Desfazenda – me enterrem fora desse lugar | uma crítica poética

 

Com especial dedicação a Lucas Moura [dramaturgo da peça-filme]:
uma alma-gêmea, uma alma-irmã, companheiro na Poesia Verdadeira.

 

Quando uma obra-prima é feita, ela altera o espaço-tempo. Ela cria uma curva e vai para além do esperado, vai além, inclusive, daquilo que a inspirou. Ultrapassa seu autor, transpassa o político e rompe a casca da semente fazendo nascer a verdadeira Poesia – aquela que é o fim, assim como o início. Porque se o político é o meio – a ferramenta que lhe crava os cravos e a lapida –, é a Poesia o que vela por sua virtuosidade e que revela a joia dentro da pedra bruta – o ouro puro que guarda em si, desde sempre, a Verdadeira Vida. 

As águas invertidas ao início nos trazem a imagem da inocência, da placenta, do bebê ainda in útero; capturada pela jaula que coloca para um animal, a criança é presa em si mesma, tal qual o espírito que se sente preso ao corpo, começando a conhecer o peso do que significa vir ao mundo. Mundo cruel, mundo dividido, mundo que inverte todos os verdadeiros sentidos do que significa ser e estar vivo: antes de tudo, algo divino, e não habitualmente algo tido como ‘acaso’. A brincadeira da presa e da caça inocente do infante com a fala doce da mãe que o leva a refletir sobre o que está fazendo é o paralelo para a reflexão sobre como amadurecer frente a escolhas, escolhas que nos parecem naturais, como prender um ser, uma existência, numa jaula apenas por poder. O poder, grande prerrogativa buscada por tanta gente, pulsa naquele que se vê maior perante o outro que ainda desconhece e que lhe parece uma ameaça iminente. 

O céu é o chão, as águas matriciais, aquela que guia, que dá sustento para crescermos um dia. O orvalho que pinga. O leite do qual se mama. A gota que a sede alivia. Água, aquela que é modelada pelo infinito que a mantém acima para que todo o fermento, dada na voz feminina, se torne crucial para que se forme o pão do conhecimento da filha acerca do que significa de fato ter medo e ter coragem, ter movimento de presa e de escape, por fim: de escolha perante a vida. 

Desfazenda, me permitindo quase uma hipérbole, desfaz aquilo que pensamos ver e ouvir. 

Com batimentos acelerados ao começo, a batida traz o ritmo para além da banalidade cotidiana das músicas que tanto ouvimos. É o próprio coração pulsando como um recém-nascido, que ao ser parido chega a velocidades entre 120 e 160 bpm. Por ser um corpo imaturo, a criança tem um ritmo diferente do adulto. Desfazenda começa assim, como uma música imatura aos ouvidos que, ao longo da dramaturgia que é belissimamente bem dirigida, faz crescer e desacelerar o ímpeto que a inocência nos traz quando somos paridos. A direção musical maestralmente vai abraçando os nossos sentidos e aos poucos regendo, não só as crianças da história, mas também os nossos próprios instintos. Se antes quase não entendíamos o que se falava e narrava, se é preciso ver e ouvir mais de uma vez a história que a nós é contada, aos poucos esse coração preto ganha harmonia e melodia em sua fala, para além do ritmo cardinal que instintivamente o guiava. 

O coração é carvão do corpo, a queima constante gera nosso combustível, o óleo sem o qual não queimaríamos e deixaríamos de existir. Carvão preto, de pele preta, de casca negra que é semente da árvore que irá se revelar um dia. 

O 0 (Zero), personagem que não vemos em aparência, é o que conduz toda a narrativa, como Adão que, após a queda, narra o porquê de aqui estarmos e vivermos como temos aprendido. O ponto de início da atual jornada, o inalcançável, inexplicável e inexprimível, mas amado por todos os homens que verdadeiramente se sabem responsáveis por suas quedas e suas conquistas, em suma, por suas vidas. E é também temido, porque só ele pode algo que os outros não têm acesso, tornando-se quase como carrasco dos outros e cúmplice dum padre que para a fazenda arrasta todos. Padre, palavra essa que tem ligação com pai, padre esse que se apresenta somente a ele, o Zero, e trata somente com ele a comunicação acerca de toda a necessidade que ocorre naquele mundo fechado, no corpo como um todo, um sistema, para que a aparência das coisas se mantenha em existência. 

Padre branco, padre ferido, como um cérebro, uma mente que, astuta, cria jaulas para prender aqueles que julga não estar no mesmo nível de raciocínio. 

