“A poesia não voltará a ritmar a ação; ela passará a antecipá-la.” – Arthur Rimbaud

“Pois assim também é com o amor.” – Diotima em O Banquete, Platão

[3 vozes: Mulher negraHomem branco, e uma Terceira Pessoa].

– A experiência não é o que sentimos, mas o que fazemos em relação a o que sentimos. O que eu faço então? … Como vou contar em ação? … [Em dúvida] Todos estavam, menos ela… Eu acho… Não?! Eu não sei! Não lembro de nada! Vocês querem que eu conte, mas não sei do que falam!

– Não, querida, está enganada, você sabe muito bem! Só parece meio histérica, sabe? Confunde as histórias todas. Na verdade, estavam só você e ela, aposto um braço! Comece por aí, você e ela…

– Eu e ela… ela… tão… tão branca… tão virgem… tão pálida…

[Entrando] – Tudo pronto para sua ida, a senhorita tem direito ao seu último desejo.

– Eu quero ela aqui, eu desejo ela aqui, comigo, isso me faria feliz por toda a eternidade.

– Você vai embora justamente por causa dela. Como ainda crê que seja ela quem te salve?

– Salvar? Que isso! Eu só quero ao menos um momento com ela, um chá quem sabe…

– Senhorita, tudo isso é por causa da sua senhora. Você está aqui por causa dela…

– Eu posso imaginar a ceia de vocês duas… o banquete na mesa… e você pega uma maçã de forma tão doce que quase causa ciúmes. Você come, come com desejo a maçã, a torta de maçã, o purê de maçã, o bolo de maçã, os folhados de maçã. Tudo de maçã que vocês compraram e fizeram juntas!

– Qual vai ser seu último desejo, senhorita?

– Vocês não precisam de talheres, comem tudo com a mão, escorre pela boca a calda de maçã e o suco (de maçã) você vira na cabeça – você lava seus cabelos com o suco de maçã, e suas mãos e pés banha com água gaseificada misturada com vinagre de maçã – lembra o mar essa acidez. Então você sente o corpo afogando em espuma, as palmas, as solas, as bolhas estourando no corpo…

– Pera! Espera só um minuto…

– Exato… você estava parada… do nada ficou catatônica. Sabe aquela coloração arroxeada da maçã quando é mordida e vai passando o tempo? Você foi ficando daquele jeito, não? Logo o seu corpo todo ficaria roxo… você perdia a respiração aos poucos…

– É… então senhorita, seu último desejo, vamos, não tenho o dia todo e precisamos saber para providenciar a sua última refeição.

– Estou pensando.

– Pensar não adianta, é tarde demais. Você comeu o fruto proibido, subiu na árvore da sabedoria que avistou e nunca mais saiu do cimo. Vocês tiveram um caso, não lembra?

– Não sei do que está falando… não faço a menor ideia!

– Sua última refeição, senhorita, é preciso que escolha o que quer comer, e algo mais, se pudermos fazer… o que a senhorita deseja?

– Ma… ma… [como se procurasse algo que esperasse ver, buscando com os olhos]

– Olha como gagueja! Você está sozinha, como naquele quarto que invadiram pela manhã. Encontraram tudo, todos os livros, todas as anotações! Você achou mesmo que ela fosse se entregar com você? Vocês nunca foram iguais, jamais vão ser. Ela não está aqui contigo, ela fugiu sem você!

– Do que está falando? Não sei do que você está falando… eu quero ma…

– Senhorita, você foi acusada de fartabilidade da casca color e dos costumes, classificada como Pederastia Reversa com agrave por mistura da cor da fruta! Mulheres e suas misturas… sem falar no quanto maçã verde é muito mais nobre, não vai nas mesmas receitas que a vermelha.

– É, é um absurdo! Naquele dia vocês se encontraram ao acaso, lembra? Vocês foram até a casa, fizeram a mesa, comeram até o dia amanhecer e o sol raiar sobre a toalha, se fartaram. Antes vocês passaram na feira, compraram maçãs aos montes. Aquele era seu último desejo, maçãs à vontade.

– É!!! Maçãs! Quero tudo o que tiver de maçãs, por favor! Mas… do que estão falando???

– A senhorita não está ciente de que logo chega a hora de ir embora? Irão trazer seu manjar… prepare-se. Está ansiosa? Nervosa? Agitada? Respire. O desejo… as drogas fazem parte…

– Não, obrigada. Eu… eu não conheço essa história, eu juro, não lembro de nada. Nada!

– Como não, senhorita? A senhorita foi encontrada inconsciente após uma overdose de maçãs na casa de sua senhora, estava toda lambuzada! E ainda quer mais maçãs (?!), tudo bem, posso trazer maçãs, mas acho que as maçãs estão é fazendo mal para sua memória. A senhorita não lembra de absolutamente nada? Nada mesmo? Começo, meio, fim… nada?

– Nada. Absolutamente nada dessa história. Só sei que gosto de maçãs, eu gosto de todas as maçãs, de fato.

