a Poesia do Amadurecimento . : . sombra e Luz: o amanhecer

O que é o amadurecimento?

Qual é a poesia do verbo amadurecer? Qual a poesia do amadurecimento? Qual a poesia da maturidade?

Este verbo, amadurecer, é composto por ad-, do latim, que significa para, e maturare, também do latim, que significa ‘estar pronto para a colheita’, que se relaciona ainda com mane, referente a manhã, ao que é cedo.

Com isso podemos observar num primeiro momento como o amadurecimento tem relação com aquilo que está pronto para nos apresentar algo sob uma determinada luz, uma luz que esclarece, de uma manhã que traz às vistas novos significados e novos detalhes, possibilidades.

É muito pertinente observarmos, por exemplo, como que o ser humano, nós, vamos amadurecendo aos poucos, e como esse processo é possível de ser observado através da palavra. Os ensinamentos místicos são maravilhosos e sempre trazem o paradoxal que é: a letra é morta, enquanto a fé é viva e, ainda assim, quando estamos e somos Filhos do Deus Vivo tudo também ganha vida sob uma nova luz e, portanto, uma nova perspectiva. Porque nós amadurecemos, e isso significa que uma nova luz é lançada sobre aquilo que nós já julgávamos conhecer, saber e entender, e aí vemos que algo que sabemos, entendemos e que, quiçá, conhecemos varia de acordo com nosso grau de evolução e a luz que chega até nós, a medida em que nossos olhos se abrem também para aquilo que realmente se apresenta, e não os olhos abertos que temos hoje para aquilo que nós desejamos conhecer, entender e saber de maneira egoísta, vaidosa e enfadonha, inclusive, porque tudo vira repetição, tudo é vaidade, tudo é vazio.

E ainda assim, isso em si mesmo é uma grande sabedoria, não à toa é a sabedoria de Salomão, ainda que uma sabedoria temporária, porque cada vez que amadurecemos um pouco é uma nova aurora, uma nova luz que chega, um novo raio que ganha o nosso céu e as nossas estruturas e que nos revela novos detalhes, mostrando que aquilo que nós julgávamos ser tudo não era nada perto de um novo estado de abertura e revelação, e, portanto, inovação e evolução. Isso, caso nos permitamos ser obliterados e novamente paridos, porque se a vaidade é um vazio, é se permitir saber-se um nada para então se abrir ao nascimento divino.

Aqueles que se julgam maduros demais, que sabem demais, entende, conhecem profundamente de maneira que se arrogam a si o conhecimento enquanto raiz, e não a Deus, porque uma coisa é Deus fazer com que nós saibamos muitos de Seus mistérios, outra coisa é nós nos julgarmos conhecedores dos mistérios por nós próprios, estes são os que de maduro caem do pé e fermentam. Toda fruta que cai no chão alcooliza, entra num processo de fermentação e portanto acaba criando uma espécie de álcool, e o fermento e o álcool nos revelam o estado lucífero e satânico das coisas, são frutas que já não servem para alimento. E aí é claro, Deus em sua misericórdia faz com que sirvam de adubo para outros seres mais baixos do que nós, animais como insetos, os próprios fungos, não são propriamente animais, mas vidas em estágio muito inferior de desenvolvimento, muito primitivo. São elas próprias que acabam revelando esse estado de podridão daquela fruta, o que nos mostra que o estado de podridão também tem relação com nosso patamar de evolução e do amadurecimento geral de alguma forma, porque para aqueles seres aquilo serve enquanto alimento, aquilo que aos nossos olhos é podre, podre justamente porque está sendo alimento de outros seres muito inferiores – para eles aquilo não é podre, mas para nosso estágio de evolução e emancipação sim, porque é algo que foi justamente dominado por criaturas inferiores, e não criaturas que estão mais próximas de nós, que estão num contato mais aproximado de evolução.

Então, a medida em que vamos evoluindo e amadurecendo torna-se necessário novas leituras e novas compreensões do que antes já vimos, e passamos observar como que é imaturidade repetir ao longo dos anos certas sentenças e até mesmo palavras, enquanto descrições, enquanto possibilidades de vivência, como por exemplo algo que já citei e torno a citar, porque é um exemplo que a mim é muito caro e belo, e me serve de estudo e aprofundamento, que é chamar Jeová de um Deus ciumento. Isso, eu já cheguei a citar o Max Heindel, da Fraternidade Rosacruz, que deveria ter evitado passar para frente esse tipo de pensamento, mas não é dele que isso provém. A Bíblia em si mesma traz essa possibilidade de tradução, há Bíblias que trazem em Êxodo 20:5, a afirmação: eu sou um Deus ciumento.

Quando a gente para para observar de modo mais científico o ciúme, se usamos a astrologia para observarmos ele em sua pulsação até sua manifestação, sua vibração em todos os níveis, ficamos sabendo que o ciúme está relacionado muito com Escorpião, um dos signos que tem uma grande fama de ser ciumento, e Touro também, porque se relaciona com posse, e é o eixo, Escorpião trabalha com Touro, que são, na verdade, uma única coisa, a gente vai separando para melhor compreender e aprofundar para depois novamente unificar as coisas e ter uma capacidade de unificação mais verdadeira. Ou seja, a pessoa que não é capaz de lidar com a separatividade, a pessoa que não é capaz de separar as coisas para análise ela igualmente não tem capacidade de unificar as coisas, ela pode de maneira infantil ter discursos de unificação geral das coisas, de que existe o uno, o universo, somos todos um só, enfim, ter falas falaciosas a esse respeito, de uma aparência de grande beleza, porque essa unificação universal provém de Peixes, onde Vênus se exalta, onde o Amor ao próximo é levado à humanidade inteira após passar por Aquário, que é aquele que acabou de servir a humanidade inteira e pode dissolver e se ver parte não só como quem trabalha, mas também como quem faz parte desse todo, se reconhecendo nessa hierarquia celeste, enquanto um irmão – porque Aquário é a casa do amigo, mas antes servo, até porque é o eixo junto de Leão, o rei que serve ao povo, para depois se reconhecer como irmão, se revelar a hierarquia irmã que somos enquanto humanidade.

Então esse discurso de unificação de tudo é de aparência bonita por isso, porque remete a uma possibilidade de Vênus em Peixes, mas sem Vênus estar exaltado verdadeiramente sendo apenas uma euforia de Vênus em Peixes – porque as pessoas confundem, acham que só porque o planeta está num signo de exaltação ele exerce exaltação na vida da pessoa, mas não, toda ação, mesmo de um planeta, é marciana, principalmente de suas forças – que são os planetas, então a atuação sempre será um princípio ariano, e isso se relaciona com Lúcifer num primeiro momento, Marte, que precisa se submeter ao Cordeiro para se tornar o lar de exaltação do Sol… Então, isso significa que pessoas que têm planetas em suposta exaltação, mas não levam uma vida verdadeiramente exaltada interiormente junto às hierarquias e junto a Deus, que é a Fonte, fará com que o planeta terá uma atuação marciana eufórica no signo, cria a aparência de exaltação, a aparência de uma Vênus em Peixes, parece que a pessoa ama todo mundo, parece que ela está integrada à humanidade, parece que ela sente algo muito grande… parece… mas se formos observar a vida da pessoa em termos de obra e de fé, falta muito arroz com feijão, falta muita devoção, muita limpeza e purificação, falta muito discernimento, falta muito trabalho e muita oração para aquela força chegar realmente a se tornar um fogo que cria e não que puramente queima.

Então as pessoas que não são capazes de separação, de divisão, de separatividade, não são capazes de unificação. Por isso que Saturno é tido como um planeta temível e ao mesmo tempo um professor, lembrando que Mestre só Cristo! Sendo que, na verdade, nem professor ele é, mas apenas aquele que aplica a prova, porque aprendemos com o Mestre, mas ele, Saturno, Satanás, é quem nos testa através de provas – é o que entra em Judas e traz a cruz, sendo que sabemos que estamos num mundo que é saturnino e marciano, satânico e lucífero, então quando estamos e somos do mundo nós estamos na esfera obrigatoriamente de Saturno, Satanás, e Marte, Lúcifer, – da estruturação e do fazer reativo perante o mundo, o mundo me dá algo e eu reajo, e nisso estruturo inconscientemente o mundo. Então nossa atuação no mundo é em grande parte satânica e lucífera e, portanto, inconsciente, porque o inferno, a doença, o mal é a inconsciência do processo, o mal é sempre a ignorância, a negação, a cegueira (sejam elas no grau que for, porque é como, enquanto criatura, evitar que a Luz do Sol verdadeiro chegue em algum lugar, criando uma sombra – a sombra não provém do Sol, mas ao crescermos o próprio processo, a própria formação de nuvens, o próprio crescimento torto – para todos os lados – vai gerando sombras, sendo por isso necessário aprender a ter das podas, bem como fazer com que o galho, mesmo gerando sombra, dê frutos, para que o processo seja de fato justo, pois o mal não é a sombra, o mal não é a inconsciência em si existir, o mal em si existir enquanto efeito, mas passarmos a viver para ele. Quando se vive para a sombra, se deixa de viver para o Sol, e portanto se deixa de produzir frutos obrigatoriamente, porque sombra não alimenta. E os seres que decaíram, como nós e uns anjos específicos, caímos porque passamos a viver para essa sombra, e é preciso não lutar contra a sombra em si, mas contra os seres que nos levam a acreditar que viver para a sombra é a vida verdadeira e sairmos dessa cegueira, dessa ignorância, e vivermos para o Sol que está o tempo todo onipresente sobre nossas cabeças).

O fato de existir sombra e de vivermos para ela e isso ser o verdadeiro significado de se levar uma vida lucífera e satânica causa desespero em muita gente, mas se vemos de maneira mais madura, e não de maneira podre ou imatura, mas ideal para que isso se torne alimento, conseguimos observar que isso é um passo necessário por ser a maneira como nós enquanto seres inconscientes, novos, enquanto seres incapazes, obscuros, naturalmente inimigos de Deus (porque naturalmente geramos sombras enquanto efeito), como uma criança que é naturalmente inimiga de seu pai e sua mãe, bem como irmãos, porque ela naturalmente traz problemas, naturalmente não compreende, naturalmente vai contra a natureza de um adulto, a maturidade de um adulto, aqui falando da criança em aparência, como que isso tudo, como eu ia dizendo, é necessário para crescermos. Aliás, por isso que a criança, como diz Santo Agostinho, é naturalmente má, ela vai sentir ódio e raiva do irmão sem compreender aquilo profundamente, então ela está entregue às forças mais baixas dos planetas, por ex., e dos signos, das hierarquias… Ela passa a acreditar nas criaturas de sombra e demoníacas.

É uma parte do processo, mas se deve vencer isso. É claro que na nossa sociedade, esse próprio culto que a gente tem da jovialidade falsa, porque juventude vem de Júpiter, Júpiter é uma sombra de Jesus, mas a juventude que se prega em aparência, do eternamente jovem na aparência, aí conseguimos ver o quanto é uma deformação, o quanto é uma problemática e isso é o mal em si mesmo porque é ficar querendo ser criança para sempre, inconsciente e ignorante para sempre e não assumir para si as responsabilidades. Porque quando a gente começa a assumir para si as responsabilidades, que é a adolescências e adultice, a gente começa a ter que lutar contra essas sombras e vencê-las preferencialmente, se possível, aquelas que Deus permite que nós vençamos pelo menos.

Um detalhe: o processo de manifestação da sombra e de inconsciência é um passo necessário, por isso feliz queda, porque de alguma forma ela traz a possibilidade de voltarmos para Deus conscientes, mas isso não é desculpa para culpar Deus pela queda de Lúcifer ou do Homem, e nem culpar Lúcifer pela queda do Homem, porque só cai quem quer, é uma escolha do livre-arbítrio, e não porque o divino criou seres maléficos, assombrados e assombrosos, nem que Lúcifer seja bonzinho por nos ter levado a cair. O que acontece é que ele catalisou o processo, assim como o fogo catalisa o processo de digestão do alimento e graças a isso demos um dos maiores, se não o maior salto evolutivo enquanto humanidade junto da manifestação da linguagem. São os dois maiores saltos, até onde eu saiba, a aquisição da linguagem, o desenvolvimento da linguagem e o cozimento dos alimentos através do fogo, o descobrimento do fogo, sendo que uma é uma ferramenta lucífera e a outra, jeovística, e foram os maiores saltos que a humanidade deu em termos evolutivos. Mas isso não significa que era o momento certo para essa catalisação acontecer, Lúcifer desobedeceu Deus, é um fato, ainda que o que ele tenha feito seja algo que estivesse dentro dos planos sagrados. A coisa toda é bem complicada, especialmente da forma como se deu, porque não foi de maneira altruísta como colocam muitas vezes de que Lúcifer queria ajudar a humanidade a evoluir, “foi um sacrifício que ele fez”, não, ele de fato queria nos fazer e ainda quer nos fazer crer que ele é o centro no lugar de nosso verdadeiro Rei. É preciso ter muito discernimento.

O fogo externo não é o fogo gerador, criador, assim como Lúcifer não é rei, e se quiser voltar à presença divina é sem seu trono, como também já comentei em outras Poesias, ele já perdeu seu posto, mas continua nos fazendo acreditar que ele tenha alguma importância no processo. Só que não. É só mais um na multidão, por assim dizer. Contudo, para se chegar a esse ponto, é preciso antes lidar com a realidade da ilusão da separatividade. Ou seja, é preciso encará-lo de frente enquanto nosso tentador. Para isso é preciso compreender também que, assim como devemos nos tornar Cristo Jesus, nós já nos tornamos Lúcifer e Satã ao cairmos, por isso vivemos nas sombras e vivemos de sombras… e por isso também é tudo um pouco assustador: nós os somos porque já nos tornamos nosso pior inimigo.

Então, voltando aos signos, Escorpião, numa criança, vai tender (pode ser que haja crianças que sejam exceções, mas para a maioria terá a tendência de) nascer sob um ciúme violento contra o irmão. Porque mesmo a criança que se toma como mãe do irmão, porque a psicologia revela muitas possibilidades de lidarmos com o nascimento de um novo irmão na família e há a possibilidade de lidarmos de maneira positiva, considerada mais afortunada, mesmo assim, isso revela de alguma forma tem um princípio de um fogo que queima e a criança maneja isso para algum lugar, e óbvio isso terá relação até com a graça de Deus a até com elementos de vidas anteriores etc., então para onde o fogo queima é também para onde ela tem seu carvão e sua madeira direcionados através também dos trabalhos em vidas anteriores, bem como de trabalhos nessa vida, com ajuda das hierarquias ao prepararem a vida dessa pessoa e darem determinada tendência a ela através de seu ambiente, do seu mapa, enfim, todos os elementos externos e internos que a ela lhe são dados. São vários fatores que levam uma criança a reagir duma forma, mas de toda maneira o processo se dá do mesmo modo, que é através desse primitivo, desse ter que lidar com o que é meu e o que é nosso, Touro o que é meu e Escorpião o que é nosso, ou deveria ser nosso – sendo que Escorpião, no caso de vibrar sua má possessividade, será pior que Touro, é em Escorpião que o maior egoísmo acontece, porque em Touro aquilo de fato de alguma forma (muito entre aspas) “me pertence”, mas em Escorpião deveria ser de todos, mas nos fechamos em nós mesmos, é o pior tipo de apego…

Nisso conseguimos observar que quando se tem uma tradução de que Deus é ciumento, ou Ele próprio, coloquemos na aparência e na literalidade, usa dessa palavra para que ouçamos e compreendamos, isso não revela sobre Deus, mas sobre o homem ter dificuldade em compreender as coisas, porque isso revela que a maneira como interpretamos e forma como as coisas nos são dadas, nesse patamar do caminho pelo menos, dizem muito mais a respeito de nós mesmo do que sobre Deus, revela muito mais se conseguimos ou não enxergar Deus, do que sobre Deus Ele mesmo. Deus se torna o nosso espelho.

O Antigo Testamento é uma pérola, ele é como os degraus específicos de uma escada, e o Novo Testamento é como os lances da escada, assim como os Arcanos Menores são os degraus da escada e os Maiores são os lances da escada, sendo a escada em sua totalidade a Bíblia toda, assim como os Arcanos, a imutabilidade em si mesma, não importando a ordem dos fatores. É como o caos ordenado, aos nossos olhos parece desordem, mas é a maior ordem que há, porque é a revelação da imutabilidade do divino.

Só que há um porém quanto à nossa evolução, que é: nós descemos toda a escada e chegamos ao “fim”, entre aspas, da escada em termos de último degrau, chegamos no nadir da materialidade, como costumam dizem, no ápice do fundo de onde devemos chegar, e aí é começar a volta, é quando voltamos, fazemos o caminho inverso, por isso é recomendável que se leia a bíblia do Apocalipse até Gênesis, numa retrospecção, não só revisitando o passado, mas inclusive sendo isso possível apenas pelo Leão de Judá, nosso amado Mestre, sendo ele quem acorda Lázaro, quem acorda todos nós enquanto espíritos de nosso profundo sono e mortificação perante Deus, sendo através do nosso Mestre, de Cristo, que nós fazemos a retrospecção inovando o que nos foi dado. Por isso é preciso Cristo se casar com Maria, irmã de Lázaro – o casamento almístico, das almas-gêmeas divinas!

Então a retrospecção não é um exercício passivo, várias vezes eu repito: conheçam o exercício de retrospecção que o Max Heindel deixou pela Fraternidade Rosacruz, é importantíssimo compreender que é um exercício, talvez o mais importante, de ser feito, fora o exercício da vida em si mesma – o próprio viver e deixar viver, senão não há matéria para fazer retrospecção, óbvio, mas ele é um dos exercícios mais importantes a ser feito na nossa vida terrena, sendo ele feito aliás o tempo inteiro, não só à noite, mas especialmente à noite. Ainda que, como dizem, seja insuportável fazer análise e ter consciência o tempo todo, todo mundo acha que é legal desligar o cérebro alguma hora… sendo que a retrospecção não é o que gera consciência ainda, lembremos: consciência depende do Mestre.

A retrospecção dá ciência sobre os acontecimentos, consciência é na sincronicidade do acontecimento e não na retrospecção deles, então, em verdade, nós ainda não suportamos ter ciência o tempo todo, que dirá consciência, apesar de vivermos numa era materialista e científica na qual colocamos nossa fé toda nela, mas isso mostra como nossa fé materialista é vulgar, fingida, rasa, pura aparência, porque se fosse real nós não teríamos problema em ter ciência o tempo todo das coisas, nós iriamos buscar entendimento das coisas, mas fugimos disso, nós temos opinião para tudo hoje em dia, ciência, não, muita teoria, ciência, não. Ciência se baseia na média, na maioria, no mediano, no medíocre para o estabelecimento das coisas, sendo que nós não gostamos sequer de nos imaginarmos fazendo parte dessa média, que dirá usar ela para realmente evoluir ao pensar em algo, ao estabelecer algo para a massa. Por isso a humildade é a verdadeira virtude para tornar a ciência possível, porque é preciso se ver fazendo parte do coletivo. Lembrando que ser o coletivo (ser Cristo) não é o mesmo que pertencer ao coletivo (ser Jesus). Por isso é preciso tornar-se Cristo Jesus, ser e estar.

Nós não pensamos na maioria ao fazermos as coisas realmente, ao decidirmos as coisas realmente, isso é falso, é uma falsa sensação de maioria – usar do grupo para me decidir a respeito de algo. Ninguém está afim de literalmente morrer numa guerra em prol de uma causa, menos ainda em aparência. Ninguém. E quem quer, das duas uma: ou é homem bomba (que todos sabem ser uma absurda ignorância) ou quer morrer por uma causa só para ser tido como o mártir, o líder, o Foda. A maioria das pessoas quer baderna, quer destruir o mundo sem arcar com as consequências, quer fazer revolução via internet ou quer fama e reconhecimento dentro do grupo ao qual pertença.

Então é possível observar que a retrospecção revela a qualidade não só aparente, mas interpretativa das experiências. E aí ela altera a tradução que a gente faz do dia a dia, como eu falava da tradução das palavras na Bíblia, a retrospecção altera a tradução que a gente faz dos nossos acontecimentos, da nossa literatura da vida, ela vai nos revelando que certas transcrições e certas acomodações, certas escolhas, palavras que escolhemos, ou ainda termos, quando estamos mortos ou sonolentos, não são tão apropriados assim e que já podem ser alterados para nossa evolução pessoal e coletiva, para que nós tenhamos mais amadurecimento, para que possamos mostrar que uma nova luz chega, um novo raio já incidiu sobre a Terra, já incidiu sobre nós enquanto hierarquia celeste.

Só que isso não é feito de qualquer jeito, por isso precisa do Leão de Judá e requer muita humildade, por isso que a retrospecção primeiro é feita quase que vazia de sentido, de um real sentido, de real aprofundamento, mas é necessário que assim seja no começo também caso seja genuína nossa vontade de que em algum momento Cristo nos ajude, porque não adianta estar a esmo sem fazer nada porque ‘ uma hora Cristo chega, uma hora Ele me chama, aí quando Cristo quiser Ele me chama e eu começo a fazer a retrospecção direito’ – se formos esperar a hora perfeita pra fazer as coisas essa hora não vai chegar nunca, nós que precisamos começar a obrar, ainda que com uma fé totalmente em pecado, totalmente cega, de quem não sabe o que faz, mas tem que tentar de alguma forma, porque se não nos mostramos dispostos para o trabalho, o empregador não nos contrata, assim também é no reino celeste, se não nos dispomos a fazer como humanidade nosso dever básico, não o que dá na telha, na cabeça de fazer, não é achismo, mas o básico – como as Leis mosaicas, Cristo não vai trazer nosso dever pessoal, individual junto ao Paráclito, se a gente não cumpre o básico, como as Leis mosaicas. Então se deve fazer a retrospecção como for possível, sempre buscando sinceramente melhorar dentro de nós essa técnica.

Com a mão do Leão de Judá, com Cristo, Deus, o exercício de retrospecção passa a ser realmente um exercício de ressignificação das coisas que já estavam supostamente dadas. E uma maneira de observar isso em termos estruturais é como as coisas vão sendo realinhadas na matéria também, porque por mais que esse mundo, enquanto estamos dormindo e mortos, seja de Lúcifer e Satanás, quando vamos acordando, a matéria se torna reflexo do alto – assim como em cima, embaixo, e por isso as coisas se dão de maneira reta, e por isso Deus encarnou na Terra e a Bíblia é verdadeira, porque mesmo a tradução dela é de acordo com a nossa maturidade.

Então conseguimos observar como que uma tradução que traz ‘eu sou um Deus zeloso’ em vez de ‘eu sou um Deus ciumento’ é uma tradução mais madura, mais evoluída. Quem quer permanecer fiel aos tempos passados vai traduzir como ciumento, claro, quem quer fazer o trabalho de ver a sombra das hierarquias e ter o exercício da misericórdia de fazer espelho para nós nos vejamos, e Deus ter características humanas para que nós tomemos consciência, então vai olhar para isso como ciúme. Claro que isso é pertinente mesmo num estado maduro, porque uma pessoa madura com Escorpião proeminente no mapa sabe que a qualquer momento o risco de queda é sempre alto, aliás, quanto mais se sobe maior o risco de queda, então não é negar que Escorpião é o berço de que aquilo pelo qual ele zela, em termos de vício e virtude, é o ciúme e o zelo, saber disso também é questão de maturidade, mas depende de como se usa. A imaturidade se relaciona muito com usar de um adjetivo simplesmente para se desqualificar, por exemplo, uma das manifestações de Deus, para se rebaixar ou tratar como algo menor, como quem diz: eu não sou jeovístico, eu sou crístico, porque Jeová é ciumento… igrejinha, eu? Religião de raça? Eu? Imagina! Eu sou indivíduo, eu sou, não é mesmo? Sendo que isso é orgulho e vaidade num grau inimaginável.

E não digo que o Max Heindel tenha tido esse tipo de grau de baixeza em relação à trindade, mas a maneira como se traz as coisas para esse mundo corroboram para esse tipo de pensamento e fala. Porque somos responsável pela maneira como isso se propaga, e se ela se torna propícia para que se saia tendo um determinado discurso de rebaixamento do próximo, inclusive, e não só de Deus, passando a ter nojo e ranço de religiosos, ou Filhos da Água, Irmãos da Água, o nome que se dê, claro que é preciso tomar cuidado, porque me torno responsável por isso também, ainda que em muita medida isso se dê de forma inconsciente. Então por que que isso se dá? Por exemplo… um dos motivos é a maneira como lidamos com nosso pai biológico, de sangue, gera maior ou menor dificuldade de compreender Jeová enquanto figura em si mesmo. Eu não irei me relacionar bem com Jeová, por ex., se não fui capaz de chegar no mais alto grau de relação com meu pai de sangue, que representa, por um tempo, Jeová em minha vida de maneira aparente. Por isso a maioria da humanidade está ainda perdida em termos jeovísticos e isso precisa ser retomado, não há como evitá-lo, Jeová terá que ser vivido de maneira ciente – e por isso a ciência é jeovística, e por isso que mesmo a raça dourada, cientistas ocultos etc. são jeovísticos, obviamente havendo graus dentro dessa vivência… e por isso também vemos a sua deformação e, portanto, a propagação de tanto ódio dentro e fora das igrejas, das famílias, dos coletivos, seja vindo deles seja contra eles, porque o ponto central está na figura do pai dentro de casa, tudo começa dentro de casa, sendo preciso ter um pai dentro de uma família estruturada, e não significa ser uma família perfeita, e menos ainda condescendente, mas de pais ativos, presentes para seus filhos, atuando como a imagem do líder que impõe regras, leis, sendo o que zela pelo bem-estar dos filhos e lhes ensina os sacrifícios que devem ser feitos e os proíbe das ações que não condizem ainda com cada maturidade, com cada idade, em suma, com o tempo cronológico de cada um. E espiritual também, se é um pai desperto.

Assim como Jeová não passará a trabalhar, em nós, junto a Cristo, enquanto Maria não tiver também seu lugar. Ou seja, enquanto as mães não passarem a ser reflexo da Virgem Maria, sim, em toda a sua extensão e literalidade. Enquanto as mães forem prostitutas se torna radicalmente difícil nascer Cristo em nós – é um fato, e com isso não me refiro apenas ao ato de sexualmente se prostituir, mas às prostituições dos apetites, dos desejos, dos pensamentos… e não só da carne. Claro que para Deus nada é impossível e que quem faz o caminho torto também chegará em algum momento, mas aqui falo especificamente aos que buscam e querem um caminho reto, consciente cada vez mais. Os apegados às suas cegueiras, a achar que tudo bem ser prostituta, literal e metaforicamente, que tudo bem os pais abandonarem seus filhos, tudo bem criar filhos de qualquer jeito, esses continuarão nas mãos de Satanás e Lúcifer. É inevitável. E é uma escolha que eles fazem, pois muitos são chamados, mas poucos realmente se dispõem ao trabalho árduo, e por isso poucos são escolhidos. Por isso também é preciso fazer os exercícios, independente de conseguir ser perfeito ou não, porque não é sobre Eu conseguir fazer algo, Eu poder fazer do meu jeito e dar certo, mas sim sobre ter humildade de, fazendo sem nada esperar, vagar pelo deserto até que o Mestre venha nos encontrar quando o Pai assim designar. Se for a vontade do Pai, sendo sempre zeloso em fazer a vontade Dele no tempo Dele.

