois pelo conhecimento, aí sim é possível que se torne sabedoria, se nós tivermos tamanha e elevada capacidade de chegar a tal ponto, seja por esforço interno, seja também muito e principalmente por graça, por divina graça celeste.

Assim, nós podemos observar que a sabedoria, se nós chegamos a degustar algo desse banquete, nos fornece duas mãos, dois olhos, dois ouvidos, bem como dois seres, duas bocas a se alimentar, duas formas de pegar, de separar, de sentir, de observar e discernir esse alimento, tanto em termos de entendimento do que eu possuo, tenho, quero, oferto, quanto de confiança quanto ao que me é dado, ofertado, escolhido, provado etc..

Quando se fala em entendimento, ele está ligado à mente, à nossa capacidade de discernir mentalmente, tomando mais ciência das coisas. Já a confiança está relacionada ao coração: quando nós confiamos no processo e permitimos que essa teia que vai sendo fiada seja realmente produzida, mesmo quando a gente não entende muito bem aonde ela leva. Por isso é confiar com o coração, porque nem sempre a gente entende racionalmente os nós e os laços que a vida faz e desfaz todo tempo. A mente e o coração são imprescindíveis para o processo, sendo possível fazer uso de um por vez, ou aos poucos aprender a unificar a ação de ambos, que seria a consciência de fato, tornando uma só vivência o entendimento e a confiança.

Entendimento vem do latim intendere, que significa ‘estender, reforçar’, conotando que para se entender é preciso esticar, estender aquilo que se tem, e isso é muito lindo de se observar, porque justamente, para haver entendimento, é preciso esticar, estender a mão que segura o fruto, o braço ou estender o fruto sobre a mesa (todos os alimentos), para que se possa haver entendimento através dessa inteligência, desse conhecimento e dessa sabedoria ao se passar por todos os atos necessários de escolha, união e degustação, provação (no sentido de provar, que nada mais é do que ‘provar o sabor’ através da experiência, num exame, numa prova de sabores de olhos bem fechados, por assim dizer).

Para entender é preciso expor todo o alimento em cima da mesa e conseguir observar e discernir ‘o que é o quê’: o que é entrada, o que é prato principal e o que é sobremesa, o que é fruta, o que é verdura, o que é legume, enfim, sejam lá quais forem as nuances que tiverem de ser vistas, o que é doce, o que amargo, o que é salgado, o que está maduro, o que ainda está verde etc., e com isso criar a percepção.

Percepção vem do latim percipere que é ‘notar, compreender’, originalmente vem do significado de ‘pegar, agarrar com a mente’, formada pelo prefixo per-, que significa totalmente, + capere, que significa pegar, agarrar, ou seja, a percepção das coisas vem realmente da nossa capacidade de agarrar totalmente esses frutos, apalpá-los, compreender sobre o que se trata esses alimentos e escolher, usando a inteligência junto dessa percepção, aquilo que se quer ou não se quer, mesmo que você leve tudo para o banquete, ou apenas um tipo de fruta, ainda assim, ali vai ser preciso ter percepção para poder agir com inteligência e essa inteligência poder ser junto ao outro, se podendo se tornar um conhecimento ao haver a possibilidade de escolher o que se deve ou não comer – seja escolher dentro da quantidade, da diversidade de frutos, seja dentro da qualidade dos frutos, caso eu tenha apenas um tipo de fruta sobre a mesa. Ou seja, todo ato pressupõe o outro ato como potência – o entendimento pressupõe a percepção como potência, a percepção pressupõe a inteligência como potência, que pressupõe o conhecimento enquanto potência, e assim vai -, mas não quer dizer que vá acontecer: alguém pode perceber algo, mas não ter inteligência para de fato escolher, bem como pode ter inteligência, mas não necessariamente chegar a ter sabedoria, assim como ter sabedoria e não ter inteligência, pois o passar de uma esfera de atuação para a outra depende da graça divina, e não apenas do esforço humano, ou seja, não depende das mudanças na carne, mas no espírito e nas transformações concedidas por D’us.

Mas é importante notar que quando a gente sente o sabor de algo, quando temos algo sendo degustado em nossa boca, isso nos impossibilita de falar, isso nos cala… quando a comida é realmente muito boa muitas vezes nos faz fechar os olhos – a gente fecha bem os olhos e fica imerso nesse mar que se cria de repente através de toda saliva e toda a língua criando ondas e carregando esse alimento para lá e para cá até que nos adentre de fato e quem sabe assimilemos algo, caso seja um alimento apropriado, e apropriado não quero dizer bom ou ruim, mas sim aquele conhecimento que é necessário naquele momento, porque algo ruim pode ser algo que estamos precisando naquele momento, assim como podemos precisar de algo triste. Nós que temos a tendência equívoca de achar que a sabedoria vem apenas de coisas belas, lindas, bonitas e alegres, sendo que a maior parte das vezes a sabedoria vem do abismo, porque é quando a comida cai até o estômago: é preciso muita coragem para saber que após esse abismo há algo, um lugar onde se chega, em que o corpo vai saber sozinho fazer toda a divisão e assimilação daquilo que deve ficar e o que deve ir embora, porque nós não temos (ao menos, ainda) a capacidade de conscientemente escolhermos quais vitaminas ficam no nosso corpo quais vão embora, quanto de suco gástrico se usa e qual líquido interno se evita, o tanto de água a absorver para que se crie o bolo fecal, enfim, quais combinações fazer – nós não sabemos nada disso -, tudo isso é porque nós, de alguma forma, confiamos no processo, confiamos que, a partir da hora que a gente engole e essa comida cai por esse abismo, que é a nossa garganta, ela vai ter seu devido processo.

Então a sabedoria tem a ver com confiança, porque uma vez que se degusta esse fruto – se não se cospe aquilo que se degusta, nem se engasgue, ou seja, caso se engula por vontade própria, não por coação, indução ou similares, mas caso se engula por livre arbítrio -, para chegar ao outro, ao próximo, ele passa por um abismo, é precipitado em um abismo, porque o engolimos na confiança de termos um estômago que o receberá e dará conta – o próximo órgão esperando (o fruto) após a queda pela garganta.

Logo, a sabedoria vem de confiar no outro, porque não é questão de autoconfiança, como se poderia argumentar: “é confiar em mim mesmo, de que eu sei fazer o processo”, só que não, não sou eu que sei fazer o processo de digestão: é o meu corpo. Isso mostra que meu corpo é diferente de mim, do que eu chamo de eu, é no meu corpo que eu confio – que ele vai saber fazer o processo -, porque se dependesse de eu saber quanto de cada produto químico lançar internamente, quanto de cada hormônio, quais movimentos peristálticos intestinais fazer e quando levar o alimento, o sangue, o oxigênio de um lado para o outro, eu estaria perdida, qualquer um morreria provavelmente, não é?

Então nós confiamos que o nosso corpo sabe e que ele fará o que é preciso, ainda que eu não tenha a menor ideia de como isso se dá efetivamente, ainda que um cientista possa me explicar, e ainda que haja corpos que não façam tão bem assim todo esse processo, mas nenhum cientista sabe fazer isso no corpo – como “mandar uma célula morrer e outra se duplicar” – por mais que se possa intelectualmente conceber em potencialidade científica essa ordenação interna, eu não sei fazer na prática (com a ciência) tudo isso ao mesmo tempo, o tempo todo, a vida inteira, a única possibilidade que nos leva a isso é a consciência espiritual dos processos, sabendo que toda parte física tem sua contraparte espiritual, e vice-versa, e assim manter o corpo saudável pelo tempo necessário para cumprir a missão aqui ao ser em união com o espírito – mas isso significa acessar o verdadeiro Eu em um alto grau de pureza, o que ainda é raríssimo de acontecer.

Uma passagem bíblica muito conhecida sobre sabedoria, inteligência e conhecimento, que usarei para exemplificar principalmente que a sabedoria é através da confiança, é a passagem de Salomão: Salomão é considerado o sábio dos sábios, um dos homens, senão o homem mais sábio que já passou neste planeta. Ele era tão valoroso, tão purificado, tão íntegro, que D’us lhe concede qualquer coisa que queira, bastando pedir, e ele, dotado de tremenda retidão, pede sabedoria e conhecimento, pede sabedoria para governar com justiça e saber a diferença entre o bem e o mal, pede um coração entendido que prudentemente discirna entre o bem e o mal, um coração cheio de discernimento capaz de distinguir entre o bem e o mal, um coração cheio de julgamento para discernir entre o bem e o mal (uso aqui as várias traduções bíblicas encontradas de 1 Reis 3, além de muitas outras existentes).

Vejam, ele pede para que soubesse da árvore do bem e do mal e a diferença entre seus frutos, isso é muito próximo, não é igual, mas próximo do que a serpente ofertou: que comêssemos da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas ele pede de maneira reta, justa, não para ser como D’us, como provocou a tentadora serpente e assim nos conquistou: através da ideia de sermos deuses, mas sim para que soubesse como guiar o povo de D’us. Em nenhum momento o povo passou a ser dele por ele ser rei, nem pediu nada para si, mas para o povo e a glória de D’us enquanto seu Senhor.

Uma das passagens mais famosas em relação à sabedoria de Salomão é a de duas prostitutas que são mães e estão brigando por conta de uma criança viva e outra morta, sendo que ambas as mulheres alegam ser a mãe do bebê vivo, e não há quem saiba distinguir quem é a mãe de qual bebê. Então Salomão, sem conseguir distinguir através das alegações quem diz a verdade e quem mente, toma uma sábia decisão para obter esta distinção: pede uma espada e manda cortar a criança ao meio. Nisso, a mãe verdadeira da criança viva imediatamente se manifesta e diz que não é preciso cortar a criança ao meio, pede que deem a criança para a outra mulher, enquanto a outra mãe (da criança morta) passa a afirmar que a criança não deveria ficar com nenhuma das duas, mas que fosse realmente cortada ao meio. Assim Salomão sabe imediatamente quem é a mãe verdadeira: a que havia aberto mão do próprio filho por conta da morte iminente.

Nós podemos nos questionar: por que há sabedoria em dizer que iria cortar uma criança ao meio? Afinal, ele era o rei, e, se até hoje se mata por nada, naquela época se matava por menos ainda, então com certeza se partiria uma criança ao meio e certamente se ele dissesse que era para cortar uma criança ao meio ou em cem pedaços, alguém o faria sem o menor problema, supostamente…

Então, o que há de sábio em mandar cortar uma criança ao meio sabendo que era uma ameaça real, tão real a ponto da mãe abrir mão da criança por saber que irão cortá-la, é um fato, isso vai acontecer, vai ser feito, logo, onde está sabedoria?

A sabedoria reside no fato de que Salomão não sabia se a mãe iria se colocar contra cortar o filho ao meio, ele não sabia que ela faria isso, ele não sabia se ela iria responder ou não para que dessem à outra e não cortassem o filho ao meio, ele não tinha esse tipo de onisciência (que é uma ideia humana romantizada do que seja onisciência, aliás), mas, contudo, entretanto, ele confiou que a mãe verdadeira fosse intervir, ele confiou que ela fosse se manifestar de alguma forma e evitar a morte do filho, podendo assim ser reconhecida como mãe verdadeira.

Então a sabedoria dele não está em mandar matar a criança em si, em cortá-la ao meio, mas sim em dizer isso confiando na mãe, o que o fez sábio foi a sua confiança nessa outra pessoa. Ou para além das aparências, em sua confiança em D’us, pois confiar vem de confidere, com e fides, ou seja, ‘com fé’.

