Estrelas Atropeladas

 

Estrelas Atropeladas

Le Tícia Conde

ATO ÚNICO

 

Cena I

[A cadela de um homem de rua acaba de ser atropelada. Ele chora. Uma moça entra no palco.]

 

Ela – Moço, você está bem? Você tá com as mãos sujas de sangue, quer ajuda? Eu tenho uma toalha aqui (quando bate a toalha no ar, Ele nota sua presença.).

Ele – Oi?! (Enxuga as lágrimas).

– Você está bem? Eu posso te limpar? Eu tenho essa toalha, ela está um pouco usada, mas não tá suja não, viu? Licença. (Se aproxima e limpa o rosto e as mãos de sangue).

– Você viu? Por quê? Por que fizeram isso? Ele passou com a caminhonete em cima dela e foi embora, nem freou, nada. Minha melhor amiga, atropelada. Eu não tenho mais nada. Ela era minha única companhia. E agora olha, toda estrebuchada.

– Eu sinto muito mesmo. (Silêncio) Tem algo que eu possa fazer por você?

– Tem nada não. Pode ir embora. Obrigado.

– Você não quer ajuda?

– Ela já morreu. De que adianta ajudar uma cachorra morta?

– Eu quero dizer, quer ajuda pra enterrar ela?

– Enterrar? Eu nem pensei nisso.

– Eu posso te acompanhar, se quiser.

– Onde?

– Ué, não tem um local onde você gostaria de enterrá-la? Uma praça, sei lá, talvez algum terreno baldio específico?

– Nunca pensei nisso não, moça.

– É, normalmente a gente só pensa nessas coisas quando acontece algum dia.

– Não, eu penso na morte todo dia, eu só não pensei no que fazer com um corpo. Afinal, se eu morro, quem tem que se preocupar com meu corpo são os outros.

– Os outros deveriam se preocupar com seu corpo enquanto você está vivo. Tá com fome?

– A fome sempre está, mas nem sempre a gente sente ela.

– Quer um lanche? Eu posso comprar o que você quiser comer. Um salgado, um hambúrguer, cachorro-quente, quer dizer, cachorro não, desculpe.

– Não precisa, eu não como bicho.

– Você é vegetariano?

– Eu sou!

– Nossa, você mora na rua e ainda escolhe o que vai comer?

– Como sabe que eu moro na rua?

– Ah, dá pra ver.

– É? Me conta, o que mais você vê?

– Eu, eu… desculpe, eu não vejo nada não.

– Você vê que eu sou pobre e daí acha que moro na rua, mas isso não significa que eu coma qualquer coisa. Se você come qualquer coisa mesmo podendo escolher, talvez a pobreza esteja em você.

– Eu tenho o direito de escolher comer o que eu quiser.

– Sim, claro, por ter dinheiro você tem direito de escolher comer porcaria. Mas não deveria. Então, vamos?

– Onde você quer enterrar ela?

– …eu não sei… acho que quero enterrar ela onde a gente se conheceu.

– Eu estou de carro, a gente pode colocar ela no porta-malas e…

– De jeito nenhum. A gente vai andando!

– Mas eu tenho carro, a gente pode ir…

– Não. Não tem discussão. Ela não vai em porta-malas nenhum, não, é andando. Eu não entro em carro não.

– É só que de carro economiza tempo.

– Você está disposta a gastar combustível comigo, gastar com comida, mas não quer gastar teu tempo, é isso?

– Eu só quero ser prática.

– Prático é estar morto. A morta aqui é você ou minha cachorra?

– De onde você tira essas coisas?

– Eu não sei, eu invento. E então: vai comigo ou não? Você não confia em mim, né? Tudo bem. Eu vou sozinho mesmo. Obrigado pela ideia de enterrar ela, foi você quem inventou essa.

– Não, é normal enterrar quem morre. Não tem nada de meu nisso.

– Olha, ir de carro é tão perigoso quanto ir a pé, eu poderia te assaltar e levar ele. Mas não vou, tá? Precisa ficar com essa cara não. E caminhando você está comigo, ninguém vai te assaltar estando com alguém como eu. Qualquer coisa eu falo que o assalto já é meu.

– Contra a lógica não há argumentos.

– E você não é obrigada a nada.

– Não mesmo!

– Mas se ofereceu pra ir enterrar ela, por isso tô convidando. Quem plantou a ideia foi você, ela cresceu e eu tô ceifando.

– Tá o quê?

– Ceifando. Ceifar, ceifar de colher. É um verbo tão bonito. Vem do árabe.

– Como você sabe?

– As ruas hoje estão cheias de imigrantes. A gente aprende alguma coisa se misturando, não acha?

– Não sei.

– Você não sabe se misturar é bom ou não?

– É, olha o que a mistura fez aqui: um racismo silencioso nesse país.

– E você é dessas que acredita que tem que ser preto prum canto e branco pro outro lado?

– Eu não quis dizer isso. É só que a mistura também gera coisas ruins.

– E o puritanismo não?

– Também. Mas tem raça e cultura que a gente tem que preservar.

– Você sabe o que significa a palavra crime?