Sem chegar no mais alto grau de relacionamento com a família, com o clã pessoal, sanguíneo, de nada adianta ter um processo lucífero excelente, ter bom ferro etc., de se emancipar e abandonar pai e mãe. A escada é subida e descida várias vezes, espiral dentro de espiral, todo processo se dá em graus, então, ok, é preciso abandonar pai e mãe ao vermos que não somos eles, como adolescentes, mas é preciso honrá-los e, portanto, se unir ao pai e à mãe para conseguir então abandonar em verdade, não como quem não se reconhece neles, como quem tem ranço, raiva, repulsão deles, mas como quem é grato por ser composto por eles também, e conviver sim, mas ampliando para sua família além do sangue, e aliás, se possível, levando a própria família de sangue em comunhão com a família espiritual divina (porque temos uma família espiritual específica).

É a história de unir fogo e água, que a priori está representado na Lua e no Marte, Jeová e Lúcifer, que vai passando para patamares mais sublimes a posteriori. Quem abandona a família indo embora só com Marte, só com Lúcifer, só com fogo, está indo embora só com a ferramenta de trabalho externa a si, porque não foi capaz de levar o próprio corpo, que é a água, por isso a Igreja é o corpo de Cristo. E devemos nos atentar em discernir o que é o fogo creador, o fogo do calor divino, deste fogo enquanto ferramenta de que falo. São fogos distintos, ou melhor, um é fogo como a chama, o outro é invisível, o fogo secreto que não pode ser humanamente concebido. Sendo que ir embora de maneira rebelde e impulsiva pode ser uma ferramenta, como dito, mas é apenas isso, sendo necessário o abandono como Áries Cordeiro, Sol exaltado, que simplesmente sabe que sua família horizontal deve ser colocada em lugar de honra mas não sendo dela a primazia, porque é espiritual a nossa família verdadeira.

Tudo isso revela a importância crucial em se evoluir, em se amadurecer para aprender a discernir todas as coisas que nos são apresentadas pela vida aqui na Terra, e mesmo após a Morte, porque esse discernimento e separação do joio e do trigo não é um processo só daqui do plano denso. Até porque todos temos nossas camadas ainda sem terem sido iluminadas, bem como outras que são tão iluminadas que podem parecer obscuras a quem nos lê, nos ouve, sendo necessário igualmente filtrá-las. Então filtrem, inclusive, o que eu mesma falo, porque, sendo todos nós uma árvore, temos também nossos frutos maduros, imaturos (verdes) e podres, é quase que inevitável, ao menos nesta etapa do trabalho. Não se atinge a perfeição, perfeito é Deus, e mesmo que se fale que Deus não é perfeito porque há Deus acima de Deus, e há o Absoluto então nosso Deus também é imperfeito, e se abre uma fresta pra chamar Deus de autista, de retardado, ainda assim não temos capacidade de compreender o que seja a não absolutez do nosso Deus (porque tem pessoas que estão numa inconsciência tão grave que a pessoa não tem a mínima capacidade de raciocínio e compreensão de que ainda que nosso Deus não seja perfeito, no extremo do que chamamos perfeição – sendo só o Absoluto perfeito, por exemplo, ainda assim, nós não temos a menor capacidade de compreensão do que é a imperfeição do nosso Deus, então todos os xingamentos, qualificações e adjetivações que usamos para qualificar Deus revelam apenas o quanto quem diz aquilo está falando de si mesmo e não de Deus, mas apenas de si, o que é crucial para vermos como que a voz é realmente reflexo da alma, como disse Pitágoras, e que as palavras revelam o grau da nossa doença ou saúde, e não o grau do divino enquanto revelação por quem fala, ainda que isso exista e seja raro, porque é algo silencioso e está muito mais nos detalhes, nas pausas, nos respiros, e em como a pessoa expira para nos inspirar… ou seja, quem não nos inspira está a morrer e a nos matar).

Então assim como um cachorro, um gato, uma formiga, uma barata, uma árvore, uma parede não têm a capacidade de dizer quais são os meus defeitos enquanto “senhor deles”, dona, mais evoluída que eles, o que seja, eu igualmente não tenho capacidade de expressar de forma adequada o que significaria Deus ter defeitos, por isso a loucura divina é sabedoria, e a sabedoria do homem é loucura, e essa loucura sim é retardada, autista – no sentido de realmente estar desconectada com o todo, completamente num estado esquizofrênico, doentio. Porque uma pessoa que acha que sabe dos defeitos de Deus é uma pessoa altamente doente.

Agora é claro, Deus qualifica a si mesmo para que nós possamos nos ver, é diferente. Então Deus, ele em si mesmo dizer-se ciumento e nós termos a maturidade de observarmos uma posterior leitura e tradução de que uma melhor qualificação seria Deus zeloso, e que tanto ciúme quanto zelo tem a mesma origem em termos de ciência, fazendo sentido ser tanto zelo quanto ciúmes, aí sim conseguimos ver que isso é para que nós tenhamos a capacidade de observar algo. Então é por misericórdia que se faz isso, é por misericórdia que se fragmenta as coisas, que se dá a separatividade das coisas, para que então possamos ir unificando dentro da nossa capacidade de vivência e de evolução. Tem a eternidade para isso (uma eternidade sem fim)? Toda religião fala que tem que correr atrás, tem que trabalhar, porque não vai cair no colo, e não tem uma eternidade sem fim para deixar para depois e procrastinar para sempre, até porque o inferno também é eterno (eu já falei um pouco sobre isso na Poesia da Literalidade)… mas tem a eternidade celeste para quem trabalha, para quem está afim de fazer, e se a pessoa só é capaz de dar um passo por vez, de amadurecer um passo por vez porque ela equivale à tartaruga ou à lesma, ótimo, são animais espetaculares, que serão respeitados em seus tempos; é diferente de uma pessoa que está dentro da preguiça, porque a tartaruga não é preguiçosa, é apenas o ritmo que Deus lhe deu, é completamente diferente, mas a preguiça é eu me recusar a ir no tempo que me foi dado por Deus, e que eu aliás escolhi junto a Ele. E a vaidade é, além de me recusar, eu impor um ritmo a mim mesmo tirado de mim, como uma tartaruga que fica gritando consigo para ir rápido, mas inevitavelmente é lenta: ela deixa de estar presente, e apenas produz demônios ao se forçar, induzindo algo maléfico a ela mesma. Ela não consegue ter uma vivência santa, uma vivência reta, plena de si mesma, porque a vivência santa é a vivência reta – não de ir pra celibato, igreja, mosteiro – santo é quem vive no ritmo dado por Deus no tempo e espaço pertinentes pra agora, para a evolução de agora. Qualquer pessoa que esteja dentro do tempo e espaço que lhe foi dado por Deus é santa, que é o abandono à providência divina, nos deixado pelo Padre Caussade, por exemplo.

Por isso a sombra dos santos cura, porque um santo, mesmo quando erra, mesmo sua sombra, seu lado lucífero e satânico, por assim dizer, é reto, porque são erros e obscuridades que lhe pertencem genuinamente. Então um Jó vai ensinar, a tentação, a sombra de Jó, a impaciência e toda a ruminação dele se tornam um ensinamento para nós. A negação de Pedro se torna ensinamento para nós. Então quer dizer, a sombra de uma pessoa santa se torna uma pedra de fundamento, e Satanás, Saturno, Capricórnio, nada mais é do que pedra, nós sabemos, e aí se torna pedra de fundamento, se torna o que me move enquanto direcionamento, enquanto joelhos, aquilo que se torna minha articulação enquanto melhoria de mim mesma, porque daí tenho uma sincera observação de minha sombra, porque pode ser que eu leve três vezes um tombo, negando Cristo, para acordar para o que estou fazendo, e usar isso como um direcionamento – assumindo que é preciso endireitar as veredas, parar de desviar tanto do reto, porque Satã se relaciona com oposição e também com desvio em hebraico, parando de me opor e de me desviar tanto, ainda que seja inevitável (pois a retidão perfeita, só Cristo Jesus, graças a Deus, por isso Ele é Deus e Mestre, único Mestre).

Por isso a sombra dos santos cura, e por isso Saturno, Satanás, vai ser também um aplicador de provas – isso não é comparar ao bem e colocar em grau de Mestre, Mestre só o Cristo – SÓ! Mas a maestria de Cristo Jesus não é a anulação da necessidade dos outros seres, pelo contrário, é a exaltação de todas as existências, porque Ele inova e ressignifica todas as coisas.

Vejam, as existências em si não são a sombra, Lúcifer e Satanás em si, em essência, não são o mal, porque o mal é um efeito, um efeito real enquanto estamos vivendo esta vida, mas efeito apenas, e eles são criaturas que vivem para esse efeito, e não para a causa, por isso não existem dois caminhos, por isso a dualidade ela é um aprendizado momentâneo, crucial para se passar para outro nível, crucial para amadurecermos, ela faz parte do amadurecimento, sim, mas não sendo a bifurcação uma realidade verdadeira, não há caminho negro ou de esquerda, o único caminho é Cristo, o caminho do meio, por isso nenhuma criatura em si é o mal, porque o mal em si não é um deus ou uma criatura em si mesmo, mas há criaturas que escolhem sim viver para a sombra e não para o Sol, contudo, a própria sombra é consequência possível por existir o Sol, sem o Sol não há sombra, pois a sombra não é autônoma como a gente tende a pensar, como se o Sol apagando restasse só escuridão, não, nem a própria escuridão restaria, porque o Sol não surge por haver a necessidade de se extinguir a sombra, mas o contrário, a sombra se faz temporariamente presente para que o Sol se torne conhecido por todos, pra que o busquemos! A busca é necessária! A Cabalá nos ensina tudo isso muito bem. E os seres que vivem para a escuridão cometem um equívoco grande, porque é a escolha pela ignorância: ignorar e até mesmo negar que o Sol é o único e verdadeiro Senhor. Mas para quem amadurece e quer dar frutos, lidar com a sombra será um teste, porque todo galho onde se produz vida a sombra lhe será, temporariamente, inerente. Claro que podemos falar sobre quando nasce o segundo Sol, o Sol da meia-noite que faz com que toda sombra seja dissipada, porque aí haverá um sol de meio-dia e um de meia-noite, mas antes disso é preciso passar pelo fato de que a sombra precisará ser encarada como uma realidade, mesmo que saibamos ser uma ilusão em termos macros. Naquele momento ela é real! E precisa ser tratada como tal. Faz parte do processo de madurez. E falarei mais sobre isso na Poesia do Contraste.

Mas basicamente é por isso que o retorno de Saturno tem a fama de: se você aprendeu e fez as lições que te eram destinadas, quando ele vier para dar a prova, para te provar, você vai tirar de letra – por assim dizer. Não quer dizer que vá ser fácil, obviamente passar pelo que Jó passou não é fácil, assim como passar pela dor de afundar ao caminhar nas águas não é fácil, bem como difícil se dar conta de que se nega a Cristo, e mais difícil ainda ter Satanás trazendo sua cruz tal qual Cristo Jesus. Mas se eu não for capaz de me formar no fundamental e no ginásio, eu não vou pro mestrado, não vou para o Mestre, é meio que isso. Quer dizer, ginásio e fundamental é Lúcifer, Saturno é pra quem já está na graduação… ainda que todas essas coisas, eis o paradoxo, aconteçam ao mesmo tempo, cada uma em seu grau de possibilidade, uma alterando a outra, consequentemente, porque não deixamos de passar pelo retorno de Saturno, mas alteram-se as configurações, então as pessoas mais imaturas estarão imersas muito mais num processo lucífero, então mesmo apanhando de Saturno, isso vai se manifestar muito mais na Lua e Marte baixos, ou seja, pode se refletir, por exemplo, em situações de grande imobilidade externa mas tremenda ansiedade interna, com ações contra si mesmo ou contra os outros, por exemplo depressão acompanhada de mutilação ou mesmo de suicídio, e não a depressão que apenas definha, é diferente, são características diferentes de expressão, bem como extrema carência, fome de algo que não se sabe explicar, sem conseguir ter controle apropriado da mente, podendo Saturno usar de sombras do passado, da memória (Lua) para imobilizar. Só a título de exemplo e diferenciação, se fosse alguém aparentemente mais maduro, que já tem mais domínio da Lua e de Marte e está passando por Saturno, mas cai na arrogância de achar que tem tudo controlado, tem certeza de que vai tirar 10 na prova porque estudou pra caramba (ou seja, tem um Marte exaltado e organizado), bom, então Marte, Lúcifer, atuará com arrogância na presença de Saturno (isso se mostra especialmente em mapa com Marte próximo ao meio do céu, juntos ou em aspectos específicos com Saturno ou com Marte em Capricórnio, supostamente exaltado), sendo refletido como vaidade, orgulho, prepotência, e a Lua descalibrada será usada pra criar memórias falsas e para gerar más interpretações das coisas que acontecem, então quanto mais a pessoa achar que sabe e que está certa no seu ponto de vista, mais Saturno irá restringir sua vida, ainda que não restrinja suas ações em si por Marte estar predominante, mas Saturno pode restringir os recursos da casa e signo onde se encontrar, por exemplo – e de nada adianta ter mãos para obrar e não ter matéria-prima. Marte poderá dominá-la também pela ira, caso a matéria se apresente. Mas sabemos que o orgulho em si já é o maior pecado, o resto é só ladeira abaixo. Claro que a Lua, nesses dois exemplos, está sendo usada de maneira muito baixa, deformada, destituída de sua beleza, de sua reflexão apropriada, é o que chamamos de lado obscuro da Lua que está sendo ativado, por assim dizer, ele não reflete e nos faz imponderados, entregues aos instintos femininos, especialmente, e inconscientes. O que é uma lástima, por isso se diz que os anjos choram quando não sabemos trabalhar com eles, sendo que toda Lua é lar angélico, e deveríamos buscar aprender a verdadeiramente e humildemente destiná-la a uma relação digna e até mesmo exaltada.

Por isso a retrospecção ajuda, ela nos mostra quando estamos repetindo de série, quando estamos no fundamental há tempo demais, quando estamos no ginásio há tempo demais, e pior, quando estamos matando aula, quando não sabemos nem onde estamos, mornos, tanto faz como tanto fez… eu tenho dificuldade de compreender como as pessoas podem simplesmente não se importar com a vida espiritual. E não entro nem em mérito de certo e errado, se aquela religião vai atrasar ou não, só vá atrás de algo espiritual, porque senão não anda nada, então ande para trás, vai buscar algo que regrida ou evolua, tanto faz, mas ande, porque antes isso do que não fazer nada, do que se conformar com um ateísmo morno, ou ficar esperando cair do céu, não se esforçar, não buscar um significado para as coisas: ah, é só isso mesmo, acabou. Como se conformar com isso?! É assim e acabou… Como fazer do nada uma forma?! É o absurdo do absurdo! Essa é a Besta em sua falsa glória, fazer-se crer um ser com autonomia de existência e possibilidade de vivência.

Uma coisa é o Nada com n maiúsculo enquanto inapreensibilidade da grandeza e obscurecimento da Luz por sua onipresença, onipotência, onisciência. O Aïn Sof, o Aïn da Cabalá. Isso nós chamamos de Nada porque é um Tudo incompreensível, que está para além da concepção de tudo o que conseguimos abarcar enquanto totalidade. É a absolutez inalcançável para nosso estado, ao menos. Mas o nada bestial, o nada do vazio, o nada caótico da anarquia, o nada com n minúsculo, ele não tem forma, é justo a negação da forma, mas a pessoa que o afirma não vê que é a própria absurdez o que ela afirma, e que sequer tem lógica racional – apesar do ateísmo, por ex., ser pautado justo na racionalidade da matéria. Mas falsa né, porque basta pensar um pouco, um pouquinho, pra entender racionalmente que o nada não tem forma, então que o nada jamais poderia produzir, ou seja, ser o Ser ou a Causa de uma Forma, ainda que esta forma seja ilusória e temporária, não importa. É só da forma fixa e imutável de Deus que provém as outras. O nada não pode ser base, não tem como ser base para a criação de qualquer materialidade que seja. Então é preciso que o cerne de tudo seja o Tudo, Deus. O nada é efeito, é consequência, é necessidade temporária de contraste. E claro, muitos chamam Deus de um grande Nada também, como citado, mas é diferente, porque o Nada aqui representa o inapreensível, e, portanto, nada que se possa definir intelectualmente, como dito. Nisso Deus é o Nada, justo porque é Deus. Ele é o Nada por comportar todas as possibilidades, toda a potencialidade, sendo Ele a própria Potência e, portanto, Senhor de todas as formas e de tudo o que se manifesta, seja como efeito seja como causa.

O próprio movimento histórico materialista é a prova de que algo está acontecendo, que tem algo maior acontecendo todo o tempo, todas as coisas estando conectadas, os eventos históricos não são jogos de dados (como quiseram colocar alguns falsos profetas/poetas – que Deus joga dados), aos nossos olhos pode ser casualidade, mas quando vemos o primeiro homem da caverna que fez o primeiro risco na parede, e hoje fazermos riscos num papel e nos comunicarmos minimamente, e haver internet e expressarmos desejos, preocupações, medos, alegrias, gozos, euforias, tudo – de demônios a anjos sendo expressados, ainda que não haja palavras para descrever de fato o inferno e o céu, ainda assim, tantas obras magníficas, na Arte especialmente, e coloco na Arte tanto obras de santos, assim como teorias científicas, que são Arte quando nos fazem evoluir, quando são inegavelmente boas e belas; sendo a própria história materialista a prova cabal inegável de que tudo tem significado, efeito e causa, e que basta pensar que: o homem rupestre é como uma criança que rabisca a parede, e a gente fica pau da vida, mas ao mesmo tempo entende que isso é um primeiro indício de que mais tarde esse ser estará se comunicando, se expressando mais plenamente… ou seja, é um efeito que tem como causa um final específico, ou um devir específico…

O erro da fé materialista é pensar sempre: chegou, é aqui que dava pra chegar, e chegou. Porque a pessoa é tão empoderada, acha que ela é a raiz de todo o poder, que ela é o suprassumo do poder e o estado em que se encontra, o ápice da expressão da evolução, que ela acha que o agora é o máximo que pode haver, não tem amanhã, não tem nada depois de mim, depois desse estado de coisas e de organização, aí coloca todo mundo uniformizado igualzinho, com mesmo salário, mesmas casinhas, mesma forma de família (porque nisso ninguém pensa, ninguém no Brasil, ao menos, assume que comunismo não aceita família gay, isso é deformação dos princípios comunistas. É que o comunismo político virou revolução cultural e nisso houve uma reformulação deformadora das bases para ele continuar existindo, mas ninguém assume isso). Então quer dizer, o estado uniformiza e padroniza o seu estilo de vida, não só seu dinheiro mas também a sua cultura, e pronto, é o máximo que dá pra fazer, eis o céu… só pode ser brincadeira, né?! Isso não faz sentido em lugar nenhum do mundo, não faz sentido racional, porque é acreditar que se chega numa evolução humana final, ou no controle da evolução humana material, sendo que os homens da caverna jamais teriam sido capazes de controlar as consequências de um risco na parede, assim como é risível que o ser humano de hoje ache que ele é capaz de controlar a consequência coletiva de um novo feito humano no campo material. Acreditar nisso é risível, para dizer o mínimo.

A própria história materialista é a afirmação das diferenças no decorrer do tempo no espaço, e não a estabilização da igualdade, nunca foi, nunca será, o marxismo é a própria deformação de sua ferramenta, e por isso muita gente que se acha marxista nem sabe do que fala, marxismo em si não existe, porque ele é a manutenção do que seria a igualdade celestial feita pelo homem, com a primazia nas mãos do homem – que é magia negra, em suma, que já foi falado na Poesia anterior: milagre tem a primazia de Deus, magia negra a primazia está na mão do homem; mas o que há hoje é uma bestialidade que se reveste por este nome, é diferente, porque esta besta, através das diferenças, quer impor o relativismo absoluto, o caos anárquico, ou seja, é como se se acabasse inclusive com a magia, e só fica o negra, é só a escuridão que fica, porque a primazia já não é sequer do homem, mas da besta que ele se torna, já não mais podendo ser chamado de homem, mas estando entregue aos demônios. É como querer beber álcool como se fosse água, ou pior, beber um copo vazio afirmando que a transparência do nada que “há” ali é igual a transparência da água e do álcool.

A matéria, por mais que ela seja deformada e deturpada aos nossos olhos em aparência, ela é inegavelmente o reflexo do alto, então inegavelmente ela é a evolução, ainda que através de uma involução espiritual, indo para o zenit da materialidade que equivale ao nadir da espiritualidade, ou seja, o ponto mais alto da materialidade é equivalente ao ponto mais baixo da espiritualidade. Então antes beber álcool do que beber o nada.

Para um bom entendedor, ainda assim, a involução espiritual no micro é evolução espiritual no macro, mas claro, não dá para aceitar os erros de agora – de uma regressão e involução proposital – e ficar falando: tá fazendo merda, mas está evoluindo, faz parte fazer merda – involuir é necessário, mas ficar de maneira astuta e sabidamente repetitiva, isso que não dá: usar da necessidade de involução para justificar a nossa permanência numa regressão e não passar a evoluir, a melhorar o estado das coisas desde o espiritual a partir da hora em que somos chamados para isso, para que assim seja – pois cada um terá seu tempo de chamada, mas todos devemos continuar caminhando sem parar, pois muitos são chamados, poucos são escolhidos, isso é o que devemos buscar, e não aquilo – não a negação das coisas todas. Então isso não é um movimento geral, mas individual, contudo é preciso correr atrás, como nos exorta São Paulo: Cristo, que é Deus, caminha, mas nós, que somos homens: corramos!!! porque estamos muito atrás, e porque por mais que façamos, não fazemos nada, todo o nosso trabalho é pó, porque tudo o que fazemos só nos mostra que somos servos inúteis quando finalizamos algo… assim como no Oriente se constrói mandalas e as destrói depois, é o mesmo princípio, servo inútil porque o nosso trabalho não é fixo, só a fé o deveria ser, em termos de que o trabalho muda, a ciência muda, mas a fé é a mesma do começo ao fim… agora, a diferença entre o Oriente e o Ocidente é que no Oriente Deus destruirá tudo, porque a figura equivalente ao Pai é um destruidor, sendo essa é uma visão Saturnina de Aquário, que vem destruir o que Capricórnio construiu, vem novamente fazer da pedra sobre pedra pó, assim como também no Oriente essa visão se liga ao Nodo Norte da Lua (conhecido também como Cabeça do Dragão que tem seu domicílio em Aquário junto a Saturno na astrologia védica), sendo que no Ocidente o Pai não destrói, mas Urano aparece em seu trono Real, e o Nodo Norte ganha outra dimensão, deixa de ser karma ou dharma futuro para se tornar missão (de sofrimento E de júbilo, ambos andando juntos), missão essa para a glória do Pai, e Ele inova tudo através do Filho, para que nada seja perdido. Como em outros momentos já disse e repito: Tudo se crea para que nada se perca, eternamente se inova.

Então em termo coletivo só o Pai sabe quando essa evolução se tornará observável, por enquanto ela é apenas vislumbrada individualmente, e de maneira que a maioria é cega, então não adianta apontar, é preciso ter fé para conhecer o fato de que o bem, se não em termos de quantidade, em termos de qualidade, supera e muito o mal, a ignorância, por isso continuamos evoluindo como um todo. E por isso os campos estão brancos o tempo todo, prontos para a colheita, porque em cada grau de maturidade se tem um tipo de colheita, e o tempo todo a maioria está amadurecendo e tem o que colher, e por isso também é perigoso ficar disseminando crença de que ‘somos bostas, somos todos uma merda, estamos no fundo do poço’, aí começa a propagar ideias de que nos suicidaremos, de que nasceremos deformados, começa a incutir medo como se o medo nos fizesse caminhar, quando o que ele faz é gerar paralisia, e quando dá algum passo é para trás, como pessoas que disseminam o fim do mundo pra ontem e junto a isso ideias de suicídio coletivo. O medo, derivado de Saturno, nos testa, é diferente de crer que ele nos faz caminhar. É claro que devemos falar de nossas sombras, não é oprimir nem reprimir, porque isso é tão ruim quanto, mas fazer marketing delas ou colocá-las de maneira a gerar pânico, ou mesmo eufórica como colocamos, como os jornais fazem, e mesmo pessoas que se dizem espirituais, mas que são claramente perturbadas, que claramente abrem a boca e só cospem pedras, só vomitam coisas pobres, só disseminam ideias mortas… fazer essas coisas como a mídia e algumas pessoas individualmente fazem, especialmente usando da espiritualidade alheia para vampirizar e hipnotizar, é um estado de ignorância que prefiro nem comentar. É um grau grave de doença.

Meus queridos, meus amigos, tudo e todos que fazem terror psicológico e emocional contigo, tome cuidado, porque uma coisa é se preocupar, ter um senso crítico de que a sociedade não está indo por um bom caminho e tentar endireitar, tentar apontar a Luz para, quem sabe, individualmente escolhermos o melhor e assim, aos poucos, a sociedade mudar. Mas aquele ou aquilo que te deixa em estado de alerta, de tensão, de ansiedade ou depressão, quem te dá banho quente ou banho frio, te escaldando e arrancando tua pele para usar como prêmio, seja o prêmio em forma de likes, em forma de audiência, em forma de alunos, em forma de clientes, em forma seguidores, em forma de discípulos, em forma de pacientes, seja na forma que for, te deixando inclusive dependente daquele meio ou daquele humano, porque sem ele você não sabe nada, porque as explicações dele são as mais fodas, porque é o único jornal, a única pessoa que diz a verdade doa a quem doer, e esse tipo de coisa, sem que você aprenda em nenhum momento a se tornar um ser independente de fato, que sabe ver as coisas e interpretar por si próprio, cuidado! Porque esses são realmente perigosos, aqueles que nos mantêm dormindo mesmo quando aparentam saber muito, mas no fundo nada sabem e não possuem nenhuma informação de fato profunda e relevante, só uma coisa e outra, porque a maior parte é podre. São criaturas que te querem imaturo, que não anseiam pela maturidade alheia, porque eles próprios são podres e não querem que saibamos disso, mas, ao contrário, quer que nos tornemos como eles. Então é preciso estar atento. E por isso é importantíssimo desenvolver o discernimento e sempre caminhar para que nos tornemos capazes de ver o espiritual e a matéria por nós mesmos. Não adianta repetir o que um autor fala ou faz, de nada adianta ouvir o que eu aqui digo se isso não ganha alguma aplicabilidade na vida de fato, se não te faz refletir, se não te faz alguém melhor em atos, em vontade. Então é preciso estar atento, e por isso é importantíssimo desenvolver o discernimento e sempre caminhar para que nos tornemos capazes de ver o espiritual e a matéria por nós mesmos, repetindo. Vejam com seus próprios olhos, peçam por isso, roguem por isso. Busquem meios e pessoas que incentivem tua emancipação, teu amadurecimento, para que amanheça, para que haja uma manhã dentro de ti mesmo, pessoas que busquem uma relação de independência, que não precisem de você e nem você delas, mas que por verdadeira escolha permaneçam uma ao lado da outra, seja como família, como amigos, como casal, como professor e aluno, médico e paciente, o que seja, porque só assim se chega de fato ao Amor: Escolhendo! Como falei na Poesia do Amor.

