I. A. Ireland | Final para um Conto Fantástico | uma crítica poética

          Em um momento fora, em outro dentro, as possibilidades: estar trancado em um recinto; estar num corpo e não conseguir sair, não lograr estar em outros cômodos, em outros estados de si; ao buscar conhecer-se acabar preso; não ser capaz de ir além do que uma única porta permite… E quando o estado de imaturidade é permanente, quando se ainda é moça ou moço por dentro, a chance de cair em armadilhas é maior ainda, pois o adolescente não se rebela contra o crescimento tão inevitável e iminente de si?

          Não é preciso trancar a chave para que o contato com o externo não se dê: basta não ter espaço para estender a mão, basta evitar o toque – uma porta sem maçaneta, basta não ter espaço para a passagem dos olhos, do olhar que leva além, por uma fechadura que revela que há algo do outro lado também, esperando para ser conhecido, aguardando que tenhamos coragem de, um dia, seguirmos viagem, de nos abrirmos, de nos encontrarmos…

        É claro que a porta pode ser também de onde se vem vindo, sendo um estado adolescente da criatividade de quem sabe que, se não se obrigar a crescer na vida, vai ficar sempre nos mesmos lugares. Então é preciso se fechar para que não haja a possibilidade de volta, assim, quem sabe, se descobre uma janela, uma lareira, uma sacada, uma outra porta:

          Talvez como em Alice, a passagem seja tão diminuta que será preciso se despir do corpo com o qual se entrou ali para poder seguir – diminuir de tamanho, ganhar humildade, se ver pequeno, morrer e matar quem se era até aquele momento. Ou quem sabe se tornar ainda maior e mais forte para poder escalar as paredes e ao fim descobrir que era vertical a nova rota – um novo caminho a percorrer, um novo horizonte que se abre sobre nossas cabeças, tal qual ter a vista “trancada” por montanhas para que asas nos nasça ao invés de mãos para inexistentes maçanetas.

Sublimar, transpassar, transformar, transmutar, transfigurar, sutilizar para ressurgir.

          Por fim, o importante é compreender que neste momento do caminho, o que quer que tenha nos levado até ali, chegamos juntos, mas é somente “sozinho” que se conseguirá sair.

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Conto:

Final para um Conto Fantástico

– Que estranho! – disse a moça, avançando cautelosamente. – Que porta mais pesada! – Tocou-a, ao falar, e ela se fechou de repente, com uma batida.

– Meu Deus! – disse o homem. – Parece que não tem maçaneta do lado de dentro. Mas como?, você nos trancou aqui! Nós dois!

– Nós dois, não. Só um – disse a moça.

Passou através da porta e desapareceu.

Chuang Tzu | O Sonho da Borboleta | uma crítica poética

Sonhar… e quanto desse verbo pode nos trans-formar? Gerar uma forma outra, que transpõe a barreira do que se imaginava ser possível.

Se sonhar é acordar para o invisível, o que vem depois?

Quanto do que somos vem após sonharmos com nós mesmos? E se temos um pesadelo, a realidade não converte-se naquilo que nos sugere o medo? E a bondade e beleza não seguirão a mesma regra que ele, nos despertando e nos levando à crença de que somos mais do que a materialidade nos oferece?

O casulo que se abre em borboleta  :  não será essa a natureza da vida que nos rodeia, cercando-nos com a limitação dela mesma e sua dureza? Dureza essa que não seria para crescimento de asas que nos levem além desse mundo de visão tão estreita? Ver o céu, tal qual quem voa em liberdade depois de parcamente sequer ter tido pernas…

Para uma lagarta andar é preciso ter coordenação, ao mesmo tempo, em muitas patas. E não são nossos encontros o aprender constante de quem apreende novos passos? Todos juntos, segurando na folha que o vento verga como se quisesse ferir quem está ali parado, quando na verdade o vento não pensa na lagarta, mas apenas no sopro de vida que ali passa, porque, para que haja vivência, é impossível ficar parado…

E não é o movimento o sonho do vento, sendo seu pesadelo ficar estagnado?

E cada novo elemento não traz um olhar que se mescla ao que se tinha, fazendo com que a soma de todos eles seja o que significa, verdadeiramente, estar sonhando acordado para a Vida?

Se uma boa noite de descanso depende de um bom dia de trabalho, não dependerá meu dia de sonho da minha noite de realidade? E da lucidez de ambos não dependerá o voar das infinitas possibilidades?

É a lagarta que sonha em ser borboleta e por isso se transforma, ou é a borboleta que lembra de ter sido lagarta e por isso bate asas?