A confiança vem do coração, de quem tem a coragem de confiar que o outro vai saber o que fazer dentro do processo (sendo que coragem vem de coraticum, de cor, que significa coração, + aticum, um sufixo usado para designar uma ação referente ao radical anterior, então temos um coração que age: coragem), confiando que o outro irá interferir no processo de maneira devida como lhe é exigido pela vida.

Porque o papel, a missão, de uma mãe, enquanto arquétipo de mãe, é resguardar pela vida de seu filho. Então Salomão confiou que ela fosse cumprir a sua missão enquanto mãe e velar pelo seu filho, evitando que ele fosse morto, assim ele agiu com o coração, inclusive tendo coragem de ameaçar cometer um ato brutal, um ato que poderiam dizer que é injusto, mas que não seria injusto se a mãe não se manifestasse, porque a justiça nada tem a ver com o bem e o mal que nós qualificamos: a justiça tem a ver com aquilo que é necessário fazer e ponto – o dever a cada instante! E, naquele momento, era necessário resolver, aquela foi a melhor forma, fazendo aquela ameaça.

Então era sim justo ele ameaçar, e a sabedoria de Salomão possibilitou que a mãe verdadeira também foi sábia porque ela correspondeu à sabedoria dele, ela fez o seu papel, cumpriu a sua missão como mãe naquela hora (ainda que ela pudesse ter uma missão de vida para além daquilo, porque uma coisa são os deveres do momento, outra coisa é o dever a se cumprir em uma vida – vida enquanto soma de todos os momentos), revelando também que a sabedoria de um em confiar em D’us se torna também a sabedoria do outro que ali se encontra, havendo a possibilidade de um milagre acontecer. Com isso, a mãe possibilitou que uma justiça ainda mais nobre fosse manifestada, porque mesmo as virtudes, nós sabemos que elas têm graus, e assim como seria justo cortar a criança ao meio caso nenhuma das mães se pronunciasse, mais justo e nobre foi a mãe ter aberto mão do próprio filho para que ele não morresse, porque aí sim seria injustiça Salomão matar na frente daquela mãe, tendo ela já se manifestado, porque injusto é ter a solução dada por milagre de correspondência entre as partes – ele e a mãe verdadeira – e ainda assim levar a cabo o comando anterior apenas por poder, em um tremendo abuso de autoridade. Então Salomão foi novamente justo e sábio ao entregar o filho para a mãe verdadeira.

Hoje em dia muitas vezes temos dificuldade em reconhecer a justiça nos atos, em ver como que aquele que abre mão de algo muitas vezes é aquele que justamente mereceria levar embora aquele algo, ficar com aquele algo.

Por não haver mais pessoas como um sábio rei Salomão nos guiando de maneira concreta, a injustiça abunda e abusa entre os poderosos, porque é claro que temos guias espirituais, que são mais concretos, aliás, do que qualquer guru físico, então claro que temos guias, e neste sentido não estamos nem um pouco desamparados, pelo contrário, estamos melhor amparados do que nunca, mas pela falta de ter a expressão de um Salomão no mundo em carne e osso enquanto decisões realmente políticas, por exemplo, seja em casos pequenos ou grandes, se torna difícil conseguir observar como aqueles que abrem mão de algo muitas vezes são os que mereceriam estar com aquele algo – como pessoas que muitas vezes silenciosamente deixam algo para trás, por conta de uma briga, serem as que o tempo todo carregaram aquilo verdadeiramente no colo.

É claro que não havendo Salomão para devolver as crianças às suas verdadeiras mães, se torna um dever nosso, enquanto mães (e aqui falo arquetipicamente para homens e mulheres sobre aquilo que nós creamos), aprendermos a ver realmente essas creações como emancipadas e independentes, a caminhar pelo mundo como for possível em direção ao outro, já que os outros também querem reivindicar essas creações. Então que saibamos abrir mão realmente e crear filhos independentes, sermos cada vez mais mães menos umbilicais, ou seja, nos tornarmos mais arquetipicamente pais, e que saibamos realmente dizer não e não permitir que matem as creações, por mais que isso implique em os outros levarem embora, já que Salomão não as devolverá para nós, mas somos nós, como pais, que temos a oportunidade de seguir o exemplo mais altivo que nos foi legado: o divino sacrifício de Cristo, o filho primogênito, e passemos a doar nossas creações, nossos filhos, em sacrifício ao outro que ainda não é capaz.

Até porque essas três instâncias, Sabedoria, Inteligência e Conhecimento, também têm relação lógica e análoga, respectivamente, com o Filho, o Espírito Santo e o Homem ascensionado (consciente), sendo necessário um passo espiritual além para se chegar ao Pai, que corresponde à Sefirá Kether. Lembrando que, para o Homem ascensionado, é possível ver como todos os passos de uma esfera para a outra, indo e vindo, subindo e descendo, descendo e subindo, são puros e divinos milagres.

Mas voltando à tragédia nossa do dia-a-dia, algo trágico que nós também vemos muito hoje é que, mesmo duas mães brigando pelo filho, nenhuma abre mão, e acabamos por cortar a criança ao meio – matando a vida, criando separatividade, dualidades irreconciliáveis, oposições horrendas. Quantos casais não fazem isso com seus próprios filhos, não são duas mães literais, mas são a mãe e o pai que arquetipicamente se tornam duas mães prostitutas da pior espécie ao fazerem isso com próprio filho, sufocando-o, igualzinho na Bíblia, e sequer se dão conta do grau de injustiça que estão cometendo por pura vaidade, porque onde não há sabedoria há injustiça.

A justiça só é possível diante da sabedoria, e a sabedoria só anda acompanhada da confiança, então é preciso confiar no outro para haver sabedoria, confiar no processo para saber que está tudo bem eu engolir a comida e ela cair neste abismo, pois o meu corpo vai dar um jeito dela chegar ao estômago e ser digerida.

Então que tenhamos cada vez mais ciência desse processo de percepção – de quem pega totalmente algo; de inteligência – que escolhe os frutos, escolhendo o que irá comer ou não; de entendimento – que estende a mão, o braço ou a mesa com esses frutos; de conhecimento – do fruto junto ao outro, aprendendo as combinações, receitas, cozimentos, preparos para o saber ser ofertado da melhor forma possível para a digestão do outro, facilitando o processo de assimilação, e então transformar tudo, quem sabe, em sabedoria para que, através da confiança, se chegue em algum lugar melhor do que se estava antes de toda essa colheita, um lugar de verdadeira Liberdade e Justiça, ou seja: de Amor!

É claro que o processo não é necessariamente linear como aqui está, mas quão mais reto é possível fazê-lo, inegavelmente melhor se tornará a vivência do mesmo. Assim como é claro que alcançar a sabedoria não significa estagnar, não é uma linha de chegada, mas sim um ponto alto, sublime, de onde se contempla algo muito maior e se retorna para continuar trabalhando eternamente por Amor a todos aqueles que ainda não conseguem fazer o mesmo.

A Poesia da Inteligência, a Poesia do Conhecimento e a Poesia da Sabedoria por fim podem ser resumidas em escolher os Frutos, unir-se ao Outro e degustar, saborear, sentir a Vida, ou seja, Viver a Vida de Forma Plena, que em essência, na verdade, é transformar a Árvore do Conhecimento do bem e do mal em Árvore da Vida … quem consegue isso tem a boca preenchida por aquilo de que o coração está cheio, ou seja, se cala, pois acima disso, só há inefáveis palavras:

O resto é silêncio.

Hamlet, de Shakespeare

a Poesia do Eclipsar . : . [feminino e masculino: o sagrado binário]

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Eu gostaria de conversar sobre qual é a poesia do eclipse, e dele caminharmos e observarmos aquilo que é sagrado dentro da dualidade que se apresenta a partir de um terceiro.

Porque um eclipse nada mais é do que isso:
uma dualidade de Sol e Lua que se revelam desde a perspectiva da Terra.

Se unirmos a dualidade que se apresenta e olharmos para ela de forma sagrada, iremos ver algo que hoje tem sido muito discutido, que é a realidade de um sagrado feminino e um sagrado masculino.

No sagrado feminino se fala da nossa conexão com a Lua e com a Terra, e ‘nossa’ eu digo sobre o feminino de todo mundo, porque os homens também têm seu feminino, mas se quisermos focar apenas nos seres que possuem um útero e o vivem hormonalmente de maneira natural, ou seja, sem intervenções hormonais externas, sabemos que estamos associando estes seres aos ciclos das Luas, ligando toda produtividade e abundância à Mãe Terra, e isso é lindo. Mas é preciso lembrar que a Lua e a Terra ‘só são o que são’ por conta do Sol e que se o Sol desse um peteleco em qualquer uma das duas, elas seriam pulverizadas da face do universo, claro, colocando num radical material físico apenas, porque na espiritualidade sabemos que não é assim, mas apenas usando termos mais rígidos para que possamos analisar essa problemática em relação às falas do sagrado feminino e sua conexão tão forte com Terra e Lua, e podermos então revelar que se esquece, maior parte das vezes, de que ela não existe separadamente: não é questão de patriarcado, não é questão de machismo, é questão de que realmente sem o agente masculino ativo, o feminino deixa de existir.

Assim também é com o Sol, que só tem ‘sentido de ser’ se ele leva vida, porque senão ele estaria se “queimando por nada”, ele existiria, mas ele não seria, e isso não faz sentido – ele queimar por nada – enquanto estrela, porque uma estrela queima para iluminar o Outro que chega, aquele que se aproxima, aquele que olha para ela, a estrela queima para iluminar a visão alheia, para crear vida, justamente, assim como a vida como a conhecemos aqui na Terra, quimicamente falando, materialmente falando, é só pelo Sol, e mesmo em termos de matérias mais sutis, toda nossa matéria vem do Sol, não tem como separar uma coisa da outra, estamos em seu reino, tanto que chama-se: sistema solar.

Então quando se fala de sagrado feminino é importante saber que, sim, existe um sagrado masculino, por mais que feministas possam ficar com pêlos arrepiados de se falar disso, já que supostamente os homens são tão “exaltados socialmente”. O que se revela que no fundo não são, e a gente começa a ver que seriam verdadeiramente exaltados se agissem como um Sol realmente, numa existência de Sol, ainda que não sendo um Sol propriamente, mas numa existência que possibilita o Ser Vivo, e claro, a vida nesse planeta, de Ser Vivo na Terra, é complexa, e sendo assim, isso nos mostra que não dá para definir tão bem assim feminino e masculino, porque no fundo temos uma intuição, percepção, alguns até anatomicamente vivem a reivindicação de que ‘eu sou feminino e masculino’, ou que ‘você está vendo o masculino em mim, mas eu vivo o meu feminino’, e vice-e-versa.

E aí a gente começa a ver como todos nós temos essas duas instâncias dentro de nós, o Sol e a Lua, por assim dizer, e como que viver somente uma identidade puramente masculina é um eclipsar da Lua, assim como viver uma identidade puramente feminina é um eclipsar do Sol. Eclipses são lindos? São maravilhosos. Trazem evolução? Sim, na dor, pois todos sabemos que eclipse é sombra, mas não deixa de ser uma oportunidade ímpar, muito mais milagrosa do que até mesmo as tradições foram capazes de nos trazer, de uma super-evolução.

É através da separação, da sombra, que se aprende através dele (do eclipse), não à toa estamos aqui fazendo papel de homem e de mulher a cada vez (para quem acredita em reencarnação), para aprendermos uma coisa de cada vez: a ser homem quando se é homem e ser mulher quando se é mulher. Então a gente vem vivendo um eclipsar de si há muito tempo através das reencarnações, porque sabemos que espiritualmente somos ambos enquanto potência de manifestação terrena.

