Estrelas Atropeladas

 

Estrelas Atropeladas

Le Tícia Conde

ATO ÚNICO

 

Cena I

[A cadela de um homem de rua acaba de ser atropelada. Ele chora. Uma moça entra no palco.]

 

Ela – Moço, você está bem? Você tá com as mãos sujas de sangue, quer ajuda? Eu tenho uma toalha aqui (quando bate a toalha no ar, Ele nota sua presença.).

Ele – Oi?! (Enxuga as lágrimas).

– Você está bem? Eu posso te limpar? Eu tenho essa toalha, ela está um pouco usada, mas não tá suja não, viu? Licença. (Se aproxima e limpa o rosto e as mãos de sangue).

– Você viu? Por quê? Por que fizeram isso? Ele passou com a caminhonete em cima dela e foi embora, nem freou, nada. Minha melhor amiga, atropelada. Eu não tenho mais nada. Ela era minha única companhia. E agora olha, toda estrebuchada.

– Eu sinto muito mesmo. (Silêncio) Tem algo que eu possa fazer por você?

– Tem nada não. Pode ir embora. Obrigado.

– Você não quer ajuda?

– Ela já morreu. De que adianta ajudar uma cachorra morta?

– Eu quero dizer, quer ajuda pra enterrar ela?

– Enterrar? Eu nem pensei nisso.

– Eu posso te acompanhar, se quiser.

– Onde?

– Ué, não tem um local onde você gostaria de enterrá-la? Uma praça, sei lá, talvez algum terreno baldio específico?

– Nunca pensei nisso não, moça.

– É, normalmente a gente só pensa nessas coisas quando acontece algum dia.

– Não, eu penso na morte todo dia, eu só não pensei no que fazer com um corpo. Afinal, se eu morro, quem tem que se preocupar com meu corpo são os outros.

– Os outros deveriam se preocupar com seu corpo enquanto você está vivo. Tá com fome?

– A fome sempre está, mas nem sempre a gente sente ela.

– Quer um lanche? Eu posso comprar o que você quiser comer. Um salgado, um hambúrguer, cachorro-quente, quer dizer, cachorro não, desculpe.

– Não precisa, eu não como bicho.

– Você é vegetariano?

– Eu sou!

– Nossa, você mora na rua e ainda escolhe o que vai comer?

– Como sabe que eu moro na rua?

– Ah, dá pra ver.

– É? Me conta, o que mais você vê?

– Eu, eu… desculpe, eu não vejo nada não.

– Você vê que eu sou pobre e daí acha que moro na rua, mas isso não significa que eu coma qualquer coisa. Se você come qualquer coisa mesmo podendo escolher, talvez a pobreza esteja em você.

– Eu tenho o direito de escolher comer o que eu quiser.

– Sim, claro, por ter dinheiro você tem direito de escolher comer porcaria. Mas não deveria. Então, vamos?

– Onde você quer enterrar ela?

– …eu não sei… acho que quero enterrar ela onde a gente se conheceu.

– Eu estou de carro, a gente pode colocar ela no porta-malas e…

– De jeito nenhum. A gente vai andando!

– Mas eu tenho carro, a gente pode ir…

– Não. Não tem discussão. Ela não vai em porta-malas nenhum, não, é andando. Eu não entro em carro não.

– É só que de carro economiza tempo.

– Você está disposta a gastar combustível comigo, gastar com comida, mas não quer gastar teu tempo, é isso?

– Eu só quero ser prática.

– Prático é estar morto. A morta aqui é você ou minha cachorra?

– De onde você tira essas coisas?

– Eu não sei, eu invento. E então: vai comigo ou não? Você não confia em mim, né? Tudo bem. Eu vou sozinho mesmo. Obrigado pela ideia de enterrar ela, foi você quem inventou essa.

– Não, é normal enterrar quem morre. Não tem nada de meu nisso.

– Olha, ir de carro é tão perigoso quanto ir a pé, eu poderia te assaltar e levar ele. Mas não vou, tá? Precisa ficar com essa cara não. E caminhando você está comigo, ninguém vai te assaltar estando com alguém como eu. Qualquer coisa eu falo que o assalto já é meu.

– Contra a lógica não há argumentos.

– E você não é obrigada a nada.

– Não mesmo!

– Mas se ofereceu pra ir enterrar ela, por isso tô convidando. Quem plantou a ideia foi você, ela cresceu e eu tô ceifando.

– Tá o quê?

– Ceifando. Ceifar, ceifar de colher. É um verbo tão bonito. Vem do árabe.

– Como você sabe?

– As ruas hoje estão cheias de imigrantes. A gente aprende alguma coisa se misturando, não acha?

– Não sei.

– Você não sabe se misturar é bom ou não?

– É, olha o que a mistura fez aqui: um racismo silencioso nesse país.

– E você é dessas que acredita que tem que ser preto prum canto e branco pro outro lado?

– Eu não quis dizer isso. É só que a mistura também gera coisas ruins.

– E o puritanismo não?

– Também. Mas tem raça e cultura que a gente tem que preservar.

– Você sabe o que significa a palavra crime?

– Algo de ruim, antiético, imoral que a gente faz, contra as leis, enfim.

– Crime vem do latim cernere, que significa ‘escolher, decidir, separar’, a origem dela tem relação com ‘peneirar, discriminar, distinguir’.

– Interessante. … E daí?

– E daí que cada vez que a gente separa, discrimina, cria distinções, a gente comete um crime, mesmo sem estar na lei: está na palavra!

Cernereme lembra discernir. (Pega o celular) Sim, dis – para fora, e cernere – peneirar, distinguir, separar.

– Você vê? Entre discernir e cometer um crime há uma linha tênue separando. E aí, já fez a tua escolha?

– Eu… eu vou com você andando. Você venceu.

– Não se trata de vencer, menina, e sim de enterrar minha melhor amiga, mas obrigado.

 

Cena II


Ela
– E para onde estamos indo?

Ele – Pra onde eu e ela nos encontramos pela primeira vez.

– Como ela chamava?

– Sírius.

– Tem uma estrela com esse nome, né?

– Tem sim, duas: Sírius A e Sírius B, elas andam juntas. É o que chamam estrela binária. A distância entre uma e outra é como do Sol até Urano. Elas brilham pra caralho!

– E por que você deu esse nome pra ela?

– Porque eu encontrei ela na Mato Grosso quando eu via um livro sobre estrelas da bandeira do Brasil.

– Pera, você disse que a gente ia enterrar ela onde se conheceram. A gente vai até o Mato Grosso andando?

– Mato Grosso é uma rua, menina!

– Ah… e o que a bandeira do Brasil tem a ver com isso?

– É que na bandeira cada estado é representado por uma estrela, e a Sírius representa o Mato Grosso, aí achei bonito colocar o nome dela de Sírius com a gente se encontrando na rua Mato Grosso, cê não acha? Coincidência pra caralho.

– O nome do encontro de várias coincidências é sincronicidade.

– Sincronicidade. Vou lembrar da próxima vez.

– E o teu nome? Nem perguntei, desculpa.

– Leticiel, prazer. E o teu?

– Júnior…

– Júnior não é nome de homem?

– É, e daí?

– Não, nada. Mas você é menina, né?

– Isso de gênero não tá com nada. Eu posso ser homem e você não saber, ainda.

– E você é?

– Não.

– Júnior por que então?

– Pra bagunçar a cabeça da sociedade. Que foi?

– Nada.

– Fala…

– Nada, é só que… na rua a gente conhece todo tipo de gente, sabe, e eu já conheci pessoas trans – é trans que fala né?, mas eu nunca tinha conhecido alguém que escolhe isso de propósito, só pra bagunçar a sociedade. Até onde eu saiba é porque nasce assim e ponto.

– Sim, é. Mas eu também acho que eu tenho a obrigação de fazer algo pra chamar a atenção pro preconceito enraizado, sabe?

– Você não é obrigada a nada, lembra?

– Sim, não. É que… é minha responsabilidade também, né. (Blackout) O que aconteceu?

– Sempre acaba a luz por aqui. Normal. Fala mais sobre essa responsabilidade aí de se chamar Júnior…

– É que eu acredito que nós somos responsáveis por mudar as coisas, sabe? Se eu faço diferente eu posso ser um exemplo pro coletivo pra aprenderem que as coisas podem e vão ser diferentes.

– Escuta, olha bem pra essa escuridão. Consegue ver alguma coisa? Eu posso te estuprar aqui, agora. E aí eu te pergunto: por que eu não te estupro? Você acha que eu escolho não te estuprar pra ser um exemplo pros homens? Quem está vendo eu ser um exemplo?

– Eu estou vendo. Eu ver importa, não? Mesmo que outros achem que você é perigoso por ser pobre, homem e tudo mais, eu vou ser sempre testemunha de que você é alguém que escolheu ser bom afinal. (Silêncio). Você tá aí?

– Sim. Você tem razão. Importa os outros enxergarem, mesmo sendo 1.

– Sim, importa, olha o céu, está cheio de estrelas. Elas brilham mesmo que ninguém veja. Todas brilham, parecem iguais, mas são completamente diferentes, cada uma gera um tipo de sistema. Ser exemplo de que pode ser diferente é coisa de grandeza. Não é pra que todo mundo veja, é pra criar beleza!

– Sim, Júnior, assim é!

– E o teu nome, de onde veio?

– Leticiel? Ah, minha mãe dizia que Letícia significa alegria e que El significa Deus, então que eu nasci pra ser a alegria de Deus: Leticiel.

– Letícia é nome de mulher, e o El é de homem, mistura e fica parecendo o quê? Anjo!

– É, os anjos e arcanjos têm El. Todos eles têm Deus no nome.

– Como você sabe tanta coisa morando na rua?

– E pobre tem que ser burro por acaso?

– Não, mas pobre tem menos acesso às coisas.

– Materialmente sim. Mas eu aprendi por aí, ouvindo as pessoas, conversando com outras, lendo o que jogam fora. Você não acredita no tanto de coisas vivas que as pessoas jogam fora porque acham que estão mortas. E eu sempre fui curioso. Aí eu pego tudo o que o povo acha que tá morto, enterro em mim e pronto, ganha vida de novo.

– Você parece mesmo um anjo.

– Vai ver eu sou. (Ela ri). Tá rindo por quê? Acredita não?

– Não. Isso de anjo é muito cristão pra mim.

– E Buda é muito hinduísta pra você?

– É diferente. Buda não obriga a nada.

– (Ri alto) De onde você tirou isso?

– É verdade, ele aceita todos como são, você não precisa seguir regras pra seguir ele.

– É, pra seguir hoje em dia não precisa fazer nada, só apertar um botão.

– E o cristianismo fez muita merda.

– O homem faz merda em nome de Deus até sem Cristo, olha o Islã e o radicalismo.

– Ah, mas pelo menos eles lutam contra os Estados Unidos.

– Nada justifica a violência. Não existe causa nobre para se matar. O que há é a nobreza de se morrer servindo os demais.

– Isso tem cara de escravidão pra mim.

– E você sabe o que é escravidão então? Pensa: eu posso te assaltar, te estuprar, te matar e falar que você me deve por ter dinheiro e ser branca. Você é como eles, cúmplice.

– Eu não escolhi nascer branca.

– Então você é a única branca no planeta que nasceria preta se tivesse a chance?

– Eu, eu seria… eu seria preta sem problema.

– Tô vendo. E o dinheiro?

– Eu sou a favor de todos terem dignidade para viver.

– Ah, sei. Você só por acaso não trabalha nos EUA, porque mora no Brasil e adora o Brasil, não é? Patriota, tenho certeza.

– Não, não é isso. Não tem a ver com patriotismo.

– Não, não tem a ver com amar seu país, tem a ver com odiar a nação alheia.

– É a história. É um problema histórico. Você não entende.

– Claro que eu não entendo, eu sou pobre e preto.

– Não é isso, eu não tô sabendo me explicar.

– Sabe o que minha mãe dizia? Que a gente tem que honrar o próprio nome.

– E você é a alegria de Deus?

– Eu sou, ou tento ser.

– Não parece. Digo, você não parece alguém alegre.

– Você acha que o que você pensa ser alegria é o mesmo que Deus pensa?

– Eu não sei o que Deus pensa, mas alegre é alguém pra cima, né, que anda de cabeça erguida.

– Então a alegria de Deus seria alguém que faz Ele olhar pra cima. Exatamente. Você acha que eu faço Deus andar de cabeça baixa por acaso?

– De Deus eu não sei, mas sei que você anda de cabeça baixa, não parece alegre.

– Eu sou, por dentro. É justamente por manter minha cabeça baixa, preocupado em ajudar quem tá na Terra, que Deus se alegra e, sem ter que se abaixar para me vigiar, pode olhar pro alto e se ocupar de saber pra onde nos leva.

– Bonito isso, a alegria de Deus ser não precisar se preocupar com o Humano.

– Sim, a alegria de todo criador é o contentamento leve em saber-se independente da criatura que criou. Como o pai que se alegra em ver o filho se tornar um indivíduo.

– Você parece poeta.

– Eu sou.

– Você é um bom homem, certamente é um bom filho.

– Não sei. Minha mãe morreu cedo. Guardo a lembrança do nome, mas o resto eu vou esquecendo.

– E teu pai?

– Meu pai fez de tudo para me criar bem, mas não sei se fui o filho que ele gostaria de ter.

– Eu gostaria de ter um filho como você.

– Não fala besteira.

– É sério. Eu nunca quis ter filho, mas teria orgulho de ter um filho como você. A tua mãe deve estar orgulhosa.

– Obrigado pela delicadeza. E ele vai se chamar como?

– Quem?

– O filho, se você tiver.

– Ah, Davi, eu acho, nome de rei.

– Ué, pra quem não gosta de cristãos. (Ela ri, sem graça)

– É que Davi significa amado, querido, o predileto, respeitado. Eu gostaria de ter um filho que fosse tudo isso. Além disso, o rei Davi venceu o gigante Golias. Quem luta contra gigantes sim é um homem grande!

– Verdade. Saber usar uma pedra faz ganhar lutas.

– É, e ele também lutou contra urso e leão para proteger suas ovelhas! Imagina! Lutar contra animais enormes para proteger os indefesos!

– Se eu pudesse, lutaria contra qualquer máquina para proteger a Sírius.

– Eu sinto muito.

– Tudo bem. É importante também lutar contra os monstros nossos, senão a gente fica pego em vingança e acaba esquecendo até de fazer um simples enterro. É preciso enfrentar os monstros internos para conseguir enterrar os mortos que temos. Só com eles enterrados é que dá pra chamar de volta pra fora da terra.

– Como assim?

– Como semente: enterrar o caroço é poder chamar a árvore e fazer com que surja o broto.

– Que lindo! Nossa, olha, um gatinho! Ai que dó!

– Parece que esse aí foi atropelado também. O que você tá fazendo?

– Ué, não é preciso enterrar os mortos? Então, vamos enterrar ele também.

– Tava falando de simbolicamente enterrar o que temos dentro.

– Mas o de fora tem que seguir o mesmo movimento, enterra dentro – e fora fica tudo cadáver fedendo? Não, nojento! É fora e dentro.

– Tá certo.

– Já sei, e se a gente der um nome pra ele?

– Nomear um morto? Pra quê?

– Oras, você não falou que tem que chamar a árvore para fora? Vai chamar de maneira genérica? Como ele vai saber que é com ele? A gente tem que chamar pelo nome, né?

– Tá bom, a gente nomeia então.

– Que tal o nome de outra estrela? Deixa eu ver. (Google) que tal Alpheratz? Diz ser uma estrela de quem busca liberdade e movimentação. Me lembra gatos.

– É sincrônico, não? Então está nomeado!

– Vamos pegar ele, coitado…

 

Cena III


Ela
– A gente pode parar só um pouco? Meus pés estão doendo. Ah, tá sangrando quase.

Ele – Vai dar bolha. Quem manda ter pezinho delicado.

– Faz quanto tempo que a gente está andando?

– Deve fazer uma hora. Uma e algo.

– Tá com fome? Eu tenho um chocolate na minha bolsa. Vou pegar. É dos bons… prova.

– Só um pedaço.

– É importado. Puro cacau.

– Caramba, é super amargo.

– Sim, são os mais saudáveis.

– É, o saudável passa pelos sabores mais amargos mesmo, até na comida.

– É só um chocolate.

– Mas serve pra muita coisa. Tudo está conectado através das analogias. A maior parte das coisas saudáveis não são naturalmente gostosas, a gente não está acostumado. Nosso paladar pra vida é trocado.

– Como assim?

– Oras, o que faz a gente crescer: ser feliz ou ser triste?

– Os dois. É relativo, eu acho.

– Se tudo fosse relativo, a vida não seguiria uma hierarquia cronológica para as coisas. Observe: ninguém nasce com o corpo inteiro, pronto pro uso. Vai espichando aos poucos. E dói crescer. A gente cresce sofrendo, porque os traumas são de quando somos pequenos, aí as alegrias vêm depois que a gente já cresceu e sabe reconhecer que o sofrimento trouxe ensinamentos, ou a possibilidade deles.

– Ou seja, alegria é sofrer. É isso? Que loucura.

– Alegria é sofrer sabendo. É diferente de sofrer sem saber.

– Não tem como sofrer sem saber.

– Ah, Júnior, há mais formas de sofrer nesse mundo do que de ser feliz na eternidade.

– De sofrimento você sabe melhor do que eu.

– Por quê?

– Porque você mora na rua, é preto, sozinho no mundo e acabou de perder a melhor amiga.

– É, tudo isso pode causar sofrimento mesmo.

– Ainda mais no tempo em que a gente vive.

– Pode ser, mas se morar na rua, ser preto e solitário é sinônimo de sofrimento, morar em mansão, ser branco e viver na multidão é sinônimo de ser feliz. E você acha que é mesmo? Sofrimento é não poder escolher onde e o que viver, é diferente. É ser obrigado a viver num lugar mesmo sem querer, seja rua ou mansão. Prisão é prisão, com ou sem enfeite.

– Ah, mas é como dizem, se for pra sofrer, melhor sofrer em Paris do que aqui. Entende?

– Entendo. Mas também, Paris é harmônica. Lá meio que tudo está em sincronia, parece! Agora aqui, eu não vejo harmonia em nada. E você, tá vendo?

– Eu acho que essa ideia de harmonia é um conceito bem europeu. Aqui tem sua harmonia de acordo com a nossa realidade.

– Jura? Você acha harmônico a gente aqui sentado numa sarjeta indo enterrar um gato e uma cachorra nesse bairro que não tem uma casa bem construída? Tudo feito aos pedaços por falta de dinheiro. Isso parece desculpa pra engolir o que não consegue dar jeito.

– Eu sou contra a gente enfiar uma cultura goela abaixo na garganta do povo, só isso.

– Miséria não é cultura, Júnior. Fome não é cultura. Falta de dignidade não é cultura.

– Mas forçar um modo específico de riqueza também não é solução.

– De fato, não, não é. Mas assim como ser rico não é qualidade, ser pobre também não é.

– Mas quem tem bens e posses tende a ser pior.

– É, a pessoa se torna apegada à matéria. E você, sabe qual o problema em se apegar à matéria?

– O acúmulo! Fica tudo em uma mão e o resto sem.

– E quem tem muita coisa acumulada sente falta de quê?

– De nada, ué.

– Os ricos parecem felizes e satisfeitos pra você?

– Não.

– E por que eles não estão satisfeitos, se eles têm tudo o que querem?

– Ganância! Quem tem sempre quer mais.

– E não parece que eles sentem falta das relações verdadeiras, mesmo sem perceberem?

– Depende de quem.

– Tá, já deu pra entender que a matéria não determina caráter e psicológico de ninguém, então que cada caso é um caso, mas vamos pensar…

– Pensar, você tá pra filósofo também?

– Sim, eu amo a sabedoria. Agora pensa: partindo só do pressuposto da tendência, para onde as coisas tendem a ir, ainda que não necessariamente caminhem por ali, os ricos tendem a ter dinheiro e sentir falta das relações humanas, certo? Às vezes eles nem confiam em ninguém. Sem amigos, ou com relações apenas baseadas em grana. O dinheiro se torna uma espécie de deus. A matéria se torna uma espécie de deus, não é?

– Concordo.

– E o que é uma verdadeira relação humana? Ou uma relação humana verdadeira.

– É quando os sentimentos são reais, eu acho.

– Como você sabe se a nossa relação aqui, agora, é real?

– Porque você tá sendo verdadeiro. É sincero. Não precisa de dinheiro.

– Pois é, não precisa ser mediada pela matéria. Então se entre os ricos é o dinheiro que faz a ponte, entre nós dois, em que ponte estamos caminhando?

– Não sei.

– Vamos, pense. Se dê tempo para pensar.

– Acho que o que faz a ponte da nossa relação é o sentimento. Eu me senti mal pela Sírius morta, senti compaixão pela tua situação, empatia e tudo o mais, e aí isso fez a gente chegar onde a gente tá, aqui.

– E você não é pobre como eu… Então quer dizer, todos são capazes de criar uma relação, com dinheiro ou não.

– Sim, mas o dinheiro dificulta.

– Exato. Ele faz você acreditar que não existe sentimento, só a matéria. E o sentimento, ele pode criar barreira como o dinheiro?

– Acho que não, né. Talvez não ter sentimento crie uma barreira.

– Mas a gente sente mais dor quando morre alguém próximo do que alguém distante, né?

– Sim, mas é diferente.

– Diferente como?

– Porque a relação já existia quando um amigo ou parente morre, a morte vem depois da relação. Você sente a mesma dor pela morte de Alpheratz que pela da Sírius?

– Eu tento. Mas é mesmo muito difícil.

– É porque você não conhecia ele, mas ela sim. Foi porque ele morreu que você sentiu algo, senão ele tava por aí que nem vários gatos estão, pra lá e pra cá, e a gente nem sabe e não sente nada.

– Pois é, então quer dizer que o sentimento focado em um determinado ponto, em uma pessoa, uma coisa, um bicho, um gato, também pode ser empecilho pra criar uma relação verdadeira com o resto dos seres, não parece?

– Nossa, complicado. Não sei se é o sentimento que é o empecilho, mas a falta dele, como falei.

– Isso seria o mesmo que dizer que é a falta de dinheiro que não me permite ter relações como os ricos têm. E que eles estão certos em não se relacionar com quem não tem o mesmo tanto de dinheiro.

– Mas os sentimentos a gente tem, é nosso, mesmo sem a outra pessoa ter.

– É, e aí a gente tende a se relacionar apenas com quem a gente sente algo, não é? Você só veio falar comigo porque sentiu algo devido a um fato concreto, senão nem ia notar que eu existo.

– Eu não sou perfeita, mas procuro notar a existência alheia.

– Não me importam os teus erros, ou o tamanho da tua cegueira, o que eu quero dizer é: você precisou sentir algo para estabelecer contato. É ou não é?

– Sim.

– Algo bom, certo? Não que seja boa a morte da Sírius, mas é saudável sentir empatia, compaixão. Isso mostra que é quando o sentimento cria foco que a relação se revela. Mas ainda assim o resto continua sendo ignorado. Pouco importa aqueles em quem a gente não foca, por quem não sentimos algo.

– É, acho que é inevitável, não dá pra se relacionar com todo mundo. Mas dá pra sentir empatia e compaixão por um tipo de gente. Como sentir compaixão por todos os pobres.

– Sim, mas você sentir compaixão pela falta de dinheiro não é o mesmo que sentir repulsão por alguém só porque a pessoa tem dinheiro?

– Mas eu acredito que a gente tem que repudiar os ricos mesmo.

– Júnior, meu filho, eu posso te repudiar então? Perto de mim, você é rico. Rico, branco, que mais? Me diga, quem é você, querido?

– Ah, é diferente. Eu não fico acumulando dinheiro.

– É, nunca é com a gente. Mas tá, aí, mais uma vez, teu dinheiro não define o que eu devo sentir por você. Tá vendo?

– Mas se você quiser me odiar, eu entendo. Está no seu direito.

– Que direito o quê! Direito de odiar os outros?! Meu filho, direito é ter acesso à saúde, direito é poder ir e vir, direito é poder trabalhar com dignidade, direito é ter leis que se apliquem a todos de verdade! Odiar não faz parte disso não!

– Ah, mas a gente tem direito de odiar um nazista, fascista.

– Não, a gente tem o direito de prender um maluco desses, e repudiar políticas como essas.

– Fale isso pros judeus, pros negros, pros gays… fala pra eles não odiarem quem mata eles pra você ver.

– Eu sou pobre, negro e gay, Júnior.

– Você é gay?!

– Eu sou! E você está usando de categorias de que não faz parte, acha justo isso?

– É histórico, não pertence a um grupo.

– É. E é importante a gente lembrar e ter esse espírito e não permitir que voltem a acontecer essas atrocidades, mas não é através do ódio que se mantém elas longe da sociedade. Elas em si nascem através do ódio.

– Sim, mas você quer o quê? Amar o inimigo, aposto.

– Amar não é ser passivo diante dos que matam, mas sim compassivo com os que morrem. É diferente.

– Mas aí você sente o que então pelos que matam?

– Eu, Leticiel, tento sentir amor sim, mas isso não significa que a gente não deva ter o direito de pôr esses assassinos na cadeia. Amar não é deixar livre e fazer o que quiser, pelo contrário. Amar pode significar prender, dar limites, como os pais fazem com os filhos, pai e mãe põem filho de castigo por amor, não é?

– É tudo muito bonito, mas com adulto é foda fazer tudo isso. Eu quero é que todo mundo morra mesmo, mundo maldito cheio de gente escrota. Que se exploda! Olha, outro gatinho. (faz o chiado típico de quem chama gato) Ai que fofinho!

(Do nada, ouvimos o acelerar de um carro e um grito de gato sendo atropelado).

– FILHO DA PUTA! MAS POR QUE ISSO? Ele acelerou pra atropelar o gatinho! Filho dum cu, filho da puta, cretino, cuzão! Que mundo merda! É tudo uma merda, isso não vai acabar nunca! Aí óh, cadê o amor? De que adianta agora? Quem vai prender esse filho da puta? Ninguém!!! (Júnior vai tendo um surto até cair em lágrimas. Calmamente, Leticiel vai até ela e a abraça, silenciosamente).

