a Poesia do Coração . : . [a União com Deus]

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Qual é a Poesia do Coração?

Em primeiro lugar, eu aconselho fortemente que, caso você não tenha escutado a Poesia do Pensamento, que o faça antes de ouvir esta Poesia. De toda forma, nada evita que se ouça esta primeiro e depois a outra ou não se ouça a outra, à vontade!

Quanto à Poesia do Coração… o coração é aquilo que temos como centro, ele concentra todo o movimento do sangue, que é o que possibilita nossa existência. Se nós observamos, ele o tempo todo se contrai e expande, assim como o pulmão, estando ambos em constante contração e expansão, mostrando a forte relação que eles têm em termos de movimento, sendo que o próprio pulsar da respiração mostra também sua conexão com o coração, aquele que se expande e contrai para levar o sangue, que é a água do corpo, a todas as partes, ao organismo como um todo.

Na Poesia do Pensamento nós vimos que o pensamento tem relação direta com a terra através do intestino, que digere e absorve os nutrientes (sendo dotado de neurônios como o cérebro) e também com o pulmão pelo ar – símbolo do intelecto; na Poesia do Coração vemos também que este nosso centro é o que emanamos internamente (porque o sangue não deve ser emanado para fora de nós), enquanto o pulmão é uma dilatação e contração que se relaciona com o externo – porque puxo ar e solto ar ao externo -, mas se observamos que o pulmão faz a ponte entre a existência interna minha com existências externas a mim, podemos admitir a lógica e análoga possibilidade de o coração impulsionar sangue mais do que apenas dentro de mim mesmo, como corpo encerrado em sua anatomia, mas havendo uma relação do interno anatômico com algo ainda mais interno, com algo que poderíamos chamar: o verdadeiro cerne da Vida.

O coração nos conecta com o cerne da Vida.

Tanto que podemos observar que uma morte cerebral não resulta na morte do corpo enquanto totalidade, mas o coração sim. Ele é o principal órgão que faz com que tudo ganhe sentido.

Se o pensamento tem sua a digestão e absorção naquilo que é cerebral, se toda a capacidade de aprendizado está ligada à mente, e consequentemente aos pensamentos, a apreensão de mim mesmo e daquilo que me cerca vem através do coração, que, ao ser aquilo que banha tudo, está ligado à água, aos sentimentos, ao que faz meu coração bater mais forte ou mais fraco, ou até indiferente (o que é perigoso, então evitemos ser indiferentes às coisas, porque isso significa que o coração ganha um único ritmo para tudo ou mesmo que só para algo específico, ainda assim, é como um instrumento que toca apenas uma nota, não está musicando de fato, ele se torna um piiiiiiiiiiiiiiii… inclusive aludindo a uma máquina que nos revela que estamos mortos).

Por estes aspectos temos um coração conectado à água, àquilo que faz inclusive cair lágrimas, seja de júbilo, de alegria, seja de tristeza, dor, sofrimento etc.. Pois o elemento água está ligado às emoções. Assim podemos ver que, tal qual pulmão a expirar, não só o coração carrega essa água para todo o corpo ao se contrair e fazer o sangue dilatar (água essa que quão mais cristalina for, melhor, levando para cada membro aquilo que a gente sente em relação ao que nos acontece, sendo o coração que nos conecta ao cerne das coisas, e essa essência, como cerne, é sempre encontrada na relação, ou seja, eu só me conecto ao cerne e essência das coisas se me relaciono com elas), como vemos que é o sangue circulando que faz o coração pulsar ao dilatar, assim como é o ar que faz o pulmão expandir – porque sem ar ele não o faz, pois o ar é a única substância capaz de nos conectar com o que está fora de nós e conectar o que está fora de nós com o nosso interno (através da expiração, porque quando expiramos exalamos partes de nós mesmos, assim como se diz que alguém exala medo e que até os animais farejam nosso medo, por exemplo, mostrando que não só ocorre essa troca pelo nariz, mas também pela pele), assim como o sangue é a única substância capaz de conectar instâncias nossas superiores com o corpo físico, e vice-e-versa, porque se o coração é o cerne, a essência, e é o que nos coloca em relação ao Outro, tanto ele está em relação com o sangue quanto o sangue em relação com ele. Em uma pessoa verdadeiramente saudável, se aprende a ver que podemos escolher fazer nosso coração pulsar por algo ao bombear esse sangue em direção a um determinado órgão, objetivo, pessoa, sendo que tudo isso são relações, seja com um objeto, seja com uma pessoa, seja com Deus – para isso é preciso aprender a ter foco… e aqui faço um pequeno adendo de que o ar é a única substância de nos conectar com o que está fora porque na verdade aqui ele representa o éter, mas como a ciência ainda não chegou lá, utilizamos o ar enquanto elemento dessa conexão nossa interna com o externo, porque de toda forma ele também o faz em uma oitava inferior.

O sangue, ao ferver, ao esquentar, faz com que o coração venha a pulsar, e se escolhemos pelo que nosso sangue esquenta, escolhemos também pelo que nosso coração bate, até que sejamos capazes de chegar num estado em que o coração se torne um músculo voluntário, e não vivamos mais no polo negativo (inconsciente) só porque algo nos bate. Ou seja, sermos capazes de viver a consciência (polo positivo) de um coração, não através do sangue (que é parte da ciência do coração, mas não consciência), e sim através de algo muito mais elevado.

É claro que, quando dizemos ferver o sangue, a primeira imagem que tendemos a ter é a da ira de quem sente raiva ou da luxúria de quem sente tesão; o sangue ferver por algo geralmente está conectado a impulsividades, a um calor incontrolável, porque o fogo é um elemento dificílimo de se controlar, na verdade a água também é, porque a água, por mais que se possa restringi-la e ela se molde por ter a mansidão de se modelar a qualquer copo e qualquer taça, ainda assim ela escorre entre os dedos e ela, se parada mesmo dentro de uma taça, evapora ou se torna água parada que pode aparentar ser cristalina, mas na qual logo nascem os mosquitos e larvas, pois é em água limpa e parada que se propagam as pragas. E o fogo, talvez num primeiro momento tenhamos mais dificuldade em lidar porque nos queimamos muito facilmente e não conseguimos observar como seria possível modelar um fogo que se nos apresenta, porque afinal: se não posso pôr a mão, como irei modelar o fogo em si mesmo?

Mas se lembramos que o coração é o cerne, e se observamos que o fogo de um fogão nós conseguimos cozinhar porque fazemos com que ele saia num determinado formato, com um determinado tipo específico de quantidade de gás, tendo um controle sobre ele, um direcionamento dele, ou mesmo numa fogueira, o que determina a fogueira é seu cerne, seu centro, que é a lenha ou carvão, ou o que seja que a gente amontoa para que o fogo Esteja ali onde a gente quer que esteja e ele possa Ser ao queimar e consumir aquela lenha, aquele cerne que se queima. E mesmo sem a premissa do controle (porque ela pode nos levar a equívocos), num incêndio não temos controle de onde está pegando fogo, qual é o cerne, o centro daquele fogo, então ele passa a consumir tudo, porque tudo se torna foco dele, então é possível ver que controle, para deixarmos (ele) de lado, aqui se liga diretamente à capacidade de ordenamento da direção do fogo em si enquanto queima. Outras palavras podem ser meditadas como: contenção e disciplina para que haja um real aprender (não quer dizer apreender nem compreender) sobre como se entra em contato com o fogo sem se queimar de verdade, aos poucos.

E se nós temos o coração como cerne podemos ver que ele é a lenha onde se queima o sangue, ele é o carvão onde se acende o fogo do corpo. E é muito lindo porque se observamos um carvão ou lenha que pegam fogo realmente, eles se tornam vermelhos, vermelhos incandescentes como um coração, e se sopramos, eles pulsam; assim como o coração, a brasa pulsa, assim como o pulmão, quando se suspira quando algo de fora nos dá de seu alento, soprando em nossa direção algo de sua essência.

Podemos então notar que a forma de nos curarmos da tendência em pensar em ira e luxúria quando falamos dum sangue que ferve está em lembrar que o cerne é o coração. Se o cerne for o coração, então não haverá incêndio, nem ira nem luxúria nem qualquer outra manifestação do gênero ‘incêndios’, então o coração poderá ser o órgão que contrai a água e dilata o fogo:

Contrai a água ao fazê-la sair por pontos específicos, seja os poros sejam os olhos, puxando toda a água do corpo para que aquela emoção, aquele sentir, saia através de um lugar quase como um funil para que caia do olho feito lágrima, contraindo como quem coloca água nesse funil para que ela encontre um ponto por onde sair ao ser comprimida.

E quanto ao fogo, fazendo-o encontrar seu espaço de expansão por todo o corpo, não sendo incêndio por o cerne ser o coração e o cerne ter a capacidade de apreensão desse fogo a todo momento. É como a luz que apreende as trevas. Não é propriamente uma premissa de controle, nem contenção e nem disciplina dele, mais oitavas superiores numa espiritual modulação – que etimologicamente está ligada a harmonia. Porque não se controla o fogo, mas se tem um entendimento de que o fogo, se há alguma espécie de controle, é através de sua lenha, daquilo que ele queima, sendo o coração a representação direta de seu polo oposto, a água, assim como sendo o cérebro a representação do fogo na dualidade de órgãos (coração x cabeça), ou seja, só se começa a ter um controle, uma contenção, uma disciplina mental, assim como dos próprios desejos (iracundos e luxuriosos, inclusive) se se admite a possibilidade do coração estar realmente, verdadeiramente acima e à frente de tudo isso.

Então, é através do coração que se maneja o fogo do corpo, o sangue, assim como se torna possível ver que é o fogo, ou o sangue, que faz o carvão e a lenha pulsarem no contato com o vento, ou seja, devemos aprender primeiro que é o sangue que pulsa o coração, para depois aprendermos a pulsar o coração acima e à frente de todos os elementos, ou seja, pulsar o coração voluntariamente.

Se o cérebro é o lugar onde digerimos os pensamentos e a mente é onde fazemos essas conexões de pensamentos, onde temos uma produção de pensamentos, tal como uma máquina, e melhor ainda se como brinquedo, ou como um sistema solar, por exemplo, podemos ver as relações se conectando, sendo fiadas como uma renda, conseguimos ver então que observarmos esse fiar é com a mente, ou seja, é nela que produzimos a observação e o discernimento, mas é através do coração que as conexões se dão verdadeiramente, porque é como se a mente fosse capaz de, através dos pensamentos, aprender, como aprender que se está sol é dia, e se está lua é noite, mas eu só apreendo o que significa o sol lá fora e a sua relação com todas as coisas e com a Vida que isso carrega, assim como só apreendo a Lua e as relações que ela carrega, as marés que ela enche e esvazia, as fases que produzem cada uma um efeito, eu só apreendo tudo isso enquanto relação natural através do coração (não porque li e aprendi num livro que lua crescente é boa para crescer algo, mas porque eu apreendi que aquela força que emana se relaciona com a vida de uma determinada maneira).

O aprendizado é através da mente, a apreensão é através do coração!

São movimentos que andam juntos, mas que são diferentes, assim como é possível apreender antes e aprender depois, bem como aprender primeiro e apreender depois, que vai ser a diferença que na Fraternidade Rosacruz será posta como a diferença entre quem primeiro apreende no coração e depois aprende no cérebro, e quem primeiro aprende no cérebro e depois apreende no coração, sendo essa a diferença entre o místico e o ocultista, respectivamente. (Recomendo que se estude o livro Conceito Rosacruz do Cosmos e se possível que se faça os cursos gratuitos da Fraternidade para maiores detalhes).

O místico é primeiro conectado ao coração e depois à mente, enquanto o ocultista é conectado primeiro à mente e depois ao coração, sem juízos de valor, mas sabendo que há diferença entre um e outro. A diferença é que um místico está mais apto a ter uma relação mais elevada do que um ocultista, porque o ocultista tem conexão simbólica com os elementos ar e terra, que são elementos secundários, enquanto o próprio místico tem uma conexão simbólica com os elementos água e fogo, que são os elementos primários, ainda que haja uma grande diferença entre usar os quatro elementos e usar apenas os dois primários e constatar a linhagem de água e a linhagem de fogo, que é como se denomina essas duas vertentes: do místico e do ocultista, respectivamente. A relação com os quatro elementos revela o grau de inevitável superioridade dos santos em relação aos ocultistas, ainda que isso possa doer na científica e cerebral vaidade de vários.

Se olharmos bem, o místico lida muito mais diretamente com forças puramente da água e do fogo do que o ocultista. E me perdoem os leigos nesses assuntos, indico que estudem, pois são fatores a se saber muito importantes, relacionados ao esoterismo e ao exoterismo que, inevitavelmente, todos lidamos, ainda que não tenhamos ciência, consciência nem creiamos nisso.

E aí se encontra a grande importância dos ocultistas, pois é preciso aprender primeiro tudo isso e desenvolver nossa mente, porque o caminho da água tende a uma lentidão incomensurável, por isso, ainda que sendo superior ser um santo, é preciso primeiro, é preferível primeiro aprender a ciência espiritual que nos prepara para os batismos de água e de fogo. É necessário, no entanto, que todo ocultista também se converta num santo, pois, por mais que se estude e aprenda as coisas ocultas, o batismo de água SEMPRE vem antes do batismo de fogo, ou seja, a apreensão é necessária junto ao aprendizado para que a junção de ambos verdadeiramente, em uma oitava acima de água e de fogo, se dê.

