Alegria da Creação

Alegria da Creação

Le Tícia Conde

I

I

 

A estrela não é a estrela ela mesma, senão a luz que nos chega.

É a sua irradiação que a faz ser estrela, e não enquanto fonte para si mesma.

Ainda que a fonte determine tudo

inclusive a intensidade da imagem que se crea.

E isso é poesia, isso é D’us. Isso é Tudo o que pode haver.

O entre que há, sem estar naquele ou neste, apenas existindo e sendo no meio –

se no Sol vivêssemos, deixaria de ser o centro

deixaria de ser estrela.

Quando se está em D’us, Ele deixa de ser o que compreendemos quando dizemos

D’us

a poesia deixa de ser poesia se deixamos de ser poeta para nos tornarmos como ela

eis o trabalho de uma vida, deixar de ser algo

para apenas ser este verbo de ligação que conecta

uma fonte a outra

sem ser D’us ou o outro

sem ser a poesia ou o poeta

sem ser o creador ou a creatura

sem ser o sujeito ou o objeto

há algo para além disso tudo, algo que nasce como terceiro

para além de qualquer linguagem concreta

que vaza e não se captura nem mesmo no um

pois não está também na união de dois

mas na existência de Tudo infinitamente

eternamente

para que Tudo se veja e todas as estrelas possam ser estrelas

ao mesmo tempo em que não são estrelas em si mesmas;

quando voltarmos ao Pai, estaremos para além do ser

e então o que nos tornaremos?

Estrela… toda estrela que é habitada se torna planeta?

Os planetas de hoje se tornarão sóis ou satélites?

A permanência da vivência faz com que nunca estejamos num cometa.

Talvez no centro haja uma chuva de galáxias

talvez o centro negro seja o céu dos grandes seres

que ao nos verem passar fazem pedidos

e nós sejamos a realização dos desejos deles.

Ser poeta é eu riscar o céu com o fogo de Pandora e Prometeu

porque agora eu sei que de cima alguém também risca…

Estamos no azul, dentro da água fogo é apenas luz,

mas se se carrega uma bolha junto da vida que é ser gota

o ar preserva a chama:

desde dentro a imagem toma outro relevo, ganha novos ângulos

mas quando se consegue tomar fôlego e pôr para fora a cabeça

vemos que o objeto que parecia ter brilho em si mesmo

brilha, mas não é a Luz em si mesma

pois Ela é o que está sendo entre mim e ele

dele, de onde sai, eu, aonde chega.

 

II

 

Para ser meio é preciso escolher ser as pontas

não como pontos que se ligam,

mas como um todo que se encontrando apenas continua…

O dois vai pra ambos os lados, pois em qualquer número ele está:

o anterior e o próximo, na ordem que o caos impõe a ele próprio

para que dois olhos consigam se olhar

– a vesgueira em si é o caos, a ordem está em enxergar.

Pode ser caótico eu, sendo 6, desejar ser 11

mas há justiça e ordem no número que o universo me dá

e a sequência não é óbvia, eu posso ter já passado pelo 2 e estar nele novamente

mas se já estive no 5 será justo que do 2 eu passe para o 6 num piscar

como os arquétipos, e até mesmo arcanos

a ordem não restringe, ao contrário

ela crea infinitas direções.

A eternidade está nas combinações.

Mas as combinações devem nos tornar ouro

em cada subtração, divisão, soma ou multiplicação

não relativizando qualquer passo

e, sim, fiando os infinitos pontos

que com fé se tornam um único manto de fios dourados.

Se D’us é Tudo e Nada é efeito Dele

falar do Nada é ir ao passado Dele, e isso só se faz em conversas com Ele próprio

ninguém chega ao Nada sem Tudo, sem o Pai, sem D’us e Amor ao Mundo.

O nada humano é a finitude de si mesmo, pois fora do homem nada há

promover este nada é deixar de ser humano em si e decretar a extinção da unidade

não da Unidade, mas da unidade única que é ser o Si.

Todos Estão no Pai, nem todos São no Pai

é o nosso livre arbítrio para escolher qualquer lado

caminhando, acordando com os pés ao dançarmos com o altíssimo

ou como um carro, num automatismo, fazendo com que Ele mude a paisagem

porque no fundo nada se desvia, contudo

o desejo de se desviar é de fato o único ser sem destino.

Pã: eis um susto ao sair do caminho!