 

Cena IV


Ele
– E qual vai ser o nome desse bebezinho?

Ela – Não sei.

– Pega aí o celular, escolhe uma estrela pra ele.

– Que tal Algol? É o nome da estrela correspondente à cabeça da Medusa, é violenta! Para que cabeças rolem!

– Falando nisso, sabia que na Grécia se dizia que pessoas que sofressem a influência da Sírius tinham algo chamado Astroboleto? A influência dela era tida como negativa. Imagina, é como se recebesse mesmo um boleto dos astros a ser cobrado. Dívida com o mundo é dívida a ser paga aos céus, meu caro.

– E você acredita nisso?

– Nisso o quê?

– Em mapa astral, influência de estrelas, planetas, essas coisas, sabe.

– Olha, não sei nada disso, mas uma coisa eu garanto: o céu sempre andou comigo. Quem anda com o Sol tem tudo, há que se andar sabendo que as estrelas caminham juntas, e os planetas e satélites seguem sempre uma.

– Pra mim a Lua é uma grande deusa.

– E o Sol é um grande Deus. Ela é reflexo dele, veja. O que ela tem de mais bonito, ela deve a ele.

– Ah, isso me soa como machismo.

– Poderia ser se eu estivesse inventando isso, mas não estou. A Lua recebe a luz do Sol, ela é apenas um satélite. Não há nada de inferior nisso, é apenas diferente.

– Se eu pudesse, seria como a Lua.

– Há tempos de se ser como a Lua e há tempos de se tornar um Sol.

– Não sei se eu quero me tornar um Sol.

– Por quê?

– Ah, deixa pra lá. Não importa! Vai ver é hora d’eu ser Lua, e só.

– Lua está relacionada ao emocional, ao familiar, né? Como é tua família?

– Eu não gosto de falar dessas coisas não, nem de sentimento nem de família.

– Por quê?

– Você parece uma criança com tanto ‘porquê’.

– Desculpa aí, é só que eu falei da minha mãe, do meu pai, pensei que pudesse perguntar de você.

– É, me desculpa também, é só que… dói.

– E você acha que não dói perder a mãe tão novo como eu perdi?

– Meus pais estão vivos, mas não gostam muito de mim. Eles não me entendem e não me aceitam.

– Por que eles não te aceitam?

– Porque eles querem uma filha toda feminina, e olha pra mim, eu me chamo Júnior, caralho!

– Então você se sente mal por causa das coisas que eles gostariam que você usasse?

– Nome não é só uma coisa, faz parte do meu ser no mundo.

– Não, faz parte do teu estar no mundo, você está sendo o Júnior, quando morrer, deixará de estar aqui para estar sendo em outro mundo. Ou você acredita que leva o nome, RG e CPF junto?

– Respeitar nome é uma questão de respeitar como eu desejo estar, que seja!

– Sim, é importante respeitar o nome de cada um. Como já citei minha mãezinha, nome é pra gente honrar!

– Pois é, e meus pais não respeitam isso, ficam querendo que eu me vista como essas mulheres de revista, não dá.

– Eu gostaria que minha mãe tivesse viva querendo que eu me vestisse como homem de revista.

– É diferente.

– Eu gostaria que minha mãe tivesse viva querendo que eu me vestisse como mulher de revista. Agora fica igual?

– Não, você é homem, eu sou mulher.

– Veja, eu entendo que os pais esperam muitas coisas dos filhos, e entendo que homens que nascem em corpos biologicamente femininos devem ter sua masculinidade respeitada. O que não é o teu caso, né?

– Não.

– Então… eu sei que todo mundo deveria ter o direito de se vestir como quiser, mas roupa é só algo que se troca todo dia. Precioso é o corpo. Olha a Lua, até a forma dela se vestir de luz muda, por que nós não mudaríamos?

– Fala isso pros meus pais.

– O que eu quero dizer é que talvez você também deva se importar menos com a roupa que usa, e mais com você se amar quando nua.

– A Lua nunca fica nua.

– Quem disse?

– Só se for quando tá Cheia.

– Não, ao contrário, a Lua fica nua quando Nova, que é quando ela nasce. Você já viu alguém nascer vestido por acaso? Quando é Lua Nova significa que ela está nascendo de novo; também pode ser lido como ela se deitando com o Sol, porque os dois estão juntos, e ninguém fica vestido na noite de núpcias.

– A minha Lua é gay.

– O meu Sol também. Isso não significa que ele não se deite simbolicamente com uma figura feminina. Assim como não evita que minha Lua esteja junto de uma figura simbolicamente masculina. Entende?

– Acho que não.

– Meu lado masculino precisa do lado feminino de alguém, mesmo que esse feminino venha de um homem. Assim como meu lado feminino precisa do lado masculino de alguém, mesmo que esse lado masculino venha também de outro homem. Todos nós temos os dois dentro, mas eu preciso saber reconhecer o que acessar em cada momento, senão se torna uma relação doente, porque dois polos iguais não geram movimento. E isso tudo não tem a ver com a roupa que eu visto, nem com a atração sexual que eu sinto, ainda que a roupa e o gênero possam expressar isso de alguma maneira.

– Pra mim, a roupa é uma forma de oprimir a expressão do meu lado masculino.

– A liberdade, menina, está para além dos elementos.

– Você fala isso porque é homem.

– Um bem-te-vi continuará sendo bem-te-vi mesmo que o vistam com as penas de um beija-flor. É pelo canto que o reconhecemos. Confie mais na tua voz interior!

– Posso te fazer uma pergunta íntima?

– Claro, por favor.

– Você acha que você é gay por ter perdido a mãe cedo?

– Acho que já vi muito gay que cresceu com a mãe do lado, talvez isso não seja um fator. Mas pode ser, vai saber…

– Não tem resposta fácil, né?

– Não, as respostas não são fáceis, ainda que possam ser simples, como: eu sou gay porque sou gay, e só isso. Nem tudo precisa de um motivo material para ser, e nem ter que identificar um porquê na minha história.

– Ou seja, as coisas que realmente importam não são nem materiais nem históricas.

– Exatamente.

– E são o que então?

– Você disse bem, elas são. A matéria e a história geram apenas estados, estados de coisas que são alterados de tempos em tempos, não?

– Eu nunca tinha pensado por esse lado…

– Na matéria e na história não é possível haver o ser, a gente apenas está. Por exemplo, estamos sendo amigos agora, amanhã não mais.

– Eu gostaria de continuar sendo tua amiga.

– Amanhã todas as coisas serão novas, como a Lua, que quando Nova começa sua jornada toda de novo, nos dando a oportunidade de sentir outras coisas.

– Eu continuarei sentindo o mesmo que sinto hoje.

– É bonito você ser fiel ao que sente, mas lembra, o que sentimos também cria foco e evita que você se relacione com toda a gente?

– Nossa, sim. Então qual é a solução? Não se apegar?

– Amar!

– Ah, não! Cê tá zuando com a minha cara… Amar?

– Amar!

– Mas amor é um sentimento.

– Não, o Amor é a fonte de todos os sentimentos.

– Impossível. Como que o amor é fonte dos sentimentos? Ele é um sentimento!

– É que um Sol, uma estrela, de longe, entre os planetas, parece também um planeta ou os planetas parecem estrelas, mas quando a gente olha mais de perto vê que é diferente, porque um Sol não é um planeta, e só ele é de fato uma estrela, e isso faz toda diferença. E assim também é o Amor, que doa energia para que os sentimentos sejam.

– Como ele pode ser fonte do ódio, da raiva, do rancor, da mágoa, de tudo ruim que a gente também sente e tem?!

– É que o Amor é como o Sol, os sentimentos são todos os planetas e satélites ao redor dele. Ele ilumina e dá luz aos outros, ele que permite que haja vida e as coisas cresçam e os seres sejam, assim como também é a luz dele que faz com que a sombra apareça. A Luz revela a Sombra como consequência.

– Então ele é o responsável por tudo de ruim que tem na natureza?

– Veja, se não houvesse Sol, não haveria planetas, não é mesmo? Porque um sistema só existe ao redor dele, um planeta só é planeta porque há uma estrela guiando ele. E o que nós conhecemos como sombra é porque há vidas diferentes do Sol, são elas que fazem surgir a sombra, porque se tudo fosse Sol não haveria sombra, não é mesmo?

– É, acho que sim…

– Isso significa que não é o Sol que irradia sombra, assim como não é o Amor que nutre sentimentos de ódio, medo, rancor, mas sim nós, que somos criaturas, nós que fazemos com que tudo isso surja, porque não somos amor, ainda que seja um dever nos tornarmos como ele, porque seria honroso se tornar como o Sol e levar luz pra todo o sistema, não é mesmo?

– Mas isso é muito difícil. É muito difícil amar e ser puro amor todo o tempo. É como você falou, amar pode nos levar a fazer coisas que nem sempre são agradáveis ou fáceis de serem feitas, como prender alguém que amamos.

– Sim, pois é. É dificílimo se tornar como o Sol, mas por isso que é preciso ter fé no Amor.

– Ih, isso de fé não é comigo.

– E por quê? Fé significa confiar, é tão simples… a gente só precisa confiar no Amor, porque Ele é como o nosso Sol, e a partir da hora em que há Sol, a partir da hora em que há Amor, nós passamos a viver na Luz e para a Luz e ver que, se nós não somos capazes de ser como ela, ainda assim ela existe e pode iluminar aonde a gente for.

– E assim como o Sol guia os planetas que giram ao redor dele, o Amor passa a guiar nossos sentimentos e os sentimentos passam a girar ao redor dele.

– Sim, exatamente.

– É… Bonito.

– Sim, é belo e bom saber que existe algo que pode guiar nossos sentimentos e ações, guiar a nossa vida.

– É, não deixa de ser reconfortante de alguma forma. Mesmo com tanta morte pelo caminho.

– Falando nisso, um cachorro.

– Morreu do quê, será?

– No meio da rua assim, deve ter sido outro atropelamento.

– Mas todo mundo dirige sem ver por onde passa, meu deus?!

– Ah, minha querida, a gente se atropela o tempo todo e não vemos.

– Cara, nem a Lua e a Terra, que estão tão perto, nem elas se atropelam! Como fazer pra ser como os planetas que andam a mais de mil quilômetros por hora num balé perfeito?

– Dançar, eis o que não sabemos.

Aprender, eis o que devemos (ela estende a mão para ele).

(Eles dançam. Quando param, ela volta a olhar o cachorro morto…)

– E ele?

– Batizemos. Busque um nome.

– Tem horas em que um nome importa demais, outras, de menos.

– Qual o teu nome de nascença, aliás?

– Ah, eu prefiro não falar.

– É tão feminino assim? As coisas femininas também são bonitas.

– Eu sei, eu não tenho nada contra o feminino em si.

– Então qual o problema com o nome?

– Nomear as coisas muda tudo.

– Sim, é verdade. Nomear faz com que se torne realidade, ganha vida.

– Pois é, vai ver eu tenho medo de nascer de verdade.

– Olha, faz horas que estamos nesse parto.

– É, eu sei, eu sei que uma hora eu nasço.

– Posso te contar um poema que fiz esses dias?

– Sim, por favor! Claro!!!

– Eu dedico a você, Júnior, e a todos os Júnior’s que existem nesse mundo:

Se me perguntas, não digo que sei teu nome
Mas afirmo saber de tua flama, brilhando forte, altiva
Quando o mundo te chama e respondes com teu silêncio
A língua de todos os Anjos, porque silenciando
Todos os homens falam para além de si mesmos.

E quando te calas te vejo em fogo
Ardes, e não sabes; iluminas, e não sabes;
Queimas, e não sabes; teu espírito sobe aos céus feito fumaça
E não sabes, porque dormes
E esperas que eu te chame pelo nome para que acordes.’
(Silêncio). Aonde você vai?

– Pegar ele pra gente enterrar também.

(Emocionada, ela vai andando esfregando os olhos, deixando claro que não está fazendo uso pleno da visão.).

– Júnior, cuidado. NÃO, CUIDADO! (Com ela ainda em palco: clarão. Ouvimos o barulho de freio seguido do atropelamento da jovem e o carro depois dando ré, sumindo.) Júnior, querida! Não! NÃO! Fala comigo, fala comigo. Cadê seu celular? Eu preciso ligar pra ambulância, polícia, não sei, eu não sei os números, meu deus.

– Lê, meu anjo.

– Shiu, não fala, calma, eu

– Lê

– Eu não sei usar esse negócio, meu deus, senha… não sei senha.

– Leticiel

– Qual a tua senha, como eu abro?

– Lê, presta atenção, o meu nome

– Tua senha é teu nome?

– Não, meu nome

– Não funciona, essa merda

– Lê, (ela finalmente consegue a atenção dele), meu nome de nascimento é Sol.

– Sol? Você se chama Sol?

– Sim. Uma estrela.

– Ah, minha pequena!

– Obrigada por me ensinar tanta coisa hoje.

– Amanhã eu vou te ensinar mais, você vai ver, amanhã!

– Amanhã é um novo dia, lembra?

– É, mas…

– Lê, eu te amo!

– Ah, Sol. Sol! Meu Sol, eu também te amo!

– Me promete uma coisa?

– Não, não vou prometer nada porque você vai sair dessa, a gente vai irradiar Amor por aí, pra toda gente.

– Promete que vai enterrar eles?

Meu Deus, Sol.

– Promete? Promete que você vai enterrar essas estrelas atropeladas?

– Eu prometo.

– Mesmo?

Eu juro.

– Olha que sincronicidade, eu morrer bem no dia em que nasço!

– Você vai morrer acesa, Sol Júnior, você vai morrer acesa!

– Obrigada, meu amigo. É uma honra morrer nos teus braços.

Chaveiro Celeste

Carrego um molho nas mãos
são chaves que pingam como suor
a abrir portas pelo caminho
sendo o destino um só:
ajudar quem precisa aprender a molhar
o pão para ter permissão
de seguir até o cômodo mais íntimo
aquele cuja saliva guardada na boca fechada
se torna a chave-mestra que, junto da espada,
degola e encerra os que não tiveram os pés molhados
para assim confirmarem os passos
aos que estão mergulhados no labirinto
um mar morto que se torna vivo para que se abra
a boca com sementes de ouro
somente aos que verdadeiramente querem trabalhar
nos jardins do palácio
aprendendo assim a regar todas as flores
através do sofrimento e da alegria
sendo a seiva de toda flor
feita de cada uma de suas lágrimas
tornando-se capaz de ajudar a construir o próprio palácio um dia
porque se exercita com o molho que pinga de seu corpo
arando a terra com os dentes das chaves que lhe foram dadas
sendo a profundidade de cada sulco
o segredo do flagelo que abre as portas do castelo
como quem bate por conta da secura
sabendo, pelo coração, o toque certo
porque é preciso tornar-se a chave última
não a do molho, mas do oceano
porque todo reino é lavrado e erguido
para, ao fim, voltar a ser mar
ainda maior do que fôra antes.

Ressurreto Sísifo

Ressurreto Sísifo, tu, que foste feito para trabalhar
por toda a eternidade, erguendo castelos em glória aos céus
e cuidando dos jardins que te foram dados
tu, que uma vez acordado
carrega pedras de forma incansável
subindo e descendo a íngreme verticalidade
da montanha, que como um dedo aponta
para a imensidão que a cada hora
te fornece uma pedra nova
tal qual astros que carregas nas costas
tu, que recebe tudo isso e arduamente labora
orando para que a brutalidade
ao descer, se desgaste
tornando-se um lápis filosófico
com o qual traças o destino próprio
escrevendo no chão da terra
ao subir de volta
o lirismo de um telúrico Narciso
que em carne se torna a própria roda
que faz girar todas as constelações
não porque está preso e é escravo de si mesmo
mas porque em liberdade se torna o responsável
por costurar as estrelas
e formar o manto dourado do próprio Deus que o comporta
sabendo da honra que é poder subir e descer com pedras
que com esforço rola
ressurreto Sísifo, tu, que foste feito à imagem e semelhança
daquele que trabalha de sol a sol em misericordiosa andança
caminhando sempre, sem ter onde dormir
indo aonde possa ajudar quem sua pedra não aguente
dando água aos que têm sede
e pão aos que a fome faz tremer e quase ruir
tu, que tal qual pai paciente ao filho pequeno acompanha
tu, que tal qual pai sábio ao filho crescido aconselha
tu, que tal qual pai amoroso ao filho adulto, que se julga senhor do mundo
abraça e perdoa, curando para sempre a vaidade alheia
tu, que tal qual pai adotas todas as criaturas do céu e da terra
porque és exemplo de como o último
retorna primeiro
porque humildemente faz-se servo
não só daqueles que em aparência o rodeiam
mas escravo de todo o universo
tu, amado, és também tal qual filho primogênito
aquele do qual tudo foi creado
para que se tornasse teu berço
até que chegasse o tempo
de te ensinar a como se levantar na cruz
para que finalmente descobrisses teu real leito
não da cama onde te deitas e ainda sonhas
mas do trono que, ao te receber ressurreto, é fonte tal qual rio
que corre para o oceano imenso
descobrindo assim que és apenas uma criança
que sai dos braços da mãe
e vai em direção ao pai
e sai dos braços do pai
e vai em direção à mãe
cada vez que um aponta o outro
como dois dedos dados em casamento
um chamado morte, e o outro, nascimento
sendo eles as montanhas
que sobes e desces com tuas pedras
até que tu mesmo, Sísifo ressurreto,
te tornes um diamante
que fracione a semente – Luz de teu ouro
parindo de si o próprio Universo.

a Poesia do Amadurecimento . : . sombra e Luz: o amanhecer

O que é o amadurecimento?

Qual é a poesia do verbo amadurecer? Qual a poesia do amadurecimento? Qual a poesia da maturidade?

Este verbo, amadurecer, é composto por ad-, do latim, que significa para, e maturare, também do latim, que significa ‘estar pronto para a colheita’, que se relaciona ainda com mane, referente a manhã, ao que é cedo.

Com isso podemos observar num primeiro momento como o amadurecimento tem relação com aquilo que está pronto para nos apresentar algo sob uma determinada luz, uma luz que esclarece, de uma manhã que traz às vistas novos significados e novos detalhes, possibilidades.

É muito pertinente observarmos, por exemplo, como que o ser humano, nós, vamos amadurecendo aos poucos, e como esse processo é possível de ser observado através da palavra. Os ensinamentos místicos são maravilhosos e sempre trazem o paradoxal que é: a letra é morta, enquanto a fé é viva e, ainda assim, quando estamos e somos Filhos do Deus Vivo tudo também ganha vida sob uma nova luz e, portanto, uma nova perspectiva. Porque nós amadurecemos, e isso significa que uma nova luz é lançada sobre aquilo que nós já julgávamos conhecer, saber e entender, e aí vemos que algo que sabemos, entendemos e que, quiçá, conhecemos varia de acordo com nosso grau de evolução e a luz que chega até nós, a medida em que nossos olhos se abrem também para aquilo que realmente se apresenta, e não os olhos abertos que temos hoje para aquilo que nós desejamos conhecer, entender e saber de maneira egoísta, vaidosa e enfadonha, inclusive, porque tudo vira repetição, tudo é vaidade, tudo é vazio.

E ainda assim, isso em si mesmo é uma grande sabedoria, não à toa é a sabedoria de Salomão, ainda que uma sabedoria temporária, porque cada vez que amadurecemos um pouco é uma nova aurora, uma nova luz que chega, um novo raio que ganha o nosso céu e as nossas estruturas e que nos revela novos detalhes, mostrando que aquilo que nós julgávamos ser tudo não era nada perto de um novo estado de abertura e revelação, e, portanto, inovação e evolução. Isso, caso nos permitamos ser obliterados e novamente paridos, porque se a vaidade é um vazio, é se permitir saber-se um nada para então se abrir ao nascimento divino.

Aqueles que se julgam maduros demais, que sabem demais, entende, conhecem profundamente de maneira que se arrogam a si o conhecimento enquanto raiz, e não a Deus, porque uma coisa é Deus fazer com que nós saibamos muitos de Seus mistérios, outra coisa é nós nos julgarmos conhecedores dos mistérios por nós próprios, estes são os que de maduro caem do pé e fermentam. Toda fruta que cai no chão alcooliza, entra num processo de fermentação e portanto acaba criando uma espécie de álcool, e o fermento e o álcool nos revelam o estado lucífero e satânico das coisas, são frutas que já não servem para alimento. E aí é claro, Deus em sua misericórdia faz com que sirvam de adubo para outros seres mais baixos do que nós, animais como insetos, os próprios fungos, não são propriamente animais, mas vidas em estágio muito inferior de desenvolvimento, muito primitivo. São elas próprias que acabam revelando esse estado de podridão daquela fruta, o que nos mostra que o estado de podridão também tem relação com nosso patamar de evolução e do amadurecimento geral de alguma forma, porque para aqueles seres aquilo serve enquanto alimento, aquilo que aos nossos olhos é podre, podre justamente porque está sendo alimento de outros seres muito inferiores – para eles aquilo não é podre, mas para nosso estágio de evolução e emancipação sim, porque é algo que foi justamente dominado por criaturas inferiores, e não criaturas que estão mais próximas de nós, que estão num contato mais aproximado de evolução.

Então, a medida em que vamos evoluindo e amadurecendo torna-se necessário novas leituras e novas compreensões do que antes já vimos, e passamos observar como que é imaturidade repetir ao longo dos anos certas sentenças e até mesmo palavras, enquanto descrições, enquanto possibilidades de vivência, como por exemplo algo que já citei e torno a citar, porque é um exemplo que a mim é muito caro e belo, e me serve de estudo e aprofundamento, que é chamar Jeová de um Deus ciumento. Isso, eu já cheguei a citar o Max Heindel, da Fraternidade Rosacruz, que deveria ter evitado passar para frente esse tipo de pensamento, mas não é dele que isso provém. A Bíblia em si mesma traz essa possibilidade de tradução, há Bíblias que trazem em Êxodo 20:5, a afirmação: eu sou um Deus ciumento.

Quando a gente para para observar de modo mais científico o ciúme, se usamos a astrologia para observarmos ele em sua pulsação até sua manifestação, sua vibração em todos os níveis, ficamos sabendo que o ciúme está relacionado muito com Escorpião, um dos signos que tem uma grande fama de ser ciumento, e Touro também, porque se relaciona com posse, e é o eixo, Escorpião trabalha com Touro, que são, na verdade, uma única coisa, a gente vai separando para melhor compreender e aprofundar para depois novamente unificar as coisas e ter uma capacidade de unificação mais verdadeira. Ou seja, a pessoa que não é capaz de lidar com a separatividade, a pessoa que não é capaz de separar as coisas para análise ela igualmente não tem capacidade de unificar as coisas, ela pode de maneira infantil ter discursos de unificação geral das coisas, de que existe o uno, o universo, somos todos um só, enfim, ter falas falaciosas a esse respeito, de uma aparência de grande beleza, porque essa unificação universal provém de Peixes, onde Vênus se exalta, onde o Amor ao próximo é levado à humanidade inteira após passar por Aquário, que é aquele que acabou de servir a humanidade inteira e pode dissolver e se ver parte não só como quem trabalha, mas também como quem faz parte desse todo, se reconhecendo nessa hierarquia celeste, enquanto um irmão – porque Aquário é a casa do amigo, mas antes servo, até porque é o eixo junto de Leão, o rei que serve ao povo, para depois se reconhecer como irmão, se revelar a hierarquia irmã que somos enquanto humanidade.

Então esse discurso de unificação de tudo é de aparência bonita por isso, porque remete a uma possibilidade de Vênus em Peixes, mas sem Vênus estar exaltado verdadeiramente sendo apenas uma euforia de Vênus em Peixes – porque as pessoas confundem, acham que só porque o planeta está num signo de exaltação ele exerce exaltação na vida da pessoa, mas não, toda ação, mesmo de um planeta, é marciana, principalmente de suas forças – que são os planetas, então a atuação sempre será um princípio ariano, e isso se relaciona com Lúcifer num primeiro momento, Marte, que precisa se submeter ao Cordeiro para se tornar o lar de exaltação do Sol… Então, isso significa que pessoas que têm planetas em suposta exaltação, mas não levam uma vida verdadeiramente exaltada interiormente junto às hierarquias e junto a Deus, que é a Fonte, fará com que o planeta terá uma atuação marciana eufórica no signo, cria a aparência de exaltação, a aparência de uma Vênus em Peixes, parece que a pessoa ama todo mundo, parece que ela está integrada à humanidade, parece que ela sente algo muito grande… parece… mas se formos observar a vida da pessoa em termos de obra e de fé, falta muito arroz com feijão, falta muita devoção, muita limpeza e purificação, falta muito discernimento, falta muito trabalho e muita oração para aquela força chegar realmente a se tornar um fogo que cria e não que puramente queima.

Então as pessoas que não são capazes de separação, de divisão, de separatividade, não são capazes de unificação. Por isso que Saturno é tido como um planeta temível e ao mesmo tempo um professor, lembrando que Mestre só Cristo! Sendo que, na verdade, nem professor ele é, mas apenas aquele que aplica a prova, porque aprendemos com o Mestre, mas ele, Saturno, Satanás, é quem nos testa através de provas – é o que entra em Judas e traz a cruz, sendo que sabemos que estamos num mundo que é saturnino e marciano, satânico e lucífero, então quando estamos e somos do mundo nós estamos na esfera obrigatoriamente de Saturno, Satanás, e Marte, Lúcifer, – da estruturação e do fazer reativo perante o mundo, o mundo me dá algo e eu reajo, e nisso estruturo inconscientemente o mundo. Então nossa atuação no mundo é em grande parte satânica e lucífera e, portanto, inconsciente, porque o inferno, a doença, o mal é a inconsciência do processo, o mal é sempre a ignorância, a negação, a cegueira (sejam elas no grau que for, porque é como, enquanto criatura, evitar que a Luz do Sol verdadeiro chegue em algum lugar, criando uma sombra – a sombra não provém do Sol, mas ao crescermos o próprio processo, a própria formação de nuvens, o próprio crescimento torto – para todos os lados – vai gerando sombras, sendo por isso necessário aprender a ter das podas, bem como fazer com que o galho, mesmo gerando sombra, dê frutos, para que o processo seja de fato justo, pois o mal não é a sombra, o mal não é a inconsciência em si existir, o mal em si existir enquanto efeito, mas passarmos a viver para ele. Quando se vive para a sombra, se deixa de viver para o Sol, e portanto se deixa de produzir frutos obrigatoriamente, porque sombra não alimenta. E os seres que decaíram, como nós e uns anjos específicos, caímos porque passamos a viver para essa sombra, e é preciso não lutar contra a sombra em si, mas contra os seres que nos levam a acreditar que viver para a sombra é a vida verdadeira e sairmos dessa cegueira, dessa ignorância, e vivermos para o Sol que está o tempo todo onipresente sobre nossas cabeças).