Tradicionalmente, há os vários nomes pra gradação dessas forças, dessas energias duais que se manifestam em nós, porque o princípio é o do duplo, princípio da dualidade, e a partir daí há o feminino e masculino, negativo e positivo, yin e yang etc.. E desde os escritos de Platão já se falava sobre essa dualidade presente em nós quando em O Banquete ele explica, através de um dos discursos (o de Aristófanes), como nós éramos andróginos até que fôssemos partidos ao meio.

Essa dualidade se apresenta através de diversos símbolos para nos darmos conta de uma realidade espiritual nossa, de que nós vivemos esse feminino e masculino, positivo e negativo, yin e yang, em nosso Ser verdadeiro, e isso não depende da manifestação física em literalmente viver a androginia, literalmente ser hermafrodita, ainda que possa ser simbolizado por essas vivências, inclusive podendo ser o caso de alguns transgêneros hoje em dia, ainda que uma pessoa cis possa ser totalmente andrógina em sua vivência em relação ao mundo – é preciso olhos para ver isso: ver como ela conduz e crea através dessas energias, até porque observar o que a pessoa leva no meio das pernas não convém, assim como olhar na cara e só porque não sabemos distinguir se é homem ou mulher ser automaticamente classificado como andrógino uraniano evoluidão, a pessoa X da Era de Aquário, não, não é assim, achar que só porque eu fico “performando” (como dizem as teorias de gênero hoje em dia) um gênero e depois outro eu sou mais evoluído e andrógino: não, ledo engano!

Viver a Era de Aquário e a androginia nada tem a ver com simulacros do físico, ainda que o físico apresente a tendência (vejam bem, tendência), numa pessoa uraniana, a ser diferente do padrão, porque ela deixa de se importar com o físico da mesma forma que os outros se importam (vejam, ela não deixa de se importar com o físico, ela apenas não se importa com o físico da mesma maneira que os outros, que a maioria). Ou seja, uma pessoa realmente uraniana não se importa com questões de gênero necessariamente, mas sim com questões para além do corpo, o corpo se torna apenas um reflexo, um espelho de um processo mais avançado internamente, ou seja, não é o externo que faz evoluir o interno, como teorias de gênero pretendem.

As pessoas que alteram o corpo físico para serem mais evoluídas, tudo bem, livre-arbítrio, isso pode fazer parte do processo de se dar conta da androginia, de concretamente ver o símbolo tomar forma e confirmar outros patamares de consciência, mas não existe fórmula, ou seja, esse passo espiritual não se dá assim, ainda que possa ser assim para um indivíduo, mas na maioria não o seja:

A massa que não tem ainda um processo individual continua sendo massa independentemente da figura, porque individuação não é uma questão de forma (estética), mas sim de conteúdo. Ainda que um seja indissociável do outro e um altere o outro, mas, saibamos, pela Lei da Lógica e da Analogia: o céu reflete na água, mas a água não é refletida no céu, ou seja, o processo mental, superior, ou mesmo espiritual é refletido no corpo, então o corpo pode ser uma via para se dar conta de algo espiritual, mas o processo de alteração do corpo não reflete um processo de consciência avançada.

Ou seja, as aparências enganam. Especialmente se elas são vaidosamente alteradas.

Se eu vivo o gênero por estilo de vida, e não por necessidade espiritual, então, no máximo, eu faço parte da nova massa da Era de Aquário, que seja, mas é massa, do mesmo jeito.

Existe dentro de nós a potência de viver esse andrógino, especialmente enquanto força, porque a maior vivência das realidades mitológicas é enquanto forças que colocamos em vigor no mundo, não enquanto aparências, mas enquanto energias intrínsecas. Pois se fosse aparência, pegando a linguagem astrológica como exemplo, uma pessoa jupiteriana, sendo Júpiter ligado à expansão, à benevolência, à bondade, ao doar-se, ela seria necessariamente gorda, grande (ainda que sim, dê para se observar características físicas através dos astros por conta de sermos regidos pelas estrelas, em vez de sermos amigos delas, pois se eu tenho Júpiter conjunto ao ascendente a tendência será realmente a de ter um corpo gordo, um Júpiter passando por certos aspectos e lugares no mapa pode nos conduzir (não obrigar, mas conduzir) a comer mais). Mas levando em conta uma pessoa que escolhe fazer o bem simplesmente porque é Justo e Belo fazer o Bem, ela não será gorda necessariamente, grande como o planeta.

Então ser andrógino, no mitológico, no simbólico, não é o que os olhos captam, assim como um gordo, alguém jupiteriano às vistas (na aparência), pode ser uma pessoa extremamente egoísta, mesquinha, porque os planetas dependem também de aspectos e instâncias variáveis, tendo uma predominância para a massa, que reagirá da mesma forma aos astros, mas sendo totalmente imprevisível quanto ao indivíduo, que livremente, dentro de seu limitado ganho de consciência, escolherá. Então uma pessoa gorda pode estar sendo convidada a olhar para a sua benevolência e generosidade, assim como um hermafrodita pode estar sendo convidado a lidar com o princípio da dualidade de forma concreta. Não quer dizer que a pessoa aceite o convite, bem como não quer dizer que essa vivência será como se espera, por exemplo, não quer dizer que uma pessoa gorda deva (tenha o dever de) ser generosa, mas talvez seja justo o oposto, ela deva deixar de ser tão supostamente generosa consigo, ao se dar a liberdade, por exemplo, de comer qualquer coisa, ou mesmo de engolir qualquer coisa dos outros, numa generosidade cega.

O físico pode ser um convite como ensinamento para que a pessoa entre em contato com aquela força que nela se expressa de maneira física para que ela tome ciência da lição a ser aprendida: sobre benevolência, doação, expansão até mesmo exagerada do que é supostamente bom, mas ele (o físico) não determina que a pessoa aprenderá aquela lição, assim sendo, um visual andrógino pode levar a pessoa a experimentar de maneira bem primária e superficial esse convite a compreender que ela é sim bissexual em termos de gênero, ou seja, a ver que ela é binária, não quer dizer, no entanto, que ela vá viver isso. Aliás ela pode viver a negação da binariedade. Ou mesmo um convite para deixar de achar que já pode viver o binário e ter que escolher socialmente, no caso de um hermafrodita, qual unidade vivenciar.

Nós todos somos espiritualmente binários, não há como negar a binariedade, mas também não há como forçar vaidosamente a vivência desse fato. Esse papo todo de hoje em dia sobre não-binários e gênero fluido e o nome que seja não foi inventado agora, é tudo apenas uma forma rasa de se falar de algo muito mais profundo e sério que é o hermafrodita ou o andrógino originais, anteriores à queda bíblica, inclusive. Não é de agora isso tudo, ainda que muitas pessoas acreditem e fiquem empolgadíssimas achando que estão inventando a roda.

E eu chamo a atenção para pensarmos juntos justo sobre o sagrado feminino e sagrado masculino porque na verdade é um binário sagrado ou um sagrado binário o que se apresenta, por fim.

É se dar conta de que é possível ser mulher e viver mais concretamente a realidade da Terra e da Lua, dos ciclos, da fecundação etc., e de que estamos aqui vivenciando isso e muito mais, para passarmos por muitas experiências e quem sabe com isso adquirirmos algo de conhecimento que nos conduza à espiritualidade, mas sem deixar de lado o masculino, porque se eu negar, se eu matar a força masculina (e isso não quer dizer ‘usar somente a cor rosa’, mas sim negar a energia masculina, energia positiva que há em mim), eu não germino, eu não produzo, eu morro… porque eu vou viver um eclipse o tempo todo, como se durante a vida toda eu estivesse sob um eclipse solar, e se eu fico eclipsando o Sol, algo tenderá a definhar: o calor não chega, as plantas não crescem, a vida, no mínimo, adoece. Assim como ser homem e ficar só na masculinidade viril de ‘olha como eu sou potente’, bacana, mas o que você faz com essa potência de fato? Quantas pessoas você ajuda com essa força? Quanta vida cresce através de você realmente? Ou você está matando seus filhos? (E não falo aqui de filhos literais, necessariamente, mas inclusive dum gozo estéril, como homens que se masturbam demais ou transam com qualquer coisa que se mexa). Se o homem ainda está vivendo uma realidade em que ele mata seus filhos, aborta-os, abandona-os, vira a cara, nunca mais fala, se ainda está vivendo uma realidade em que ele abomina o que ele cria, ou inclusive não cria, não produz vida ao seu redor, mas sim morte e esterilidade, então ele não está vivendo o Sol Vivo, mas um sol morto, que mitologicamente é Saturno.

Então não é viver uma masculinidade em sua exaltação, em sua oitava mais sublime, por assim dizer, assim como a mulher também, se ela fica vivendo só a Lua, e repetindo os ciclos inconscientemente, ad aeternum, sem produzir nada em si mesma, apenas gozando da luz que nela se projeta, é preciso olhar para a Terra, sim, mas com a mesma pureza da Lua, e fazer com que a matéria daqui, a creação aqui seja mais pura que a da própria Lua – isso é raríssimo de acontecer.

A mulher tem a integração entre ambas (Terra e Lua) um pouco mais dada, não há como desconectar muito uma da outra, até por fisicamente estarem muito unidas, mas um Saturno que está desligado do Sol, não é nada, não é masculino de fato, e é possível também as mulheres cometerem esse erro, na busca do masculino, se tornarem extremamente masculinas de modo saturnino. Saturno, que inclusive é cheio de Luas.

Então é preciso se atentar ao que essas simbologias nos mostram, como elas nos conectam com esse algo sublime que nós vivemos e não percebemos muitas vezes, ou na tentativa de perceber algo mais aprimorado acabamos “pisando na jaca” e errando a mão feio. É preciso começar a suspeitar porque que um Saturno tem muitas Luas cujo domicílio, dele mesmo, é num signo extremamente feminino, Capricórnio, sendo ele próprio um planeta extremamente masculino, como um pai que justamente mata seus filhos, não permite que vivam.

Se nós não somos pessoas produtivas, ou seja, se somos reprodutivos, se estamos apenas nos reproduzindo e reproduzindo as coisas (vivemos na era da reprodutibilidade), não estamos tendo contato com o Sol Vivo, porque o Sol é produtivo – ele produz luz e calor o tempo inteiro, ou seja, deve-se ser produtivo, mas não para si mesmo, de forma egoísta, e sim para o Outro.

Um Saturno tem 62 Luas, imagina… é acontecimento pra caramba, porque se a Lua faz as marés, plantas, rege o ciclo de crescimento, vivência e morte, oras, com 62 Luas ia ser isso de maneira exacerbada, caótica, sob um rigor extremo, pois Saturno é um masculino que exacerba o feminino também, com dois polos extremamente fortes em termos de vivência materiais enquanto simbologias.

Mas o Sol, ele não tem Luas. Ele tem Planetas ao redor dele, não Luas. Porque ele já não crea vida nele mesmo – a Lua é para crear vida em si mesmo, tentar fazer algo nascer, crescer, morrer, em processos de transformação, de gerar algo, ou seja, a Lua é responsável pela geração, mas o Sol… o que gravita ao redor dele são Planetas: são seres que em vez de fazerem ele ter vida, é ele quem se queima para doar vida para esses seres que o rodeiam.

