Desfazenda : me enterrem fora desse lugar | uma crítica poética

 

Desfazenda – me enterrem fora desse lugar | uma crítica poética

 

Com especial dedicação a Lucas Moura [dramaturgo da peça-filme]:
uma alma-gêmea, uma alma-irmã, companheiro na Poesia Verdadeira.

 

Quando uma obra-prima é feita, ela altera o espaço-tempo. Ela cria uma curva e vai para além do esperado, vai além, inclusive, daquilo que a inspirou. Ultrapassa seu autor, transpassa o político e rompe a casca da semente fazendo nascer a verdadeira Poesia – aquela que é o fim, assim como o início. Porque se o político é o meio – a ferramenta que lhe crava os cravos e a lapida –, é a Poesia o que vela por sua virtuosidade e que revela a joia dentro da pedra bruta – o ouro puro que guarda em si, desde sempre, a Verdadeira Vida. 

As águas invertidas ao início nos trazem a imagem da inocência, da placenta, do bebê ainda in útero; capturada pela jaula que coloca para um animal, a criança é presa em si mesma, tal qual o espírito que se sente preso ao corpo, começando a conhecer o peso do que significa vir ao mundo. Mundo cruel, mundo dividido, mundo que inverte todos os verdadeiros sentidos do que significa ser e estar vivo: antes de tudo, algo divino, e não habitualmente algo tido como ‘acaso’. A brincadeira da presa e da caça inocente do infante com a fala doce da mãe que o leva a refletir sobre o que está fazendo é o paralelo para a reflexão sobre como amadurecer frente a escolhas, escolhas que nos parecem naturais, como prender um ser, uma existência, numa jaula apenas por poder. O poder, grande prerrogativa buscada por tanta gente, pulsa naquele que se vê maior perante o outro que ainda desconhece e que lhe parece uma ameaça iminente. 

O céu é o chão, as águas matriciais, aquela que guia, que dá sustento para crescermos um dia. O orvalho que pinga. O leite do qual se mama. A gota que a sede alivia. Água, aquela que é modelada pelo infinito que a mantém acima para que todo o fermento, dada na voz feminina, se torne crucial para que se forme o pão do conhecimento da filha acerca do que significa de fato ter medo e ter coragem, ter movimento de presa e de escape, por fim: de escolha perante a vida. 

Desfazenda, me permitindo quase uma hipérbole, desfaz aquilo que pensamos ver e ouvir. 

Com batimentos acelerados ao começo, a batida traz o ritmo para além da banalidade cotidiana das músicas que tanto ouvimos. É o próprio coração pulsando como um recém-nascido, que ao ser parido chega a velocidades entre 120 e 160 bpm. Por ser um corpo imaturo, a criança tem um ritmo diferente do adulto. Desfazenda começa assim, como uma música imatura aos ouvidos que, ao longo da dramaturgia que é belissimamente bem dirigida, faz crescer e desacelerar o ímpeto que a inocência nos traz quando somos paridos. A direção musical maestralmente vai abraçando os nossos sentidos e aos poucos regendo, não só as crianças da história, mas também os nossos próprios instintos. Se antes quase não entendíamos o que se falava e narrava, se é preciso ver e ouvir mais de uma vez a história que a nós é contada, aos poucos esse coração preto ganha harmonia e melodia em sua fala, para além do ritmo cardinal que instintivamente o guiava. 

O coração é carvão do corpo, a queima constante gera nosso combustível, o óleo sem o qual não queimaríamos e deixaríamos de existir. Carvão preto, de pele preta, de casca negra que é semente da árvore que irá se revelar um dia. 

O 0 (Zero), personagem que não vemos em aparência, é o que conduz toda a narrativa, como Adão que, após a queda, narra o porquê de aqui estarmos e vivermos como temos aprendido. O ponto de início da atual jornada, o inalcançável, inexplicável e inexprimível, mas amado por todos os homens que verdadeiramente se sabem responsáveis por suas quedas e suas conquistas, em suma, por suas vidas. E é também temido, porque só ele pode algo que os outros não têm acesso, tornando-se quase como carrasco dos outros e cúmplice dum padre que para a fazenda arrasta todos. Padre, palavra essa que tem ligação com pai, padre esse que se apresenta somente a ele, o Zero, e trata somente com ele a comunicação acerca de toda a necessidade que ocorre naquele mundo fechado, no corpo como um todo, um sistema, para que a aparência das coisas se mantenha em existência. 

Padre branco, padre ferido, como um cérebro, uma mente que, astuta, cria jaulas para prender aqueles que julga não estar no mesmo nível de raciocínio. 