O fato de existir sombra e de vivermos para ela e isso ser o verdadeiro significado de se levar uma vida lucífera e satânica causa desespero em muita gente, mas se vemos de maneira mais madura, e não de maneira podre ou imatura, mas ideal para que isso se torne alimento, conseguimos observar que isso é um passo necessário por ser a maneira como nós enquanto seres inconscientes, novos, enquanto seres incapazes, obscuros, naturalmente inimigos de Deus (porque naturalmente geramos sombras enquanto efeito), como uma criança que é naturalmente inimiga de seu pai e sua mãe, bem como irmãos, porque ela naturalmente traz problemas, naturalmente não compreende, naturalmente vai contra a natureza de um adulto, a maturidade de um adulto, aqui falando da criança em aparência, como que isso tudo, como eu ia dizendo, é necessário para crescermos. Aliás, por isso que a criança, como diz Santo Agostinho, é naturalmente má, ela vai sentir ódio e raiva do irmão sem compreender aquilo profundamente, então ela está entregue às forças mais baixas dos planetas, por ex., e dos signos, das hierarquias… Ela passa a acreditar nas criaturas de sombra e demoníacas.

É uma parte do processo, mas se deve vencer isso. É claro que na nossa sociedade, esse próprio culto que a gente tem da jovialidade falsa, porque juventude vem de Júpiter, Júpiter é uma sombra de Jesus, mas a juventude que se prega em aparência, do eternamente jovem na aparência, aí conseguimos ver o quanto é uma deformação, o quanto é uma problemática e isso é o mal em si mesmo porque é ficar querendo ser criança para sempre, inconsciente e ignorante para sempre e não assumir para si as responsabilidades. Porque quando a gente começa a assumir para si as responsabilidades, que é a adolescências e adultice, a gente começa a ter que lutar contra essas sombras e vencê-las preferencialmente, se possível, aquelas que Deus permite que nós vençamos pelo menos.

Um detalhe: o processo de manifestação da sombra e de inconsciência é um passo necessário, por isso feliz queda, porque de alguma forma ela traz a possibilidade de voltarmos para Deus conscientes, mas isso não é desculpa para culpar Deus pela queda de Lúcifer ou do Homem, e nem culpar Lúcifer pela queda do Homem, porque só cai quem quer, é uma escolha do livre-arbítrio, e não porque o divino criou seres maléficos, assombrados e assombrosos, nem que Lúcifer seja bonzinho por nos ter levado a cair. O que acontece é que ele catalisou o processo, assim como o fogo catalisa o processo de digestão do alimento e graças a isso demos um dos maiores, se não o maior salto evolutivo enquanto humanidade junto da manifestação da linguagem. São os dois maiores saltos, até onde eu saiba, a aquisição da linguagem, o desenvolvimento da linguagem e o cozimento dos alimentos através do fogo, o descobrimento do fogo, sendo que uma é uma ferramenta lucífera e a outra, jeovística, e foram os maiores saltos que a humanidade deu em termos evolutivos. Mas isso não significa que era o momento certo para essa catalisação acontecer, Lúcifer desobedeceu Deus, é um fato, ainda que o que ele tenha feito seja algo que estivesse dentro dos planos sagrados. A coisa toda é bem complicada, especialmente da forma como se deu, porque não foi de maneira altruísta como colocam muitas vezes de que Lúcifer queria ajudar a humanidade a evoluir, “foi um sacrifício que ele fez”, não, ele de fato queria nos fazer e ainda quer nos fazer crer que ele é o centro no lugar de nosso verdadeiro Rei. É preciso ter muito discernimento.

O fogo externo não é o fogo gerador, criador, assim como Lúcifer não é rei, e se quiser voltar à presença divina é sem seu trono, como também já comentei em outras Poesias, ele já perdeu seu posto, mas continua nos fazendo acreditar que ele tenha alguma importância no processo. Só que não. É só mais um na multidão, por assim dizer. Contudo, para se chegar a esse ponto, é preciso antes lidar com a realidade da ilusão da separatividade. Ou seja, é preciso encará-lo de frente enquanto nosso tentador. Para isso é preciso compreender também que, assim como devemos nos tornar Cristo Jesus, nós já nos tornamos Lúcifer e Satã ao cairmos, por isso vivemos nas sombras e vivemos de sombras… e por isso também é tudo um pouco assustador: nós os somos porque já nos tornamos nosso pior inimigo.

Então, voltando aos signos, Escorpião, numa criança, vai tender (pode ser que haja crianças que sejam exceções, mas para a maioria terá a tendência de) nascer sob um ciúme violento contra o irmão. Porque mesmo a criança que se toma como mãe do irmão, porque a psicologia revela muitas possibilidades de lidarmos com o nascimento de um novo irmão na família e há a possibilidade de lidarmos de maneira positiva, considerada mais afortunada, mesmo assim, isso revela de alguma forma tem um princípio de um fogo que queima e a criança maneja isso para algum lugar, e óbvio isso terá relação até com a graça de Deus a até com elementos de vidas anteriores etc., então para onde o fogo queima é também para onde ela tem seu carvão e sua madeira direcionados através também dos trabalhos em vidas anteriores, bem como de trabalhos nessa vida, com ajuda das hierarquias ao prepararem a vida dessa pessoa e darem determinada tendência a ela através de seu ambiente, do seu mapa, enfim, todos os elementos externos e internos que a ela lhe são dados. São vários fatores que levam uma criança a reagir duma forma, mas de toda maneira o processo se dá do mesmo modo, que é através desse primitivo, desse ter que lidar com o que é meu e o que é nosso, Touro o que é meu e Escorpião o que é nosso, ou deveria ser nosso – sendo que Escorpião, no caso de vibrar sua má possessividade, será pior que Touro, é em Escorpião que o maior egoísmo acontece, porque em Touro aquilo de fato de alguma forma (muito entre aspas) “me pertence”, mas em Escorpião deveria ser de todos, mas nos fechamos em nós mesmos, é o pior tipo de apego…

Nisso conseguimos observar que quando se tem uma tradução de que Deus é ciumento, ou Ele próprio, coloquemos na aparência e na literalidade, usa dessa palavra para que ouçamos e compreendamos, isso não revela sobre Deus, mas sobre o homem ter dificuldade em compreender as coisas, porque isso revela que a maneira como interpretamos e forma como as coisas nos são dadas, nesse patamar do caminho pelo menos, dizem muito mais a respeito de nós mesmo do que sobre Deus, revela muito mais se conseguimos ou não enxergar Deus, do que sobre Deus Ele mesmo. Deus se torna o nosso espelho.

O Antigo Testamento é uma pérola, ele é como os degraus específicos de uma escada, e o Novo Testamento é como os lances da escada, assim como os Arcanos Menores são os degraus da escada e os Maiores são os lances da escada, sendo a escada em sua totalidade a Bíblia toda, assim como os Arcanos, a imutabilidade em si mesma, não importando a ordem dos fatores. É como o caos ordenado, aos nossos olhos parece desordem, mas é a maior ordem que há, porque é a revelação da imutabilidade do divino.

Só que há um porém quanto à nossa evolução, que é: nós descemos toda a escada e chegamos ao “fim”, entre aspas, da escada em termos de último degrau, chegamos no nadir da materialidade, como costumam dizem, no ápice do fundo de onde devemos chegar, e aí é começar a volta, é quando voltamos, fazemos o caminho inverso, por isso é recomendável que se leia a bíblia do Apocalipse até Gênesis, numa retrospecção, não só revisitando o passado, mas inclusive sendo isso possível apenas pelo Leão de Judá, nosso amado Mestre, sendo ele quem acorda Lázaro, quem acorda todos nós enquanto espíritos de nosso profundo sono e mortificação perante Deus, sendo através do nosso Mestre, de Cristo, que nós fazemos a retrospecção inovando o que nos foi dado. Por isso é preciso Cristo se casar com Maria, irmã de Lázaro – o casamento almístico, das almas-gêmeas divinas!

Então a retrospecção não é um exercício passivo, várias vezes eu repito: conheçam o exercício de retrospecção que o Max Heindel deixou pela Fraternidade Rosacruz, é importantíssimo compreender que é um exercício, talvez o mais importante, de ser feito, fora o exercício da vida em si mesma – o próprio viver e deixar viver, senão não há matéria para fazer retrospecção, óbvio, mas ele é um dos exercícios mais importantes a ser feito na nossa vida terrena, sendo ele feito aliás o tempo inteiro, não só à noite, mas especialmente à noite. Ainda que, como dizem, seja insuportável fazer análise e ter consciência o tempo todo, todo mundo acha que é legal desligar o cérebro alguma hora… sendo que a retrospecção não é o que gera consciência ainda, lembremos: consciência depende do Mestre.

A retrospecção dá ciência sobre os acontecimentos, consciência é na sincronicidade do acontecimento e não na retrospecção deles, então, em verdade, nós ainda não suportamos ter ciência o tempo todo, que dirá consciência, apesar de vivermos numa era materialista e científica na qual colocamos nossa fé toda nela, mas isso mostra como nossa fé materialista é vulgar, fingida, rasa, pura aparência, porque se fosse real nós não teríamos problema em ter ciência o tempo todo das coisas, nós iriamos buscar entendimento das coisas, mas fugimos disso, nós temos opinião para tudo hoje em dia, ciência, não, muita teoria, ciência, não. Ciência se baseia na média, na maioria, no mediano, no medíocre para o estabelecimento das coisas, sendo que nós não gostamos sequer de nos imaginarmos fazendo parte dessa média, que dirá usar ela para realmente evoluir ao pensar em algo, ao estabelecer algo para a massa. Por isso a humildade é a verdadeira virtude para tornar a ciência possível, porque é preciso se ver fazendo parte do coletivo. Lembrando que ser o coletivo (ser Cristo) não é o mesmo que pertencer ao coletivo (ser Jesus). Por isso é preciso tornar-se Cristo Jesus, ser e estar.

Nós não pensamos na maioria ao fazermos as coisas realmente, ao decidirmos as coisas realmente, isso é falso, é uma falsa sensação de maioria – usar do grupo para me decidir a respeito de algo. Ninguém está afim de literalmente morrer numa guerra em prol de uma causa, menos ainda em aparência. Ninguém. E quem quer, das duas uma: ou é homem bomba (que todos sabem ser uma absurda ignorância) ou quer morrer por uma causa só para ser tido como o mártir, o líder, o Foda. A maioria das pessoas quer baderna, quer destruir o mundo sem arcar com as consequências, quer fazer revolução via internet ou quer fama e reconhecimento dentro do grupo ao qual pertença.

Então é possível observar que a retrospecção revela a qualidade não só aparente, mas interpretativa das experiências. E aí ela altera a tradução que a gente faz do dia a dia, como eu falava da tradução das palavras na Bíblia, a retrospecção altera a tradução que a gente faz dos nossos acontecimentos, da nossa literatura da vida, ela vai nos revelando que certas transcrições e certas acomodações, certas escolhas, palavras que escolhemos, ou ainda termos, quando estamos mortos ou sonolentos, não são tão apropriados assim e que já podem ser alterados para nossa evolução pessoal e coletiva, para que nós tenhamos mais amadurecimento, para que possamos mostrar que uma nova luz chega, um novo raio já incidiu sobre a Terra, já incidiu sobre nós enquanto hierarquia celeste.

Só que isso não é feito de qualquer jeito, por isso precisa do Leão de Judá e requer muita humildade, por isso que a retrospecção primeiro é feita quase que vazia de sentido, de um real sentido, de real aprofundamento, mas é necessário que assim seja no começo também caso seja genuína nossa vontade de que em algum momento Cristo nos ajude, porque não adianta estar a esmo sem fazer nada porque ‘ uma hora Cristo chega, uma hora Ele me chama, aí quando Cristo quiser Ele me chama e eu começo a fazer a retrospecção direito’ – se formos esperar a hora perfeita pra fazer as coisas essa hora não vai chegar nunca, nós que precisamos começar a obrar, ainda que com uma fé totalmente em pecado, totalmente cega, de quem não sabe o que faz, mas tem que tentar de alguma forma, porque se não nos mostramos dispostos para o trabalho, o empregador não nos contrata, assim também é no reino celeste, se não nos dispomos a fazer como humanidade nosso dever básico, não o que dá na telha, na cabeça de fazer, não é achismo, mas o básico – como as Leis mosaicas, Cristo não vai trazer nosso dever pessoal, individual junto ao Paráclito, se a gente não cumpre o básico, como as Leis mosaicas. Então se deve fazer a retrospecção como for possível, sempre buscando sinceramente melhorar dentro de nós essa técnica.

Com a mão do Leão de Judá, com Cristo, Deus, o exercício de retrospecção passa a ser realmente um exercício de ressignificação das coisas que já estavam supostamente dadas. E uma maneira de observar isso em termos estruturais é como as coisas vão sendo realinhadas na matéria também, porque por mais que esse mundo, enquanto estamos dormindo e mortos, seja de Lúcifer e Satanás, quando vamos acordando, a matéria se torna reflexo do alto – assim como em cima, embaixo, e por isso as coisas se dão de maneira reta, e por isso Deus encarnou na Terra e a Bíblia é verdadeira, porque mesmo a tradução dela é de acordo com a nossa maturidade.

Então conseguimos observar como que uma tradução que traz ‘eu sou um Deus zeloso’ em vez de ‘eu sou um Deus ciumento’ é uma tradução mais madura, mais evoluída. Quem quer permanecer fiel aos tempos passados vai traduzir como ciumento, claro, quem quer fazer o trabalho de ver a sombra das hierarquias e ter o exercício da misericórdia de fazer espelho para nós nos vejamos, e Deus ter características humanas para que nós tomemos consciência, então vai olhar para isso como ciúme. Claro que isso é pertinente mesmo num estado maduro, porque uma pessoa madura com Escorpião proeminente no mapa sabe que a qualquer momento o risco de queda é sempre alto, aliás, quanto mais se sobe maior o risco de queda, então não é negar que Escorpião é o berço de que aquilo pelo qual ele zela, em termos de vício e virtude, é o ciúme e o zelo, saber disso também é questão de maturidade, mas depende de como se usa. A imaturidade se relaciona muito com usar de um adjetivo simplesmente para se desqualificar, por exemplo, uma das manifestações de Deus, para se rebaixar ou tratar como algo menor, como quem diz: eu não sou jeovístico, eu sou crístico, porque Jeová é ciumento… igrejinha, eu? Religião de raça? Eu? Imagina! Eu sou indivíduo, eu sou, não é mesmo? Sendo que isso é orgulho e vaidade num grau inimaginável.

E não digo que o Max Heindel tenha tido esse tipo de grau de baixeza em relação à trindade, mas a maneira como se traz as coisas para esse mundo corroboram para esse tipo de pensamento e fala. Porque somos responsável pela maneira como isso se propaga, e se ela se torna propícia para que se saia tendo um determinado discurso de rebaixamento do próximo, inclusive, e não só de Deus, passando a ter nojo e ranço de religiosos, ou Filhos da Água, Irmãos da Água, o nome que se dê, claro que é preciso tomar cuidado, porque me torno responsável por isso também, ainda que em muita medida isso se dê de forma inconsciente. Então por que que isso se dá? Por exemplo… um dos motivos é a maneira como lidamos com nosso pai biológico, de sangue, gera maior ou menor dificuldade de compreender Jeová enquanto figura em si mesmo. Eu não irei me relacionar bem com Jeová, por ex., se não fui capaz de chegar no mais alto grau de relação com meu pai de sangue, que representa, por um tempo, Jeová em minha vida de maneira aparente. Por isso a maioria da humanidade está ainda perdida em termos jeovísticos e isso precisa ser retomado, não há como evitá-lo, Jeová terá que ser vivido de maneira ciente – e por isso a ciência é jeovística, e por isso que mesmo a raça dourada, cientistas ocultos etc. são jeovísticos, obviamente havendo graus dentro dessa vivência… e por isso também vemos a sua deformação e, portanto, a propagação de tanto ódio dentro e fora das igrejas, das famílias, dos coletivos, seja vindo deles seja contra eles, porque o ponto central está na figura do pai dentro de casa, tudo começa dentro de casa, sendo preciso ter um pai dentro de uma família estruturada, e não significa ser uma família perfeita, e menos ainda condescendente, mas de pais ativos, presentes para seus filhos, atuando como a imagem do líder que impõe regras, leis, sendo o que zela pelo bem-estar dos filhos e lhes ensina os sacrifícios que devem ser feitos e os proíbe das ações que não condizem ainda com cada maturidade, com cada idade, em suma, com o tempo cronológico de cada um. E espiritual também, se é um pai desperto.

Assim como Jeová não passará a trabalhar, em nós, junto a Cristo, enquanto Maria não tiver também seu lugar. Ou seja, enquanto as mães não passarem a ser reflexo da Virgem Maria, sim, em toda a sua extensão e literalidade. Enquanto as mães forem prostitutas se torna radicalmente difícil nascer Cristo em nós – é um fato, e com isso não me refiro apenas ao ato de sexualmente se prostituir, mas às prostituições dos apetites, dos desejos, dos pensamentos… e não só da carne. Claro que para Deus nada é impossível e que quem faz o caminho torto também chegará em algum momento, mas aqui falo especificamente aos que buscam e querem um caminho reto, consciente cada vez mais. Os apegados às suas cegueiras, a achar que tudo bem ser prostituta, literal e metaforicamente, que tudo bem os pais abandonarem seus filhos, tudo bem criar filhos de qualquer jeito, esses continuarão nas mãos de Satanás e Lúcifer. É inevitável. E é uma escolha que eles fazem, pois muitos são chamados, mas poucos realmente se dispõem ao trabalho árduo, e por isso poucos são escolhidos. Por isso também é preciso fazer os exercícios, independente de conseguir ser perfeito ou não, porque não é sobre Eu conseguir fazer algo, Eu poder fazer do meu jeito e dar certo, mas sim sobre ter humildade de, fazendo sem nada esperar, vagar pelo deserto até que o Mestre venha nos encontrar quando o Pai assim designar. Se for a vontade do Pai, sendo sempre zeloso em fazer a vontade Dele no tempo Dele.

Sem chegar no mais alto grau de relacionamento com a família, com o clã pessoal, sanguíneo, de nada adianta ter um processo lucífero excelente, ter bom ferro etc., de se emancipar e abandonar pai e mãe. A escada é subida e descida várias vezes, espiral dentro de espiral, todo processo se dá em graus, então, ok, é preciso abandonar pai e mãe ao vermos que não somos eles, como adolescentes, mas é preciso honrá-los e, portanto, se unir ao pai e à mãe para conseguir então abandonar em verdade, não como quem não se reconhece neles, como quem tem ranço, raiva, repulsão deles, mas como quem é grato por ser composto por eles também, e conviver sim, mas ampliando para sua família além do sangue, e aliás, se possível, levando a própria família de sangue em comunhão com a família espiritual divina (porque temos uma família espiritual específica).

É a história de unir fogo e água, que a priori está representado na Lua e no Marte, Jeová e Lúcifer, que vai passando para patamares mais sublimes a posteriori. Quem abandona a família indo embora só com Marte, só com Lúcifer, só com fogo, está indo embora só com a ferramenta de trabalho externa a si, porque não foi capaz de levar o próprio corpo, que é a água, por isso a Igreja é o corpo de Cristo. E devemos nos atentar em discernir o que é o fogo creador, o fogo do calor divino, deste fogo enquanto ferramenta de que falo. São fogos distintos, ou melhor, um é fogo como a chama, o outro é invisível, o fogo secreto que não pode ser humanamente concebido. Sendo que ir embora de maneira rebelde e impulsiva pode ser uma ferramenta, como dito, mas é apenas isso, sendo necessário o abandono como Áries Cordeiro, Sol exaltado, que simplesmente sabe que sua família horizontal deve ser colocada em lugar de honra mas não sendo dela a primazia, porque é espiritual a nossa família verdadeira.

Tudo isso revela a importância crucial em se evoluir, em se amadurecer para aprender a discernir todas as coisas que nos são apresentadas pela vida aqui na Terra, e mesmo após a Morte, porque esse discernimento e separação do joio e do trigo não é um processo só daqui do plano denso. Até porque todos temos nossas camadas ainda sem terem sido iluminadas, bem como outras que são tão iluminadas que podem parecer obscuras a quem nos lê, nos ouve, sendo necessário igualmente filtrá-las. Então filtrem, inclusive, o que eu mesma falo, porque, sendo todos nós uma árvore, temos também nossos frutos maduros, imaturos (verdes) e podres, é quase que inevitável, ao menos nesta etapa do trabalho. Não se atinge a perfeição, perfeito é Deus, e mesmo que se fale que Deus não é perfeito porque há Deus acima de Deus, e há o Absoluto então nosso Deus também é imperfeito, e se abre uma fresta pra chamar Deus de autista, de retardado, ainda assim não temos capacidade de compreender o que seja a não absolutez do nosso Deus (porque tem pessoas que estão numa inconsciência tão grave que a pessoa não tem a mínima capacidade de raciocínio e compreensão de que ainda que nosso Deus não seja perfeito, no extremo do que chamamos perfeição – sendo só o Absoluto perfeito, por exemplo, ainda assim, nós não temos a menor capacidade de compreensão do que é a imperfeição do nosso Deus, então todos os xingamentos, qualificações e adjetivações que usamos para qualificar Deus revelam apenas o quanto quem diz aquilo está falando de si mesmo e não de Deus, mas apenas de si, o que é crucial para vermos como que a voz é realmente reflexo da alma, como disse Pitágoras, e que as palavras revelam o grau da nossa doença ou saúde, e não o grau do divino enquanto revelação por quem fala, ainda que isso exista e seja raro, porque é algo silencioso e está muito mais nos detalhes, nas pausas, nos respiros, e em como a pessoa expira para nos inspirar… ou seja, quem não nos inspira está a morrer e a nos matar).

Então assim como um cachorro, um gato, uma formiga, uma barata, uma árvore, uma parede não têm a capacidade de dizer quais são os meus defeitos enquanto “senhor deles”, dona, mais evoluída que eles, o que seja, eu igualmente não tenho capacidade de expressar de forma adequada o que significaria Deus ter defeitos, por isso a loucura divina é sabedoria, e a sabedoria do homem é loucura, e essa loucura sim é retardada, autista – no sentido de realmente estar desconectada com o todo, completamente num estado esquizofrênico, doentio. Porque uma pessoa que acha que sabe dos defeitos de Deus é uma pessoa altamente doente.

Agora é claro, Deus qualifica a si mesmo para que nós possamos nos ver, é diferente. Então Deus, ele em si mesmo dizer-se ciumento e nós termos a maturidade de observarmos uma posterior leitura e tradução de que uma melhor qualificação seria Deus zeloso, e que tanto ciúme quanto zelo tem a mesma origem em termos de ciência, fazendo sentido ser tanto zelo quanto ciúmes, aí sim conseguimos ver que isso é para que nós tenhamos a capacidade de observar algo. Então é por misericórdia que se faz isso, é por misericórdia que se fragmenta as coisas, que se dá a separatividade das coisas, para que então possamos ir unificando dentro da nossa capacidade de vivência e de evolução. Tem a eternidade para isso (uma eternidade sem fim)? Toda religião fala que tem que correr atrás, tem que trabalhar, porque não vai cair no colo, e não tem uma eternidade sem fim para deixar para depois e procrastinar para sempre, até porque o inferno também é eterno (eu já falei um pouco sobre isso na Poesia da Literalidade)… mas tem a eternidade celeste para quem trabalha, para quem está afim de fazer, e se a pessoa só é capaz de dar um passo por vez, de amadurecer um passo por vez porque ela equivale à tartaruga ou à lesma, ótimo, são animais espetaculares, que serão respeitados em seus tempos; é diferente de uma pessoa que está dentro da preguiça, porque a tartaruga não é preguiçosa, é apenas o ritmo que Deus lhe deu, é completamente diferente, mas a preguiça é eu me recusar a ir no tempo que me foi dado por Deus, e que eu aliás escolhi junto a Ele. E a vaidade é, além de me recusar, eu impor um ritmo a mim mesmo tirado de mim, como uma tartaruga que fica gritando consigo para ir rápido, mas inevitavelmente é lenta: ela deixa de estar presente, e apenas produz demônios ao se forçar, induzindo algo maléfico a ela mesma. Ela não consegue ter uma vivência santa, uma vivência reta, plena de si mesma, porque a vivência santa é a vivência reta – não de ir pra celibato, igreja, mosteiro – santo é quem vive no ritmo dado por Deus no tempo e espaço pertinentes pra agora, para a evolução de agora. Qualquer pessoa que esteja dentro do tempo e espaço que lhe foi dado por Deus é santa, que é o abandono à providência divina, nos deixado pelo Padre Caussade, por exemplo.