E é preciso ter vida dentro, não adianta ser só um trabalho, porque as pessoas se equivocam com as aparências, e acreditam que fazer um trabalho lunar, eu pegar e ir doar tudo, ou sair ajudando quem eu encontro pela frente, ou fazendo tudo de graça, será viver a doação, sendo que não, isso é uma luz lunar, e a Lua, por mais que brilhe, não tem brilho por si mesma, ou seja, isso só irá ser real se eu tenho Vida em mim mesmo, porque só pode doar vida aquele que tem vida em si. E doar Vida não é necessariamente doar bens materiais.

Então é preciso, antes de sair doando tudo, dando tudo (aliás, há uma grande diferença entre dar tudo e doar tudo, mas…), antes de sair curando supostamente todo mundo numa super boa intenção, criando aparência de Sol, é preciso, antes, se perguntar se eu sou capaz de, mesmo sem tudo isso, continuar me doando. E me doando no sentido de queimar em mim mesma, de ser e estar em transformaçõesnão para que alguém veja, mas simplesmente porque tem que ser assim, assim como doar para os outros inclusive aceitando e amando quem não queira a doação.

É preciso aceitar que nem para todos os que a gente doa Vida irão gerar vida realmente, tem pessoas que são “só”, entre aspas esse “só”, meteoros, ou asteroides, pessoas que não têm grande capacidade de creação de vida em si mesmas, então a gente pode doar beleza para elas e elas passarem riscando o céu como um cometa Halley e a gente se espantar: uau, que lindo! Mas em si mesmo não chega a ser um planeta, não tem exatamente vida como uma Vênus, um Mercúrio, um Marte, ou mesmo um Saturno. Mas ainda assim o Sol, em sua grande magnificência, faz com que algo tão simples e escasso se torne um show de beleza, sendo que o cometa Halley tem uma órbita que chega próxima ao Sol estando entre Mercúrio e Vênus, bem como tendo seu ponto mais distante na mesma distância que Plutão, e correndo no sentido contrário dos planetas, ou seja, ele dança pelo sistema inteiro, vai no sentido oposto a todo mundo, é supostamente estéril, e ainda assim, vive ao redor do Sol para cumprir com sua digníssima missão: ser a materialização de uma excêntrica beleza!

Então será que estamos preparados para nos doarmos inclusive para seres aparentemente insípidos, estéreis e opostos a tudo o que acreditamos?

Será que a gente é capaz de emanar para qualquer um a nossa força, sem perdê-la?

Porque claro que ao queimar, uma hora o Sol irá se apagar, consumir por completo, mas sabemos também que quando uma estrela chega ao que chamamos de morte, dependendo do tamanho dela, ela vira uma anã branca, ou uma supernova, ou buraco negro, ou mesmo uma gigante vermelha no meio desse processo, e por fim até uma lendária anã negra, ou seja, ela ganha uma impulsão tal que se torna algo ainda espetacularmente mais magnifico, tamanha a sabedoria do universo! Sem entrar em méritos de haver o que chamamos de vida, pois a própria vida da estrela se transforma e com ela se transforma também todo o sistema! Eis a verdadeira beleza e justiça!

Então, será que quando cultuamos um sagrado masculino e sagrado feminino nós sabemos do que estamos falando de fato? Será que temos ciência de que estamos eclipsando forças para aprendermos sobre uma força específica enquanto aparência e a outra enquanto sombra?

Não há problema em se viver somente o feminino ou somente o masculino, mas a partir da hora em que a gente toma ciência de que isso é um processo de eclipse e de obstrução de outras forças para que uma seja preponderante no processo e eu aprenda algo deste rigor, isso também traz sombras, traz impotências, traz doenças e problemáticas com as quais eu tenho que aprender a lidar, todos temos, porque faz parte, é para isso que servem, inclusive literalmente, os eclipses no céu, mas eu só vou crescer de fato com eles se eu aprendo o que eu preciso observar com isso e compreendo que é preciso curar: que para viver o meu sagrado feminino eu preciso curar meu sagrado masculino e para viver meu sagrado masculino eu preciso curar meu sagrado feminino.

Ou mais profundamente: curar no Outro, naquele que queira e esteja pronto e disposto.

Olha que paradoxo! Um paradoxo belíssimo!

Sou eu que muitas vezes deixo de me curar por não conseguir observar com a ciência disso, porque grupos de sagrado feminino muitas vezes deixam a gente mais doente e bitolada. Porque é limitante, está ensinando a lidar com as aparências, mas nem sempre se ensina como lidar com a sombra, só se obstrui a outra força e gera mágoa, ressentimento ou vivência fechada – passando a viver apenas entre mulheres.

Se não observarmos que esses processos de eclipses são de uma obstrução para que se aprenda a desobstruir e com isso trabalhar com o polo oposto enquanto sua sombra, a vida vai continuar morrendo, porque os homens vão continuar tendo eclipses lunares e vão continuar precisando passar por Saturno, com mil e uma luas, sem poderem eclipsar as forças femininas do rigor, da sombra, sendo obrigados a se melhorar quanto ao feminino – ou, se não se melhorarem, veremos as aberrações que sempre existiram: homens que realmente literalmente matam, abandonam, obrigam o feminino (seja em forma de mulher, seja em forma de filho, seja internamente até mesmo no suicídio) a estarem sob seu comando, levando a uma frieza que não gera nada mais, nem uma vida.

Assim como veremos mulheres que vão continuar tendo eclipses solares e vão continuar parindo aberrações, filhos dessas sombras todas, ou ficarão parindo sem parar, continuando a ser apenas um “vaso reprodutor”, como muitos já as tratam, em vez de se purificarem e crearem algo (seja um filho, seja uma ideia etc.) realmente imaculado, no sentido de único, de pleno de valor por ser pobre, obediente e casta ao invés de submissa, como o mundo exige – porque a pureza que o mundo exige é falsa, a pobreza, a obediência e a castidade, já tratadas no texto anterior sobre a Poesia da Palavra, tem relação com a forma como se crea, gerando uma fórmula única, individual e intransferível de como fazê-lo. Esse seria um feminino emancipado.

Mas voltando a Saturno, é só isso que Saturno causa? Morte, esterilidade, rigidez, abandono, frieza? Não, ele não se reduz a isso, Cronos também pariu um Zeus, é de Saturno que vem Júpiter em termos de hereditariedade, ou seja, a escolha maléfica não é do planeta, mas dos homens! Do ser humano! Porque as mulheres também podem passar por esse processo, lembremos sempre que as aparências enganam, tratar de polo positivo masculino como só homem é um ledo engano. Mas Saturno em si, se aprendemos a lidar com ele, podemos parir um Júpiter! É assim que se rasga o estômago dele e se liberta desse processo tão doloroso que é ser, inclusive, engolido por si mesmo, porque no fundo é isso, a gente consome a vida alheia – pode matar os outros, mas o efeito espiritual disso é de obstrução do próprio crescimento, é a si mesmo que se está engolindo principalmente, porque o outro, se ele é morto, renasce!

A obstrução depende apenas de nós, de não ficar preso a esse ressentimento de ter sido engolido e morto por um Saturno (ou pessoa saturnina). É difícil? Sim, estamos nisso há milênios, nos matando e nos vingando há tempos, mas é da escolha pessoal de cada um ao tomarmos ciência e, cada vez mais, sairmos desse processo saturnino e irmos viver Júpiter, e sendo Júpiter, compreendermos que Saturno é o pai em termos de hereditariedade, de onde eu vim – então honrar a origem material, honrar Saturno é necessário e imperativo para quem queira se emancipar dessa força castradora (que, aliás, paradoxalmente é o caos, mas é também aquele que tem rigor e que sistematiza tudo – quem ama só o rigor ou ama só o caos de Saturno, ainda não aprendeu o caminho do meio do próprio Saturno, é alguém que ainda não compreendeu a amplitude dessas gradações de Saturno, e é aconselhável buscar sempre o caminho do meio de todos os Planetas, se possível, seja como símbolo, seja como força, seja como energia, seja como mitologia, ou como realidade verdadeira).

Mas se eu aprendo a honrar Saturno e honrar a Lua num caminho do meio deles, em que eu pego, por exemplo, o caos que Saturno causa na minha vida e sistematizo através de uma obediência, não de rigor com medo e pânico, mas simplesmente por compreender que as coisas precisam de um sistema para andarem, precisam ter ordem para progredirem, tudo melhora! Sendo que isso lindo! Porque ordenar é progredir, claro que dentro duma esfera de quem sabe que não é a ordem que eu quero, de forma egoísta, mas na evolução das coisas espirituais, ou, para quem não acredita em espiritualidade, das coisas em termos de virtudes, porque sabemos que há homens mais virtuosos que outros, então há ordem e gradação nisso, existe uma hierarquia, isso não significa ser melhor e ganhar troféu e medalha, não precisamos entrar nessas infantilidades de premiar para ser alguém Bom, mas simplesmente sermos Bons porque é Belo e Verdadeiro ser Bom, não preciso ganhar troféu nem ninguém me reconhecer por isso.

Por isso a verdadeira bondade reside na forma como eu penso, e a forma como eu ajo refletirá isso. É o caso já citado do céu que reflete na água.

Há homens de maiores virtudes do que outros, há, e isso nos mostra justamente que há um caminho, é possível se melhorar, ser mais do que essa carnificina do dia-a-dia que nos apresentam em noticiários. Nós enquanto seres humanos somos muito mais do que isso, muito mais, e isso sem colocar espiritualidade no meio, porque se levamos em conta o espiritual: nós somos eternos, para começo de conversa, que dirá as virtudes que nos cercam para que isso seja possível, em verdade. Elas são imensas, são forças que nos elevam de uma maneira que é realmente um êxtase, um arrebatamento!

E aí podemos ver que honrar Saturno é passar pelos processos necessários para que se cresça, pela dor, pelo susto, pelo pânico, assim como pelo espanto, pela dádiva de ver um panorama da vida e obter assim a panaceia que finalmente nos cura, porque Saturno está relacionado com Pã, ser esse que espantava as pessoas pela floresta, sendo Pã a fonte do pânico, da pandemia, mas também do panorama e da panaceia.

Uma mesma origem para coisas que nos atemorizam bem como para as que nos enchem de saúde, assim também é com a palavra ‘sagrado’, que tem em sua origem também o significado daquilo que é santo junto ao que é amaldiçoado! Pois é… o paradoxo da dualidade reside misteriosamente em muitos lugares, pois só no duplo é que nos tornamos verdadeiramente íntegros, unos. Pois toda inteireza é união de contrários.

Então, para chegar ao Sol, preciso ir transformando em ouro todo o chumbo, para daí Júpiter falar: ok, Saturno, eu vim de você, obrigado! Honrei teu propósito, segui suas ordens, mandou: eu fiz, mas meu Pai Verdadeiro, o Pai Vivo a quem eu sigo, é o Sol, porque eu estou no reino dele e, portanto, sigo ao Rei. E seguirmos realmente o Sol, porque é o Sol que está nos levando pro centro de nós mesmos.

É claro que um sistema, enquanto sistema, é estabelecido por um Saturno que ordena, mas sabemos ao mesmo tempo que todo sistema é solar, não é lunar nem saturnino, mas sim solar.

E por mais que se diga que o Sol é Cristo e o Cristo não é exatamente o Pai, ainda assim, Eles são unos, e somente através d’Ele se chega ao Pai Verdadeiro, invisível. Então é preciso fazer com que o Sol seja, por adoção, como um Pai, porque Ele segue o exemplo do Pai.