Assim fizeram os seres humanos consigo, com seus pares – fossem pretos, fossem gays, fossem pagãos, fossem de outra nacionalidade… fizeram e ainda fazem. Fazemos, porque somos preconceituosos e racistas contra outras nações, não só em relação à cor, mas a todos que pensam diferente de nós, sentem de maneira diferente de nós, agem de maneira diferente, têm um corpo que aparentemente é diferente do nosso, seja num julgamento inferior ou superior: romantizamos nossos amigos e matamos nossos inimigos. 

Não, nós não sabemos Amar verdadeiramente, ainda. 

Tal como aquele que pensa ser mais inteligente, como a mente que astutamente pensa mandar no coração (só por ele ser involuntário), em sua falsa madurez o padre crê que sabe o que é melhor para aqueles meninos. E se isola, porque, por fim, se reconhece doente. Sim, todos nós estamos com nossa mente doente em muitos sentidos – sejamos brancos ou pretos, vermelhos ou amarelos. A cor é apenas o que os olhos veem, mas a essência da paisagem é a mesma e comum a todos que fazem parte dela. Assim, as personagens vão imbricando suas falas, cantando suas imaturidades, inconsciências e inocências de maneira a nos levar ao interior mais profundo de nós mesmos, à infância querida que foi traumatizada por adultos que não sabiam o que faziam, ainda que se julgassem iluminados e racionais, mesmo quando tinham a melhor das intenções possíveis. É inevitável: todos os pais, todo padre, cria traumas quando somos pequenos ainda. Bem nos legou Freud essa perspectiva. Pais e filhos, mães e filhas estarão numa união em inimizade, para além de Freud, é também o que nos disse Cristo. Não é apenas psicológico, é bíblico. 

O fato da mãe guiar ao início nos mostra ser importante ser um homem quem está gravemente ferido. É a revelação do ferimento masculino que deve ser curado porque é ele que acaba passando para os outros a pior das doenças: a crença na mentira para a manutenção das aparências – ainda que Freud tenha culpado as mães em sua maioria, porque, afinal, o feminino também precisa sim ser curado, como a filha ao início que se torna vítima e algoz de sua própria caça, precisando amadurecer e tomar consciência de suas escolhas para se responsabilizar por seus atos. Mas são os homens que, enquanto pais que abandonam ou prendem seus filhos em “quadrados” bem estabelecidos, precisam de ajuda, assim como é o cérebro, a mente, que precisa ser desenvolvida para que amadureçamos de maneira a nos livrarmos das doenças que nos afligem hoje em dia. Contudo, assim como o homem simboliza a mente deformada, a mulher é o coração que precisa aprender a tornar seus impulsos negros, obscuros, inconscientes, um ato de pulso amoroso voluntário. 

Enquanto o coração for involuntário, o cérebro continuará no automático. 

O debate sobre por que somente o Zero tem contato com o padre nos remete a um ser que parece especial, que parece ter sido escolhido. O problema é que esse padre, esse pai, não é o verdadeiro, ainda que real. Para as crianças é ele quem manda e dita as regras, é ele aquele que repete os afazeres da fazenda até que as fórmulas sejam repetidas também por elas. Mas o patriarca de sangue está ausente nas falas, e permite que seus filhos sejam vendidos, dados, trocados, como bem é falado: os pais daquelas crianças têm responsabilidade por estarem em cativeiro numa fazenda em trabalho isolado com a explicação de que fora há uma guerra. 

Esta guerra é questionada: será que ela existe mesmo? Talvez estando lá dentro eles sejam os únicos pretos que sobrevivam, talvez sendo o coração que segue a razão (o iluminismo dos homens cultos de grande raciocínio) tenhamos alguma chance de nos livrarmos do sistema que mata e oprime os corpos que ousam vir-a-ser órgãos: não por serem inteiros, mas justamente por não terem oportunidade de se tornarem íntegros ao serem feitos pedaços, sendo então buscado um corpo sem órgãos onde todos são iguais e tudo baila de forma aparentemente igualitária e indistinta. 

Mas o que seria dos ouvidos se tudo fosse boca? O que seria do pé se tudo fosse mão? O que seria da mãe se tudo fosse pai? O que seria das criaturas se tudo fosse criador? O que seria da Terra se tudo fosse Céu? 

É preciso ordenar. É preciso organizar. É preciso ordem para haver progresso. 

Não é a negação em si nem da tradição que ordena o trabalho – sem o qual morreriam de fome e, sabemos bem, entramos em depressão porque até mesmo a Arte é um trabalho, e faz com que a Vida ganhe sentido –, assim como não é a negação do progresso em relação àquilo que pode ser melhorado e deve ser aprimorado pelas mãos humanas enquanto seres ativos. Mas tudo isso acarreta um risco. 