Por isso a sombra dos santos cura, porque um santo, mesmo quando erra, mesmo sua sombra, seu lado lucífero e satânico, por assim dizer, é reto, porque são erros e obscuridades que lhe pertencem genuinamente. Então um Jó vai ensinar, a tentação, a sombra de Jó, a impaciência e toda a ruminação dele se tornam um ensinamento para nós. A negação de Pedro se torna ensinamento para nós. Então quer dizer, a sombra de uma pessoa santa se torna uma pedra de fundamento, e Satanás, Saturno, Capricórnio, nada mais é do que pedra, nós sabemos, e aí se torna pedra de fundamento, se torna o que me move enquanto direcionamento, enquanto joelhos, aquilo que se torna minha articulação enquanto melhoria de mim mesma, porque daí tenho uma sincera observação de minha sombra, porque pode ser que eu leve três vezes um tombo, negando Cristo, para acordar para o que estou fazendo, e usar isso como um direcionamento – assumindo que é preciso endireitar as veredas, parar de desviar tanto do reto, porque Satã se relaciona com oposição e também com desvio em hebraico, parando de me opor e de me desviar tanto, ainda que seja inevitável (pois a retidão perfeita, só Cristo Jesus, graças a Deus, por isso Ele é Deus e Mestre, único Mestre).

Por isso a sombra dos santos cura, e por isso Saturno, Satanás, vai ser também um aplicador de provas – isso não é comparar ao bem e colocar em grau de Mestre, Mestre só o Cristo – SÓ! Mas a maestria de Cristo Jesus não é a anulação da necessidade dos outros seres, pelo contrário, é a exaltação de todas as existências, porque Ele inova e ressignifica todas as coisas.

Vejam, as existências em si não são a sombra, Lúcifer e Satanás em si, em essência, não são o mal, porque o mal é um efeito, um efeito real enquanto estamos vivendo esta vida, mas efeito apenas, e eles são criaturas que vivem para esse efeito, e não para a causa, por isso não existem dois caminhos, por isso a dualidade ela é um aprendizado momentâneo, crucial para se passar para outro nível, crucial para amadurecermos, ela faz parte do amadurecimento, sim, mas não sendo a bifurcação uma realidade verdadeira, não há caminho negro ou de esquerda, o único caminho é Cristo, o caminho do meio, por isso nenhuma criatura em si é o mal, porque o mal em si não é um deus ou uma criatura em si mesmo, mas há criaturas que escolhem sim viver para a sombra e não para o Sol, contudo, a própria sombra é consequência possível por existir o Sol, sem o Sol não há sombra, pois a sombra não é autônoma como a gente tende a pensar, como se o Sol apagando restasse só escuridão, não, nem a própria escuridão restaria, porque o Sol não surge por haver a necessidade de se extinguir a sombra, mas o contrário, a sombra se faz temporariamente presente para que o Sol se torne conhecido por todos, pra que o busquemos! A busca é necessária! A Cabalá nos ensina tudo isso muito bem. E os seres que vivem para a escuridão cometem um equívoco grande, porque é a escolha pela ignorância: ignorar e até mesmo negar que o Sol é o único e verdadeiro Senhor. Mas para quem amadurece e quer dar frutos, lidar com a sombra será um teste, porque todo galho onde se produz vida a sombra lhe será, temporariamente, inerente. Claro que podemos falar sobre quando nasce o segundo Sol, o Sol da meia-noite que faz com que toda sombra seja dissipada, porque aí haverá um sol de meio-dia e um de meia-noite, mas antes disso é preciso passar pelo fato de que a sombra precisará ser encarada como uma realidade, mesmo que saibamos ser uma ilusão em termos macros. Naquele momento ela é real! E precisa ser tratada como tal. Faz parte do processo de madurez. E falarei mais sobre isso na Poesia do Contraste.

Mas basicamente é por isso que o retorno de Saturno tem a fama de: se você aprendeu e fez as lições que te eram destinadas, quando ele vier para dar a prova, para te provar, você vai tirar de letra – por assim dizer. Não quer dizer que vá ser fácil, obviamente passar pelo que Jó passou não é fácil, assim como passar pela dor de afundar ao caminhar nas águas não é fácil, bem como difícil se dar conta de que se nega a Cristo, e mais difícil ainda ter Satanás trazendo sua cruz tal qual Cristo Jesus. Mas se eu não for capaz de me formar no fundamental e no ginásio, eu não vou pro mestrado, não vou para o Mestre, é meio que isso. Quer dizer, ginásio e fundamental é Lúcifer, Saturno é pra quem já está na graduação… ainda que todas essas coisas, eis o paradoxo, aconteçam ao mesmo tempo, cada uma em seu grau de possibilidade, uma alterando a outra, consequentemente, porque não deixamos de passar pelo retorno de Saturno, mas alteram-se as configurações, então as pessoas mais imaturas estarão imersas muito mais num processo lucífero, então mesmo apanhando de Saturno, isso vai se manifestar muito mais na Lua e Marte baixos, ou seja, pode se refletir, por exemplo, em situações de grande imobilidade externa mas tremenda ansiedade interna, com ações contra si mesmo ou contra os outros, por exemplo depressão acompanhada de mutilação ou mesmo de suicídio, e não a depressão que apenas definha, é diferente, são características diferentes de expressão, bem como extrema carência, fome de algo que não se sabe explicar, sem conseguir ter controle apropriado da mente, podendo Saturno usar de sombras do passado, da memória (Lua) para imobilizar. Só a título de exemplo e diferenciação, se fosse alguém aparentemente mais maduro, que já tem mais domínio da Lua e de Marte e está passando por Saturno, mas cai na arrogância de achar que tem tudo controlado, tem certeza de que vai tirar 10 na prova porque estudou pra caramba (ou seja, tem um Marte exaltado e organizado), bom, então Marte, Lúcifer, atuará com arrogância na presença de Saturno (isso se mostra especialmente em mapa com Marte próximo ao meio do céu, juntos ou em aspectos específicos com Saturno ou com Marte em Capricórnio, supostamente exaltado), sendo refletido como vaidade, orgulho, prepotência, e a Lua descalibrada será usada pra criar memórias falsas e para gerar más interpretações das coisas que acontecem, então quanto mais a pessoa achar que sabe e que está certa no seu ponto de vista, mais Saturno irá restringir sua vida, ainda que não restrinja suas ações em si por Marte estar predominante, mas Saturno pode restringir os recursos da casa e signo onde se encontrar, por exemplo – e de nada adianta ter mãos para obrar e não ter matéria-prima. Marte poderá dominá-la também pela ira, caso a matéria se apresente. Mas sabemos que o orgulho em si já é o maior pecado, o resto é só ladeira abaixo. Claro que a Lua, nesses dois exemplos, está sendo usada de maneira muito baixa, deformada, destituída de sua beleza, de sua reflexão apropriada, é o que chamamos de lado obscuro da Lua que está sendo ativado, por assim dizer, ele não reflete e nos faz imponderados, entregues aos instintos femininos, especialmente, e inconscientes. O que é uma lástima, por isso se diz que os anjos choram quando não sabemos trabalhar com eles, sendo que toda Lua é lar angélico, e deveríamos buscar aprender a verdadeiramente e humildemente destiná-la a uma relação digna e até mesmo exaltada.

Por isso a retrospecção ajuda, ela nos mostra quando estamos repetindo de série, quando estamos no fundamental há tempo demais, quando estamos no ginásio há tempo demais, e pior, quando estamos matando aula, quando não sabemos nem onde estamos, mornos, tanto faz como tanto fez… eu tenho dificuldade de compreender como as pessoas podem simplesmente não se importar com a vida espiritual. E não entro nem em mérito de certo e errado, se aquela religião vai atrasar ou não, só vá atrás de algo espiritual, porque senão não anda nada, então ande para trás, vai buscar algo que regrida ou evolua, tanto faz, mas ande, porque antes isso do que não fazer nada, do que se conformar com um ateísmo morno, ou ficar esperando cair do céu, não se esforçar, não buscar um significado para as coisas: ah, é só isso mesmo, acabou. Como se conformar com isso?! É assim e acabou… Como fazer do nada uma forma?! É o absurdo do absurdo! Essa é a Besta em sua falsa glória, fazer-se crer um ser com autonomia de existência e possibilidade de vivência.

Uma coisa é o Nada com n maiúsculo enquanto inapreensibilidade da grandeza e obscurecimento da Luz por sua onipresença, onipotência, onisciência. O Aïn Sof, o Aïn da Cabalá. Isso nós chamamos de Nada porque é um Tudo incompreensível, que está para além da concepção de tudo o que conseguimos abarcar enquanto totalidade. É a absolutez inalcançável para nosso estado, ao menos. Mas o nada bestial, o nada do vazio, o nada caótico da anarquia, o nada com n minúsculo, ele não tem forma, é justo a negação da forma, mas a pessoa que o afirma não vê que é a própria absurdez o que ela afirma, e que sequer tem lógica racional – apesar do ateísmo, por ex., ser pautado justo na racionalidade da matéria. Mas falsa né, porque basta pensar um pouco, um pouquinho, pra entender racionalmente que o nada não tem forma, então que o nada jamais poderia produzir, ou seja, ser o Ser ou a Causa de uma Forma, ainda que esta forma seja ilusória e temporária, não importa. É só da forma fixa e imutável de Deus que provém as outras. O nada não pode ser base, não tem como ser base para a criação de qualquer materialidade que seja. Então é preciso que o cerne de tudo seja o Tudo, Deus. O nada é efeito, é consequência, é necessidade temporária de contraste. E claro, muitos chamam Deus de um grande Nada também, como citado, mas é diferente, porque o Nada aqui representa o inapreensível, e, portanto, nada que se possa definir intelectualmente, como dito. Nisso Deus é o Nada, justo porque é Deus. Ele é o Nada por comportar todas as possibilidades, toda a potencialidade, sendo Ele a própria Potência e, portanto, Senhor de todas as formas e de tudo o que se manifesta, seja como efeito seja como causa.

O próprio movimento histórico materialista é a prova de que algo está acontecendo, que tem algo maior acontecendo todo o tempo, todas as coisas estando conectadas, os eventos históricos não são jogos de dados (como quiseram colocar alguns falsos profetas/poetas – que Deus joga dados), aos nossos olhos pode ser casualidade, mas quando vemos o primeiro homem da caverna que fez o primeiro risco na parede, e hoje fazermos riscos num papel e nos comunicarmos minimamente, e haver internet e expressarmos desejos, preocupações, medos, alegrias, gozos, euforias, tudo – de demônios a anjos sendo expressados, ainda que não haja palavras para descrever de fato o inferno e o céu, ainda assim, tantas obras magníficas, na Arte especialmente, e coloco na Arte tanto obras de santos, assim como teorias científicas, que são Arte quando nos fazem evoluir, quando são inegavelmente boas e belas; sendo a própria história materialista a prova cabal inegável de que tudo tem significado, efeito e causa, e que basta pensar que: o homem rupestre é como uma criança que rabisca a parede, e a gente fica pau da vida, mas ao mesmo tempo entende que isso é um primeiro indício de que mais tarde esse ser estará se comunicando, se expressando mais plenamente… ou seja, é um efeito que tem como causa um final específico, ou um devir específico…

O erro da fé materialista é pensar sempre: chegou, é aqui que dava pra chegar, e chegou. Porque a pessoa é tão empoderada, acha que ela é a raiz de todo o poder, que ela é o suprassumo do poder e o estado em que se encontra, o ápice da expressão da evolução, que ela acha que o agora é o máximo que pode haver, não tem amanhã, não tem nada depois de mim, depois desse estado de coisas e de organização, aí coloca todo mundo uniformizado igualzinho, com mesmo salário, mesmas casinhas, mesma forma de família (porque nisso ninguém pensa, ninguém no Brasil, ao menos, assume que comunismo não aceita família gay, isso é deformação dos princípios comunistas. É que o comunismo político virou revolução cultural e nisso houve uma reformulação deformadora das bases para ele continuar existindo, mas ninguém assume isso). Então quer dizer, o estado uniformiza e padroniza o seu estilo de vida, não só seu dinheiro mas também a sua cultura, e pronto, é o máximo que dá pra fazer, eis o céu… só pode ser brincadeira, né?! Isso não faz sentido em lugar nenhum do mundo, não faz sentido racional, porque é acreditar que se chega numa evolução humana final, ou no controle da evolução humana material, sendo que os homens da caverna jamais teriam sido capazes de controlar as consequências de um risco na parede, assim como é risível que o ser humano de hoje ache que ele é capaz de controlar a consequência coletiva de um novo feito humano no campo material. Acreditar nisso é risível, para dizer o mínimo.

A própria história materialista é a afirmação das diferenças no decorrer do tempo no espaço, e não a estabilização da igualdade, nunca foi, nunca será, o marxismo é a própria deformação de sua ferramenta, e por isso muita gente que se acha marxista nem sabe do que fala, marxismo em si não existe, porque ele é a manutenção do que seria a igualdade celestial feita pelo homem, com a primazia nas mãos do homem – que é magia negra, em suma, que já foi falado na Poesia anterior: milagre tem a primazia de Deus, magia negra a primazia está na mão do homem; mas o que há hoje é uma bestialidade que se reveste por este nome, é diferente, porque esta besta, através das diferenças, quer impor o relativismo absoluto, o caos anárquico, ou seja, é como se se acabasse inclusive com a magia, e só fica o negra, é só a escuridão que fica, porque a primazia já não é sequer do homem, mas da besta que ele se torna, já não mais podendo ser chamado de homem, mas estando entregue aos demônios. É como querer beber álcool como se fosse água, ou pior, beber um copo vazio afirmando que a transparência do nada que “há” ali é igual a transparência da água e do álcool.

A matéria, por mais que ela seja deformada e deturpada aos nossos olhos em aparência, ela é inegavelmente o reflexo do alto, então inegavelmente ela é a evolução, ainda que através de uma involução espiritual, indo para o zenit da materialidade que equivale ao nadir da espiritualidade, ou seja, o ponto mais alto da materialidade é equivalente ao ponto mais baixo da espiritualidade. Então antes beber álcool do que beber o nada.

Para um bom entendedor, ainda assim, a involução espiritual no micro é evolução espiritual no macro, mas claro, não dá para aceitar os erros de agora – de uma regressão e involução proposital – e ficar falando: tá fazendo merda, mas está evoluindo, faz parte fazer merda – involuir é necessário, mas ficar de maneira astuta e sabidamente repetitiva, isso que não dá: usar da necessidade de involução para justificar a nossa permanência numa regressão e não passar a evoluir, a melhorar o estado das coisas desde o espiritual a partir da hora em que somos chamados para isso, para que assim seja – pois cada um terá seu tempo de chamada, mas todos devemos continuar caminhando sem parar, pois muitos são chamados, poucos são escolhidos, isso é o que devemos buscar, e não aquilo – não a negação das coisas todas. Então isso não é um movimento geral, mas individual, contudo é preciso correr atrás, como nos exorta São Paulo: Cristo, que é Deus, caminha, mas nós, que somos homens: corramos!!! porque estamos muito atrás, e porque por mais que façamos, não fazemos nada, todo o nosso trabalho é pó, porque tudo o que fazemos só nos mostra que somos servos inúteis quando finalizamos algo… assim como no Oriente se constrói mandalas e as destrói depois, é o mesmo princípio, servo inútil porque o nosso trabalho não é fixo, só a fé o deveria ser, em termos de que o trabalho muda, a ciência muda, mas a fé é a mesma do começo ao fim… agora, a diferença entre o Oriente e o Ocidente é que no Oriente Deus destruirá tudo, porque a figura equivalente ao Pai é um destruidor, sendo essa é uma visão Saturnina de Aquário, que vem destruir o que Capricórnio construiu, vem novamente fazer da pedra sobre pedra pó, assim como também no Oriente essa visão se liga ao Nodo Norte da Lua (conhecido também como Cabeça do Dragão que tem seu domicílio em Aquário junto a Saturno na astrologia védica), sendo que no Ocidente o Pai não destrói, mas Urano aparece em seu trono Real, e o Nodo Norte ganha outra dimensão, deixa de ser karma ou dharma futuro para se tornar missão (de sofrimento E de júbilo, ambos andando juntos), missão essa para a glória do Pai, e Ele inova tudo através do Filho, para que nada seja perdido. Como em outros momentos já disse e repito: Tudo se crea para que nada se perca, eternamente se inova.

Então em termo coletivo só o Pai sabe quando essa evolução se tornará observável, por enquanto ela é apenas vislumbrada individualmente, e de maneira que a maioria é cega, então não adianta apontar, é preciso ter fé para conhecer o fato de que o bem, se não em termos de quantidade, em termos de qualidade, supera e muito o mal, a ignorância, por isso continuamos evoluindo como um todo. E por isso os campos estão brancos o tempo todo, prontos para a colheita, porque em cada grau de maturidade se tem um tipo de colheita, e o tempo todo a maioria está amadurecendo e tem o que colher, e por isso também é perigoso ficar disseminando crença de que ‘somos bostas, somos todos uma merda, estamos no fundo do poço’, aí começa a propagar ideias de que nos suicidaremos, de que nasceremos deformados, começa a incutir medo como se o medo nos fizesse caminhar, quando o que ele faz é gerar paralisia, e quando dá algum passo é para trás, como pessoas que disseminam o fim do mundo pra ontem e junto a isso ideias de suicídio coletivo. O medo, derivado de Saturno, nos testa, é diferente de crer que ele nos faz caminhar. É claro que devemos falar de nossas sombras, não é oprimir nem reprimir, porque isso é tão ruim quanto, mas fazer marketing delas ou colocá-las de maneira a gerar pânico, ou mesmo eufórica como colocamos, como os jornais fazem, e mesmo pessoas que se dizem espirituais, mas que são claramente perturbadas, que claramente abrem a boca e só cospem pedras, só vomitam coisas pobres, só disseminam ideias mortas… fazer essas coisas como a mídia e algumas pessoas individualmente fazem, especialmente usando da espiritualidade alheia para vampirizar e hipnotizar, é um estado de ignorância que prefiro nem comentar. É um grau grave de doença.

Meus queridos, meus amigos, tudo e todos que fazem terror psicológico e emocional contigo, tome cuidado, porque uma coisa é se preocupar, ter um senso crítico de que a sociedade não está indo por um bom caminho e tentar endireitar, tentar apontar a Luz para, quem sabe, individualmente escolhermos o melhor e assim, aos poucos, a sociedade mudar. Mas aquele ou aquilo que te deixa em estado de alerta, de tensão, de ansiedade ou depressão, quem te dá banho quente ou banho frio, te escaldando e arrancando tua pele para usar como prêmio, seja o prêmio em forma de likes, em forma de audiência, em forma de alunos, em forma de clientes, em forma seguidores, em forma de discípulos, em forma de pacientes, seja na forma que for, te deixando inclusive dependente daquele meio ou daquele humano, porque sem ele você não sabe nada, porque as explicações dele são as mais fodas, porque é o único jornal, a única pessoa que diz a verdade doa a quem doer, e esse tipo de coisa, sem que você aprenda em nenhum momento a se tornar um ser independente de fato, que sabe ver as coisas e interpretar por si próprio, cuidado! Porque esses são realmente perigosos, aqueles que nos mantêm dormindo mesmo quando aparentam saber muito, mas no fundo nada sabem e não possuem nenhuma informação de fato profunda e relevante, só uma coisa e outra, porque a maior parte é podre. São criaturas que te querem imaturo, que não anseiam pela maturidade alheia, porque eles próprios são podres e não querem que saibamos disso, mas, ao contrário, quer que nos tornemos como eles. Então é preciso estar atento. E por isso é importantíssimo desenvolver o discernimento e sempre caminhar para que nos tornemos capazes de ver o espiritual e a matéria por nós mesmos. Não adianta repetir o que um autor fala ou faz, de nada adianta ouvir o que eu aqui digo se isso não ganha alguma aplicabilidade na vida de fato, se não te faz refletir, se não te faz alguém melhor em atos, em vontade. Então é preciso estar atento, e por isso é importantíssimo desenvolver o discernimento e sempre caminhar para que nos tornemos capazes de ver o espiritual e a matéria por nós mesmos, repetindo. Vejam com seus próprios olhos, peçam por isso, roguem por isso. Busquem meios e pessoas que incentivem tua emancipação, teu amadurecimento, para que amanheça, para que haja uma manhã dentro de ti mesmo, pessoas que busquem uma relação de independência, que não precisem de você e nem você delas, mas que por verdadeira escolha permaneçam uma ao lado da outra, seja como família, como amigos, como casal, como professor e aluno, médico e paciente, o que seja, porque só assim se chega de fato ao Amor: Escolhendo! Como falei na Poesia do Amor.

Por que Deus nos fez? Ele precisava de nós? Não. Ele dependia de nós? Não.
E por que nos escolher então, por que escolher nos fazer, nos crear?

Por Amor.

E essa não é uma resposta intelectualizada como quem busca uma resposta em si, pois quando eu digo Amor eu também não sei do que falo, porque nós não temos dimensão do que seja o Amor divino de fato. Ele só É, e a gente ainda não tem capacidade de apreensão do que significa só Ser. E não compreendemos uma escolha que é escolha pura, cuja essência é a doação, sem jamais esperar nada em troca. Por isso Deus não é um Deus de premiação e punição, como muitos colocam. Isso somos nós, criaturas, que fazemos uns com os outros. Deus não premia nem pune ninguém, Ele só escolhe se doar independentemente do que aconteça. Por isso se diz: dê os frutos para os Outros conforme a necessidade, mas não olhe para julgar quem come ou não dele, ou o que fazem com ele, apenas doe o que foi semeado, tendo o cuidado para não jogar pérolas aos porcos, sim, para não dar pães inteiros aos cachorros, quiçá as migalhas, mas doando o que lhes for de necessidade, sabendo que há muitos cuja necessidade é inclusive receber um ‘não’ como resposta, inclusive. Porque Amar e se Doar não é dizer sim a tudo o tempo todo. Sem meu não, o meu sim é nada.

É difícil ter discernimento? Muito difícil. Mas há que buscá-lo.

E há uma queda de diferença entre o fruto que está maduro, o fruto que ainda está verde e o fruto que está no chão, apodrecendo. Porque se eu sou imaturo e estou na árvore, e não tenho capacidade de movimentação e de real conexão com a árvore num todo, conexão com meus irmãos, não vou conseguir observar que a qualidade dos frutos que estão na árvore é muito superior do que os que são vistos no chão. E se torna fácil ficar gritando que é tudo podre, que a árvore inclusive está louca, ‘ela é a culpada, ela está podre, morta, porque olha os frutos que ela produziu, olha que merda tudo apodrecendo no chão, cheio de fungo, se tornando álcool, fermentando’ etc..

Só que o problema não está na árvore, mas sim na pessoa cega. Então normalmente ou é uma pessoa imatura e fala tudo isso na inocência – sendo que normalmente, normalmente, quando ela faz marketing do ‘a gente é uma merda’ ela meio que se desespera, há um quê de preocupação real, só que ainda é imatura então ela vai propagar a merda, não vê que essa ansiedade dela é de um Áries infantil, por isso Áries é tida como a criança dos signos, ela está a mercê dum Marte infantilizado. Ou se propaga que a gente é uma merda porque se é um fruto podre, que caiu da árvore e só consegue ver o que está ao redor, no chão também, ou pior ainda se for alguém que caiu, vê a árvore e xinga por inveja, por querer que os outros frutos, que estão maduros, não sejam colhidos, não alimentem o resto, por querer que os frutos pereçam… e conseguir discernir essa ignorância até seu grau máximo da maldade em si requer muita paz e tranquilidade, porque o fruto maduro sabe que não adianta se desesperar com nada, nem com quem está no chão propagando maldades, porque se o fruto maduro se mexer muito por se alterar com aquilo, ele também cai.

Então um fruto maduro não deve permitir que o bando de fruto podre que grita que a árvore e seus frutos são uma merda o afete enquanto tormento, porque o outro está fazendo o papel de merda, então ele se identificou com a merda e se tornou merda, ou seja, adubo, e por astúcia e maldade reflete sua identidade no resto, ainda que em última análise qualquer um que escolha isso não saiba o que está fazendo, então seja apenas ignorância num grau extremo.

É preciso muita tranquilidade para não se deixar levar e acabar caindo também. E mesmo muita tranquilidade para não se achar imaturo e deixar de alimentar quando convém, não se permitir ser colhido na hora certa, porque fica achando que colheita é queda, porque colheita também se relaciona com Saturno, é a foice de Saturno que colhe a fruta na hora certa, especialmente em Libra – que é sua exaltação, sobre a qual já falei em outras Poesias.

Então, uma das formas dessa colheita vem, aproximadamente, de 30 em 30 anos para ver os que atingiram uma maturidade do espiritual junto à matéria, seja no grau em que se estiver, para que os frutos maduros, ou a maturidade da pessoa seja colhida e se torne alimento para os outros. Não é que Saturno, Satanás alimente os outros – quem alimenta é o Espírito Santo, o Filho e o Pai, Deus em sua trindade, a Árvore da Vida, mas aquele que colhe neste mundo tem a sua função: que é colher apenas. Então o ceifador é necessário, ainda, ao menos, mas é completamente diferente de uma pessoa que fica crendo que Saturno é só o que passa a foice arrancando todos os frutos, fazendo-os cair da árvore. E abismalmente diferente daqueles que tomam para si esse cargo, porque é preciso que o Filho do Homem seja sacrificado, mas ai daquele que for o responsável!

Então começamos a observar que a maldade faz uso duma ferramenta satânica, assim como uso de ferramentas lucíferas, mas essas figuras em essência têm sua função, portanto são parte da hierarquia, porque tudo é trabalho, como já falei na Poesia passada; a eternidade, seja no inferno, seja no céu, é trabalho e oração, e quem quer trabalhar para o mal também ora, pois orar é conversar com as hierarquias dentro da verticalidade, seja para cima seja para baixo. Por isso, se a gente caiu e pode tornar a elevar-se, anjos caídos também podem tornar a elevar-se. É claro que há quem discorde, há Filhos da Água que negarão essa possibilidade, e há autores maravilhosos que não abrem qualquer redenção aos que caem. Mas acredito que seja preciso ver que a misericórdia divina abarca o abismo e, ainda que seja improvável, é possível que um anjo caído se arrependa e retorne ao cimo. Eu, ao menos, acredito verdadeiramente nisso.