Se na livre expressão do divino já não se sabe fazer escolhas

a única possibilidade é ser deixado nas mãos de criaturas mais densas que Ele.

Se não se sabe lidar com o grau de sutileza que Ele congrega enquanto virtudes para a graça

que dirá observar Nada como efeito e o Vazio como pré-enchimento!

Somente um ser mais denso que o Pai e seus familiares

será capaz de pôr ordem, cada vez mais autoritária, claro.

Isto é o obscuro que tem sua função divina

com uma lanterna a procurar desgarrados numa floresta

– pois à noite, todo grão de areia é árvore

toda procura vira caça

e todo fantasma ganha corpo na matéria.

 

III

 

Não se afofa a areia. Não se torna macio o acumular de grãos

é ilusão, é a estagnação de não se conseguir levantar as pernas

e tirar os pés do chão, ficam soterrados

e crê-se ser bom fazer a realidade aparentar a face do confortável

o que não se sabe é que o corpo do conforto

é um monstro que nos engole rápido, areia movediça:

é a dureza no passo que garante o avanço pelo tempo e espaço

o apoio não de quem cai, mas de quem, já caído, se estende

ergue o pé e segue na firmeza de ter tocado a solidez da experiência

e ter aprendido a levantar-se com isso.

Mas se escoras nas costas de teu irmão

é porque te tornaste uma cruz. Fazer de si penitência alheia

é não se libertar do pó que se é e se carrega

sedimentando o peso em outro ao invés de esfarelares e descobrir

que também tua aparente maciez é duna que enterra cabeças

– uma moleza de pedras que condenam.

A suavidade do áspero está no calo da pele

a delicadeza da rosa se sente na fricção das mãos

e quando se segura um espinho se tem

o peso do mundo entre os dedos

– apegar-se ao denso é perfurar-se deliberadamente.

O apego impõe pressão. A pressão surge no aperto.

Quando brota tua rosa, as pétalas não são para a visão que te olha

mas para que sejam uma rosa de fato, pois sem tais partes

de nada adiantaria ter miolo; não há preservação de si

se não há o que o guarde – as pétalas são as portas uma a uma

que se abrem. Arrancá-las só torna tudo sem entradas

bem como sem saídas para donde se veio.

É o raio milagroso que à Terra chega que permite

que a boca da primavera se abra, todas as flores de saliva ao vento

disseminando pólen pelas palavras

e somos salvos de nós mesmos, porque no outono

nos impomos o arrancar da língua dos lábios: após um inverno mudo

cremos que os símbolos e signos não servem para nada.

Mas tudo, Tudo, serve ao nada, Nada.

E quem somos para calar o que nem dizemos, ainda?

Calada está a rosa quando é semente todavia

envolta nos braços-útero da mãe, sente a terra falar-lhe ao ouvido

todo germe é aurícula que do feminino fecundo nasce

toma banho de sol pela quentura que invade o leito

e há silêncio.

A palavra que toca como vibração vinda de fora

é água que rega e faz despontar o broto que começa

a orelha é pé pra andança, faz ouvir o vento que nos chama –

é pra aumentar o fogo que vem do lábio do Pai desde novo

feito sopro que chega como raio, vai se tornar chuva de luminosidade

e a cabeça sai da Mãe, grita folhas aflitas por colo

solo que abarca a energia de ambos, Mãe e Pai.

Base, planície neutra, recebe o andrógino que recupera sua metade

aquele homem que é mãe quando nunca se viu pai

aquela mulher que é pai quando nunca pariu mãe

aquele ser que Sendo se penetra com raios

e se fecunda as terrosas brechas, como quem pare ainda virgem

e faz nascer de si a obra imaculada de gêneros:

intocada pela duplicidade externa, a rosa

que em si carrega o macho e a fêmea.

A rosa, que é de integridade

mas que não se confunde em ser o jardim inteiro

não é ela que dá a si mesma a luz, a água, o vento e a terra de alimentos

mas é no dever de tomá-los em obediência para a própria existência

que se torna capaz de criar cor, beleza e cheiro

misturando-se com as outras flores que também cresceram

e aceitaram sua vez de ser banquete

o Amor que’scorre em mel e nutre todas as abelhas

o pouso leve que descansa as patas alheias

o degrau dos insetos, que sobem nelas para ver o horizonte

como quem chega no pico d’uma cordilheira.