– Que estranho… irei providenciar. Gostar de maçãs é o importante, isso comprova experiência sabe… a… luxúria… a vontade… do ato…

– Sim, a experiência vem do que decidimos em ações! E ações nos imortalizam no amor, é claro!

– Sim, e você sempre antecipava toda ação como se pudesse prever tudo, como se pudesse ver o futuro e com isso alterar o passado. Você sabia que invadiriam aquele espaço! Vamos, confesse!!! Você planejou cada detalhe! Pensou em tudo! Até na maçã vermelha e verde lado a lado.

– É provável, não se faça de desentendida. Senhorita, vai, responda às perguntas! A senhorita sabia que iriam invadir o local? Sabia que podia ser condenada à expulsão permanente de nossas terras, às quais a senhorita nunca mais retornará? [À parteTragam a refeição!!!

– Já disse que não entendo essa história.

– Ah, não entende, mas conhece, sente. Ela quer! Vejam como se farta! Ela gosta de maçãs, e não de pêras! Está comprovado!!! E come das duas cores, olhem! Que gula!!! Um pecado!!!

– Eu até gosto de pêra. Mas AMO maçãs! E além disso, me lembram eu [vermelha] e ela [verde].

– Ela não irá te salvar, ela está lá! Ela veio visitar as terras de cá pra te ver e te subverter, aliás!

– Você sabia ou não? Quem sugeriu a compra das frutas? Diga! Precisamos determinar se foi natural, por escolha sua, se foi induzida por ela ou se é alguma patia, doença, sabe.

– Juram que eu estive com ela?

– Eu sei como você age, você antecipou a ação aquele dia, roubou um beijo como quem rouba uma lasca. A mordida é a marca de quem quer engolir dedos e braços! Olhem! Arranca tudo com dentes vorazes! Parece uma esfomeada! E esses lábios, e essa língua… oh, como são ágeis!

– Se querem me dar, eu como! Eu não tenho compromisso com a fome, nem dieta, nada.

– …se não lembra… pode ser tudo mentira… você pode ter forjado aquela noitada!!!

– Isso é bem possível! Capciosa essa aí. Olha! Olha a boca dela, os dedos, toda lambuzada!

– Vem cá, a quê estou sendo sentenciada? Quer dizer, qual a sentença?

– Você será exilada da terra dos homens!!!

– Ah, é isso? Sabe, eu não sei do que falam. Eu ter passado a noite com ela é algo só da cabeça de vocês, sou apenas uma… mas quer saber? Eu me expatrio! Eu vou embora por livre e espontânea vontade! Já cansei dessas terras mesmo. Ao menos conhecerei outros lugares.

– Você não sabe o que fala!

– As consequências serão ir morar para sempre numa ilha!

– Lá tem maçãs? 

– Sim…

– É lá que ela mora? 

– Sim

– Perfeito! Me levem AGORA!

– Ela enlouqueceu! Você não quer viver entre nós? Ninguém escolhe ser julgado desse jeito!

– Ah, escolher, eu não escolhi, mas vocês me sentenciaram pelas minhas escolhas e atos. E eu quero sim, mesmo que eu não tenha exatamente vivido o que falam. Mas…

– Mas nada! Você será levada. Guardas!

– Não, eu ainda não engoli tudo…

– É, espera! …

– Eu preciso levar todas elas, eu preciso… PRECISO! É um desejo tão grande! EU AMO! EU AMO!

– … eu também preciso saber antes: você inventou isso? Você viveu isso? O que quer dizer com ‘não exatamente’? Você foi encontrada inconsciente, você se fartou sozinha, como agora? Ela estava ou não contigo naquele banquete? E durante o banquete, as duas escreveram aquele amontoado de coisas que estava dentro dos livros? Ou foi só você? Teve ajuda dela? Por que ela veio para te ver? Vocês ao menos se viram mesmo? Se olharam? Se cumprimentaram? Se tocaram? Vocês foram afinal, sim ou não, à feira? PARA, PARA E FALA!!!

– Quer saber? … eu… eu gostaria que fosse tudo verdade. Não sei se é ou não, foi ela quem falou tudo isso, saiu da cabeça dela, não da minha. Mas eu gostaria sim que fosse verdade!

– Não acredite no que ela fala! O que uma mulher não faz para conseguir o que deseja, não é?!

– Falou o macho da parada. Sei… olha, eu realmente não lembro, mas de uma coisa tenho certeza, não importa a história, me levem, me deixem ir embora. Me exilem, me expulsem, eu não ligo! Eu só quero estar com ela. Se isso tudo não aconteceu, eu antecipo e digo que faria e farei tudo isso: com ela, quando for a hora. Fora dessa terra máscula nós duas seremos iguais e comeremos maçãs todos os dias, no café, no almoço, na janta. Haverá maçãs em todos os pratos! Tem coisa melhor do que frutas verdes e vermelhas por todo lado? Só pode ser o paraíso! Dá pra fazer saladas, doces, salgados! Eu vou embora dessa terra de homens! Eu já estou farta… Eu já estou farta… Me deixem ir… Me deixem ir… Me deixem.

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