Por que Deus nos fez? Ele precisava de nós? Não. Ele dependia de nós? Não.
E por que nos escolher então, por que escolher nos fazer, nos crear?

Por Amor.

E essa não é uma resposta intelectualizada como quem busca uma resposta em si, pois quando eu digo Amor eu também não sei do que falo, porque nós não temos dimensão do que seja o Amor divino de fato. Ele só É, e a gente ainda não tem capacidade de apreensão do que significa só Ser. E não compreendemos uma escolha que é escolha pura, cuja essência é a doação, sem jamais esperar nada em troca. Por isso Deus não é um Deus de premiação e punição, como muitos colocam. Isso somos nós, criaturas, que fazemos uns com os outros. Deus não premia nem pune ninguém, Ele só escolhe se doar independentemente do que aconteça. Por isso se diz: dê os frutos para os Outros conforme a necessidade, mas não olhe para julgar quem come ou não dele, ou o que fazem com ele, apenas doe o que foi semeado, tendo o cuidado para não jogar pérolas aos porcos, sim, para não dar pães inteiros aos cachorros, quiçá as migalhas, mas doando o que lhes for de necessidade, sabendo que há muitos cuja necessidade é inclusive receber um ‘não’ como resposta, inclusive. Porque Amar e se Doar não é dizer sim a tudo o tempo todo. Sem meu não, o meu sim é nada.

É difícil ter discernimento? Muito difícil. Mas há que buscá-lo.

E há uma queda de diferença entre o fruto que está maduro, o fruto que ainda está verde e o fruto que está no chão, apodrecendo. Porque se eu sou imaturo e estou na árvore, e não tenho capacidade de movimentação e de real conexão com a árvore num todo, conexão com meus irmãos, não vou conseguir observar que a qualidade dos frutos que estão na árvore é muito superior do que os que são vistos no chão. E se torna fácil ficar gritando que é tudo podre, que a árvore inclusive está louca, ‘ela é a culpada, ela está podre, morta, porque olha os frutos que ela produziu, olha que merda tudo apodrecendo no chão, cheio de fungo, se tornando álcool, fermentando’ etc..

Só que o problema não está na árvore, mas sim na pessoa cega. Então normalmente ou é uma pessoa imatura e fala tudo isso na inocência – sendo que normalmente, normalmente, quando ela faz marketing do ‘a gente é uma merda’ ela meio que se desespera, há um quê de preocupação real, só que ainda é imatura então ela vai propagar a merda, não vê que essa ansiedade dela é de um Áries infantil, por isso Áries é tida como a criança dos signos, ela está a mercê dum Marte infantilizado. Ou se propaga que a gente é uma merda porque se é um fruto podre, que caiu da árvore e só consegue ver o que está ao redor, no chão também, ou pior ainda se for alguém que caiu, vê a árvore e xinga por inveja, por querer que os outros frutos, que estão maduros, não sejam colhidos, não alimentem o resto, por querer que os frutos pereçam… e conseguir discernir essa ignorância até seu grau máximo da maldade em si requer muita paz e tranquilidade, porque o fruto maduro sabe que não adianta se desesperar com nada, nem com quem está no chão propagando maldades, porque se o fruto maduro se mexer muito por se alterar com aquilo, ele também cai.

Então um fruto maduro não deve permitir que o bando de fruto podre que grita que a árvore e seus frutos são uma merda o afete enquanto tormento, porque o outro está fazendo o papel de merda, então ele se identificou com a merda e se tornou merda, ou seja, adubo, e por astúcia e maldade reflete sua identidade no resto, ainda que em última análise qualquer um que escolha isso não saiba o que está fazendo, então seja apenas ignorância num grau extremo.

É preciso muita tranquilidade para não se deixar levar e acabar caindo também. E mesmo muita tranquilidade para não se achar imaturo e deixar de alimentar quando convém, não se permitir ser colhido na hora certa, porque fica achando que colheita é queda, porque colheita também se relaciona com Saturno, é a foice de Saturno que colhe a fruta na hora certa, especialmente em Libra – que é sua exaltação, sobre a qual já falei em outras Poesias.

Então, uma das formas dessa colheita vem, aproximadamente, de 30 em 30 anos para ver os que atingiram uma maturidade do espiritual junto à matéria, seja no grau em que se estiver, para que os frutos maduros, ou a maturidade da pessoa seja colhida e se torne alimento para os outros. Não é que Saturno, Satanás alimente os outros – quem alimenta é o Espírito Santo, o Filho e o Pai, Deus em sua trindade, a Árvore da Vida, mas aquele que colhe neste mundo tem a sua função: que é colher apenas. Então o ceifador é necessário, ainda, ao menos, mas é completamente diferente de uma pessoa que fica crendo que Saturno é só o que passa a foice arrancando todos os frutos, fazendo-os cair da árvore. E abismalmente diferente daqueles que tomam para si esse cargo, porque é preciso que o Filho do Homem seja sacrificado, mas ai daquele que for o responsável!

Então começamos a observar que a maldade faz uso duma ferramenta satânica, assim como uso de ferramentas lucíferas, mas essas figuras em essência têm sua função, portanto são parte da hierarquia, porque tudo é trabalho, como já falei na Poesia passada; a eternidade, seja no inferno, seja no céu, é trabalho e oração, e quem quer trabalhar para o mal também ora, pois orar é conversar com as hierarquias dentro da verticalidade, seja para cima seja para baixo. Por isso, se a gente caiu e pode tornar a elevar-se, anjos caídos também podem tornar a elevar-se. É claro que há quem discorde, há Filhos da Água que negarão essa possibilidade, e há autores maravilhosos que não abrem qualquer redenção aos que caem. Mas acredito que seja preciso ver que a misericórdia divina abarca o abismo e, ainda que seja improvável, é possível que um anjo caído se arrependa e retorne ao cimo. Eu, ao menos, acredito verdadeiramente nisso.

Existem princípios e funções que são criadas para serem executadas a partir de um determinado tipo de existência, já que caíram, porque ninguém fica de pernas pro ar – por assim dizer. Então o mal se torna escravo do bem, mas é preciso ver que, obviamente, o rei da sombra sofre dos 7 pecados capitais, sendo preguiçoso e orgulhoso, querendo ser servido pelos que anseiam por sua majestade. O que prova que é estupidez nossa querer servi-lo, claro. Os do mal nos fazem escravos, porque repetem e reproduzem a sua própria condição inevitável, não porque Deus os force a algo, mas porque é como a gravidade, o trabalho é algo inescapável, é uma força divina maior do que querer ou não, não requer que a física mande alguém cair para que a gravidade se dê, assim como Deus não precisa obrigar ninguém a trabalhar para que o trabalho se dê.

Agora é claro, assim como na gravidade nós podemos caminhar, nós podemos cair e nós podemos morrer de um tombo, de uma queda muito alta, enfim, e assim como podemos criar naves e voar, máquinas que voam, o trabalho também tem diversas fórmulas pelas quais ele pode acontecer, uma delas é pela obrigatoriedade compulsória, a escravidão, no caso.

E ser ceifado na hora certa é diferente da frutinha que cai e fica gritando que tudo é merda. É muito diferente. Por isso não adianta culpar Satanás ou Lúcifer, só se cai porque se permite tal queda! A responsabilidade é de cada um, não adianta querer culpar o inferno, o inferno é feito pelas nossas escolhas pessoais em escolher o tormento que leva à queda, à dúvida que leva a ficar balançando prum lado e pro outro, entre lados opostos, entre respostas diversas, num relativismo absoluto que não cabe ao homem, porque ele deve ser firme em Deus. Mas é claro, o rigor excessivo, da dura cerviz, também leva à queda, leva ao satânico empedramento do fio que nos conecta à árvore e pelo qual ela nos alimenta. Então é preciso ter do movimento, mas do movimento se relaciona ao Espírito Santo, por isso é preciso que o Fogo seja contristado pela Água, é inevitável. E, aliás, é profundamente belo! Por isso é possível usar do Fogo para catalisar o processo, é possível usar da ferramenta lucífera para cozinhar o alimento espiritual e evoluir mais rápido do que seria apenas comendo alimentos crus, inconsciente do movimento de queima dentro. Mas só é possível seu verdadeiro uso em submissão ao Espírito Santo, ou seja, passando por missões menores, sub-missões, para somente no designo de Deus receber uma missão realmente.

A queda de Lúcifer foi ansiar por uma missão que não era sua, crer que podia almejar a missão principal, ou mesmo crer que seu Fogo poderia substituir a Água eternamente, sendo que seu Fogo sequer é seu, mas lhe foi dado e pode ser tirado, assim como já lhe foi tirado, porque Cristo Jesus o venceu na Cruz. Sendo que pelo alimento cru começamos e a ele retornaremos, aparente e literalmente, porque isso aumenta nossa consciência do fogo interno. E por isso creio piamente em meu coração que seja possível a redenção dos anjos que caíram, contudo não é possível voltarem sendo senhores desse Fogo, por isso já comentei também em outra Poesia que um lucífero pode voltar, mas tendo seu posto destituído, perde sua importância, não há mais trono onde se sentar nem reino a governar caso queira voltar de fato à presença do Altíssimo. Talvez seja algo improvável de se ver acontecer, mas sim possível.

Tudo isso para dizer que: só com uma profunda compreensão de toda a separatividade, ou seja, sempre lançando novos raios acerca desse assunto e sobre este assunto, sobre toda a ceifa, todo o trabalho, é que se chega à compreensão das exaltações, da maturidade que observa um sol nascente, do coletivo espiritual exaltado, inclusive observável nos planetas – sendo um planeta em queda ou exaltado diferente do que costumamos analisar e dizer astrologicamente por aí, com possibilidades mais refinadas de se olhar para isso –, o planeta em queda faz um trabalho de tomada de consciência junto da separatividade, enquanto o exaltado é o trabalho de tomada de consciência junto da unidade. A Queda só existe em contraste com a Exaltação, ainda que a Exaltação tenha uma existência em si mesma, mas, neste período em que estamos, só seja observada e apreendida se em contraste com a queda em si mesma.

Mas um planeta em queda pode ser algo magnífico em termos de se conhecer enquanto indivíduo, mas se mal vivido, atentemos à gravidade, vira disforia, vira vulgaridade, promiscuidade, esquizofrenia… eu citei a Vênus em Peixes anteriormente e sua falsa exaltação, agora observemos sua queda: uma Vênus em Virgem estará trabalhando a vulgaridade dela mesma na tendência a estar entregue às aparências preconceituosas, mas se compreendermos o propósito essencial do porquê dela necessitar passar pela queda veremos que é para aprender algo sobre a separatividade. Não é para se apegar à separatividade, tendência da Vênus em Virgem será de apego às aparências materiais, à discriminação, ao próprio separar e analisar tudo, mas em usar disso enquanto ferramenta catalisadora de sua emancipação. Por exemplo, conseguir observar o seu grau de evolução. Então uma Vênus que saiba olhar para o próximo, ver sua doença e amá-lo, sem ficar esperando ou exigindo que se seja perfeito e se seja saudável, essa pessoa pode ajudar muito na cura, pode descobrir em si uma capacidade de curar maravilhosa. É um grande desafio? Sim, claro, mas é uma possibilidade, possibilidade da pessoa que vê o mundo doente e em vez de discriminar esse mundo, se prontifica a amá-lo para que seja curado, para isso ela tem que estar curado, então o saber-se saudável ou mais saudável do que os com quem eu lido não é mais para discriminar e preconceituosamente não se misturar ou fazer exigências absurdas ao próximo, mas sim para que eu me sabendo saudável, curado no ponto específico em que os outros que se me apresentam estão doentes, aí posso ajudá-los, ou então, outra possibilidade, eu descobrir e saber que o meu feminino está doente e o mundo vai ser um espelho disso, eu vou achar que os outros que estão doentes, mas na verdade é um espelho, eu vou ter nesta vida a possibilidade de me curar disso, de curar o meu feminino, de sabê-lo doente, adoentado, e poder ir atrás de uma cura.

Assim como o domicílio e exílio: um planeta domiciliado serve à unificação de si, porque a exaltação é unificação de Si no Todo, e o domicílio é a unificação de si em Si, dum eu menor com o Eu maior. Então pode ser algo maravilhoso o exílio, que é separar-se de si e se observar, desde que a pessoa consiga se observar, usar isso a seu favor enquanto ferramenta de melhora de si mesmo, pode ser a chave que falta cair para que a pessoa esteja plena de fato em si mesma, e não precisa que uma pessoa com Vênus em Virgem, Escorpião ou Áries espere uma próxima vida para vir com Vênus em Peixes, Touro ou Libra para daí viver a unificação, não, se nessa vida a pessoa aprende a se observar – é claro que cada exílio, em Escorpião e em Áries terá uma lição diferente –, mas, basicamente, ela pode viver nessa vida a libertação dessa Vênus em termos de uma força que aprende apenas naquele signo.

Isso não é forjar um novo mapa, pois é viver seu mapa no máximo dos graus possíveis que ele te ensina, que aí sim você poderá viver os mapas que estão prometidos em vidas futuras, as lições de vidas futuras. Não é que se forja um novo mapa, as próprias hierarquias darão novas lições de maneiras sublimadas, então não se terá um mapa em que Vênus estará em aparência em outro signo, mas se poderá viver isso de maneira manifestada para quem tem olhos de ver acima da matéria da carne. Assim como a única forma de, de fato, se forjar um mapa é uma única ocasião: para curar os enfermos. Somente este caso permite que usemos de uma força que não temos e acessemos uma determinada configuração específica para um determinado evento. Só. O resto do que se diz de ‘forjar um mapa’ é magia negra, pois mesmo o curar a si mesmo se dá pelo crescimento das sementes que as hierarquias nos deram e nós, junto delas, aceitamos e escolhemos.

O mapa é para trabalharmos nossas sombras e vigiarmos nossa claridade, trabalhar para que as sombras se dissipem, vigiar para que, tal qual uma casa, nossa claridade não seja perdida, obscurecida, invadida, usurpada, roubada. Para isso que serve a ciência, para ajudar a vigiar, porque se sei que tenho uma tendência, então estarei atento a isso para que isso não me tome de assalto, não fique obsedado por criaturas em busca disso, nem possuído por ideias que comunguem com isso. Vou me purificar, me limpar, ainda que podendo ser uma tentação que me acompanhe a vida inteira, e sabendo que haverá momentos de vivenciar isso, mas de maneira verdadeira.

Fazer merda de verdade é dificílimo, porque requer grau de santificação, que é quando a sombra cura os enfermos, quando até meu erro se torna ensinamento para os outros que estão piores. Assim como há fezes que servem de esterco, sendo específico de vaca, galinha, cavalo, minhoca… tem fezes que é só cocô, não é esterco, não passa pelo processo de secagem ao sol, porque mesmo as fezes que se tornam adubo não é de qualquer jeito, tem um tratamento… a diferença é que o santo faz esse tratamento, é alguém mais cientes, mais desperto, sendo o médico que cura a si mesmo, porque todo médico deveria ser santo. Todo médico de verdade é santo, médicos em aparência são falsos médicos, não são santos. Assim como curar a si mesmo não se bastando, mas sendo exemplo de quem se entrega verdadeiramente à providência divina e à missão nessa vida, seja a missão curar os enfermos através de remédios, seja curar os enfermos através da imposição das mãos etc.. o principal é seguir o Mestre e, portanto, estar no Caminho.

Lembrando que não é a profissão aparente que diz respeito à santificação, seja médico seja padre, não significa que sejam santos, mas quem está na santificação busca maneiras aparentes, literais, simbólicas e arquetípicas de curar a humanidade. Ambos curam, cada um na sua via, mas ambos buscam o mesmo princípio, ainda que nem todos os que buscam profissões relacionadas à saúde do povo estejam de fato em Cristo. Que é o problema da aparência, que já tratei na Poesia da Literalidade: aparência não pode determinar a literalidade, o simbólico e o arquetípico.

É claro que a graça de curar nossos irmãos é vinda do alto e só e possível a recebermos se buscamos nos purificar de alguma forma, não quer dizer que logremos essa purificação, mas tendo o genuíno anseio, genuína vontade e desejo de nos purificarmos, porque isso não ocorre por si mesmo, os vícios não nos deixam porque nós queremos ou os vencemos, mas porque Deus os afasta de nós, Ele que nos faz fortes, nós devemos ter a vontade e o desejo verdadeiros de que isso aconteça, do contrário até é possível que algo mude, porque para Deus tudo é possível, mas é improvável.

Amadurecer é querer, ansiar, desejar, ter vontade de que uma Luz seja lançada sobre nossa sombra, que nossa imaturidade verde e inconsciente se torne colorida, cheia de vida, de ciência, e depois cheia de consciência, de abundância para a colheita – colheita que se relaciona também com coletivo, sendo quando nossa individualidade se torna capacitada para de fato se unir à coletividade, que é o caso de passar do domicílio dos planetas às suas exaltações, como comentado, tendo sido tratado sobre Colheita e Coletivo na Poesia passada.

Então a Poesia do Amadurecimento, do verbo Amadurecer, talvez seja isso: quando vamos observando as coisas através de uma nova Luz, um novo raio que surge a cada vez, nessa aurora que desponta, nesse Sol que surge triunfante, e aí, num determinado momento vai ser útil e conveniente observar Deus como um espelho para nossos ciúmes e, inclusive, impotências, e outras vezes será útil e conveniente observá-lO como um ser zeloso e potente. A real maturidade talvez não esteja no que eu vejo de fato, se ciumento ou zeloso no fim das contas, mas em como eu uso os adjetivos enquanto ferramentas para que a humanidade se veja e, um dia, sem adjetivos, possa ver Deus face a face.

Então quando formos criticar ou elogiar, usar adjetivos para qualificar alguma coisa ou alguém na nossa vida, lembremos: aquilo fala muito mais sobre nós do que sobre o que qualificamos em si mesmo. E se queremos crescer, amadurecer em relação ao que nos vai sendo dado e ao que já temos, que encontremos formas mais criativas e poéticas de se lidar com essas qualificações. Não usando para desqualificar, numa disforia ou numa euforia, em vez de uma exaltação e uma queda que verdadeiramente nos ensinam. E ensinam mais sobre nós enquanto humanidade, do que sobre Deus em si mesmo. E, paradoxalmente, quanto mais aprendemos sobre a humanidade, mais aprendemos sobre Deus em si mesmo. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o mundo. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás Deus um dia.

Eu tenho fé de que assim seja, porque sei, em mim, que é isso o que todas as hierarquias cantam o tempo inteiro para que nos lembremos: glória a Deus para que um dia à nossa verdadeira casa nós voltemos. Amadureçamos… Olhai, os campos estão brancos para a colheita.

Caminhemos…

Que Deus seja convosco!

a Poesia do Coletivo e a Poesia da Colheita

 

Qual é a Poesia do Coletivo e qual é a Poesia da Colheita?

Coletivo significa ‘colheita’, ‘colher junto’.

 

Uma colheita: imaginando um campo vasto, ele até pode ser colhido por uma pessoa, mas não faz sentido se a gente pode ter a ajuda de várias. Contudo, para se colher, para haver uma colheita, é preciso dividir o terreno – quem colhe cana, por exemplo, sabe que o trabalho é por metragem, é tendo divisões com medidas certas que se arranca, ou seja, não tem fórmula para o arrancar em si, mas há uma Forma para que seja feito por todos ao mesmo tempo, tendo cada um seu pedaço. Então esse coletivo é uma grande colheita, onde todos trabalham de alguma forma, cada um a seu tempo, cada um no que lhe compete enquanto missão.

Assim sendo, não é possível abrir mão da individualidade, porque é cada um trabalhando a sua metragem, sendo que o coletivo se baseia justo em seu oposto complementar: é preciso ser indivíduo e ter seu espaço privado para se colher junto, pois o ato de juntar está implícito também, o que demonstra que é preciso que cada um tenha o que apresentar enquanto resultado, enquanto frutos dessa colheita.

Então cada Ser, individualmente, é responsável por semear e colher em uma determinada parte. Se um não faz seu serviço direito, os outros serão, com o tempo, obviamente, sobrecarregados. Porque é preciso ter da colheita, ou seja, é preciso ter do coletivo, ninguém vive sozinho nesse mundo, por mais que a gente não tenha consciência do viver coletivo, portanto da colheita que está o tempo todo acontecendo – erguei os olhos e vede os campos, pois já estão brancos para a colheita… então o tempo todo a colheita está literalmente pronta para ser feita, ainda que não tenhamos consciência de como ela ocorra, não tenhamos olhos para ver ela acontecendo em termos de aparência, mas o tempo inteiro ela é feita. Claro que não de maneira ideal e perfeita, porque muitos não permitem que os outros colham, aliás matam aquele que vem cobrar satisfação sobre a colheita, ou matam aquele que está fazendo a colheita de maneira certa, cumprindo com sua missão, porque isso denuncia que os outros não estão, então claro que há toda uma problemática a respeito disso também, mas de toda forma, o tempo todo, isso já está se dando de toda maneira.

E mesmo que, sendo um espaço demarcado, outros não possam, digamos, colher no lugar de quem se recusa a fazer o trabalho, ainda assim, o terreno inteiro, das duas uma: ou tem um único dono, acima de todos, que estipulará quem colherá no lugar do folgado, ou é um terreno de todos, resultando na sobrecarga dos que já terminaram seus individuais trabalhos. É claro que na verdade sabemos que são ambos: há um Senhor do terreno, e nós, por Filhos, somos seus herdeiros, então ao mesmo tempo é de Um e é de Todos, então este Um, aos que não têm consciência, Ele estipula quem fará o trabalho, e os que vão herdando o reino podem começar a se candidatar, por assim dizer, pro sacrifício em prol daqueles que ainda não compreenderam sobre o que se trata.

Quando se fala de respeito para viver coletivamente, de fato, é importante respeitar-se.

Respeito vem de literalmente ter um segundo olhar sobre algo, etimologicamente falando. Logo, sim, ele é necessário para se viver em coletivo, inclusive para se ver uma segunda vez se o que o outro trouxe é trigo ou joio, ou mesmo para ver uma segunda vez “a cesta” do outro que, em um momento anterior, pode não ter trazido nada, voltando desta vez cheia. Nunca se sabe, o livre-arbítrio é dado. Então quem não trabalhou uma vez, de última hora pode fazer o trabalho e receber o mesmo salário. Então é preciso respeitar enquanto o tempo é dado. É preciso ter um segundo olhar, ter respeito, com aqueles que, num primeiro momento, se negam a lavrar, a semear, plantar, colher, enfim… ter das ações que fazem crescer de fato!

Contudo, respeito não inclui um terceiro olhar, é preciso se atentar que respeitar não inclui aceitar tudo por tempo indeterminado. Mas significa, sim, ser tolerante com quem faz algo diferente do esperado. Como dar uma segunda chance.

Viver em coletivo também significa que pode ser que o campo não seja dividido de maneira proporcional e igualitária, mas sim que a colheita, o Fruto, o alimento seja repartido entre todos, independentemente de quem colheu mais ou quem colheu menos. Até porque a divisão desse terreno, aos poucos que têm mesmo esse pouco será tirado, e aos que muito têm mais lhes será acrescentado, então quanto mais a gente ganha a capacidade e desenvolve também, por escolha do livre-arbítrio, a capacidade de trabalhar e gerar frutos, semear essa terra, ser o sal da terra e semear de fato, mais a gente tem a possibilidade de ser aquele que faz com que as coisas se multipliquem e chegue aos necessitados e como os apóstolos também, não mais apenas como discípulos mas apóstolos que se encarregam de saber distribuir as necessidades. Sabendo também, é claro, como comentado, que o alimento é repartido independente de quem colheu mais quem colheu menos, quem trabalhou mais quem trabalhou menos em termos de horário: o trabalhador da última hora recebe o mesmo da primeira hora, que está trabalhando de sol a sol o tempo inteiro. Assim como independente de gostos pessoais, por exemplo: eu gostar mais de abóbora ou gostar mais de milho – não importa, a divisão será de acordo com a união do que cada um tem para dar, não sendo possível gostar mais ou gostar menos do que o outro planta, mas sim tendo discernimento sobre o que se planta, sendo tanto a abóbora quanto o milho necessários para uma saúde plena; bem como quem gosta de plantar o que não serve para melhorar a saúde, como joio, como erva-daninha, não sendo conveniente, podendo ser cortado do coletivo também, com o tempo – claro que isso requer um agravamento espiritual muito grande para que se chegue a esse ponto, mas é porque a colheita é para que se possa comer, para que a gente possa se alimentar, e não se divertir, oba-oba ou plantar o que dá na telha – ‘vou fazer o que dá vontade aqui, vou vaidosamente ser epigenético, vou jogar fora meu mapa astrológico e vou fazer um mapa melhor do que o foi me dado pelas hierarquias que sabem mais do que eu, não é mesmo?’. Não é para isso.

É preciso ter muita humildade, muita humildade para entender que as sementes que nos são dadas são aquelas que devemos semear primeiro e que, quem semeia e colhe, não necessariamente se alimenta daquilo que colhe, porque o amadurecimento vem do latim ad-, que significa para, e maturare, que vem de estar pronto para a colheita, sendo que maturare se relaciona também com mane, com manhã, ao que é cedo, então nós colhemos quando a gente tem maturidade para isso, é a maturidade que vai pontuar a hora da colheita, os cabelos brancos, o campo branco que determina a colheita, e quem tem maturidade, quem muito semeia e muito colhe, sabe, a gente vai compreendendo aos poucos, que antes de matar e saciar a própria fome é para o outro que eu semeio, então tudo o que me é dado não é meu, é para que o Outro se conheça, para que o Outro volte para Deus. É claro que isso não pode ser feito de maneira imatura, se eu começo a colheita de maneira imatura, eu vou doar algo que não tenho, que está verde, não serve como alimento; então é preciso amadurecer, é preciso dar tempo ao tempo, é preciso conhecer-se: “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o mundo”, conhecer o mundo vem depois, mas neste processo a gente observa que, no fundo, o plantio é para o amadurecimento próprio, crescimento próprio porque eu cresço junto das sementes que planto, mas a colheita é para que eu me doe enquanto corpo, que é o princípio crístico. E quando eu me doo enquanto corpo eu percebo que todas aquelas sementes que me foram dadas não eram para mim de fato, eram para mim momentaneamente, enquanto meio, eu fui só um meio, mas Cristo é o fim e o começo, porque é a doação de Si que faz principiar e finalizar o processo, e não para si mesmo, esse eu pequeno.