 

IV

 

A visão do cume é solitária, não há nada que faça pedra

se tornar água para sede das lágrimas

às vezes é preciso descer um pouco para respirar

ainda que se saiba que a descida é queda escolhida

sem germinar algo senão vazio; não se desce pelo caminho que se subiu

então é preciso cortar mais mata, fazer mais podas

e dizimar uma parte do agora para se chegar onde antes estava

– regredir os passos é pisar nos brotos que cresceram

aqueles que tampavam os buracos da mágoa, dos arrependimentos

e, voltando, tornamos outra vez a montanha em deserto

ao menos em partes…

No fundo, as baixas criaturas voltam ao ataque

é sempre noite quando tudo cai

mas é o vazio no espírito que carrega nossas mais profundas obscuridades

são as torres que vemos quando olhamos pelas janelas da alma

e nos damos conta de que sob toda a terra escalada

a porta de entrada nos levava a uma ilusão de ótica

agora, estando de fora, é preciso demolir a antiga estrada

demolir também as certezas que se tinha como morada

desfazer tudo o que era base para que novos sedimentos

construam um deserto nunca antes imaginado

sendo assim desconhecido, para que de uma nova cegueira

nos reconheçamos e vejamos que precisamos de novos aprendizados

– desta forma a falta de visão leva àquela outra pedra

que mais uma vez não será água, senão o fundamento da próxima serra

aquela que é, agora, o novo cume almejado.

E com as antigas ferramentas começamos a construir outro topo

do nada.

Quando vemos cada tijolo cair diante das palmas

que abertas aguardam um novo estado de coisas, especialmente de alma

quando de punhos rijos, ainda que não fechados, sabemos que algo

de tudo o que se passa, nos será logrado

perguntamo-nos o que será, já que o vazio nas mãos

anunciam ao mesmo tempo o paradoxal desterro de tudo o que se julgava conquistado

– já não há nada na frente dos olhos, quem sabe abaixo

então mais uma vez a cabeça se inclina para olhar o solo

e admitir humildemente que a semente só é plantada

quando lembramos que a humildade está em destruir o que é nosso

para encontrar a essência daquilo que pode e deve ser compartilhado

e assim criar novos focos de germinação de algo verdadeiro

que até então ainda é inexplorado.

Outros castelos virão, certamente outras dores se trancarão

no mais alto cômodo de nosso ser, e esperarão até que sejam alcançadas

dores altivas que somente após toda a subida

podem ser dilaceradas. É para isso que serve a pulverização

de cada tijolo erguido em glória ao Nada, feito de barro para voltar ao pó

de se encontrar com o outro que também rasteja a vontade

de ir ao ponto do mais profundo miolo de sua existência

na obliteração do horizonte ao qual verga a flor plantada

pois é nele em que se’stava…

… e toda flor, por fim, termina confundida com a morada definitiva

que é outro nada senão uma creação, da nossa cabeça e do Creador

pois sem primavera não haverá verão, e sem verão não há sol quando o inverno chega.

 

V

 

É preciso desejar que caiam as pétalas ao solo

pois que são adubos para nós próprios ao nos livrar da vaidade

que é crer-se visionário de uma reta

que ao fim é curva para que não sejamos apenas paralelas;

nossos olhos sempre deturpam, e nos perturba a alma a escolha que fazemos

já não sabemos se subimos ou descemos, e o meio não é bem

a continuidade que se cria como via segura

já nada garante o aroma senão tornar-se vento

e como ar seguir colhendo outras flores

feito mão irmã que sossega um jardim para que os perfumes se sintam

e se misturem em direção a outros corações

pois o mel não é apenas na boca percebido

há que se ter digestão nos pulmões

– no futuro nos banquetearemos com a força das asas das borboletas

brindaremos a diversidade do arfar das penas dos passarinhos

e construiremos ninhos em nossas narinas

para que sempre nos pouse a dança dos corpos que voam.

E se somos a junção de todos, e se D’us é a junção de Tudo

a semelhança está na união, e não na inteireza de uma única coisa

: eis a face do Amor. Mas quem logra tal casamento sagrado com o mundo

apenas para vencê-lo depois?

É construir uma torre para que seja pó

bem como elevar toda montanha para que seja distribuída

grão a grão a cada um que passar com mãos erguidas

– pérolas só há quando se está acima para que haja porcos aos quais as jogar –

se há algo que eleve o outro, se há algo em si que possibilite assentar

então na mesma altura os olhos se verão

e pérolas já não haverá, nem porcos abaixo existirão

e a simplicidade estará em, se fazendo igual, saber o que receber

e o que doar…

As pedras, estando no deserto sem mar, têm apenas a língua com sua saliva

para as lapidar. A água do Ser é aquela que faz o bruto se tornar joia

e ganhar valor aquilo que antes era usado como arma:

o apedrejamento feito até mesmo com esmeraldas…

Já as pérolas, elas são aquele único grão de poeira que esteve lá a vida inteira

correndo o risco de entupir artérias.