E o Sol é quando a gente vive a capacidade de ultrapassar esse masculino do rigor e este feminino de procriações cíclicas e “aleatórias”, entre aspas, claro que não é aleatória, mas em termos de inconsciente, para tomarmos ciência do que se crea, para iluminarmos quando se deve, porque não é o tempo inteiro que é dia. E sendo Sol, aprendermos a iluminar mesmo quando é noite através dessa Lua então, que seja… e assim permitir que o outro experimente ser uma fonte de luz também.

Mas sabendo que é o Sol que passa a reger realmente os ciclos, as creações, os sentimentos, as ações que profundamente nos competem enquanto vivência da nossa total potencialidade, porque enquanto é potência não é vivência, potência é latência, é possibilidade de vivência. E é só quando compreendo o Sol em sua inteireza que vou compreender realmente esse sagrado binário e viver sob a luz desse Ser sagrado.

Para se chegar a ele, só passando por um sagrado feminino que exalte e cure o sagrado masculino, e um sagrado masculino que exalte e cure o sagrado feminino.

É preciso se curar, e a cura só vem pelo polo oposto, pelo Outro.

Então que vivamos os eclipses, que exaltemos esses sagrados eclipses, mas não nos enganemos: a sombra que há não é no outro, somente, mas em nós mesmos. Viver o sagrado feminino e viver o sagrado masculino é viver a sombra em mim: necessário, crucial, eu diria, para um dia se chegar ao Sol, em termos de completude do sistema – para se chegar ao Sol e à Terra, porque o oposto do Sol não é sequer a Lua, mas os Planetas. E, portanto, não ser Sol e Lua enquanto dualidade aparente, mas sim se tornar um sistema completo de Sol e Planetas.

Talvez para se chegar neste ponto só passando pelo sagrado da unidade – do sagrado feminino e sagrado masculino, separados, como se diria, mas nos atentemos ao comprarmos essa ideia que anda sendo tão vendida popularmente hoje em dia, que tomemos ciência do que ela significa, e compreendamos que para viver o sagrado feminino seria preciso realmente viver a sombra do masculino para que se possa curá-la, bem como sendo o inverso verdadeiro. Não é algo bonitinho, não é sobre viver a luz do feminino apenas, mas sim termos em conta aquilo que é necessário para a cura. Sendo que essa sombra sou eu mesmo quem estou fazendo, eu que causo, porque sou eu enquanto planeta, enquanto Terra, que me alinhei de forma tal que eles se obstruem, então eu não sou vítima do Sol e da Lua que se posicionaram de maneira injusta, coitado de mim, mas a minha forma de me posicionar que obstrui a visão de um e de outro. Assim como se são eles que também assim se colocam num alinhamento reto, é porque nossa vida é demasiadamente torta e nós que não estamos acostumados a ver as coisas de maneira mais inteira, com a sombra fazendo parte do processo.

E tudo o que eu posso desejar, seja na humildade ou na vaidade de quem deseja algo que acredita ser o melhor, é que um dia todos nós sejamos um sistema solar – inteiro. Que tenhamos nossas vivências sagradas (do que é sacro e do que é amaldiçoado) e compreendamos que ainda há muito, muito, mas muito trabalho…

Então que oremos sob o Sol e trabalhemos sobre os Planetas.

a Poesia da Palavra . : . [o politicamente correto e a libertinagem]

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Eu gostaria de caminhar mentalmente um pouco, observar e conversar sobre a poesia em relação ao que falamos, em relação às palavras que proferimos por aí.

Para começar, verifiquemos os lados opostos que a Poesia une: sendo a poesia aquela que pare, a que gera, doadora de vida, aquela que cria palavras novas e novas formas de se nominar o que está no mundo, vejamos tanto o lado da prosa – que procria e reproduz libertinamente mil e uma histórias, sendo responsável por fofoca, novelas, contos, narrativas das mais diversas, quanto o lado do discurso – aquele que silencia, que poda, que enrijece através da política, pois a política é seu maior chefe e ao mesmo tempo, paradoxalmente, sua maior ferramenta, pois é dela que o discurso se serve para ganhar vida entre aqueles que ele circula. Por isso a poesia precisa trazer uma mensagem, assim como o discurso, ou seja, ter um viés específico, contudo, não da política, ou seja, não da polis, mas de algo mais elevado e sublime: de cidades, reinados, jardins superiores aos que nos encontramos materialmente, tal como faziam os filósofos antigamente. E ao mesmo tempo, criar novas perspectivas, novas formas de se narrar, dramatizar e, assim, tornar lírica a vida, vivificando as palavras em tragédias, dramas e versos que trazem sentido à existência, ao Estar no mundo, e ao Ser que tanto lutamos árdua e, ao mesmo tempo, amorosamente para nos tornarmos, tal como fizeram os grandes bardos, como Shakespeare.

Portanto, é preciso se atentar para o que dizemos, mas o porquê nos atentarmos deve ser analisado, pois veremos como pendemos para os lados da politicagem discursiva ou da prosa libertina muito facilmente, então caminhemos e observemos esse pêndulo por um momento:

Hoje é um fato de que há uma política dita do bem, mais conhecida como politicamente correta, para garantir o policiamento e a segurança quanto ao que falamos, porque dependendo do que dizemos podemos ir presos, não é? Pois é… E isto é de um rigor extremo, porque é complicado proibir ou automaticamente taxar alguém de criminoso pelo simples uso de uma palavra. É como ser preso em flagrante delito, mas por algo que se diz, que se vocaliza. Dizer é um ato e sim, ele pode ser criminoso, mas sabemos que o crime, em nossa sociedade, não está tão bem caracterizado assim a ponto de termos pleno discernimento do que é bom e do que é ruim – como quando alguém vai preso porque roubou um real ou uma coxinha para matar a fome antes que a fome matasse ele.

Isso significa então que pode falar qualquer coisa? Não, em verdade, não. Porque falar qualquer coisa é reproduzir falas vazias, e se não sabemos o que estamos falando, há uma grande possibilidade de ali estar contida a intencionalidade de quem primeiro disse aquela palavra, aquela história, com alguma intenção. É como a própria fofoca: por mais que tenhamos a alegre e boa intenção de apenas comentar um detalhe que seja, e, quem sabe, aprendermos algo com aquilo, ainda assim, sabemos que a primeira pessoa que notou e comentou, criando toda a cadeia de palavras e frases que será passada como um telefone sem fio adiante, das duas uma: ou fez por maldade, ou já foi tão deformada a informação inicial, que se torna pura ignorância continuar passando aquelas informações para frente.

Ou seja, ter um rigor policial e criar políticas que proíbam o uso de determinados termos é algo extremamente violento, porque tira o direito inclusive de ignorância do outro, que pode, por ingenuidade, acabar proferindo palavras pejorativas sem saber sobre o que, em sua raiz, se trata. Contudo, não é possível falar qualquer coisa como se queira porque, no mínimo, nosso querer será algo mesquinho e egoísta, quando não vazio e desprovido de real inteligência, afinal, quantos de nós abrimos a boca apenas para dizer coisas que agreguem conhecimento benéfico ao outro realmente? Em vez de narrativas e informações que estão mais próximas de fofocas mórbidas, seja do outro seja de si mesmo…

Se nós tomarmos como exemplo os Anjos, ou mesmo em outras religiões os guias, Orixás, entidades, espíritos, enfim, seres que nos ajudam a crescer através de mensagens, nós iremos constatar e saberemos que em todas as religiões, sempre que há uma mensagem a ser transmitida, seja através de um mestre, um guru, seja através do ser que for e da religião que for, eles, esses mensageiros, não falam qualquer coisa de qualquer jeito, não é permitido a esses seres, que estão num plano mais elevado que o nosso, supostamente, dizer o que “dá na telha”. E mesmo num plano mais abaixo, mesmo o mal, ele não fala de qualquer jeito e não usa de qualquer forma a estrutura, é tudo muito bem pensado, é muito ciente e com muita ciência que se faz as coisas no mal. E ainda que o místico não tenha ciência, não saiba exatamente como faz o que faz, como os profetas em que não compreendem como a conexão se dá, só sabem que foram escolhidos e só, ainda assim não é permitido dizer qualquer coisa, pois ele está ali para passar uma mensagem determinada de uma maneira também determinada.

Então não é de qualquer jeito que as coisas são faladas.

E aonde isso tudo nos leva? Isso nos leva ao ponto de que onde quer que se olhe e qualquer que seja a religião desse mensageiro – seja poeta, político, orador, filósofo, ou seja prosador, é preciso praticar a castidade, a pobreza e a obediência em relação às palavras.

É claro que para o que podemos chamar de espírito puro, como a criança inocente, uma pessoa genuinamente inocente, para um ser desses tudo é lícito, mas nem tudo convém, assim como não convém ensinar uma criança a xingar, a ter raiva, ódio ou desprezo por alguém e como expressá-los (pois é para isso que o palavrão existe, a priori), e a gente só passa a saber que nem tudo convém (inclusive para o mal) quando a gente vê que a mensagem que se passa e a palavra que se profere causam alterações em quem ouve, por menor ou maior que seja a capacidade de quem fala em adentrar o outro, ou seja, ainda que essa alteração não tenha longo alcance num longo tempo de estabilização – como algo que reverbera dentro do outro, ou por mais que ela não saia de perto da pessoa que falou, como que caindo logo aos pés depois de sair da boca, não chegando no ouvido de um outro efetivamente, ainda assim é justamente por isso, por saber que ‘a maneira como nós falamos e nos colocamos’ tem uma força, tem uma vibração, tem uma frequência, tem várias matérias que a englobam e que são modificadas por ela, é justo por isto que nós devemos ter cautela, prudência com o que se fala, pois não se fala qualquer coisa a qualquer hora, nem qualquer palavra em qualquer tempo, então é preciso sair de um politicamente correto, sim, porque aos puros tudo é lícito por não haver maldade no coração, como um amigo virar para o outro e dizer ‘oh, seu filho da puta, corno, desgraçado, vem cá me dar um abraço, seu miserável!’ e a gente saber que no coração é puro, é lícito no sentido de que por mais que não seja ideal falar palavrões ainda assim é com amorosidade que se diz aquilo, então neste sentido é lícito, mas quando há maldade inclusa, quando a gente vai tomando ciência de certas coisas, começa-se a separar o trigo do joio.

Então qual é a diferença do que a gente chama hoje de bullying para o que era antigamente? Porque todo mundo fala que antigamente todo mundo chamava outro de zarolho, negão, varapau, gordo, CDF (que significa cu de ferro), palmitão, branquelo, quatro olhos e isso não ofendia ninguém, e de fato não era problema, por quê? Qual a real diferença? A diferença é que não havia malícia, era apenas a pura objetificação de uma característica da pessoa, eu simplesmente estava materializando uma característica da pessoa verbalmente.

Não tem problema em ser magro, em ser preto, em usar óculos, em ser gordo, vesgo, não tem problema em parecer um palmito ou o que quer que seja, porque as coisas ‘em si’ não têm adjetivos, não são boas ou ruins: uma bola pode ser ótima se a gente vai jogar basquete com ela, se a gente vai jogar frescobol, se vai fazer um esporte, colocar em movimento, construir uma ação, então ser comparado com uma bola não tem nada de ruim, a priori, é apenas uma constatação. Então qual a diferença do por quê hoje em dia passar a ser bullying? Porque se passa a se ter ciência de que aquilo ofende e com isso se tem malícia ao se dizer.