– Algo de ruim, antiético, imoral que a gente faz, contra as leis, enfim.

– Crime vem do latim cernere, que significa ‘escolher, decidir, separar’, a origem dela tem relação com ‘peneirar, discriminar, distinguir’.

– Interessante. … E daí?

– E daí que cada vez que a gente separa, discrimina, cria distinções, a gente comete um crime, mesmo sem estar na lei: está na palavra!

Cernereme lembra discernir. (Pega o celular) Sim, dis – para fora, e cernere – peneirar, distinguir, separar.

– Você vê? Entre discernir e cometer um crime há uma linha tênue separando. E aí, já fez a tua escolha?

– Eu… eu vou com você andando. Você venceu.

– Não se trata de vencer, menina, e sim de enterrar minha melhor amiga, mas obrigado.

 

Cena II


Ela
– E para onde estamos indo?

Ele – Pra onde eu e ela nos encontramos pela primeira vez.

– Como ela chamava?

– Sírius.

– Tem uma estrela com esse nome, né?

– Tem sim, duas: Sírius A e Sírius B, elas andam juntas. É o que chamam estrela binária. A distância entre uma e outra é como do Sol até Urano. Elas brilham pra caralho!

– E por que você deu esse nome pra ela?

– Porque eu encontrei ela na Mato Grosso quando eu via um livro sobre estrelas da bandeira do Brasil.

– Pera, você disse que a gente ia enterrar ela onde se conheceram. A gente vai até o Mato Grosso andando?

– Mato Grosso é uma rua, menina!

– Ah… e o que a bandeira do Brasil tem a ver com isso?

– É que na bandeira cada estado é representado por uma estrela, e a Sírius representa o Mato Grosso, aí achei bonito colocar o nome dela de Sírius com a gente se encontrando na rua Mato Grosso, cê não acha? Coincidência pra caralho.

– O nome do encontro de várias coincidências é sincronicidade.

– Sincronicidade. Vou lembrar da próxima vez.

– E o teu nome? Nem perguntei, desculpa.

– Leticiel, prazer. E o teu?

– Júnior…

– Júnior não é nome de homem?

– É, e daí?

– Não, nada. Mas você é menina, né?

– Isso de gênero não tá com nada. Eu posso ser homem e você não saber, ainda.

– E você é?

– Não.

– Júnior por que então?

– Pra bagunçar a cabeça da sociedade. Que foi?

– Nada.

– Fala…

– Nada, é só que… na rua a gente conhece todo tipo de gente, sabe, e eu já conheci pessoas trans – é trans que fala né?, mas eu nunca tinha conhecido alguém que escolhe isso de propósito, só pra bagunçar a sociedade. Até onde eu saiba é porque nasce assim e ponto.

– Sim, é. Mas eu também acho que eu tenho a obrigação de fazer algo pra chamar a atenção pro preconceito enraizado, sabe?

– Você não é obrigada a nada, lembra?

– Sim, não. É que… é minha responsabilidade também, né. (Blackout) O que aconteceu?

– Sempre acaba a luz por aqui. Normal. Fala mais sobre essa responsabilidade aí de se chamar Júnior…

– É que eu acredito que nós somos responsáveis por mudar as coisas, sabe? Se eu faço diferente eu posso ser um exemplo pro coletivo pra aprenderem que as coisas podem e vão ser diferentes.

– Escuta, olha bem pra essa escuridão. Consegue ver alguma coisa? Eu posso te estuprar aqui, agora. E aí eu te pergunto: por que eu não te estupro? Você acha que eu escolho não te estuprar pra ser um exemplo pros homens? Quem está vendo eu ser um exemplo?

– Eu estou vendo. Eu ver importa, não? Mesmo que outros achem que você é perigoso por ser pobre, homem e tudo mais, eu vou ser sempre testemunha de que você é alguém que escolheu ser bom afinal. (Silêncio). Você tá aí?

– Sim. Você tem razão. Importa os outros enxergarem, mesmo sendo 1.

– Sim, importa, olha o céu, está cheio de estrelas. Elas brilham mesmo que ninguém veja. Todas brilham, parecem iguais, mas são completamente diferentes, cada uma gera um tipo de sistema. Ser exemplo de que pode ser diferente é coisa de grandeza. Não é pra que todo mundo veja, é pra criar beleza!

– Sim, Júnior, assim é!

– E o teu nome, de onde veio?

– Leticiel? Ah, minha mãe dizia que Letícia significa alegria e que El significa Deus, então que eu nasci pra ser a alegria de Deus: Leticiel.

– Letícia é nome de mulher, e o El é de homem, mistura e fica parecendo o quê? Anjo!

– É, os anjos e arcanjos têm El. Todos eles têm Deus no nome.

– Como você sabe tanta coisa morando na rua?

– E pobre tem que ser burro por acaso?

– Não, mas pobre tem menos acesso às coisas.

– Materialmente sim. Mas eu aprendi por aí, ouvindo as pessoas, conversando com outras, lendo o que jogam fora. Você não acredita no tanto de coisas vivas que as pessoas jogam fora porque acham que estão mortas. E eu sempre fui curioso. Aí eu pego tudo o que o povo acha que tá morto, enterro em mim e pronto, ganha vida de novo.