Existem princípios e funções que são criadas para serem executadas a partir de um determinado tipo de existência, já que caíram, porque ninguém fica de pernas pro ar – por assim dizer. Então o mal se torna escravo do bem, mas é preciso ver que, obviamente, o rei da sombra sofre dos 7 pecados capitais, sendo preguiçoso e orgulhoso, querendo ser servido pelos que anseiam por sua majestade. O que prova que é estupidez nossa querer servi-lo, claro. Os do mal nos fazem escravos, porque repetem e reproduzem a sua própria condição inevitável, não porque Deus os force a algo, mas porque é como a gravidade, o trabalho é algo inescapável, é uma força divina maior do que querer ou não, não requer que a física mande alguém cair para que a gravidade se dê, assim como Deus não precisa obrigar ninguém a trabalhar para que o trabalho se dê.

Agora é claro, assim como na gravidade nós podemos caminhar, nós podemos cair e nós podemos morrer de um tombo, de uma queda muito alta, enfim, e assim como podemos criar naves e voar, máquinas que voam, o trabalho também tem diversas fórmulas pelas quais ele pode acontecer, uma delas é pela obrigatoriedade compulsória, a escravidão, no caso.

E ser ceifado na hora certa é diferente da frutinha que cai e fica gritando que tudo é merda. É muito diferente. Por isso não adianta culpar Satanás ou Lúcifer, só se cai porque se permite tal queda! A responsabilidade é de cada um, não adianta querer culpar o inferno, o inferno é feito pelas nossas escolhas pessoais em escolher o tormento que leva à queda, à dúvida que leva a ficar balançando prum lado e pro outro, entre lados opostos, entre respostas diversas, num relativismo absoluto que não cabe ao homem, porque ele deve ser firme em Deus. Mas é claro, o rigor excessivo, da dura cerviz, também leva à queda, leva ao satânico empedramento do fio que nos conecta à árvore e pelo qual ela nos alimenta. Então é preciso ter do movimento, mas do movimento se relaciona ao Espírito Santo, por isso é preciso que o Fogo seja contristado pela Água, é inevitável. E, aliás, é profundamente belo! Por isso é possível usar do Fogo para catalisar o processo, é possível usar da ferramenta lucífera para cozinhar o alimento espiritual e evoluir mais rápido do que seria apenas comendo alimentos crus, inconsciente do movimento de queima dentro. Mas só é possível seu verdadeiro uso em submissão ao Espírito Santo, ou seja, passando por missões menores, sub-missões, para somente no designo de Deus receber uma missão realmente.

A queda de Lúcifer foi ansiar por uma missão que não era sua, crer que podia almejar a missão principal, ou mesmo crer que seu Fogo poderia substituir a Água eternamente, sendo que seu Fogo sequer é seu, mas lhe foi dado e pode ser tirado, assim como já lhe foi tirado, porque Cristo Jesus o venceu na Cruz. Sendo que pelo alimento cru começamos e a ele retornaremos, aparente e literalmente, porque isso aumenta nossa consciência do fogo interno. E por isso creio piamente em meu coração que seja possível a redenção dos anjos que caíram, contudo não é possível voltarem sendo senhores desse Fogo, por isso já comentei também em outra Poesia que um lucífero pode voltar, mas tendo seu posto destituído, perde sua importância, não há mais trono onde se sentar nem reino a governar caso queira voltar de fato à presença do Altíssimo. Talvez seja algo improvável de se ver acontecer, mas sim possível.

Tudo isso para dizer que: só com uma profunda compreensão de toda a separatividade, ou seja, sempre lançando novos raios acerca desse assunto e sobre este assunto, sobre toda a ceifa, todo o trabalho, é que se chega à compreensão das exaltações, da maturidade que observa um sol nascente, do coletivo espiritual exaltado, inclusive observável nos planetas – sendo um planeta em queda ou exaltado diferente do que costumamos analisar e dizer astrologicamente por aí, com possibilidades mais refinadas de se olhar para isso –, o planeta em queda faz um trabalho de tomada de consciência junto da separatividade, enquanto o exaltado é o trabalho de tomada de consciência junto da unidade. A Queda só existe em contraste com a Exaltação, ainda que a Exaltação tenha uma existência em si mesma, mas, neste período em que estamos, só seja observada e apreendida se em contraste com a queda em si mesma.

Mas um planeta em queda pode ser algo magnífico em termos de se conhecer enquanto indivíduo, mas se mal vivido, atentemos à gravidade, vira disforia, vira vulgaridade, promiscuidade, esquizofrenia… eu citei a Vênus em Peixes anteriormente e sua falsa exaltação, agora observemos sua queda: uma Vênus em Virgem estará trabalhando a vulgaridade dela mesma na tendência a estar entregue às aparências preconceituosas, mas se compreendermos o propósito essencial do porquê dela necessitar passar pela queda veremos que é para aprender algo sobre a separatividade. Não é para se apegar à separatividade, tendência da Vênus em Virgem será de apego às aparências materiais, à discriminação, ao próprio separar e analisar tudo, mas em usar disso enquanto ferramenta catalisadora de sua emancipação. Por exemplo, conseguir observar o seu grau de evolução. Então uma Vênus que saiba olhar para o próximo, ver sua doença e amá-lo, sem ficar esperando ou exigindo que se seja perfeito e se seja saudável, essa pessoa pode ajudar muito na cura, pode descobrir em si uma capacidade de curar maravilhosa. É um grande desafio? Sim, claro, mas é uma possibilidade, possibilidade da pessoa que vê o mundo doente e em vez de discriminar esse mundo, se prontifica a amá-lo para que seja curado, para isso ela tem que estar curado, então o saber-se saudável ou mais saudável do que os com quem eu lido não é mais para discriminar e preconceituosamente não se misturar ou fazer exigências absurdas ao próximo, mas sim para que eu me sabendo saudável, curado no ponto específico em que os outros que se me apresentam estão doentes, aí posso ajudá-los, ou então, outra possibilidade, eu descobrir e saber que o meu feminino está doente e o mundo vai ser um espelho disso, eu vou achar que os outros que estão doentes, mas na verdade é um espelho, eu vou ter nesta vida a possibilidade de me curar disso, de curar o meu feminino, de sabê-lo doente, adoentado, e poder ir atrás de uma cura.

Assim como o domicílio e exílio: um planeta domiciliado serve à unificação de si, porque a exaltação é unificação de Si no Todo, e o domicílio é a unificação de si em Si, dum eu menor com o Eu maior. Então pode ser algo maravilhoso o exílio, que é separar-se de si e se observar, desde que a pessoa consiga se observar, usar isso a seu favor enquanto ferramenta de melhora de si mesmo, pode ser a chave que falta cair para que a pessoa esteja plena de fato em si mesma, e não precisa que uma pessoa com Vênus em Virgem, Escorpião ou Áries espere uma próxima vida para vir com Vênus em Peixes, Touro ou Libra para daí viver a unificação, não, se nessa vida a pessoa aprende a se observar – é claro que cada exílio, em Escorpião e em Áries terá uma lição diferente –, mas, basicamente, ela pode viver nessa vida a libertação dessa Vênus em termos de uma força que aprende apenas naquele signo.

Isso não é forjar um novo mapa, pois é viver seu mapa no máximo dos graus possíveis que ele te ensina, que aí sim você poderá viver os mapas que estão prometidos em vidas futuras, as lições de vidas futuras. Não é que se forja um novo mapa, as próprias hierarquias darão novas lições de maneiras sublimadas, então não se terá um mapa em que Vênus estará em aparência em outro signo, mas se poderá viver isso de maneira manifestada para quem tem olhos de ver acima da matéria da carne. Assim como a única forma de, de fato, se forjar um mapa é uma única ocasião: para curar os enfermos. Somente este caso permite que usemos de uma força que não temos e acessemos uma determinada configuração específica para um determinado evento. Só. O resto do que se diz de ‘forjar um mapa’ é magia negra, pois mesmo o curar a si mesmo se dá pelo crescimento das sementes que as hierarquias nos deram e nós, junto delas, aceitamos e escolhemos.

O mapa é para trabalharmos nossas sombras e vigiarmos nossa claridade, trabalhar para que as sombras se dissipem, vigiar para que, tal qual uma casa, nossa claridade não seja perdida, obscurecida, invadida, usurpada, roubada. Para isso que serve a ciência, para ajudar a vigiar, porque se sei que tenho uma tendência, então estarei atento a isso para que isso não me tome de assalto, não fique obsedado por criaturas em busca disso, nem possuído por ideias que comunguem com isso. Vou me purificar, me limpar, ainda que podendo ser uma tentação que me acompanhe a vida inteira, e sabendo que haverá momentos de vivenciar isso, mas de maneira verdadeira.

Fazer merda de verdade é dificílimo, porque requer grau de santificação, que é quando a sombra cura os enfermos, quando até meu erro se torna ensinamento para os outros que estão piores. Assim como há fezes que servem de esterco, sendo específico de vaca, galinha, cavalo, minhoca… tem fezes que é só cocô, não é esterco, não passa pelo processo de secagem ao sol, porque mesmo as fezes que se tornam adubo não é de qualquer jeito, tem um tratamento… a diferença é que o santo faz esse tratamento, é alguém mais cientes, mais desperto, sendo o médico que cura a si mesmo, porque todo médico deveria ser santo. Todo médico de verdade é santo, médicos em aparência são falsos médicos, não são santos. Assim como curar a si mesmo não se bastando, mas sendo exemplo de quem se entrega verdadeiramente à providência divina e à missão nessa vida, seja a missão curar os enfermos através de remédios, seja curar os enfermos através da imposição das mãos etc.. o principal é seguir o Mestre e, portanto, estar no Caminho.

Lembrando que não é a profissão aparente que diz respeito à santificação, seja médico seja padre, não significa que sejam santos, mas quem está na santificação busca maneiras aparentes, literais, simbólicas e arquetípicas de curar a humanidade. Ambos curam, cada um na sua via, mas ambos buscam o mesmo princípio, ainda que nem todos os que buscam profissões relacionadas à saúde do povo estejam de fato em Cristo. Que é o problema da aparência, que já tratei na Poesia da Literalidade: aparência não pode determinar a literalidade, o simbólico e o arquetípico.

É claro que a graça de curar nossos irmãos é vinda do alto e só e possível a recebermos se buscamos nos purificar de alguma forma, não quer dizer que logremos essa purificação, mas tendo o genuíno anseio, genuína vontade e desejo de nos purificarmos, porque isso não ocorre por si mesmo, os vícios não nos deixam porque nós queremos ou os vencemos, mas porque Deus os afasta de nós, Ele que nos faz fortes, nós devemos ter a vontade e o desejo verdadeiros de que isso aconteça, do contrário até é possível que algo mude, porque para Deus tudo é possível, mas é improvável.

Amadurecer é querer, ansiar, desejar, ter vontade de que uma Luz seja lançada sobre nossa sombra, que nossa imaturidade verde e inconsciente se torne colorida, cheia de vida, de ciência, e depois cheia de consciência, de abundância para a colheita – colheita que se relaciona também com coletivo, sendo quando nossa individualidade se torna capacitada para de fato se unir à coletividade, que é o caso de passar do domicílio dos planetas às suas exaltações, como comentado, tendo sido tratado sobre Colheita e Coletivo na Poesia passada.

Então a Poesia do Amadurecimento, do verbo Amadurecer, talvez seja isso: quando vamos observando as coisas através de uma nova Luz, um novo raio que surge a cada vez, nessa aurora que desponta, nesse Sol que surge triunfante, e aí, num determinado momento vai ser útil e conveniente observar Deus como um espelho para nossos ciúmes e, inclusive, impotências, e outras vezes será útil e conveniente observá-lO como um ser zeloso e potente. A real maturidade talvez não esteja no que eu vejo de fato, se ciumento ou zeloso no fim das contas, mas em como eu uso os adjetivos enquanto ferramentas para que a humanidade se veja e, um dia, sem adjetivos, possa ver Deus face a face.

Então quando formos criticar ou elogiar, usar adjetivos para qualificar alguma coisa ou alguém na nossa vida, lembremos: aquilo fala muito mais sobre nós do que sobre o que qualificamos em si mesmo. E se queremos crescer, amadurecer em relação ao que nos vai sendo dado e ao que já temos, que encontremos formas mais criativas e poéticas de se lidar com essas qualificações. Não usando para desqualificar, numa disforia ou numa euforia, em vez de uma exaltação e uma queda que verdadeiramente nos ensinam. E ensinam mais sobre nós enquanto humanidade, do que sobre Deus em si mesmo. E, paradoxalmente, quanto mais aprendemos sobre a humanidade, mais aprendemos sobre Deus em si mesmo. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o mundo. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás Deus um dia.

Eu tenho fé de que assim seja, porque sei, em mim, que é isso o que todas as hierarquias cantam o tempo inteiro para que nos lembremos: glória a Deus para que um dia à nossa verdadeira casa nós voltemos. Amadureçamos… Olhai, os campos estão brancos para a colheita.

Caminhemos…

Que Deus seja convosco!

a Poesia do Coletivo e a Poesia da Colheita

 

Qual é a Poesia do Coletivo e qual é a Poesia da Colheita?

Coletivo significa ‘colheita’, ‘colher junto’.

 

Uma colheita: imaginando um campo vasto, ele até pode ser colhido por uma pessoa, mas não faz sentido se a gente pode ter a ajuda de várias. Contudo, para se colher, para haver uma colheita, é preciso dividir o terreno – quem colhe cana, por exemplo, sabe que o trabalho é por metragem, é tendo divisões com medidas certas que se arranca, ou seja, não tem fórmula para o arrancar em si, mas há uma Forma para que seja feito por todos ao mesmo tempo, tendo cada um seu pedaço. Então esse coletivo é uma grande colheita, onde todos trabalham de alguma forma, cada um a seu tempo, cada um no que lhe compete enquanto missão.

Assim sendo, não é possível abrir mão da individualidade, porque é cada um trabalhando a sua metragem, sendo que o coletivo se baseia justo em seu oposto complementar: é preciso ser indivíduo e ter seu espaço privado para se colher junto, pois o ato de juntar está implícito também, o que demonstra que é preciso que cada um tenha o que apresentar enquanto resultado, enquanto frutos dessa colheita.

Então cada Ser, individualmente, é responsável por semear e colher em uma determinada parte. Se um não faz seu serviço direito, os outros serão, com o tempo, obviamente, sobrecarregados. Porque é preciso ter da colheita, ou seja, é preciso ter do coletivo, ninguém vive sozinho nesse mundo, por mais que a gente não tenha consciência do viver coletivo, portanto da colheita que está o tempo todo acontecendo – erguei os olhos e vede os campos, pois já estão brancos para a colheita… então o tempo todo a colheita está literalmente pronta para ser feita, ainda que não tenhamos consciência de como ela ocorra, não tenhamos olhos para ver ela acontecendo em termos de aparência, mas o tempo inteiro ela é feita. Claro que não de maneira ideal e perfeita, porque muitos não permitem que os outros colham, aliás matam aquele que vem cobrar satisfação sobre a colheita, ou matam aquele que está fazendo a colheita de maneira certa, cumprindo com sua missão, porque isso denuncia que os outros não estão, então claro que há toda uma problemática a respeito disso também, mas de toda forma, o tempo todo, isso já está se dando de toda maneira.

E mesmo que, sendo um espaço demarcado, outros não possam, digamos, colher no lugar de quem se recusa a fazer o trabalho, ainda assim, o terreno inteiro, das duas uma: ou tem um único dono, acima de todos, que estipulará quem colherá no lugar do folgado, ou é um terreno de todos, resultando na sobrecarga dos que já terminaram seus individuais trabalhos. É claro que na verdade sabemos que são ambos: há um Senhor do terreno, e nós, por Filhos, somos seus herdeiros, então ao mesmo tempo é de Um e é de Todos, então este Um, aos que não têm consciência, Ele estipula quem fará o trabalho, e os que vão herdando o reino podem começar a se candidatar, por assim dizer, pro sacrifício em prol daqueles que ainda não compreenderam sobre o que se trata.

Quando se fala de respeito para viver coletivamente, de fato, é importante respeitar-se.

Respeito vem de literalmente ter um segundo olhar sobre algo, etimologicamente falando. Logo, sim, ele é necessário para se viver em coletivo, inclusive para se ver uma segunda vez se o que o outro trouxe é trigo ou joio, ou mesmo para ver uma segunda vez “a cesta” do outro que, em um momento anterior, pode não ter trazido nada, voltando desta vez cheia. Nunca se sabe, o livre-arbítrio é dado. Então quem não trabalhou uma vez, de última hora pode fazer o trabalho e receber o mesmo salário. Então é preciso respeitar enquanto o tempo é dado. É preciso ter um segundo olhar, ter respeito, com aqueles que, num primeiro momento, se negam a lavrar, a semear, plantar, colher, enfim… ter das ações que fazem crescer de fato!

Contudo, respeito não inclui um terceiro olhar, é preciso se atentar que respeitar não inclui aceitar tudo por tempo indeterminado. Mas significa, sim, ser tolerante com quem faz algo diferente do esperado. Como dar uma segunda chance.

Viver em coletivo também significa que pode ser que o campo não seja dividido de maneira proporcional e igualitária, mas sim que a colheita, o Fruto, o alimento seja repartido entre todos, independentemente de quem colheu mais ou quem colheu menos. Até porque a divisão desse terreno, aos poucos que têm mesmo esse pouco será tirado, e aos que muito têm mais lhes será acrescentado, então quanto mais a gente ganha a capacidade e desenvolve também, por escolha do livre-arbítrio, a capacidade de trabalhar e gerar frutos, semear essa terra, ser o sal da terra e semear de fato, mais a gente tem a possibilidade de ser aquele que faz com que as coisas se multipliquem e chegue aos necessitados e como os apóstolos também, não mais apenas como discípulos mas apóstolos que se encarregam de saber distribuir as necessidades. Sabendo também, é claro, como comentado, que o alimento é repartido independente de quem colheu mais quem colheu menos, quem trabalhou mais quem trabalhou menos em termos de horário: o trabalhador da última hora recebe o mesmo da primeira hora, que está trabalhando de sol a sol o tempo inteiro. Assim como independente de gostos pessoais, por exemplo: eu gostar mais de abóbora ou gostar mais de milho – não importa, a divisão será de acordo com a união do que cada um tem para dar, não sendo possível gostar mais ou gostar menos do que o outro planta, mas sim tendo discernimento sobre o que se planta, sendo tanto a abóbora quanto o milho necessários para uma saúde plena; bem como quem gosta de plantar o que não serve para melhorar a saúde, como joio, como erva-daninha, não sendo conveniente, podendo ser cortado do coletivo também, com o tempo – claro que isso requer um agravamento espiritual muito grande para que se chegue a esse ponto, mas é porque a colheita é para que se possa comer, para que a gente possa se alimentar, e não se divertir, oba-oba ou plantar o que dá na telha – ‘vou fazer o que dá vontade aqui, vou vaidosamente ser epigenético, vou jogar fora meu mapa astrológico e vou fazer um mapa melhor do que o foi me dado pelas hierarquias que sabem mais do que eu, não é mesmo?’. Não é para isso.

É preciso ter muita humildade, muita humildade para entender que as sementes que nos são dadas são aquelas que devemos semear primeiro e que, quem semeia e colhe, não necessariamente se alimenta daquilo que colhe, porque o amadurecimento vem do latim ad-, que significa para, e maturare, que vem de estar pronto para a colheita, sendo que maturare se relaciona também com mane, com manhã, ao que é cedo, então nós colhemos quando a gente tem maturidade para isso, é a maturidade que vai pontuar a hora da colheita, os cabelos brancos, o campo branco que determina a colheita, e quem tem maturidade, quem muito semeia e muito colhe, sabe, a gente vai compreendendo aos poucos, que antes de matar e saciar a própria fome é para o outro que eu semeio, então tudo o que me é dado não é meu, é para que o Outro se conheça, para que o Outro volte para Deus. É claro que isso não pode ser feito de maneira imatura, se eu começo a colheita de maneira imatura, eu vou doar algo que não tenho, que está verde, não serve como alimento; então é preciso amadurecer, é preciso dar tempo ao tempo, é preciso conhecer-se: “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o mundo”, conhecer o mundo vem depois, mas neste processo a gente observa que, no fundo, o plantio é para o amadurecimento próprio, crescimento próprio porque eu cresço junto das sementes que planto, mas a colheita é para que eu me doe enquanto corpo, que é o princípio crístico. E quando eu me doo enquanto corpo eu percebo que todas aquelas sementes que me foram dadas não eram para mim de fato, eram para mim momentaneamente, enquanto meio, eu fui só um meio, mas Cristo é o fim e o começo, porque é a doação de Si que faz principiar e finalizar o processo, e não para si mesmo, esse eu pequeno.

É claro que Cristo vai falar dos 7 Eu Sou’s, então alguém pode dizer: se Cristo é o Eu Sou é para mim, só que não, porque este Eu Sou é o coletivo, não é o Eu Sou da individualidade enquanto uma espécie de solterice da humanidade, de eu me basto… É claro que não há como um raio do Sol achar que é sobre ele todo o fato de o Sol brilhar, arder e se doar e que era para ele se reconhecer enquanto raio e ter sua consciência de raio. O que é um raio? Nada. O verdadeiro Eu é o Sol, e não os raios que são emanados. Então por isso que todos devemos nos tornar Jesus Cristo, não só Cristo, mas Jesus Cristo, porque é preciso se tornar Centro e emanações do centro. O verdadeiro Eu Sou não é de um homem que recebeu um arcanjo e são os maiores iniciados do rolê todo, mas é o Centro que se sabe o Todo. Então toda a colheita não é para que eu me alimente, mas é para que tudo possa continuar sendo emanado eternamente. Então eu não vou plantar o que me dá na telha, eu não vou fazer um mapa astrológico que me dá na telha, porque é melhor, porque é legal, porque eu gosto ou porque vaidosamente convém para que eu me torne eu  mesmo, isso tudo é falso!

Mas se eu planto porque meu irmão precisa de abóbora, então vou plantar aqui uma semente de abóbora, e o outro precisa de milho, então plantarei milho, e o outro precisa de trigo, e eu plantarei trigo, e o outro precisa de um Saturno num determinado signo e numa determinada casa para que faça aspecto com o mapa dele e ele possa ser curado, eu vou me tornar aquele mapa que cura o mapa astrológico dele, e aí sim eu tenho autorização divina – claro que caso convenha curar quem se apresenta, o enfermo que se apresenta, porque curai os enfermos, mas obviamente não todos, mas aqueles que nos são dados e que querem ser curados, porque não depende só da vontade divina, mas também da vontade humana de cada um, enquanto individualidade, enquanto consciência separada, então, a partir daí com todos os elementos sincronizados, com a literalidade, o simbólico e o arquetípico na sincronicidade que faz com que a aparência manifeste aquilo de alguma forma aí sim eu posso forjar um mapa astrológico que cure o meu próximo. Essa é a única finalidade da alta magia ou que, em seu verdadeiro nome na verdade não é magia, mas milagre.

Porque por mais que se possa dizer que há uma forma científica e, portanto, dessa forma se deriva uma fórmula, que só se apresenta na sincronicidade para que seja verdadeira, ou seja, é uma aparência que só se dá na sincronicidade para ser verdadeira e não para ser a queda… mas por mais que eu possa colocar em uma fórmula por haver uma forma científica de fazer as coisas, e apresentar o milagre de forma científica e religiosa – porque esse é o verdadeiro milagre: a união da religião e da ciência, ainda que em nosso estado de consciência acabe predominando um ou outro, a balança acaba pesando mais prum lado do que pra outro, mas o milagre é sempre esses dois pesos da ciência junto da religiosidade, da espiritualidade, sendo que é a partir daí que consigo fazer com que uma cura se efetive. E a gente pode momentaneamente chamar de alta magia, falar sobre magias cerimoniais, magia branca, mas ainda assim esses não são nomes verdadeiramente apropriados, o verdadeiro nome de tudo isso é milagre porque a magia tende a ter a prerrogativa do homem como primazia, sendo que no milagre a prerrogativa é de Deus. O milagre não nega o lado científico do acontecimento, enquanto si mesmo, o milagre não deixa de ser milagre porque a gente consegue explicar cientificamente o que aconteceu, o milagre é caracterizado por acontecer porque é vontade de Deus, porque a primazia é de Deus.

Então toda a colheita passa a ser um milagre, o milagre da multiplicação porque é através de primazia de Deus nos mostrando o que devemos plantar, o que devemos colher, como devemos semear, aguardando o tempo – que é sempre do Pai, sempre estabelecido pelo Pai, ainda que a nós ele se apresente enquanto cronologia, enquanto algo crônico, ainda assim o tempo é sempre primazia do Pai –  a não ser que estejamos doentes, aí é uma outra conversa… Kronos, a etimologia de Kronos todo mundo liga ao cronológico, mas ao que já encontrei e me afirmaram e é possível encontrar é que na verdade o Kronos da mitologia se torna o guardião da Ilha dos Bem-Aventurados, não tem nada a ver com o Cronos cronológico; um é Kronos com K o outro é Cronos com C, e há uma grande diferença entre um K e um C, um se torna a doença e o outro se torna o senhor guardião da Ilha dos Bem-Aventurados. É importante encontrarmos essas preciosidades na mitologia, porque isso mostra que o tempo é uma primazia do Pai e o tempo bem aproveitado faz com que Kronos em sua originalidade seja aquele que toma conta da porta da Ilha dos Bem-Aventurados.

Então eu não planto o que eu quero, dá na telha ou o que eu gosto, mas o que o outro precisa que seja. Assim como eu passo a confiar que aquilo que eu preciso o Pai vai prover através de um outro irmão, através dos meios que o Pai vai estabelecer, e que se em algum momento eu precisar de melão e eu não tenho a menor ideia de onde encontrar melão é ter certeza, ter fé absoluta de que quando realmente houver necessidade deu comer melão vai surgir um melão, seja através de uma pessoa, seja caindo de algum lugar, seja porque vai brotar porque alguém passou mastigando melão e cuspiu a semente no chão, não importa, porque um passarinho cagou a semente do melão enquanto ele passava… vai surgir um melão quando eu tiver a divina necessidade de um melão e eu não preciso me preocupar com plantar melão porque pode ser que amanhã eu queria melão, ou precise de melão porque me falta tal vitamina que o melão dá.