É claro que Cristo vai falar dos 7 Eu Sou’s, então alguém pode dizer: se Cristo é o Eu Sou é para mim, só que não, porque este Eu Sou é o coletivo, não é o Eu Sou da individualidade enquanto uma espécie de solterice da humanidade, de eu me basto… É claro que não há como um raio do Sol achar que é sobre ele todo o fato de o Sol brilhar, arder e se doar e que era para ele se reconhecer enquanto raio e ter sua consciência de raio. O que é um raio? Nada. O verdadeiro Eu é o Sol, e não os raios que são emanados. Então por isso que todos devemos nos tornar Jesus Cristo, não só Cristo, mas Jesus Cristo, porque é preciso se tornar Centro e emanações do centro. O verdadeiro Eu Sou não é de um homem que recebeu um arcanjo e são os maiores iniciados do rolê todo, mas é o Centro que se sabe o Todo. Então toda a colheita não é para que eu me alimente, mas é para que tudo possa continuar sendo emanado eternamente. Então eu não vou plantar o que me dá na telha, eu não vou fazer um mapa astrológico que me dá na telha, porque é melhor, porque é legal, porque eu gosto ou porque vaidosamente convém para que eu me torne eu  mesmo, isso tudo é falso!

Mas se eu planto porque meu irmão precisa de abóbora, então vou plantar aqui uma semente de abóbora, e o outro precisa de milho, então plantarei milho, e o outro precisa de trigo, e eu plantarei trigo, e o outro precisa de um Saturno num determinado signo e numa determinada casa para que faça aspecto com o mapa dele e ele possa ser curado, eu vou me tornar aquele mapa que cura o mapa astrológico dele, e aí sim eu tenho autorização divina – claro que caso convenha curar quem se apresenta, o enfermo que se apresenta, porque curai os enfermos, mas obviamente não todos, mas aqueles que nos são dados e que querem ser curados, porque não depende só da vontade divina, mas também da vontade humana de cada um, enquanto individualidade, enquanto consciência separada, então, a partir daí com todos os elementos sincronizados, com a literalidade, o simbólico e o arquetípico na sincronicidade que faz com que a aparência manifeste aquilo de alguma forma aí sim eu posso forjar um mapa astrológico que cure o meu próximo. Essa é a única finalidade da alta magia ou que, em seu verdadeiro nome na verdade não é magia, mas milagre.

Porque por mais que se possa dizer que há uma forma científica e, portanto, dessa forma se deriva uma fórmula, que só se apresenta na sincronicidade para que seja verdadeira, ou seja, é uma aparência que só se dá na sincronicidade para ser verdadeira e não para ser a queda… mas por mais que eu possa colocar em uma fórmula por haver uma forma científica de fazer as coisas, e apresentar o milagre de forma científica e religiosa – porque esse é o verdadeiro milagre: a união da religião e da ciência, ainda que em nosso estado de consciência acabe predominando um ou outro, a balança acaba pesando mais prum lado do que pra outro, mas o milagre é sempre esses dois pesos da ciência junto da religiosidade, da espiritualidade, sendo que é a partir daí que consigo fazer com que uma cura se efetive. E a gente pode momentaneamente chamar de alta magia, falar sobre magias cerimoniais, magia branca, mas ainda assim esses não são nomes verdadeiramente apropriados, o verdadeiro nome de tudo isso é milagre porque a magia tende a ter a prerrogativa do homem como primazia, sendo que no milagre a prerrogativa é de Deus. O milagre não nega o lado científico do acontecimento, enquanto si mesmo, o milagre não deixa de ser milagre porque a gente consegue explicar cientificamente o que aconteceu, o milagre é caracterizado por acontecer porque é vontade de Deus, porque a primazia é de Deus.

Então toda a colheita passa a ser um milagre, o milagre da multiplicação porque é através de primazia de Deus nos mostrando o que devemos plantar, o que devemos colher, como devemos semear, aguardando o tempo – que é sempre do Pai, sempre estabelecido pelo Pai, ainda que a nós ele se apresente enquanto cronologia, enquanto algo crônico, ainda assim o tempo é sempre primazia do Pai –  a não ser que estejamos doentes, aí é uma outra conversa… Kronos, a etimologia de Kronos todo mundo liga ao cronológico, mas ao que já encontrei e me afirmaram e é possível encontrar é que na verdade o Kronos da mitologia se torna o guardião da Ilha dos Bem-Aventurados, não tem nada a ver com o Cronos cronológico; um é Kronos com K o outro é Cronos com C, e há uma grande diferença entre um K e um C, um se torna a doença e o outro se torna o senhor guardião da Ilha dos Bem-Aventurados. É importante encontrarmos essas preciosidades na mitologia, porque isso mostra que o tempo é uma primazia do Pai e o tempo bem aproveitado faz com que Kronos em sua originalidade seja aquele que toma conta da porta da Ilha dos Bem-Aventurados.

Então eu não planto o que eu quero, dá na telha ou o que eu gosto, mas o que o outro precisa que seja. Assim como eu passo a confiar que aquilo que eu preciso o Pai vai prover através de um outro irmão, através dos meios que o Pai vai estabelecer, e que se em algum momento eu precisar de melão e eu não tenho a menor ideia de onde encontrar melão é ter certeza, ter fé absoluta de que quando realmente houver necessidade deu comer melão vai surgir um melão, seja através de uma pessoa, seja caindo de algum lugar, seja porque vai brotar porque alguém passou mastigando melão e cuspiu a semente no chão, não importa, porque um passarinho cagou a semente do melão enquanto ele passava… vai surgir um melão quando eu tiver a divina necessidade de um melão e eu não preciso me preocupar com plantar melão porque pode ser que amanhã eu queria melão, ou precise de melão porque me falta tal vitamina que o melão dá.

Então o plantio, todo e qualquer plantio, seja das estrelas, seja da aparência dos alimentos de fato, seja do que for e em qualquer categoria que isso se dê, é a saúde que vai ter a primazia e vai ser o imperativo, não as opiniões e gostos pessoais imaturos e inconsequentes, completamente ignorantes. Assim, isto revela que, enquanto não se superar o próprio individualismo, e não é a individualidade, mas individualismo, egoísmo (o indivíduo doente em si mesmo, egoísta), não será possível haver coletivo.

E o ser humano está muito atrás nesse quesito, o que faz crer que qualquer tentativa de coletivo, por nós termos uma ideia romântica, idealizada, ou seja, na verdade não é uma ideia, é uma ideologia de coletivo (porque uma ideologia é sempre uma deformação das ideias), ou seja, por conta da ideia romântica, ideologizada que nós temos e, portanto, deformada do que é viver de fato essas palavras, toda tentativa de viver isso será ruim, pois como vemos, requer deixar de lado a passionalidade imatura de gostar ou não gostar de alguém ou de algum ato, de gostar ou não de alguma fruta, de algum legume: ah, eu não gosto de plantar árvore, eu quero plantar só trigo porque trigo é dourado, mas se você tem que plantar figueira, é figueira o que você tem que plantar! Por isso a ideia de livre-arbítrio é algo que a gente não sabe elaborar porque a gente tem o livre-arbítrio aqui de negar a Deus, mas a verdadeira liberdade não é arbitrária, ela não serve para você livremente arbitrariezar as coisas, relativizar as coisas e escolher lados, a gente tem que escolher lado porque aqui joio é joio e trigo é trigo, mas em termos de missões celestiais, espirituais, o que a gente tem que plantar já está dado, não tem o que escolher.

O que precisa é retornar a Deus para reconhecer o que nos foi dado, e só observar e ter discernimento quanto ao que simplesmente é necessário, doa a quem doer – e aliás, fazendo a dor parte do processo de colheita, pois só quem lavra, ara, semeia, rega, espera e colhe sabe o que é carregar o sol sobre a cabeça e ter do próprio suor pingando o sal na terra, literal, simbólica e arquetipicamente, e inclusive na aparência quando fazemos isso de fato sob o sol ardente, quando plantamos cana, colhemos cana e qualquer outra planta que não dê sombra; e mesmo as que dão sombra, porque colher algo na árvore é sim nos colocarmos ao sol, uma escada ao redor para colher aquele fruto. O processo de colheita não é algo agradável, é sacrificante, é estar sob as vistas do sol o tempo todo. O que na verdade é maravilhoso, a quem tem olhos e compreende que neste mundo, o que nos faz sofrer, é no mundo espiritual justamente o que nos provê toda a água para matar a nossa verdadeira sede. Então enquanto penamos sob o sol aqui, com sede e suando, estamos recebendo água da fonte nos meios celestiais, e isso vai ser exemplificado com o próprio sol sobre nossa cabeça, a onipotência, onisciência, onipresença de Deus sobre nós o tempo todo e nós sob o olhar de Deus o tempo inteiro. É lindo, é maravilhoso! Então é preciso ter muita maturidade, pois isso significa, acima de tudo, saber viver o Privado para só então não privar-se de compartilhar o que é solitariamente gerado.

É claro que o privado é algo ilusório? Sim, como falei, o crescimento da semente, o meio, é o que menos importa, o que importa é o fim e o começo, e o fim e o começo são coletivos, mas isso nada tem a ver com ideias deformadas, ideologizadas em viver isso em aparência na Terra, porque, como falei na Poesia anterior, aparência é diferente de literalidade. É claro que, a partir da hora em que se vive verdadeiramente uma coletividade celeste e espiritual, ela vai se confirmar na aparência de alguma maneira, mas não da maneira lógica como a gente pensa e como a gente espera, que vai ser o paraíso na Terra, não necessariamente, aliás pode ser, pode ser – não digo que seja, mas pode ser muito pelo contrário, que quanto mais sejamos coletivos espiritualmente maior o inferno se faça aqui na Terra, em termos de individualidade, em termos de viver o privado, de cada um cuidar da sua vida, talvez isso simbolize e leve a outras questões que nós não conseguimos enxergar como elas estão se dando. Mas claro que não pode usar da aparência para determinar o que ocorre no alto: ‘ah, somos todos egoístas, então quer dizer que no espiritual somos todos coletivistas…’ não, obviamente não é assim que as coisas se dão, mas sim uma coletividade espiritual pode significar uma pessoa que leva uma vida muito individualizada, muito privada, inclusive em isolamento, por exemplo. É porque quando falamos de coletivo e privado na nossa sociedade isso está atrelado a demônios muito grandes, a ideias bestiais do que isso significa, está deformado, então é claro que os extremos disso na aparência são bestialidades.

A besta não é só aqueles que querem um  processo individualista a qualquer custo, de privatização das coisas a qualquer custo, a besta é especialmente aqueles que querem o coletivismo enquanto meio, sendo que o coletivo é o fim e o começo para que o Eu se dê de fato, para que o Eu seja. Então é bem complicado… mas basicamente só se chega no coletivo, ou só se chega a Cristo Jesus, ao centro emanador, passando pelo privado. Por isso Deus encarnou, esteve em carne osso, cabelo, sangue, unhas aqui na Terra entre nós, porque é a perfeita maneira e a forma mais reta de se exemplificar isso – daquilo que é centro e emana tudo de si mesmo se fazer um único raio, mas em si não era um raio, era o próprio centro.

Nenhuma gravidez se dá em dois úteros, mas qualquer filho é criado para o mundo.

Então é claro que o fruto precisa do privado e da individualidade para acontecer, mas uma vez que tenha acontecido, aquela individualidade, aquela taça era apenas um meio, e não o fim e nem o começo.
É preciso ter o Si mesmo em primeiro lugar, não por egoísmo, mas por Espírito, Espírito Santo!, que encontra seu Centro independente do caos alheio.

Ainda vai demorar para colhermos, bom… eu digo isso, mas ao mesmo tempo é apenas uma limitação minha dizer isso porque, como já dito, eu não sei do tempo, do tempo só o Pai sabe, pode ser que amanhã aconteça o que eu digo que aqui ainda vai demorar. Mas sob a perspectiva humana parece que é sempre improvável que seja tão rápido, então dentro da nossa visão humana limitada, absolutamente falha e sem fé de que possa realmente ser num fechar e abrir de olhos que tudo aconteça, sejamos prudentes, porque é prudente se privar e ser solitário, é prudente aprender a trabalhar com o privado, fazer do privado um meio para se gerar os frutos nesta Terra – não quer dizer o individualismo e o egoísmo, mas aquilo que se torna próprio, do qual a gente se apropria e torna privado para que o fruto cresça. Porque sem frutos não há colheita, e hoje o que há muito são reuniões de pessoas que não produziram nada, mas que ficam falando ideologicamente sobre ‘como vamos dividir cada quadrado e privatizar tudo’ ou ideologizando como que ‘nossa, vamos plantar todas as sementes, vamos plantar de tudo e a aí a gente vai colher de tudo, e aí a gente dá de tudo pra tudo, e vai ser lindo, todo mundo junto’… como se colheita fosse plantar floresta. Floresta serve pra colheita dos bichos, dos animais irracionais. Seres humanos não são animais, aliás. Porque assim como plantas não são animais que não andam, seres humanos não são animais que pensam, há uma grande diferença… É preciso deixar claro: assim como plantas não são pedras que crescem, e assim como animais não são plantas que andam e sentem, o ser humano não é um animal que pensa. Pedra é pedra, planta é planta, animal é animal, ser humano é ser humano.

E, aliás, aproveito para fazer um adendo aos pais que é: deem plantas de estimação aos seus filhos, antes de darem os animais. Ensinem primeiro: deem pedras a seus filhos, ensinem-os a amarem as pedras, e não a tacarem pedras, ensinem-os a ver como as pedras são preciosas e guardá-las tal qual como joias, por sua beleza, por aquilo que emanam enquanto durabilidade, enquanto pureza. E depois deem plantas de estimação, ensinando quando e quanto deixar no sol, quando e quanto dar de água, vendo as mudanças, e depois deem animais a seus filhos – que tenham contato com animais de alguma forma, não precisa ser cachorro, gato, mas no mínimo um hamster – que vive um ano ou dois -, um animal que não requeira um cuidado tão a longo prazo. Mas que nossas crianças tenham contato com os 4 reinos, e claro, que tenham amiguinhos, seres humanos ao redor.

Porque ser humano não substitui animal, planta e pedra. Assim como pedra não substitui planta, planta não substitui animal e pedra, animal não substitui relações humanas. Eles podem ser muito fofinhos, eu tenho dois, a gente ama realmente, mas não substitui ser humano. Quem tem relação com animal e acha que isso é uma relação maior ou melhor do que a que se tem com o ser humano, essa pessoa precisa muito amorosamente compreender que é provável que ela esteja doente, porque a maior e melhor relação que se pode ter na face dessa Terra é com seres humanos e, óbvio, para além da face da Terra, com as hierarquias dos anjos para cima. Mas ainda assim, os anjos não substituem o ser humano, os homens. É preciso que tenhamos relações com todos esses reinos. Não precisa ser amigo de todo mundo, não é oba-oba, mas tenha poucos e bons amigos, tenha poucas e boas pessoas, isso é crucial na vida, porque animal nenhum vai racionalizar as coisas e palpabilizá-las junto da gente. E é mais fácil a gente passar a agir e se tornar muito mais bichinho do que eles darem um salto evolutivo e passarem a compreender as necessidades nossas, é uma falácia, os animais não compreendem as nossas necessidades; quando eles aparentam compreender necessidades nossas de carência etc. é o nosso lado mais animalesco que se corresponde mais com eles, o nosso lado mais baixo. Eles não deveriam se identificar conosco em termos emocionais, porque isso significa que a gente está num emocional muito baixo. O que deveria é nós ensinarmos eles a evoluírem, como passarem do instinto e do emocional desregrado para algo um pouco mais civilizado, por assim dizer, mais ordenado, eles que deveriam aprender conosco, e não suprir nossas carências e necessidades. Fazer do animal nosso terapeuta diário é crueldade. Ainda que óbvio, eles nos ajudem. Assim como as plantas e pedras também nos ajudam, tanto que são medicinais. Mas nós temos uma necessidade racional, intelectual, intuitiva, inspiracional de nos curarmos e estarmos em contato, e isso os animais não podem oferecer, nem devem ainda, bem como as plantas e pedras também não, é exigir algo que não está no tempo evolutivo deles, e é regredir ou frear nossa própria evolução.

Então é saudável e altamente recomendável, …aproveitando a colheita…, é saudável estar o tempo todo em contato com os quatro reinos, é saudável ter contatos humanos, animalescos, vegetativos e pedregulhentos. É saudável. Busquem isso. Não é preciso ter um grande significado: aquela pedra X que significa e emana tal coisa… é bom conhecer as coisas, mas não precisa ser racionalmente escolhida dessa forma, tenham um contato simplesmente, abram-se pras relações dentro do possível. E se não for mais possível, ensinem as nossas crianças a terem disso, porque é saudável aprendermos a nos relacionarmos com os que estão embaixo e por quem somos responsáveis, assim como com aqueles que são nossos irmãos e estão conosco no meio, e, claro, tão importante quanto é se relacionar com os mais elevados: anjos, arcanjos, querubins, serafins e todos os senhores que nos governam e nos ajudam também, pois assim como nós auxiliamos estes outros reinos inferiores a nós, somos pelos mais elevados ajudados e direcionados também e por isso devemos ter muito respeito ao trabalho que é feito, muito respeito!

E compreendermos que eles não querem nos machucar. Se pode dizer que há seres que têm essa prerrogativa, mas eles não são exatamente mais elevados, e estou falando aqui dos elevados, dos que estão evoluindo de fato. Esses não querem nosso mal, nem têm a prerrogativa de nos condenar. Mas é preciso compreender o trabalho que é feito. Então quando a gente quer jogar fora um mapa, quando a gente ignora nosso mapa ou acha que rege as estrelas, ou tem uma missão clara no nosso mapa e a gente resolve ignorar “porque eu sinto que é de outro jeito”, é uma cegueira que está sendo escolhida, e é perigoso isso. É claro que a gente tem o livre-arbítrio de arbitrar e dizer ‘não, eu vou dar a isso uma determinada aparência’, mas é preciso compreender que não se foge daquilo, é preciso então encontrar uma fórmula para viver aquela forma… não precisa ser a fórmula mais óbvia, então ter um animal de estimação – não precisa ser o mais óbvio, como comprar ou adotar um gato, cachorro, um papagaio que vive 40 anos, ou um pato que vive também pra caramba. Pode ser o trato com as borboletas, com as abelhas, as formigas… não precisa prender em algum lugar ou ter uma rotina muito específica, mas precisa ter seriedade ao lidar com os animais e de alguma forma encontrar algum meio de interagir com eles. Claro que com um gato e cachorro a interação ganha uma qualidade outra, mas não que os outros animais não possibilitem isso, mesmo uma lagartixa é possível criar laços e interações, é que elas não se dão da mesma forma com todos os animais, então a aparência muda de acordo com cada um.

Alguém com um mapa astrológico com uma casa 12 pesada, essa pessoa pode voluntariamente aceitar que ela precisa viver isolada, pelo menos por um período, para compreender que internamente ela vai estar isolada dos outros, ela não vai conseguir compartilhar o interno dela com os outros, a mente espiritual principalmente, mas que isso pode se dar na aparência de uma prisão, uma hospitalização, uma exclusão porque a pessoa não fez de bom grado. É como o cachorro que a gente leva pra passear e fala: do lado, junto! Mas ele quer sair correndo, mordendo as pessoas, dando um rolê, aí a gente vai pôr a coleira, até que põe focinheira, depois uma jaula, até chegar num extremo… E a gente não vê que nós somos esse animal desregrado. E se a gente não vai cumprir as casas que foram postas para que se cumpra, e o nodo norte para que se cumpra, e todas as coisas que estão dadas, enquanto aspectos principalmente, ok, quer ir contra? Ótimo, temos esses livre-arbítrio, podemos arbitrar esse jogo, mas coleiras serão postas, membros que nos escandalizam serão arrancados de nós, ficaram adoentados. Coisas acontecerão que acabarão nos levando e nos obrigando a vivenciar aquilo através de uma outra aparência, e quanto mais a gente se nega a enxergar a sincronicidade dos acontecimentos superiores que nos dão a possibilidade de viver aquilo de forma elevada, mais Lúcifer e os inferiores, nossos demônios, Satanás, mais eles aparecerão e nos farão viver aquilo numa aparência grotesca, de grotta, de caverna, então passaremos por aquilo de maneira inconsciente e caótica, porque a gente dispensou a sincronicidade, claro. Então é complicado.

A pessoa que não tem contato, que se recusa a ter contato com um dos quatro reinos em algum momento ela vai ser obrigada a entrar em contato e isso pode revelar sombras muito profundas, escolhas não muito saudáveis inclusive, porque ela não foi educada para compreender as relações, então toda vez que uma relação aparecer ela vai destruir aquilo, ela vai tratar de maneira sombria cada vez mais. Tem os que vão realmente prum limite do aceitável enquanto sombra, até que sejam separados da humanidade, da colheita, sendo retirados do campo, e tem aqueles que em algum momento vai cair a ficha e vai começar a aprender: ‘ah, tá, tem algo para aprender aqui, ok, vamos aprender.”. E a gente escolhe como aprende, é a velha história, se não vai por bem, vai por mal. Porque no fundo é sobre aprender, como a Fraternidade Rosacruz diz: a vida é uma escola, e de fato, é uma escola. Para quem vai aprendendo e se graduando, vai se tornando uma obra de arte, um laboratório, como citei na última Poesia, vai se tornando o trançar do labor, que é a ciência, e do oratório, que é o orar – a religião.

 

Viver a colheita (o coletivo) não é algo possível sem Ser um indivíduo individualizado.
E isso é ainda raro.

E não falo sobre quem está passando pela individuação, ou quem está passando pelo crescimento da semeadura, estou falando já da colheita. Para viver a colheita precisa já ter crescido, ter amadurecido; como comentei também, o amadurecer tem a ver com o para a colheita, para maturare. O que não quer dizer também que devamos nos isolar, num niilismo trágico, não é isso, mas sim fazer parte do movimento do mundo sabendo o tempo todo que o que chamam de coletivo não é coletivo de fato, é preciso estar acordado e não acreditar na mentira que nos contam o tempo inteiro, essa falácia ideologizada, e, acima de tudo, se saber independente (ou seja, não depender de ninguém, em termos de sobrecarregar um outro ser – especialmente emocional e espiritualmente). Então é se curar da carência de ‘ai eu preciso que o outro me ame, eu preciso que o outro fale comigo, preciso que o outro me veja, me curta, compartilhe, eu preciso, eu preciso, eu preciso…’. Todas as necessidades, a única coisa que elas precisam é cair por terra e nós nos sabermos independentes do grupo em que se faça, temporariamente, parte. E grupo não falo coletivo, porque coletivo aqui está sendo posto como algo superior, como elevado, espiritual, mas falo grupo no sentido do grupal, tribal. Independente da tribo que eu faça parte, eu preciso saber que eu sou independente daquilo. ‘Ah, eu sou mulher, eu faço parte do grupo das mulheres’, é, mas não posso depender das mulheres para me emancipar, para me tornar mulher, e me tornar, principalmente, mais do que um gênero: um indivíduo, um Homem, um Humano de fato. Eu preciso saber dizer ‘não’ para o grupo, para a tribo. E essa é uma grande problemática hoje em dia, porque a gente é carente e quer pertencer aos grupinhos: o grupinho das minorias, o grupinho das maiorias, o grupinho da esquerda, o grupinho da direita, o grupinho… o grupo. E ficamos buscando a atenção e aceitação do grupo, e não podemos depender disso jamais.

Porque quando se faz parte do coletivo de fato – do coletivo quando se faz parte realmente da humanidade, falando em termos espirituais, ou da Ordem Rosacruz ou do Catolicismo, por exemplo, não se tem uma necessidade de aprovação do grupo. Quanto mais a gente busca ser aprovado pelo grupo, mesmo espiritual, mais a gente cai, porque a gente começa a criar fórmulas, então não adianta querer: ‘ah, eu quero ser um Rosacruz, seja da Fraternidade da Ordem, o grau que seja, quero! Vou fazer a cartilha.’. O que tem que fazer é ter e se arrepender. Como faz para ter fé? Sendo obediente, casto e pobre. Eu já falei sobre isso não ser necessariamente a aparência: não adianta jogar tudo pela janela, isso é uma fórmula que cabia a São Francisco qualquer outro que imitar, pode ser uma boa imitação, tanto que tem o livro a Imitação de Cristo… claro que há figuras que, quando a gente não sabe o que fazer, é prudente que se imite aquele que soube o que fazer, mas isso significa que naquela vida nós não estamos nos encontrando de fato porque há uma fórmula que foi feita própria para nós, desde as hierarquias, então a minha fórmula para viver a pobreza não é catando as coisas e jogando pela janela. É claro que as fórmulas coincidem, então pode coincidir de ter várias pessoas que precisam jogar as coisas pelas janelas, porque simplesmente precisam abrir janelas e porta e jogar tudo para fora, mas não é uma imitação vazia, barata, mas sim porque elas fazem parte daquela fórmula enquanto vivência, elas são uma taça, por assim dizer, de um material parecido umas com as outras, então vão se assemelhar nas aparências, lindo! Mas mesmo entre elas as coisas serão diferentes, haverá diferenças na forma de se fazer isso, talvez umas joguem tudo mesmo pela janela, outras só as roupas, outras só os sapatos, outras as suas joias, enfim, são só exemplos. Então sempre em escala menor são fórmulas diferentes, são detalhes cada vez mais individualizantes. Por isso que um mapa astrológico, não importa duas pessoas terem nascido no mesmo dia ou terem um mapa próximo, como aquilo vai se dar de fato são fórmulas completamente diferentes, inclusive para duas pessoas gêmeas, univitelinas. Vai ser diferente, ainda que parecido, ainda que possa se parecer na aparência, ter uma similitude em vários aspectos e graus.

Mas é preciso se saber independente do grupo, mesmo duma Fraternidade Branca, duma Ordem o que seja… Até porque às vezes a Lei fala: não matarás, e Deus vai te sussurrar, murmurar e falar assim: ‘meu filho, pegue teu filho, suba ao monte e mate-o’. Não tem o que pensar, é catar Isaac pela mão e falar: ‘vamos subir o monte porque hoje eu vou te matar’. ‘Ah, mas a Lei diz para não matar o próximo, a Lei…’ ‘Mas o que eu posso fazer?!’ ‘Mas você faz parte da Lei, como assim você vai matar seu próprio filho que você tanto esperou e como um dom te foi dado, e bem quando a gente jamais esperava que fosse nascer algo.’. E às vezes é isso, a gente faz parte de um grupo, e mesmo de um coletivo, porque fazemos parte de uma hierarquia, e Deus pode falar: vá contra tudo o que você acredita. Mate. É claro que sabemos a história de Isaac, era um teste, era uma provação. É uma porta, um degrau, enfim, pode-se dar vários nomes, mas é algo muito específico que está acontecendo, e sabemos que aí a aparência não se torna real, então não é como se um assassino pudesse dizer: ‘então foi Deus que me pediu para matar todo mundo…’ como muitos falsos profetas fazem, aliás. Não é isso. Não é esse o caso aqui, Por isso a linha é muito tênue e é preciso muito discernimento, muito discernimento! E por isso há formas que nós devemos buscar porque essas formas geram fórmulas que nos ajudam a compreender mais a nós mesmo e a Deus, consequentemente. Formas excelente que foram dadas para a humanidade: repetição, devoção, observação e discernimento, Fraternidade Rosacruz, Max Heindel, foi passado isso, foi deixado. Desenvolvam a repetição, o devocional, desenvolvam a observação e o discernimento. Como isso é feito, a fórmula, cada um precisa encontrar a sua.