Ser um filho do fogo, ou seja, ser ocultista, não significa receber o batismo de fogo, nos atentemos a esse detalhe muito importante, assim como um filho da água, um místico, não quer dizer que recebeu o batismo de água, o que acontece é como se Deus nos tivesse dado ferramentas: pedras e carvões, pedras como Pedro, a cabeça da Igreja, a pedra de fundação de qualquer Igreja que tenha Cristo como princípio, e carvões como João, o coração da Igreja, o centro cardíaco de qualquer Igreja que tenha Cristo como princípio.

Sendo que o fato de termos recebido não quer dizer que saibamos como usá-las, o uso se dá por aprendizado milagroso, não depende da nossa vontade, assim como não depende da vontade da criança aprender a escrever, mas sim da vontade dos adultos em ensinar, mas uma vez aprendido, é de responsabilidade da criança apreender o uso daquilo, ou seja, após a dádiva de hierarquias acima de nós nos ensinarem a usar as ferramentas celestialmente dadas, depende unicamente do Ser humano colocar em prática. Ter pedras ou ter carvão não é o mesmo que receber o batismo, mas o preparo para isso, assim como uma vez ensinado, batizado, iniciado, depende unicamente de nós pormos em prática.

É muito importante compreender isto, porque Cristo fez com que a vinda para a Terra seja automaticamente estarmos na iniciação, termos as pedras e/ou o carvão à vontade, mas somente Sendo iniciado é que se aprende a quebrar o carvão, ou seja, humilhar-se, ter do sofrimento cardíaco, das lágrimas, porque carvão inteiro não queima de maneira apropriada. Então é preciso fazer do coração pedaços! Assim como é preciso ter atrito nas pedras para gerar fogo de fato, e aprender que a direção desse atrito aumenta ou diminui a possibilidade do fogo se tornar um fato, porque há pessoas que em suas vidas jogam o carvão fora ou jogam as pedras fora ou são indiferentes a eles, ou vão bater pedra em algum lugar distante dos carvões, se tornando cada vez mais improvável que ocorra o milagre de acender o carvão e sermos iniciados.

Assim como ficar esperando que o carvão seja acendido por um raio é algo tão lento quanto igualmente improvável. Pois já houve um raio: Jesus, que em sabedorias passadas pode ser chamado de Júpiter ou ainda Zeus. E sabemos, um raio não cai duas vezes sobre a mesma cabeça, ou seja, Jesus veio e já deu o exemplo, agora ele manda seus mensageiros, seus raios, seus apóstolos, mas ficar esperando ser um apóstolo, um santo, para então compreender o que é acender o fogo, bom, demora, se tornando exaustivo e improvável até por muitos serem chamados e poucos os escolhidos de fato. Ou seja, ficar esperando a hora de ser chamado e ser escolhido requer uma evolução espiritual tal que são raros os que sequer se preparam, pois requer ser realmente um Santo, e poucos se dão de coração à devoção exigida para isso, pois significa ter os carvões em pedaços no lugar exato em que cairá o raio, e saber o local dum raio, só com muita, muita, muita cristalina água, ou seja, só tendo uma pureza impecável, como a de Maria, mãe de Jesus.

Quanto aos filhos da água, se um incêndio acende, por milagre, os carvões, é a oportunidade de pegar esses carvões que estão se esfacelando e queimando e levar a um lugar seguro, longe do fogo indisciplinado. Mas haverá uma obrigação de ação, retirando-se do incêndio, sendo como trigo a separar-se do joio. É sempre por milagre que a união do carvão e do fogo se dá. Mas sendo um filho do fogo, dá para aprender a direcionar as faíscas quando as pedras batem, quando o martelo bate, sendo que o carvão só acenderá por milagre divino, contudo, caso o milagre se dê, teremos a oportunidade de pegar a parte do carvão que nos cabe. Isso significa a chance de ser mais rápido do que esperar como um filho da água. Ou seja, não é necessário exatamente ser um Santo, mas sim ter ações que venham a santificar-nos.

Muitas vezes os filhos do fogo, pessoas cerebrais, são como pessoas que estão gerando faíscas, geram faíscas aos montes ao dar marteladas, golpes, pedradas, isso não quer dizer que o fogo interior se acenda, assim como os filhos da água, pessoas cardíacas, são como pessoas que juntam carvões, mas um carvão apagado de nada serve. Então os filhos do fogo ainda são como homens da caverna que batem pedra com pedra e acham o máximo ficar vendo sair faísca, enquanto os filhos da água ainda são como homens da caverna que ajuntam madeiras e falam ‘bom, deixa aí que uma hora o raio desce e o fogo pega’, e ficam orando para que o raio caia em suas cabeças.

É claro que ambas as coisas se dão por milagre, por milagre que uma faísca pode pegar fogo no meio dos carvões e ter o fogo aceso e por milagre apreendermos, assim como, por milagre, um incêndio pode atingir o carvão ou mesmo, por milagre, o raio que caiu em alguém inspirar o outro a se aproximar e o carvão acender ao ser posto ao pé do fogo, da fogueira alheia, sendo sempre milagre, porque só o Pai sabe o momento de acendê-lo. Contudo, é nosso dever nos esforçarmos, facilitarmos para que o milagre aconteça, pois todo milagre tem por definição a Vontade nossa unida com a Vontade divina. Eu me torno um veículo, potencializando e catalisando, ainda que jamais dependa de nós mesmos.

E nada disso significa que os filhos da água sejam melhores do que os filhos do fogo, porque, ainda que o trabalho demonstre que os filhos da água sejam mais avançados em termos gerais, se ambos são verdadeiros Filhos, o verdadeiro Ser de ambos é e está lado a lado, pois fogo e água são os dois elementos primários. O que acontece é que um modula o outro, assim como um irmão mais velho cuida do mais novo.

No fim, o que observaremos é a necessidade da troca do magnetismo em nós, como se tivéssemos o dever de tornar um polo que hoje é negativo, a água e o coração, em um polo positivo, que é um coração voluntário, com desejo direcionado, e tivéssemos que fazer das experiências relacionadas ao fogo de sensação, produção, ação, nascimento, um polo verdadeiramente negativo, o que não significa negar essas coisas, mas não precisar pensar para fazê-las, e se tornarem efeito de causas mais elevadas, ou seja, fazer o sangue obedecer ao coração – não o coração obedecer ao sangue, como é hoje, de maneira ainda inconsciente, até passarmos para a maneira ciente, depois consciente e então haver a troca e nova polarização. A apresentação de tudo isso é a imagem de como um dia o ser humano inverterá os polos magnéticos de si mesmo.

Enquanto o cérebro e a mente são relacionados às experiências, o coração é relacionado às relações, ao que está diretamente dado para que haja relações. É ele que possibilita que tudo ganhe vida, e a Vida está na relação porque tudo o que é separado de outros elementos, tudo o que é isolado, mesmo um átomo, perde o sentido de ser; pode-se isolar para estudar, mas a capacidade de segregação e isolamento é algo cerebral que a gente faz, assim como a digestão é o quebrar das partículas para que se consiga absorver as propriedades do alimento, o cérebro também quebra o pensamento para que se consiga absorver algo, para que possamos obter algo de aprendizado sobre o mundo, por isso se aprende as letras e depois as sílabas e depois as palavras e depois as frases e depois os textos… é por segregação primeiro e aglutinação depois que se aprende a ciência de do que se faz e como se faz. Enquanto o coração é apenas por comunhão, não tem como propriamente segregar algo, mas se apreende as coisas pelo seu cerne, por isso, apesar de não se saber escrever, ou mesmo falar direito (podendo trocar uma letra por outra), ainda assim se apreende palavras e frases antes de sermos alfabetizados de fato.

Se eu disse na Poesia do Pensamento que a Mente integra o corpo como um todo, o Coração também o faz, mas num sentido diferente e complementar, pois a Mente é integração total enquanto materialização, objetivação de uma ação, sentimento ou pensamento, e o Coração é a integração através de uma espiritualização, subjetivação da ação, do sentimento e do pensamento, no sentido de se tornar único, não pela personalidade (que é o caso da mente), mas pelo espírito.

É preciso deixar claro aqui que eu não proponho teorias nem nada, mas que é preciso haver discernimento quanto a maneiras errôneas historicamente consolidadas de se observar que: a subjetividade não é quem eu acho que sou, ou mesmo o que eu penso sobre mim mesmo e sobre a realidade, a verdadeira subjetividade é o que vem do Sujeito, pois é o que lhe foi lançado abaixo (sub jacere = subjetividade), e objetividade, objetivo (= ob jacere) é algo posto à frente, apresentado de maneira oposta como por espelhamento, algo que se detém na frente dos olhos, e aí conseguimos observar que D’us é o único real e verdadeiro Sujeito que permite que Sejamos em relações, havendo sujeitos por sustentação Sua, como já foi dito na Poesia do Pensamento e em outras também que, ao dois ou mais se encontrarem, um terceiro é quem vela uma causa superior para este encontro – como Cristo diz: onde dois se reunirem em meu nome, aí estou no meio deles (Mt 18:20). E também que a realidade que vivemos é o véu, o espelho, aquilo que nos foi ‘posto à frente’, então é lógico concluir que tais analogias divinas nos permitem ver que o real sentido de subjetividade está relacionado ao espiritual e o real sentido da objetividade está relacionado ao material (sem que com isso se pretenda ou intencione aqui, e em qualquer texto, haver a plena manifestação de toda a possibilidade dessa verdadeira realidade observada, esta é apenas uma fração do prisma, contudo torna-se importante salientar que qualquer outro ângulo adotado não divergirá desta fração do prisma, mas ao contrário, corroborá-la-á. Se houver bifurcação, quão maior for a oposição do argumento contrário ao apresentado, maior será a tendência à mentira e ilusão. O uso etimológico das palavras é uma das formas de provar que não são análises baseadas em opinião, mas sim em testemunho histórico, é uma forma de usar a matéria histórica e comprovar que ela, em si mesma, é obrigatoriamente existente somente devido ao fato de que seres, leis, princípios, forças, superiores à materialidade temporal dela mesma existem e são de fato.).

Em suma, a verdadeira subjetivação é a espiritualização do eu-personalidade, a verdadeira objetivação é a materialização do Eu-espiritualidade; se ambos caminham em direção um ao outro, em algum ponto eles se encontram, o que acontece é que nosso nascimento terreno é uma das formas da objetivação, contudo ela perde o sentido quando não há também, em complementação, um nascimento espiritual através de uma das formas da subjetivação. Claro que em primeiro lugar há o milagre e a graça para que esses nascimentos se deem, mas é preciso ter em conta que o ser humano foi feito tal qual imagem e semelhança, ou seja, é necessário, é urgente, que entendamos que também depende de nós aprendermos e apreendermos para podermos, depois, aí sim por milagre, viver as manifestações do Querer e do Poder em termos de compreensão (que é ter o Coração unido à Mente), da Sabedoria (Coração) unida às Escolhas (Mente) para haver manifestação da Vontade real e verdadeira.

Então o coração nos integra através da subjetivação, tendo o sangue e a lágrima como veículos, através da água e do fogo (sendo necessário primeiro a união dessa água e desse fogo no coração para depois haver a união do Coração e da Mente, também símbolos maiores da água e do fogo em complementar oposição). Então entender que o coração deve deixar de ser um músculo involuntário é necessário, pois ele deve tornar-se um músculo voluntário, porque enquanto ele pulsa, essa lenha hoje queima o fogo do sangue sem que escolhamos que ele queime, pois nós não integramos de maneira ciente – que seria fazer o sangue esquentar de maneira voluntária, ou seja, ter ciência sobre a modulação dos nossos desejos, que dirá de maneira consciente – que seria o coração pulsar voluntariamente, ou seja, pulsarmos somente vontades elevadas.

Hoje, quando o coração atua de forma involuntária em nós, é por pura graça, por trabalhos espirituais que desconhecemos ainda, mas quando vamos acordando para essas outras realidades que compõem juntas essa única realidade química que cientemente vivemos, passamos a nos tornar responsáveis pela Vida de nós mesmos. Obviamente o Mistério continua existindo, mas então passamos a observar que nosso coração espiritual pulsa também por graça de Deus, e um dia também seremos capazes de fazer conscientemente nosso coração espiritual pulsar, mas isso só acontecerá quando nos tornarmos deuses. Lembrando que um coração inevitavelmente só pulsa junto a outro, seja junto ao que está acima (anterior hierarquicamente, de uma espiritualidade mais elevada que a nossa, como irmãos mais velhos), seja junto ao que está ao lado (que é quando passamos a ser verdadeiros Amigos, seja dos Seres humanos, ou das demais hierarquias espirituais), seja junto ao que está abaixo (nos tornando servos de todos os demais).

A verdadeira consciência só acontece junto ao verdadeiro conhecimento, que é a possibilidade da verdadeira gnose, que é a gnose conjunta – cognoscere, porque não existe gnose separada – gnose separada é uma falácia – e caso se afirme que a gnose do místico ocorre, mesmo sem o entendimento, isso só pode acontecer por milagre por estar e ser unido ao entendimento de Deus, mas é diferente da gnose aqui tratada, que é ainda um passo além, uma oitava superior à gnose do místico; então a verdadeira comunhão está na escolha (inteligência, que é o ato de escolher o fruto mentalmente), quando eu escolho soprar a brasa para que o fogo queime, e na multiplicação e oferta dessa escolha (sabedoria, que é o ato de saborear o fruto escolhido junto ao Outro), levando o fogo para todos os membros. É quando meu coração deixa de queimar involuntariamente e eu escolho que ele bata, que ele pulse por aquilo que vale a pena, que é certo, verdadeiro, belo, bom e justo que ele pulse.