Assim fizeram os seres humanos consigo, com seus pares – fossem pretos, fossem gays, fossem pagãos, fossem de outra nacionalidade… fizeram e ainda fazem. Fazemos, porque somos preconceituosos e racistas contra outras nações, não só em relação à cor, mas a todos que pensam diferente de nós, sentem de maneira diferente de nós, agem de maneira diferente, têm um corpo que aparentemente é diferente do nosso, seja num julgamento inferior ou superior: romantizamos nossos amigos e matamos nossos inimigos. 

Não, nós não sabemos Amar verdadeiramente, ainda. 

Tal como aquele que pensa ser mais inteligente, como a mente que astutamente pensa mandar no coração (só por ele ser involuntário), em sua falsa madurez o padre crê que sabe o que é melhor para aqueles meninos. E se isola, porque, por fim, se reconhece doente. Sim, todos nós estamos com nossa mente doente em muitos sentidos – sejamos brancos ou pretos, vermelhos ou amarelos. A cor é apenas o que os olhos veem, mas a essência da paisagem é a mesma e comum a todos que fazem parte dela. Assim, as personagens vão imbricando suas falas, cantando suas imaturidades, inconsciências e inocências de maneira a nos levar ao interior mais profundo de nós mesmos, à infância querida que foi traumatizada por adultos que não sabiam o que faziam, ainda que se julgassem iluminados e racionais, mesmo quando tinham a melhor das intenções possíveis. É inevitável: todos os pais, todo padre, cria traumas quando somos pequenos ainda. Bem nos legou Freud essa perspectiva. Pais e filhos, mães e filhas estarão numa união em inimizade, para além de Freud, é também o que nos disse Cristo. Não é apenas psicológico, é bíblico. 

O fato da mãe guiar ao início nos mostra ser importante ser um homem quem está gravemente ferido. É a revelação do ferimento masculino que deve ser curado porque é ele que acaba passando para os outros a pior das doenças: a crença na mentira para a manutenção das aparências – ainda que Freud tenha culpado as mães em sua maioria, porque, afinal, o feminino também precisa sim ser curado, como a filha ao início que se torna vítima e algoz de sua própria caça, precisando amadurecer e tomar consciência de suas escolhas para se responsabilizar por seus atos. Mas são os homens que, enquanto pais que abandonam ou prendem seus filhos em “quadrados” bem estabelecidos, precisam de ajuda, assim como é o cérebro, a mente, que precisa ser desenvolvida para que amadureçamos de maneira a nos livrarmos das doenças que nos afligem hoje em dia. Contudo, assim como o homem simboliza a mente deformada, a mulher é o coração que precisa aprender a tornar seus impulsos negros, obscuros, inconscientes, um ato de pulso amoroso voluntário. 

Enquanto o coração for involuntário, o cérebro continuará no automático. 

O debate sobre por que somente o Zero tem contato com o padre nos remete a um ser que parece especial, que parece ter sido escolhido. O problema é que esse padre, esse pai, não é o verdadeiro, ainda que real. Para as crianças é ele quem manda e dita as regras, é ele aquele que repete os afazeres da fazenda até que as fórmulas sejam repetidas também por elas. Mas o patriarca de sangue está ausente nas falas, e permite que seus filhos sejam vendidos, dados, trocados, como bem é falado: os pais daquelas crianças têm responsabilidade por estarem em cativeiro numa fazenda em trabalho isolado com a explicação de que fora há uma guerra. 

Esta guerra é questionada: será que ela existe mesmo? Talvez estando lá dentro eles sejam os únicos pretos que sobrevivam, talvez sendo o coração que segue a razão (o iluminismo dos homens cultos de grande raciocínio) tenhamos alguma chance de nos livrarmos do sistema que mata e oprime os corpos que ousam vir-a-ser órgãos: não por serem inteiros, mas justamente por não terem oportunidade de se tornarem íntegros ao serem feitos pedaços, sendo então buscado um corpo sem órgãos onde todos são iguais e tudo baila de forma aparentemente igualitária e indistinta. 

Mas o que seria dos ouvidos se tudo fosse boca? O que seria do pé se tudo fosse mão? O que seria da mãe se tudo fosse pai? O que seria das criaturas se tudo fosse criador? O que seria da Terra se tudo fosse Céu? 

É preciso ordenar. É preciso organizar. É preciso ordem para haver progresso. 

Não é a negação em si nem da tradição que ordena o trabalho – sem o qual morreriam de fome e, sabemos bem, entramos em depressão porque até mesmo a Arte é um trabalho, e faz com que a Vida ganhe sentido –, assim como não é a negação do progresso em relação àquilo que pode ser melhorado e deve ser aprimorado pelas mãos humanas enquanto seres ativos. Mas tudo isso acarreta um risco. 