– Você parece mesmo um anjo.

– Vai ver eu sou. (Ela ri). Tá rindo por quê? Acredita não?

– Não. Isso de anjo é muito cristão pra mim.

– E Buda é muito hinduísta pra você?

– É diferente. Buda não obriga a nada.

– (Ri alto) De onde você tirou isso?

– É verdade, ele aceita todos como são, você não precisa seguir regras pra seguir ele.

– É, pra seguir hoje em dia não precisa fazer nada, só apertar um botão.

– E o cristianismo fez muita merda.

– O homem faz merda em nome de Deus até sem Cristo, olha o Islã e o radicalismo.

– Ah, mas pelo menos eles lutam contra os Estados Unidos.

– Nada justifica a violência. Não existe causa nobre para se matar. O que há é a nobreza de se morrer servindo os demais.

– Isso tem cara de escravidão pra mim.

– E você sabe o que é escravidão então? Pensa: eu posso te assaltar, te estuprar, te matar e falar que você me deve por ter dinheiro e ser branca. Você é como eles, cúmplice.

– Eu não escolhi nascer branca.

– Então você é a única branca no planeta que nasceria preta se tivesse a chance?

– Eu, eu seria… eu seria preta sem problema.

– Tô vendo. E o dinheiro?

– Eu sou a favor de todos terem dignidade para viver.

– Ah, sei. Você só por acaso não trabalha nos EUA, porque mora no Brasil e adora o Brasil, não é? Patriota, tenho certeza.

– Não, não é isso. Não tem a ver com patriotismo.

– Não, não tem a ver com amar seu país, tem a ver com odiar a nação alheia.

– É a história. É um problema histórico. Você não entende.

– Claro que eu não entendo, eu sou pobre e preto.

– Não é isso, eu não tô sabendo me explicar.

– Sabe o que minha mãe dizia? Que a gente tem que honrar o próprio nome.

– E você é a alegria de Deus?

– Eu sou, ou tento ser.

– Não parece. Digo, você não parece alguém alegre.

– Você acha que o que você pensa ser alegria é o mesmo que Deus pensa?

– Eu não sei o que Deus pensa, mas alegre é alguém pra cima, né, que anda de cabeça erguida.

– Então a alegria de Deus seria alguém que faz Ele olhar pra cima. Exatamente. Você acha que eu faço Deus andar de cabeça baixa por acaso?

– De Deus eu não sei, mas sei que você anda de cabeça baixa, não parece alegre.

– Eu sou, por dentro. É justamente por manter minha cabeça baixa, preocupado em ajudar quem tá na Terra, que Deus se alegra e, sem ter que se abaixar para me vigiar, pode olhar pro alto e se ocupar de saber pra onde nos leva.

– Bonito isso, a alegria de Deus ser não precisar se preocupar com o Humano.

– Sim, a alegria de todo criador é o contentamento leve em saber-se independente da criatura que criou. Como o pai que se alegra em ver o filho se tornar um indivíduo.

– Você parece poeta.

– Eu sou.

– Você é um bom homem, certamente é um bom filho.

– Não sei. Minha mãe morreu cedo. Guardo a lembrança do nome, mas o resto eu vou esquecendo.

– E teu pai?

– Meu pai fez de tudo para me criar bem, mas não sei se fui o filho que ele gostaria de ter.

– Eu gostaria de ter um filho como você.

– Não fala besteira.

– É sério. Eu nunca quis ter filho, mas teria orgulho de ter um filho como você. A tua mãe deve estar orgulhosa.

– Obrigado pela delicadeza. E ele vai se chamar como?

– Quem?

– O filho, se você tiver.

– Ah, Davi, eu acho, nome de rei.

– Ué, pra quem não gosta de cristãos. (Ela ri, sem graça)

– É que Davi significa amado, querido, o predileto, respeitado. Eu gostaria de ter um filho que fosse tudo isso. Além disso, o rei Davi venceu o gigante Golias. Quem luta contra gigantes sim é um homem grande!

– Verdade. Saber usar uma pedra faz ganhar lutas.

– É, e ele também lutou contra urso e leão para proteger suas ovelhas! Imagina! Lutar contra animais enormes para proteger os indefesos!

– Se eu pudesse, lutaria contra qualquer máquina para proteger a Sírius.

– Eu sinto muito.

– Tudo bem. É importante também lutar contra os monstros nossos, senão a gente fica pego em vingança e acaba esquecendo até de fazer um simples enterro. É preciso enfrentar os monstros internos para conseguir enterrar os mortos que temos. Só com eles enterrados é que dá pra chamar de volta pra fora da terra.

– Como assim?

– Como semente: enterrar o caroço é poder chamar a árvore e fazer com que surja o broto.

– Que lindo! Nossa, olha, um gatinho! Ai que dó!

– Parece que esse aí foi atropelado também. O que você tá fazendo?

– Ué, não é preciso enterrar os mortos? Então, vamos enterrar ele também.

– Tava falando de simbolicamente enterrar o que temos dentro.