Retrospecção: é voltando, deitar à noite ou a qualquer momento do dia, à noite é crucial mas a todo momento podemos fazer a retrospecção, e ir retornando os acontecimentos desde o momento mais presente até o iniciar do nosso dia, de maneira contrária como quem rebobina uma fita, e ir observando quais as necessidades de mudança no nosso comportamento, nos nossos atos, sentimentos e pensamentos. Retrospecção não é só para os atos, começa nos atos: o que fiz ou deixei de fazer de maneira cardíaca, mas também o que senti ou deixei de sentir e também o que pensei ou deixei de pensar. Agora imagina o que é ter uma retrospecção dos pensamentos, de cada pensamento que se tem ao dia… É preciso desenvolver um grande discernimento quanto ao que se pensa antes disso, senão é um caos, são muitos os pensamentos que temos durante o dia, como fazer uma retrospecção de pensamento? Só a partir da hora em que se acalma o pensamento, em que não se pensa qualquer besteira a todo momento, e aí começamos a prestar atenção que ‘esse pensamento eu não quero mais ter’, e aí se arrepende, tem a contrição, fica triste! Tem que pesar, ser pesado, porque se não dói não está extraindo o azeite, o óleo, porque toda fruta ou toda planta para se extrair o óleo ela é prensada, fervida, ela é de alguma forma passada por processo de contrição dela, de aperto e dor, para que o óleo saia. Não tem como se arrepender: ‘ai, desculpa, Deus, foi mal, vou fazer melhor da próxima vez.’. Isso pode servir como uma nota de rodapé para se lembrar mais tarde, mas em algum momento é preciso que doa, como se o sangue saísse pelos poros – é esse o grau de dor que a retrospecção e o arrependimento têm que trazer. Como Cristo ao pé das Oliveiras, no pé do Monte das Oliveiras. E claro, usar dessa seiva para fertilizar a obediência, pobreza e castidade (como comentei na última Poesia), que é a fé. A Fé! Se este óleo não for posto na água que é a fé de nada adiantará, é o óleo da água que queima o fogo apropriado, que faz com que o fogo exista de fato, como diz o Jacob Boehme: quando o óleo da água acaba, o fogo se extingue.

É preciso ter muito discernimento para ouvir as coisas que são tentações e o que são testes celestes. Porque é claro que Deus não ia permitir que Isaac fosse morto efetivamente. Mas Deus é sábio o suficiente para nos pedir que mate Isaac, a gente pode chamar isso de loucura, mas é uma sabedoria divina, e devemos estar o tempo todo prontos para ir contra as Leis divinas inclusive caso Deus nos fale. Como dito, não se vai chegar a efetivamente ferir as Leis, pelo menos eu não acredito nisso, mas nós iremos lutar com o anjo… E mais ainda, chegamos a lutar com Deus, é uma luta o tempo todo maravilhosa com o próprio Deus. O anjo nos fere na perna como a Jacó, e nós devemos lutar com Deus o tempo inteiro porque é Ele que nos livra de nós mesmos, e esse é o paradoxo: devemos lutar a ponto de vencê-lO para que Ele nos mate. Para que Ele nos faça o ferimento crucial para nos libertarmos! Pelo qual jorra nosso sangue e a nossa água. E é por isso que Deus está acima de toda e qualquer hierarquia, e nenhuma criatura de hierarquia alguma é Deus enquanto singularidade. A aparência pode revelar um ser que é centro e que é Deus, mas Deus não é uma criatura, porque quando nós pertencemos às criaturas nós fazemos parte do coletivo e Deus pode, a qualquer momento, nos pedir para que ajamos de uma maneira outra dentro desse coletivo de uma forma que nem compreendemos, como indo contra as Leis que pertencemos, a Ordem que fazemos parte, enfim, o que seja… E por isso só Deus é nosso verdadeiro Mestre e ninguém, de Ordem nenhuma e de hierarquia nenhuma pode nos dizer o que fazer senão Deus (por intermédio ou não delas). Nós somos só um meio.

Não se confunde a taça com a água que há nela.

Assim como não devemos nos julgar mais do coletivo do que de Deus. E uma das formas de aprender isso é sabendo que fazemos parte de tribos, de grupos, nomenclaturas sociais, mas não nos atermos a isso. Até porque a palavra grupos tem como significado um ‘amontoado’, e uma coisa que se amontoa logo será desfeita, logo se taca fogo e vira cinza, ou se distribui e deixa de ser um grupo e depois a gente nem lembra de que fez parte daquilo que se amontoou de qualquer jeito, porque um amontoado é questão de circunstância, a colheita não, ela é uma questão de crescimento, e não de circunstância, são coisas diferentes.

Não devemos permitir que o que a gente chama de “coletivo” hoje em dia e ideologias coletivistas ditem as fórmulas de como cada Eu deve Ser e como cada Eu deve agir – pois a única forma de ser é semeando e multiplicando e a única forma de agir é colhendo os frutos e os doando, sendo que essa vida e os grupos devem nos ajudar nisso: a criar momentos em que fazer parte de algo maior nos permita expandir a nós mesmos enquanto lavradores do nosso pedaço de campo. Lembrando sempre que: há uma forma para o todo, mas as fórmulas são pessoais e intransferíveis.

As fórmulas são pessoais e intransferíveis!

Ou seja, pertençamos, façamos as coisas porque somos seres sociais, nos encontremos, nos abracemos, semeemos e colhamos. É claro que há momento em que é semeadura, há momentos em que é solitário, é o crescimento, o trabalho sozinho debaixo do Sol, mas saibamos também reconhecer quando tudo estiver colhido, de nos juntarmos ao redor da mesa para multiplicarmos, para doarmos aquilo que cresceu individualmente. Que saibamos que nós somos um Ser verdadeiramente à parte, mas que isso é uma etapa, porque nosso único caminho, único fim e começo é Jesus Cristo. Então que aprendamos a receber, semear e colher com Ele. Crescer com Ele para que possamos amadurecer, para que uma nova manhã, uma nova aurora possa verdadeiramente acontecer…
Um bom trabalho a todos.
E que sejam fartas também as orações.
Um abraço meus Amados-Amigos-Irmãos!
Que Deus vos abençoe agora e sempre,
Amém!
Kronos:

 

“(…)os gregos nunca tiveram um deus do tempo, e a associação acima não passa de etimologia popular. Existia, sim, o deus Kronos, filho do Céu e da Terra, portanto pertencente à primeira geração de deuses.

Simplificando muito: ele matou o seu pai, que temia ser destronado por um dos filhos. Depois casou com Réia e se tornou pior ainda do que o pai, tratando também de destruir os filhos (pudera, com um modelo desses!). Um deles, Zeus, conseguiu dominá-lo
e passou a comandar o Olimpo.

Depois pai e filho se acertaram e Kronos acabou reinando sobre a Ilha dos Bem-Aventurados, onde se mostrou bom e justo. Às vezes as brigas dentro de uma família dão certo, se as partes se mostrarem maduras.

A única ligação de Kronos com o tempo é que, por ter reinado em passado muito, muito distante, dizer “no tempo de Kronos” significava um tempo enorme atrás.

Mas então por que a confusão? Porque em Grego, Chronos era a palavra usada para “tempo”, e nada tinha a ver com o nome do deus. A palavra começava com a letra chi, que tem um som semelhante ao CH alemão, ao passo que o nome do deus começava com a letra kappa. O som da letra chi não existe na maioria dos idiomas derivados do Latim, e não há como representá-lo adequadamente nessas línguas. Havendo diferença apenas na letra inicial, instalou-se toda uma história inverídica a respeito desta etimologia.”

Fonte: https://origemdapalavra.com.br/artigo/os-deuses-antigos-na-nossa-vida/

a Poesia da Literalidade [Virgem Maria, Cristo Jesus, Maria Madalena, Catolicismo e Rosacruz]

Eu gostaria de conversar. Gostaria de caminhar mentalmente e conversar sobre ‘qual é a poesia da literalidade?’.

Qual a problemática que envolve a literalidade em nossos dias.

O problema da literalidade é que 99% das pessoas confundem literalidade com aparência. Quando a gente procura a etimologia de literalidade, literal, ela está relacionada à letra, ao significado restrito da letra. Na Poesia da Evolução já observamos, em todas as Poesias eu trabalho etimologicamente, e na da evolução é possível observar, a história nos mostra, como a sua etimologia está intimamente relacionada ao Verbo, àquilo que é literal, que tem relação com a Palavra e, portanto, tem relação com o Verbo, e por isso o estudo etimológico da palavra necessariamente nos encaminha a Cristo. E não digo termo, porque estudar termo é ir no contracaminho, ele é a antítese da palavra, a palavra viva como aqui coloco.

A literalidade se relaciona com o Espírito Santo, o simbólico com Cristo e o arquetípico com o Pai. A aparência é o lucífero e o literal em nosso mundo se confunde com a aparência. A aparência é lucífera e nos tenta, por indução, ao erro, e nós, por astúcia nossa, não de Lúcifer, mas nossa, nós caímos em tentação, nessa tentação que se nos apresenta. E o problema é que passamos a ter questionamentos absurdos, por exemplo, esses dias eu estava vendo, então irei tratar Maria como exemplo, num questionamento absurdo de como Maria pode ser virgem, se ela deu à luz. E aí fica um debate se ela era literalmente virgem ou não, o que é absurdo de se debater. Contudo, tomarei ela como exemplo, ainda que muitos possam me tomar como herege, como falta de respeito da minha parte usar de Maria para isso, mas eu sei que está tudo bem fazer uso disso, das imagens absurdas que colocarei, porque no estado em que está nossa mente é preciso chegar na absurdez para conseguir minimamente palpabilizar certas astúcias nossas, então através do absurdo mostrarei o absurdo das ideias, que é pior do que as imagens em si. É como dizem, dois negativos formam um positivo – eis a tentativa aqui, usar algo que em aparência é negativo para revelar outro negativo interno a nós buscando, quem sabe, chegar num resultado positivo.

Então quando se tem esse questionamento se Maria era literalmente virgem, óbvio que era literalmente virgem, não deveria haver dúvidas, mas como a mente se uniu à astúcia nossa e a usamos para nos ludibriarmos acerca das respostas claras quanto a certas questões, eis o seguinte: questionar a virgindade de Maria, mãe de Deus, e a não compreensão do que seja literalidade leva à seguinte interpretação errônea dos fatos: eu pergunto – uma mulher que tem seu hímen intato, que é virgem em aparência, mas que já tenha feito sexo anal com um parceiro ou o mundo inteiro, ela é virgem de fato? Só porque seu hímen não está corrompido e ninguém tocou nem penetrou sua vagina, essa mulher é virgem por acaso? Creio eu que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe em seu coração que não, uma mulher, ainda com hímen intato, se ela foi pra cama e teve outras práticas, exceto penetração vaginal, isso faz com que seja prostituta, porque ela se entregou aos prazeres da matéria, então há mácula e, portanto, não é virgem, literalmente desvirginada. Ou seja, não importa se Maria teve seu hímen rompido por um varão ou não, por José ou não. Ela é a virgem sem mácula, imaculada, independente do que a aparência nos mostre.

É possível engravidar sem haver penetração, ainda que havendo uma ejaculação, para não levarmos para o sentido mágico do processo – que pode ter acontecido também, não estou aqui para dizer como Jesus foi concebido, não é esse o caso, o que importa é: independente de como ele foi gerado no corpo de Maria, sua virgindade não deveria ser contestada e duvidada, porque seja por processo mágico – dos anjos a inseminarem, seja por processo humano – de fazer amor com José uma vez na vida, a mando de Deus, a sua virgindade, em qualquer caso, permaneceu intata, assim como a mulher com hímen não rompido teve sua virgindade completamente estraçalhada, rompida e corrompida. Ou seja, a virgindade de Maria não se atrela à aparência de um hímen rompido ou não rompido, isso é a astúcia quem fala. Ah, mas é o científico, pois é, o problema da ciência é que ela é lucífera, e vai partir para a astúcia, sendo que em nosso coração sabemos que alguém que se deita e pratica sexo anal com um ou mil não é virgem. E não adianta ter discursos pseudo-aquarianos de existir vários tipos de virgindade: vagina virgem, boca virgem, ânus virgem… não importa, isso é falso, é malícia nossa querer acreditar nisso – de que perdemos várias virgindades, e tudo bem transar, contudo que não rompa meu hímen que vou pro céu virgem, não, não vai, porque está entregue aos prazeres carnais. Porque a literalidade da virgindade se atrela ao não ser maculada pelos prazeres carnais, o que quer dizer que Maria é Virgem imaculada porque ela não foi pra cama, ela não transou, ela concebeu sem prazer carnal, sem estar maculada pela paixão.

Então é uma outra oitava do que se diz ser virgindade, e por isso a literalidade é diferente da aparência de algo, porque na aparência uma mulher que já fez sexo anal pode ser virgem, pode-se comprovar isso com teste, e uma mulher que aparentemente não é virgem porque teve seu hímen rompido pode ser com certeza virgem, a mais virgem de todas perante os olhos de Deus. Ah, mas então ela fez sexo. Sexo não, porque sexo é diferente de estar com um homem pelo dever, ela não fez por prazer, ela não esteve por prazer com José – seja em casamento ou seja na cama, isso não importa, se foi por processo exclusivamente angélico ou humano – a palavra sexo está atrelada ao prazer da carne, à divisão que há carne enquanto dualidade, assim como com certeza não foi uma transa, mesmo no sentido original da palavra de transação, de um comum acordo entre humanos, porque não foi um acordo entre Maria e José, mas entre Maria e Deus, assim como também entre José e Deus, é diferente, há um mundo, um abismo de diferença. E menos ainda um coito, como se Jesus fosse um coitado, de maneira alguma. Se houve alguma interação íntima entre Maria e José, certamente foi o mais alto grau do que queremos dizer com a expressão ‘fazer amor’, porque com certeza Cristo Jesus, sendo a própria encarnação do Amor entre os homens, só pode ter sido gerado e nascido de um profundo amor de seus pais por Deus e também de um pelo outro.

Por isso Jesus também não tem outros irmãos na carne, Maria pode ser mãe de muitos, mas não na carne, em termos de ‘transou e opa, engravidou, aconteceu’… não, Maria cumpriu um dever, seja lá como isso tenha se dado. Mas se coloca que Maria é virgem antes, durante e após o parto, o que para a ciência e aparência é absurdo a Igreja afirmar isso, porque quando o bebê passar ali, no mínimo ali ela não será mais virgem, mas quem olha para isso em termos de aparência é uma pessoa muito ignorante porque a virgindade, como mostrado, nada tem a ver com o rompimento do hímen. Por isso Maria é sim virgem antes, durante e após o parto. O hímen ele pode simbolizar e simboliza a virgindade, mas é nosso dever passar para um grau acima da aparência da carne. Porque não é a aparência, ou seja, a carne que ganha o céu.

Assim como eu comentei: Cristo Jesus se casa com Maria Madalena. Isso é literal? Sim, é literal, porque faz parte da evolução, e portanto está no Livro da Vida e portanto é Letra, é Palavra Viva; isso quer dizer que casaram na aparência? Não necessariamente.

O que acontece é que, assim como Cristo é a Alma do Espírito, Filho do Pai, Maria é a Alma da Matéria, Filha da Mãe, no melhor sentido disso, apesar da aparência deturpar a expressão Filha da Mãe. E o que é casamento em sua literalidade? A etimologia nos mostra que é habitar uma casa pobre, morar num casebre, ter uma habitação em um terreno, sendo que a palavra casa etimologicamente vem de um casebre, de um lar pobre, humilde.. Cristo Jesus e Maria Madalena são dois seres altíssimos que vieram habitar a Terra e juntos fazem um serviço, cumprem um dever específico na Terra, portanto é literalmente um casamento, porque é o encontro na carne das duas Almas provindas da Fonte. Aliás, um dos significados de Urano ter duas Luas, uma de cada lado, é esse.

Jesus não é simplesmente um homem – o maior iniciado entre os homens, isso é aparência. Bem como Cristo não é simplesmente o maior iniciado dos arcanjos, Espírito Santo, o maior iniciado entre os anjos… essa linguagem é muito válida pra gente iniciar um estudo, iniciar uma compreensão das coisas. Antes de Jesus nós éramos homens em potencialidade. Por isso é importante estudar certos autores… o Jacob Boehme fala sobre Cristo ser o centro, Santo Agostinho fala sobre Deus não ter limite, nem forma apreensível de corporeidade, sendo nós que precisamos criar como imagem rotineiramente. Assim como Frithjof Schuon nos mostra como o homem, em potencialidade e virtualidade, não é homem, que é algo que eu já comentei: Nietzsche, em sua bestialidade, afirma – torna-te quem tu és, só que não, porque és nada, então tens que tornar-te aquilo que não és ainda, mas podes vir-a-ser, e claro que por poder-vir-a-ser, de alguma forma és, pois o futuro está na eternidade assim como o presente, mas enquanto virtualidade, e não atualidade, sendo preciso atualizar o presente a todo o tempo para que as coisas e os seres sejam de fato! É completamente diferente. Então não é porque fazemos parte duma coletividade chamada humanidade que podemos nos dizer homem no singular enquanto indivíduo de fato, ou humano. E isso só se torna possível a partir da hora em que Jesus habita a Terra, antes disso o homem era apenas uma potencialidade, uma virtualidade. Ah, mas Sócrates era sensacional, sim e daí? Antes de Jesus não era possível alcançar esse grau de indivíduo. Nem com as iniciações anteriores, não importa, não se chegava a Cristo e, portanto, não se tornava homem, porque não adianta tornar-se um homem estéril, um homem só é homem se dá nascimento ao Filho do Homem, um homem estéril é uma aberração, e o Filho do Homem só é possível a partir da hora em que Cristo Jesus habita a Terra.

Porque Jesus não é o maior iniciado dos humanos, ainda que isso facilite nossa compreensão atual da espiritualidade, mas mais do que isso, Jesus é o centro do humano. É como Adão, Adão não é um homem, Eva não é uma mulher… eram o próprio centro humano, assim como o Sol não é da mesma propriedade que seus raios, mas seus raios são feitos das propriedades dele, que é o centro, e por isso Cristo, centro solar, se uniu a Jesus, centro humano – assim como o Sol se une à Terra, bem como a mente se liga ao coração – e por isso foi literalmente a manifestação de Deus, e não de um simples homem com um arcanjo. E por isso todos somos Adão, fomos Adão e Eva, e por isso todos nós devemos nos tornar Cristo Jesus e Maria Madalena, literalmente. Se não nos tornarmos Cristo Jesus e Maria Madalena, não habitaremos a Terra de maneira apropriada, ou seja, não estaremos em casamento por dever e a serviço. Porque, como dito, casamento vem etimologicamente do ato de se ter um terreno com uma habitação instalada, de se morar numa choupana, numa morada pobre (que é a etimologia de casa, de onde deriva casamento), sendo o casebre no qual se habita a Terra, a Terra é a casa na qual se mora quando se casa, porque é aqui que podemos de fato ainda prestar os maiores serviços, especialmente no plano denso. Por mais que servir nos outros planos seja lindo, lindo sair do corpo, ter consciência em planos mais elevados, ainda assim é um fato que os maiores ganhos anímicos bem como o verdadeiro despertar passa pela carne, passa pelo corpo físico, pela necessidade de lembrarmos e termos consciência em todos os corpos e nos curarmos e agirmos, de preferência, em todos eles, não deixando um de lado – ainda que certos serviços sejam sim só possíveis e necessários fora do corpo denso. Mas isso não anula o fato de que o corpo físico é a joia mais preciosa e lapidada que temos e que uma cura a partir dele é a cura que possibilita a libertação de fato. Por isso Deus esteve aqui, em carne, em corpo denso, por isso Deus se fez literalmente carne, e inclusive em aparência, não só na literalidade, no simbólico e arquetípico, mas inclusive na aparência, para dar o exemplo e porque é a partir da carne que se retorna para o alto, ainda que a carne em si não retorne para o alto, mas só através do processo por meio dela é que isso se dá, ou seja, sem ela a evolução não se torna possível neste estágio.

Então é possível observar como a literalidade dos acontecimentos obriga a aparência a nos prestar contas, por isso que o que a gente chama de mal, as entidades maléficas vão obrigatoriamente servir ao bem, porque a aparência vai estar atrelada de alguma forma aos acontecimentos, mas não como o ser humano julga e imagina como a aparência astuciosamente nos leva a crer. Em aparência é só mais um homem, em aparência não é mais virgem, em aparência as coisas se tornam banalizadas, mas a literalidade, a Letra no Livro da Vida, mostra que os acontecimentos do nascimento de Cristo Jesus, do parto de Jesus, de Maria e José e seu casamento, do casamento de Cristo Jesus e Maria Madalena, tudo vai mostrando como a aparência talvez não seja como a gente, num primeiro momento, tem a tendência de imaginar, porque nosso pensamento está corrompido, por isso que pensar é pecar, porque o impulso mental que temos normalmente nos leva a caminhos em que nós automaticamente caímos em tentação ao imaginarmos algo diferente do que literalmente é de fato, simbolicamente é de fato e arquetipicamente é de fato, porque a literalidade, o simbólico e o arquetípico são a trindade sob uma outra aparência, uma outra manifestação através dos acontecimentos e das relações que se dão aqui na Terra, e em todo o tempo-espaço e para além do tempo-espaço.

E, claro, também não se deve confundir o fato de Jesus ser o centro humano com ele ser mais importante ou tão elevado quanto Cristo ou mesmo o Espírito Santo, ou, pior ainda, ser um centro em si mesmo, pois ele é centro no sentido de concentração do humano, e não no sentido de centro creativo do mundo, como o é a trindade em si mesma… Jesus é como o nosso coração de carne, mas o coração Real é a pineal na cabeça, Cristo. Assim como a Terra é o coração de carne do sistema solar, sendo o Sol a porta para o coração Real, que só é alcançável depois de tornar as coisas na Terra conscientes. Por isso ambos trabalham juntos e são indissociáveis. O Sol e a Terra se tornaram um assim como Cristo e Jesus também. Quem tenta passar a usar a pineal antes de ter aprendido a tornar seu coração um músculo literalmente voluntário, é uma pessoa que não sabe o que faz e que corre grande risco de terminar muito louca. Vai se queimar. Eu falarei melhor sobre isso em outra Poesia, ainda. E querer se tornar o centro, fazer de Jesus o centro como fazer do humano o centro, se crer mais importante do que Cristo e do que o Sol é o que provocou a queda de Lúcifer, por isso é preciso muito discernimento para compreender que Jesus é o centro dos homens, mas não faz dos homens Deus. E não é porque Deus se uniu ao homem, e Cristo se uniu a Jesus, e o Sol veio para a Terra e fez da Terra um centro no qual se concentram também as forças hierárquicas, toda a atenção vem para a Terra e, portanto, nessa perspectiva as coisas se tornam geocêntricas, ainda assim não quer dizer que isso tome o lugar do Sol. Jesus vem de Cristo, assim como a Terra saiu do Sol, a trindade não se torna quaternária por isso, seria um grande equívoco, ao contrário, é Deus encarnado, mas é como se, usarei uma analogia imperfeita por não me ocorrer algo melhor, me perdoem, mas é como se a nossa consciência inteira fosse focada e encarnasse por um momento somente num pedaço do nosso corpo específico, como a mão… não é porque dela são emanados escritos, poesias de alta beleza, que a mão é Deus das poesias, não, somos nós que vemos a palavra ser emanada apenas daquela parte, e devemos nos tornar como aquela parte porque ela está diretamente nos ensinando como fazer o mesmo, mas na verdade o Verbo surge muito antes da mão expressá-lo, ou o Verbo surge muito antes de Jesus expressá-lo, assim como quando concebemos o poético em si, para então a geometria se casar com o movimento e lograr expressar o Verbo de forma a pari-lo no concreto. Porque todo número, bem como toda letra tem sua origem no geométrico, assim como o número é o movimento, relacionado ao Espírito Santo, e a letra é o Verbo, relacionado a Cristo. E por isso os números nos foram dados antes da escrita, assim como só se torna alfabetizado quem apreendeu a numerologia antes, numerologia no sentido literal de logos através dos números para conseguir, aí sim, apreender do aleph ao beth, ou apreender o alfabeto. Isso é como dizer: se deve passar antes pelo batismo das águas, pelo Espírito Santo, para depois encontrar Cristo, e aí passar pelo batismo do Espírito, de Fogo.

O que acontece é que o Pai, ao conceber o Verbo em Si, precisa casar-se com o Movimento para que O possa parir. Então o Movimento aparentemente vem antes, contudo, o Verbo é aquele que “precisa passar à frente, porque já existia antes”, como disse João Batista, representante do Movimento e do Espírito Santo, no caso citado, sendo o perfeito exemplo de como se dá o nascimento do Verbo não só em carne, mas em espirituais aspectos dentro da trindade, sob este lado do prisma pelo qual vemos, é claro.

Ou seja, a literalidade, a Letra nos mostra que em aparência Jesus era um homem, mas ele é literalmente o centro humano, e Cristo é literalmente o centro solar. E isso é um mistério muito maior do que o que a gente consegue hoje observar, e que muitas vezes a gente só alcança isso tendo uma ideia do simbólico e arquetípico do que isso representa, e que na verdade é debilitado, altamente debilitado, porque se a gente não vê o literal antes a gente não vê bem o simbólico e o arquetípico, não vê; sem conseguir observar o literal, não se observa o simbólico e arquetípico, é uma falácia, ainda que a gente saiba conceitualizá-los. A letra serve para isso, lermos melhor a realidade, acordarmos para o que está acontecendo e acontece de fato, para além do que a aparência nos mostra, porque a aparência pode ser necessária e ser uma boa ferramenta, ótima ferramenta, mas não é ela que nos conduz ao sagrado, ela pode sistematizar para acalmar as nossas dúvidas ou suscitar dúvidas outras, ela pode ser usada inclusive contra o próprio mal, usar da ferramenta lucífera que é a ciência para sistematizar algo para que nós nos acalmemos, acalmemos nossas paixões, falemos ‘ah, tá, entendi’, e a partir daí possamos começar a tentar desenvolver de fato nossa fé e arrependimento, que é tudo o que importa, porque todo o resto é acréscimo. Nada disso, inclusive do que estou falando, importa, a única coisa que importa é tenham fé e arrependam-se. Fé, que pode ser também mostrado como obediência, pobreza e castidade, e arrependimento que é a contrição. Ou seja, só através de Maria e José é que se dá nascimento a Jesus, o centro humano para que esse centro humano possa se ligar ao centro solar, e de fato cristificarmos nosso espírito. É claro que não basta isso, porque o trabalho nunca acaba. O trabalho é para a eternidade, quem não gosta de trabalhar precisa buscar uma forma de aprender a amar o que é trabalho porque o trabalho é eterno, assim como a oração também é eterna, é um eterno laboratório. E não laboratório num sentido científico de ficar fazendo experimentos e experiências, mas eu, como sou da Arte, e acredito e vejo que a Arte é a união da ciência e da espiritualidade, ou seja, do trabalho e da oração, o verdadeiro laboratório, laborar e orar, é a creação artística.