Por isso vai surgindo o politicamente correto, porque na verdade não é correção da palavra que deveria haver, mas sim da intenção que permeia e que materializa e dá força para aquela palavra, porque isso muda a existência dessa palavra, isso muda a forma de ser dessa palavra, assim como se eu fizer um clone meu, é aparentemente uma existência idêntica, mas no fundo, em verdade, é outra existência, é um clone, e digamos que ele vai e mata um monte de gente – ele pode ser idêntico a mim aparentemente, a vestimenta pode ser idêntica, mas o Ser desse clone, a essência muda completamente, revelando ser uma outra existência, porque a intenção é absolutamente outra, contrária à minha, ainda que eu não seja uma pessoa Santa a ponto de fazer uma contraparte de fato com alguém que é um assassino de massas, mas só para, em termos de simbologia, podermos entender essa dualidade que se cria.

Então há problema em chamar alguém de mulata, ou me chamar de mulata, por exemplo? Que deriva de mula… não, em si, na palavra, não, não há problema. Mas tem pessoas que, nós sabemos, usam disso para maliciosamente agir e sabemos pelo forma como ela enuncia, e malícia para qualquer lado: seja sexualizando, como “nossa, aquela mulata, hein” (com desejo) ou “nossa, tinha que ser aquela mulata” (com asco, nojo, revolta, repreensão ou similares), ou seja rebaixando, como quem primeiro disse mulata querendo dizer que o mestiço vale menos, que é estéril, ou mesmo inclusive indo para o radical e literalmente afirmando “aquela mula, é uma mula mesmo” partindo para uma ofensa rasgada.

É claro, é completamente diferente de uma criança inocente e ingênua apontar para mim e falar “ela, a mulata” na inocência inclusive por não saber a etimologia daquela palavra, é completamente diferente uma pessoa simples, do campo, falar essa palavra, enfim, pessoas puras, que podem ser da cidade também, mas que são genuinamente puras, que não têm maldade, elas podem dizer o que quiserem, mas a partir da hora que vamos ganhando ciência, nos tornando cientes, nem tudo convém. A partir da hora em que eu tomo ciência de que aquilo é muito mais usado para ofender: algo deve ser alterado em mim, não porque alguém me bate, me prende e eu sou punido de alguma maneira, mas sim porque eu estou buscando realmente o melhor dentro do meu Ser, pois eu chamar alguém de gordo é muito mais usado para ofender do que simplesmente descrever que é uma pessoa gorda é só gorda, e isso não ter nenhum julgamento de bom ou ruim, bonito ou feio. A partir da hora que eu sei que aquilo traz uma carga histórica com ela embutida de julgamento, fica difícil reproduzir essa palavra todas as vezes, porque a maior parte das coisas que a gente fala são reproduções, e não falas realmente para caracterizar o mundo, para poetizar e denominar as coisas, como um gordo e magro quando havia O gordo e o magro, que ainda se acha vídeos na internet – ninguém estava ofendendo nenhum dos dois, eram apenas pessoas capazes de fazer brincadeiras com a sua própria condição física, e isso é lindo, isso é ótimo, é saudável até um determinado ponto, se feito na inocência verdadeira do palhaço, mas claro que numa sociedade em que a gente vai tendo cada vez mais malícia quanto ao que se diz, é preciso tomar certo cuidado porque nem tudo passa a convir, e estamos cada vez mais crescidinhos a ponto de se tornar cada vez maior o desafio de continuar sendo criança e encontrar a verdadeira inocência e graça. Aliás, talvez a maturidade não nos faça mais rir do gordo e do magro, mas sim ver a Graça dum jogo entre o que a gente chama de ‘bem e mal’, ou seja, entre polaridades superiores às físicas.

As palavras são como alimento: quando a gente passa a saber a origem do alimento muitas vezes a gente deixa de comer, paramos de comer simplesmente porque é nojenta a maneira como é preparada, como uma salsicha – os embutidos, ou simplesmente porque envolve morte, ou ainda porque envolve indústria, sendo algo industrializado, artificial, criado em laboratório, X, a gente não sabe nem a origem, então se passa a ter um receio de usar aquilo, de comer algo morto, de ingerir algo desconhecido, e com as palavras é a mesma coisa, aliás, com tudo na vida!

Quanto mais a gente vai sabendo a origem, mas isso vai dando responsabilidade perante as escolhas que se faz.

Então eu vou poder dizer qualquer coisa só porque sou contra a polícia e política do discurso do bem a qualquer custo na língua? Não, porque se eu quero levar uma vida realmente de alguém que está falando por pureza, eu vou ter que necessariamente tomar como exemplo qualquer ser religioso que seja um mensageiro, observar seres mensageiros para concluirmos que eles não dizem qualquer coisa de qualquer maneira, eles não falam o que eles querem, eles falam aquilo que é necessário que o outro ouça. Ele só vai dizer o que ele quer se for para o mal, o mal, sim, impregna com aquilo que é intenção dele, mas fora este exemplo, deixando de lado o mal, porque, aliás, ele não é exemplo para nada, a não ser de ignorância, ainda assim, bem ou mal, o ser que traz a mensagem se limpa de outras intenções a não ser aquela que é um dever fazer ali naquela hora. O bem e o mal seguem regras afiadíssimas, leis justíssimas, não nos equivoquemos.

Isso não é desculpa nem motivo para se criar um rigor tal em que o simples pronunciar de uma palavra seja motivo para se colocar alguém numa prisão que em pouco tempo atrás seria uma fogueira, o politicamente correto que muitas vezes inclusive abomina pessoas religiosas e movimentos religiosos, bancadas religiosas, são os primeiros a meterem fogo no que consideram como inimigo alheio. O rigor – ele castra de tal forma que se torna impossível semear qualquer coisa numa terra, e, claro, falando de regras e leis que podam o necessário – não para além da conta nem para qualquer lado nem de qualquer jeito, e sem citar e entrar no âmbito de pessoas que sejam um anarquista – eu não vou entrar nesses méritos porque aí não tem como conversar, pessoas que acreditam que “pode tudo” por que não ligam para consequência nenhuma, não se importam com ‘causas e efeitos’ gerados no mundo, a pessoa que idolatra o caos e que, enfim, perde todos os parâmetros de conversa e vivência, fica difícil, e não irei tratar disso aqui…

Mas se nós estamos buscando diretrizes, nós precisamos, é um dever olhar para os extremos delas, seja do politicamente correto, seja do pode tudo, seja do “não vou proibir falar negão” porque tá tudo liberado, pois sou cheio de puras intenções (ainda que não tenha problema algum falar negão em si), ou, o outro lado, seja repreendendo, na tentativa politicamente correta de policiar as intenções alheias, sejam boas ou não. Por que no fundo se trata da intencionalidade da fala, e é impossível policiar as intenções, aliás eu posso proibir uma pessoa de falar determinada palavra, mas no coração ela pode dizer mil vezes, inclusive ela pode falar a palavra afrodescendente com todo o nojo, asco e racismo do mundo porque vai estar na entonação, ou seja, aquilo que o politicamente correto almeja, no fundo, não é através das leis humanas que se alcança, porque não temos recursos sequer morais para realmente discernirmos de forma verdadeira a intenção alheia, quando a maior parte das pessoas não tem intenção alguma de fazer nem o bem nem o mal, porque são mornas grande parte das vezes.

A gente passa ver que há coisas que realmente não convêm serem ditas, frases palavras, expressões, porque elas materializam, elas reforçam na matéria física algo que é ruim, algo que degrada a existência alheia, contudo, é claro, não dá para proibir o mal de existir, no atual momento é impensável e inalcançável este tipo de anseio, por mais que se queira, será apenas vaidade nossa neste momento. Mas devemos buscar sanar a ignorância, e isso significa passar a escolher e sermos responsáveis sim pelas palavras que se vai, se está ou se esteve a proferir.

Então é preciso pensar, buscar formas outras, à medida que eu não consigo educar a intenção alheia, porque isso está muito além da educação, não é a educação que altera a intenção, mas sim realmente um fator espiritual. Só o espiritual, a pessoa se encontrando espiritualmente, que ela vai passar a querer ser uma pessoa melhor realmente, com intenções mais castas, pobres e obedientes. Então não sendo possível educar a intenção do outro, ainda que seja possível não ensinar más intenções, é preciso encontrar uma forma de se tornar imune a esse mal que ronda o mundo até pela mornidão e cegueira alheia que o corrobora, é preciso nos ensinarmos a nos tornarmos acima desse mal, ou seja, aumentar a nossa devoção religiosa e espiritual. Não precisa ser uma religião específica (até porque boa intenção não significa que não sejam más no coração, vaidosas e destruidoras dos outros, pois isso muito vemos quando as religiões matam e perseguem até hoje), falo aqui de uma vida acima de tudo espiritual para que consigamos aguentar o tranco, porque assim como o mal aumenta no mundo, o bem também tem que aumentar, senão esta balança realmente fica descompensada parecendo que o mal está a ganhar. Quando isso é apena aparência a nos enganar. O bem aumenta tanto quanto o mal, senão Mais, a diferença é que um grita enquanto o outro silencia. Sabemos filosoficamente e espiritualmente que quanto mais alguém grita, maior também é a nossa chance em aprendermos a nos calar. E se conseguimos isso, sabemos que cada vez maior o silêncio se tornará.

Então é um dever das pessoas que querem algo melhor se purificarem em muitos sentidos, encontrarem parâmetros de purificação, parâmetros para que sejam mais obedientes, castas e pobres – pobres inclusive de amigos, deixando as pessoas que falam besteiras de lado, por que se fala besteira “então não foi feito para ser meu amigo”, ponto, e tudo bem. Sendo castas ao não repetirem aquilo que o outro já falou que machuca, aquilo que sabemos que não vai trazer nada de espiritual para vida alheia, porque o outro já se olha no espelho e já se constata fisicamente todos os dias, eu não preciso dizer para ele que ele é gordo, preto, vesgo, ele já sabe, ele já se vê no espelho todos os dias, e se eu for falar isso por uma questão de cura, por uma questão da pessoa realmente não conseguir se perceber (porque tem pessoas que demoram para perceber a própria cor, por exemplo), ainda assim, é com amorosidade que se diz, não é “você é preto, assuma; você é branco, se toca”, não é assim, mas com amorosidade que se conhece a si mesmo, do contrário você não estará curando, mas ensinando o outro a duvidar de si mesmo, ou pior, a odiar a si próprio, mesmo com todas as boas intenções do mundo dentro de quem assim o faz.

Então como tornar este dizer que o outro é branco, preto, amarelo, vermelho de maneira amorosa, de maneira que ele ame a cor dele, o tamanho dele, ou o que seja de característica física dele? Isso só para ficar no físico e não ir para adjetivações como idiota, burro, CDF, nerd e não ir para um campo intelectual, mas só ficar no físico nesta caminhada nossa… como ser realmente amável com o que o outro carrega do lado de fora? Essa é a questão, porque se eu não sou amável com a externalidade que ele me apresenta, ainda que torta aos meus olhos, ainda que deformada, ainda que morna, ainda que fria ou quente, se eu não for capaz de amar com toda a sinceridade que pode, inclusive, por amor, me afastar daquela pessoa, porque amor não se confunde com permissividade, mas se eu não for capaz disso, que é algo tão difícil ainda que extremamente simples, como serei eu capaz de amar o que não vejo e que está dentro de todos nós?

É com amorosidade que eu vou fazer qualquer constatação a respeito do outro, é diferente de constatar por constatar, por cegueira ou por vaidade de ter olhos para observar. Assim como amorosidade também tem a ver com a abertura do outro ser, o tempo do outro, não o meu que quero falar, que quero dizer, sendo que não é tempo de dizer, não é para dizer e ponto. É uma falta de respeito falar aquilo que o outro não está preparado para ouvir. Isso é ser desobediente quanto à evolução espiritual geral, porque se está considerando só a sua evolução de que “eu estou preparado para dizer tudo, para ser o mensageiro da verdade” e acaba por perder a noção de que a mensagem é específica, ela não é aquilo que o Anjo, Espírito, entidade ou o ser humano está afim de dizer, eles têm ordens específicas a seguir para aquilo que se tem a dizer.