É o risco de sofrer para que a porta seja aberta, risco de adentrar a capela, de saber dos mortos, de entrar em contato com a ancestralidade de até mesmos nossos próprios erros, porque o equívoco de qualquer um deles, ou do Zero, é a queda em se tornar como o padre que os engana, como quem oferta uma fruta duma árvore que ele desesperadoramente rega. É descobrir que nem ele é o pai que se esperava, nem os nossos pais aqueles heróis que julgávamos quando ainda meninos, porque nos venderam, nos deram, “nos abandonaram nas mãos do destino.” 

É correr o risco de enlouquecer ao lidar com o choque que é amadurecer para o fato de que a cura não está fora, na história, na aparência dum discurso que nos prende ou supostamente nos libertaria duma fazenda (caso as crianças nunca tivessem sido vendidas), mas em precisarmos aprender a extrair a essência de tudo isso, independentemente de como ou o que tem acontecido, separando o joio pelo fato de que o grão só pode ser encontrado na dolorosa maceração do trigo. 

E, de repente, entra na fazenda uma criança. Uma criança preta e vermelha, como um coração pulsando, correndo, passando, assustando inclusive. Das duas ressalvas que tenho com a direção, uma delas é a escolha em associar este momento a uma atmosfera de Pombagira e Exú, quando os Erês preferem cores mais claras, ainda que gostem de todas as cores. Foi uma perda haver uma sobreposição óbvia das cores preta e vermelha associadas a uma ideia de algo obscuro, perda de oportunidade de, numa peça-filme predominantemente preta e branca, se trabalhar o inesperado e cores outras que trouxessem a travessura sim, mas também o verdadeiro espanto e encontro com o infantil presente no azul ao fim e ao começo, quem sabe.

Mas eis que chega na fazenda essa vida que corre, que jorra, que pulsa, uma criança que os joga para dentro de si mesmos, que os une no medo, mas também na coragem – ainda que se diga que o contrário do medo seja o movimento. Coragem é etimologicamente o ‘core que age’, é agir com o coração, e sim, o movimento é o que efetiva a coragem no mundo. Um não ganha vida sem o outro, pois um coração que não se movimenta é morto, mas é preciso também lembrar que um movimento sem coragem é vazio, sem sangue, deixa de ser ação e se torna reação. E o medo paralisa, e paralisia é justamente a arritmia, o fim da música, o fim de todo ritmo, harmonia e melodia. Coragem e movimento são como corpo e vitalidade, e ambos juntos é que vencem a morte mais iminente a cada momento – porque há as mortes menos óbvias, é claro, como a dos sentimentos e pensamentos, que também são um só, assim como feminino e masculino formam uma só carne. 

A mão que segura Treze, a única menina do grupo, mostra a constante pressão no feminino, que, ao ser segurado, se lembra de seu passado, memória que se liga também à mulher, às entranhas, ao inconsciente que pertence à senhora água, tal qual oceano onde tudo se deposita e assenta em passiva aceitação para que do pó matricial do qual viemos se torne o pó material ao qual retornemos. Areia. Treze liga os pontos. E a criança, vermelha e preta, passa, não sabemos se livre ou presa, na mesma fazenda, fazendo todos permanecerem acordados. 

Criança essa que é um ser estranho a todos eles, ainda obscuro e sem características visíveis. Eles se armam até os dentes contra ela, mas ela é apenas aquela que vem para a libertação deles, pois esse incidente, que se conecta ao animal preso pela filha no início de Desfazenda, faz, como dito, todos caírem em si e buscarem vencer: não com armas somente, mas com coragem e movimento de abertura daquilo que é sagrado dentro da fazenda: a capela! 

Capela é uma palavra que etimologicamente vem de cappa, ou ‘capa com proteção para cabeça’, um manto que deveria ser sagrado e não destinado a qualquer porco ou ainda a uns poucos, mas a todos que tenham coragem e se movimentem para chegar até ele, para serem revestidos por ele. 

Dentro dessa capela, o corpo morto ainda quente de Zero é encontrado, o homem mais velho, o mais antigo de todos, ainda lá, como fruta preta pendurada. Um suicídio por não querer se tornar como o padre, um coração que foi enganado e que se nega a ser racional e seguir as fórmulas que lhe foram, não só ensinadas, mas racionalizadas e repetidas até que se acreditasse ser verdade aquilo que era mentira. É reconhecer-se como seu inimigo, e ver que, por amor ao próprio inimigo, é preciso morrer como ele. 