Então deixa de fazer sentido o sangue ferver estar associado a experiências de ira e luxúria, e passa a ter relação com o elevado, porque ele passa a ferver por coisas elevadas, porque passamos a querer nos relacionar – principalmente com Deus, que é a relação mais elevada que podemos almejar ter e viver, porque o verdadeiro conhecimento, a verdadeira gnose, é com Deus, porque é nessa relação que se possibilita a relação com todos os outros seres, por isso é amar a Deus acima de tudo: pois é só a relação com Ele que possibilita a relação com o Outro, amando o próximo como a nós mesmos.

Se meu coração (centro do corpo) não se conecta ao cerne (espírito) e ao todo (D’us), se meu coração não está a caminho da essência de mim e do cosmos, então ele não conseguirá se conectar a todas as partes de mim mesmo, e eu, provavelmente, terei problemas na circulação do sangue e problemas cardíacos. Mas também é preciso que este cerne ao qual me conecto, que é meu espírito, (é preciso) que ele também seja um coração e se conecte com o cerne dele mesmo, cerne esse que é Deus. Então eu não me conecto a Deus através do meu coração de carne propriamente, com meu coração eu me conecto com meu espírito e com o coração do meu espírito, com o cerne do meu espírito, eu me conecto com Deus.

É como na Poesia do Pensamento quando falei que a luz que se faz através da lupa, que converge a luminosidade que me esquenta, ela é direcionada pelos olhos espirituais pessoais, mas ela em si e o fogo que brota vêm deste Ser maior (estando relacionado à hierarquia de Gêmeos e os Serafins), assim como a flecha e o arco estão a mercê e a trabalho do arqueiro (relacionado à hierarquia de Sagitário e os Senhores da Mente), assim também é com o coração nosso. O nosso coração também só derrama a água, tal qual o jarro de barro que despeja a água de Aquário, porque nele pulsa o movimento da respiração deste Ser que segura este jarro de barro e seu sair de água.

Assim como esse fogo passa a pulsar por coisas nobres dentro de mim mesmo, num ‘eu’ como um Leão, que simboliza a nobreza do fogo – lembrando que este Leão é o mesmo Leão que mansamente é dominado pela Força interna, tal qual na carta de Tarô, que lhe abre a boca mansamente, mostrando que para meu coração pulsar e entrar em relação com o mundo, isso só é possível verdadeiramente se o espírito modula esse pulsar, sendo a figura feminina complementar à figura masculina de Aquário, podendo, de ambos, nascer o Filho do Homem; ou, se tomarmos Aquário como a figura do Anjo, a Força representa da mesma forma a imaculada capacidade de se tornar senhora até mesmo deles, dos Anjos, ao olhar para eles e seguir seu exemplo, eis o princípio da Virgem Maria, como já citamos.

Então eu não uso esse Leão (símbolo também da individualidade), do coração e do ferver de sangue para assustar os outros através da ira e do rugido, nem para comer os outros, seja numa luta com gladiadores, seja inclusive no sentido luxurioso do termo – da transa e da paixão desenfreada de um leão que domina o outro sexualmente -, mas o sou, sim, como felino nobre.

Sendo que quando eu digo: depende de nós aprendermos e apreendermos para podermos, depois, aí sim por milagre, viver as manifestações do Querer e do Poder em termos de compreensão (que é ter o Coração unido à Mente), o Querer está relacionado a Câncer e à Hierarquia dos Querubins, bem como o Poder se relaciona com Capricórnio e a hierarquia dos Arcanjos, sendo que este eixo zodiacal está justo no meio do eixo de Gêmeos-Sagitário e Leão-Aquário, sendo literalmente o que tem permissão para dividir e unir ambos.

O Coração é dificílimo de ser acessado, porque requer lidar, primeiro, com uma água baixa, que se relaciona com a ira e com a luxúria também de um cérebro baixo, bem como melancolia e futilidade ou apegos desnecessários – como apego a grupos fechados em si mesmos, porque choramos e suamos por coisas carnais e de carência normalmente, em suma: por estilos de vida (seja emocionalmente dependente do outro, como mãe dependente de filho – carência e histeria feminina, seja independente do outro, como no individualismo – egoísmo e machismo masculino) e evitamos as coisas espirituais.

Temos o desafio e dever de fazer com que a mente evite que a água seja um jorrar por jorrar e o coração evite que o fogo seja um queimar por queimar, como quem joga palavras ao vento em relação às coisas e um consumismo como quem quer para si todas as coisas.

Nós conseguimos ver também que o pensamento, a mente, e mesmo o cérebro, por estarem relacionados com o intestino, eles têm a ver com a inteligência, a medida que a inteligência é a capacidade de escolha dos frutos, como eu escolho os frutos e os absorvo; na Bíblia se lê: a boca fala do que o coração está cheio, nos lembrando de que o coração tem relação com a boca e com o estômago, e com o que eu permito que entre ou que saia de mim enquanto um saber, que é o sabor daquilo que eu provo em meu coração, sendo uma sabedoria.

A intuição, o conhecimento, é quando eu consigo unir aquilo que eu separo para comer ou deixar de comer, provar ou deixar de provar (ou seja, aquilo que irá se tornar inteligível) com aquilo que eu saboreio de fato (o saber que eu compartilho, que eu saboreio e compartilho ao ofertar do fruto), porque é praticamente impossível descrever um sabor, senão dando características gerais, mas chegando nem perto de se assemelhar à experiência que é, por si mesmo, saborear – então eu devo ofertar. A união da Escolha e do Saber gera a possibilidade de Conhecimento, e aí indico que se ouça a Poesia da Inteligência, do Conhecimento e da Sabedoria, lá eu falo mais sobre, mas o conhecimento basicamente está na ligação e relação entre o Coração e a Mente – entre o que eu já experienciei e qual sabor aquela experiência deixou em mim, porque o coração é o cerne, o que está em contato espiritual direto com a minha identidade, e o que eu escolhi com a mente, que é o que está em contato com a minha personalidade aqui enquanto manifestação na matéria – porque é como comentado, a mente se relaciona com o externo que entra, enquanto o coração se relaciona com o levar o que chamamos de interno para uma instância ainda mais profunda de nós mesmos.

É como se a Mente fosse a porta e o Coração, a fechadura, eu só consigo de fato abrir a porta se o coração estiver presente preenchido com o que lhe cabe. A Mente é o que envia, faz a ponte, sendo a porta entre a personalidade e o espírito, contudo, é o Coração que revela o que a Mente levará de fato, no sentido de que a escolha primeira é da mente, porque intelectualmente podemos escolher as experiências, mas, a partir da hora que se pega o fruto escolhido e o colocamos na boca, é o Coração que revelará se engole para ser absorvido (função do cérebro e do intestino) e levado até o espírito pela Mente, como Mercúrio que traz e leva as coisas entre os reinos e deuses, ou se será cuspido, vomitado, jogado fora, enfim, defecado… Ou seja, a verdadeira escolha é do Coração. A Mente não leva e não traz o que o coração não quer que seja levado ou trazido, ela obrigatoriamente obedece ao Coração. Se se tenta fraudar esse movimento de alguma maneira, a pessoa provavelmente terá a tendência a sofrer de doenças mentais e do coração, o que não quer dizer que pessoas que sofrem com tais tipos de doenças tenham necessariamente tentado manipular e forçar a fechadura que é o coração com um pé de cabra ou chutado a porta que é a mente etc., mas é uma alta probabilidade que em alguma vida isso tenha ocorrido e a doença venha como um alerta para que se tome, em algum momento, ciência, tanto da chave certa quanto da maneira correta de abrir a porta e usar a mente.

Por isso o verdadeiro conhecimento, cognoscere, a gnose conjunta, é quando ambos trabalham juntos, porque é quando consegue levar e trazer o aprendizado e com isso gerar alimento para o espírito através das lições das escolhas e desse saborear, fazendo com que passemos por transformações, que é quando, depois de passar pelo cérebro, se passa pela necessidade de produzir algo, como algum artesanato, alguma ajuda ao próximo, algum serviço para alguém, enfim, ou quando, depois de passar pelo intestino, se passa pela necessidade de defecar, urinar, enfim, passar por transformações nem sempre bonitinhas, para que o que precisa ser absorvido seja absorvido, pois o próprio bolo fecal só se forma se toda a água necessária for absorvida daquilo que não presta, para daí o resto ser expelido e passar pelas nossas genitálias. No cérebro, a água retirada é a extração do que há de sentido divino naquilo que escolhemos como experiência para que então, ao contrário do corpo que guarda para si o melhor e defeca o resto, aprendamos a ofertar ao Outro o melhor e mantermos em nós a morte do resto…

Por isso astrologicamente Quíron ainda virá a ser também regente de Virgem, pois ele é simbolicamente o representante dessa capacidade de extração da água da experiência e doação de si em morte para que o outro (Prometeu) se liberte da corrente. Em todo esse caminho, apenas para que se possa aprofundar os estudos, a Mente é representada aqui por Mercúrio (Gêmeos), a Boca pela Lua (Câncer), o Coração pelo Sol (Leão), o Intestino delgado e grosso por Mercúrio e Quíron (Virgem), os Rins por Vênus (Libra) e as saídas, nossos orifícios baixos, por Marte, que seria o Pênis ou Vagina, e Plutão, Ânus (Escorpião), com isso é possível se esforçar para visualizar o movimento que estou fazendo ao falar dessas passagens de processo em processo quanto ao que escolhemos, saboreamos e compartilhamos para que a união se faça possível caso, nos seja dada por graça e milagre divinos.

Então é possível ver também que não se trata apenas da Mente e o Coração trabalharem juntos, sendo que a união deles é uma etapa do processo, não é todo o espectro de alcance que o ser humano pode chegar a viver neste momento evolutivo, obviamente o processo não tem final (num sentido ordinário de fim, ponto final), contudo ele é passível de plenitude. O que esse processo todo possui é a finalidade em Cristo (como quando ele diz ser o Começo e o Fim, o Alfa e o Ômega, no Apocalipse), sendo que o que há é diferente de um ponto final como chegou, pode parar tudo, esse pode parar tudo não existe, o que acontece é chegar numa plenitude para seguir para outra etapa de evolução para além da que conhecemos agora como seres humanos. O que quer dizer que, além da integração Coração-Mente, deve haver também, aos poucos e a posteriori, uma integração de todas as partes: anatômicas, zodiacais, planetárias, de corpos materiais (inclusive os mais sutis), de todos os corpos espirituais etc. ou o nome que se dê à objetividade e subjetividade – já mencionadas –, ao manifesto e ao espírito e a unificação dessas possibilidades. (Não cito mais acerca disso porque também é desnecessário e seria exaustivo ficar discorrendo sobre cada pequena etapa do processo e a ligação com os outros órgãos e planetas e signos, pela Fraternidade Rosacruz, seus cursos e livros se pode começar a aprender muito mais sobre tudo isso).

Então, quando eu consigo a gnose conjunta da Mente e do Coração, é quando eu uno o cerne à mente, essa mente que é também como uma flecha. Então é quando, do meu coração, eu lanço essa flecha… meu coração, sendo guiado por Deus, lança uma flecha que atinge o peito do outro. Arco e flecha atingindo o peito do outro é também a imagem de Eros, de Cupido, e se nós já compreendemos que a luxúria nada tem a ver com isso, que o que conhecemos hoje como erotismo e mesmo pornografia – que é a degeneração total do erotismo – nada tem a ver com o sangue ferver de verdade, que é quando ele o faz buscando algo elevado, vemos que o sangue esquenta e gera calor de verdade quando derrete todos os obstáculos podendo moldá-los, evaporá-los, e até mesmo transmutá-los – se a água mole em pedra dura tanto bate até que fura, sangue quente em chumbo interno a fogo lento transmuta em ouro qualquer minério – lembrando que fogo quente modulado pelo coração, que é sua lenha, seu carvão.

Temos, assim, a imagem do Cupido que ama e coloca em relação de Amor todos que têm contato com ele. Que lança uma flecha de coração para coração e une, através dessa flecha, os corações.

Se vemos também o que foi falado na Poesia do Caminhar e do Pensamento, veremos que o verdadeiro caminho reto é aquele que observa o pendular, podendo ser possível finalmente ver que em todo o encontro de dois há um terceiro, ou seja, para além do Eu-Tu há um Ser oculto velando pela causa desse encontro como efeito; então vemos que atuar como Cupido verdadeiramente é possibilitar o trabalho de Eros, do Amor de Deus em seu estado de manifestação mais densa, por assim dizer, porque é um Amor infantil perto de toda a possibilidade, mas que é o começo, é o básico. Então é possível observar como é preciso ter o Coração e a Mente integrados para que se possa verdadeiramente começar a agir com Amor através do Cupido.