Quem acha que espiritualidade e religiosidade é bagunça é porque não está sabendo praticar direito, se acha que pode tudo e continua fazendo e falando de tudo, apontando dedo pra tudo, seja no rigor seja na libertinagem, é porque não está se aprofundando de toda maneira possível, eu não julgo aqui a maneira como a pessoa está se aprofundando, se torta ou reta, o que seja, mas apenas constatando que certamente ela poderia ir mais fundo, e não está indo tão fundo quanto poderia, pois a espiritualidade e as religiões oferecem ferramentas de mergulho.

Ou seja, adianta proibir uma palavra de ser dita? Não adianta, porque a intenção continua no coração daquele que diz, o que continua saindo da boca continua sendo podre, e a gente sabe que às vezes não é preciso nem dizer nada, basta a maneira como a pessoa nos olha dos pés à cabeça que a gente já sabe que foi xingado e analisado da pior maneira possível, seja por nojo que o outro sente, seja por desejo sexual, seja por indiferença inclusive e não sermos sequer vistos, como que transparentes, não sermos enxergados, sermos invisíveis perante a sociedade, ou seja por deformações nos olhos alheios que veem em nós o que não somos por se recusarem a nos ver como realmente nos conhecemos e, portanto, nos apresentamos, como no caso de muitas pessoas trans.

Então adianta proibir a palavra? Não, porque as intenções estão para além das palavras, não adianta proibir de falar negão e fazer todo mundo falar afrodescendente, não adianta, mas é permitido sair por aí todo mundo chamando qualquer pessoa de “ôh, negão, ôh, preto, ôh, seu gordo, seu gay, sua bixa, sua lésbica” adjetivando como eu quiser, ou mesmo tratar “esse branquelo, ai, branquitude”, com ressentimento, é correto isso? Essa libertinagem de “eu te chamo do jeito que eu quero porque você me chama do jeito que quer”. Não. Não convém, e não convém simplesmente porque nós sabemos que homens que se tornaram um pouco melhores não fizeram e não fazem isso, não precisa nem ser Anjo, entidade, Orixás, espírito etc., basta observar seres humanos que se tornaram um pouquinho melhores: eles não diziam qualquer coisa, aliás normalmente eles falavam pouquíssimo, pouquíssimo! Porque todas as boas pessoas, e boas no sentido de pessoas que querem verdadeiramente se tornar melhores do que são, buscam praticar algo diferente hoje do que foi praticado ontem, e isso não significa que elas vão ter atitudes de sair salvando o mundo, não são pessoas salvadoras necessariamente, ainda que por fim se tornem curadoras da humanidade por terem encontrado formas elevadas, virtuosas, de curarem a si próprias, sendo pessoas que se tornam melhores hoje porque são melhores do que foram ontem simplesmente.

Seja consciente ou inconscientemente, essas pessoas passam a seguir, elas seguem três diretrizes já mencionadas: da castidade, pobreza e obediência. Castidade – ao saber que o que se diz é puro de coração, é puro de intenção; pobreza – no sentido de não se falar qualquer coisa em termos de materialidade, porque nem sempre, aliás, a maior parte das vezes, não convém ficar descrevendo o mundo, caracterizando e categorizando o mundo, enchendo de adjetivos como se isso fosse tornar rico absolutamente tudo, é uma falsa riqueza, então é uma pobreza de adjetivos, uma pobreza de descrição, por que é só nessa pobreza que se consegue se aproximar daquilo que significa uma contemplação do ser que está realmente à nossa frente; e obediência – porque a gente passa a ver, quando a gente se torna um pouquinho melhor, que só se deve dizer aquilo que é realmente um dever dizer, e o dever não se baseia só no que eu preciso dizer, mas que o outro precisa de nós.

O mensageiro leva uma mensagem que o outro precisa ouvir, e não o que ele precisa dizer, o mensageiro carrega uma mensagem do rei, que o rei precisa dizer, ou seja, para ser dita especificamente para uma ou várias pessoas num determinado contexto num determinado local sobre um determinado assunto e nada mais, ele não acrescenta palavras próprias, ele não passa nenhuma intenção, senão a de verdadeiramente deixar ali a mensagem de quem está acima dele… Por isso que religião não é bagunça, espiritualidade não é bagunça porque estes Seres mensageiros passam por privações (por pobreza, castidade e, portanto, são obedientes), seja privação do corpo porque morreu, seja privação inclusive por não conseguir passar por essa carne, como nós, para trazer certas mensagens (como o caso dos Anjos), seja em qual grau ou motivo que for, ficam privados do contato conosco, e junto a essa privação obedecem os que estão acima deles, obedecem às forças hierarquicamente maiores que eles, ainda que involuntariamente, como no caso do mal.

Então é preciso saber, é preciso compreender que o outro, no mínimo, está acima de mim quando eu vou passar uma mensagem, porque se é sobre o outro que eu vou falar, ele é o sagrado que se apresenta perante mim, não que ele se torne o rei, não, mas é com ele, com o outro, e não com o mensageiro, que o rei quer falar. Então eu não posso dizer qualquer coisa para ele sobre ele mesmo, porque senão eu vou pecar, e pecar, a palavra pecado, tem a sua etimologia em errar o alvo, ou seja, eu vou falar e vou pecar porque aquelas palavras não vão acertar o ouvido, a mente e o coração de com quem eu falo, mas se torna um passar reto pelo alvo, um tangenciar no máximo, esbarrar e “amanhã já esqueceu”,  igual fofoca que não fica nada de essencial ou que impregna da maneira errada e acerta todos os órgãos menos o coração, menos o centro do alvo, então é preciso ter muito discernimento para compreendermos que o politicamente correto não vai nos levar a uma lapidação de intenções, não vai, ele apenas constata que há más intenções no mundo, e irá haver por enquanto, e “só” isso.

Assim como é preciso compreender que a liberdade, que se torna libertinagem, também não cria nada senão as boas intenções que enchem o inferno constantemente.

É ilusório achar que ao falar qualquer coisa se está passando a mensagem do rei.

Mas para quem busca uma forma de se tornar verdadeiramente melhor, uma das maneiras de se aprender a deixar de ter más intenções, sejam voluntárias ou involuntárias, diretas ou indiretas, conscientes ou inconscientes, inclusive podendo ter a roupagem de boas intenções, no fundo se revelando más porque vão para o inferno, é através da poda de si mesmo, porque já não convém falar qualquer coisa para qualquer lado crescendo um galho de qualquer jeito, então é preciso podar as palavras, podar as intenções, podar as conversas, podar o que a gente ouve também, então “eu não vou ser mais seu amigo” e tudo bem, eu não preciso fazer algo contra o outro, só virar as costas e sair andando, não regar mais aquela pessoa, não nutrir mais, porque quando a gente empresta os nossos ouvidos para o outro dizer qualquer coisa nós estamos nutrindo as palavras dos outros, é como dar audiência ou clientela, permanecer é uma das formas de nutrir as palavras alheias porque o outro continua falando, falando e falando mais e mais e mais, então quer ser melhor? Pode, corte, não proibindo o outro de dizer, mas proibindo a si mesmo de continuar ouvindo besteira alheia, pare de regar as palavras alheias, pare de deixar crescê-las em você mesmo, pare de permitir que o outro cause enxertos, porque isso, por mais que a gente não reproduza, cola na gente, por isso é que é complicado, é a velha história de que “eu sou homem estou numa mesa e os amigos são todos machistas fazendo piadas machistas e está tudo bem, porque são primitivos mesmo, são ignorantes”. Não, não está tudo bem.

Não está tudo bem se a pessoa tem real interesse em se melhorar.

Se a gente sabe que aquilo está sendo numa ingenuidade de quem conta a piada machista, faz o comentário machista por exemplo, tudo bem tolerarmos por um tempo, tudo bem caminharmos juntos, mas é preciso observar que chega num ponto em que não convém, porque o outro já sabe que aquilo é não se melhorar, no mínimo, ainda que não seja se piorar necessariamente. Não piora, mas não melhora, não deixa de falar as besteiras. E Eu falo por mim, Le Tícia Conde, eu, por exemplo, quero pessoas que queiram se melhorar ao meu redor, porque todo dia eu busco genuinamente, ainda que possa ser de maneira torta, mas genuinamente me melhorar, então é a velha máxima de “me diga com quem andas e te direi quem és”, porque se a gente não anda com pessoas que procuram se melhorar, então provavelmente nós também não estamos nos melhorando, fazendo as podas que são necessárias, cultivando as sementes que vão crescer e dar novos frutos, fazendo os enxertos que são necessários, queimando os galhos que estão secos, enfim, fazendo todo o ciclo que já aprendemos que é necessário.

Cristo, por exemplo, sempre falava que perdoava, mas também sempre dizia “vai e não peques mais”, ele sempre aconselhava o melhor. É preciso observar que as pessoas que andavam com ele eram pessoas que se melhoravam. “Ah, mas tinha um Judas que não se melhorou, só piorou…” será? Mesmo Judas se arrepende, joga as trinta moedas de prata no chão e vai se enforcar por tamanha vergonha e arrependimento quando ganha consciência do que fez.

Então: é preciso conhecer o coração daqueles com quem nós andamos.

Não adianta haver uma mesa de 12 Judas, sentar no bar com 12 Judas… precisamos nos questionar se isto convém, se estamos realmente seguindo o exemplo do Mestre, isso no caso de cristãos, para dar um exemplo dentro daquilo que eu acredito e vivencio. Mas claro que todas as religiões vão ter seus arquétipos, é possível transportar simbolicamente para qualquer religião esses fatos, se nós nos rodeamos de somente um tipo de energia, há algo estranho ocorrendo, não há um equilíbrio, é preciso suspeitar…

Ou seja, isso significa que começamos a suspeitar que, se ainda não somos capazes de ter plena amorosidade em relação a tudo o que pensamos, falamos e a forma como agimos, se nós não temos essa capacidade amorosa, é preciso, no mínimo, suspeitar que é preciso ter humildade, se humilhar ao assumir humildemente que não temos essa capacidade de amar só por amar, só falar por amor e com amor, só agir por amor e com amor, só pensar por amor e com amor.

Então é preciso seguir as leis com um pouco mais de rigor, trabalhar nas obras sagradas com foco e louvor, num sacrifício de si, matando o antigo eu todo dia e ofertando a quem precisa ver que é possível fazer a mudança acontecer, nem que seja um pouquinho, tornando com isso o sacrifício um sacro ofício, um servir ao divino, seja qual for o nome que se dê, para que então se alcance minimamente alguma melhora, acreditando nesta melhora, crendo nela, porque se a gente não acreditar também não adianta, porque eu acreditar na melhora é análogo a ter Fé, então é necessário cumprir as leis e fazer as obras tendo fé. Se cumprir as leis sem fé, de nada adianta, porque o coração estará impregnado de ignorância ou maldade, então de nada adianta, é só “para estrangeiro ver”, é só para Deus ver, porque no fundo não é real, não é verdadeiro – se, e somente se, não crer… não adianta fazer tipo, máscara, personalidades, personas boazinhas, eu preciso realmente crer na bondade que eu cultivo, é preciso crer, senão em seres espirituais – em um Deus, em almejar o espiritual -, que seja ao menos crer e acreditar nas virtudes. É preciso querer se melhorar acreditando que vai ser possível se melhorar, crendo em si mesmo – no mínimo, no mínimo acreditando que “sim, eu consigo ser alguém melhor” e verdadeiramente fazer todas as obras almejando ser alguém melhor.