Claro que não entendemos nem chamamos tal ato de amor, porque ainda nos escapa a imensa sabedoria que há em matar em nós mesmos (metaforicamente) aquilo que nos torna iguais em nossos erros. A morte do Zero é a redenção do padre, por assim dizer, porque é como quem divide e reconhece em si a mesma responsabilidade. Os inimigos que se veem iguais de repente, se veem com a mesma doença, mesma chaga, mesma problemática: o corpo que reconhece que um câncer num único órgão é o suficiente para levar à morte, pois para morrer não é preciso chegar à metástase: o comprometimento de um é o comprometimento dos demais. E da mesma forma como o padre se isola para não passar a doença adiante, Zero se mata para que isso também não seja disseminado entre seus iguais. 

Lembrando o suicídio de Romeu e Julieta, aqui o caso é de suicídio por amor ao inimigo e por amor aos seus semelhantes. É além de amar apenas uma pessoa, é além dum amor romântico. É o amor de redenção que se põe em morte para que outros não passem pelo mesmo, para que possa nascer o novo homem: uma humanidade mais íntegra, mais inteira, com coração e mente trabalhando de maneira mais unida, uníssona e consonante na saúde e na doença. É a possibilidade de casamento não em aparência, mas em essência, ultrapassando a morte e legando aos outros a possibilidade de uma vida verdadeira. 

E aqui, minha segunda ressalva: a direção escolheu um tom de dismorfia para as falas crísticas, sendo algo desnecessário e imaturo, pois a pirraça política e as crenças que viram crendices quando deformadas matam a poesia que as falas contêm, tudo soa com um tom de falsidade em relação ao que é dito, sendo um inegável fato que cada órgão têm sua função fisiológica, e cada um deve buscar ser o melhor naquilo para o qual foi feito. Sendo um só corpo, não há porque competir sobre qual tem maior relevância ou “manda”, qual exercerá poder, até porque, por fim, uma criança pode nascer sem cérebro, mas sem coração, ninguém tem capacidade alguma de existência. 

Mas se Erês têm tom de Exú, é de se esperar que Cristo Jesus tenha tom de Belzebu. Duas instâncias que tinham tudo para ser sublimes, mas que perdem a potência por falta da Poesia da Verdadeira Crença. 

Os pretos são o coração do mundo; as crianças, o coração da fazenda: os que impõem ritmo e pulsam, jorram trabalho para todos os lados, fazendo com que tudo se ordene e progrida de alguma maneira, ainda que o progresso venha da mente em si que de alguma maneira precisa criar fórmulas para que tudo seja feito. O padre é crucial para que as crianças se entendam gente. Assim como o coração só se conhece coração e toma ciência de sua importância se mentalmente assim o concebemos. 

Mas a sabedoria é sempre cardíaca! 

É a sabedoria do mistério envolto em negritude que abre e passa pela porta, que se reveste da capa que cobre a cabeça de todos que encontram o diário do Zero morto. Diário esse que é lido, sendo o ponto mais alto da dramaturgia, tendo a música acertado com perfeição na composição com a leitura.  

É a hora em que se lida com os fatos, em que o coração, já pronto para a madurez, se defronta com suas sombras, com seu passado, com realidades invisíveis, como a única mulher do grupo ser irmã do Zero. Justo ela, aquela que recebe tudo como herança. A mulher, tal qual Eva (feita da mesma costela, mesmo material que ele) que se torna Ave, se torna a possibilidade de redenção verdadeira de tudo aquilo, pois se é o masculino que está doente, é o feminino que recebe em suas mãos a possibilidade de intervenção nos acontecimentos da fazenda e de curar os possíveis enfermos. 

Vem então o alívio, a afirmação dos erros, dos cansaços, dos depoimentos pessoais que trazem mais do que um psicologismo de “eu acho”. São pontuações pertinentes, perfurantes, são espinhos que carregamos e não dizemos. São flagelos que nos fazem crescer em meio aos nossos pessoais e coletivos tormentos. 

Impérios crescem e caem, políticos são eleitos e esquecidos. Estátuas e templos são erguidos e derrubados. Do pó viemos, ao pó voltaremos, do oceano como chuva e choro saímos, ao oceano retornaremos, como gotas d’água que sublimam à luz do dia que nasce, como verdadeiros orvalhos que secam ao sol e cedem ao vento. 