Então estar e ser numa relação que requer Mente e Coração integrados é o que possibilita que a intuição aconteça. A intuição é a essência de uma relação, daquilo que se apresenta e se extrai de uma relação, seja de outras vidas, seja deste momento, seja para além dessa matéria, bem como com seres de outras hierarquias que nos sussurram sabedorias e possibilidades, até nossa relação com uma coisa, animal ou pessoa. É ao extrair e unir a sabedoria e inteligência em relação uma com a outra que se gera a intuição. Claro que aqui é possível falar em termos formais em como esse processo se dá e como essas Poesias são, mas obviamente não basta falar para se saber Viver isso, nem adianta ter isso apenas no coração de ‘eu sinto isso, eu sei que vivo isso’ para de fato viver isso, assim como de nada adianta saber intelectualmente ou inclusive expressar tudo isso (como eu aqui faço)…

A expressão de algo não quer dizer que seja a capacidade de vivência do que se expressa, nem o sentir algo a capacidade de vivência do que se sente. Ainda que quão melhor seja essencialmente expressado ou sentido (não aparentemente, mas essencialmente expressado e sentido), maior a tendência de estar a abrir vias para aprender, apreender e compreender de fato, porque é isso, o verdadeiro viver é um movimento integrado das partes, ainda que este movimento não pretenda nem intencione ser o alcance da integração total, como numa onipotência e onisciência, porque isso só Deus, e quem se arroga tal possibilidade sofre de megalomania muito provavelmente… ainda que venhamos a ser deuses, não chegaremos lá senão pela humildade, ao jamais sequer pensar nessa possibilidade como finalidade ao buscar esse movimento integrado.

Por isso, na maior parte do tempo, é mais importante se preocupar em desenvolver as ferramentas por amar Deus e o Próximo, do que ficar querendo se analisar e criar julgamentos de se somos ou não capazes de usar a Mente e o Coração ao mesmo tempo, apenas “amando” a si próprio, ainda que seja importante, sim, ter um sincero pensar sobre estar num bom combate ou não, e vendo os detalhes do porquê se ganha ou se perde um round, por assim dizer. Mas todo lutador sabe que só se analisa e se verifica as qualidades e defeitos da sua técnica para voltar ao ringue e lutar mais uma vez, seja para luta efetiva seja para treino, o que revela que o foco reside na ação.

Por isso é preciso ver que a necessidade em se saber fazer certos exercícios, desenvolver certas ferramentas, como saber fazer escolhas e saber saborear as experiências, é mais importante, neste momento, do que de fato entrar em questões de ser ou não capaz de unir as duas coisas e construir relações, unindo a escolha ao sabor do que se escolhe. Um passo por vez às vezes evita graves erros, como engasgar e até morrer antes do tempo. Assim como é mais importante saborear aquilo que muitas vezes nos é dado, conhecer o sabor, ainda que desagradável, do que ficar escolhendo o que eu quero e não saborear baseado em premissas de um paladar infantilizado ou adolescente, de quem quer só o docinho ou escolhendo o sabor por rebeldia, sem sequer saber lidar com algo salgado, que dirá ácido, azedo ou amargo.

Por isso é preciso ter discernimento para ir conhecendo o próprio caminho… se é primeiro escolhendo os frutos para depois saboreá-los ou se é saborear primeiro para depois aprender a escolher os frutos, porque se sou muito seletivo e faço uma seleção rigorosa, posso deixar de desenvolver certos sabores e sabedorias internas que me são oferecidas dia após dia porque eu vaidosamente só quero comer o que eu quero, fazer escolhas que me convêm. Assim como não aprender a escolher os frutos também é perigoso porque eu saboreio apenas o que me é dado e deixo de entender que nem sempre tudo o que me é dado é para que eu aceite, mas sim para aprender a dizer não, porque o meu sim nada é sem meu não e meu não nada é sem meu sim; então é preciso observar a si mesmo e ver qual o movimento que se faz majoritariamente, e nisso ir se conhecendo se se é uma pessoa mais cerebral (de escolhas) ou mais cardíaca (de sabores e saberes) , por exemplo.

É claro que uma real integração dos dois é algo ainda um tanto raro e delicado de acontecer em plenitude. Hoje em dia estamos muito mal acostumados com analogias deformadas e grandes deformidades de metáforas são criadas e isso deturpa esses dois instrumentos, como, por exemplo, querer falar de Cristo e de comunismo, quando o termo comunismo e o Verbo que é Cristo são impossíveis de serem misturados, quando Cristo (espiritualidade) e César (política) não são sequer dois lados de uma mesma moeda, assim como água e álcool não se misturam, não bastando fazer análises rasas como: são ambos líquidos ou são ambos transparentes. As aparências enganam. Sendo que a aparência do comunismo visa substituir a água, que é Cristo, porque se pretende não haver espiritualidade: por mais que se misture ambos, não se verá a diferença crucial entre água e álcool, e, das duas uma, ou morremos de sede ou envenenados. É preciso escolher: ou se bebe apenas água – Cristo, ou apenas álcool – comunismo.

Já o Coração e a Mente, apesar de serem como água e óleo, aparentando ser um caso análogo ao do álcool, ele não se confunde com o mencionado, ou seja, se difere do mencionado, porque água e óleo se distinguem no conteúdo e na forma, não nos incitando ao erro e ao envenenamento de nós mesmos, óleo este que é combustível representando o fogo aliás, não havendo confusão entre ambos. Sendo que só é possível trabalhar essas polaridades porque haverá um inevitável modular do fogo pela água, porque mesmo sem apagá-lo, mesmo que vejamos pegar fogo no óleo que há na água, é ela que irá carregá-lo, ela que servirá de suporte, de base para continuar a queima constante. Ou seja, a política deverá se submeter à espiritualidade, não o contrário. Não estão sequer em pé de igualdade, ainda que ambos tenham seu grau e seu local de importância, não sendo sequer iguais ou equivalentes para estarem lado a lado. Tanto que, mais uma vez repito, sabemos, por inteligência, sabedoria e conhecimento que os santos, assim como os elevados anjos estão à frente em termos de evolução do que os cientistas e os anjos decaídos. Isso não significa que todos devemos nos tornar santos literalmente, mas significa sim que nos santificarmos é crucial para continuarmos os passos

Agora, claro, não é num mundo politicamente desigual que se consegue ser cientista de fato, a ciência verdadeira também traz a oportunidade de cada um saciar as suas necessidades (não futilidades), contudo isso não se confunde com comunismo nem tecnologização de tudo e o que valha, porque não é distribuir renda nem enlatar tudo de forma fria, mecânica e tendencialmente morta, mas sim cada um viver de acordo com a sua necessidade – e isso varia individualmente, pois não é o paraíso igualitário na Terra, mas sim a Terra como necessidade igualitária de espiritual vivência.

Ou seja, não basta apenas o coração para que um corpo tenha saúde perfeita. Não basta o mundo espiritual sem suas respectivas matérias. Não é fazer o caminho da negação das coisas terrenas, do fogo e da mente, abrindo mão do pensamento, ao contrário, se torna crucial saber que, se para aprender a pensar eu preciso passar pela reincidência (como dito na Poesia do Pensamento), para pensar junto ao coração, produzindo pensamentos intuitivos, eu preciso estar e ser no exercício da matéria, da manifestação, só que não de forma a repetir (que seria o treino), e sim de forma a fluir (sendo o real combate), com um imperceptível trabalho da mente em si, como dirigir um carro, andar de bicicleta, que ao começo é preciso ter todo o foco naquilo e lembrar detalhes, ativar a memória, e depois entender que cada vez que vou dirigir, é única porque não sei que carros estarão na rua, que momento precisarei parar ou acelerar, dar seta e virar, mas já não preciso pensar de maneira mecânica naquilo, de maneira forçosa, e sim fluídica.

O mesmo se dá com pensamentos quanto a relações mais elevadas e matérias mais sutis. Ou seja, eu permaneço atento e presente cada vez mais aliás, mas confiando que o repertório de potencialidades está ali pronto para toda situação que apareça e, especialmente, lembrando que confiar vem de fidelis que é ter fé, mostrando que o acesso a esse repertório se dá pela graça divina de Deus e minha confiança, minha fé n’Ele. Sendo que ao surgir algo completamente novo, aí sim eu aprendo, e tendo aprendido na mente, apreendo, unindo-o ao meu coração, abrindo a possibilidade de vir-a-ser, por graça, a relação de ambos enquanto conhecimento de fato, despertando a intuição verdadeira em seu grau elevado. Se torna um movimento íntimo, de internalização e manifestação de uma potencialidade.

Então o verdadeiro pensar e o verdadeiro sentir são intuitivos, porque intuição é justo o que aprendemos e apreendemos das relações, a essência delas, em qualquer tempo, tornando-se conhecimento quando, por graça, o espírito puder e dever e conseguir internalizá-lo e externalizá-lo, como analogamente o corpo faz com o ar e com o alimento, já citados. Obviamente que tudo isso junto a Deus, aliás, tudo sempre só É junto de D’us.

É preciso querer visceralmente conhecer algo para ter acesso a isso. O que significa que não adianta buscar racionalmente e querer de forma primária e unilateral apenas, pois querer com as vísceras significa estar em estado de fome, de ausência daquilo que se almeja, então se almejo sabedoria, inteligência, conhecimento, eu tenho que visceralmente saber que nada sei, que nada conheço, que nada sei discernir intelectualmente por mim mesmo; preciso saber com os intestinos e com o cérebro isso, sentir a necessidade de apreensão e absorção disso, e a necessidade de assimilar isso de alguma maneira.

Porque com educação e estudos se aprende, mas apreender e compreender se dá pelo Amor, porque ele é a chave do Coração enquanto fechadura que abre a porta da Mente. E para querer visceralmente é preciso não possuir de maneira alguma, pois eu só posso verdadeiramente querer aquilo que eu não possuo em nenhum sentido. E quando eu reconheço que nada possuo, a possibilidade de que eu possa receber apenas o que necessito aparece. E a essencial necessidade nossa, enquanto seres, é nos relacionarmos com Deus e sua divina essência presente nas relações.

Uma outra forma de ver isso é através da Arte

A Mente é a partitura que é orquestrada pelo maestro que é o pensamento, mas as notas, a composição presente naquela partitura como um todo, como pulsação, como as escolhas todas que serão lidas na Mente e regidas pelo pensamento, isso tudo é unificado pelo Coração, porque ele é as notas, o ritmo, melodia, harmonia, tudo em conjunto presente formando a composição em si. O Coração permite a composição. A Mente permite a condução e performance.

Então o Coração é a composição, e a Mente é onde a composição pode se organizar e se objetivar, por isso o espírito está além da Mente e se objetiva na Mente, porque é como se essas notas, essa creação anterior `Mente, ganhassem uma substancialidade ao formar a composição (que são as manifestações espirituais), e uma formalidade ao ir para o papel, no nosso caso, ao ser produzida na Mente e ganhar vida (manifestação física), a partir da hora em que os pensamentos começam a reger e fazer com que os desejos, sentimentos e ações toquem essa música, que é o espírito.

Cada nota, cada pausa, cada vibrar e cada silenciar se tornam cruciais, pois basta um movimento errado para haver uma perceptível dissonância. Em graus mais elevados, ainda viveremos o que a música nos oferece em termos de Palavra. Hoje ela está em seu primórdio, ainda muito rasa, incompreensível e dissonante para a maior parte de nós. Mas ainda chegará o dia em que, para além da música que aparentemente escutamos com os ouvidos, desenvolveremos todos o dom da Poesiaque é a união da Palavra e da Música! Para maior compreensão, hoje ela precisa ser feita em prosa, mas chegará também a hora que será feita em elevados versos e serão mais belas que as músicas mais sublimes já tocadas. Pois os instrumentos nos foram dados para aprendizado, mas eles mesmos já foram alterados para se criar os acordes que hoje estamos acostumados. Necessário? Sim. Mas anunciador de um instrumento maior, que é a voz, esta sim pura, sem que possamos deturpar para caber em algo arbitrariamente construído.

Instrumentos e corpos choram. Vozes oram.
Um dia não será mais preciso chorar, e então poetizaremos a boa-aventurança da humana alegria.

Outra forma de observarmos isto é pela Astrologia:

Certa vez ouvi de um amado-amigo-irmão que o coração é aquele que recém saboreia seu alimento, o sangue, e abre mão de absorver e reter esse sangue para que os outros órgãos possam se alimentar, então o Coração (nosso Sol corporal), assim como a hierarquia de Leão (Leão de Judá), estão relacionados ao sacrifício do ‘eu’ que se construiu em Áries (o Cordeiro a ser imolado), depois passando por Sagitário para ser cravado no alvo, para ter e ser a flecha que mata o primitivo que carregamos, nos elevando, unindo-nos ao Pai, porque o Pai, se estudarmos esotericamente, veremos que Ele é da hierarquia de Sagitário – eis a trindade de fogo; assim como o que comemos em Touro (signo relacionado à garganta e o que a gente põe pra dentro enquanto matéria-prima) a gente absorve em Virgem, sintetiza, discrimina e limpa em Virgem, para que daí se possa trabalhar e estruturar as coisas de verdade, que é chegar em Capricórnio, sendo que a montanha de Capricórnio também é sabedoria, então quando tiramos as impurezas ganhamos uma vista mais limpa, mais clara da realidade espiritual e material – isso também é o que a montanha muitas vezes significa, ainda que não se resuma a somente isso – eis a trindade de terra; assim como passamos para Gêmeos e aquilo que é investigado pelas lentes através dos olhos divinos de Deus, quando vemos, com a Mente e a direção do Coração, Ele pôr fogo e acender todas as coisas, para então encontrar o Amor de Libra, Amor por todas as minúcias, particularidades, criaturas de Deus, harmonizando as diferenças, para seguir até Aquário, quando nos tornamos capazes de elevar esse Amor (sendo que geralmente as pessoas dizem que Netuno é a oitava superior de Vênus, mas estão erradas, a oitava superior de Vênus é Urano, de onde Ela nasceu, desceu como semente imaculada), sendo uma elevação do Amor a um grau que jorra de nós e nos tornamos taças, jarros de Deus.