– Mas o de fora tem que seguir o mesmo movimento, enterra dentro – e fora fica tudo cadáver fedendo? Não, nojento! É fora e dentro.

– Tá certo.

– Já sei, e se a gente der um nome pra ele?

– Nomear um morto? Pra quê?

– Oras, você não falou que tem que chamar a árvore para fora? Vai chamar de maneira genérica? Como ele vai saber que é com ele? A gente tem que chamar pelo nome, né?

– Tá bom, a gente nomeia então.

– Que tal o nome de outra estrela? Deixa eu ver. (Google) que tal Alpheratz? Diz ser uma estrela de quem busca liberdade e movimentação. Me lembra gatos.

– É sincrônico, não? Então está nomeado!

– Vamos pegar ele, coitado…

 

Cena III


Ela
– A gente pode parar só um pouco? Meus pés estão doendo. Ah, tá sangrando quase.

Ele – Vai dar bolha. Quem manda ter pezinho delicado.

– Faz quanto tempo que a gente está andando?

– Deve fazer uma hora. Uma e algo.

– Tá com fome? Eu tenho um chocolate na minha bolsa. Vou pegar. É dos bons… prova.

– Só um pedaço.

– É importado. Puro cacau.

– Caramba, é super amargo.

– Sim, são os mais saudáveis.

– É, o saudável passa pelos sabores mais amargos mesmo, até na comida.

– É só um chocolate.

– Mas serve pra muita coisa. Tudo está conectado através das analogias. A maior parte das coisas saudáveis não são naturalmente gostosas, a gente não está acostumado. Nosso paladar pra vida é trocado.

– Como assim?

– Oras, o que faz a gente crescer: ser feliz ou ser triste?

– Os dois. É relativo, eu acho.

– Se tudo fosse relativo, a vida não seguiria uma hierarquia cronológica para as coisas. Observe: ninguém nasce com o corpo inteiro, pronto pro uso. Vai espichando aos poucos. E dói crescer. A gente cresce sofrendo, porque os traumas são de quando somos pequenos, aí as alegrias vêm depois que a gente já cresceu e sabe reconhecer que o sofrimento trouxe ensinamentos, ou a possibilidade deles.

– Ou seja, alegria é sofrer. É isso? Que loucura.

– Alegria é sofrer sabendo. É diferente de sofrer sem saber.

– Não tem como sofrer sem saber.

– Ah, Júnior, há mais formas de sofrer nesse mundo do que de ser feliz na eternidade.

– De sofrimento você sabe melhor do que eu.

– Por quê?

– Porque você mora na rua, é preto, sozinho no mundo e acabou de perder a melhor amiga.

– É, tudo isso pode causar sofrimento mesmo.

– Ainda mais no tempo em que a gente vive.

– Pode ser, mas se morar na rua, ser preto e solitário é sinônimo de sofrimento, morar em mansão, ser branco e viver na multidão é sinônimo de ser feliz. E você acha que é mesmo? Sofrimento é não poder escolher onde e o que viver, é diferente. É ser obrigado a viver num lugar mesmo sem querer, seja rua ou mansão. Prisão é prisão, com ou sem enfeite.

– Ah, mas é como dizem, se for pra sofrer, melhor sofrer em Paris do que aqui. Entende?

– Entendo. Mas também, Paris é harmônica. Lá meio que tudo está em sincronia, parece! Agora aqui, eu não vejo harmonia em nada. E você, tá vendo?

– Eu acho que essa ideia de harmonia é um conceito bem europeu. Aqui tem sua harmonia de acordo com a nossa realidade.

– Jura? Você acha harmônico a gente aqui sentado numa sarjeta indo enterrar um gato e uma cachorra nesse bairro que não tem uma casa bem construída? Tudo feito aos pedaços por falta de dinheiro. Isso parece desculpa pra engolir o que não consegue dar jeito.

– Eu sou contra a gente enfiar uma cultura goela abaixo na garganta do povo, só isso.

– Miséria não é cultura, Júnior. Fome não é cultura. Falta de dignidade não é cultura.

– Mas forçar um modo específico de riqueza também não é solução.

– De fato, não, não é. Mas assim como ser rico não é qualidade, ser pobre também não é.

– Mas quem tem bens e posses tende a ser pior.

– É, a pessoa se torna apegada à matéria. E você, sabe qual o problema em se apegar à matéria?

– O acúmulo! Fica tudo em uma mão e o resto sem.

– E quem tem muita coisa acumulada sente falta de quê?

– De nada, ué.

– Os ricos parecem felizes e satisfeitos pra você?

– Não.

– E por que eles não estão satisfeitos, se eles têm tudo o que querem?

– Ganância! Quem tem sempre quer mais.

– E não parece que eles sentem falta das relações verdadeiras, mesmo sem perceberem?

– Depende de quem.

– Tá, já deu pra entender que a matéria não determina caráter e psicológico de ninguém, então que cada caso é um caso, mas vamos pensar…

– Pensar, você tá pra filósofo também?