É o risco de sofrer para que a porta seja aberta, risco de adentrar a capela, de saber dos mortos, de entrar em contato com a ancestralidade de até mesmos nossos próprios erros, porque o equívoco de qualquer um deles, ou do Zero, é a queda em se tornar como o padre que os engana, como quem oferta uma fruta duma árvore que ele desesperadoramente rega. É descobrir que nem ele é o pai que se esperava, nem os nossos pais aqueles heróis que julgávamos quando ainda meninos, porque nos venderam, nos deram, “nos abandonaram nas mãos do destino.” 

É correr o risco de enlouquecer ao lidar com o choque que é amadurecer para o fato de que a cura não está fora, na história, na aparência dum discurso que nos prende ou supostamente nos libertaria duma fazenda (caso as crianças nunca tivessem sido vendidas), mas em precisarmos aprender a extrair a essência de tudo isso, independentemente de como ou o que tem acontecido, separando o joio pelo fato de que o grão só pode ser encontrado na dolorosa maceração do trigo. 

E, de repente, entra na fazenda uma criança. Uma criança preta e vermelha, como um coração pulsando, correndo, passando, assustando inclusive. Das duas ressalvas que tenho com a direção, uma delas é a escolha em associar este momento a uma atmosfera de Pombagira e Exú, quando os Erês preferem cores mais claras, ainda que gostem de todas as cores. Foi uma perda haver uma sobreposição óbvia das cores preta e vermelha associadas a uma ideia de algo obscuro, perda de oportunidade de, numa peça-filme predominantemente preta e branca, se trabalhar o inesperado e cores outras que trouxessem a travessura sim, mas também o verdadeiro espanto e encontro com o infantil presente no azul ao fim e ao começo, quem sabe.

Mas eis que chega na fazenda essa vida que corre, que jorra, que pulsa, uma criança que os joga para dentro de si mesmos, que os une no medo, mas também na coragem – ainda que se diga que o contrário do medo seja o movimento. Coragem é etimologicamente o ‘core que age’, é agir com o coração, e sim, o movimento é o que efetiva a coragem no mundo. Um não ganha vida sem o outro, pois um coração que não se movimenta é morto, mas é preciso também lembrar que um movimento sem coragem é vazio, sem sangue, deixa de ser ação e se torna reação. E o medo paralisa, e paralisia é justamente a arritmia, o fim da música, o fim de todo ritmo, harmonia e melodia. Coragem e movimento são como corpo e vitalidade, e ambos juntos é que vencem a morte mais iminente a cada momento – porque há as mortes menos óbvias, é claro, como a dos sentimentos e pensamentos, que também são um só, assim como feminino e masculino formam uma só carne. 

A mão que segura Treze, a única menina do grupo, mostra a constante pressão no feminino, que, ao ser segurado, se lembra de seu passado, memória que se liga também à mulher, às entranhas, ao inconsciente que pertence à senhora água, tal qual oceano onde tudo se deposita e assenta em passiva aceitação para que do pó matricial do qual viemos se torne o pó material ao qual retornemos. Areia. Treze liga os pontos. E a criança, vermelha e preta, passa, não sabemos se livre ou presa, na mesma fazenda, fazendo todos permanecerem acordados. 

Criança essa que é um ser estranho a todos eles, ainda obscuro e sem características visíveis. Eles se armam até os dentes contra ela, mas ela é apenas aquela que vem para a libertação deles, pois esse incidente, que se conecta ao animal preso pela filha no início de Desfazenda, faz, como dito, todos caírem em si e buscarem vencer: não com armas somente, mas com coragem e movimento de abertura daquilo que é sagrado dentro da fazenda: a capela! 

Capela é uma palavra que etimologicamente vem de cappa, ou ‘capa com proteção para cabeça’, um manto que deveria ser sagrado e não destinado a qualquer porco ou ainda a uns poucos, mas a todos que tenham coragem e se movimentem para chegar até ele, para serem revestidos por ele. 

Dentro dessa capela, o corpo morto ainda quente de Zero é encontrado, o homem mais velho, o mais antigo de todos, ainda lá, como fruta preta pendurada. Um suicídio por não querer se tornar como o padre, um coração que foi enganado e que se nega a ser racional e seguir as fórmulas que lhe foram, não só ensinadas, mas racionalizadas e repetidas até que se acreditasse ser verdade aquilo que era mentira. É reconhecer-se como seu inimigo, e ver que, por amor ao próprio inimigo, é preciso morrer como ele. 