E como responder, senão se sabendo todas as respostas junto de todas as perguntas que trazem sempre um novo estado a quem dorme, assim como a quem está acordado, no corpo e na mente que se sabe ambos, assim como o espírito só toma consciência de si porque se vê preso a cada humano passo?

A borboleta sonha em ser homem, assim como o espírito sonha em transformar-se em realidade.

O homem sonha em ser borboleta, assim como o corpo sonha em libertar-se do passageiro e voar para a eternidade.

***

Quando a borboleta e a lagarta compreendem que são uma só, em estados diferentes, eis que acaba a noite e o dia e tudo se torna Luz para a consciência que clarifica o dormir e o acordar… ela não deixa de ter pernas, mas as usará apenas para pontualmente pousar, pois passa a se manter em movimento constante e a ir a lugares muito mais distantes por ter produzido, no casulo da dor do mundo físico, uma parte de si ainda mais sutil  : 

a manifestação corporal da onírica capacidade de voar!

“Já não haverá noite: ninguém mais precisará da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará (…)” [Apocalipse 22:5]

 

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O Conto:

O Sonho da Borboleta

Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao despertar não sabia se era Tzu que havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

Alexandra David-Neel | No encalço do Mestre | uma crítica poética

          Os sapatos que levo no corpo moldam meus passos, e os passos, em seu percurso de linhas tortas, com o tempo deixam o sapato roto. A pegada que fica é a das solas, ela será a Forma deixada para os que permanecem em vida quando os pés já tiverem ido embora. Portanto, os sapatos que visto são o que deixará a marca do que foi feito em obra, a indicação de qual foi o caminho percorrido e como se deu a minha história.

          O que é calçar os sapatos de alguém? Em inglês, essa expressão leva à imagem do ‘colocar-se no lugar do outro’.

      Quando estamos no encalço do mestre, desejamos a qualquer momento calçar os solados do mestre, contudo, esse mesmo desejo faz com que nos enganemos, crendo que estes sapatos almejados têm um número específico que nos moldará os pés, deixando também um relevo reproduzível se eu vestir o mesmo número daquele que sigo.

          Assim, a cada situação nos defrontamos com a vontade de apresentar um sapato específico – se por vezes bailarina de sapatilha de ponta que se recusa a diminuir seu nível e pisar nos mesmos solos baixos do outro que me oferece vinho, em outro momento será calçando botas que pisarei e confrontarei violentamente a covardia do outro. Até que, um dia, eu entenda que o sapato mais humano a se usar é o pé de qualquer um que surgir, pois se eu tenho as solas do outro sobre mim, os meus próprios pés podem se despir e, nus no encontro com o outro que estou a vestir, podem finalmente ser arado da terra, com dedos que sulcam e lavram, bem como visíveis a quem chega, sendo exemplo de que somente eu sou portador da real medida do que esses passos vivificam e representam. Pois o tipo de sapato do Mestre é um único: a pele que reveste o espírito que assenta.

E então o verdadeiro Mestre poderá lavar nossos pés e nós lavarmos os pés dos demais, pois, sujos de tanto andar, voltarão a ser exemplo de que sapato algum tem mais valor do que os pés reais.

          Assim, com os pés no chão, poderemos dizer ‘não’ a quem oferecer vinho sem precisar subir na ponta da vaidade de uma falsa verticalidade de quem ergue os calcanhares, negando a horizontalidade do próprio passo, como se não sentisse sede tanto quanto o outro que se embriaga, mas sim sabendo que a negação é por saber que o tamanho da horizontalidade de quem me oferta calçar aquele sapato não é a mesma que a minha, pois cada um tem a medida que lhe é exata para que sejamos honesto naquilo que se vive e se deixa como rastro.

          Que vistamos os pés do Mestre ao lembrarmos de desnudar e lavar os pés uns dos outros, pois a medida do Mestre em nós é aquela que cabe em nós mesmos na honestidade do passo, e não há sapato no mundo que deixe uma marca mais leve, suave e sincera que as do próprio pé na terra.

          Bem como não há melhor exemplo do que ter o andar do Mestre acima do racional da cabeça. Sapatos são escolhidos na vaidade, enquanto o pé que me é dado, seja benção seja fardo, se aceito calçá-lo, o Mestre permanece para guiá-lo.

“(…) Senhor, tu, larvar-me os pés?!
(…) O que faço, não compreendes agora, mas o compreenderás mais tarde.” [João 13:6-7]

Compreenderemos mais tarde, no cemitério, quando a morte deixar os pés após queimar os sapatos…

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O Conto:

          No Encalço do Mestre

          Então o discípulo atravessou o país em busca do mestre predestinado. Sabia seu nome: Tilopa; sabia-o imprescindível. Perseguia-o de cidade em cidade, sempre com atraso.