– Sim, eu amo a sabedoria. Agora pensa: partindo só do pressuposto da tendência, para onde as coisas tendem a ir, ainda que não necessariamente caminhem por ali, os ricos tendem a ter dinheiro e sentir falta das relações humanas, certo? Às vezes eles nem confiam em ninguém. Sem amigos, ou com relações apenas baseadas em grana. O dinheiro se torna uma espécie de deus. A matéria se torna uma espécie de deus, não é?

– Concordo.

– E o que é uma verdadeira relação humana? Ou uma relação humana verdadeira.

– É quando os sentimentos são reais, eu acho.

– Como você sabe se a nossa relação aqui, agora, é real?

– Porque você tá sendo verdadeiro. É sincero. Não precisa de dinheiro.

– Pois é, não precisa ser mediada pela matéria. Então se entre os ricos é o dinheiro que faz a ponte, entre nós dois, em que ponte estamos caminhando?

– Não sei.

– Vamos, pense. Se dê tempo para pensar.

– Acho que o que faz a ponte da nossa relação é o sentimento. Eu me senti mal pela Sírius morta, senti compaixão pela tua situação, empatia e tudo o mais, e aí isso fez a gente chegar onde a gente tá, aqui.

– E você não é pobre como eu… Então quer dizer, todos são capazes de criar uma relação, com dinheiro ou não.

– Sim, mas o dinheiro dificulta.

– Exato. Ele faz você acreditar que não existe sentimento, só a matéria. E o sentimento, ele pode criar barreira como o dinheiro?

– Acho que não, né. Talvez não ter sentimento crie uma barreira.

– Mas a gente sente mais dor quando morre alguém próximo do que alguém distante, né?

– Sim, mas é diferente.

– Diferente como?

– Porque a relação já existia quando um amigo ou parente morre, a morte vem depois da relação. Você sente a mesma dor pela morte de Alpheratz que pela da Sírius?

– Eu tento. Mas é mesmo muito difícil.

– É porque você não conhecia ele, mas ela sim. Foi porque ele morreu que você sentiu algo, senão ele tava por aí que nem vários gatos estão, pra lá e pra cá, e a gente nem sabe e não sente nada.

– Pois é, então quer dizer que o sentimento focado em um determinado ponto, em uma pessoa, uma coisa, um bicho, um gato, também pode ser empecilho pra criar uma relação verdadeira com o resto dos seres, não parece?

– Nossa, complicado. Não sei se é o sentimento que é o empecilho, mas a falta dele, como falei.

– Isso seria o mesmo que dizer que é a falta de dinheiro que não me permite ter relações como os ricos têm. E que eles estão certos em não se relacionar com quem não tem o mesmo tanto de dinheiro.

– Mas os sentimentos a gente tem, é nosso, mesmo sem a outra pessoa ter.

– É, e aí a gente tende a se relacionar apenas com quem a gente sente algo, não é? Você só veio falar comigo porque sentiu algo devido a um fato concreto, senão nem ia notar que eu existo.

– Eu não sou perfeita, mas procuro notar a existência alheia.

– Não me importam os teus erros, ou o tamanho da tua cegueira, o que eu quero dizer é: você precisou sentir algo para estabelecer contato. É ou não é?

– Sim.

– Algo bom, certo? Não que seja boa a morte da Sírius, mas é saudável sentir empatia, compaixão. Isso mostra que é quando o sentimento cria foco que a relação se revela. Mas ainda assim o resto continua sendo ignorado. Pouco importa aqueles em quem a gente não foca, por quem não sentimos algo.

– É, acho que é inevitável, não dá pra se relacionar com todo mundo. Mas dá pra sentir empatia e compaixão por um tipo de gente. Como sentir compaixão por todos os pobres.

– Sim, mas você sentir compaixão pela falta de dinheiro não é o mesmo que sentir repulsão por alguém só porque a pessoa tem dinheiro?

– Mas eu acredito que a gente tem que repudiar os ricos mesmo.

– Júnior, meu filho, eu posso te repudiar então? Perto de mim, você é rico. Rico, branco, que mais? Me diga, quem é você, querido?

– Ah, é diferente. Eu não fico acumulando dinheiro.

– É, nunca é com a gente. Mas tá, aí, mais uma vez, teu dinheiro não define o que eu devo sentir por você. Tá vendo?

– Mas se você quiser me odiar, eu entendo. Está no seu direito.

– Que direito o quê! Direito de odiar os outros?! Meu filho, direito é ter acesso à saúde, direito é poder ir e vir, direito é poder trabalhar com dignidade, direito é ter leis que se apliquem a todos de verdade! Odiar não faz parte disso não!

– Ah, mas a gente tem direito de odiar um nazista, fascista.

– Não, a gente tem o direito de prender um maluco desses, e repudiar políticas como essas.

– Fale isso pros judeus, pros negros, pros gays… fala pra eles não odiarem quem mata eles pra você ver.

– Eu sou pobre, negro e gay, Júnior.

– Você é gay?!

– Eu sou! E você está usando de categorias de que não faz parte, acha justo isso?

– É histórico, não pertence a um grupo.

– É. E é importante a gente lembrar e ter esse espírito e não permitir que voltem a acontecer essas atrocidades, mas não é através do ódio que se mantém elas longe da sociedade. Elas em si nascem através do ódio.