Muitos morrem engasgados com os sedimentos que lhes entram

outros deixam que aglomerem e virem tumor em vez de dar o que têm de valor

àqueles que saberiam transformá-los em brincos, anéis, pulseiras

o que seja que ornasse o tempo, que combinasse com prata, cobre ou ouro

que revelasse a beleza e capacidade que cada um tem dentro

outros até tentam, mas encalham na margem

acabam por cuspir pedregulhos, e já não distinguem

o que é grosseiro do que é valoroso. Muitos nem mesmo sabem que uma pérola guardam

e são tantos os que não fecham a boca para que a façam

vivem sem incômodo, sem permitir que algo em seu interior os afete de fato

a ponto de mudarem a estrutura de um corpo

a ponto de criarem algo novo

e há ainda aqueles que criam, mas não sabemos, porque jamais se abrem.

De resto, há conchas que um dia ainda hão de ser ostras…

E há, por fim, os que não creem em nada disso

pois preferem viver em lagoas.

 

VI

 

Para enxergar a união das pérolas é preciso conhecer o fio d’água que as carrega

para ver a conexão de todas as pétalas é preciso olhar para o galho que à flor sustenta

para ver a conjunção de todos os galhos é preciso ter olhos para a raiz

que aprofunda em seu ápice e celebra encontros entre vapores terrestres.

Rara degustação do ventre que a todos leva

suporta a condensação de espinhos em seus cálices de ares

e ninguém imagina o quanto o vento, ao brindar e dançar com a rosa, machuca a si mesmo

– imagine a vida quando nos põe em movimento o quanto não se’sfola

rasga a carne de si mesma para que o sangue na taça caia

e a água verta, fazendo com que o deserto se torne mar

molhando a si e criando, da neblina de nevoa rígida

a bruma que se abre como cortina na hora em que menos se espera

pois toda fumaça úmida se inspira e se faz chuva

do céu às narinas, há cheiro de estrelas liquefazendo as vistas

há aroma de derretidas pupilas, o miolo que espalha pólen

com o calor do sol polvilhando abelhas, fogo que arde para que se veja

e o caminho se faça até a fonte em que se penetra

e se alimenta.

Estômago cheio, o pão de pétalas lembra que é preciso voltar às borboletas…

É preciso descer um pouco, ou quase tudo

há choro chamando por ajuda, pois do alto o mel à boca não chega

é preciso escorrer doçura até o início de cada cordilheira

porque mesmo chegando no pico, a neve zera a mira; então é possível piscar os ouvidos

: há ciscos de ruídos, há um espinho no sensível

– as lágrimas são a tontura do tímpano

debulha-se vertigem… cada rodopio é uma gota…

E há um tsunami espiralado de humano giro

ele não vem em nossa direção, nós é que escolhemos ir encontrá-lo

e por isso continuamos indo, seguindo montanha abaixo

para que o coro não se torne grito

para que ainda seja permitido diluir o sal

e romper com as barreiras que criamos para não subirmos

e ficarmos onde estamos, esperando

como se a estase trouxesse-nos um belo filho

quando de bastardos somos nós também filhos da espera

que deve ser abandonada, arrancada do inconsciente

erradicada da ideia.

É como borboleta fora da crisálida ainda pendurada para secar a asa

a tinta em excesso pinga, e o vôo não chega não por estar parada

mas porque é preciso sentir que uma gota faz diferença em cada movimento

pois uma gota pode ser a distinção entre o peso e a leveza;

mas quem se sente mais suave por cada pingo que cai da testa?

Quem agradece o fogo da febre que arde veneno para fora da pele?

Quem doa o corpo como brasa para suar a fogueira de quem se queima?

Quem aceita a gravidade que aterra chama na ponta da flecha

para acertar alvo espiritual mirando na matéria?

Em altas temperaturas se sangra a flama

e a voança só se baila quando a fleuma encontra um sonho

como lagarta, que sabe que a borboleta é a sua alma realizada

como borboleta, que sabe que é na Terra o seu pouso

mas é no Céu que fica sua casa, e por isso mesmo busca flores

sempre no alto, e se farta do que considera ser

a profundidade oculta do topo: o Amor, que antes de ser doce

dói como se incendiasse suas asas.