Claro que não entendemos nem chamamos tal ato de amor, porque ainda nos escapa a imensa sabedoria que há em matar em nós mesmos (metaforicamente) aquilo que nos torna iguais em nossos erros. A morte do Zero é a redenção do padre, por assim dizer, porque é como quem divide e reconhece em si a mesma responsabilidade. Os inimigos que se veem iguais de repente, se veem com a mesma doença, mesma chaga, mesma problemática: o corpo que reconhece que um câncer num único órgão é o suficiente para levar à morte, pois para morrer não é preciso chegar à metástase: o comprometimento de um é o comprometimento dos demais. E da mesma forma como o padre se isola para não passar a doença adiante, Zero se mata para que isso também não seja disseminado entre seus iguais. 

Lembrando o suicídio de Romeu e Julieta, aqui o caso é de suicídio por amor ao inimigo e por amor aos seus semelhantes. É além de amar apenas uma pessoa, é além dum amor romântico. É o amor de redenção que se põe em morte para que outros não passem pelo mesmo, para que possa nascer o novo homem: uma humanidade mais íntegra, mais inteira, com coração e mente trabalhando de maneira mais unida, uníssona e consonante na saúde e na doença. É a possibilidade de casamento não em aparência, mas em essência, ultrapassando a morte e legando aos outros a possibilidade de uma vida verdadeira. 

E aqui, minha segunda ressalva: a direção escolheu um tom de dismorfia para as falas crísticas, sendo algo desnecessário e imaturo, pois a pirraça política e as crenças que viram crendices quando deformadas matam a poesia que as falas contêm, tudo soa com um tom de falsidade em relação ao que é dito, sendo um inegável fato que cada órgão têm sua função fisiológica, e cada um deve buscar ser o melhor naquilo para o qual foi feito. Sendo um só corpo, não há porque competir sobre qual tem maior relevância ou “manda”, qual exercerá poder, até porque, por fim, uma criança pode nascer sem cérebro, mas sem coração, ninguém tem capacidade alguma de existência. 

Mas se Erês têm tom de Exú, é de se esperar que Cristo Jesus tenha tom de Belzebu. Duas instâncias que tinham tudo para ser sublimes, mas que perdem a potência por falta da Poesia da Verdadeira Crença. 

Os pretos são o coração do mundo; as crianças, o coração da fazenda: os que impõem ritmo e pulsam, jorram trabalho para todos os lados, fazendo com que tudo se ordene e progrida de alguma maneira, ainda que o progresso venha da mente em si que de alguma maneira precisa criar fórmulas para que tudo seja feito. O padre é crucial para que as crianças se entendam gente. Assim como o coração só se conhece coração e toma ciência de sua importância se mentalmente assim o concebemos. 

Mas a sabedoria é sempre cardíaca! 

É a sabedoria do mistério envolto em negritude que abre e passa pela porta, que se reveste da capa que cobre a cabeça de todos que encontram o diário do Zero morto. Diário esse que é lido, sendo o ponto mais alto da dramaturgia, tendo a música acertado com perfeição na composição com a leitura.  

É a hora em que se lida com os fatos, em que o coração, já pronto para a madurez, se defronta com suas sombras, com seu passado, com realidades invisíveis, como a única mulher do grupo ser irmã do Zero. Justo ela, aquela que recebe tudo como herança. A mulher, tal qual Eva (feita da mesma costela, mesmo material que ele) que se torna Ave, se torna a possibilidade de redenção verdadeira de tudo aquilo, pois se é o masculino que está doente, é o feminino que recebe em suas mãos a possibilidade de intervenção nos acontecimentos da fazenda e de curar os possíveis enfermos. 

Vem então o alívio, a afirmação dos erros, dos cansaços, dos depoimentos pessoais que trazem mais do que um psicologismo de “eu acho”. São pontuações pertinentes, perfurantes, são espinhos que carregamos e não dizemos. São flagelos que nos fazem crescer em meio aos nossos pessoais e coletivos tormentos. 

Impérios crescem e caem, políticos são eleitos e esquecidos. Estátuas e templos são erguidos e derrubados. Do pó viemos, ao pó voltaremos, do oceano como chuva e choro saímos, ao oceano retornaremos, como gotas d’água que sublimam à luz do dia que nasce, como verdadeiros orvalhos que secam ao sol e cedem ao vento. 