Então o plantio, todo e qualquer plantio, seja das estrelas, seja da aparência dos alimentos de fato, seja do que for e em qualquer categoria que isso se dê, é a saúde que vai ter a primazia e vai ser o imperativo, não as opiniões e gostos pessoais imaturos e inconsequentes, completamente ignorantes. Assim, isto revela que, enquanto não se superar o próprio individualismo, e não é a individualidade, mas individualismo, egoísmo (o indivíduo doente em si mesmo, egoísta), não será possível haver coletivo.

E o ser humano está muito atrás nesse quesito, o que faz crer que qualquer tentativa de coletivo, por nós termos uma ideia romântica, idealizada, ou seja, na verdade não é uma ideia, é uma ideologia de coletivo (porque uma ideologia é sempre uma deformação das ideias), ou seja, por conta da ideia romântica, ideologizada que nós temos e, portanto, deformada do que é viver de fato essas palavras, toda tentativa de viver isso será ruim, pois como vemos, requer deixar de lado a passionalidade imatura de gostar ou não gostar de alguém ou de algum ato, de gostar ou não de alguma fruta, de algum legume: ah, eu não gosto de plantar árvore, eu quero plantar só trigo porque trigo é dourado, mas se você tem que plantar figueira, é figueira o que você tem que plantar! Por isso a ideia de livre-arbítrio é algo que a gente não sabe elaborar porque a gente tem o livre-arbítrio aqui de negar a Deus, mas a verdadeira liberdade não é arbitrária, ela não serve para você livremente arbitrariezar as coisas, relativizar as coisas e escolher lados, a gente tem que escolher lado porque aqui joio é joio e trigo é trigo, mas em termos de missões celestiais, espirituais, o que a gente tem que plantar já está dado, não tem o que escolher.

O que precisa é retornar a Deus para reconhecer o que nos foi dado, e só observar e ter discernimento quanto ao que simplesmente é necessário, doa a quem doer – e aliás, fazendo a dor parte do processo de colheita, pois só quem lavra, ara, semeia, rega, espera e colhe sabe o que é carregar o sol sobre a cabeça e ter do próprio suor pingando o sal na terra, literal, simbólica e arquetipicamente, e inclusive na aparência quando fazemos isso de fato sob o sol ardente, quando plantamos cana, colhemos cana e qualquer outra planta que não dê sombra; e mesmo as que dão sombra, porque colher algo na árvore é sim nos colocarmos ao sol, uma escada ao redor para colher aquele fruto. O processo de colheita não é algo agradável, é sacrificante, é estar sob as vistas do sol o tempo todo. O que na verdade é maravilhoso, a quem tem olhos e compreende que neste mundo, o que nos faz sofrer, é no mundo espiritual justamente o que nos provê toda a água para matar a nossa verdadeira sede. Então enquanto penamos sob o sol aqui, com sede e suando, estamos recebendo água da fonte nos meios celestiais, e isso vai ser exemplificado com o próprio sol sobre nossa cabeça, a onipotência, onisciência, onipresença de Deus sobre nós o tempo todo e nós sob o olhar de Deus o tempo inteiro. É lindo, é maravilhoso! Então é preciso ter muita maturidade, pois isso significa, acima de tudo, saber viver o Privado para só então não privar-se de compartilhar o que é solitariamente gerado.

É claro que o privado é algo ilusório? Sim, como falei, o crescimento da semente, o meio, é o que menos importa, o que importa é o fim e o começo, e o fim e o começo são coletivos, mas isso nada tem a ver com ideias deformadas, ideologizadas em viver isso em aparência na Terra, porque, como falei na Poesia anterior, aparência é diferente de literalidade. É claro que, a partir da hora em que se vive verdadeiramente uma coletividade celeste e espiritual, ela vai se confirmar na aparência de alguma maneira, mas não da maneira lógica como a gente pensa e como a gente espera, que vai ser o paraíso na Terra, não necessariamente, aliás pode ser, pode ser – não digo que seja, mas pode ser muito pelo contrário, que quanto mais sejamos coletivos espiritualmente maior o inferno se faça aqui na Terra, em termos de individualidade, em termos de viver o privado, de cada um cuidar da sua vida, talvez isso simbolize e leve a outras questões que nós não conseguimos enxergar como elas estão se dando. Mas claro que não pode usar da aparência para determinar o que ocorre no alto: ‘ah, somos todos egoístas, então quer dizer que no espiritual somos todos coletivistas…’ não, obviamente não é assim que as coisas se dão, mas sim uma coletividade espiritual pode significar uma pessoa que leva uma vida muito individualizada, muito privada, inclusive em isolamento, por exemplo. É porque quando falamos de coletivo e privado na nossa sociedade isso está atrelado a demônios muito grandes, a ideias bestiais do que isso significa, está deformado, então é claro que os extremos disso na aparência são bestialidades.

A besta não é só aqueles que querem um  processo individualista a qualquer custo, de privatização das coisas a qualquer custo, a besta é especialmente aqueles que querem o coletivismo enquanto meio, sendo que o coletivo é o fim e o começo para que o Eu se dê de fato, para que o Eu seja. Então é bem complicado… mas basicamente só se chega no coletivo, ou só se chega a Cristo Jesus, ao centro emanador, passando pelo privado. Por isso Deus encarnou, esteve em carne osso, cabelo, sangue, unhas aqui na Terra entre nós, porque é a perfeita maneira e a forma mais reta de se exemplificar isso – daquilo que é centro e emana tudo de si mesmo se fazer um único raio, mas em si não era um raio, era o próprio centro.

Nenhuma gravidez se dá em dois úteros, mas qualquer filho é criado para o mundo.

Então é claro que o fruto precisa do privado e da individualidade para acontecer, mas uma vez que tenha acontecido, aquela individualidade, aquela taça era apenas um meio, e não o fim e nem o começo.
É preciso ter o Si mesmo em primeiro lugar, não por egoísmo, mas por Espírito, Espírito Santo!, que encontra seu Centro independente do caos alheio.

Ainda vai demorar para colhermos, bom… eu digo isso, mas ao mesmo tempo é apenas uma limitação minha dizer isso porque, como já dito, eu não sei do tempo, do tempo só o Pai sabe, pode ser que amanhã aconteça o que eu digo que aqui ainda vai demorar. Mas sob a perspectiva humana parece que é sempre improvável que seja tão rápido, então dentro da nossa visão humana limitada, absolutamente falha e sem fé de que possa realmente ser num fechar e abrir de olhos que tudo aconteça, sejamos prudentes, porque é prudente se privar e ser solitário, é prudente aprender a trabalhar com o privado, fazer do privado um meio para se gerar os frutos nesta Terra – não quer dizer o individualismo e o egoísmo, mas aquilo que se torna próprio, do qual a gente se apropria e torna privado para que o fruto cresça. Porque sem frutos não há colheita, e hoje o que há muito são reuniões de pessoas que não produziram nada, mas que ficam falando ideologicamente sobre ‘como vamos dividir cada quadrado e privatizar tudo’ ou ideologizando como que ‘nossa, vamos plantar todas as sementes, vamos plantar de tudo e a aí a gente vai colher de tudo, e aí a gente dá de tudo pra tudo, e vai ser lindo, todo mundo junto’… como se colheita fosse plantar floresta. Floresta serve pra colheita dos bichos, dos animais irracionais. Seres humanos não são animais, aliás. Porque assim como plantas não são animais que não andam, seres humanos não são animais que pensam, há uma grande diferença… É preciso deixar claro: assim como plantas não são pedras que crescem, e assim como animais não são plantas que andam e sentem, o ser humano não é um animal que pensa. Pedra é pedra, planta é planta, animal é animal, ser humano é ser humano.

E, aliás, aproveito para fazer um adendo aos pais que é: deem plantas de estimação aos seus filhos, antes de darem os animais. Ensinem primeiro: deem pedras a seus filhos, ensinem-os a amarem as pedras, e não a tacarem pedras, ensinem-os a ver como as pedras são preciosas e guardá-las tal qual como joias, por sua beleza, por aquilo que emanam enquanto durabilidade, enquanto pureza. E depois deem plantas de estimação, ensinando quando e quanto deixar no sol, quando e quanto dar de água, vendo as mudanças, e depois deem animais a seus filhos – que tenham contato com animais de alguma forma, não precisa ser cachorro, gato, mas no mínimo um hamster – que vive um ano ou dois -, um animal que não requeira um cuidado tão a longo prazo. Mas que nossas crianças tenham contato com os 4 reinos, e claro, que tenham amiguinhos, seres humanos ao redor.

Porque ser humano não substitui animal, planta e pedra. Assim como pedra não substitui planta, planta não substitui animal e pedra, animal não substitui relações humanas. Eles podem ser muito fofinhos, eu tenho dois, a gente ama realmente, mas não substitui ser humano. Quem tem relação com animal e acha que isso é uma relação maior ou melhor do que a que se tem com o ser humano, essa pessoa precisa muito amorosamente compreender que é provável que ela esteja doente, porque a maior e melhor relação que se pode ter na face dessa Terra é com seres humanos e, óbvio, para além da face da Terra, com as hierarquias dos anjos para cima. Mas ainda assim, os anjos não substituem o ser humano, os homens. É preciso que tenhamos relações com todos esses reinos. Não precisa ser amigo de todo mundo, não é oba-oba, mas tenha poucos e bons amigos, tenha poucas e boas pessoas, isso é crucial na vida, porque animal nenhum vai racionalizar as coisas e palpabilizá-las junto da gente. E é mais fácil a gente passar a agir e se tornar muito mais bichinho do que eles darem um salto evolutivo e passarem a compreender as necessidades nossas, é uma falácia, os animais não compreendem as nossas necessidades; quando eles aparentam compreender necessidades nossas de carência etc. é o nosso lado mais animalesco que se corresponde mais com eles, o nosso lado mais baixo. Eles não deveriam se identificar conosco em termos emocionais, porque isso significa que a gente está num emocional muito baixo. O que deveria é nós ensinarmos eles a evoluírem, como passarem do instinto e do emocional desregrado para algo um pouco mais civilizado, por assim dizer, mais ordenado, eles que deveriam aprender conosco, e não suprir nossas carências e necessidades. Fazer do animal nosso terapeuta diário é crueldade. Ainda que óbvio, eles nos ajudem. Assim como as plantas e pedras também nos ajudam, tanto que são medicinais. Mas nós temos uma necessidade racional, intelectual, intuitiva, inspiracional de nos curarmos e estarmos em contato, e isso os animais não podem oferecer, nem devem ainda, bem como as plantas e pedras também não, é exigir algo que não está no tempo evolutivo deles, e é regredir ou frear nossa própria evolução.

Então é saudável e altamente recomendável, …aproveitando a colheita…, é saudável estar o tempo todo em contato com os quatro reinos, é saudável ter contatos humanos, animalescos, vegetativos e pedregulhentos. É saudável. Busquem isso. Não é preciso ter um grande significado: aquela pedra X que significa e emana tal coisa… é bom conhecer as coisas, mas não precisa ser racionalmente escolhida dessa forma, tenham um contato simplesmente, abram-se pras relações dentro do possível. E se não for mais possível, ensinem as nossas crianças a terem disso, porque é saudável aprendermos a nos relacionarmos com os que estão embaixo e por quem somos responsáveis, assim como com aqueles que são nossos irmãos e estão conosco no meio, e, claro, tão importante quanto é se relacionar com os mais elevados: anjos, arcanjos, querubins, serafins e todos os senhores que nos governam e nos ajudam também, pois assim como nós auxiliamos estes outros reinos inferiores a nós, somos pelos mais elevados ajudados e direcionados também e por isso devemos ter muito respeito ao trabalho que é feito, muito respeito!

E compreendermos que eles não querem nos machucar. Se pode dizer que há seres que têm essa prerrogativa, mas eles não são exatamente mais elevados, e estou falando aqui dos elevados, dos que estão evoluindo de fato. Esses não querem nosso mal, nem têm a prerrogativa de nos condenar. Mas é preciso compreender o trabalho que é feito. Então quando a gente quer jogar fora um mapa, quando a gente ignora nosso mapa ou acha que rege as estrelas, ou tem uma missão clara no nosso mapa e a gente resolve ignorar “porque eu sinto que é de outro jeito”, é uma cegueira que está sendo escolhida, e é perigoso isso. É claro que a gente tem o livre-arbítrio de arbitrar e dizer ‘não, eu vou dar a isso uma determinada aparência’, mas é preciso compreender que não se foge daquilo, é preciso então encontrar uma fórmula para viver aquela forma… não precisa ser a fórmula mais óbvia, então ter um animal de estimação – não precisa ser o mais óbvio, como comprar ou adotar um gato, cachorro, um papagaio que vive 40 anos, ou um pato que vive também pra caramba. Pode ser o trato com as borboletas, com as abelhas, as formigas… não precisa prender em algum lugar ou ter uma rotina muito específica, mas precisa ter seriedade ao lidar com os animais e de alguma forma encontrar algum meio de interagir com eles. Claro que com um gato e cachorro a interação ganha uma qualidade outra, mas não que os outros animais não possibilitem isso, mesmo uma lagartixa é possível criar laços e interações, é que elas não se dão da mesma forma com todos os animais, então a aparência muda de acordo com cada um.

Alguém com um mapa astrológico com uma casa 12 pesada, essa pessoa pode voluntariamente aceitar que ela precisa viver isolada, pelo menos por um período, para compreender que internamente ela vai estar isolada dos outros, ela não vai conseguir compartilhar o interno dela com os outros, a mente espiritual principalmente, mas que isso pode se dar na aparência de uma prisão, uma hospitalização, uma exclusão porque a pessoa não fez de bom grado. É como o cachorro que a gente leva pra passear e fala: do lado, junto! Mas ele quer sair correndo, mordendo as pessoas, dando um rolê, aí a gente vai pôr a coleira, até que põe focinheira, depois uma jaula, até chegar num extremo… E a gente não vê que nós somos esse animal desregrado. E se a gente não vai cumprir as casas que foram postas para que se cumpra, e o nodo norte para que se cumpra, e todas as coisas que estão dadas, enquanto aspectos principalmente, ok, quer ir contra? Ótimo, temos esses livre-arbítrio, podemos arbitrar esse jogo, mas coleiras serão postas, membros que nos escandalizam serão arrancados de nós, ficaram adoentados. Coisas acontecerão que acabarão nos levando e nos obrigando a vivenciar aquilo através de uma outra aparência, e quanto mais a gente se nega a enxergar a sincronicidade dos acontecimentos superiores que nos dão a possibilidade de viver aquilo de forma elevada, mais Lúcifer e os inferiores, nossos demônios, Satanás, mais eles aparecerão e nos farão viver aquilo numa aparência grotesca, de grotta, de caverna, então passaremos por aquilo de maneira inconsciente e caótica, porque a gente dispensou a sincronicidade, claro. Então é complicado.

A pessoa que não tem contato, que se recusa a ter contato com um dos quatro reinos em algum momento ela vai ser obrigada a entrar em contato e isso pode revelar sombras muito profundas, escolhas não muito saudáveis inclusive, porque ela não foi educada para compreender as relações, então toda vez que uma relação aparecer ela vai destruir aquilo, ela vai tratar de maneira sombria cada vez mais. Tem os que vão realmente prum limite do aceitável enquanto sombra, até que sejam separados da humanidade, da colheita, sendo retirados do campo, e tem aqueles que em algum momento vai cair a ficha e vai começar a aprender: ‘ah, tá, tem algo para aprender aqui, ok, vamos aprender.”. E a gente escolhe como aprende, é a velha história, se não vai por bem, vai por mal. Porque no fundo é sobre aprender, como a Fraternidade Rosacruz diz: a vida é uma escola, e de fato, é uma escola. Para quem vai aprendendo e se graduando, vai se tornando uma obra de arte, um laboratório, como citei na última Poesia, vai se tornando o trançar do labor, que é a ciência, e do oratório, que é o orar – a religião.

 

Viver a colheita (o coletivo) não é algo possível sem Ser um indivíduo individualizado.
E isso é ainda raro.

E não falo sobre quem está passando pela individuação, ou quem está passando pelo crescimento da semeadura, estou falando já da colheita. Para viver a colheita precisa já ter crescido, ter amadurecido; como comentei também, o amadurecer tem a ver com o para a colheita, para maturare. O que não quer dizer também que devamos nos isolar, num niilismo trágico, não é isso, mas sim fazer parte do movimento do mundo sabendo o tempo todo que o que chamam de coletivo não é coletivo de fato, é preciso estar acordado e não acreditar na mentira que nos contam o tempo inteiro, essa falácia ideologizada, e, acima de tudo, se saber independente (ou seja, não depender de ninguém, em termos de sobrecarregar um outro ser – especialmente emocional e espiritualmente). Então é se curar da carência de ‘ai eu preciso que o outro me ame, eu preciso que o outro fale comigo, preciso que o outro me veja, me curta, compartilhe, eu preciso, eu preciso, eu preciso…’. Todas as necessidades, a única coisa que elas precisam é cair por terra e nós nos sabermos independentes do grupo em que se faça, temporariamente, parte. E grupo não falo coletivo, porque coletivo aqui está sendo posto como algo superior, como elevado, espiritual, mas falo grupo no sentido do grupal, tribal. Independente da tribo que eu faça parte, eu preciso saber que eu sou independente daquilo. ‘Ah, eu sou mulher, eu faço parte do grupo das mulheres’, é, mas não posso depender das mulheres para me emancipar, para me tornar mulher, e me tornar, principalmente, mais do que um gênero: um indivíduo, um Homem, um Humano de fato. Eu preciso saber dizer ‘não’ para o grupo, para a tribo. E essa é uma grande problemática hoje em dia, porque a gente é carente e quer pertencer aos grupinhos: o grupinho das minorias, o grupinho das maiorias, o grupinho da esquerda, o grupinho da direita, o grupinho… o grupo. E ficamos buscando a atenção e aceitação do grupo, e não podemos depender disso jamais.

Porque quando se faz parte do coletivo de fato – do coletivo quando se faz parte realmente da humanidade, falando em termos espirituais, ou da Ordem Rosacruz ou do Catolicismo, por exemplo, não se tem uma necessidade de aprovação do grupo. Quanto mais a gente busca ser aprovado pelo grupo, mesmo espiritual, mais a gente cai, porque a gente começa a criar fórmulas, então não adianta querer: ‘ah, eu quero ser um Rosacruz, seja da Fraternidade da Ordem, o grau que seja, quero! Vou fazer a cartilha.’. O que tem que fazer é ter e se arrepender. Como faz para ter fé? Sendo obediente, casto e pobre. Eu já falei sobre isso não ser necessariamente a aparência: não adianta jogar tudo pela janela, isso é uma fórmula que cabia a São Francisco qualquer outro que imitar, pode ser uma boa imitação, tanto que tem o livro a Imitação de Cristo… claro que há figuras que, quando a gente não sabe o que fazer, é prudente que se imite aquele que soube o que fazer, mas isso significa que naquela vida nós não estamos nos encontrando de fato porque há uma fórmula que foi feita própria para nós, desde as hierarquias, então a minha fórmula para viver a pobreza não é catando as coisas e jogando pela janela. É claro que as fórmulas coincidem, então pode coincidir de ter várias pessoas que precisam jogar as coisas pelas janelas, porque simplesmente precisam abrir janelas e porta e jogar tudo para fora, mas não é uma imitação vazia, barata, mas sim porque elas fazem parte daquela fórmula enquanto vivência, elas são uma taça, por assim dizer, de um material parecido umas com as outras, então vão se assemelhar nas aparências, lindo! Mas mesmo entre elas as coisas serão diferentes, haverá diferenças na forma de se fazer isso, talvez umas joguem tudo mesmo pela janela, outras só as roupas, outras só os sapatos, outras as suas joias, enfim, são só exemplos. Então sempre em escala menor são fórmulas diferentes, são detalhes cada vez mais individualizantes. Por isso que um mapa astrológico, não importa duas pessoas terem nascido no mesmo dia ou terem um mapa próximo, como aquilo vai se dar de fato são fórmulas completamente diferentes, inclusive para duas pessoas gêmeas, univitelinas. Vai ser diferente, ainda que parecido, ainda que possa se parecer na aparência, ter uma similitude em vários aspectos e graus.

Mas é preciso se saber independente do grupo, mesmo duma Fraternidade Branca, duma Ordem o que seja… Até porque às vezes a Lei fala: não matarás, e Deus vai te sussurrar, murmurar e falar assim: ‘meu filho, pegue teu filho, suba ao monte e mate-o’. Não tem o que pensar, é catar Isaac pela mão e falar: ‘vamos subir o monte porque hoje eu vou te matar’. ‘Ah, mas a Lei diz para não matar o próximo, a Lei…’ ‘Mas o que eu posso fazer?!’ ‘Mas você faz parte da Lei, como assim você vai matar seu próprio filho que você tanto esperou e como um dom te foi dado, e bem quando a gente jamais esperava que fosse nascer algo.’. E às vezes é isso, a gente faz parte de um grupo, e mesmo de um coletivo, porque fazemos parte de uma hierarquia, e Deus pode falar: vá contra tudo o que você acredita. Mate. É claro que sabemos a história de Isaac, era um teste, era uma provação. É uma porta, um degrau, enfim, pode-se dar vários nomes, mas é algo muito específico que está acontecendo, e sabemos que aí a aparência não se torna real, então não é como se um assassino pudesse dizer: ‘então foi Deus que me pediu para matar todo mundo…’ como muitos falsos profetas fazem, aliás. Não é isso. Não é esse o caso aqui, Por isso a linha é muito tênue e é preciso muito discernimento, muito discernimento! E por isso há formas que nós devemos buscar porque essas formas geram fórmulas que nos ajudam a compreender mais a nós mesmo e a Deus, consequentemente. Formas excelente que foram dadas para a humanidade: repetição, devoção, observação e discernimento, Fraternidade Rosacruz, Max Heindel, foi passado isso, foi deixado. Desenvolvam a repetição, o devocional, desenvolvam a observação e o discernimento. Como isso é feito, a fórmula, cada um precisa encontrar a sua.

Retrospecção: é voltando, deitar à noite ou a qualquer momento do dia, à noite é crucial mas a todo momento podemos fazer a retrospecção, e ir retornando os acontecimentos desde o momento mais presente até o iniciar do nosso dia, de maneira contrária como quem rebobina uma fita, e ir observando quais as necessidades de mudança no nosso comportamento, nos nossos atos, sentimentos e pensamentos. Retrospecção não é só para os atos, começa nos atos: o que fiz ou deixei de fazer de maneira cardíaca, mas também o que senti ou deixei de sentir e também o que pensei ou deixei de pensar. Agora imagina o que é ter uma retrospecção dos pensamentos, de cada pensamento que se tem ao dia… É preciso desenvolver um grande discernimento quanto ao que se pensa antes disso, senão é um caos, são muitos os pensamentos que temos durante o dia, como fazer uma retrospecção de pensamento? Só a partir da hora em que se acalma o pensamento, em que não se pensa qualquer besteira a todo momento, e aí começamos a prestar atenção que ‘esse pensamento eu não quero mais ter’, e aí se arrepende, tem a contrição, fica triste! Tem que pesar, ser pesado, porque se não dói não está extraindo o azeite, o óleo, porque toda fruta ou toda planta para se extrair o óleo ela é prensada, fervida, ela é de alguma forma passada por processo de contrição dela, de aperto e dor, para que o óleo saia. Não tem como se arrepender: ‘ai, desculpa, Deus, foi mal, vou fazer melhor da próxima vez.’. Isso pode servir como uma nota de rodapé para se lembrar mais tarde, mas em algum momento é preciso que doa, como se o sangue saísse pelos poros – é esse o grau de dor que a retrospecção e o arrependimento têm que trazer. Como Cristo ao pé das Oliveiras, no pé do Monte das Oliveiras. E claro, usar dessa seiva para fertilizar a obediência, pobreza e castidade (como comentei na última Poesia), que é a fé. A Fé! Se este óleo não for posto na água que é a fé de nada adiantará, é o óleo da água que queima o fogo apropriado, que faz com que o fogo exista de fato, como diz o Jacob Boehme: quando o óleo da água acaba, o fogo se extingue.

É preciso ter muito discernimento para ouvir as coisas que são tentações e o que são testes celestes. Porque é claro que Deus não ia permitir que Isaac fosse morto efetivamente. Mas Deus é sábio o suficiente para nos pedir que mate Isaac, a gente pode chamar isso de loucura, mas é uma sabedoria divina, e devemos estar o tempo todo prontos para ir contra as Leis divinas inclusive caso Deus nos fale. Como dito, não se vai chegar a efetivamente ferir as Leis, pelo menos eu não acredito nisso, mas nós iremos lutar com o anjo… E mais ainda, chegamos a lutar com Deus, é uma luta o tempo todo maravilhosa com o próprio Deus. O anjo nos fere na perna como a Jacó, e nós devemos lutar com Deus o tempo inteiro porque é Ele que nos livra de nós mesmos, e esse é o paradoxo: devemos lutar a ponto de vencê-lO para que Ele nos mate. Para que Ele nos faça o ferimento crucial para nos libertarmos! Pelo qual jorra nosso sangue e a nossa água. E é por isso que Deus está acima de toda e qualquer hierarquia, e nenhuma criatura de hierarquia alguma é Deus enquanto singularidade. A aparência pode revelar um ser que é centro e que é Deus, mas Deus não é uma criatura, porque quando nós pertencemos às criaturas nós fazemos parte do coletivo e Deus pode, a qualquer momento, nos pedir para que ajamos de uma maneira outra dentro desse coletivo de uma forma que nem compreendemos, como indo contra as Leis que pertencemos, a Ordem que fazemos parte, enfim, o que seja… E por isso só Deus é nosso verdadeiro Mestre e ninguém, de Ordem nenhuma e de hierarquia nenhuma pode nos dizer o que fazer senão Deus (por intermédio ou não delas). Nós somos só um meio.

Não se confunde a taça com a água que há nela.

Assim como não devemos nos julgar mais do coletivo do que de Deus. E uma das formas de aprender isso é sabendo que fazemos parte de tribos, de grupos, nomenclaturas sociais, mas não nos atermos a isso. Até porque a palavra grupos tem como significado um ‘amontoado’, e uma coisa que se amontoa logo será desfeita, logo se taca fogo e vira cinza, ou se distribui e deixa de ser um grupo e depois a gente nem lembra de que fez parte daquilo que se amontoou de qualquer jeito, porque um amontoado é questão de circunstância, a colheita não, ela é uma questão de crescimento, e não de circunstância, são coisas diferentes.