E por que Aquário, apesar de ser o acesso à Água Viva, é do elemento ar? Porque sai da nossa voz, sendo que a garganta é como o calcanhar de Aquiles se invertemos a anatomia ao deixar de olhar como por espelho para vermos em nós mesmos, só que um espelho vertical, podendo então constatar que é por onde a gente expira o ar profundo ao torná-lo Palavra, e não sai água líquida literalmente, mas há vapor na nossa fala, sendo que quão mais divina é nossa fala, mais cristalino se torna esse vapor, deixando de ser como uma névoa, uma bruma, para se tornar Água Viva que mata a sede do Outro que nos ouve, revelando o cálice da comunhão para todos os irmãos, vivendo em comunhão na boca de todos ao proferirmos a mesma Palavra; por fim, há aquilo que digerimos no estômago cuja regência é de Câncer – se o Coração permite que não se vomite, todo o percurso que se faz até Escorpião é interno, porque a gente não vê a comida passando por digestão, a não ser que se tenha clarividência, mas a priori não se vê, o que significa que é um movimento interno, esotérico, que passa por todo um processo para que, ao chegar em Escorpião, a gente possa pôr para fora as impurezas. Então é como se em Câncer sementes fossem jogadas, e elas crescessem até chegar em Escorpião e, chegando lá, vem o ceifeiro para separar o trigo do joio; muito do trabalho de ceifa começa em Libra, que rege os rins, por isso que Saturno (o ceifador) se exalta em Libra, para em Escorpião a ceifadora chamada Morte separar e eliminar de vez, por isso pode ser um processo doloroso, de separação do bruto, saindo o joio, a degenerescência, para em Peixes, sendo ele o símbolo da Mente verdadeiramente espiritualizada (se nos olharmos espiritualmente e não no espelho da matéria; com Netuno como oitava superior de Mercúrio), pegarmos o trigo que foi ceifado e, ao invés de ficar comigo, guardá-lo, eu doá-lo aos Outros, fazendo do trigo um Presente, um Dom – que são palavras relacionadas à etimologia do Verbo doar, ou seja, multiplicar os dons, o que significa que é somente ao viver em plenitude todo o zodíaco que verdadeiramente compreendemos, de Mente de Coração e corpos inteiros, íntegros, integralmente, o que é Ser o Pão da Vida, como Cristo nos ensinou e está na Bíblia.

A Poesia do Coração, como, por graça, podemos ver, não é possível de ser aprofundada sozinha, pois ela essencialmente anseia pela companhia, não somente para saborear da Árvore do Bem e do mal, que é do que se come quando ainda Coração e Mente estão separados, mas para, em milagrosa união, ofertar a Água Viva e o pão que pende da Árvore da Vida.

Mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede, Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele fonte de água jorrando para a vida eterna.” [João 4:14]

Pois minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida.” [João 6:55]

Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. …quem come este pão viverá eternamente.” [João 6:57-58]

a Poesia do Pensamento . : . [investigador & arqueiro]

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Lemos na Bíblia, por exemplo, uma das menções ao pensamento mais fortes já feitas: que basta pensar para pecar, sendo que pecar significa literalmente errar o alvo, ou seja, se já em meu pensamento eu posso errar o alvo daquilo que é necessário pensar, errando o ponto, não atingindo o cerne da questão, isso mostra que o pensamento em si é uma possibilidade de manifestação, tal qual soltar uma flecha e acertar um alvo. E se observamos que no físico, como manifestação, nós temos a ação e a reação, e que no emocional, como manifestação, nós temos o sentimento e o ressentimento, no pensamento vemos que nós temos, como manifestação, a produção e a reprodução, como observado também no texto sobre a Poesia da Arte.

Isso nos revela que o pensamento precisa, assim como todas as outras manifestações, da memória para ser ativado. E quando lembramos e chegamos à conclusão de que pensamos o tempo inteiro, que tudo que eu faço há junto uma espécie de voz interior, como um narrador na cabeça, reproduzindo histórias, reproduzindo julgamentos, reproduzindo frases e o que mais seja, inclusive imagens, é preciso observar que essa aparente reprodução de coisas internas – ter imagens e palavras internas todo o tempo – não é de fato um pensar, porque, assim como um gesto real requer uma ação, ao invés de uma reação, assim como uma relação real requer um sentimento, ao invés de um ressentimento, um pensamento real requer uma produção ou creação, ao invés de uma reprodução ou uma recreação, e incluo o recrear-se aqui porque é como crer que só porque eu me divirto ou tenho pensamentos aparentemente leves e inocentes seja um pensar em si, mas o crear não é feito na mente, e sim além dela, contudo uso aqui apenas como figura para melhor ilustrar.

Pensar, verdadeiramente, requer produção no momento em que se pensa. Isso significa que a memória não será acessada para rever maneiras já existentes de se fazer aquilo, mas sim servirá como base para se saber que não se esteve naquela situação antes, mas que também, ao mesmo tempo, não é de maneira aleatória que se pode agir perante aquilo. Em suma, para pensar é preciso, assim como para agir e para sentir, saber que nada se sabe e que ainda não se viveu aquele momento específico, mas que não é qualquer saber e qualquer agir, qualquer pensar, que servirão como base, porque é como fazer novas todas as coisas a cada pensar, contudo, sem que isso destrua a raiz do que seja um pensar genuíno sobre aquele assunto, pois, exemplificando, não é apenas proferindo frases já conhecidas sobre o que é o Amor e também não é deixando de pensar o Amor só porque já se pensou no passado, não havendo nada de novo a se falar, e nem falando qualquer coisa que será Amor de fato, mas sim, a cada vez que se for considerar determinado ‘ponto’ no pensamento, fazer com que ele verdadeiramente seja um ponto que se torne linha pela primeira vez naquele momento, e fazer com que aquela linha de raciocínio ganhe geometria, e assim por diante (como eu falei sobre a construção de um espaço ao falar na Poesia do Ouvir e na Poesia da Personalidade), tudo dentro da capacidade de cada um, e também sem fugir do fato de que pensar sobre qualquer assunto, por mais que seja feito como novo, não está livre de pressupostos, de princípios norteadores –então por um lado a memória esquece e sabe que nada sabe, enquanto por outro ela lembra pela tradição que nos habita, mesmo que conscientemente não se saiba.

Torno a repetir: pensar, verdadeiramente, requer produção no momento em que se pensa. E produzir é guiar para frente e para cima, porque passamos a nos interessar pelo que guardamos no pico de nós mesmos: a mente, em termos físicos, a cabeça. Crear é inventar. Invenção tem sua raiz etimológica em inventio, de invenire, que significa ‘descobrir, achar’, sendo formada por in- ‘em’ e venire ‘vir’. Ou seja, é algo que está ‘a vir’, ‘por vir’. Se eu pressuponho que já chegou, que já está ou já se esteve, não estou inventando nada. A invenção é própria daquilo que está em movimento. Então o verdadeiro pensamento, o verdadeiro sentimento, a verdadeira ação (tudo isso em conjunto) é aquilo que está vindo, aquilo que é em constante recebimento através do espírito.

É preciso distinguir que pensamento não é a mesma coisa que mente, assim como corpo físico não é a mesma coisa que a ação em si. Uma precisa da outra para existir, é certo, são correlatas, mas não equivalentes.

E é claro que, se observarmos mais aproximadamente, veremos que não é a mente que crea, não é o pensamento repetido uma recreação, porque o crear verdadeiro está além da mente, ele vem do espírito – por isso há vidas de seres (humanos) que buscam crear a si mesmos, como se estivessem num laboratório, e outros que buscam a recreação de si mesmos, como se estivessem num parque de diversões. Mas como algumas pessoas não concordarão com o viés espiritual, é possível, como exercício, por um momento, usar essa a creação como “algo surgido da mente”, apenas a título de ampliação das metáforas para compreensão. Ainda que produzir e crear sejam manifestações distintas, porque se dão em instâncias distintas. A produção é vinculada à matéria, a creação, ao espírito –ou seja, o espírito é inventivo enquanto a matéria é fazedora, produtiva/produtora. E claro, sem a prepotência de crer que creamos a nós próprios, eu tenho meu dever junto à creação, mas ela em si não depende apenas de mim, há seres superiores na creação junto de nós, ou seja, há seres espirituais juntos de nós. (Para maiores estudos, recomendo fortemente ler o livro Conceito Rosacruz do Cosmos, escrito por Max Heindel.).

Então, como dito, o pensamento precisa da memória para acontecer, e por o pensamento precisar da memória para ser ativado, compreendemos que há então dois movimentos possíveis distintos, como que dois polos, um negativo e um positivo, na ativação dessa memória e uso dela. Se feita de forma totalmente passiva, inconsciente do uso posterior que darei a ela (porque a intenção não é ser capaz de lembrar de tudo o que já aconteceu, mas sim ser capaz de, sabendo o que aquilo representa, significa, simboliza, eu fazer um uso de apropriação daquela memória), então terei um re-conhecer, eu repito um padrão através da atitude passiva, como ao encontrar um amigo – eu reconheço que é meu amigo e isso traz toda uma carga de julgamento já feita, já analisada e eu o tratarei de acordo com essa carga trazida enquanto reconhecimento memorável e agirei dentro de um padrão esperado, sem me presentificar para novas possibilidades, como a possibilidade daquele amigo ser algo para além do que eu conheço e agir duma forma totalmente nova, inesperada. Essa maneira passiva de se reagir é o que traz ressentimento e reprodução de pensamento, seja para reforçar algo de bom do outro ou algo de ruim. (Para mais, sugiro um texto que já fiz sobre a Poesia da Arte em que falo sobre reação, ressentimento e reprodução.).

Mas apenas para exemplificar, eis um pensamento que é repetição padrão do social: toda vez em que se vê alguém gordo comendo, por exemplo, pensar imediatamente: ‘nossa!’ (com repreensão, independente do grau de repreensão), analogamente isso também ocorre com quem toda vez repete um padrão mental de ver algo bom e reforçar isso, como ver chocolate e imediatamente pensar: ‘gostoso, quero’ (com aprovação), sendo que sabemos que nem todos os chocolates são de fato gostosos. Quem isso acha é porque não tem um paladar apurado. Assim como alguém que reforça um gostar ou não gostar, um xingar, um elogiar apenas baseado na apreensão visual, que é aparente, está longe, bem longe (ao menos naquele momento, ainda que um milagre possa ocorrer na próxima vez) de conseguir pensar.

Por outro lado, se a memória é usada ativamente, sou capaz de me lembrar das informações a respeito do meu amigo, mas me manter numa zona de novo conhecimento, ou seja, de confiança e intimidade com aquele amigo de forma totalmente nova e inusitada, de maneira atenta, presente, assim, se a pessoa age de maneira inusual, eu não me ressinto, mas busco compreender o porquê, busco produzir um pensamento sobre aquela escolha dela (usando a mente de forma ativa), ainda que eu possa discordar ou não sentir empatia pela escolha dela.

É claro que é preciso se atentar ao caminho do meio, sabendo que é somente no equilíbrio do que eu já conheço e espero do meu amigo com a possibilidade dele me surpreender e espantar que se gera realmente um uso passivo junto do ativo, ciente das possibilidades e consciente das imprevisibilidades, que é onde reside o milagre, pois todo milagre é imprevisível.

[A presentificação é a união do repetível – memória e passado -, com o irrepetível – milagre e futuro -, por isso toda memória é, em sua base substancial, coletiva (não em termos formativos, porque esteticamente ela se desenvolve de uma maneira distinta com cada um através das experiências, e isso é intransferível), bem como todo milagre, por isso seremos capazes de milagres, como disse Cristo, mas ainda maiores (com outras formas). Um milagre é imprevisível e irrepetível porque se for, por acaso, refeito, não é milagre, mas magia, fórmula etc.. Ainda que obviamente possam ser similares, estarem sob um mesmo arquétipo.]

Então vemos que a memória se torna como uma ferramenta que eu tenho, uma espécie de disco onde guardo todas as informações – seja de forma fria: apenas armazenando fatos e conclusões objetivas; seja de forma já morna: trabalhando com as probabilidades e generalidades, usando de equações matemáticas um pouco mais avançadas para minha comodidade; e de maneira quente, porque são equações específicas para cada caso que geram calor, e que, portanto, são quentes, então neste aspecto (quente) não trabalharei com probabilidades e generalidades, mas sim com uma equação específica para cada encontro, mas tendemos a evitar essa última opção porque dá muito trabalho, é mais fácil usar de generalizações dos padrões, ou seja, reproduzir de maneira morna o que já foi pensado  – lembrando que a ciência é quente à medida que faz experimentações singulares, mas tende a se tornar morna ao pegar cada experimentação singular e firmar leis com base em regras e exceções, podendo gerar avanço, sim, mas também zonas de conforto, ou mesmo imutabilidades – como quem diz ‘eu sou o medíocre e sempre serei, não há nada a fazer’ porque medíocre é o que está na média, no meio, em vez de descobrir o que é sair da média e ser quente em relação ao seu próprio desenvolvimento, sem que a comparação com o de fora seja um parâmetro fixo, mas sim cardinal, de iniciativa a um movimento também interno. Ou seja, sendo alguém aparentemente morno, mas em verdade quente por estar saindo do ponto médio (morno) de si mesmo.