E, afinal, há guerra ou não? Será que estão mesmo a matar pretos lá fora? Será que estão a se matar? Será que é real que o ser humano é um ser tão mau? Será que há Céu e Inferno numa luta entre o bem e o mal? Não sabemos. Não chegamos a sair de lá, da fazenda. Nem nada lá chega a entrar, exceto a criança preta e vermelha, preta como carvão, como coração, vermelha porque traz o sangue, traz a vida em contração e dilatação. O carvão que queima o fogo rubro, o óleo que corre por entre as artérias e veias. 

Só quem se fizer criança de novo haverá de se salvar daquela terra! 

Pois é a criança que captura o bicho ao início, e é a criança que, ainda sem resposta, sabendo instintivamente que nada sabe, liberta nas águas (o dilúvio final) o corpo daqueles que o céu, em seu espírito, estão a procurar. A pele é só uma casca, a cor é o pé que sobre as águas anda, acalmando a tempestade. Como coração-carvão que aos poucos, se tornando filho do vento, já não luta contra o fogo que o consome, mas se permite ser apreendido pelo sopro que o acalenta ao mesmo tempo que o arde. 

Por fim, descobrimos que, mesmo sem respostas, sem culpados, somos sim responsáveis pelas nossas escolhas e atos. E cada um tem seu peso a ser transportado. Uns são de carga pesada, afundam como pedra, outros fazem do seu fardo algo leve e de seu jugo algo suave. E meninos que eram números aleatórios se revelam uma família no fundo, senão de sangue, como Zero e Treze (Zero como o início da queda e Treze justo como a feminina Alma que congrega doze ao redor dela), ao menos família por terem sido criados juntos, no cativeiro que é a vida enquanto não entendemos que a árvore está seca e que deve ser regada, não só com água, como desesperadoramente o padre fazia, mas também com sangue – não sangue inocente e inconsciente, mas de quem escolhe derramar o próprio sangue para a evolução através da arma mais potente: a palavra que se torna literatura, ou seja, o verbo que ganha carne naquilo que é literal – o livro. A oralidade que tal qual pérola preciosa se une ao metal para formar a aliança dum noivado divino. 

A morte de Zero e seu diário, o livro que conta sobre sua vida, casa com a vida de todos que ali estão ao se darem conta, finalmente, de que são uma só família. 

Importante observar que favela, tida hoje como palavra a designar o que é periférico, se torna centro, core, de toda a fazenda. Confirmando que aqueles que habitam a fazenda são os que mantêm o pulso dela. E importante também ter em mente que a palavra favela vem etimologicamente de uma planta, relacionada ao legume Faba, ou Fava, um dos principais alimentos dos romanos, bem como a origem também da palavra família se relaciona com o ‘conjunto de escravos’ que se tinha antigamente. E família, bem como favela, se relacionam romanamente com gens (grupo de família) Faba. Assim, família e favela são algo que de alguma forma, em essência e na história etimológica, se relacionam de fato. 

E da árvore Favela, da família que se revela ao redor dela, cai o sangue real e metafórico, sangue divino, porque se torna o homem que faz com que a árvore já não precise enterrar mais ninguém naquele lugar, apenas enterrada a raiz que a mantém, de alguma forma, viva. Os galhos e frutos agora podem sair ao mundo, se encontrar, se dispersar – não como quem separa, segrega, mas ao contrário, como quem une sem que a morte sórdida seja a realidade a ser vivida pelos demais. Ela é transpassada, vencida, ainda que precisemos sim ser enterrados para que, tal qual semente, possamos brotar e desfazer a história como quem abre a jaula, como quem sai da caverna, como quem aceita que a morte sagrada (dilúvio final), assim como a queima do coração-carvão, é irmã dos que querem continuar… 

Sim, a vida é sofrimento, a vida é difícil, a vida é ter coragem para se manter em constante movimento: ritmo; tendo ainda firmeza para que a melodia e a harmonia façam parte e narrem também o sagrado que é ter cada órgão saudável, sendo respeitado, cada qual com seu devido trabalho. 

Desfazenda é mais do que político, é poético, e vai além do que qualquer acontecimento histórico que amanhã ou depois é esquecido, ou sucedido por algo materialmente pior ou sublimado por algo melhor. 

Desfazenda é o começo de quando o coração acorda para sua real função enquanto nobreza: sanar o corpo e ressuscitar a cabeça. 

E ser enterrado longe dali não é apenas um pedido de quem quer se afastar das mazelas que nos cercam, mas sim um apelo vindo da semente que intui que é preciso ser enterrada longe da sombra de outra árvore para que o Sol também nasça para ela. 

 

Com Amor, Le Tícia Conde. 