         Uma noite, faminto, bate à porta de uma casa e pede comida. Sai um bêbado e com voz troante lhe oferece vinho. O discípulo recusa, indignado. A casa inteira desaparece; o discípulo fica sozinho no meio do campo, a voz do bêbado grita para ele: Eu era Tilopa.

         De outra feita, um aldeão lhe pede ajuda para esfolar um cavalo morto; enjoado, o discípulo se afasta sem responder; uma voz zombeteira grita para ele: Eu era Tilopa.

        Num desfiladeiro, um homem arrasta uma mulher pelos cabelos. O discípulo ataca o foragido e consegue que ele solte sua vítima. Bruscamente se vê sozinho e a voz lhe repete: Eu era Tilopa.

        Uma tarde, chega a um cemitério; vê um homem encolhido junto a uma fogueira de enegrecidos restos humanos; compreende, prosternar-se, segura os pés do mestre e coloca-os sobre sua cabeça. Dessa vez Tilopa não desaparece.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

Ah’med Ech Chiruani | Os Olhos Culpados | uma crítica poética

Os olhos (e todos os órgãos) são estrelas do corpo.
Radiantes perante os ensinamentos da vida, seguem em aprendizado constante.
Um céu com estrelas que queimam, apagando a si mesmas, é menos céu em termos de sua grandeza?

          Através desta analogia, eis uma crítica poética ao que Ah’med, em seu conto [ao fim transcrito], nos brinda:

         Toda estrela queima, e queimar é consumir a si para iluminar quem chega.
Portanto o destino de toda estrela é apagar a si mesma.

        Aprender a contemplar a noite é necessário, olhos da matéria que pisca e nos conecta a outros mundos, nos faz conjuntos no amor que deita ao lado, abaixo, no manto escuro que acaricia a paz de ouvir calar tudo, quando todos estão mudos, correndo o risco de se emudecer também perante o dia, depois de acordados.

         A fascinação pelas estrelas pode fazer esquecer de se banhar no sol, de se abrir a porta para a entrada dos raios na alvorada que a cada novo dia chega.

        Não enxergamos pelo brilho físico dos que queimam, mas pelo espaço escuro que, ao transportar a sua luz, arde; pelo azul que se revela junto ao dourado, sendo possível testemunhar, por causa do sol, o infinito que lhe carrega nos braços.

          Arrancar os olhos para a beleza temporária não é fácil, mas é possível apagar de si a chama que engana tantas pupilas que buscam ver algo de bonito, algo de beleza papável, que mesmo sendo uma luz mais sutil do que a da lua que apenas reflete determinado estado, ainda assim faz preciso lembrar que o sol, mais do que estrela, é aquele que ilumina ao contrário  :  Só permite ver a si se se busca o que para além dele se revela ser verdade.

        Quando, à noite, enxergamos apenas pontos brilhantes na abóboda cristalizada, deixamos de ver, ao mesmo tempo, a imensidão que se apaga para que algo específico seja clarificado.

         O belo da noite não são apenas as estrelas, olhos de pérola no útero da madrugada negra, mas a escuridão do fogo latente que dá corpo à mente que, por esses olhos, a tudo observa.

        Por fim, o casal do conto nos ensina que o sol que aprende a sacrificar de si a luz da material pupila, em direção ao buraco-negro se eleva  :  centro que chama de volta para si tudo o que lhe é de valor e devolve, para quem não vê, em seu cerne, o Belo do Amor, as moedas que brilham no visível o preço palpável da vida pesada apenas com olhos físicos.

         “Caso teu olho direito te leve a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena. Caso a tua mão direita te leve a pecar, corta-a e lança-a para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo vá para a geena.” [Mateus 5:29-30]

Imagina o Amor e Valor daquele que corta parte de si para que o corpo do Outro não seja lançado na geena…

 

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O Conto:

Contam que um homem comprou uma moça por quatro mil denários. Um dia olhou para ela e começou a chorar. A moça lhe perguntou por que estava chorando; ele respondeu:

– Tens olhos tão belos que me esqueci de adorar a Deus.

Quando ficou sozinha, a moça arrancou os próprios olhos. Ao vê-la nesse estado, o homem ficou aflito e disse:

– Por que te maltrataste assim? Diminuíste teu valor.

Ela respondeu:

– Não quero que haja nada em mim que te afaste de adorar a Deus.

De noite, o homem ouviu em sonho uma voz que dizia: “A moça diminuiu seu valor para ti, mas o aumentou para nós e a tiramos de ti.” Ao acordar, encontrou quatro mil denários sob o travesseiro. A moça estava morta.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.