– Sim, mas você quer o quê? Amar o inimigo, aposto.

– Amar não é ser passivo diante dos que matam, mas sim compassivo com os que morrem. É diferente.

– Mas aí você sente o que então pelos que matam?

– Eu, Leticiel, tento sentir amor sim, mas isso não significa que a gente não deva ter o direito de pôr esses assassinos na cadeia. Amar não é deixar livre e fazer o que quiser, pelo contrário. Amar pode significar prender, dar limites, como os pais fazem com os filhos, pai e mãe põem filho de castigo por amor, não é?

– É tudo muito bonito, mas com adulto é foda fazer tudo isso. Eu quero é que todo mundo morra mesmo, mundo maldito cheio de gente escrota. Que se exploda! Olha, outro gatinho. (faz o chiado típico de quem chama gato) Ai que fofinho!

(Do nada, ouvimos o acelerar de um carro e um grito de gato sendo atropelado).

– FILHO DA PUTA! MAS POR QUE ISSO? Ele acelerou pra atropelar o gatinho! Filho dum cu, filho da puta, cretino, cuzão! Que mundo merda! É tudo uma merda, isso não vai acabar nunca! Aí óh, cadê o amor? De que adianta agora? Quem vai prender esse filho da puta? Ninguém!!! (Júnior vai tendo um surto até cair em lágrimas. Calmamente, Leticiel vai até ela e a abraça, silenciosamente).

 

Cena IV


Ele
– E qual vai ser o nome desse bebezinho?

Ela – Não sei.

– Pega aí o celular, escolhe uma estrela pra ele.

– Que tal Algol? É o nome da estrela correspondente à cabeça da Medusa, é violenta! Para que cabeças rolem!

– Falando nisso, sabia que na Grécia se dizia que pessoas que sofressem a influência da Sírius tinham algo chamado Astroboleto? A influência dela era tida como negativa. Imagina, é como se recebesse mesmo um boleto dos astros a ser cobrado. Dívida com o mundo é dívida a ser paga aos céus, meu caro.

– E você acredita nisso?

– Nisso o quê?

– Em mapa astral, influência de estrelas, planetas, essas coisas, sabe.

– Olha, não sei nada disso, mas uma coisa eu garanto: o céu sempre andou comigo. Quem anda com o Sol tem tudo, há que se andar sabendo que as estrelas caminham juntas, e os planetas e satélites seguem sempre uma.

– Pra mim a Lua é uma grande deusa.

– E o Sol é um grande Deus. Ela é reflexo dele, veja. O que ela tem de mais bonito, ela deve a ele.

– Ah, isso me soa como machismo.

– Poderia ser se eu estivesse inventando isso, mas não estou. A Lua recebe a luz do Sol, ela é apenas um satélite. Não há nada de inferior nisso, é apenas diferente.

– Se eu pudesse, seria como a Lua.

– Há tempos de se ser como a Lua e há tempos de se tornar um Sol.

– Não sei se eu quero me tornar um Sol.

– Por quê?

– Ah, deixa pra lá. Não importa! Vai ver é hora d’eu ser Lua, e só.

– Lua está relacionada ao emocional, ao familiar, né? Como é tua família?

– Eu não gosto de falar dessas coisas não, nem de sentimento nem de família.

– Por quê?

– Você parece uma criança com tanto ‘porquê’.

– Desculpa aí, é só que eu falei da minha mãe, do meu pai, pensei que pudesse perguntar de você.

– É, me desculpa também, é só que… dói.

– E você acha que não dói perder a mãe tão novo como eu perdi?

– Meus pais estão vivos, mas não gostam muito de mim. Eles não me entendem e não me aceitam.

– Por que eles não te aceitam?

– Porque eles querem uma filha toda feminina, e olha pra mim, eu me chamo Júnior, caralho!

– Então você se sente mal por causa das coisas que eles gostariam que você usasse?

– Nome não é só uma coisa, faz parte do meu ser no mundo.

– Não, faz parte do teu estar no mundo, você está sendo o Júnior, quando morrer, deixará de estar aqui para estar sendo em outro mundo. Ou você acredita que leva o nome, RG e CPF junto?

– Respeitar nome é uma questão de respeitar como eu desejo estar, que seja!

– Sim, é importante respeitar o nome de cada um. Como já citei minha mãezinha, nome é pra gente honrar!

– Pois é, e meus pais não respeitam isso, ficam querendo que eu me vista como essas mulheres de revista, não dá.

– Eu gostaria que minha mãe tivesse viva querendo que eu me vestisse como homem de revista.

– É diferente.

– Eu gostaria que minha mãe tivesse viva querendo que eu me vestisse como mulher de revista. Agora fica igual?

– Não, você é homem, eu sou mulher.

– Veja, eu entendo que os pais esperam muitas coisas dos filhos, e entendo que homens que nascem em corpos biologicamente femininos devem ter sua masculinidade respeitada. O que não é o teu caso, né?

– Não.

– Então… eu sei que todo mundo deveria ter o direito de se vestir como quiser, mas roupa é só algo que se troca todo dia. Precioso é o corpo. Olha a Lua, até a forma dela se vestir de luz muda, por que nós não mudaríamos?