I. A. Ireland | Final para um Conto Fantástico | uma crítica poética

          Em um momento fora, em outro dentro, as possibilidades: estar trancado em um recinto; estar num corpo e não conseguir sair, não lograr estar em outros cômodos, em outros estados de si; ao buscar conhecer-se acabar preso; não ser capaz de ir além do que uma única porta permite… E quando o estado de imaturidade é permanente, quando se ainda é moça ou moço por dentro, a chance de cair em armadilhas é maior ainda, pois o adolescente não se rebela contra o crescimento tão inevitável e iminente de si?

          Não é preciso trancar a chave para que o contato com o externo não se dê: basta não ter espaço para estender a mão, basta evitar o toque – uma porta sem maçaneta, basta não ter espaço para a passagem dos olhos, do olhar que leva além, por uma fechadura que revela que há algo do outro lado também, esperando para ser conhecido, aguardando que tenhamos coragem de, um dia, seguirmos viagem, de nos abrirmos, de nos encontrarmos…

        É claro que a porta pode ser também de onde se vem vindo, sendo um estado adolescente da criatividade de quem sabe que, se não se obrigar a crescer na vida, vai ficar sempre nos mesmos lugares. Então é preciso se fechar para que não haja a possibilidade de volta, assim, quem sabe, se descobre uma janela, uma lareira, uma sacada, uma outra porta:

          Talvez como em Alice, a passagem seja tão diminuta que será preciso se despir do corpo com o qual se entrou ali para poder seguir – diminuir de tamanho, ganhar humildade, se ver pequeno, morrer e matar quem se era até aquele momento. Ou quem sabe se tornar ainda maior e mais forte para poder escalar as paredes e ao fim descobrir que era vertical a nova rota – um novo caminho a percorrer, um novo horizonte que se abre sobre nossas cabeças, tal qual ter a vista “trancada” por montanhas para que asas nos nasça ao invés de mãos para inexistentes maçanetas.

Sublimar, transpassar, transformar, transmutar, transfigurar, sutilizar para ressurgir.

          Por fim, o importante é compreender que neste momento do caminho, o que quer que tenha nos levado até ali, chegamos juntos, mas é somente “sozinho” que se conseguirá sair.

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

 

Conto:

Final para um Conto Fantástico

– Que estranho! – disse a moça, avançando cautelosamente. – Que porta mais pesada! – Tocou-a, ao falar, e ela se fechou de repente, com uma batida.

– Meu Deus! – disse o homem. – Parece que não tem maçaneta do lado de dentro. Mas como?, você nos trancou aqui! Nós dois!

– Nós dois, não. Só um – disse a moça.

Passou através da porta e desapareceu.

Chuang Tzu | O Sonho da Borboleta | uma crítica poética

Sonhar… e quanto desse verbo pode nos trans-formar? Gerar uma forma outra, que transpõe a barreira do que se imaginava ser possível.

Se sonhar é acordar para o invisível, o que vem depois?

Quanto do que somos vem após sonharmos com nós mesmos? E se temos um pesadelo, a realidade não converte-se naquilo que nos sugere o medo? E a bondade e beleza não seguirão a mesma regra que ele, nos despertando e nos levando à crença de que somos mais do que a materialidade nos oferece?

O casulo que se abre em borboleta  :  não será essa a natureza da vida que nos rodeia, cercando-nos com a limitação dela mesma e sua dureza? Dureza essa que não seria para crescimento de asas que nos levem além desse mundo de visão tão estreita? Ver o céu, tal qual quem voa em liberdade depois de parcamente sequer ter tido pernas…

Para uma lagarta andar é preciso ter coordenação, ao mesmo tempo, em muitas patas. E não são nossos encontros o aprender constante de quem apreende novos passos? Todos juntos, segurando na folha que o vento verga como se quisesse ferir quem está ali parado, quando na verdade o vento não pensa na lagarta, mas apenas no sopro de vida que ali passa, porque, para que haja vivência, é impossível ficar parado…

E não é o movimento o sonho do vento, sendo seu pesadelo ficar estagnado?

E cada novo elemento não traz um olhar que se mescla ao que se tinha, fazendo com que a soma de todos eles seja o que significa, verdadeiramente, estar sonhando acordado para a Vida?

Se uma boa noite de descanso depende de um bom dia de trabalho, não dependerá meu dia de sonho da minha noite de realidade? E da lucidez de ambos não dependerá o voar das infinitas possibilidades?

É a lagarta que sonha em ser borboleta e por isso se transforma, ou é a borboleta que lembra de ter sido lagarta e por isso bate asas?

E como responder, senão se sabendo todas as respostas junto de todas as perguntas que trazem sempre um novo estado a quem dorme, assim como a quem está acordado, no corpo e na mente que se sabe ambos, assim como o espírito só toma consciência de si porque se vê preso a cada humano passo?