A vida é uma grande obra de Arte!…

E para nós continuarmos trabalhando, é preciso ir erguendo a coluna feminina, erguendo o feminino que decaiu e que vai nos apresentar a necessidade de olhar justamente para Maria, por isso uso aqui Maria como exemplo, tomo essa liberdade e sei que não há nada de errado nisso, apesar de ser um exemplo que talvez vá ferir a muitos, mas que se torna necessário no mundo de hoje em que tudo se duvida e se põe a aparência em primeiro lugar para definir aquilo que é literal, simbólico e arquetípico. E além de Maria, mãe de Deus, também teremos que olhar para Maria Madalena, esposa de Cristo Jesus, esposa e irmã, aliás, irmã, serva, esposa, amiga… E aí outra questão que se nos apresenta enquanto literalidade e se conecta com a observação e discernimento da letra é que: assim como a Igreja Católica é o corpo de Cristo Jesus, igualmente a Ordem Rosacruz é o corpo de Maria Madalena, em ambos os casos, literalmente, ainda que não sejam seus corpos em aparência. Assim como Maria possibilitou o resgate de Adão através de Cristo Jesus, igualmente José possibilitou o resgate de Eva através de Maria Madalena. Isso não significa que fossem irmãos em carne, em aparência, mas, como já falei em outras poesias, isso se dá porque José é a representação primeira da linhagem de fogo submetida à água, mas ainda de maneira não integrada, ou seja, ainda não significando o resgate dos filhos de fogo de fato, nem a sua missão junto d’água de forma elevada, pois isso não é Maria e José, e sim Cristo Jesus e Maria Madalena que representarão de fato. Maria e José são apenas o prenúncio. E assim como Pedro é a pedra de fundação da Igreja, João é a fundação da Ordem, a pedra de fundação da Ordem (por isso se perpetua a confusão entre se pintar João ou Maria Madalena na santa ceia, o que é uma besteira, e quem usa desses conhecimentos para ganhar dinheiro e fama, não sabe o que está fazendo e o inferno que está cavando, pois João é o fundamento de Maria Madalena, mas assim como não se confunde Pedro com Jesus, não há como confundir Madalena com João). E assim como Maria é a Senhora da Igreja, estando acima de Pedro, José é o Senhor da Ordem, estando acima de João.

Por isso só faz parte da Rosacruz, seja Fraternidade ou Ordem, aquele que passa por José, que é a submissão à água e o arrependimento, o aperfeiçoamento da contrição para que o fogo se eleve, dando nascimento ao corpo-alma, que é a manifestação do laço, do anel, de Cristo com Maria, sendo a própria marianização do corpo, por assim dizer, junto da cristificação do espírito. O espírito crístico é manifestado pela presença do corpo mariano, que é o corpo-alma. Ambos são um só. E por isso de nada adianta apenas obediência, pobreza e castidade, pois sem o arrependimento não se torna possível doar Luz ao mundo de fato, por isso Cristo Jesus é filho de Maria e de José através do Espírito Santo, que habitou ambos, como a uma só carne! Assim como de nada adianta o exercício de retrospecção, de nada adianta arrepender-se, se não passamos a verdadeiramente levar uma vida de pobreza, obediência e castidade, pois se torna uma semente desperdiçada, lançada aos porcos, que é um José solteiro, por assim dizer – e este pecado é extremamente grave, é o pecado imperdoável, porque não ter do arrependimento para a submissão, não colocar o fogo na água, apenas ficar diminuindo a chama e a queimada, por assim dizer, é trair o Espírito Santo. Então sim, como diz a Fraternidade Rosacruz, há uma dimensão estreita dessa semente relacionada ao sexo, ao desperdício da energia sexual, mas ficar apenas nisso é atuar apenas no campo das aparências, sendo que o real desperdício e traição do Espírito Santo se dá justo quando sabemos que devemos nos arrepender, e inclusive nos arrependemos, mas não mudamos de fato nossa conduta perante o mundo, não usamos isso para fertilizar, fecundar Maria, nossa obediência, pobreza e castidade. O arrependimento serve para fecundar a obediência, pobreza e castidade. E esse é o verdadeiro pecado imperdoável, literalmente. Quando não o fazemos de maneira completa o ciclo, quando não nos tornamos capazes de nos arrependermos, apesar dos filhos d’água terem muito mais… não sei se exatamente uma facilidade mas uma simplicidade da necessidade sim de arrependimento, pois sabem que ‘minha culpa, minha máxima culpa’, do que os filhos do fogo compreenderem a necessidade e a causa da retrospecção e do arrependimento e da contrição ser de fato a submissão à água, que é a obediência, pobreza e castidade… romper com o laço de união do arrependimento e a obediência, pobreza e castidade esse é o verdadeiro pecado imperdoável, ou seja, Letra Viva no Livro da Vida. E isso toma aparências várias, inclusive do sexo pelo sexo, porque é aquilo que mais imediatamente macula, mas todos os pecados capitais maculam.

Então a literalidade é a forma primeira de ascensionarmos em termos de leitura do que nos é dado, então se eu estudo a letra contida em uma palavra ou um nome, como aqui dou o exemplo sempre ao tratar a etimologia das palavras, indo para além do que a aparência mostra, porque a aparência pode me enganar, eu posso então começar a ter uma chance de, por dádiva divina, vir a observar a simbologia e o arquétipo presentes – o que é relacionado a ir do físico para a alma (simbólico) e alcançar o espírito (arquetípico). Então quando observamos, por exemplo, o nome Lázaro etimologicamente no hebraico vem de Eli’ezer, que significa Deus é meu socorro, o Senhor é meu auxílio, tendo também uma possibilidade de ser lido, na atual conjuntura, como leproso, alguém com chagas – claro, Deus só pode vir ao auxílio e socorro daqueles que se reconhecem doentes e miseráveis, pobres de si – pois aquele que se apega à vida, este a perderá, mas aquele que a perde, este a ganhará; assim como Maria, irmã de Lázaro, na versão hebraica é Mírian, outro nome em aparência, mas literalmente o mesmo, pois a raiz é a da pureza, da virtude, da virgindade – quando associado ao sânscrito, quando olhamos para a raiz hebraica, ela vem de uma raiz egípcia que significa a amada de Ammon, o que é belíssimo de se observar, pois Ammon era um Deus egípcio associado a Zeus na Grécia e Júpiter em Roma, sendo que já vimos como ambos (Zeus e Júpiter) são sombras de Jesus, velando pelo fato de que Mírian ou Maria Madalena é a amada de Jesus; por fim Marta significa patroa, dona do lar, senhora, dama, o mais simples dos nomes relacionado aos corpos, lar nosso, onde podemos nos tornar senhores de nós – não porque eles sejam nosso senhor, mas porque são o meio para tal em termos de ir de baixo para cima retornando e ganhando consciência de nós mesmos.

Assim, uma leitura possível é que Lázaro, Maria e Marta são irmãos e são a exemplificação da trindade de Lázaro enquanto espírito (adormecido e doente, a ser auxiliado por Deus), Maria enquanto Alma pura, virtuosa, virginal que busca a Cristo, sendo a amada, e Marta enquanto corpo que trabalha. Esses três são a literal representação também de uma só pessoa, pois espírito, alma e corpo são irmãos. Aí se pode alegar: mas o corpo não irá ganhar o reino dos céus. De fato, não como o conhecemos em carne hoje, não, assim como o filho pródigo: como pródigo ele não retorna à casa do pai – como pródigo ele sai, mas como filho arrependido ele volta. É o mesmo filho na aparência, mas não do mesmo modo, assim como outros corpos herdarão o reino, sabemos, por exemplo, o corpo-alma, mas não o corpo físico, só que o corpo físico é aquele que dá nascimento ao corpo-alma, por isso ele é importantíssimo, e por isso que o filho arrependido não é o mesmo que o filho pródigo, mas nasce do filho pródigo. Em aparência são os mesmos, mas em essência não, e os corpos nossos também são parecidos, mas não em essência. Ainda que a Essência verdadeira seja imutável. O que torna tudo um paradoxo, mas de simples resolução se compreendemos que é uma questão de que uma essência inconsciente, ou, por exemplo, nós quando crianças não somos a mesma criança de quando crescemos e temos consciência dessa criança interior, que é a mesma, mas por nossa evolução, se torna lapidada e, portanto, outra – filha daquela primeira, ainda que inevitavelmente e paradoxalmente a mesma. A consciência faz com que se reconheça a imutabilidade da criança, mas ao mesmo tempo faz com que sua atuação nos mundos seja outra, muito mais verdadeira. Por isso que na separatividade são essencialmente diferentes, mas na unidade são essencialmente as mesmas, essa é a diferença de aparência e literalidade, bem como se pode dizer o mesmo dos corpos, de toda materialidade e espiritualidade, na verdade, desde que vistos pelos olhos já purificados, sem que o corpo físico deixe de ser inimigo e, ao mesmo tempo, campo de batalha. E como se diz na tradição judaica, no campo de batalha onde se joga contra o time da casa é uma luta muito mais árdua, porque o time da casa tem vantagem, ou seja, o inimigo nos vence com maior facilidade.

Mas a forma de vencê-lo é através do nosso único literal Mestre: Cristo Jesus, porque não se deve chamar de Mestre exceto aquele que é a Luz, pois nenhum irmão, por mais velho ou maior que seja, deve ser assim chamado, pois não se chama um cristal de Luz só porque a Luz passa por ele e o usa como veículo purificado. A Luz é a Luz, a taça é a taça, nenhum irmão deve ser chamado de Mestre, senão Deus. Deus guia, as creaturas – nós – nos auxiliamos, nos ajudamos, fazemos trocas, no máximo, trocas e doações, dentro do possível. Mas mesmo as doações é daquilo que Deus nos dá, então não somos nós que doamos, é Deus que doa através de nós, e mesmo o auxílio, nós auxiliamos porque na verdade somos ponte para que Deus nos auxilie, que é o verdadeiro Lázaro, o verdadeiro espírito. E as maiores possibilidades de crescimento espiritual residem no Catolicismo e na Rosacruz. Não há, é preciso deixar claro que não há grupos, ordens, nada acima da Rosacruz além do Catolicismo, e nada mais importante para o Catolicismo do que a Rosacruz. São os dois pilares, do Filho e do Pai. Só se chega ao verdadeiro Catolicismo, à Santa Igreja interna verdadeira e guardada, ainda, em silêncio, se se passa pela Rosacruz, pois é a Rosacruz que vela pela religião do Filho e o Catolicismo que vela pela futura religião do Pai. Não falo aqui da Igreja Católica externa, nem da Fraternidade Rosacruz, essas instituições são apenas sombras distantes do que viveremos e vivemos nos mundos mais sutis. Elas são apenas, mesmo em campos mais sutis, como no caso da Fraternidade, apenas um andamento ainda do Espírito Santo em trabalho silencioso. Sim, ambos são ainda o que se adora dizer como jeovístico. O trabalho Crístico em si só se dá em sua magnitude na Ordem Rosacruz, bem como o trabalho do Pai se dá pelo Catolicismo, que é o Universal instituído através de seu Filho. Acima da Ordem Rosacruz só o Catolicismo. Não cabe tratar detalhes agora, mas dualidade alguma está acima da Ordem, senão a plena unidade católica.

E enquanto uns afirmam que a Ordem Rosacruz foi instituída por Lázaro ou João, eu digo que a Ordem Rosacruz foi instituída por Maria Madalena. Que a Igreja é o corpo de Cristo Jesus, assim como a Ordem é o corpo de Maria Madalena. E que Maria Madalena e Cristo Jesus é que fazem o trabalho na Terra de Fogo e de Água, e que é esse casamento que deve ser feito (aos que já passaram pela dualidade inferior de Caim e Abel), e eles se casaram, porque são o perfeito exemplo do que nós devemos fazer enquanto seres… o que nada tem a ver com o casamento das aparências que enganam os nossos olhos da carne, mas é o casamento literal verdadeiro, em Letra no Livro da Vida – só que para ele se dar, por exemplo, é necessário que se passe pelo celibato. Assim como Madalena passa pela prostituição, Jesus tem que passar pelo celibato para que nasça Cristo Jesus.

E por isso a literalidade é extremamente simples, ainda que não necessariamente fácil. E por isso Maria, a mãe, é eternamente Virgem. E astuciosamente debater sobre seu hímen é algo que ninguém deveria nem perder seu tempo, retomando aqui o antigo exemplo. Aqui eu uso da lógica e da analogia para mostrar todas essas coisas num campo literal, da Letra Viva, porque chega o tempo em que já não convém mais continuar repetindo mentiras e vai se tornar cada vez mais claro quem continua mentindo para si mesmo e para os outros. Uma coisa é ser inocente, verdadeiramente não entender, não conhecer, não saber, outra coisa é ser ignorante. Só é ignorante aquele que ignora algo, o ignorante é aquele que ignora algo que se apresenta a ele. Existem graus de ignorância, é verdade, porque o tempo todo nós ignoramos coisas que estão acontecendo, enquanto eu aqui falo eu ignoro outras coisas que acontecem ao redor, mas há ignorâncias que não são desculpáveis, há ignorâncias que são de nossa responsabilidade fazer com que parem, com que tomemos conhecimento daquilo da maneira devida e respeitosa como merece ser tomada. Quer acreditar em outra coisa? Acredite no que quiser, ótimo. Mas continuar questionando de maneira astuta e maliciosa as verdades inegáveis… isso já não será mais possível sem passar por grande vergonha.

Chega a hora de crescer e se responsabilizar pelas besteiras que estamos a fazer. Porque não adianta culpar Lúcifer. Essa história de que o mal, a culpa é do mal… o mal tem um trabalho a fazer, e quem não acredita que o mal tem trabalho a fazer, e que Lúcifer caiu porque quis e nunca mais vai evoluir, não importa, a decisão é de cada um quando passa pela tentação, ou seja, a responsabilidade de cair é nossa, não dele. Eu piamente acredito que todo o que cai tem a possibilidade de retorno, nós somos decaídos, porque nós enquanto humanidade decaímos e é preciso que agora nos elevemos, e já foi aberta essa porta através de Cristo Jesus, Ele é a Porta, porque o centro solar veio resgatar o centro humano para que seja possível que todos os homens em sua individualidade ascendam.

Agora, é claro, quando eu falo sobre os anjos decaídos terem a possibilidade de redenção, quer dizer que vá acontecer? Não. Quer dizer que seja provável? Eu não sei. Quer dizer que evoluiriam da forma como hoje são? Óbvio que não, pois nem nós herdamos o reino dos céus como somos hoje, mas é preciso herdá-lo através do nascimento de outro corpo, de outros processos dos quais ainda somos inconscientes maior parte do tempo nessa nossa vida ainda. E os anjos decaídos dependem, inclusive, de nós para evoluírem algo, caso queiram (pois sempre depende do livre-arbítrio) e caso seja possível, porque também depende da vontade divina, acima de tudo. Mas todos temos uma essência divina, e é ela e nela que acredito que possa retornar à casa do Pai. O joio será separado do trigo? Sim, já está literalmente sendo separado todo o tempo, nós que não vemos, ficamos esperando a aparência das coisas se darem, quando a literalidade dos eventos, ou seja, o acontecimento da separação no Livro da Vida através da Letra, é completamente diferente de isso ocorrer nas aparências, e estamos tratando justamente disso – ainda que seja importante frisar que tudo o que acontece de forma reta na literalidade, simbologia e arquétipo de maneira contundente sim se manifesta na aparência, mas não segue a lógica racional humana de causa e efeito como estamos acostumados, mas sim de efeito e causa divinos, e para ver isso, é preciso ter olhos. Um exemplo rápido de manifestação na aparência da retidão da literalidade, simbologia e arquétipo é a prisão de São Paulo, ele se dizia preso de Cristo e em Cristo, na aparência isso seria colocar aparentemente uma algema nele e em Cristo Jesus – faz sentido isso? Obviamente não. Mas as aparências da prisão sim se deram através dos homens, e era necessário que assim fosse para que ele próprio pudesse ganhar maior consciência do que passava. Ou seja, aquilo que a nossos olhos é horrível, em verdade era uma grande benção de ser vivida, pois valida e corrobora sua retidão necessariamente. Por isso Lúcifer, as aparências, quer queira quer não, quando alguém anda reto com Cristo, trabalha para que a ciência se dê para ampliação da consciência, é inevitável. Ou seja, o mal trabalha para o bem, é escravo do bem.

Mas voltando para a questão da evolução e dos decaídos, há seres que provavelmente não conseguirão seguir neste tempo evolutivo? É provável que sim, eles ficarão num eterno inferno, ainda que não sem fim, pois só a eternidade é eterna em si, e qualquer adjetivação quanto a algo eterno significa que pode deixar de sê-lo quando convir. Por isso não existe vida mortal, pois enquanto se morre, se está em morte, literalmente, literalmente se está morto, pois a Vida é a própria ausência de mortalidade, ou seja, não significa nem que ela em si seja a eternidade, mas que a finitude da consciência é algo ilusório, podendo-se então afirmar que a Vida é Eterna, ainda que ela em si mesma não seja a eternidade, podendo o inferno e a morte ser eternos também. Pois o que ocorre eternamente não quer dizer que não termine em algum momento, que mude em algum momento, pois a eternidade é sempre o presente em acontecimento na atualização do passado e do futuro. Enquanto se vive o júbilo e a alegria, se está literalmente eternamente sendo alegre, quando se vive a cegueira, se está eternamente literalmente vivendo no inferno. E ambos podem acabar a qualquer momento. Porque a eternidade não é ausência de movimento. Somente Deus é imutável, nós estamos e seremos sempre a mutabilidade enquanto vivência, ainda que perene sim a nossa Essência, que é o que vem de Deus e temos de mais semelhante com Ele, e por isso estando Ele mais em nós do que nós em nós mesmos, como disse Santo Agostinho quanto a si perante Deus, porque raramente estamos em nosso centro, em nosso cerne. Assim como Deus também, ao se fazer presente nas Suas obras, também nos mostra como a mutabilidade e movimentação e evolução é algo que devemos almejar para nos tornarmos mais nós mesmos, pois Deus é em si mesmo, Ele é, mas ser Deus, para se ser Deus, é preciso sair de si e caminhar em direção ao outro, ou seja, é preciso doar-se e sair de seu próprio cerne como ser puro. Para Deus, que É Aquele que É, não há necessidade nem sequer de ser Deus, enquanto denominação, é como dizer: Deus é, não é preciso dizer Deus é Deus, Ele não precisa tornar-se objeto de si próprio para se tornar o que é, pois Ele É e isso basta, mas nós sim temos a necessidade de nos tornarmos Deuses, porque nosso processo é inverso: é preciso se tornar um Deus para se chegar de fato ao ponto de Ser, pura e simplesmente. Pois é como um retorno.

E eu, que amo os do fogo tanto quanto os da água, eu particularmente acredito piamente na salvação de todos os decaídos, inclusive de anjos decaídos, talvez numa grande inocência minha ou mesmo astúcia interna, ainda que seja muito improvável tal evolução, porque é preciso querê-la, e eu não sei dizer se aqueles que trabalham como mal querem evoluir de fato, mas creio! Assim como é sempre possível, ainda que improvável, a queda de quem está no alto – e por isso, sempre filtrem o que eu e todas as pessoas falam, principalmente os que considerarem grandes, quanto mais alto se sobe, mais baixo se cai… porque não é porque Jacob Boehme falou que é toda a verdade, pois a nossa limitação limita o conhecimento que é passado, e por isso a Bíblia é o perfeito exemplo de que o que é grande é trançado por várias mãos, vários indivíduos, portanto não adiantando ler apenas um livro de um dos santos para ter conhecido toda a vida de Cristo ou todos os ensinamentos do alto, não, é preciso ler todos os livros de todos os que escreveram a Bíblia, porque precisamos da visão coletiva para chegarmos ao cerne (não sendo um único humano capaz de resumir todo o conhecimento numa obra, seja ele filho do fogo ou da água, não importa), e Deus não fará isso porque Cristo Jesus não deixou ele mesmo nada escrito, pois somos nós que temos o dever de obrar esse tipo de trabalho, Deus veio e deu exemplo das obras ao contar as parábolas, por exemplo, mas a cristalização disso para aprendermos e passarmos para frente esse conhecimento, somos nós os responsáveis (junto das hierarquias, claro), sendo o ser humano responsável pela matéria química e o que nela se estrutura a longo prazo. O que um diz apara a necessidade de transformação no que o próximo fala, nós damos acabamento uns para o trabalho dos outros, não há isso de um ser humano conter toda a verdade e esperar todos se iluminarem por aquele livro e acabou (por isso a Bíblia é uma coletânea de livros, aliás), e é ainda preciso ver que há a necessidade humana, e de aprendizado com o próprio Deus, de inovação da creação, e, portanto, de evolução dos próprios ensinamentos, ainda que certos ensinamentos em essência sejam imutáveis, como os da própria Bíblia, a sua paradoxal inovação pelo próprio Deus é demonstrada, por isso um Antigo e um Novo Testamento e ao mesmo tempo Cristo dizer que não veio revogar as Leis, não anular o Antigo Testamento, mas ao contrário, cumpri-las e, aliás, estreitá-las.

A possibilidade de queda de um ser de Luz é para que a gente continue tendo humildade, para ver que a nossa luz e bondade nada são e que o Sumo Bem é Deus, e que se somos seres capazes de alguma irradiação, de algum calor, de algum Amor, é porque Deus nos dá esse dom, e que a qualquer momento podemos cair, podemos negá-lo, porque Ele nos dá essa possibilidade, assim como podemos também não trabalhar de maneira apropriada e Ele deixar de dar esse dom a nós, se não temos capacidade de carregá-lo e exercê-lo de alguma forma. Assim como a possibilidade de redenção do mal – não que o mal vá se tornar algo bom, porque o mal é mal, mas a essência, a possibilidade da essência de que ele foi feito, porque mesmo a ignorância, tudo provém de Deus, ainda que seja sombra – a sombra provém da existência do Sol, ainda que não seja o próprio Sol que produza a sombra, mas um resultado da formação de suas criaturas, então, ainda que essas sombras sejam, no fundo, pertencentes a existências que foram concebidas em Deus, e por seu processo e escolha passaram a produzir e viver para essa sombra, ainda assim, a possibilidade de redenção dessas existências decaídas – que somos nós, porque não falo só de Lúcifer, porque nós caímos, então quando falo de existências decaídas somos nós, humanos comuns, e também os anjos decaídos, porque para passar ao Ser e sair da mera existência é preciso se cristificar através da fé (que é obediência, pobreza e castidade) e do arrependimento (que é retrospecção e contrição) – então a possibilidade da redenção dos decaídos é para que nos mantenhamos também em alegria, porque é a própria misericórdia de Deus manifestada em seu mais alto grau.

Então a possibilidade de queda é para nos mantermos humildes, e a possibilidade de redenção é para nos mantermos alegres, termos bom ânimo e vencermos o próprio mundo, o mundo no qual astuciosamente acreditamos, confundindo literalidade com aparência. E não importa a probabilidade de ambas as quedas e redenções acontecerem, não importa os números, ou quantos conseguem alcançá-lo enquanto feito. O que importa é que Deus assim fez para que o céu e o inferno sejam eternos, mas havendo possibilidade de fim para ambos de acordo com nossas escolhas, pensamentos, desejos e ações a todo momento. Por isso a Vida, a Vida verdadeira, a Vida a todo momento, ela é seríssima, ela é a maior responsabilidade que temos, ela é a joia mais rara e preciosa, a pérola mais perfeita que já foi feita, e nos foi dada de graça, nos foi dada eternamente, nós que estamos cegos e somos mortos ainda para toda a sua glória, porque Deus fez de modo tal que devemos merecer tal graça. A Vida é uma graça, e é de graça, porque não há um preço a se pagar por ela, mas há sobre ela toda a eternidade enquanto responsabilidade, e isso naturalmente faz com que seja presente o fato de que devemos fazer por merecer para que ela a nós se revele e também seja revelada. Pois essa Vida de que falo é a que vem da Árvore da Vida, para além de todo bem e mal que se conheça, se intelectualize e se saiba. Mas para se chegar nela é preciso antes Conhecer, com tudo o que conhecer nos traz enquanto carga, ou seja, comer da Árvore do Conhecimento – sendo que já falei um pouco sobre isso na Poesia da Inteligência, do Conhecimento e da Sabedoria, basta procurar.

Por isso é preciso orar e trabalhar, fazendo com que o que está na Luz permaneça nela e o que está na sombra vá até ela, seja apreendido por ela, por isso somos responsáveis também pela evolução uns dos outros, e por isso quando um se ilumina, por menor que seja essa iluminação, mas no sentido de que deu um passo na evolução e chegou um passo mais perto de Deus, todos as existências decaídas ao seu redor andam com ela e se abre a porta para que deem um passo também. Claro que muitos se afastam, muitos sentirão repulsão, e não atração em continuarem com ela, caminharem com ela em direção a esse novo raio que surge, ainda que mínimo aos nossos olhos. Mas há quem sim tenha sua sombra apreendida um pouquinho mais nesse processo.

Por isso não é sobre a Minha salvação enquanto pessoa individualizada, espírito cristificado e matéria marianificada, não é sobre isso. O meu dever, enquanto evolução pessoal, está muito além de mim, porque quando me torno um indivíduo é a partir daí que se torna de fato a colheita, colheita está etimologicamente ligado àquilo que acontece em coletivo. Evoluir, crescer, num primeiro momento é pra gente mesmo, para encontrar a si mesmo, pra voltar pra Deus, pra ser alguém melhor etc., mas com o tempo, com a maturidade, vemos que evoluir é de fato a única maneira de Amar o próximo, Amar os inimigos, curar o próximo e, acima de tudo, Amar a Deus, porque não é quando um filho volta, mas é quando se abre a possibilidade para que vários filhos voltem, e não há maior alegria para um Pai do que, em vez de ver apenas um filho voltando, ver, junto deste um, vários outros vindo atrás dele, não porque é herói ou exemplo de algo, pelo contrário, mas porque, como Cristo, ele se fez servo de todos eles, então ele não é aquele que chega soberano em cima do carro, mas é o burro de carga que vai na frente carregando o Cristo dos outros nas costas, como fez nosso próprio Deus, como Cristo Jesus e Maria Madalena.