Contudo, obviamente podemos nos diferenciar das máquinas (na frieza da objetividade) e da massa (na mornidão das generalidades), pois temos a humana capacidade de verdadeiramente usarmos as leis da lógica e da probabilidade para irmos adiante e usar da memória para guardarmos formas – por exemplo, sabermos como se faz uma comida – como pizza, e, presentificadamente, atentamente, sermos capazes de produzir fórmulas – quando me torno capaz de, sabendo a base do prato, sabendo a forma de fazer uma pizza, fazê-la pela primeira vez ao integrar detalhes não antes imaginados – como quem inventa um sabor ou dá um toque do chef, chegando num resultado de maneira única, e ainda sendo reconhecível como uma pizza feita por mim, não porque eu disse, mas porque os outros identificam o sabor característico tanto da pizza quanto do que eu faço, que revela meu saber, sendo que sabor e saber são relacionados (sugiro que leiam o texto sobre a Poesia da Inteligência, Conhecimento e Sabedoria), sendo capaz de produzir um prato de alimentos ordinários, do dia-a-dia, com fórmulas únicas, minhas, intransferíveis – igual comida de vó e de mãe, que ninguém faz igual, ainda que possa haver algo parecido e ser algo simples, como o arroz e feijão de todo dia. Ou seja, somos capazes de fazer isso, com tudo, através de formas e fórmulas, inclusive, e especialmente, com as relações entre pessoas.

Se nós temos o grupinho da balada, o melhor amigo para confessar, o conhecido que convém quando não tenho quem chamar etc., se eu ajo com as pessoas de forma mecânica, setorizando e reconhecendo padrões, probabilidades e as mantendo de maneira estática em grupos que irei tratar apenas de um jeito, então sou uma pessoa morna ou mesmo fria que age, no máximo, como máquina, tratando os outros com o máximo de objetividade. Assim, eu não me abro à possibilidade da surpresa, e não me torno capaz de produzir novas fórmulas com qualquer dos ingredientes que me sejam dados – ou seja, não sou capaz de produzir relações (sejam doces ou amargas) com qualquer pessoa que se me apresente.

Isso tudo mostra que o nosso cérebro em si e a mente (que são duas coisas distintas) e as funções desempenhadas por eles são ferramentas que temos para produzirmos e aprofundarmos nossos próprios pensamentos, ao invés de reproduzi-los o tempo inteiro, como tendemos a fazer ainda. Em suma, para fazer novas todas as coisas na mente a cada pensar, fazer novas todas as coisas no emocional a cada sentir, fazer novas todas as coisas no físico a cada agir.

E pode surgir a pergunta: mas, e as pessoas que nos fazem mal, devemos tratá-las sempre, para sempre, como se fosse a primeira vez? Obviamente que não é assim. Se olharmos, qualquer religião e qualquer tradição, em sua maioria (para não dizer todas), irá dar um prazo para nós, seres humanos, aprendermos a ser melhores (seja lá o que melhor signifique para cada uma). Não temos a eternidade para isso, mas sim um tempo finito para esta tarefa, ainda que sejamos eternos. Assim como a criança tem um período para ser criança e a tratarmos como criança, nós temos um período para agirmos de forma inconsciente e sermos tratados como seres inconscientes do que fazemos, no caso de fazermos coisas ruins uns para com os outros, ainda que em atos pequenos.

Aos poucos tomamos ciência, e depois consciência, sobre as coisas que nos acontecem e que são, por nós, acontecidas. É preciso se atentar ao respeito, em primeiro lugar, sendo que essa palavra literalmente significa ‘um segundo olhar’, então sim, devemos buscar ter um segundo olhar em relação às pessoas, pois é isso que torna possível milagres como assassinos se redimirem e serem verdadeiramente perdoados, tanto na Bíblia, como aconteceu com São Paulo, como na vida real, com familiares das vítimas que buscam realmente uma relação de paz e de novo começo com seus algozes.

Obviamente isso requer sinceridade e inocência nos atos cometidos. Um assassínio pode ser um ato inocente? Sim, pode sim, bem como inconsciente. Nós sabemos disso, nossos antepassados matavam por nada, e isso não significa que estão todos condenados e fim da história – do contrário, não teríamos deixado de ser o literal “homem das cavernas”, que dava paulada e matava a troco de nada – independentemente de cor, etnia ou raça. Contudo, eis uma crucial diferença: há quem saiba da maldade e pratique a maldade pela maldade em si, seja por astúcia (o calor do momento) seja por frieza, como sociopatas e psicopatas, e pessoas que mesmo sem qualquer patologia aparente, escolhem ir por este desvio, escolhendo agir friamente. Então é preciso ter imenso discernimento, porque é preciso aprender a ser respeitoso em relação aos outros (ou seja, ter um segundo olhar acerca dos outros e suas escolhas) sem, contudo, perder a capacidade de discernir o bem do mal, a inocência da ignorância. Eu só ignoro algo do qual tenho conhecimento, já a inocência sequer percebe que havia algo ali, ela pisa na jaca por não ter visto a jaca realmente – ela mata, ela bate, ela age de maneira violenta porque realmente acredita ser o melhor ou acreditar ser a única saída, por não ver a maldade em si no seu ato, mas sim algo de verdadeiro, enquanto a ignorância pisa na jaca porque a viu, mas escolheu ignorar que estava ali – ou seja, sabe que tem algo de errado, mas ignora, e a maldade é o grau maior da ignorância quando, sabendo que há a jaca, sabendo que há algo de errado, que há maldade, vai e pisa de propósito.

E o que tudo isso tem a ver com o pensamento?

Porque a vida muda quando ‘nos damos conta’ de que tudo pode ser diferente. Não é sentir aleatoriamente que pode ser diferente, nem agir aleatoriamente de maneira diferente… mas sim apreender e compreender internamente que é só alterando o processo de como eu penso que posso de fato ver a essência dos acontecimentos, podendo, assim, começar a desenvolver a capacidade de, por graça e milagre, um dia fazer novas todas as coisas.

Pois nossa percepção mental pode mudar: digamos que eu esteja vendo um prédio de 3 andares… se eu estou longe dele (como num avião), eu posso me enganar e eu pensar que é uma casa, loja, galpão etc. porque eu só vejo o teto, por exemplo, contudo, isso ocorre por a minha percepção estar alterada pelo meu lugar no caminho, sendo que isso não faz com que o prédio deixe de ser prédio e se torne outra coisa porque eu assim penso, sinto ou digo. As coisas, fatos e pessoas não se modificam puramente de acordo com nossa percepção individual, mas é a percepção individual que permite conhecer mais a fundo e mais essencialmente as vidas e existências e, a partir daí, da relação, seja da relação das percepções (no caso de duas pessoas) ou da relação da percepção com a coisa em si (no caso de um arquiteto e um prédio), que algo pode mudar.

É importante notar, no entanto, que a causa da mudança, ou seja, a causa do efeito gerado não está apenas em mim, pois isso precisa ser necessariamente dentro de uma relação, porque a causa de um efeito pode estar em mim – que seria eu observar um prédio e achar que é casa, ou em outra figura, eu observar uma pessoa e achar que ela é apenas aquele pequeno pedaço que se apresenta perante mim, e assim sendo porque eu não desenvolvi recursos ainda para ver o prédio tal como ele é, nem a pessoa tal como ela é, porque vejo apenas um pedaço, uma fração. Mas se o efeito existe, que é ver o prédio tal como ele é, inclusive independentemente do tamanho de como ele se apresenta no meu caminho, seja pequeno ou grande, seja de perto ou de longe, mas se a percepção existe, a capacidade de discernimento de que é aquilo é um prédio, e que toda pessoa é mais do que uma personalidade, mas, acima de tudo, um espírito, isso faz com que se apresentem causas superiores, havendo a chance de algo indeterminado, um prédio, uma pessoa, um espírito, se tornar determinado e específico, porque não é apenas pelo fato de ter percepção que eu acesso isso, mas por entrar em relação genuína com aquele Outro que se apresenta e, nesse conhecer interno e íntimo, nessa gnose conjunta (cognoscere), a causa desse conhecer ser derivada de mim em soma com o Outro. É claro que se aprofundarmos o assunto veremos que a causa em si, ao se somar estes dois, emanará de um terceiro superior, que possibilita, por dádiva divina, esse encontro acontecer, porque todo encontro é sustentado por forças e leis superiores às que se harmonizaram naquele momento, como duas notas que só soam e compõem porque há um único instrumento, ou dois ou mais instrumentos que soam e compõem com um único maestro, um único mestre.

Então o pensamento é a capacidade de abstração e de concretização – porque pensar é produzir sons e imagens, agregar ideias; pensar é uma capacidade mental que temos, similar ao respirar ser uma capacidade corporal que temos, inerente e necessária, inevitável, ou seja, vital para o corpo denso. Pensar é vital para a mente, mas assim como não sabemos respirar direito, nós não sabemos pensar. Então nós reproduzimos pensamentos de maneira mecânica, porque pensar é um ato vital, assim como respirar, então o faremos de alguma maneira, ainda que errônea. Claro que não é preciso pensar na mesma constância com que respiramos, são dois atos distintos e, portanto, com formas diferentes de serem postos em ordem, o que significa que eu respiro em intervalos de segundos, mas não preciso literalmente ter um pensamento a cada intervalo de segundos. Aqui, são atos apenas análogos, para usar de uma lógica intrínseca a ambos, porém não idêntica na sua prática, claro.

Aprender a pensar é tão crucial quanto aprender a respirar – não é de qualquer forma que acontece, ainda que vá acontecer por inevitabilidade de reação corporal e reprodução mental porque senão regredimos e tudo falece. Quanto mais temos problemas para pensar, mais podemos observar doenças mentais se manifestarem, porque doenças mentais não é apenas pensar diferente do resto, mas pensar de forma desagregada do resto, ou seja, sem inteligência, sem sabedoria, sem conhecimento, sem conseguir escolher o que se pensa, sem conseguir saborear o que se pensa, sem conseguir ser e estar em união com o que se pensa, tanto que os próprios pensamentos e falas vão se tornando cada vez mais desconexos (de acordo com a gravidade do problema). Eis a crucialidade em aprendermos a dominar a sua prática, assim como é crucial aprender a respirar, ambos os atos caminham muito próximos, pois sabemos também, para quem estuda minimamente os simbolismos dos elementos – água, fogo, ar e terra -, que o ar tem relação simbólica com o intelecto, com o caminho que leva a pensar. Ou seja, quanto mais orquestramos nossa respiração, mais tendemos a ordenar nossa mente.

Claro que não há uma fórmula de ‘respire de um jeito determinado e terás paz, ou te converterás num gênio’, aliás, esse é um grande cuidado que se deve ter em relação a práticas orientais que nos trazem exercícios fortes quanto a alterações de estado através da respiração. Eu não indico isso a ninguém, até porque a prática oriental da respiração está relacionada, em sua raiz, a crenças que precisam ser conhecidas muito a fundo para que o exercício tenha o efeito que promete, pois é como orar sem ter o menor conhecimento religioso e espiritual sobre orações de fato. A chance de se estar jogando fora palavras ao vento, bem como respirando de maneira a apenas enlouquecer a mente, é grande. Então tenhamos cuidado. Mas claro, cada um tem seu livre-arbítrio a ser exercido e não estou aqui e não sou ninguém para negá-lo. Pessoas oram sem o respaldo do aprofundamento religioso, assim como meditam e fazem exercícios respiratórios sem o respaldo de mosteiros. Apenas não recomendo nem uma coisa nem outra, que ajamos sem conhecer as raízes das nossas ações, especialmente quando estão ligadas tão radical e inescapavelmente a tradições.

De toda forma, ter a prática da atenção quanto à forma como respiramos é um princípio para aprendermos, com o tempo, a termos atenção quanto à forma como pensamos. É um caminho similar ao da meditação, mas, como dito, não proponho aqui formas orientais de se fazer, mas sim ocidentais, ou seja, não é preciso parar tudo para meditar, esvaziar a mente, negando os pensamentos, mas vigiá-los ativamente e usá-los ativamente. Aprender a esvaziar a mente pode ser uma ferramenta que auxilia nesse desenvolvimento, claro, mas deixar de desejar, de pensar, de agir no mundo não é a melhor forma de se estabelecer no mundo, por isso o que eu observo aqui vai na contramão da proposta oriental, que seria o caminho da negação; aqui o que observamos é o caminho da aceitação: em que eu aceito as ações, aceito os desejos, aceito os pensamentos, mas aceito sob a observação constante e o discernimento.

Por isso não é deixar de pensar, mas sim pensar acertando o alvo, ter uma mira, um foco absurdamente treinado, eis o desafio que vemos quando retomamos a fala do pensar ‘ser o estado de pecado’ por se errar.