– Fala isso pros meus pais.

– O que eu quero dizer é que talvez você também deva se importar menos com a roupa que usa, e mais com você se amar quando nua.

– A Lua nunca fica nua.

– Quem disse?

– Só se for quando tá Cheia.

– Não, ao contrário, a Lua fica nua quando Nova, que é quando ela nasce. Você já viu alguém nascer vestido por acaso? Quando é Lua Nova significa que ela está nascendo de novo; também pode ser lido como ela se deitando com o Sol, porque os dois estão juntos, e ninguém fica vestido na noite de núpcias.

– A minha Lua é gay.

– O meu Sol também. Isso não significa que ele não se deite simbolicamente com uma figura feminina. Assim como não evita que minha Lua esteja junto de uma figura simbolicamente masculina. Entende?

– Acho que não.

– Meu lado masculino precisa do lado feminino de alguém, mesmo que esse feminino venha de um homem. Assim como meu lado feminino precisa do lado masculino de alguém, mesmo que esse lado masculino venha também de outro homem. Todos nós temos os dois dentro, mas eu preciso saber reconhecer o que acessar em cada momento, senão se torna uma relação doente, porque dois polos iguais não geram movimento. E isso tudo não tem a ver com a roupa que eu visto, nem com a atração sexual que eu sinto, ainda que a roupa e o gênero possam expressar isso de alguma maneira.

– Pra mim, a roupa é uma forma de oprimir a expressão do meu lado masculino.

– A liberdade, menina, está para além dos elementos.

– Você fala isso porque é homem.

– Um bem-te-vi continuará sendo bem-te-vi mesmo que o vistam com as penas de um beija-flor. É pelo canto que o reconhecemos. Confie mais na tua voz interior!

– Posso te fazer uma pergunta íntima?

– Claro, por favor.

– Você acha que você é gay por ter perdido a mãe cedo?

– Acho que já vi muito gay que cresceu com a mãe do lado, talvez isso não seja um fator. Mas pode ser, vai saber…

– Não tem resposta fácil, né?

– Não, as respostas não são fáceis, ainda que possam ser simples, como: eu sou gay porque sou gay, e só isso. Nem tudo precisa de um motivo material para ser, e nem ter que identificar um porquê na minha história.

– Ou seja, as coisas que realmente importam não são nem materiais nem históricas.

– Exatamente.

– E são o que então?

– Você disse bem, elas são. A matéria e a história geram apenas estados, estados de coisas que são alterados de tempos em tempos, não?

– Eu nunca tinha pensado por esse lado…

– Na matéria e na história não é possível haver o ser, a gente apenas está. Por exemplo, estamos sendo amigos agora, amanhã não mais.

– Eu gostaria de continuar sendo tua amiga.

– Amanhã todas as coisas serão novas, como a Lua, que quando Nova começa sua jornada toda de novo, nos dando a oportunidade de sentir outras coisas.

– Eu continuarei sentindo o mesmo que sinto hoje.

– É bonito você ser fiel ao que sente, mas lembra, o que sentimos também cria foco e evita que você se relacione com toda a gente?

– Nossa, sim. Então qual é a solução? Não se apegar?

– Amar!

– Ah, não! Cê tá zuando com a minha cara… Amar?

– Amar!

– Mas amor é um sentimento.

– Não, o Amor é a fonte de todos os sentimentos.

– Impossível. Como que o amor é fonte dos sentimentos? Ele é um sentimento!

– É que um Sol, uma estrela, de longe, entre os planetas, parece também um planeta ou os planetas parecem estrelas, mas quando a gente olha mais de perto vê que é diferente, porque um Sol não é um planeta, e só ele é de fato uma estrela, e isso faz toda diferença. E assim também é o Amor, que doa energia para que os sentimentos sejam.

– Como ele pode ser fonte do ódio, da raiva, do rancor, da mágoa, de tudo ruim que a gente também sente e tem?!

– É que o Amor é como o Sol, os sentimentos são todos os planetas e satélites ao redor dele. Ele ilumina e dá luz aos outros, ele que permite que haja vida e as coisas cresçam e os seres sejam, assim como também é a luz dele que faz com que a sombra apareça. A Luz revela a Sombra como consequência.

– Então ele é o responsável por tudo de ruim que tem na natureza?

– Veja, se não houvesse Sol, não haveria planetas, não é mesmo? Porque um sistema só existe ao redor dele, um planeta só é planeta porque há uma estrela guiando ele. E o que nós conhecemos como sombra é porque há vidas diferentes do Sol, são elas que fazem surgir a sombra, porque se tudo fosse Sol não haveria sombra, não é mesmo?

– É, acho que sim…

– Isso significa que não é o Sol que irradia sombra, assim como não é o Amor que nutre sentimentos de ódio, medo, rancor, mas sim nós, que somos criaturas, nós que fazemos com que tudo isso surja, porque não somos amor, ainda que seja um dever nos tornarmos como ele, porque seria honroso se tornar como o Sol e levar luz pra todo o sistema, não é mesmo?