 

VII

 

Há fagulhas farfalhando pela folhagem, são as faíscas

flamejando fulgurantes filetes de água, há furos no céu

assim se acalma o furor das asas e se funde o fluxo líquido

com fogo, como quem dá forma ao mel, feito fervilhar de vidro

bem nas costas daquela que flui pelos feixes de luz

na flora do mundo, seu jardim

firme ela forja no ar as companheiras aladas de suas costelas

e valseia com as rosas florescendo favos

numa criação de colmeias dentro de si.

Há beijos por todas as partes, há bosques que se abraçam

há busca por beleza em cada berço em que se nasce

e assim a vida continua a parir.

Brasa bruta que banha todos os sonhos

balança os cabelos das corredeiras

enquanto a borboleta voa, boiamos sob sua sombra

somos batizados pelo Sol quando a pomba chega

espantando os insetos todos, dispersando a nuvem de gafanhotos

pois o foco naquela que era bela nem nos fez notar as pragas no ar

– assim é quando não se atenta que as maravilhas também podem cegar

maravilhas pequenas que ofuscam as de real grandeza

pois todo ser alado é passageiro, o que fica é o que os une

: as penas no mar onde plainam nuvens e paira o corpo

a imensidão – que, distraídos, diminuímos e limitamos

sendo que todo pouso é em um ponto específico

e todo vôo se dá na abrangência do céu

atmosfera que doa cor ao oceano: quando respiramos pintamos

– há azul saindo e há azul entrando.

Quanto mais expandimos junto ao cosmos, mais nos tornamos semelhantes

é preciso abrir os olhos, sentir a correnteza nos chamando

ela nos puxa pelos poros, massageia com o rigor dos pingos

eles nos batem e nos sovam até garantir um couro macio

para que nos penetrem os raios da aurora enquanto caminhamos rumo ao infinito

que se põe no lado oposto

– ao seguir o Sol a se pôr, seu futuro nos queima as costas

nós sentimos.

Durante o andar, no entanto, o que se eleva sobre nós é a Lua

e não é possível olhar para trás sabendo que Ela é nosso sal noturno

a medida certa é deixar que nos caia na pele

a pulverizar pigmentos de plácida alvura

na plenitude do escuro ao redor das partes de seu gosto

– é preciso seguir para além de sua brancura

é necessário fazer do corpo calvário maior do que salgado adubo

sagrado é ir em frente, pois quem volta com a onda se torna areia

estátua de grão que não se freia

escorre no tempo e faz de mar ampulheta

porque o amor de Lua tem suas fases na terra

enquanto as águas podem levar às alturas, desde que o Sol seja a fonte na qual se esmera

e reflete o horizonte que ultrapassa a rebentação e vira nuvem – é só depois das dores que se vai longe

e é só estando longe que se volta ao ponto onde tudo recomeça.

 

VIII

 

Todo lago é oceano para algum peixe

mas oceano jamais é lago para quem sabe que o nado é infinito

para todo lado.

É preciso alastrar feito rede e pescar eternidade

ao se alimentar da infinitude do movimento

pois é ilimitado o tempo entre dois números

– do zero ao um cabe o mundo inteiro… e foi então que fez-se a Luz

piscando bolhas no mar do pensamento

estoura instante em vislumbre – o lume ilumina cada pedaço do espaço como farol aceso.

Há ilhas que boiam, são os corpos que em meio ao sangue buscam oxigênio

pois água é o que preenche as veias do firmamento

e pessoas são as hemoglobinas da memória…

Há verde fora, e dentro é azul pra sempre.

A encosta revela outra pele

e o que se denomina orla é o abraço do espírito na matéria.

As mãos dadas liberam gotas, há liberdade nas dunas de areia

pois só quando se arrebenta as torres é que se une as diferenças.

Igual continua sendo seguir acreditando que se leva

o mesmo peso de antes, quando na verdade depois

a leveza do deságue é se saber mar de ondas perenes.

E quais rios desembocam em tuas artérias?

Tua foz é só uma ou em delta?

Qual a geometria que te circunda?

A raiz de tua água se aprofunda em quais terras?

Teus lençóis cobrem a cama de qual fundo?

E sobre tua superfície, quem navega?