E é claro que todo filho só volta com os próprios pés, não é sendo puxado numa charrete ou carroça que se volta para Deus, mas é como se pudéssemos dar uma carona para que cheguem mais longe do que seriam capazes se estivessem sozinhos, e são eles que ditam o ritmo, as paradas etc., ainda que seja sempre o burrico, o jumento que vai levando, até onde seja possível levar, até onde o Pai quiser que assim seja e o outro também quiser e aguentar.

Que sejamos literalmente aqueles que carregam a evolução nas costas, pois isso se conecta também com as letras estarem literalmente em nossa coluna verticalizada, assim como os números, bem como a escada, e o fogo que por ela sobe. É tudo simbólico e arquetípico, mas saibamos que é, antes de tudo, literal. É literatura, meus amigos, está nas Letras, está dado no Livro da Vida, basta pedirmos olhos para ler o que está escrito e ouvidos para ouvir o que nos é dito, pois tudo isso nos é cantado o tempo todo em gloriosos hinos.

Então que possamos, literalmente, simbolicamente e arquetipicamente caminhar…

Eu ainda falarei mais sobre tudo isso. Aos poucos seguimos…

Que caminhemos sob e sobre a mão de Deus a nos guiar e nos guardar.

Amém.

a Poesia da Evolução . : . [Alfabetização e a Mensagem do Rei]

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

 

A Poesia da Evolução.

O que é evoluir?

A palavra evolução vem do Latim, evolutio, que significa ‘ato de desenrolar um livro’, que na época eram pergaminhos em rolos, sendo que evolutio vem de evolvere, que significa ‘desenrolar livros’, formado por ex-, que significa fora, junto de volvere, que significa enrolar.

É possível ver então como a evolução está intimamente relacionada à figura do livro, e sendo o livro relacionado à escrita e à fala, em suma, à leitura, que compreende ambas as funções, podendo também observar o fato de que a evolução está intimamente ligada ao se ser alfabetizado e aprender a ler e escrever, bem como a ouvir e a falar. É claro que a evolução não depende apenas da literalidade desses atos, mas passa pela literalidade ao caminhar até a metáfora.

Quando admitimos então que a evolução passa necessariamente pelo fim do analfabetismo, para que haja uma tomada de ciência, vemos que é um estar ciente (que é aprender) para então passar a ser ciente (que é apreender), dominando, aos poucos, a ciência da palavra.

Como vimos na Poesia do Coração, o aprendizado se dá pela via cerebral, enquanto a apreensão se dá pela via cardíaca, sendo que agora podemos também observar que o verbo ‘estar tem relação direta com o processo cerebral, e o verbo ‘ser tem relação direta com o processo cardíaco. Mais uma vez corroborando para nossa visão de que só se passa ao Ser de fato ao se purificar e conectar com o Coração, necessariamente.

Logo, primeiro, quando eu leio um livro, eu fico ciente de algo, ficar ciente ou estar ciente é um estado – eu estou ciente quando leio, porque estou aprendendo, e, caso eu apreenda o que ali é passado enquanto ensinamento, eu serei ciente, eu sou ciente, porque se eu pratico o que está escrito nos livros, eu saio de um decoreba e passo para uma internalização do conteúdo de fato. Então, é nessa possibilidade que devemos caminhar, ainda que ela, no mundo, muitas vezes esteja deturpada, fazendo com que a exigência de uma alfabetização seja necessária para ser de algum valor terreno, ou mesmo valor espiritual, havendo, assim, preconceitos contra analfabetos. Contudo, não me refiro aqui a ditos analfabetos que são astutos e sabem muito bem conhecer as entrelinhas e tirar vantagens delas, inclusive conseguindo cargos justo sob o paradigma do analfabetismo, mas falo sobre pessoas simples, inocentes, que na Poesia do Coração vimos ser os Filhos da Água, pessoas do Coração, que não entendem, mas que puramente, virginalmente, castamente sentem, e que muitas vezes são humilhadas e sofrem abusos dos mais diversos por não possuírem a ferramenta da escrita e da leitura, ou seja, ainda não terem uma conexão material com o inteligível, com o cérebro, pois, como diria Cristo: sede astutos ou prudentes como a serpente e inofensivos ou mansos como a Pomba, sendo que, caso se dê a separação da Serpente e da Pomba em nós, mais divino é ser manso como a Pomba, ainda que o mundo (astuto como a Serpente que ainda não se elevou, que não foi erguida tornando-se submissa à flauta, ao caniço, à doçura da cana que toca) tente o tempo todo engolir tal pessoa ou conseguir as coisas às custas dessas pessoas, por saber astutamente conquistar seus corações de pouco entendimento, fazendo delas (dos mansos) pontos de apoio para que consigam, enquanto serpentes que são (apenas), se manterem no poder, eis a lógica da exploração – não só física, mas também psicológica, emocional e, até mesmo, mental.

Ou seja, o que se pode ver é que as pessoas devem ser alfabetizadas para evoluirmos, sendo que evoluir, neste caso, atua como verbo, o que é diametralmente oposto ao fato de se classificar pessoas analfabetas como atrasadas ou involuídas, fazendo com que não seja o verbo atuando, mas sim o adjetivo. Pois uma coisa é evoluir, outra coisa é se achar evoluído. Ninguém é necessariamente mais evoluído por ser alfabetizado, mas uma pessoa que se alfabetizou necessariamente tem mais portas a se abrir, ela ganha a possibilidade de abrir mais passagem, para além de ficar olhando pelo buraco da fechadura (que é o Coração, como vimos em sua Poesia). É claro que isso não quer dizer que a pessoa necessariamente vá evoluir, porque ter portas não significa abrir as portas, mas é dar a possibilidade para que haja a passagem.

Contudo, saber da fechadura e ver do outro lado por ela, permite, por milagre, que o Amor nos conduza até lá, pois vimos que o Amor é a chave, mas, também como dito, o místico, os filhos da água, a pessoa cardíaca, mansa, os que são como a pomba, acabam não vendo a porta e não entendendo como passaram para o outro lado, e o batismo de fogo necessariamente passa pelo fato de, antes, precisarmos aprender e apreender o porquê dos acontecimentos se darem. Ou seja, tomar ciência de que há portas (Mente) e que elas devem ser usadas junto das fechaduras (Coração). As duas andam necessariamente juntas. Mas, diferente do mundo físico em que estão grudadas, no mundo espiritual elas estão, primeiro, separadas, podendo uma andar sem a outra, sendo necessário nosso esforço para uni-las junto da graça divina, sendo que a separação delas espiritualmente acaba causando anormalidades, porque o cérebro passa a abrir portas que são fáceis, e que muitas vezes sequer precisam do Amor para serem abertas de fato (que já vimos ser a chave-mestra na Poesia passada), enquanto o coração nos faz ir aonde o Amor quiser, mas não se evolui, não se aprende, por assim dizer, o alfabeto das passagens muitas, se sabe porque se foi levado – não porque se entende o caminho de fato. Bem como há passagens que só são abertas quando ambas, porta e fechadura, são penetradas, por milagre (ou seja, por união da vontade do homem e da vontade de Deus), pelo Amor. E aí somente Ele as abre.

Deus é Luz. Deus é Amor.

É preciso compreender que, havendo Amor, isso significa que necessariamente há a presença divina imperando para que dois outros sejam, como porta-fechadura, eu-tu, coração-mente, e se encontrem na sincronicidade anafórica do cronológico tempo, ou seja, numa espécie de coincidência que remete a um encontro anterior ao tempo cronológico do presente momento. A compreensão de que é preciso confiar, ter em Deus para que se viva a presença Viva dEle, é crucial para se entregar à graça em cada encontro, sendo que essa entrega nos purifica para que tudo se torne novo e genuíno, sendo possível, depois de toda a purificação necessária dada por essa graça (o batismo de água, vindo pela vivência da graça em uniões cada vez mais iluminadas), começarmos, quem sabe, a compreender como se gera um terceiro elemento a partir dos dois manifestados com a benção divina, ou seja, viver uma concepção imaculada.

Se eu uno o coração à mente, por exemplo, um terceiro se apresenta, como um filho de uma união de polos que se complementam. Eu comentei, por exemplo, já em Poesias anteriores, que a intuição é derivada da união do coração com a mente, sendo uma espécie de filha deles, porque, na verdade, ela é como uma quintessência que se apresenta a partir das relações (externas e internas) que cultivamos pelas vidas (passadas e presente). Certas literaturas, por exemplo, nos dirão que a intuição é derivada da união de duas glândulas: a pituitária e a pineal; sim, é certo, mas é preciso distinguir que me refiro a uma visão arquetípica do fenômeno, que pode ser poeticamente sintetizado como união. A união da mente com o coração é um passo anterior ao da pituitária e pineal, pois a pituitária e a pineal são a apresentação de tudo isso em creação, manifestação e evolução dentro um outro corpo: a mente.

Outra forma de ver isso é pelos astros, pois é como se o Sol, simbolizando o Logos, o Verbo, Cristo, fosse a Mente do sistema solar e como se a Terra, simbolizando aquela que recebe Cristo Jesus, Maria – a matéria virgem, purificada (sendo três as etapas de purificação dela, por isso três Marias, estando como prostituta ao começo (Maria Madalena) e terminando como mãe de Deus, aquela que deu nascimento a Deus, ou deuses), fosse o Coração do sistema solar. É preciso que haja a união de um com o outro, e isso quem nos ensina é Cristo… sabemos esotericamente que todo ano Ele vem à Terra e volta ao trono junto ao Pai, como quem faz um movimento de maneira a unir o Coração do sistema solar à Mente do sistema solar. E nós, enquanto indivíduos e coletivo, devemos vivificar esse Coração através dEle para que um dia voltemos de onde viemos: do Sol, pois tudo é Mental – como nos diz os princípios herméticos, contudo, isso não significa abrir mão do coração em si, mas nos revela que dois órgãos, tal qual coração e mente, estão sendo forjados dentro da própria mente, pois é como se, ao a mente se tornar de fato um corpo, não precisássemos de outros corpos, ainda que sendo necessário desenvolver dentro dela, assim como desenvolvemos nos outros corpos, órgãos semelhantes aos que me refiro como Coração e Mente, ou Coração e Cérebro. Ou seja, quem for capaz de viver a intuição superior, pelas glândulas, é porque provavelmente já terá alcançado uma maestria da intuição da mente com o coração. Ambas são a mesma intuição, mas em graus distintos, em momentos distintos, em situações e vivências distintas, assim como construir paredes é outra etapa do mesmo processo que construir teto, sendo ambos o construir de uma casa. Ou seja, é a lapidação gradual de um novo corpo, novo reino, nova Jerusalém, novo sistema solar, novo tudo…

Contudo, é preciso ter muito cuidado com tudo isso, pois muita coisa é dita e escrita sem o menor sentido de retidão, ou seja, de caminhar reto em direção a esse novo Lar como evolução gradual de tudo, e o que não nos faz andar reto, nos enrola, em todos os sentidos – é uma enrolação. É preciso se atentar porque tem muitas pessoas, por exemplo, que se pensam ocultistas, que julgam abrir muitas portas – as tais ditas portas da percepção etc., se autonomeando místicas, esotéricas, mas que não passam de abridores de cercadinhos. Torna-se importante também mostrar que as drogas, sejam lícitas ou ilícitas e seja da espécie que for – natural ou fabricada –, algumas delas agem de forma a esmurrar certas portas, a chutar outras, a derrubar na porrada, à força, sendo o passaporte para a loucura, esquizofrenia etc., outras agem de forma a nos fazer como que voar por cima desse labirinto de portas, nos dando a sensação de que estamos acima delas, mas, na verdade, é apenas um voo com asas de cera, tal qual Ícaro, que terminará por nos fazer morrer mais para frente. Outras ainda agem alterando nossa percepção em relação à porta, nos fazendo ficar parados admirando a porta ou batendo à porta em vez de sermos ativos e tentarmos abri-la por nós mesmos. Por fim, há ainda o tipo de droga que abre algumas poucas portas no lugar da nossa mão fazê-lo, ou seja, até podemos aprender algo com algum tipo de droga, mas elas em si jamais fazem o trabalho que devemos fazer quando sóbrios, e ficar recorrendo a elas por muito tempo é, no mínimo, causar fraqueza em si mesmo, quando não a própria loucura, prisão ou morte.

(Falo, não com julgamento mundano, mas com propriedade de quem já experimentou várias drogas).

Com isso podemos ver também como muitas coisas podem se revelar ser drogas sem necessariamente sê-lo na forma estética, no sentido de que uma religião pode ser uma droga se a pessoa fica na frente da porta gritando para Deus abrir essa porta que simplesmente a pessoa deveria trabalhar para abrir com o Amor que já foi dado como chave a nós, ou silenciar para que um milagre de fato acontecesse, podendo a droga estar em qualquer coisa do mundo material, como no trabalho e no estudo, dando a sensação de que estamos aprendendo muito, quando na verdade estamos apenas passando pelas portas que os outros querem que passemos, sem que no fundo tenhamos escolhas por nós próprios.

Muitas são as coisas que nos dopam, começa pela droga física e pode chegar a drogas mentais, como ter os mesmos pensamentos todo dia, fazendo o mesmo percurso sempre. Se pensamos sempre do mesmo jeito, também estamos limitados apenas às portas que já conhecemos – também conhecido como síndrome de Gabriela: eu nasci assim e vou morrer assim, tendo apenas aberto uma porta a vida inteira, como quem só vai do quarto pra sala, da sala pro quarto, sem jamais sair sequer para o jardim, sem sequer cogitar essa possibilidade ou tendo preguiça, porque abrir uma passagem nova de fato não é nada fácil.

Abrir portas e fechaduras internas requer esforço, assim como na vida real externa: temos que sair de onde estamos (nossa zona de conforto), caminhar até a passagem, possuir a chave certa, mover os braços, enfiar a chave na fechadura, rodá-la, mover a maçaneta, empurrar a porta, caminhar – passando por ela… o que acontece é que tem portas, dentro de nós, espirituais, que são pesadas, imensas, e outras minúsculas, sendo preciso nos humilharmos, ou seja, nos tornarmos húmus, terra, pó para que passemos por ela. Há portas e passagens de todos os tipos, por isso é fácil se confundir e crer que abre portas quando se está a ir-e-vir dum cercadinho, ou ainda crer que viu e conheceu todas as portas fazendo uso de drogas (que pode ser chave para algumas poucas portas, mas definitivamente está longe de ser a chave para todas elas), bem como fácil se enganar quanto a aonde se está indo e aonde uma determinada porta irá nos levar, e é fraqueza e preguiça deixar de tentar sequer abrir – que é o pior que pode haver, se tornando cada vez mais morno, indiferente, ou sendo frio de forma violenta: atropelando o fato de que as portas e fechaduras precisam existir, e sair dinamitando tudo para abrir caminho, numa anarquia doentia, para não dizer com distúrbios de personalidade narcisista, ou ainda sócio ou psicopatia, tal qual uma personagem como o Coringa, ou mesmo na vida real um Nietzsche, por exemplo. E claro, por fim, mas não menos importante, tudo isso mostra o imenso perigo que é se deixar levar quando outros estão nos guiando, mesmo quando somos guiados de forma aparentemente mansa…

Por isso é preciso, é necessário, é inevitável aprender e apreender o alfabeto (desde o do mundo até o da Vida), estar e ser alfabetizado (externa e internamente), pois só assim se deixa de estar à mercê dos outros de forma cega, pois mesmo que se alegue ser obediência (quando quem nos guia é puramente manso) ainda assim só é obediência realmente quando entendemos qual a ordem que estão nos dando, qual serviço nos é exigido, qual ação nos é solicitada, qual missão nos é designada, e o entendimento passa pela concepção mental do que está sendo ansiado, e a alfabetização total nos protege principalmente de predadores, de pessoas que ainda estão num estado límbico ou reptiliano de vivência (e para mais a respeito do cérebro trino, sugiro a Poesia da Igualdade e a Poesia do Herói), ou mesmo pior: à mercê daquelas que, além disso, fazem um uso frio do néocortex.

Ou seja, precisamos de fato Ser astutos e prudentes como a serpente e inofensivos e mansos como a Pomba. É nessa união que se dá a verdadeira luta contra a astúcia maliciosa, da vaidade própria em se achar mais inteligente do que os outros, e contra a ingenuidade boba que cai no discurso de qualquer um que mexa com a água interna, ou seja, com as emoções internas da pessoa. Pois a água deve aprender a equilibrar a gota de óleo com o fogo nela mesma, já não podendo qualquer movimento levá-la aonde ele queira, bem como o fogo deve compreender que deve ser estreitado pela água para estupidamente não acabar inclusive sendo apagado caso ele se alastre sem o menor cuidado.

É como na história do filho pródigo [Lc 15:11-32]. O filho que fica em casa e que é manso, casto, virginal, puro, é quem nos referimos como sendo as pessoas cardíacas, os filhos da água, que agem com o Coração. O filho que pede sua parte na herança e sai da casa de maneira pródiga, rebelde, mercenária, astuta, inteligente, mundana, é a quem nos referimos como sendo as pessoas cerebrais, os filhos do fogo, que agem com a Mente. Quando o filho pródigo volta arrependido, quando finalmente o coração lhe bate e ele retorna, o filho místico, manso, fica com muita raiva, irado com o fato do Pai receber de volta um filho que agiu de forma tão leviana no começo da história, e não somente receber, aliás, mas proporcionar uma ceia para comemorar tal volta. Ou seja, o filho que era manso deixa de ser tão manso, o fogo finalmente lhe arde, seu cérebro desperta, ele entende o que aconteceu e apaixonadamente o sangue (nosso fogo interno) lhe ferve. Ele se torna, ainda que por um momento, um ser do mundo, se recusando a entrar novamente em casa; ele se rebela (ou seja, age com rebeldia) ao não aceitar o retorno do irmão, e inclusive sabe argumentar de maneira inteligente por que matar um cordeiro para a volta do irmão quando ele esteve lá o tempo todo e não houve, em sua homenagem, em seu nome, cabritos para festejar com os amigos

É como Caim e Abel. É necessário passar pelo assassínio até chegar na paz entre ambos para que finalmente haja o nascimento de um terceiro dentro de nós, Sete. Sete é, em verdade, o nascimento da união de Caim e Abel, que representam água e fogo, o filho santo e o filho pródigo, que queria fazer dum jeito próprio, mas completamente errôneo, sem coração, sem mansidão, sendo como uma serpente que engole a pomba – que é representado por Caim ao matar Abel. Iahweh, Jeová não tinha outra conduta senão ser Justo, justíssimo, ao não aceitar a oferta de Caim. Ele não é um Deus ciumento, como alegam filhos do fogo ainda ressentidos e feridos com sua Justiça, mas sim um Deus Justo, que fez o que era necessário para que ambos os irmãos aprendessem, com o tempo, a trabalhar juntos, havendo a possibilidade de nascer um terceiro a partir da separatividade e re-união dos dois primeiros. Se tudo ficasse bem, e ele aceitasse a oferta de Caim e de Abel, jamais teria sido possível nascer um Jesus para salvar a humanidade inteira. Jeová não podia aceitar o que não era justo que se aceitasse, é um Princípio que está e é acima Dele. Assim como vimos na Poesia da Inteligência, do Conhecimento e da Sabedoria que teria sido justo Salomão cortar em dois o bebê das prostitutas caso a mãe não houvesse se pronunciado e cumprido com sua missão, assim também é justo que se corte da fonte todos os que não cumprem sua missão.

E sabendo que tudo se dá para que se manifeste algo maior, ainda que não compreendamos, era preciso cortar e fazer podas, assim como analogamente fazemos com toda planta, para que se cresça ainda mais forte e melhor. Ou seja, para que algo superior se manifeste, conquiste a matéria, é preciso cortar vínculos com o que estamos acostumados, com aquilo que já se tornou repetição e não inaugura um novo ciclo. O que nos leva a ver que, para que Cristo se manifestasse, era preciso que Jeová fizesse as podas. Tudo no tempo preciso e exato para que estejamos e sejamos aqui, hoje, agora.

Nada está fora do Tempo, pelo Pai, determinado, que também ainda se manifestará. O que eu indico é que oremos e trabalhemos até lá, estudemos e nos amansemos, que nos esforcemos para que a união do fogo e da água em todas as oitavas se dê dentro de nós e em nosso Próximo, como em nós mesmos.

Agora, podemos nos perguntar: sendo o Pai Aquele que tem autoridade, por que não mandou seu filho ficar em casa? Por que não negou dar-lhe sua parte da herança? Por que permitiu que ele fosse embora? Oras, todo Pai Verdadeiro conhece o filho que tem, e conhecendo suas tendências, conhecendo seu Coração e sua Mente, sabe o que é melhor para o filho. Vendo que o filho pródigo era aquele que pendia mais para a Mente, permitiu que ele fosse para o mundo para provar do mundo, pois lembremos: a sabedoria está relacionada ao sabor, que se relaciona por sua vez com o provar, quando provamos algo estamos nos colocando em provas, e se entendemos que o sabor e o saber são relacionados com o Coração (por isso Salomão foi o homem mais puramente sábio, puramente místico, aquele que recebeu a revelação do Templo), observamos então como era necessário que o filho pródigo partisse para que ele mesmo fosse colocado em provações e, por provar, adquirisse a oportunidade de saber. Assim como era necessário que o filho manso ficasse em casa para que depois, na hora certa, em que só o Pai sabia quando seria, se rebelasse ao passar pela experiência do sangue fervendo por conta da ira, sendo que aí nos lembramos de como a experiência está relacionada com o Cérebro (por isso Hiram Abiff é aquele que representa o homem mais puramente entendido, puramente ocultista, aquele que era capaz de construir o Templo de Salomão).

Dizem que o encontro de Salomão com Hiram foi a oportunidade de se restaurar a humanidade, em termos de fazer as pazes simbolicamente entre Caim e Abel, e que um dos dois (ou uma das linhagens) não quiseram, mas devemos nos atentar que isso são as aparências. O que acontece é que precisava ser como foi, e dar errada a união desses dois porque essa união de fato se cumpriu como deveria, eles fizeram o Templo, contudo de forma externa. Era preciso uma nova queda para que, agora, todos possamos construir o Templo do outro lado: interno! Para que somente depois possamos viver a junção de ambos realmente, fora e dentro concomitantemente.

Uma outra oitava superior disso tudo é Jesus e Judas. Lúcifer é um anjo, contudo, por ter caído, é como se ele se equiparasse aos homens, e não mais aos anjos. Ele pode ser observado também na figura de Judas Iscariotes, a rebelde personalidade. Então é como se agora tivéssemos o dever de fazer nossa personalidade rebelde passar por provações, e fazer a nossa parte mansa ver o retorno dela à casa do Pai para que então passemos pela experiência de aprender a lidar com o ferver do sangue, sendo Cristo o cordeiro imolado que une todos à mesa e que finalmente une todos os filhos do Pai no Tempo designado por Ele. O cordeiro também é uma criatura do Pai, mas é como um terceiro filho velado, cujo sacrifício principal foi ter ficado desconhecido tanto tempo (ter aparentado estar morto), oculto em seu próprio reinado, e que, por puro Amor, ensina aos dois irmãos menores como unir aquilo que um dia, por necessidade divina, foi separado, sendo ressurreto no terceiro dia, pois no primeiro dia o filho sai de casa, no segundo ele retorna e o irmão se indigna, e no terceiro, após o indignado ter retornado à casa com a ceia de todos à mesa, o terceiro filho e irmão e amigo é desocultado, vivificado, coroado, pois ele era o que sabia do plano do Pai em permitir os irmãos menores Serem quem eles são para que o Reino seja verdadeiramente eternizado. E então todos os animais convivam entre si, sendo que jamais devorarão nem serão sacrificados.

E Judas é aquele que se enforca após ver como o que fez foi condenar ao irmão, sendo que era contra seu próprio irmão que ele tramava, achando entender algo, julgando ter entendimento e intelecto sobre o que se passava – como alguns dizem que, sabendo que era preciso sacrificar Jesus, ele apressa os acontecimentos e fatos, assim como também se diz que Lúcifer supostamente tentou apressar a entrega do fruto para Adão e Eva, indo ambos, Judas e Lúcifer, contra o Tempo pelo Pai designado aparentemente, pois em verdade vemos que eles foram apenas usados para que tudo se cumprisse de forma perfeita, e com consentimento manso do irmão maior na ceia, o próprio Cordeiro, Cristo; por isso chegava a hora em que o príncipe do mundo teria seu reinado arrebatado, pois seria erguido o Filho do Homem; Judas se achava um irmão mais velho que Jesus, afinal, a personalidade está habitando este mundo sem sua respectiva espiritualização cronologicamente há muito mais tempo (por isso a união de Marte com Saturno, de Judas com Satanás, ou seja, Lúcifer e Satanás na ceia ao Cristo entregar-lhe o pão), bem como representa Lúcifer vaidosamente se julgando muito acima dos anjos mansos de Jeová, bem como os filhos do fogo se achando mais velhacos do que os filhos da água, quando na verdade é todo o contrário. Sendo que o Cordeiro em si ainda seria morto para a verdadeira panaceia, ou seja, Judas só passaria do entendimento e ciência de seu erro para a apreensão da ciência, e até mesmo compreensão de seu erro brutal – por conta de seu vaidoso intelecto – ao ver o Cordeiro ser condenado à morte, tal qual irmão mais novo que ao ver o mais velho (que ficou quieto todo o tempo para que ele pudesse ter feito tudo o que fez e provado de tudo o que provou) de repente tem seu Coração, por milagre, tocado, jogando as moedas no chão e indo se enforcar, tendo relação com a carta do Tarô, o Enforcado, que se amarra pelos pés (também símbolo de Cristo, ou seja, de quem se submete ao Cristo, um Arcanjo, um irmão maior dos Anjos e dos Humanos), vendo tudo ao contrário, ou seja, vendo que a causa é final e tudo antes era efeito dela, como se todo o passado viesse dum futuro pelo Pai e pelo Filho Primogênito, mais velho que todos, constituído, planejado e vivificado, realizado, para que se desse o milagre de todas as coisas. Sim, porque tudo se dá de frente para trás em verdade, não é causa e efeito, mas efeitos para a revelação da causa primeira e última, a causa vem sempre depois, ainda que ela também seja o que principia o começo. Por isso é importantíssimo fazer o exercício de Retrospecção deixado pelo irmão Max Heindel, da Fraternidade Rosacruz, encontrando-se mais a respeito em sua conferência de número 11 (http://www.fraternidaderosacruz.org/mh_cr_conferencia11.pdf).

É como o rei de Midas que ao ganhar orelhas de burro por crer que a flauta de Pã fosse melhor que a Lira de Apolo, pede então para que Pã inverta a flauta… ao fazê-lo, todos veem que aí estava o instrumento de maior beleza, ganhando então de Apolo. O que nos mostra que ser capaz de escrever prosas como as da Bíblia é mais grandioso do que fazer poemas em versos, que seria a Lira. Como dito na Poesia do Coração, ainda seremos como Apolo e tocaremos Lira, faremos os mais belos versos, contudo, é preciso antes vencê-lo, pois é na força de escrever o lírico em prosa que está o verdadeiro alimento anímico que precisamos cronologicamente para agora. E é por isso, amados-amigos-irmãos, que lhes digo, é preciso que aprendamos e apreendamos o que significa ler e escrever… essa é a única Evolução! Então aprendamos primeiro a prosa, a tocar a flauta em seu sentido aparente para depois aprendermos, em algum momento, por milagre também de poder carregar um rei de Midas interno, a tocá-la de maneira invertida. Só depois de obtermos conquista em relação ao próprio Sol é que poderemos nos liberar da tarefa de sermos tão mortais planetas e, por fim, nos tornarmos verdadeiramente, tal qual como Apolo, uma estrela.