Não devemos permitir que o que a gente chama de “coletivo” hoje em dia e ideologias coletivistas ditem as fórmulas de como cada Eu deve Ser e como cada Eu deve agir – pois a única forma de ser é semeando e multiplicando e a única forma de agir é colhendo os frutos e os doando, sendo que essa vida e os grupos devem nos ajudar nisso: a criar momentos em que fazer parte de algo maior nos permita expandir a nós mesmos enquanto lavradores do nosso pedaço de campo. Lembrando sempre que: há uma forma para o todo, mas as fórmulas são pessoais e intransferíveis.

As fórmulas são pessoais e intransferíveis!

Ou seja, pertençamos, façamos as coisas porque somos seres sociais, nos encontremos, nos abracemos, semeemos e colhamos. É claro que há momento em que é semeadura, há momentos em que é solitário, é o crescimento, o trabalho sozinho debaixo do Sol, mas saibamos também reconhecer quando tudo estiver colhido, de nos juntarmos ao redor da mesa para multiplicarmos, para doarmos aquilo que cresceu individualmente. Que saibamos que nós somos um Ser verdadeiramente à parte, mas que isso é uma etapa, porque nosso único caminho, único fim e começo é Jesus Cristo. Então que aprendamos a receber, semear e colher com Ele. Crescer com Ele para que possamos amadurecer, para que uma nova manhã, uma nova aurora possa verdadeiramente acontecer…
Um bom trabalho a todos.
E que sejam fartas também as orações.
Um abraço meus Amados-Amigos-Irmãos!
Que Deus vos abençoe agora e sempre,
Amém!
Kronos:

 

“(…)os gregos nunca tiveram um deus do tempo, e a associação acima não passa de etimologia popular. Existia, sim, o deus Kronos, filho do Céu e da Terra, portanto pertencente à primeira geração de deuses.

Simplificando muito: ele matou o seu pai, que temia ser destronado por um dos filhos. Depois casou com Réia e se tornou pior ainda do que o pai, tratando também de destruir os filhos (pudera, com um modelo desses!). Um deles, Zeus, conseguiu dominá-lo
e passou a comandar o Olimpo.

Depois pai e filho se acertaram e Kronos acabou reinando sobre a Ilha dos Bem-Aventurados, onde se mostrou bom e justo. Às vezes as brigas dentro de uma família dão certo, se as partes se mostrarem maduras.

A única ligação de Kronos com o tempo é que, por ter reinado em passado muito, muito distante, dizer “no tempo de Kronos” significava um tempo enorme atrás.

Mas então por que a confusão? Porque em Grego, Chronos era a palavra usada para “tempo”, e nada tinha a ver com o nome do deus. A palavra começava com a letra chi, que tem um som semelhante ao CH alemão, ao passo que o nome do deus começava com a letra kappa. O som da letra chi não existe na maioria dos idiomas derivados do Latim, e não há como representá-lo adequadamente nessas línguas. Havendo diferença apenas na letra inicial, instalou-se toda uma história inverídica a respeito desta etimologia.”

Fonte: https://origemdapalavra.com.br/artigo/os-deuses-antigos-na-nossa-vida/

Se algo te falta

 

Se algo te falta e te sentes vazio
respira, olha o céu e aprende que todo espaço é aparente…
Se já não aguentas ter calma, ainda assim,
pisa o chão com leveza, porque a terra, com toda sua dureza
nos aguenta em infinita paciência…
Se te afliges com as coisas do mundo
deixa que te suguem feito seiva
e sê fonte que jorra e nutre
para que também sejas consolado por quem te alimenta…
Se te é um fardo a injustiça
carrega-o silenciosamente
não abra a boca para vingar o que julgas
mas apenas para receber o maná
que vem para saciar as dores presentes…
Se teu coração bate mais forte pela miséria alheia
que pela tua, dá-o a todos por quem ele pulsar
e verás que eterno ele se tornará
pois mesmo quando teu corpo estiver morto
os outros, de mão em mão, o palpitarão
como música infinda a os consolar…
Se tens que suportar as impurezas externas
deixa que te sujem de lama e lodo
e assim manchem tua aparente cristalinidade
que o interno faz vir à tona o verdadeiro corpo
tal qual imagem e semelhança
para que se veja e se banhe
na transparência íntima do face a face.
Se por vezes te sentes alvo de guerra
se por vezes ela te sorve a vontade
agradece por não seres filho daquela
que mata a todos por pura vaidade
e semeia a vida, mesmo com cansaço,
pois o que te é tirado hoje
amanhã te será dado a mais
quando fores reconhecido como filho legítimo da paz…
E se és perseguido por seres justo em tuas medidas
saiba que a porta é estreita em largura
te seguirão até que chegues nela, e nela te matarão
para que pela justiça de todas as vidas
passes sem levar nenhuma
e adentres de mãos vazias o reino das criações puras,
pois aquele que sofre com um mundo que tudo lhe tira
ao nada ter adentra o reino verdadeiro

recebendo a alegria por doar a si mesmo
no face a face da eternidade como obra prima.

a Poesia da Literalidade [Virgem Maria, Cristo Jesus, Maria Madalena, Catolicismo e Rosacruz]

Eu gostaria de conversar. Gostaria de caminhar mentalmente e conversar sobre ‘qual é a poesia da literalidade?’.

Qual a problemática que envolve a literalidade em nossos dias.

O problema da literalidade é que 99% das pessoas confundem literalidade com aparência. Quando a gente procura a etimologia de literalidade, literal, ela está relacionada à letra, ao significado restrito da letra. Na Poesia da Evolução já observamos, em todas as Poesias eu trabalho etimologicamente, e na da evolução é possível observar, a história nos mostra, como a sua etimologia está intimamente relacionada ao Verbo, àquilo que é literal, que tem relação com a Palavra e, portanto, tem relação com o Verbo, e por isso o estudo etimológico da palavra necessariamente nos encaminha a Cristo. E não digo termo, porque estudar termo é ir no contracaminho, ele é a antítese da palavra, a palavra viva como aqui coloco.

A literalidade se relaciona com o Espírito Santo, o simbólico com Cristo e o arquetípico com o Pai. A aparência é o lucífero e o literal em nosso mundo se confunde com a aparência. A aparência é lucífera e nos tenta, por indução, ao erro, e nós, por astúcia nossa, não de Lúcifer, mas nossa, nós caímos em tentação, nessa tentação que se nos apresenta. E o problema é que passamos a ter questionamentos absurdos, por exemplo, esses dias eu estava vendo, então irei tratar Maria como exemplo, num questionamento absurdo de como Maria pode ser virgem, se ela deu à luz. E aí fica um debate se ela era literalmente virgem ou não, o que é absurdo de se debater. Contudo, tomarei ela como exemplo, ainda que muitos possam me tomar como herege, como falta de respeito da minha parte usar de Maria para isso, mas eu sei que está tudo bem fazer uso disso, das imagens absurdas que colocarei, porque no estado em que está nossa mente é preciso chegar na absurdez para conseguir minimamente palpabilizar certas astúcias nossas, então através do absurdo mostrarei o absurdo das ideias, que é pior do que as imagens em si. É como dizem, dois negativos formam um positivo – eis a tentativa aqui, usar algo que em aparência é negativo para revelar outro negativo interno a nós buscando, quem sabe, chegar num resultado positivo.

Então quando se tem esse questionamento se Maria era literalmente virgem, óbvio que era literalmente virgem, não deveria haver dúvidas, mas como a mente se uniu à astúcia nossa e a usamos para nos ludibriarmos acerca das respostas claras quanto a certas questões, eis o seguinte: questionar a virgindade de Maria, mãe de Deus, e a não compreensão do que seja literalidade leva à seguinte interpretação errônea dos fatos: eu pergunto – uma mulher que tem seu hímen intato, que é virgem em aparência, mas que já tenha feito sexo anal com um parceiro ou o mundo inteiro, ela é virgem de fato? Só porque seu hímen não está corrompido e ninguém tocou nem penetrou sua vagina, essa mulher é virgem por acaso? Creio eu que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe em seu coração que não, uma mulher, ainda com hímen intato, se ela foi pra cama e teve outras práticas, exceto penetração vaginal, isso faz com que seja prostituta, porque ela se entregou aos prazeres da matéria, então há mácula e, portanto, não é virgem, literalmente desvirginada. Ou seja, não importa se Maria teve seu hímen rompido por um varão ou não, por José ou não. Ela é a virgem sem mácula, imaculada, independente do que a aparência nos mostre.

É possível engravidar sem haver penetração, ainda que havendo uma ejaculação, para não levarmos para o sentido mágico do processo – que pode ter acontecido também, não estou aqui para dizer como Jesus foi concebido, não é esse o caso, o que importa é: independente de como ele foi gerado no corpo de Maria, sua virgindade não deveria ser contestada e duvidada, porque seja por processo mágico – dos anjos a inseminarem, seja por processo humano – de fazer amor com José uma vez na vida, a mando de Deus, a sua virgindade, em qualquer caso, permaneceu intata, assim como a mulher com hímen não rompido teve sua virgindade completamente estraçalhada, rompida e corrompida. Ou seja, a virgindade de Maria não se atrela à aparência de um hímen rompido ou não rompido, isso é a astúcia quem fala. Ah, mas é o científico, pois é, o problema da ciência é que ela é lucífera, e vai partir para a astúcia, sendo que em nosso coração sabemos que alguém que se deita e pratica sexo anal com um ou mil não é virgem. E não adianta ter discursos pseudo-aquarianos de existir vários tipos de virgindade: vagina virgem, boca virgem, ânus virgem… não importa, isso é falso, é malícia nossa querer acreditar nisso – de que perdemos várias virgindades, e tudo bem transar, contudo que não rompa meu hímen que vou pro céu virgem, não, não vai, porque está entregue aos prazeres carnais. Porque a literalidade da virgindade se atrela ao não ser maculada pelos prazeres carnais, o que quer dizer que Maria é Virgem imaculada porque ela não foi pra cama, ela não transou, ela concebeu sem prazer carnal, sem estar maculada pela paixão.

Então é uma outra oitava do que se diz ser virgindade, e por isso a literalidade é diferente da aparência de algo, porque na aparência uma mulher que já fez sexo anal pode ser virgem, pode-se comprovar isso com teste, e uma mulher que aparentemente não é virgem porque teve seu hímen rompido pode ser com certeza virgem, a mais virgem de todas perante os olhos de Deus. Ah, mas então ela fez sexo. Sexo não, porque sexo é diferente de estar com um homem pelo dever, ela não fez por prazer, ela não esteve por prazer com José – seja em casamento ou seja na cama, isso não importa, se foi por processo exclusivamente angélico ou humano – a palavra sexo está atrelada ao prazer da carne, à divisão que há carne enquanto dualidade, assim como com certeza não foi uma transa, mesmo no sentido original da palavra de transação, de um comum acordo entre humanos, porque não foi um acordo entre Maria e José, mas entre Maria e Deus, assim como também entre José e Deus, é diferente, há um mundo, um abismo de diferença. E menos ainda um coito, como se Jesus fosse um coitado, de maneira alguma. Se houve alguma interação íntima entre Maria e José, certamente foi o mais alto grau do que queremos dizer com a expressão ‘fazer amor’, porque com certeza Cristo Jesus, sendo a própria encarnação do Amor entre os homens, só pode ter sido gerado e nascido de um profundo amor de seus pais por Deus e também de um pelo outro.

Por isso Jesus também não tem outros irmãos na carne, Maria pode ser mãe de muitos, mas não na carne, em termos de ‘transou e opa, engravidou, aconteceu’… não, Maria cumpriu um dever, seja lá como isso tenha se dado. Mas se coloca que Maria é virgem antes, durante e após o parto, o que para a ciência e aparência é absurdo a Igreja afirmar isso, porque quando o bebê passar ali, no mínimo ali ela não será mais virgem, mas quem olha para isso em termos de aparência é uma pessoa muito ignorante porque a virgindade, como mostrado, nada tem a ver com o rompimento do hímen. Por isso Maria é sim virgem antes, durante e após o parto. O hímen ele pode simbolizar e simboliza a virgindade, mas é nosso dever passar para um grau acima da aparência da carne. Porque não é a aparência, ou seja, a carne que ganha o céu.

Assim como eu comentei: Cristo Jesus se casa com Maria Madalena. Isso é literal? Sim, é literal, porque faz parte da evolução, e portanto está no Livro da Vida e portanto é Letra, é Palavra Viva; isso quer dizer que casaram na aparência? Não necessariamente.

O que acontece é que, assim como Cristo é a Alma do Espírito, Filho do Pai, Maria é a Alma da Matéria, Filha da Mãe, no melhor sentido disso, apesar da aparência deturpar a expressão Filha da Mãe. E o que é casamento em sua literalidade? A etimologia nos mostra que é habitar uma casa pobre, morar num casebre, ter uma habitação em um terreno, sendo que a palavra casa etimologicamente vem de um casebre, de um lar pobre, humilde.. Cristo Jesus e Maria Madalena são dois seres altíssimos que vieram habitar a Terra e juntos fazem um serviço, cumprem um dever específico na Terra, portanto é literalmente um casamento, porque é o encontro na carne das duas Almas provindas da Fonte. Aliás, um dos significados de Urano ter duas Luas, uma de cada lado, é esse.

Jesus não é simplesmente um homem – o maior iniciado entre os homens, isso é aparência. Bem como Cristo não é simplesmente o maior iniciado dos arcanjos, Espírito Santo, o maior iniciado entre os anjos… essa linguagem é muito válida pra gente iniciar um estudo, iniciar uma compreensão das coisas. Antes de Jesus nós éramos homens em potencialidade. Por isso é importante estudar certos autores… o Jacob Boehme fala sobre Cristo ser o centro, Santo Agostinho fala sobre Deus não ter limite, nem forma apreensível de corporeidade, sendo nós que precisamos criar como imagem rotineiramente. Assim como Frithjof Schuon nos mostra como o homem, em potencialidade e virtualidade, não é homem, que é algo que eu já comentei: Nietzsche, em sua bestialidade, afirma – torna-te quem tu és, só que não, porque és nada, então tens que tornar-te aquilo que não és ainda, mas podes vir-a-ser, e claro que por poder-vir-a-ser, de alguma forma és, pois o futuro está na eternidade assim como o presente, mas enquanto virtualidade, e não atualidade, sendo preciso atualizar o presente a todo o tempo para que as coisas e os seres sejam de fato! É completamente diferente. Então não é porque fazemos parte duma coletividade chamada humanidade que podemos nos dizer homem no singular enquanto indivíduo de fato, ou humano. E isso só se torna possível a partir da hora em que Jesus habita a Terra, antes disso o homem era apenas uma potencialidade, uma virtualidade. Ah, mas Sócrates era sensacional, sim e daí? Antes de Jesus não era possível alcançar esse grau de indivíduo. Nem com as iniciações anteriores, não importa, não se chegava a Cristo e, portanto, não se tornava homem, porque não adianta tornar-se um homem estéril, um homem só é homem se dá nascimento ao Filho do Homem, um homem estéril é uma aberração, e o Filho do Homem só é possível a partir da hora em que Cristo Jesus habita a Terra.

Porque Jesus não é o maior iniciado dos humanos, ainda que isso facilite nossa compreensão atual da espiritualidade, mas mais do que isso, Jesus é o centro do humano. É como Adão, Adão não é um homem, Eva não é uma mulher… eram o próprio centro humano, assim como o Sol não é da mesma propriedade que seus raios, mas seus raios são feitos das propriedades dele, que é o centro, e por isso Cristo, centro solar, se uniu a Jesus, centro humano – assim como o Sol se une à Terra, bem como a mente se liga ao coração – e por isso foi literalmente a manifestação de Deus, e não de um simples homem com um arcanjo. E por isso todos somos Adão, fomos Adão e Eva, e por isso todos nós devemos nos tornar Cristo Jesus e Maria Madalena, literalmente. Se não nos tornarmos Cristo Jesus e Maria Madalena, não habitaremos a Terra de maneira apropriada, ou seja, não estaremos em casamento por dever e a serviço. Porque, como dito, casamento vem etimologicamente do ato de se ter um terreno com uma habitação instalada, de se morar numa choupana, numa morada pobre (que é a etimologia de casa, de onde deriva casamento), sendo o casebre no qual se habita a Terra, a Terra é a casa na qual se mora quando se casa, porque é aqui que podemos de fato ainda prestar os maiores serviços, especialmente no plano denso. Por mais que servir nos outros planos seja lindo, lindo sair do corpo, ter consciência em planos mais elevados, ainda assim é um fato que os maiores ganhos anímicos bem como o verdadeiro despertar passa pela carne, passa pelo corpo físico, pela necessidade de lembrarmos e termos consciência em todos os corpos e nos curarmos e agirmos, de preferência, em todos eles, não deixando um de lado – ainda que certos serviços sejam sim só possíveis e necessários fora do corpo denso. Mas isso não anula o fato de que o corpo físico é a joia mais preciosa e lapidada que temos e que uma cura a partir dele é a cura que possibilita a libertação de fato. Por isso Deus esteve aqui, em carne, em corpo denso, por isso Deus se fez literalmente carne, e inclusive em aparência, não só na literalidade, no simbólico e arquetípico, mas inclusive na aparência, para dar o exemplo e porque é a partir da carne que se retorna para o alto, ainda que a carne em si não retorne para o alto, mas só através do processo por meio dela é que isso se dá, ou seja, sem ela a evolução não se torna possível neste estágio.

Então é possível observar como a literalidade dos acontecimentos obriga a aparência a nos prestar contas, por isso que o que a gente chama de mal, as entidades maléficas vão obrigatoriamente servir ao bem, porque a aparência vai estar atrelada de alguma forma aos acontecimentos, mas não como o ser humano julga e imagina como a aparência astuciosamente nos leva a crer. Em aparência é só mais um homem, em aparência não é mais virgem, em aparência as coisas se tornam banalizadas, mas a literalidade, a Letra no Livro da Vida, mostra que os acontecimentos do nascimento de Cristo Jesus, do parto de Jesus, de Maria e José e seu casamento, do casamento de Cristo Jesus e Maria Madalena, tudo vai mostrando como a aparência talvez não seja como a gente, num primeiro momento, tem a tendência de imaginar, porque nosso pensamento está corrompido, por isso que pensar é pecar, porque o impulso mental que temos normalmente nos leva a caminhos em que nós automaticamente caímos em tentação ao imaginarmos algo diferente do que literalmente é de fato, simbolicamente é de fato e arquetipicamente é de fato, porque a literalidade, o simbólico e o arquetípico são a trindade sob uma outra aparência, uma outra manifestação através dos acontecimentos e das relações que se dão aqui na Terra, e em todo o tempo-espaço e para além do tempo-espaço.

E, claro, também não se deve confundir o fato de Jesus ser o centro humano com ele ser mais importante ou tão elevado quanto Cristo ou mesmo o Espírito Santo, ou, pior ainda, ser um centro em si mesmo, pois ele é centro no sentido de concentração do humano, e não no sentido de centro creativo do mundo, como o é a trindade em si mesma… Jesus é como o nosso coração de carne, mas o coração Real é a pineal na cabeça, Cristo. Assim como a Terra é o coração de carne do sistema solar, sendo o Sol a porta para o coração Real, que só é alcançável depois de tornar as coisas na Terra conscientes. Por isso ambos trabalham juntos e são indissociáveis. O Sol e a Terra se tornaram um assim como Cristo e Jesus também. Quem tenta passar a usar a pineal antes de ter aprendido a tornar seu coração um músculo literalmente voluntário, é uma pessoa que não sabe o que faz e que corre grande risco de terminar muito louca. Vai se queimar. Eu falarei melhor sobre isso em outra Poesia, ainda. E querer se tornar o centro, fazer de Jesus o centro como fazer do humano o centro, se crer mais importante do que Cristo e do que o Sol é o que provocou a queda de Lúcifer, por isso é preciso muito discernimento para compreender que Jesus é o centro dos homens, mas não faz dos homens Deus. E não é porque Deus se uniu ao homem, e Cristo se uniu a Jesus, e o Sol veio para a Terra e fez da Terra um centro no qual se concentram também as forças hierárquicas, toda a atenção vem para a Terra e, portanto, nessa perspectiva as coisas se tornam geocêntricas, ainda assim não quer dizer que isso tome o lugar do Sol. Jesus vem de Cristo, assim como a Terra saiu do Sol, a trindade não se torna quaternária por isso, seria um grande equívoco, ao contrário, é Deus encarnado, mas é como se, usarei uma analogia imperfeita por não me ocorrer algo melhor, me perdoem, mas é como se a nossa consciência inteira fosse focada e encarnasse por um momento somente num pedaço do nosso corpo específico, como a mão… não é porque dela são emanados escritos, poesias de alta beleza, que a mão é Deus das poesias, não, somos nós que vemos a palavra ser emanada apenas daquela parte, e devemos nos tornar como aquela parte porque ela está diretamente nos ensinando como fazer o mesmo, mas na verdade o Verbo surge muito antes da mão expressá-lo, ou o Verbo surge muito antes de Jesus expressá-lo, assim como quando concebemos o poético em si, para então a geometria se casar com o movimento e lograr expressar o Verbo de forma a pari-lo no concreto. Porque todo número, bem como toda letra tem sua origem no geométrico, assim como o número é o movimento, relacionado ao Espírito Santo, e a letra é o Verbo, relacionado a Cristo. E por isso os números nos foram dados antes da escrita, assim como só se torna alfabetizado quem apreendeu a numerologia antes, numerologia no sentido literal de logos através dos números para conseguir, aí sim, apreender do aleph ao beth, ou apreender o alfabeto. Isso é como dizer: se deve passar antes pelo batismo das águas, pelo Espírito Santo, para depois encontrar Cristo, e aí passar pelo batismo do Espírito, de Fogo.

O que acontece é que o Pai, ao conceber o Verbo em Si, precisa casar-se com o Movimento para que O possa parir. Então o Movimento aparentemente vem antes, contudo, o Verbo é aquele que “precisa passar à frente, porque já existia antes”, como disse João Batista, representante do Movimento e do Espírito Santo, no caso citado, sendo o perfeito exemplo de como se dá o nascimento do Verbo não só em carne, mas em espirituais aspectos dentro da trindade, sob este lado do prisma pelo qual vemos, é claro.

Ou seja, a literalidade, a Letra nos mostra que em aparência Jesus era um homem, mas ele é literalmente o centro humano, e Cristo é literalmente o centro solar. E isso é um mistério muito maior do que o que a gente consegue hoje observar, e que muitas vezes a gente só alcança isso tendo uma ideia do simbólico e arquetípico do que isso representa, e que na verdade é debilitado, altamente debilitado, porque se a gente não vê o literal antes a gente não vê bem o simbólico e o arquetípico, não vê; sem conseguir observar o literal, não se observa o simbólico e arquetípico, é uma falácia, ainda que a gente saiba conceitualizá-los. A letra serve para isso, lermos melhor a realidade, acordarmos para o que está acontecendo e acontece de fato, para além do que a aparência nos mostra, porque a aparência pode ser necessária e ser uma boa ferramenta, ótima ferramenta, mas não é ela que nos conduz ao sagrado, ela pode sistematizar para acalmar as nossas dúvidas ou suscitar dúvidas outras, ela pode ser usada inclusive contra o próprio mal, usar da ferramenta lucífera que é a ciência para sistematizar algo para que nós nos acalmemos, acalmemos nossas paixões, falemos ‘ah, tá, entendi’, e a partir daí possamos começar a tentar desenvolver de fato nossa fé e arrependimento, que é tudo o que importa, porque todo o resto é acréscimo. Nada disso, inclusive do que estou falando, importa, a única coisa que importa é tenham fé e arrependam-se. Fé, que pode ser também mostrado como obediência, pobreza e castidade, e arrependimento que é a contrição. Ou seja, só através de Maria e José é que se dá nascimento a Jesus, o centro humano para que esse centro humano possa se ligar ao centro solar, e de fato cristificarmos nosso espírito. É claro que não basta isso, porque o trabalho nunca acaba. O trabalho é para a eternidade, quem não gosta de trabalhar precisa buscar uma forma de aprender a amar o que é trabalho porque o trabalho é eterno, assim como a oração também é eterna, é um eterno laboratório. E não laboratório num sentido científico de ficar fazendo experimentos e experiências, mas eu, como sou da Arte, e acredito e vejo que a Arte é a união da ciência e da espiritualidade, ou seja, do trabalho e da oração, o verdadeiro laboratório, laborar e orar, é a creação artística.

A vida é uma grande obra de Arte!…

E para nós continuarmos trabalhando, é preciso ir erguendo a coluna feminina, erguendo o feminino que decaiu e que vai nos apresentar a necessidade de olhar justamente para Maria, por isso uso aqui Maria como exemplo, tomo essa liberdade e sei que não há nada de errado nisso, apesar de ser um exemplo que talvez vá ferir a muitos, mas que se torna necessário no mundo de hoje em que tudo se duvida e se põe a aparência em primeiro lugar para definir aquilo que é literal, simbólico e arquetípico. E além de Maria, mãe de Deus, também teremos que olhar para Maria Madalena, esposa de Cristo Jesus, esposa e irmã, aliás, irmã, serva, esposa, amiga… E aí outra questão que se nos apresenta enquanto literalidade e se conecta com a observação e discernimento da letra é que: assim como a Igreja Católica é o corpo de Cristo Jesus, igualmente a Ordem Rosacruz é o corpo de Maria Madalena, em ambos os casos, literalmente, ainda que não sejam seus corpos em aparência. Assim como Maria possibilitou o resgate de Adão através de Cristo Jesus, igualmente José possibilitou o resgate de Eva através de Maria Madalena. Isso não significa que fossem irmãos em carne, em aparência, mas, como já falei em outras poesias, isso se dá porque José é a representação primeira da linhagem de fogo submetida à água, mas ainda de maneira não integrada, ou seja, ainda não significando o resgate dos filhos de fogo de fato, nem a sua missão junto d’água de forma elevada, pois isso não é Maria e José, e sim Cristo Jesus e Maria Madalena que representarão de fato. Maria e José são apenas o prenúncio. E assim como Pedro é a pedra de fundação da Igreja, João é a fundação da Ordem, a pedra de fundação da Ordem (por isso se perpetua a confusão entre se pintar João ou Maria Madalena na santa ceia, o que é uma besteira, e quem usa desses conhecimentos para ganhar dinheiro e fama, não sabe o que está fazendo e o inferno que está cavando, pois João é o fundamento de Maria Madalena, mas assim como não se confunde Pedro com Jesus, não há como confundir Madalena com João). E assim como Maria é a Senhora da Igreja, estando acima de Pedro, José é o Senhor da Ordem, estando acima de João.