E, afinal, há guerra ou não? Será que estão mesmo a matar pretos lá fora? Será que estão a se matar? Será que é real que o ser humano é um ser tão mau? Será que há Céu e Inferno numa luta entre o bem e o mal? Não sabemos. Não chegamos a sair de lá, da fazenda. Nem nada lá chega a entrar, exceto a criança preta e vermelha, preta como carvão, como coração, vermelha porque traz o sangue, traz a vida em contração e dilatação. O carvão que queima o fogo rubro, o óleo que corre por entre as artérias e veias. 

Só quem se fizer criança de novo haverá de se salvar daquela terra! 

Pois é a criança que captura o bicho ao início, e é a criança que, ainda sem resposta, sabendo instintivamente que nada sabe, liberta nas águas (o dilúvio final) o corpo daqueles que o céu, em seu espírito, estão a procurar. A pele é só uma casca, a cor é o pé que sobre as águas anda, acalmando a tempestade. Como coração-carvão que aos poucos, se tornando filho do vento, já não luta contra o fogo que o consome, mas se permite ser apreendido pelo sopro que o acalenta ao mesmo tempo que o arde. 

Por fim, descobrimos que, mesmo sem respostas, sem culpados, somos sim responsáveis pelas nossas escolhas e atos. E cada um tem seu peso a ser transportado. Uns são de carga pesada, afundam como pedra, outros fazem do seu fardo algo leve e de seu jugo algo suave. E meninos que eram números aleatórios se revelam uma família no fundo, senão de sangue, como Zero e Treze (Zero como o início da queda e Treze justo como a feminina Alma que congrega doze ao redor dela), ao menos família por terem sido criados juntos, no cativeiro que é a vida enquanto não entendemos que a árvore está seca e que deve ser regada, não só com água, como desesperadoramente o padre fazia, mas também com sangue – não sangue inocente e inconsciente, mas de quem escolhe derramar o próprio sangue para a evolução através da arma mais potente: a palavra que se torna literatura, ou seja, o verbo que ganha carne naquilo que é literal – o livro. A oralidade que tal qual pérola preciosa se une ao metal para formar a aliança dum noivado divino. 

A morte de Zero e seu diário, o livro que conta sobre sua vida, casa com a vida de todos que ali estão ao se darem conta, finalmente, de que são uma só família. 

Importante observar que favela, tida hoje como palavra a designar o que é periférico, se torna centro, core, de toda a fazenda. Confirmando que aqueles que habitam a fazenda são os que mantêm o pulso dela. E importante também ter em mente que a palavra favela vem etimologicamente de uma planta, relacionada ao legume Faba, ou Fava, um dos principais alimentos dos romanos, bem como a origem também da palavra família se relaciona com o ‘conjunto de escravos’ que se tinha antigamente. E família, bem como favela, se relacionam romanamente com gens (grupo de família) Faba. Assim, família e favela são algo que de alguma forma, em essência e na história etimológica, se relacionam de fato. 

E da árvore Favela, da família que se revela ao redor dela, cai o sangue real e metafórico, sangue divino, porque se torna o homem que faz com que a árvore já não precise enterrar mais ninguém naquele lugar, apenas enterrada a raiz que a mantém, de alguma forma, viva. Os galhos e frutos agora podem sair ao mundo, se encontrar, se dispersar – não como quem separa, segrega, mas ao contrário, como quem une sem que a morte sórdida seja a realidade a ser vivida pelos demais. Ela é transpassada, vencida, ainda que precisemos sim ser enterrados para que, tal qual semente, possamos brotar e desfazer a história como quem abre a jaula, como quem sai da caverna, como quem aceita que a morte sagrada (dilúvio final), assim como a queima do coração-carvão, é irmã dos que querem continuar… 

Sim, a vida é sofrimento, a vida é difícil, a vida é ter coragem para se manter em constante movimento: ritmo; tendo ainda firmeza para que a melodia e a harmonia façam parte e narrem também o sagrado que é ter cada órgão saudável, sendo respeitado, cada qual com seu devido trabalho. 

Desfazenda é mais do que político, é poético, e vai além do que qualquer acontecimento histórico que amanhã ou depois é esquecido, ou sucedido por algo materialmente pior ou sublimado por algo melhor. 

Desfazenda é o começo de quando o coração acorda para sua real função enquanto nobreza: sanar o corpo e ressuscitar a cabeça. 

E ser enterrado longe dali não é apenas um pedido de quem quer se afastar das mazelas que nos cercam, mas sim um apelo vindo da semente que intui que é preciso ser enterrada longe da sombra de outra árvore para que o Sol também nasça para ela. 

 

Com Amor, Le Tícia Conde. 

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