– Mas isso é muito difícil. É muito difícil amar e ser puro amor todo o tempo. É como você falou, amar pode nos levar a fazer coisas que nem sempre são agradáveis ou fáceis de serem feitas, como prender alguém que amamos.

– Sim, pois é. É dificílimo se tornar como o Sol, mas por isso que é preciso ter fé no Amor.

– Ih, isso de fé não é comigo.

– E por quê? Fé significa confiar, é tão simples… a gente só precisa confiar no Amor, porque Ele é como o nosso Sol, e a partir da hora em que há Sol, a partir da hora em que há Amor, nós passamos a viver na Luz e para a Luz e ver que, se nós não somos capazes de ser como ela, ainda assim ela existe e pode iluminar aonde a gente for.

– E assim como o Sol guia os planetas que giram ao redor dele, o Amor passa a guiar nossos sentimentos e os sentimentos passam a girar ao redor dele.

– Sim, exatamente.

– É… Bonito.

– Sim, é belo e bom saber que existe algo que pode guiar nossos sentimentos e ações, guiar a nossa vida.

– É, não deixa de ser reconfortante de alguma forma. Mesmo com tanta morte pelo caminho.

– Falando nisso, um cachorro.

– Morreu do quê, será?

– No meio da rua assim, deve ter sido outro atropelamento.

– Mas todo mundo dirige sem ver por onde passa, meu deus?!

– Ah, minha querida, a gente se atropela o tempo todo e não vemos.

– Cara, nem a Lua e a Terra, que estão tão perto, nem elas se atropelam! Como fazer pra ser como os planetas que andam a mais de mil quilômetros por hora num balé perfeito?

– Dançar, eis o que não sabemos.

Aprender, eis o que devemos (ela estende a mão para ele).

(Eles dançam. Quando param, ela volta a olhar o cachorro morto…)

– E ele?

– Batizemos. Busque um nome.

– Tem horas em que um nome importa demais, outras, de menos.

– Qual o teu nome de nascença, aliás?

– Ah, eu prefiro não falar.

– É tão feminino assim? As coisas femininas também são bonitas.

– Eu sei, eu não tenho nada contra o feminino em si.

– Então qual o problema com o nome?

– Nomear as coisas muda tudo.

– Sim, é verdade. Nomear faz com que se torne realidade, ganha vida.

– Pois é, vai ver eu tenho medo de nascer de verdade.

– Olha, faz horas que estamos nesse parto.

– É, eu sei, eu sei que uma hora eu nasço.

– Posso te contar um poema que fiz esses dias?

– Sim, por favor! Claro!!!

– Eu dedico a você, Júnior, e a todos os Júnior’s que existem nesse mundo:

Se me perguntas, não digo que sei teu nome
Mas afirmo saber de tua flama, brilhando forte, altiva
Quando o mundo te chama e respondes com teu silêncio
A língua de todos os Anjos, porque silenciando
Todos os homens falam para além de si mesmos.

E quando te calas te vejo em fogo
Ardes, e não sabes; iluminas, e não sabes;
Queimas, e não sabes; teu espírito sobe aos céus feito fumaça
E não sabes, porque dormes
E esperas que eu te chame pelo nome para que acordes.’
(Silêncio). Aonde você vai?

– Pegar ele pra gente enterrar também.

(Emocionada, ela vai andando esfregando os olhos, deixando claro que não está fazendo uso pleno da visão.).

– Júnior, cuidado. NÃO, CUIDADO! (Com ela ainda em palco: clarão. Ouvimos o barulho de freio seguido do atropelamento da jovem e o carro depois dando ré, sumindo.) Júnior, querida! Não! NÃO! Fala comigo, fala comigo. Cadê seu celular? Eu preciso ligar pra ambulância, polícia, não sei, eu não sei os números, meu deus.

– Lê, meu anjo.

– Shiu, não fala, calma, eu

– Lê

– Eu não sei usar esse negócio, meu deus, senha… não sei senha.

– Leticiel

– Qual a tua senha, como eu abro?

– Lê, presta atenção, o meu nome

– Tua senha é teu nome?

– Não, meu nome

– Não funciona, essa merda

– Lê, (ela finalmente consegue a atenção dele), meu nome de nascimento é Sol.

– Sol? Você se chama Sol?

– Sim. Uma estrela.

– Ah, minha pequena!

– Obrigada por me ensinar tanta coisa hoje.

– Amanhã eu vou te ensinar mais, você vai ver, amanhã!

– Amanhã é um novo dia, lembra?

– É, mas…

– Lê, eu te amo!

– Ah, Sol. Sol! Meu Sol, eu também te amo!

– Me promete uma coisa?

– Não, não vou prometer nada porque você vai sair dessa, a gente vai irradiar Amor por aí, pra toda gente.

– Promete que vai enterrar eles?

Meu Deus, Sol.

– Promete? Promete que você vai enterrar essas estrelas atropeladas?

– Eu prometo.

– Mesmo?

Eu juro.

– Olha que sincronicidade, eu morrer bem no dia em que nasço!

– Você vai morrer acesa, Sol Júnior, você vai morrer acesa!

– Obrigada, meu amigo. É uma honra morrer nos teus braços.