Por isso só faz parte da Rosacruz, seja Fraternidade ou Ordem, aquele que passa por José, que é a submissão à água e o arrependimento, o aperfeiçoamento da contrição para que o fogo se eleve, dando nascimento ao corpo-alma, que é a manifestação do laço, do anel, de Cristo com Maria, sendo a própria marianização do corpo, por assim dizer, junto da cristificação do espírito. O espírito crístico é manifestado pela presença do corpo mariano, que é o corpo-alma. Ambos são um só. E por isso de nada adianta apenas obediência, pobreza e castidade, pois sem o arrependimento não se torna possível doar Luz ao mundo de fato, por isso Cristo Jesus é filho de Maria e de José através do Espírito Santo, que habitou ambos, como a uma só carne! Assim como de nada adianta o exercício de retrospecção, de nada adianta arrepender-se, se não passamos a verdadeiramente levar uma vida de pobreza, obediência e castidade, pois se torna uma semente desperdiçada, lançada aos porcos, que é um José solteiro, por assim dizer – e este pecado é extremamente grave, é o pecado imperdoável, porque não ter do arrependimento para a submissão, não colocar o fogo na água, apenas ficar diminuindo a chama e a queimada, por assim dizer, é trair o Espírito Santo. Então sim, como diz a Fraternidade Rosacruz, há uma dimensão estreita dessa semente relacionada ao sexo, ao desperdício da energia sexual, mas ficar apenas nisso é atuar apenas no campo das aparências, sendo que o real desperdício e traição do Espírito Santo se dá justo quando sabemos que devemos nos arrepender, e inclusive nos arrependemos, mas não mudamos de fato nossa conduta perante o mundo, não usamos isso para fertilizar, fecundar Maria, nossa obediência, pobreza e castidade. O arrependimento serve para fecundar a obediência, pobreza e castidade. E esse é o verdadeiro pecado imperdoável, literalmente. Quando não o fazemos de maneira completa o ciclo, quando não nos tornamos capazes de nos arrependermos, apesar dos filhos d’água terem muito mais… não sei se exatamente uma facilidade mas uma simplicidade da necessidade sim de arrependimento, pois sabem que ‘minha culpa, minha máxima culpa’, do que os filhos do fogo compreenderem a necessidade e a causa da retrospecção e do arrependimento e da contrição ser de fato a submissão à água, que é a obediência, pobreza e castidade… romper com o laço de união do arrependimento e a obediência, pobreza e castidade esse é o verdadeiro pecado imperdoável, ou seja, Letra Viva no Livro da Vida. E isso toma aparências várias, inclusive do sexo pelo sexo, porque é aquilo que mais imediatamente macula, mas todos os pecados capitais maculam.

Então a literalidade é a forma primeira de ascensionarmos em termos de leitura do que nos é dado, então se eu estudo a letra contida em uma palavra ou um nome, como aqui dou o exemplo sempre ao tratar a etimologia das palavras, indo para além do que a aparência mostra, porque a aparência pode me enganar, eu posso então começar a ter uma chance de, por dádiva divina, vir a observar a simbologia e o arquétipo presentes – o que é relacionado a ir do físico para a alma (simbólico) e alcançar o espírito (arquetípico). Então quando observamos, por exemplo, o nome Lázaro etimologicamente no hebraico vem de Eli’ezer, que significa Deus é meu socorro, o Senhor é meu auxílio, tendo também uma possibilidade de ser lido, na atual conjuntura, como leproso, alguém com chagas – claro, Deus só pode vir ao auxílio e socorro daqueles que se reconhecem doentes e miseráveis, pobres de si – pois aquele que se apega à vida, este a perderá, mas aquele que a perde, este a ganhará; assim como Maria, irmã de Lázaro, na versão hebraica é Mírian, outro nome em aparência, mas literalmente o mesmo, pois a raiz é a da pureza, da virtude, da virgindade – quando associado ao sânscrito, quando olhamos para a raiz hebraica, ela vem de uma raiz egípcia que significa a amada de Ammon, o que é belíssimo de se observar, pois Ammon era um Deus egípcio associado a Zeus na Grécia e Júpiter em Roma, sendo que já vimos como ambos (Zeus e Júpiter) são sombras de Jesus, velando pelo fato de que Mírian ou Maria Madalena é a amada de Jesus; por fim Marta significa patroa, dona do lar, senhora, dama, o mais simples dos nomes relacionado aos corpos, lar nosso, onde podemos nos tornar senhores de nós – não porque eles sejam nosso senhor, mas porque são o meio para tal em termos de ir de baixo para cima retornando e ganhando consciência de nós mesmos.

Assim, uma leitura possível é que Lázaro, Maria e Marta são irmãos e são a exemplificação da trindade de Lázaro enquanto espírito (adormecido e doente, a ser auxiliado por Deus), Maria enquanto Alma pura, virtuosa, virginal que busca a Cristo, sendo a amada, e Marta enquanto corpo que trabalha. Esses três são a literal representação também de uma só pessoa, pois espírito, alma e corpo são irmãos. Aí se pode alegar: mas o corpo não irá ganhar o reino dos céus. De fato, não como o conhecemos em carne hoje, não, assim como o filho pródigo: como pródigo ele não retorna à casa do pai – como pródigo ele sai, mas como filho arrependido ele volta. É o mesmo filho na aparência, mas não do mesmo modo, assim como outros corpos herdarão o reino, sabemos, por exemplo, o corpo-alma, mas não o corpo físico, só que o corpo físico é aquele que dá nascimento ao corpo-alma, por isso ele é importantíssimo, e por isso que o filho arrependido não é o mesmo que o filho pródigo, mas nasce do filho pródigo. Em aparência são os mesmos, mas em essência não, e os corpos nossos também são parecidos, mas não em essência. Ainda que a Essência verdadeira seja imutável. O que torna tudo um paradoxo, mas de simples resolução se compreendemos que é uma questão de que uma essência inconsciente, ou, por exemplo, nós quando crianças não somos a mesma criança de quando crescemos e temos consciência dessa criança interior, que é a mesma, mas por nossa evolução, se torna lapidada e, portanto, outra – filha daquela primeira, ainda que inevitavelmente e paradoxalmente a mesma. A consciência faz com que se reconheça a imutabilidade da criança, mas ao mesmo tempo faz com que sua atuação nos mundos seja outra, muito mais verdadeira. Por isso que na separatividade são essencialmente diferentes, mas na unidade são essencialmente as mesmas, essa é a diferença de aparência e literalidade, bem como se pode dizer o mesmo dos corpos, de toda materialidade e espiritualidade, na verdade, desde que vistos pelos olhos já purificados, sem que o corpo físico deixe de ser inimigo e, ao mesmo tempo, campo de batalha. E como se diz na tradição judaica, no campo de batalha onde se joga contra o time da casa é uma luta muito mais árdua, porque o time da casa tem vantagem, ou seja, o inimigo nos vence com maior facilidade.

Mas a forma de vencê-lo é através do nosso único literal Mestre: Cristo Jesus, porque não se deve chamar de Mestre exceto aquele que é a Luz, pois nenhum irmão, por mais velho ou maior que seja, deve ser assim chamado, pois não se chama um cristal de Luz só porque a Luz passa por ele e o usa como veículo purificado. A Luz é a Luz, a taça é a taça, nenhum irmão deve ser chamado de Mestre, senão Deus. Deus guia, as creaturas – nós – nos auxiliamos, nos ajudamos, fazemos trocas, no máximo, trocas e doações, dentro do possível. Mas mesmo as doações é daquilo que Deus nos dá, então não somos nós que doamos, é Deus que doa através de nós, e mesmo o auxílio, nós auxiliamos porque na verdade somos ponte para que Deus nos auxilie, que é o verdadeiro Lázaro, o verdadeiro espírito. E as maiores possibilidades de crescimento espiritual residem no Catolicismo e na Rosacruz. Não há, é preciso deixar claro que não há grupos, ordens, nada acima da Rosacruz além do Catolicismo, e nada mais importante para o Catolicismo do que a Rosacruz. São os dois pilares, do Filho e do Pai. Só se chega ao verdadeiro Catolicismo, à Santa Igreja interna verdadeira e guardada, ainda, em silêncio, se se passa pela Rosacruz, pois é a Rosacruz que vela pela religião do Filho e o Catolicismo que vela pela futura religião do Pai. Não falo aqui da Igreja Católica externa, nem da Fraternidade Rosacruz, essas instituições são apenas sombras distantes do que viveremos e vivemos nos mundos mais sutis. Elas são apenas, mesmo em campos mais sutis, como no caso da Fraternidade, apenas um andamento ainda do Espírito Santo em trabalho silencioso. Sim, ambos são ainda o que se adora dizer como jeovístico. O trabalho Crístico em si só se dá em sua magnitude na Ordem Rosacruz, bem como o trabalho do Pai se dá pelo Catolicismo, que é o Universal instituído através de seu Filho. Acima da Ordem Rosacruz só o Catolicismo. Não cabe tratar detalhes agora, mas dualidade alguma está acima da Ordem, senão a plena unidade católica.

E enquanto uns afirmam que a Ordem Rosacruz foi instituída por Lázaro ou João, eu digo que a Ordem Rosacruz foi instituída por Maria Madalena. Que a Igreja é o corpo de Cristo Jesus, assim como a Ordem é o corpo de Maria Madalena. E que Maria Madalena e Cristo Jesus é que fazem o trabalho na Terra de Fogo e de Água, e que é esse casamento que deve ser feito (aos que já passaram pela dualidade inferior de Caim e Abel), e eles se casaram, porque são o perfeito exemplo do que nós devemos fazer enquanto seres… o que nada tem a ver com o casamento das aparências que enganam os nossos olhos da carne, mas é o casamento literal verdadeiro, em Letra no Livro da Vida – só que para ele se dar, por exemplo, é necessário que se passe pelo celibato. Assim como Madalena passa pela prostituição, Jesus tem que passar pelo celibato para que nasça Cristo Jesus.

E por isso a literalidade é extremamente simples, ainda que não necessariamente fácil. E por isso Maria, a mãe, é eternamente Virgem. E astuciosamente debater sobre seu hímen é algo que ninguém deveria nem perder seu tempo, retomando aqui o antigo exemplo. Aqui eu uso da lógica e da analogia para mostrar todas essas coisas num campo literal, da Letra Viva, porque chega o tempo em que já não convém mais continuar repetindo mentiras e vai se tornar cada vez mais claro quem continua mentindo para si mesmo e para os outros. Uma coisa é ser inocente, verdadeiramente não entender, não conhecer, não saber, outra coisa é ser ignorante. Só é ignorante aquele que ignora algo, o ignorante é aquele que ignora algo que se apresenta a ele. Existem graus de ignorância, é verdade, porque o tempo todo nós ignoramos coisas que estão acontecendo, enquanto eu aqui falo eu ignoro outras coisas que acontecem ao redor, mas há ignorâncias que não são desculpáveis, há ignorâncias que são de nossa responsabilidade fazer com que parem, com que tomemos conhecimento daquilo da maneira devida e respeitosa como merece ser tomada. Quer acreditar em outra coisa? Acredite no que quiser, ótimo. Mas continuar questionando de maneira astuta e maliciosa as verdades inegáveis… isso já não será mais possível sem passar por grande vergonha.

Chega a hora de crescer e se responsabilizar pelas besteiras que estamos a fazer. Porque não adianta culpar Lúcifer. Essa história de que o mal, a culpa é do mal… o mal tem um trabalho a fazer, e quem não acredita que o mal tem trabalho a fazer, e que Lúcifer caiu porque quis e nunca mais vai evoluir, não importa, a decisão é de cada um quando passa pela tentação, ou seja, a responsabilidade de cair é nossa, não dele. Eu piamente acredito que todo o que cai tem a possibilidade de retorno, nós somos decaídos, porque nós enquanto humanidade decaímos e é preciso que agora nos elevemos, e já foi aberta essa porta através de Cristo Jesus, Ele é a Porta, porque o centro solar veio resgatar o centro humano para que seja possível que todos os homens em sua individualidade ascendam.

Agora, é claro, quando eu falo sobre os anjos decaídos terem a possibilidade de redenção, quer dizer que vá acontecer? Não. Quer dizer que seja provável? Eu não sei. Quer dizer que evoluiriam da forma como hoje são? Óbvio que não, pois nem nós herdamos o reino dos céus como somos hoje, mas é preciso herdá-lo através do nascimento de outro corpo, de outros processos dos quais ainda somos inconscientes maior parte do tempo nessa nossa vida ainda. E os anjos decaídos dependem, inclusive, de nós para evoluírem algo, caso queiram (pois sempre depende do livre-arbítrio) e caso seja possível, porque também depende da vontade divina, acima de tudo. Mas todos temos uma essência divina, e é ela e nela que acredito que possa retornar à casa do Pai. O joio será separado do trigo? Sim, já está literalmente sendo separado todo o tempo, nós que não vemos, ficamos esperando a aparência das coisas se darem, quando a literalidade dos eventos, ou seja, o acontecimento da separação no Livro da Vida através da Letra, é completamente diferente de isso ocorrer nas aparências, e estamos tratando justamente disso – ainda que seja importante frisar que tudo o que acontece de forma reta na literalidade, simbologia e arquétipo de maneira contundente sim se manifesta na aparência, mas não segue a lógica racional humana de causa e efeito como estamos acostumados, mas sim de efeito e causa divinos, e para ver isso, é preciso ter olhos. Um exemplo rápido de manifestação na aparência da retidão da literalidade, simbologia e arquétipo é a prisão de São Paulo, ele se dizia preso de Cristo e em Cristo, na aparência isso seria colocar aparentemente uma algema nele e em Cristo Jesus – faz sentido isso? Obviamente não. Mas as aparências da prisão sim se deram através dos homens, e era necessário que assim fosse para que ele próprio pudesse ganhar maior consciência do que passava. Ou seja, aquilo que a nossos olhos é horrível, em verdade era uma grande benção de ser vivida, pois valida e corrobora sua retidão necessariamente. Por isso Lúcifer, as aparências, quer queira quer não, quando alguém anda reto com Cristo, trabalha para que a ciência se dê para ampliação da consciência, é inevitável. Ou seja, o mal trabalha para o bem, é escravo do bem.

Mas voltando para a questão da evolução e dos decaídos, há seres que provavelmente não conseguirão seguir neste tempo evolutivo? É provável que sim, eles ficarão num eterno inferno, ainda que não sem fim, pois só a eternidade é eterna em si, e qualquer adjetivação quanto a algo eterno significa que pode deixar de sê-lo quando convir. Por isso não existe vida mortal, pois enquanto se morre, se está em morte, literalmente, literalmente se está morto, pois a Vida é a própria ausência de mortalidade, ou seja, não significa nem que ela em si seja a eternidade, mas que a finitude da consciência é algo ilusório, podendo-se então afirmar que a Vida é Eterna, ainda que ela em si mesma não seja a eternidade, podendo o inferno e a morte ser eternos também. Pois o que ocorre eternamente não quer dizer que não termine em algum momento, que mude em algum momento, pois a eternidade é sempre o presente em acontecimento na atualização do passado e do futuro. Enquanto se vive o júbilo e a alegria, se está literalmente eternamente sendo alegre, quando se vive a cegueira, se está eternamente literalmente vivendo no inferno. E ambos podem acabar a qualquer momento. Porque a eternidade não é ausência de movimento. Somente Deus é imutável, nós estamos e seremos sempre a mutabilidade enquanto vivência, ainda que perene sim a nossa Essência, que é o que vem de Deus e temos de mais semelhante com Ele, e por isso estando Ele mais em nós do que nós em nós mesmos, como disse Santo Agostinho quanto a si perante Deus, porque raramente estamos em nosso centro, em nosso cerne. Assim como Deus também, ao se fazer presente nas Suas obras, também nos mostra como a mutabilidade e movimentação e evolução é algo que devemos almejar para nos tornarmos mais nós mesmos, pois Deus é em si mesmo, Ele é, mas ser Deus, para se ser Deus, é preciso sair de si e caminhar em direção ao outro, ou seja, é preciso doar-se e sair de seu próprio cerne como ser puro. Para Deus, que É Aquele que É, não há necessidade nem sequer de ser Deus, enquanto denominação, é como dizer: Deus é, não é preciso dizer Deus é Deus, Ele não precisa tornar-se objeto de si próprio para se tornar o que é, pois Ele É e isso basta, mas nós sim temos a necessidade de nos tornarmos Deuses, porque nosso processo é inverso: é preciso se tornar um Deus para se chegar de fato ao ponto de Ser, pura e simplesmente. Pois é como um retorno.

E eu, que amo os do fogo tanto quanto os da água, eu particularmente acredito piamente na salvação de todos os decaídos, inclusive de anjos decaídos, talvez numa grande inocência minha ou mesmo astúcia interna, ainda que seja muito improvável tal evolução, porque é preciso querê-la, e eu não sei dizer se aqueles que trabalham como mal querem evoluir de fato, mas creio! Assim como é sempre possível, ainda que improvável, a queda de quem está no alto – e por isso, sempre filtrem o que eu e todas as pessoas falam, principalmente os que considerarem grandes, quanto mais alto se sobe, mais baixo se cai… porque não é porque Jacob Boehme falou que é toda a verdade, pois a nossa limitação limita o conhecimento que é passado, e por isso a Bíblia é o perfeito exemplo de que o que é grande é trançado por várias mãos, vários indivíduos, portanto não adiantando ler apenas um livro de um dos santos para ter conhecido toda a vida de Cristo ou todos os ensinamentos do alto, não, é preciso ler todos os livros de todos os que escreveram a Bíblia, porque precisamos da visão coletiva para chegarmos ao cerne (não sendo um único humano capaz de resumir todo o conhecimento numa obra, seja ele filho do fogo ou da água, não importa), e Deus não fará isso porque Cristo Jesus não deixou ele mesmo nada escrito, pois somos nós que temos o dever de obrar esse tipo de trabalho, Deus veio e deu exemplo das obras ao contar as parábolas, por exemplo, mas a cristalização disso para aprendermos e passarmos para frente esse conhecimento, somos nós os responsáveis (junto das hierarquias, claro), sendo o ser humano responsável pela matéria química e o que nela se estrutura a longo prazo. O que um diz apara a necessidade de transformação no que o próximo fala, nós damos acabamento uns para o trabalho dos outros, não há isso de um ser humano conter toda a verdade e esperar todos se iluminarem por aquele livro e acabou (por isso a Bíblia é uma coletânea de livros, aliás), e é ainda preciso ver que há a necessidade humana, e de aprendizado com o próprio Deus, de inovação da creação, e, portanto, de evolução dos próprios ensinamentos, ainda que certos ensinamentos em essência sejam imutáveis, como os da própria Bíblia, a sua paradoxal inovação pelo próprio Deus é demonstrada, por isso um Antigo e um Novo Testamento e ao mesmo tempo Cristo dizer que não veio revogar as Leis, não anular o Antigo Testamento, mas ao contrário, cumpri-las e, aliás, estreitá-las.

A possibilidade de queda de um ser de Luz é para que a gente continue tendo humildade, para ver que a nossa luz e bondade nada são e que o Sumo Bem é Deus, e que se somos seres capazes de alguma irradiação, de algum calor, de algum Amor, é porque Deus nos dá esse dom, e que a qualquer momento podemos cair, podemos negá-lo, porque Ele nos dá essa possibilidade, assim como podemos também não trabalhar de maneira apropriada e Ele deixar de dar esse dom a nós, se não temos capacidade de carregá-lo e exercê-lo de alguma forma. Assim como a possibilidade de redenção do mal – não que o mal vá se tornar algo bom, porque o mal é mal, mas a essência, a possibilidade da essência de que ele foi feito, porque mesmo a ignorância, tudo provém de Deus, ainda que seja sombra – a sombra provém da existência do Sol, ainda que não seja o próprio Sol que produza a sombra, mas um resultado da formação de suas criaturas, então, ainda que essas sombras sejam, no fundo, pertencentes a existências que foram concebidas em Deus, e por seu processo e escolha passaram a produzir e viver para essa sombra, ainda assim, a possibilidade de redenção dessas existências decaídas – que somos nós, porque não falo só de Lúcifer, porque nós caímos, então quando falo de existências decaídas somos nós, humanos comuns, e também os anjos decaídos, porque para passar ao Ser e sair da mera existência é preciso se cristificar através da fé (que é obediência, pobreza e castidade) e do arrependimento (que é retrospecção e contrição) – então a possibilidade da redenção dos decaídos é para que nos mantenhamos também em alegria, porque é a própria misericórdia de Deus manifestada em seu mais alto grau.

Então a possibilidade de queda é para nos mantermos humildes, e a possibilidade de redenção é para nos mantermos alegres, termos bom ânimo e vencermos o próprio mundo, o mundo no qual astuciosamente acreditamos, confundindo literalidade com aparência. E não importa a probabilidade de ambas as quedas e redenções acontecerem, não importa os números, ou quantos conseguem alcançá-lo enquanto feito. O que importa é que Deus assim fez para que o céu e o inferno sejam eternos, mas havendo possibilidade de fim para ambos de acordo com nossas escolhas, pensamentos, desejos e ações a todo momento. Por isso a Vida, a Vida verdadeira, a Vida a todo momento, ela é seríssima, ela é a maior responsabilidade que temos, ela é a joia mais rara e preciosa, a pérola mais perfeita que já foi feita, e nos foi dada de graça, nos foi dada eternamente, nós que estamos cegos e somos mortos ainda para toda a sua glória, porque Deus fez de modo tal que devemos merecer tal graça. A Vida é uma graça, e é de graça, porque não há um preço a se pagar por ela, mas há sobre ela toda a eternidade enquanto responsabilidade, e isso naturalmente faz com que seja presente o fato de que devemos fazer por merecer para que ela a nós se revele e também seja revelada. Pois essa Vida de que falo é a que vem da Árvore da Vida, para além de todo bem e mal que se conheça, se intelectualize e se saiba. Mas para se chegar nela é preciso antes Conhecer, com tudo o que conhecer nos traz enquanto carga, ou seja, comer da Árvore do Conhecimento – sendo que já falei um pouco sobre isso na Poesia da Inteligência, do Conhecimento e da Sabedoria, basta procurar.

Por isso é preciso orar e trabalhar, fazendo com que o que está na Luz permaneça nela e o que está na sombra vá até ela, seja apreendido por ela, por isso somos responsáveis também pela evolução uns dos outros, e por isso quando um se ilumina, por menor que seja essa iluminação, mas no sentido de que deu um passo na evolução e chegou um passo mais perto de Deus, todos as existências decaídas ao seu redor andam com ela e se abre a porta para que deem um passo também. Claro que muitos se afastam, muitos sentirão repulsão, e não atração em continuarem com ela, caminharem com ela em direção a esse novo raio que surge, ainda que mínimo aos nossos olhos. Mas há quem sim tenha sua sombra apreendida um pouquinho mais nesse processo.

Por isso não é sobre a Minha salvação enquanto pessoa individualizada, espírito cristificado e matéria marianificada, não é sobre isso. O meu dever, enquanto evolução pessoal, está muito além de mim, porque quando me torno um indivíduo é a partir daí que se torna de fato a colheita, colheita está etimologicamente ligado àquilo que acontece em coletivo. Evoluir, crescer, num primeiro momento é pra gente mesmo, para encontrar a si mesmo, pra voltar pra Deus, pra ser alguém melhor etc., mas com o tempo, com a maturidade, vemos que evoluir é de fato a única maneira de Amar o próximo, Amar os inimigos, curar o próximo e, acima de tudo, Amar a Deus, porque não é quando um filho volta, mas é quando se abre a possibilidade para que vários filhos voltem, e não há maior alegria para um Pai do que, em vez de ver apenas um filho voltando, ver, junto deste um, vários outros vindo atrás dele, não porque é herói ou exemplo de algo, pelo contrário, mas porque, como Cristo, ele se fez servo de todos eles, então ele não é aquele que chega soberano em cima do carro, mas é o burro de carga que vai na frente carregando o Cristo dos outros nas costas, como fez nosso próprio Deus, como Cristo Jesus e Maria Madalena.

E é claro que todo filho só volta com os próprios pés, não é sendo puxado numa charrete ou carroça que se volta para Deus, mas é como se pudéssemos dar uma carona para que cheguem mais longe do que seriam capazes se estivessem sozinhos, e são eles que ditam o ritmo, as paradas etc., ainda que seja sempre o burrico, o jumento que vai levando, até onde seja possível levar, até onde o Pai quiser que assim seja e o outro também quiser e aguentar.

Que sejamos literalmente aqueles que carregam a evolução nas costas, pois isso se conecta também com as letras estarem literalmente em nossa coluna verticalizada, assim como os números, bem como a escada, e o fogo que por ela sobe. É tudo simbólico e arquetípico, mas saibamos que é, antes de tudo, literal. É literatura, meus amigos, está nas Letras, está dado no Livro da Vida, basta pedirmos olhos para ler o que está escrito e ouvidos para ouvir o que nos é dito, pois tudo isso nos é cantado o tempo todo em gloriosos hinos.

Então que possamos, literalmente, simbolicamente e arquetipicamente caminhar…

Eu ainda falarei mais sobre tudo isso. Aos poucos seguimos…

Que caminhemos sob e sobre a mão de Deus a nos guiar e nos guardar.

Amém.