A borboleta sonha em ser homem, assim como o espírito sonha em transformar-se em realidade.

O homem sonha em ser borboleta, assim como o corpo sonha em libertar-se do passageiro e voar para a eternidade.

***

Quando a borboleta e a lagarta compreendem que são uma só, em estados diferentes, eis que acaba a noite e o dia e tudo se torna Luz para a consciência que clarifica o dormir e o acordar… ela não deixa de ter pernas, mas as usará apenas para pontualmente pousar, pois passa a se manter em movimento constante e a ir a lugares muito mais distantes por ter produzido, no casulo da dor do mundo físico, uma parte de si ainda mais sutil  : 

a manifestação corporal da onírica capacidade de voar!

“Já não haverá noite: ninguém mais precisará da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará (…)” [Apocalipse 22:5]

 

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde         

 

O Conto:

O Sonho da Borboleta

Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao despertar não sabia se era Tzu que havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

Alexandra David-Neel | No encalço do Mestre | uma crítica poética

          Os sapatos que levo no corpo moldam meus passos, e os passos, em seu percurso de linhas tortas, com o tempo deixam o sapato roto. A pegada que fica é a das solas, ela será a Forma deixada para os que permanecem em vida quando os pés já tiverem ido embora. Portanto, os sapatos que visto são o que deixará a marca do que foi feito em obra, a indicação de qual foi o caminho percorrido e como se deu a minha história.

          O que é calçar os sapatos de alguém? Em inglês, essa expressão leva à imagem do ‘colocar-se no lugar do outro’.

      Quando estamos no encalço do mestre, desejamos a qualquer momento calçar os solados do mestre, contudo, esse mesmo desejo faz com que nos enganemos, crendo que estes sapatos almejados têm um número específico que nos moldará os pés, deixando também um relevo reproduzível se eu vestir o mesmo número daquele que sigo.

          Assim, a cada situação nos defrontamos com a vontade de apresentar um sapato específico – se por vezes bailarina de sapatilha de ponta que se recusa a diminuir seu nível e pisar nos mesmos solos baixos do outro que me oferece vinho, em outro momento será calçando botas que pisarei e confrontarei violentamente a covardia do outro. Até que, um dia, eu entenda que o sapato mais humano a se usar é o pé de qualquer um que surgir, pois se eu tenho as solas do outro sobre mim, os meus próprios pés podem se despir e, nus no encontro com o outro que estou a vestir, podem finalmente ser arado da terra, com dedos que sulcam e lavram, bem como visíveis a quem chega, sendo exemplo de que somente eu sou portador da real medida do que esses passos vivificam e representam. Pois o tipo de sapato do Mestre é um único: a pele que reveste o espírito que assenta.

E então o verdadeiro Mestre poderá lavar nossos pés e nós lavarmos os pés dos demais, pois, sujos de tanto andar, voltarão a ser exemplo de que sapato algum tem mais valor do que os pés reais.

          Assim, com os pés no chão, poderemos dizer ‘não’ a quem oferecer vinho sem precisar subir na ponta da vaidade de uma falsa verticalidade de quem ergue os calcanhares, negando a horizontalidade do próprio passo, como se não sentisse sede tanto quanto o outro que se embriaga, mas sim sabendo que a negação é por saber que o tamanho da horizontalidade de quem me oferta calçar aquele sapato não é a mesma que a minha, pois cada um tem a medida que lhe é exata para que sejamos honesto naquilo que se vive e se deixa como rastro.

          Que vistamos os pés do Mestre ao lembrarmos de desnudar e lavar os pés uns dos outros, pois a medida do Mestre em nós é aquela que cabe em nós mesmos na honestidade do passo, e não há sapato no mundo que deixe uma marca mais leve, suave e sincera que as do próprio pé na terra.

          Bem como não há melhor exemplo do que ter o andar do Mestre acima do racional da cabeça. Sapatos são escolhidos na vaidade, enquanto o pé que me é dado, seja benção seja fardo, se aceito calçá-lo, o Mestre permanece para guiá-lo.

“(…) Senhor, tu, larvar-me os pés?!
(…) O que faço, não compreendes agora, mas o compreenderás mais tarde.” [João 13:6-7]

Compreenderemos mais tarde, no cemitério, quando a morte deixar os pés após queimar os sapatos…

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde         

 

O Conto:

          No Encalço do Mestre

          Então o discípulo atravessou o país em busca do mestre predestinado. Sabia seu nome: Tilopa; sabia-o imprescindível. Perseguia-o de cidade em cidade, sempre com atraso.