Porque no fundo é uma questão de você acreditar que vai ser melhor e se mover em direção a isso, é conseguir ver esta figura de um eu-melhor cada vez mais materializada no pensamento, e é o materializar no pensamento esse ser-melhor que faz com que haja a possibilidade dele surgir realmente, se materializar, não por repetição da visão, mas a repetição da visão leva uma visão final deste ser ideal que faz com que tudo se materialize pela intensidade com que amamos esse alguém que estamos nos tornando e ajudando os outros a se tornarem também.

As coisas estão interligadas, não é possível só acreditar e ficar apenas visualizando um ser melhor e não colocar em prática essa tentativa de ser este melhor, porque isso é não estar sendo. Claro que este ser melhor que eu visualizo não vira realidade de uma hora para outra, ainda que isto seja possível, porque para Deus tudo é possível, mas colocando o mundo dentro do espaço e do tempo que todos estamos acostumados, de algo para ser trabalhado cronologicamente, e não quanticamente, ou seja, olhando para essas mudanças usando Cronos, e não Kairós, não salto quântico e analógico, mas lógico e cronológico, vemos que é preciso trabalhar todo dia, toda hora, todo minuto, todo segundo para que em algum momento isso tudo se materialize, se for da vontade divina alinhar todas as imagens em uma manifestação só. Ou para quem não acredite em espiritualidade, ainda assim, até que sejamos sábios o suficiente para que se manifeste em nós virtudes de uma consciência realmente superior, porque manifestar uma virtude ou outra aleatoriamente qualquer um consegue, por assim dizer, difícil é alinhar a necessidade que o momento me exige enquanto virtude com a minha verdadeira sabedoria superior – através dela.

Então eu vou poder ser liberal e falar qualquer coisa porque tá tudo liberado (afinal, eu sou superior)? Não.

Ter liberdade não é sinônimo de libertinagem, e o lado liberal do mundo está muito mais pendente para o lado da libertinagem de “eu falo qualquer coisa, pego qualquer palavra e cruzo com qualquer palavra e crio qualquer sentença”, numa orgia linguística promíscua que vai permitir a criação de algo novo, sim, mas também vai permitir esse novo nasça deformado, como a criação de novas formas de ofensa, por exemplo.

Isso faz com que, então, tudo esteja proibido? Não posso mais falar nada? Nada sobre a cor do outro, sobre o tamanho do outro, o físico do outro, a característica do outro…? Obviamente que não, não é por aí, porque senão a gente começa quase que a desconstruir a materialidade em si, e não é negando a materialidade alheia que as coisas se dão, mas semeando-a com todo o Respeito e Amor verdadeiros. Isso não se consegue pelo rigor da Lei.

Junto à liberdade verdadeira vem o saber que a liberdade é paradoxalmente pregada ao fato de que “eu não falo o que eu quero”, mas falo aquilo que meu coração pulsa e minha mente discerne para que seja dito da maneira mais clara possível, sem ruído, sem intenções – sejam boas (das quais o inferno está cheio), sejam ruins (que fazem fila atrás das boas para entrar no inferno também).

Intenções são ruídos: se eu venho com a minha finalidade, se eu venho com a intenção de causar algo específico, isso é um imenso ruído. Eu já fiz um vídeo sobre a ‘Poesia da Intencionalidade’ e mostrei lá justamente o lado Belo da intencionalidade, mas sabendo que a intenção e a finalidade não são minhas, mas sim daquele que chega para compartilhar comigo o que eu aqui divido, ou são do rei, são o próprio rei, aliás.

Se eu coloco uma finalidade de “vem cá que eu vou te ensinar como você é, quem você é, vem cá que eu vou ensinar como falar direito, como ter boas intenções, ou mesmo intenções verdadeiras, vou ensinar como ter o coração bom e pleno”, se eu coloco esse tipo de finalidade, qualquer uma, por mais que ela tenha uma roupagem de chumbo ou de ouro, ainda assim é um inferno, porque o que eu quero dar, não é o que o outro quer e precisa receber. Às vezes o outro sequer está preparado para receber o que tenho a oferecer, sendo que o outro é o sagrado que se presentifica na minha frente, e tudo se torna um inferno porque aquele sagrado não vai receber o que eu digo, então eu é que vou para o inferno, pois eu quis forçar um céu para ele e ele disse: não, amiguinho. Ainda que ele possa ir para o inferno comigo se ele abraçar o que eu digo, isso acontece muito hoje em dia: o outro fala aí a gente vai e abraça e desce para o inferno juntinho… não deveria, a princípio, pois o que é do outro é do outro, eu não preciso carregar comigo (e isso não se confunde com ajudar a carregar o fardo alheio, que é algo completamente diferente). É assim se vai para o inferno com boas intenções, porque eu não observo que quem está na minha frente é o sagrado com quem eu devo falar e todo mundo sabe que para falar com um ser sagrado é preciso saber muito bem o que se diz. Até porque se não se vai para o inferno por conta do outro se recusar a ir a qualquer lugar sagrado comigo dentro do que eu invento de mim mesmo e digo, certamente o rei irá exigir a devida conta com o mensageiro que passou a mensagem errada ao seu amigo ou mesmo ao serviçal do reino. E este é o símbolo do que se diz ser o inferno eterno, condenado a ficar sem lar, sem função, sem reinado, sem nada nem ninguém.

As religiões ensinam isso através da oração, de que não se olha de qualquer jeito para si e para o outro, mas se olha com o coração, no mínimo. Que é como nós devemos fazer uma oração: com o coração, ao olhar para Deus e falar do nosso íntimo. E com o tempo a gente vai refinando e vendo que mesmo o que a gente acha que está no coração, não é bem o que julgávamos ser, porque “se está no meu coração que eu quero que alguém se cure, que eu quero ganhar alguma coisa, ter uma vida digna, se está no meu coração é algo bom e frutífero!”, mas a gente passa a ver com o tempo que tudo que nos é dado é aquilo que tinha que ser, que precisávamos para que aprendêssemos algo que a gente nem sabia que precisava aprender.

E parte do plantio está em saber aguentar a poda, o corte, a ceifa, o solo nu e frágil, desprovido de qualquer semente, que só virá quando for o tempo certo para que, com ciência e discernimento, e fé – crença no mínimo em si mesmo -, ela cresça.

Ou seja, a oração do coração passa a diminuir com o tempo inclusive, passa a ser um silêncio, e se tornar muito mais próxima daquilo que Deus quer me dizer, e eu é que não tive ouvidos para ouvir o tempo inteiro porque estava a falar, ainda que com palavras belas, que foram necessárias dentro do tempo delas. Mas que também evitavam que eu pudesse ouvir.

Isso faz ver que se eu não sou capaz de ouvir o outro que está na minha frente, se eu não sou capaz de ouvir que o outro não está afim de ouvir sobre as características dele, por exemplo, porque isso pouco importa, simplesmente porque não importa, então eu não sei lidar com aquele sagrado que está materializado ali e muito menos com o consagrado não materializado na matéria física óbvia. Claro que o sagrado está em tudo, ainda que não de maneira a fazer com que tudo seja sagrado, porque ser é diferente de estar, mas se eu não sei respeitar o sagrado que está na minha frente, que dirá Aquele que eu não vejo de maneira palpável… Eu não vou saber respeitar mesmo caso eu veja seres nas matérias superiores, não vou respeitar algo sagrado para o qual é necessário, antes, que eu me cale se eu não sei me calar e parar de usar certas palavras porque o outro me pede para que pare, e tem fundamento o seu pedido, mas eu continuo insistindo porque eu pendo mais para a libertinagem. Se eu tenho um grande problema em simplesmente fechar a boca e não falar certas palavras para quem simplesmente não está preparado para ouvir, ou simplesmente não quer ouvir mais porque não aguenta mais ouvi-las, porque fere o outro cada vez que alguém diz… se eu não sei fazer minimamente um movimento desses, tão mundano, que dirá um movimento sagrado de silenciamento interior de fato.

Eu não saberei respeitar o sagrado se não sei afrouxar também, do mesmo modo, os laços e abraçar quem se dá a liberdade de errar comigo, de tropeçar nos meus defeitos e qualidades, nas minhas características físicas, intelectuais, psíquicas, e até mesmo espirituais. Se não sei que é humano errar, se eu trato todo mundo como máquina – que precisa aprender da noite pro dia. Se eu não compreendo que é humano errar, e não compreendo que é sagrado perdoar e um milagre o continuar, agora e sempre, a Amar, então eu também não sei e não tenho a menor ideia do que faço. E sou possivelmente mais improdutivo que os libertinos que falam qualquer bobagem, mas pelo menos aos risos se abraçam.

Se eu sirvo apenas como dedo-duro de quem fala x ou y, estou condenando à fogueira, aliás, anda-se metendo fogo de verdade, estou numa santa inquisição condenando à prisão pessoas que podem simplesmente estar exercendo a primitividade delas na busca genuína por compreensão. A política anda de mãos dadas com a polícia, seja nas ruas, seja na cabeça do povo, então é preciso acautelar, permitir que se possa pôr à prova, e saber que exigir 10 de todo mundo é insanidade, é maldade, é perversidade de quem assim o faz.

Então em ambos os casos, tanto do libertino e a forma promíscua de gozar, quanto da política correta de como transar, ambos não sabem o que é orar porque provavelmente, enquanto eu pendo para qualquer desses lados, eu provavelmente estou falando para Deus aquilo que eu acho que Ele quer ouvir, na maior das vaidades e prepotências minhas, porque eu acho que Eu sou capaz de dizer aquilo que Deus quer ouvir, oras, eu sou amigão de Deus, “né, parça”! Ou eu sou quem sabe as palavras que Deus quer ouvir conforme a Lei, o maior e mais fiel servo do senhor, “não é Senhor?!”, tal qual um perfeito puxa-saco! Para dizer o mínimo. Querendo barganhar com o divino.

Então qual é a poesia em relação ao que se fala? Qual é a verdadeira poesia da Palavra? A verdadeira Poesia é o caminho do meio. Um caminho de estreita passagem – é verdade, mas que vale a pena cada segundo cronológico e lógico, bem como cada salto quântico e analógico, ambos, de mãos dadas, para que, por milagre, se chegue ainda mais longe do que sequer se imaginava!

Nos atentemos, porque nós não iremos curar intenções alheias se as pessoas não estão preparadas para serem curadas e, principalmente, se elas não querem a cura, seja para qualquer um dos lados, assim como não é pela libertinagem que se vai fazer uma orgia e conseguir parir algo verdadeiramente Belo, bem como não é pelo rigor que se vai, por pureza forçada, seguindo “o manual da transa casta”, parir criaturas que sejam verdadeiramente Boas, pois ambas as coisas não são Verdadeiras em Verdade.

Pois o que é verdadeiro é creado com Amor.

Então cuidemos com mais Amor das nossas Palavras, com verdadeira castidade, com verdadeira pobreza e em verdadeira obediência ao que acreditamos ser superior – seja o divino no espiritual, seja a virtuose e sabedoria no psíquico e intelectual…

Quem sabe a gente em algum momento consegue fazer um caminho do meio e nos tornarmos Poetas, todos, não ao excluir as extremidades, mas aprendendo a usá-las para amorosa e milagrosamente crearmos e, assim, nos curarmos, em verdade – por inteiro.