E quantas vezes dizemos algo que na nossa mente parecia brilhante e ao sair de nossa boca chega no outro de maneira opaca, até mesmo quebrada, em pedaços, ou sequer chega no outro, como uma flecha que cai no meio do caminho, e terminamos incompreendidos…

É através da (por meio da) mente que se dá a integração total do ser. Sem ela, nos tornamos reféns de atos, sentimentos e pensamentos repetidos, ficamos presos nas mesmas reações, ressentimento e reproduções mentais como ratos numa roda, nos tornamos reféns das mesmas situações que se repetem em círculos para que tenhamos a chance de acordar e nos darmos conta de que é preciso ativamente pensar na próxima vez em que aquilo acontecer.

No livro Conceito Rosacruz do Cosmos seu autor, Max Heindel, nos brinda com uma passagem a respeito de como tudo tem seu início no pensamento: quando vemos um homem dando um soco em outro homem, sabemos que a mão de um atingiu o corpo do outro, mas que ela não agiu deliberadamente, veio antes de um impulso desejoso de ferir que, em sua raiz, partiu de um pensamento de ódio. Com isso, vemos como tudo toma forma no pensamento antes de se tornar ação ou reação, porque mesmo o desejo precisa da mente para ganhar manifestação ciente, lapidada, do contrário reagimos de acordo com os desejos, e os outros até mesmo podem ver que ‘agimos sem pensar’ porque a reação em si se torna evidentemente oposta a uma forma emancipada de ação, ou seja, agir tendo o desejo como instrumento é inferior que agir tendo, antes do desejo, o pensamento como maestro. É claro que a mente é como a organização disso num todo, um maestro por si só não sabe o que fazer e irá reger de maneira aleatória e louca se ele não tiver uma partitura a que seguir, ou seja, a mente é a partitura, sendo que quem inventa a partitura, quem crea a partitura é o espírito que está além da mente, ele crea a partitura e ela é usada como base para que o pensamento seja o maestro que orquestra tudo isso, todos os instrumentos e, por sua vez, o som que sai deles através dos músicos que agem, que são as ações.

Então o ato de pensar em si não precisa ser feito toda hora, acerca de tudo, mas sim especialmente nas relações que se repetem – seja repetição de atos, repetições de sentimentos ou repetições de pensamentos em si mesmos.

Se observarmos como o pensamento é a nossa possibilidade de errar e de acertar, de focar em algo ou desfocar algo, de aproximar ou distanciar, podemos ver que a mente é análoga a uma lupa, um ponto onde eu foco (sendo ele o pensamento) uma luz, um olhar, bem como análoga a um arco, criando uma tensão que possibilita impulsionar a flecha (sendo ela o pensamento) com energia atingindo um alvo, sendo que a lupa põe fogo em algo – no caso da lupa, um lado dela aproxima e o outro distancia, mostrando que a mente também não deve ser usada de qualquer jeito, bem como sendo possível usá-la para ver melhor as coisas ou desnortear-nos, nos afastando do que observamos.

Se o pensar se diferencia da mente, podemos também observar como a mente é análoga ao corpo físico, e, assim como nos mantemos fisicamente através da comida, podemos dizer que mantemos nossa mente através dos pensamentos que temos, o que significa também que é possível ter pensamentos que nos constipem, que causem diarreia mental, que nos adoentem e que nos curem, sendo tão primordial escolher o que se pensa quanto o que se come. Ou seja, além de estar relacionado com o elemento ar, também se relaciona com o elemento terra sob esse belo aspecto. E a ciência corrobora ao nos mostrar que o intestino tem neurônios e mantém uma relação íntima com o cérebro – local em que grande parte dos nossos pensamentos (alimentos mentais) são digeridos.

Pensar significa ‘formar uma ideia’. Sua vinda do Latim, originalmente como pensare, trazia junto a si o verbo pendere, querendo dizer em sua raiz um ‘pendurar para avaliar o peso de um objeto’. Em espanhol, pienso significava ‘vegetais secos para alimentar o gado’ (toda a etimologia que trato nesses textos podem ser encontradas facilmente no site http://origemdapalavra.com.br, que faz um trabalho sério e confiável). Assim sendo, temos o verbo pensar também se referindo a uma forma de alimentar-se, que no português chegou como ‘tratar, curar’, pois os alimentos são a forma de tratar a saúde, curando a doença. Ou seja, por fim, pensar também tem o sentido de ‘curativo’ no português e no francês, enquanto no espanhol permaneceu junto ao alimentar. Então observemos como pensar constituía tanto a possibilidade de pesar algo, abrindo brechas para haver dois pesos e duas medidas, bem como sendo potencialmente também um alimento, uma cura, um tratamento para se obter o próprio equilíbrio não estabelecido ou perdido.

E como escolher o que pensar? Assim como escolhemos nossa comida indo a um determinado restaurante, mercado, quitanda, podemos aprender a escolher nossos pensamentos através do que lemos, ouvimos, falamos, estudamos, porque tudo o que entra em nós está, de alguma forma, alimentando nossa mente, inclusive o próprio alimento físico, porque eu o escolho através do que penso antes e depois de comer, reforçando ou não a minha escolha na próxima vez.

Assim sendo, se torna importante questionar: será então que só é possível pensar de fato a respeito de algo que eu já vivi e torno a viver, ou seja, será que um pensamento só é gerado a partir de uma segunda experiência pela oportunidade da reincidência? Porque é como comer algo pela primeira vez, não posso saber se gosto ou não, se me fará bem ou mal comer, ou seja, não tem como sentir ou pensar algo sobre aquela comida senão comendo pela primeira vez, ou seja, talvez o pensamento só exista de fato se eu sou capaz de viver o que penso, estando o viver para além de apenas imaginar, mas conectado ao sentir e ao agir, sendo uma tríade ao atuar.

É importante, no entanto, ressaltar que o pensamento, o sentimento e a ação não precisam ser exatamente iguais, eu não preciso viver todos os tipos universais de situação para pensar sobre cada um, basta que eu vivencie situações que estão sob o mesmo arquétipo, sob o mesmo simbolismo elementar, para aprender a pensar sobre aquela determinada ação, sentimento ou pensamento sem que eu tenha que agir, sentir ou pensar de forma idêntica. Basta estar sob a mesma lógica para se aprender, aos poucos, a lidar com as formas análogas.

Pois a vida nos ensina a traçar parâmetros, princípios: se eu não gosto de doce, posso evitar comer qualquer tipo de doce, porque sei da minha tendência a não gostar, logo, sei que há certos tipos de pensamentos que me farão mal por já ter uma experiência geral dentro do mesmo parâmetro (sempre lembrando de se ter cuidado para a generalidade não virar mornidão da escolha, zona de conforto, e deixar de comer por julgamento generalizante). Assim, vemos a diferença radical entre julgamento e pensamento, pois se eu julgo, eu estou fora daquela experiência que eu julgo, e, por isso, não é um pensamento original o que eu produzo, mas sim uma reprodução, um pré-conceito que eu tenho a respeito de algo que não conheço verdadeiramente, ou julgo conhecer – eu reproduzo pensamentos e sentimentos alheios sobre o que é o sabor doce, reagindo ao doce como os outros inclusive, ao invés de simplesmente me permitir conhecer por mim mesmo, seja para gostar ou não gostar de um doce específico, conhecer em seu sentido original de ter uma relação íntima, um contato íntimo com o que se me apresenta. E se eu não gosto de doce, eu sei que não preciso xingar o doce para justificar isso, eu apenas não gosto, e isso não pressupõe um julgamento de bom ou ruim, de nojo ou qualquer reação que seja.

Mas isso também não nega o discernimento em sabermos que há certos tipos de coisas que simplesmente até podem ser ingeridas, mas não são comidas, não devem ser postas para dentro, como venenos, ou mesmo um alimento já podre – você pode comer, mas não deveria. Isso revela que o pensar também tem a peculiaridade de aprendermos a discernir os pensamentos dos julgamentos, bem como os pensamentos bons dos ruins: há coisas que comemos que julgamos nos dar saúde e vida quando na verdade são alimentos falsos, mortos, seja por aprendermos que não devemos nos alimentar de carne morta, seja por aprendermos que quanto mais industrializado um alimento for, mais morto ele também está, ainda que, claro, haja tempo de tudo, inclusive de comer carne e de precisar de alimentos industrializados, pois a tecnologia em si não é nossa rival, contudo não devemos deixar nas mãos dela a nossa Vida, a nossa vitalidade, só isso – o similar a isso na mente é deixar que as máquinas “pensem” por nós. Quanto mais dependemos de coisas fáceis – alimentos fáceis, sentimentos fáceis, pensamentos fáceis, tudo enlatado, tudo morto, tudo tecnicamente embalado -, mais estaremos enganando a nós próprios a longo prazo, porque, afinal, como serve para nos mostrar a lei do mais forte, Darwin deixou claro que quem cresce na matéria é quem domina as dificuldades, que vence quem é capaz de obter os melhores alimentos, melhores condições gerais, e, por que não?, melhores pensamentos.

O que Darwin não aceitou foi o fato de que o melhor materialmente falando nem sempre é o que nos aparenta ser melhor, pois as aparências enganam. Então podemos julgar que pensar algo ou não pensar algo pode ser bom. Mas será? Para aprender a pensar direito é preciso antes desenvolver o discernimento, pois ele que permitirá saber se preciso passar pela experiência de experimentar para saber o sabor, ou simplesmente não saborear, como por exemplo não precisarmos provar algo podre na vida para saber como será, a experiência do cheiro podre evita que ela venha a se prolongar a um sentido mais – mas ainda assim o saber pelo olfato se dá pelo experimentar (experimentar olfativo, sendo desnecessário um experimentar palatável). O discernimento faz com que seja possível evitar experimentar certos tipos de pensamentos, assim como certos tipos de pensamentos demonstram ser possível evitar certos tipos de experiências na fisicalidade, e mesmo na emocionalidade.

Assim como no arco há uma flecha a ser lançada, assim como na lupa há um fogo, um calor superior a ser concentrado, sendo que até mesmo os olhos são fontes de calor, logo podemos ver que a mente, enquanto ferramenta, também possui uma fonte subjetiva a ser objetivada, a ser focalizada para que possamos ver, porque a lente amplia ou diminui algo, assim como produz fogo a partir de um calor que não vemos, uma luz que não era manifestada como fogo até aquele momento, assim como compreendemos que não é a flecha nem o arco que veem o alvo, mas um outro ser, que os segura. Então seguindo essa lógica, devemos nos perguntar: será que analogamente há algo superior à nossa mente, algo que eu não vejo de maneira manifesta normalmente? Porque eu, corpo, desejos, mente, eu-personalidade, sou como o arco e julgo que sou eu que possuo a flecha, bem como passo a acreditar que eu sou o suporte da lente, ou ainda que eu sou a mão que segura o suporte da lente, e fico acreditando também que, por calor sair dos meus olhos e de outros membros, o fogo foi feito pela concentração da quentura deles… o que são, em ambos os casos, apenas falácias.

Sabemos que na verdade é o calor e a luz do sol que se converte no fogo que vemos, assim como a mente também focaliza através de nossos olhos espirituais, mas não é deles que vêm a luz e o calor que faz com que as coisas aqui no plano físico se manifestem, em atrito com nosso corpo físico ao gerarmos movimento. Há um ser superior que nos dá verdadeira complementariedade e suporte para que, um dia, quem sabe, sejamos capazes do mesmo. Ou seja, a mente sequer focaliza os olhos espirituais, mas sim o calor e luz de Deus. Os olhos espirituais apenas direcionam, afinal, não se forma fogo na sombra.

Contudo, é preciso compreender que, assim como o sabor não está na boca, mas na fruta em si mesma, ainda assim, a boca só sentirá o sabor, bem como nós só apreenderemos o saber, ou seja, ele só se tornará manifesto como pensamento (tal qual sabor que é manifesto como gosto), se houver ferramentas apropriadas para isso e se ela tiver um desenvolvimento adequado, não bastando crer que qualquer coisa que se sinta na boca seja um sabor de fato, bem como achando que qualquer coisa manifestada na mente seja um saber, uma ideia, um pensamento e por aí vai.

É preciso se questionar também: se o corpo físico nós conhecemos através dos cinco sentidos, se ao nosso corpo emocional nós conhecemos através dos sentimentos, se nossa mente nós conhecemos através dos pensamentos, será que, em semelhança ao corpo físico, terá a mente e este corpo emocional outros sentidos que ainda não sabemos nomear, ou sequer sabemos que existem? Será que a mente faz mais do que apenas pensar, assim como o corpo faz mais do que apenas degustar, ou apenas ouvir, ou apenas ver, ou apenas tatear, ou apenas cheirar? Ou o pensar é uma possibilidade que se divide em outras, assim como sentir se divide em sentir com a pele, com o ouvido, com o nariz, com a boca e com os olhos?

A criança nasce, idealmente, com os cinco sentidos, mas os desenvolve de maneira gradual e distinta à medida que cresce. Qualquer mínimo conhecimento teórico sobre psicologia veremos que existem diferentes fases com diferentes características sobre um maior foco em determinado sentido, levando à integração ideal dos mesmos – auditivo, visual, tátil, olfativo e palatável, com o tempo. Talvez com a mente seja a mesma coisa, desenvolvamos capacidades distintas dela em cada fase da vida, mas, sabendo que uma criança não é capaz de produzir pensamentos, ainda que elas naturalmente possam saber constatar a filosofia da vida, assim como enquanto adultos também demoramos para amadurecer realmente (muitos inclusive se mantendo imaturos para aparentarem ser mais novos), se torna de grande valor viver o máximo de anos e envelhecer com saúde para que possamos, após o alcance dessa maturidade interna (cada um em seu grau de madurez), finalmente desenvolvermos os diversos sentidos da mente – se é que ela possui mais de um, pois o próprio produzir um pensamento, a própria capacidade de pensar é, em si, um desafio para a vida inteira.