Se o ar e a água se encontram no vapor, como não sutilizar o sentimento

e imbricar coração com mente de tal forma que sabedoria e inteligência

se tornem Amor?

Como não ser taça dourada que recebe o fogo que afoga em misericórdia

na justeza do rigor, sendo espada de dois gumes que corta nossa vaidade

e afia nossa espiritualidade, de quem aprende e sabe…:

as torres são pontes para o deserto, e o deserto é porta de entrada

para que a chama nos caia, elevando o broto à condição de flor!…

Alma imortal com perfume, o corpo é planície campestre

nasce e morre na eternidade da prece, e segue iluminado.

Quando estamos no topo da pétala iluminamos até onde os olhos alcancem

estando eles abertos: dos pés à cabeça –

no peito, nas costas, na garganta, na testa…

Como rosa que em cada parte irradia sua beleza, e o coro de todas as vozes

é a pupila que contrai e dilata como coração pulsante

bombardeando clareza.

Espinhosa beleza, há que se ver a raiz nas imagens que se interpreta.

Há que ir até as profundezas das carícias

que não são enxergadas, mas apenas sentidas.

Os elementos nos tocam como mão de Mãe que nos vela

e como lábio de Pai que nos sopra, para que queimemos

– somos fogo Nela para que Ele possa ser respiração em nós.

Então ventemos!

Sejamos inspirar que apenas aparenta estar morto

quando expiramos uma hora…

A morte é quando, da nossa torre, doamos todos os seus sedimentos

pois não é a morte que nos leva

mas nós que, poeirizados, nos ventamos e vamos embora…

 

IX

 

Voar, voar, nada mais que voar. E há urgência maior do que se permitir

ver as colinas de si? Certas torres não são literais

há que demolir a paisagem inteira

fazer tudo o que se cria grande ser eterna miudeza

– saber a pequenez do homem é o maior segredo.

Nós nos ventamos para longe, e todas as coisas mudam

pois o vento faz turva a água, como se eclipsasse

é então que todos os peixes nublam, forma tempestade em coral

há tsunamis de cardumes: a população alucina

quando seu firmamento de fronte cristalina

não reflete o alto como deveria – algo impede que a visão

chegue ao topo, é como se o vento os cegasse por um momento

e por um pouco acreditassem que o embaçado temporário

é a condição do céu que sempre vislumbraram

sem se dar conta de que a natureza brinca, e é mais profunda que seus olhos

bem como mais vasta que a soma de suas pupilas.

A sombra é o corpo aquém do fogo que aponta para o outro lado

por isso sentimos frio quando vamos em direção a ela

estamos nos afastando dos raios, como animais aquáticos que nadam para o raso

só porque é maré cheia, correndo risco de ficarem encalhados

especialmente nas ideias, campo minado de conchas antigas

encontramos qualquer cascalho e julgamos ser uma nova descoberta

quando todo sedimento na orla depositado

só pode ter vindo do fundo de nossas areias.

Por fim aprendemos que toda escuridão queima

pois a luz ainda nos fita, mesmo quando já não a vemos.

E não é o calor uma invisível chama?

Ele nos segue ao redor, preenche o espaço que tateamos

nos esquenta através do sangue, tal qual ferro

e quão maior a temperatura, mais vai ruborizando

ligando os motores internos

assim se conhece a atmosfera, é um saber vulcânico

vem conhecimento desde dentro para se encontrar com o externo

erguendo som agudo de quem canta alto e vibra a terra.

O magma impregna as rachaduras, forma novas pedras

– o que o planeta leva nas veias mata quando jorra das artérias;

a fogueira do ventre é indigesta, devora os entes que vê pela frente

e segue, fazendo com que todos derretam na acidez do tempo.

E não é a lava o fluido que ao matar incorpora novo fluxo em cada movimento?

Pois que a hemorragia da Terra é sangria que oxigena

e que também enferruja para que seja soprado o pó, que rubro corrói e vaza

como borracha que ao rascunho apaga

– imagina a perfeição dos pés que sentem na transparência do ar

o caminhar por sobre vulcões de vapor…

Já não é preciso se queimar: imunes às chamas, vivemos mergulhados em calor.

O batismo que tanto se espera se dará

quando sentir as solas como sóis fizer com que a Mente borbulhe Crear

e o Coração, em eterna erupção, dissolva tudo o que se Conhece

para que então haja a fusão de toda a Creação

em um único corpo

e Tudo coagule Amor ao expandir a Si em união aos Outros.