         Uma noite, faminto, bate à porta de uma casa e pede comida. Sai um bêbado e com voz troante lhe oferece vinho. O discípulo recusa, indignado. A casa inteira desaparece; o discípulo fica sozinho no meio do campo, a voz do bêbado grita para ele: Eu era Tilopa.

         De outra feita, um aldeão lhe pede ajuda para esfolar um cavalo morto; enjoado, o discípulo se afasta sem responder; uma voz zombeteira grita para ele: Eu era Tilopa.

        Num desfiladeiro, um homem arrasta uma mulher pelos cabelos. O discípulo ataca o foragido e consegue que ele solte sua vítima. Bruscamente se vê sozinho e a voz lhe repete: Eu era Tilopa.

        Uma tarde, chega a um cemitério; vê um homem encolhido junto a uma fogueira de enegrecidos restos humanos; compreende, prosternar-se, segura os pés do mestre e coloca-os sobre sua cabeça. Dessa vez Tilopa não desaparece.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

Ah’med Ech Chiruani | Os Olhos Culpados | uma crítica poética

Os olhos (e todos os órgãos) são estrelas do corpo.
Radiantes perante os ensinamentos da vida, seguem em aprendizado constante.
Um céu com estrelas que queimam, apagando a si mesmas, é menos céu em termos de sua grandeza?

          Através desta analogia, eis uma crítica poética ao que Ah’med, em seu conto [ao fim transcrito], nos brinda:

         Toda estrela queima, e queimar é consumir a si para iluminar quem chega.
Portanto o destino de toda estrela é apagar a si mesma.

        Aprender a contemplar a noite é necessário, olhos da matéria que pisca e nos conecta a outros mundos, nos faz conjuntos no amor que deita ao lado, abaixo, no manto escuro que acaricia a paz de ouvir calar tudo, quando todos estão mudos, correndo o risco de se emudecer também perante o dia, depois de acordados.

         A fascinação pelas estrelas pode fazer esquecer de se banhar no sol, de se abrir a porta para a entrada dos raios na alvorada que a cada novo dia chega.

        Não enxergamos pelo brilho físico dos que queimam, mas pelo espaço escuro que, ao transportar a sua luz, arde; pelo azul que se revela junto ao dourado, sendo possível testemunhar, por causa do sol, o infinito que lhe carrega nos braços.

          Arrancar os olhos para a beleza temporária não é fácil, mas é possível apagar de si a chama que engana tantas pupilas que buscam ver algo de bonito, algo de beleza papável, que mesmo sendo uma luz mais sutil do que a da lua que apenas reflete determinado estado, ainda assim faz preciso lembrar que o sol, mais do que estrela, é aquele que ilumina ao contrário  :  Só permite ver a si se se busca o que para além dele se revela ser verdade.

        Quando, à noite, enxergamos apenas pontos brilhantes na abóboda cristalizada, deixamos de ver, ao mesmo tempo, a imensidão que se apaga para que algo específico seja clarificado.

         O belo da noite não são apenas as estrelas, olhos de pérola no útero da madrugada negra, mas a escuridão do fogo latente que dá corpo à mente que, por esses olhos, a tudo observa.

        Por fim, o casal do conto nos ensina que o sol que aprende a sacrificar de si a luz da material pupila, em direção ao buraco-negro se eleva  :  centro que chama de volta para si tudo o que lhe é de valor e devolve, para quem não vê, em seu cerne, o Belo do Amor, as moedas que brilham no visível o preço palpável da vida pesada apenas com olhos físicos.

         “Caso teu olho direito te leve a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena. Caso a tua mão direita te leve a pecar, corta-a e lança-a para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo vá para a geena.” [Mateus 5:29-30]

Imagina o Amor e Valor daquele que corta parte de si para que o corpo do Outro não seja lançado na geena…

 

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde         

 

O Conto:

Contam que um homem comprou uma moça por quatro mil denários. Um dia olhou para ela e começou a chorar. A moça lhe perguntou por que estava chorando; ele respondeu:

– Tens olhos tão belos que me esqueci de adorar a Deus.

Quando ficou sozinha, a moça arrancou os próprios olhos. Ao vê-la nesse estado, o homem ficou aflito e disse:

– Por que te maltrataste assim? Diminuíste teu valor.

Ela respondeu:

– Não quero que haja nada em mim que te afaste de adorar a Deus.

De noite, o homem ouviu em sonho uma voz que dizia: “A moça diminuiu seu valor para ti, mas o aumentou para nós e a tiramos de ti.” Ao acordar, encontrou quatro mil denários sob o travesseiro. A moça estava morta.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.