É preciso atentarmos também para o fato de que, assim como existe a maneira certa de se usar um músculo, articulação e membro do corpo, assim como existe a maneira certa de sentir determinado sentimento e não haver confusão entre sentimentos, havendo também uma maneira adequada de se direcionar os sentimentos, ou seja, assim como para caminhar há que ser um pé após o outro, porque se forem ambos ao mesmo tempo será pular e não caminhar, muda a ação (ainda que ambas possam locomover e fazer ir para frente), e assim como um sofrimento não é uma demonstração de amor, ainda que uma pessoa possa aprender a se amar a partir de uma experiência dolorosa – pois é possível aprender a se amar a partir de uma tragédia, o que não quer dizer que uma tragédia seja demonstração de amor (por isso Deus permite que usemos de nosso livre-arbítrio caso escolhamos sofrer e fazer sofrer – é na liberdade que Ele nos dá que reside Seu Amor -, mas não é Ele quem nos faz sofrer), assim também existe uma maneira correta de se pensar, existe uma forma adequada e que convém ao se usar a mente e se articular os pensamentos, ou seja, não é de qualquer maneira que se pensa.

A conexão de determinados pensamentos, como articulamos eles, significa que se está rastejando com eles, ou pulando, ou andando, ou correndo, ou inclusive voando, então existe sim uma forma correta de se pensar, uma forma adequada e uma inadequada, isso não quer dizer que se deva extinguir quem pensa da maneira inadequada, não apropriada, porque eu posso caminhar com os pés tortos, por mais que isso vá causar deformações no meu corpo a curto ou longo prazo, mas nem tudo convém. Então é possível fazer uma caminhada, seja por minutos ou horas, com os pés intencionalmente tortos, caso eu não os tenha naturalmente tortos, mas não significa que convém, que seja a melhor maneira de o fazer (porque caso eu os tenha naturalmente tortos, eu, inclusive, provavelmente procurarei médicos e maneiras terapêuticas de melhorar a condição ou minimamente evitar que se agrave, o que mostra que até para andar torto há uma maneira mais adequada), e isso tudo não significa extinguir pessoas que caminhem com os pés tortos, bem como nem quem pensa torto, o cuidado que devemos ter é com quem sabe que causa deformações andar torto, pensar torto, e, ainda assim, insiste em assim fazer e, pior, em assim ensinar os outros.

Aprender o movimento correto, seja do corpo físico, seja do emocional, seja da mente, é essencial e crucial – lembrando que o dito correto é de acordo com as singularidades: para uns o movimento correto de andar será sobre uma cadeira de rodas, para outros será com os pés naturalmente tortos, com muletas, com gesso, outros inclusive amputados, e por aí vai – mas todos buscando andar sem que maiores danos sejam causados, porque sempre procurar melhorar a forma como se anda é a essência do que se chamaria correto. Assim sendo, há formas de se pensar que não convêm, há formas de se formalizar coisas, concretizar coisas mentais que não convêm. Não é necessário ler a Bíblia e acreditar que ‘pensar é pecar’, está para além da Religião, é questão Científica e Artística, de Lógica e Analogia. Não requer uma crença pessoal para que isso seja verdadeiro.

Pensar é de uma responsabilidade imensa!

Quando eu aprendo que existe uma maneira certa, adequada de usar minhas mãos, pés, olhos, boca, enfim, cada parte do corpo fisicamente, quando eu aprendo isso em uma totalidade verdadeiramente integrada, eu possibilito que todo o aprendizado que eu tiver dos meus sentimentos também se materialize de forma mais clara. Então compreenderei que tem gestos que são mais adequados, que convêm para demonstrar amor, carinho, e outros que são relacionados à demonstração de ódio, rancor, e que não há como confundir um com o outro – a priori, pois já falamos sobre a inocência de um ato violento e isso altera o que as aparências mostram.

Mas quando eu organizo meu corpo emocional, meus sentimentos, eu também passo a compreender que têm sentimentos que convêm em determinados momentos e outros que não convêm, que o ódio não convém, por exemplo, mas que oposição, divergência podem convir, porque deixar de odiar as coisas não significa se conformar com as coisas deformadas. Claro que com o tempo aprendemos também que basta nossa posição, e não necessariamente oposição, para mudarmos algo, pois basta ser onde estamos – isso faz com que aos poucos as coisas deformadas ganhem formas apropriadas, porque agir por posição é diferente de agir por oposição. Então começamos a compreender e discernir os diversos sentimentos e as nuances emocionais, as possibilidades de movimentos emocionais que nós temos, assim como convém amar a todos, mas não convém sentir tesão por qualquer um ou se apaixonar por qualquer um, por exemplo.

Começamos a ver que sentimentos e pensamentos que muitas vezes são confusos para nós, enquanto sociedade, têm uma clara distinção entre eles, assim como mover meu dedinho mindinho é completamente distinto de mover meu dedão, meu polegar, ainda que ambos estejam em minhas mãos e o movimento seja inclusive similar, indo para frente e para trás, mas sendo duas coisas distintas.

Pensamentos que relativizam tudo, que partem da base do relativismo absoluto, equivalem a achar que qualquer movimento é caminhar para frente, mover para frente, quando fisicamente sabemos que não, é nítido que não. Mas como não conseguimos ainda ver os pensamentos achamos que com eles é diferente, é relativo, porque se os víssemos, veríamos que há distinções e nuances. E, ainda que a aparência engane, ela ao menos ensina sobre não podermos relativizar todas as coisas de maneira caótica e generalizante.

Podemos relativizar que um corpo está indo para frente se usamos como parâmetro outro corpo que se move para trás, mas se deixamos de lado as retóricas astuciosas que nos fazem tropeçar ou andar em círculos através de sofismas, assim como somos capazes de constatar que alguém parado é alguém parado e ponto, há certas maneiras de se pensar que são estagnações e ponto, não se caminha, porque o caminhar, aliás qualquer movimento, é de responsabilidade do Indivíduo – por isso não há como relativizar através de um Outro corpo, através de um Tu. A pessoa pode estar observando algo, vendo uma paisagem, alguém estar caminhando para trás do lado dela, isso não significa que ela esteja caminhando literalmente, nem que algo aconteça no pensamento dela, que o pensamento dela esteja em ação só porque ele reproduz figuras ou sons mentais e o que seja, não está, é passivo. E não confundamos com o passivo-ativo ou ativo-passivo – sem entrar na questão de que parar é uma ação, portanto um mover-se metafórico, eu falo da preguiça, da estagnação, da morbidez daquele que é só passivo, nulo, assim como uma pessoa literalmente parada não anda, ela pode estar tomando fôlego para andar, então pode ser crucial ela parar para continuar a andar, mas estar parado não é andar. Ponto.

Então podemos ver que um corpo físico bem estruturado é um corpo emocional que também se estrutura e ganha clareza de manifestação do campo físico, e um corpo emocional bem estruturado é a possibilidade de melhor estruturar os pensamentos, a mente, e manifestar isso de maneira muito mais adequada através dos sentimentos que por sua vez se manifestarão através das ações.

E quando tenho os pensamentos também organizados eu consigo finalmente ver que há pensamentos que convêm e outros que não convêm, e há movimentos que são falsos também na mente, que são julgamentos errôneos que fazemos quanto a acharmos que estamos pensando, quando, na verdade, estamos totalmente estagnados em pensamento, ou reproduzindo, andando em círculos.

Outra questão que vemos surgir é: se o corpo humano físico tem um padrão ao ser, mas ainda assim possui, cada um, uma combinação própria e singular de manifestação, e assim como os sentimentos são gerais, mas cada um sente de tal forma que não há palavras para descrever e igualar a experiência dentro do outro, mas apenas conhecê-las a partir de uma vivência similar, contudo interna e única, intransferível, ainda que comungável (como pode acontecer em um abraço, ou quando transamos na intenção de fazer amor (caso ambas as pessoas se encontrem indo para as mesmas pulsações emocionais, claro)), terá a mente também semelhança enquanto mecanismo total, mas singularidade enquanto produção individual? Isso significaria, quando todos forem conscientes de como alinhar todos esses campos, corpos, realidades que vivemos, que cada um terá uma forma de pensar, ainda que os pensamentos em si nos sejam gerais – assim como sentimentos nos são gerais, mas únicas as formas de os sentir.

Então busquemos a forma que nos faz singular dentro dessa igualdade que a todos já é dada como graça benevolente. Porque para encontrar a minha forma única de produzir pensamento, de pensar, preciso antes ter uma forma única de caminhar, de me mover, de dançar, de agir com o corpo físico, assim como uma forma única de sentir e me emocionar.

Quando nos deixamos levar por correntes de reações em massa e emocionalismos genéricos, igual à massa, estamos a reproduzir pensamentos alheios, e estamos longe de estarmos e sermos em plena consciência de nós mesmos. Nada contra o grupo, a manifestação popular enquanto unidade, mas creio que isso tudo nos mostra que ela talvez só seja possível com todos como indivíduos singulares – o que ainda não somos -, e não como cópias indistinguíveis uns dos outros em profundidade, como pretendem muitos movimentos coletivistas, aliás, e como pretendem falas humanistas de ‘somos todos iguais, somos todos humanos’.

Aprender a agir, a sentir e a produzir, ou pensar, dá trabalho, pois não basta estar no mundo para que isso de dê de forma ativa. É verdade que passivamente agimos, passivamente sentimos, passivamente pensamos, mas para quem vai observando com mais discernimento, isso tudo passa a ser claramente uma reação, um ressentimento e uma reprodução, porque não estamos ativamente escolhendo como agir, como sentir e como produzir, pensar.

Se hoje ainda erramos em nossos atos, sempre tão falhos, se erramos ao sentir algo indevido – desde atração por alguém que “não deveríamos”, vontade de comer o que nos fará mal, vontade de se matar quando deveríamos prezar o Ser Vivo, imagina o quanto não erramos ao achar que pensamos, ao reproduzirmos pensamentos que sequer sabemos de onde vêm e para onde vão…?

Porque assim como todo ato é direcionado a alguém ou a algum objeto ou meta, assim como todo sentimento é também em relação a algo ou alguém, os pensamentos também têm destinatários certos, e estamos nos enviando pensamentos aleatórios e repetidos o tempo inteiro.

Se o mundo já é caótico em termos das ações e reações que conseguimos ver, pois podemos ver as coisas acontecendo fisicamente, se víssemos os sentimentos de todos e os pensamentos de todos, tal como vemos a matéria química, com certeza nos assustaríamos porque eles são mais caóticos ainda, e os do pensamento então, nem se fale, trevas puras com a pouca claridade de alguns raios. Se já nos agredimos fisicamente, em sentimentos e em pensamentos nos agredimos mais ainda e estamos ainda mais perdidos.

Agora, claro que podemos escolher ativamente focar em ver as ações boas – não ignorando ou reprimindo as ruins, mas fazendo com que as boas sejam o foco, tenham maior peso, ainda que sendo em menor quantidade, mas superiores em qualidade -, assim como é crucial focarmos em sentirmos sentimentos elevados, bem como produzirmos pensamentos castos – castos no sentido de ‘sem exorbitantes maquinações’, pois ficar maquinando mil pensamentos nos agride tanto quanto ficar comendo como glutão até vomitar, ou se alimentando de raiva, ódio, mágoa e qualquer sentimento, eufórico inclusive, que surge como ressentimento e ficar dando soco ou beijos em parede ou em qualquer um ou coisa que passa…

Por isso não é deixar de pensar, como pretendem muitas meditações, ainda que seja um bom exercício para desligar as maquinações, mas sim transformar as grandes máquinas em humildes brinquedos, joias, peças delicadas, ativamente modificando nossa forma enquanto seres.

Por isso é preciso tratar todas essas instâncias como pedras brutas a serem lapidadas, metais a serem purificados, como antigamente os alquimistas falavam de tornar o chumbo ouro. Como os astrólogos falam sobre solarizar o nosso mapa. E como eu devo, posso e quero dizer com tudo isso que: devemos nos cristificar a cada passo.

A realidade é que a Poesia do Pensamento é belíssima, mas ainda acessível a poucos. Enquanto isso, miremos melhor a nossa flecha, nos permitamos tempo para observar, focar, discernir e, sem esforço, acertar o alvo com uma precisão maior cada vez mais, pois sabemos, pela arte esportiva do arco e flecha, e qualquer outro exercício que requeira acertar um ponto específico, que é somente ao começarmos a praticar a concentração sem esforço que passamos a de fato acertar, como num passe de mágica… sem pretensões, sem intenções, sem exibicionismo, sem vaidade, apenas no dever de quem sabe que ainda tem muito o que aprender e deseja humildemente se tornar alguém minimamente melhor, não na imagem monótona de um céu celeste no qual todos tocam harpa e nada mais se faz, mas na atividade poética de quem Crea, Produz, Sente e Age em Paz!