Por fim, pela Fraternidade Rosacruz podemos estudar que Judas se relaciona com a personalidade e, também, com o signo de Leão, pois esse é o desafio que esse signo nos traz: a vaidade da personalidade e individualidade, estando Judas também relacionado com Lúcifer, com quem aprende toda a astúcia maliciosa e mercenária. Se nos lembramos que Lúcifer guerreou com Miguel, conseguimos ver então a figura do leão alado e da águia que se enfrentam, sendo a águia também símbolo do Escorpião elevado, do apóstolo João, o Amado, sendo ele o símbolo do hermetismo místico, do maçom místico, da união do fogo e da água justo porque é o que ouve o Coração de Cristo, sendo Miguel quem acompanha Cristo muitas vezes nos combates, revelando como é importantíssimo passar pela Morte para Leão e Escorpião se tornarem realmente seres alados elevados, e estando aqui uma das chaves para a dissolução da quadratura entre esses dois signos, dificílima de ser conquistada. Sendo que podemos ver também como que, ao Cristo dar a Judas (à personalidade lucífera, também representada pelo sangue que ferve pelas coisas do mundo) o pão com molho para que lhe entre Satanás, sabendo que Satanás tem relação simbólica direta com Saturno (que rege os ossos e a pele), vemos aí o pão que é símbolo do corpo sendo dado para que o sangue (personalidade lucífera) e o osso (onde o sangue nasce, ao qual será submisso) possam trabalhar para que a cruz seja erguida com o Filho do Homem e o Pai seja glorificado. A relação de Judas com as cartas do Tarô Enforcado e Morte são imensas, e aí recomendo fortemente a leitura do livro Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô ou que se ouça o audiobook dele (https://www.youtube.com/playlist?list=PLayK4qtDN79UiFwhfIkPJ2fu66UyVowG0), que, para quem já leu o Enforcado, há também outra chave…: o autor Anônimo do livro comenta sobre o número Um ser o “do Eu que pensa, sente e quer”; sendo que Judas é, em muitos momentos, referenciado como ‘um dos doze’.

Ou seja, para se compreender a Bíblia, é preciso saber ler letras, imagens, astros e símbolos.

Por isso, estar e ser alfabetizado é algo lindo, e deve ser incentivado. Ninguém deveria se orgulhar de ser analfabeto, ainda que também não se deva ter vergonha por não saber lidar com letras nesta vida, porque analfabetos podem ser pessoas com uma riqueza interior muito mais elevada em outros termos. E importante se faz lembrar que existe um analfabetismo funcional, e este é amplo, envolvendo ainda outros aspectos.

É preciso sempre ter cuidado e ser cuidadoso, é preciso observar muito bem, ter um excelente discernimento e compreender que, na verdade, devemos almejar a alfabetização e alfabetização funcional, porque é muito fácil (se eu sou analfabeto funcional), por exemplo, confundir Religião e idolatria, porque existe Religião, com ‘R’ maiúsculo, e idolatria, que seriam as falsas religiões, com ‘r’ minúsculo; existe Ciência, de se ter ciência de algo interno, seja interno a um processo químico, seja interno a um processo emocional, espiritual etc., e academicismo, que é quando se inventa terminologias para estudos que servem apenas ao externo em desconexão com o interno, ou seja, servem àquilo que é aparente – é quando o homem toma o lugar de Deus, do Verbo, e, em vez de nomear com Palavras, cria termos, sendo que termo seria o arqui-inimigo da palavra, o arquétipo contrário; e assim também existe Arte e entretenimento (sobre os quais já falei na Poesia da Arte, na Poesia do Artista e na Poesia do Herói).

O analfabetismo funcional é mais complexo, ele abarca grande parte do academicismo, aliás é o que mais há entre nós, mesmo entre os que sabem ler um livro de cabo a rabo. Porque se eu não sei no meu dia-a-dia, no intrínseco da vivência viva, a diferença entre arte e entretenimento, entre religião e idolatria, entre ciência e academicismo, entre palavra e terminologia, entre vivências e aparências, entre coisas vivas e mortas, por assim dizer, se eu não sei essas diferenças, eu sou um analfabeto funcional. Em suma: o analfabetismo funcional é devido a não ter a prática do Verbo, não conhecer a Palavra em seu íntimo, vivê-la no interno, seja eu consciente ou inconsciente disso. Ainda que sabendo e entendendo que quanto mais ciente e consciente, melhor.

Tudo isso vai simbolizar ter e viver o psíquico, ou seja, o mental, os desejos/emoções e o físico conectados ao espiritual (psíquico, Psiquê, e espiritual, Eros), e por isso é preciso erradicar o analfabetismo no mundo, para que todas as etapas estejam minimamente caminhando juntas – pois todas elas se expressam também no meio físico, todas elas ganham forma e se cristalizam de alguma maneira, porque a gente sabe que as nossas emoções e sentimentos se materializam em atos, e que o que chamamos vulgarmente de psíquico pode inclusive somatizar doenças, ou seja, quanto mais integradas essas áreas todas estiverem, mais clareza eu terei em relação à Vida, e Vida aqui me refiro para além de nascimento e morte.

Voltando à evolução, evoluir é o ato de abrir um pergaminho, de abrir um livro, desenrolar uma história: a leitura factual dessa história, o saber da existência deste livro é a Religião – o ato em si de abertura do livro é análogo ao ato Religioso, externo muitas vezes, ato ritualístico em abrir um pergaminho, um livro, sempre feito da mesma maneira; já o ato de ler o livro, ler o pergaminho, ter este dom, essa capacidade de observar as letras, é análogo à tomada de Ciência daquilo que ocorre dentro dessa história que está sendo aberta e vivida; e poucos, aqueles que ultrapassam a ciência e, por graça, chegam à consciência, e podem passar a escrever o livro, o ato de ilustrarem esse livro, pontuarem o livro, crearem, de qualquer maneira, meios para a construção contínua da história que há neste livro, é análogo ao campo da Arte. Por isso verdadeiros religiosos são raros, verdadeiros cientistas são ainda mais raros, e verdadeiros artistas são raríssimos, mas há, eles estão entre nós e habitam este mundo, como nós, e nós podemos ser religiosos, cientistas e artistas, mas é preciso evoluir verdadeiramente para tal possibilidade se efetuar, até porque viver na igreja não faz de ninguém um religioso necessariamente, nem entender algo faz de nós cientistas, e menos ainda fazer artesanatos (escultura, pintura, literatura, teatro etc.) nos torna verdadeiros artistas. Então, como podemos ver, a evolução abarca, de maneira muito profunda, essas três instâncias através da imagem do pergaminho que é aberto.

Se tomamos a Bíblia como exemplo numa citação quanto a pergaminho, há uma passagem em que Isaías (34:4) diz que, em um dado momento, todo os céus serão enrolados como um pergaminho antigo ou como um livro – dependendo da tradução que se use –, e em Apocalipse (6:14) essa menção e imagem é novamente retomada ao João nos revelar que ele viu o céu ser afastado “como um livro que é enrolado”, havendo traduções também com pergaminho. Ou seja, por essa simples imagem vemos que: quando chegarmos num estado de evolução – para o qual fomos creados para chegar, nesta etapa de existência -, esse livro se fechará, esse pergaminho se enrolará novamente. Mas não porque involuiremos ao início já conhecido ou porque será destruído, como algumas religiões e culturas pregam, como no Oriente – lá eles trabalham uma roda fechada, então esse sair da roda significa a destruição dela pela figura análoga ao Pai – o Poder, seja pela sua negação ao ser humano alcançar a iluminação, seja no fim dos tempos ao fechar dos olhos da Entidade suprema, enquanto que no Ocidente, o Pai é aquele que permite a abertura dela e a continuação e elevação dessa realidade agora experienciada, não por destruir ou jogar fora o livro, mas por uma inovação do seu conteúdo através do Filho – o Verbo, como se todas as suas folhas se tornassem novas – não se muda o livro em si, o reino é o mesmo, o que se inova é o que floresce nele enquanto conteúdo e também sua inovada forma. Inovação porque o Pai, astrologicamente, é apresentado por Urano, a força da inovação em nós. Quem crê que o Pai é destruidor, é provável que esteja em duas categorias: ou O está confundindo com Saturno como pai, tendo ainda ele como força reguladora de Aquário, ou está numa baixíssima frequência de Urano, ao reproduzir falas ordinárias como, por exemplo, ele ser anárquico e caótico (sem sentido). Em ambos os casos as pessoas não entendem nem sabem quem é o Pai e são até mesmo cegas para Seu Filho, por mais que possam falar dEle e serem tidas, inclusive, como pessoas espirituais.

No Ocidente, quando toda a Tradição que se inicia no Oriente chega aqui como cristianismo (sendo dividida em várias tradições culturais ao longo dos tempos, podendo ser encontradas como mitologias, religiões, ou mesmo ciências em escolas de mistérios etc.), nós encontraremos um Pai que restaura tudo através do Filho e faz novas todas as coisas, em vez de destruí-las, como havia sido acreditado e promulgado muitas vezes até então. Mesmo o Apocalipse e o julgamento são apenas momentos, como ferramentas para que esse florescimento se dê, assim como o inverno antes da primavera – o inverno em si não é a destruição de todas as estações, nem a destruição do tempo, clima ou mesmo calor, mas apenas um período de observação da escassez frente a se ter ou não aprendido a lidar com a abundância anterior e apreensão de recursos para que tempos aparentemente sombrios possam servir para a vindoura luz, caso saibamos como nos preparar para ela. Ou seja, um inverno só é rigoroso com quem não soube trabalhar o equilíbrio e o comedimento.

Com isso vemos que passar o inverno sequer é uma questão de acumular muita comida como as formigas, ou de não acumular nada, como a cigarra, mas sim de minimamente evitar comer em excesso tudo o que se produziu durante as estações anteriores. Acumular um monte é desnecessário, basta que o que eu ganho não seja gasto no mesmo dia – ou seja, que o olho não seja maior do que a boca, e permaneça necessariamente menor do que a barriga todos os dias, para que não haja a tentação de fazer um banquete para si mesmo – o que é diferente de dividir com os outros sua comida quando for o momento, dando a cada um a porção que este necessita, sendo um banquete pela união, e não pela gula e fartura de cada membro. Se vivemos apenas pela necessidade nossa de cada dia, repartiremos os peixes e os pães, e ainda sobrarão cestas cheias deles para a geração da próxima estação.

O acúmulo em si é insensato, mas o comedimento baseado na individual necessidade, a frugalidade frente a abundância traz permanente abastecimento, e a lógica do acúmulo pode ser abandonada porque os recursos passam a sobrar naturalmente. E é justo da sobra que usamos no inverno que podemos fazer com que a primavera chegue mais rápido ao multiplicá-la!

Assim, vemos que a destruição ou julgamento severo se tornam inoperantes caso aprendamos o equilíbrio e necessidade da nossa própria condição espiritual e mundana. Claro que, para aqueles que não aprendem, em qualquer uma das tradições e religiões é sabido que haverá duras consequências quanto às Leis naturais – isso não é coisa só do cristianismo, todas as tradições trazem referências a isso, desde o Oriente até o Ocidente -, porque a insensatez traz prejuízos, não de um Deus punitivo, mas de si mesmo em relação com o mundo, porque decisões profundamente desequilibradas obviamente só atrairão confusão interior em toda tradição verdadeira.

Sair da ignorância, do estado de descompasso com o ritmo cósmico, é um pressuposto de todas as perenes sabedorias e tradições.

Então não significa que vá ser destruída a creação, pelo contrário, tudo o que foi creado é inovado, porque assim como no plano da matéria há a lei física: ‘nada se cria, nada se perde, tudo se transforma’, no campo espiritual há sua contraparte: ‘tudo se crea para que nada se perca, eternamente se inova’.

Então podemos ver que a evolução é muito mais difícil, ainda que simples, do que o ordinário uso da palavra nos mostra. E por isso não é possível haver uma re-evolução, porque quem defende revolução defende, ainda que inconscientemente, que o pergaminho que está sendo aberto, lido e escrito seja posto de lado, seja ignorado de alguma forma, e pego uma outra história para se começar, um outro livro, com outras palavras, outras ilustrações, e isso não é sequer possível espiritualmente e materialmente falando, ainda que se tente com armas, ideologias e magia negra; o que é preciso acontecer materialmente e espiritualmente, porque ambos necessitam andar juntos, é haver a evolução eterna. E nisso podemos ver que assim é possível enfim progredir em relação ao conservadorismo que nos aliena.

E digo que ambos devem andar juntos, matéria e espírito, porque, sendo dois polos que se apresentam, se um vai para um lugar, por exemplo o espiritual vai para Deus, e o outro, material, re-evoluciona, isso significa que eles andam por vias separadas, acontecendo uma castração – que pode ser necessária, como a própria mitologia nos mostra que já foi como um ponto de partida, mas é preciso conhecer que o princípio hoje é outro.

E mesmo usando como argumento o fractal de uma imagem dentro da outra, do espelho de frente para outro espelho, alegando ser necessário haver a castração para sempre haver outro e outro e outro começo, isso se diferencia da evolução em espiral, pois se intenciona multiplicar círculos, criando várias Ouroboros, ciclos que são diferentes na aparência, aparentemente sendo confundíveis com a espiralação, mas sem inovação de fato, sendo idênticos em termos de eterna permanência do interno estado

É preciso ver que em algum momento é preciso ultrapassar tudo isso, ir para além da aparência de Marte e de Saturno, é preciso passar, no mínimo, para Júpiter, se tornando urgente e necessário que ações jupiterianas sejam nossa via de progresso, nosso respaldo para ações e desejos, anseios, vontades, pensamentos... Júpiter tendo seu correspondente em Jesus, que nos ensina a honrar pai e mãe e ao mesmo tempo abandonar pai e mãe, como Júpiter bem o fez ao abandonar Saturno como pai e seguir o Sol como a verdadeira Luz do nosso sistema, Sol esse apresentado em Cristo. Por isso devemos nos tornar como Cristo Jesus, como Sol e Júpiter, pois são de fato os que nos ampliam, nos expandem em nós mesmos, assim como o Sol nos leva ao Pai, Urano, formando finalmente um sistema solar interno completo ao aprendermos a crear nossos próprios planetas na hora que for designado para que assim seja.

Se nós olhamos para essas mitologias todas, desde oriente até ocidente, podemos ver que uma é a transformação da outra, e por fim, podemos observar que, assim como a tradição persa tem sua continuação na egípcia, que continua na grega até chegar na romana, ao vir para o ocidente a mitologia romana chega como cristianismo, como o ápice de todas elas e aquela que reúne todas em torno de si.

Ou seja, o cristianismo esotérico, o Cristo cósmico, é o centro de tudo o mais que já vivemos, como um Sol que se desoculta aos poucos para evitar que nos ceguemos.

E aí temos duas possibilidades, mínimas: um passo com um pé, ao compreender que a realidade cristã é a continuação da mitologia romana, porque uma tradição leva à outra; bem como dois passos, com os dois pés, e observar como ela é o ápice e centro de todas as tradições, o que significa que o ápice da evolução esteve aqui na Terra. Porque o ápice de abrir este livro, e ler este livro e escrever este livro esteve na Terra, porque a própria essência daquilo que fez possível haver o livro esteve aqui na Terra… por isso Ele é o centro de tudo, e assim como a tradição pulsa em Cristo, Cristo faz com que todas as tradições pulsem, com Ele oculto em tudo até que, por vontade nossa e de Deus, tiremos os véus que evitam, hoje, que o vejamos face-a-face sem estarmos preparados, ou seja, véus esses que evitam que nos queimemos.

Tudo está na evolução todo o tempo, porque tudo faz parte deste livro, tudo está neste livro, porque a Luz apreende as trevas e as faz servas, mas nem tudo é evolução, o que significa que sim, é possível involuir, regredir, é possível, em vez de desenrolar o livro, haver um enrolamento dele, então há coisas que são opostas à evolução, mas que fazem parte e estão na evolução.

O que é evoluir, então? É aprender cada vez mais a lidar com este abrir de pergaminho, com este abrir de livro. É preciso aprender a ser alfabetizado para poder se tornar um mensageiro, ler o livro, poder carregar fragmentos desse pergaminho em nome do Rei.

É preciso estar alfabetizado para, quando lermos ou ouvirmos a mensagem que é constantemente escrita neste pergaminho, entendamos o que ela está a nos dizer.

É preciso ser alfabetizado para, quando ouvirmos os mensageiros, sabermos o que estão a dizer. Isto é ser alfabetizado funcionalmente, porque sei apreender o que é lido nele.

É preciso ser e estar alfabetizado para, quando for a hora, que o Rei, Ele mesmo, possa nos falar e possamos responder com toda a honra, glória e pureza, toda obediência, pobreza e castidade que tal oportunidade suscita em nosso Verdadeiro Ser. E também para que saibamos diferenciar cada vez mais quem carrega a mensagem verdadeira, quem é e vive de fato a mensagem do Vivificado e Ressurreto Rei.

E ter cada vez mais um coração desejoso de realmente ser digno de ter olhos para ver este pergaminho, porque é fácil dizer que a gente vê a evolução porque estamos existindo, porque nascemos e estamos andando sobre este planeta chamado Terra, quando isso significa uma fração mínima do divino livro. Antes e depois disso, é preciso dar outros passos e compreender que só se vê o pergaminho realmente quando se é devoto a ele, quando faço meus votos, dou meus votos (devoto) a ele.

É quando tudo o que se faz é para que a Religião brote nos homens, não porque se idolatra rituais e fórmulas, ainda que eles possam convir em determinadas vidas e momentos, mas porque se compreende principalmente que essa Religião é os rituais que tenho com a egrégora que me sustenta, com o Anjo, Arcanjo, com o Pai, com os Senhores que me sustentam, que me protegem, que me iluminam e vitalizam, que me atraem para coisas tão benéficas e justas, fazendo com que o próprio pergaminho da minha vida desenrole na minha frente para que Eu me conheça. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum… eis a frase do Templo de Delfos, tão inovadoramente atual quanto eternamente verdadeira. E os rituais, tão usados para nos conectar aos imortais, servem tanto mais para nos conhecermos. Por isso a repetição de algo por vontade própria é crucial no processo evolucional ao crescermos, sendo preciso ser devoto ao processo em si mesmo.

E é também quando tudo o que se faz é para que a Ciência brote nos homens, não porque se é um academicista cheio de teses, teorias para tudo, ainda que elas possam convir para demonstrar determinados acontecimentos temporais, mas porque se compreende principalmente que essa Ciência é a retrospecção, observação, constatação e discernimento dos acontecimentos que nos compõem enquanto imortais, enquanto seres espirituais residindo na matéria.

Assim como também é quando tudo o que se faz é para que a Arte brote nos homens, não porque se quer entreter alguém, ainda que possa convir para termos um primeiro contato através das aparências, mas porque se compreende principalmente que essa Arte é a concentração, contemplação e adoração da essência que nos permeia, nos penetra, nos ama e nos liberta da prisão de estarmos aqui vendo, em tudo, espelhos, mas nos tornando um espelho consciente, ou seja, espelho não da matéria minha ou do outro, mas da centelha divina que nos habita para que o Outro tenha a oportunidade de atravessar a ponte que este espelho se torna e ver a Deus por si próprio, com seus olhos internos.

Então que evoluamos, que caminhemos, não só com os pés, mas também com as mãos, porque ao desenrolar esses pergaminhos, os nossos dedos são aqueles que caminham. Que pés e mãos possam caminhar em união. Que sejamos capazes de abrir o livro como o fez Jesus no Apocalipse, que sejamos capazes de engolir o livrinho, como João também o fez e igualmente nos disse. Que incorporemos a evolução em nós, por mais que seja amargo seu sabor no estômago num primeiro momento. Para isso é preciso ser grande a condição de fome, e, como já vimos na Poesia do Pensamento e do Coração, é preciso querer visceralmente.

Que o analfabetismo diminua, literal e metaforicamente.

Que o mundo evolua. Pois evoluir é voltarmos ao Reino, agora inovado por Deus, por todas as hierarquias e por nós mesmos.

E que a mensagem seja cada vez mais regada com Água Viva, cristalina, vítrea, vinda de mãos celestiais e constituída de pés materiais para que o milagre seja pronunciado a todos os povos de todas as línguas:

o Rei e todos em seu reino, com Amor, esperam o nosso retorno…

Então, amados-amigos-irmãos, voltemos!

a Poesia do Coração . : . [a União com Deus]

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Qual é a Poesia do Coração?

Em primeiro lugar, eu aconselho fortemente que, caso você não tenha escutado a Poesia do Pensamento, que o faça antes de ouvir esta Poesia. De toda forma, nada evita que se ouça esta primeiro e depois a outra ou não se ouça a outra, à vontade!

Quanto à Poesia do Coração… o coração é aquilo que temos como centro, ele concentra todo o movimento do sangue, que é o que possibilita nossa existência. Se nós observamos, ele o tempo todo se contrai e expande, assim como o pulmão, estando ambos em constante contração e expansão, mostrando a forte relação que eles têm em termos de movimento, sendo que o próprio pulsar da respiração mostra também sua conexão com o coração, aquele que se expande e contrai para levar o sangue, que é a água do corpo, a todas as partes, ao organismo como um todo.

Na Poesia do Pensamento nós vimos que o pensamento tem relação direta com a terra através do intestino, que digere e absorve os nutrientes (sendo dotado de neurônios como o cérebro) e também com o pulmão pelo ar – símbolo do intelecto; na Poesia do Coração vemos também que este nosso centro é o que emanamos internamente (porque o sangue não deve ser emanado para fora de nós), enquanto o pulmão é uma dilatação e contração que se relaciona com o externo – porque puxo ar e solto ar ao externo -, mas se observamos que o pulmão faz a ponte entre a existência interna minha com existências externas a mim, podemos admitir a lógica e análoga possibilidade de o coração impulsionar sangue mais do que apenas dentro de mim mesmo, como corpo encerrado em sua anatomia, mas havendo uma relação do interno anatômico com algo ainda mais interno, com algo que poderíamos chamar: o verdadeiro cerne da Vida.

O coração nos conecta com o cerne da Vida.

Tanto que podemos observar que uma morte cerebral não resulta na morte do corpo enquanto totalidade, mas o coração sim. Ele é o principal órgão que faz com que tudo ganhe sentido.

Se o pensamento tem sua a digestão e absorção naquilo que é cerebral, se toda a capacidade de aprendizado está ligada à mente, e consequentemente aos pensamentos, a apreensão de mim mesmo e daquilo que me cerca vem através do coração, que, ao ser aquilo que banha tudo, está ligado à água, aos sentimentos, ao que faz meu coração bater mais forte ou mais fraco, ou até indiferente (o que é perigoso, então evitemos ser indiferentes às coisas, porque isso significa que o coração ganha um único ritmo para tudo ou mesmo que só para algo específico, ainda assim, é como um instrumento que toca apenas uma nota, não está musicando de fato, ele se torna um piiiiiiiiiiiiiiii… inclusive aludindo a uma máquina que nos revela que estamos mortos).

Por estes aspectos temos um coração conectado à água, àquilo que faz inclusive cair lágrimas, seja de júbilo, de alegria, seja de tristeza, dor, sofrimento etc.. Pois o elemento água está ligado às emoções. Assim podemos ver que, tal qual pulmão a expirar, não só o coração carrega essa água para todo o corpo ao se contrair e fazer o sangue dilatar (água essa que quão mais cristalina for, melhor, levando para cada membro aquilo que a gente sente em relação ao que nos acontece, sendo o coração que nos conecta ao cerne das coisas, e essa essência, como cerne, é sempre encontrada na relação, ou seja, eu só me conecto ao cerne e essência das coisas se me relaciono com elas), como vemos que é o sangue circulando que faz o coração pulsar ao dilatar, assim como é o ar que faz o pulmão expandir – porque sem ar ele não o faz, pois o ar é a única substância capaz de nos conectar com o que está fora de nós e conectar o que está fora de nós com o nosso interno (através da expiração, porque quando expiramos exalamos partes de nós mesmos, assim como se diz que alguém exala medo e que até os animais farejam nosso medo, por exemplo, mostrando que não só ocorre essa troca pelo nariz, mas também pela pele), assim como o sangue é a única substância capaz de conectar instâncias nossas superiores com o corpo físico, e vice-e-versa, porque se o coração é o cerne, a essência, e é o que nos coloca em relação ao Outro, tanto ele está em relação com o sangue quanto o sangue em relação com ele. Em uma pessoa verdadeiramente saudável, se aprende a ver que podemos escolher fazer nosso coração pulsar por algo ao bombear esse sangue em direção a um determinado órgão, objetivo, pessoa, sendo que tudo isso são relações, seja com um objeto, seja com uma pessoa, seja com Deus – para isso é preciso aprender a ter foco… e aqui faço um pequeno adendo de que o ar é a única substância de nos conectar com o que está fora porque na verdade aqui ele representa o éter, mas como a ciência ainda não chegou lá, utilizamos o ar enquanto elemento dessa conexão nossa interna com o externo, porque de toda forma ele também o faz em uma oitava inferior.

O sangue, ao ferver, ao esquentar, faz com que o coração venha a pulsar, e se escolhemos pelo que nosso sangue esquenta, escolhemos também pelo que nosso coração bate, até que sejamos capazes de chegar num estado em que o coração se torne um músculo voluntário, e não vivamos mais no polo negativo (inconsciente) só porque algo nos bate. Ou seja, sermos capazes de viver a consciência (polo positivo) de um coração, não através do sangue (que é parte da ciência do coração, mas não consciência), e sim através de algo muito mais elevado.

É claro que, quando dizemos ferver o sangue, a primeira imagem que tendemos a ter é a da ira de quem sente raiva ou da luxúria de quem sente tesão; o sangue ferver por algo geralmente está conectado a impulsividades, a um calor incontrolável, porque o fogo é um elemento dificílimo de se controlar, na verdade a água também é, porque a água, por mais que se possa restringi-la e ela se molde por ter a mansidão de se modelar a qualquer copo e qualquer taça, ainda assim ela escorre entre os dedos e ela, se parada mesmo dentro de uma taça, evapora ou se torna água parada que pode aparentar ser cristalina, mas na qual logo nascem os mosquitos e larvas, pois é em água limpa e parada que se propagam as pragas. E o fogo, talvez num primeiro momento tenhamos mais dificuldade em lidar porque nos queimamos muito facilmente e não conseguimos observar como seria possível modelar um fogo que se nos apresenta, porque afinal: se não posso pôr a mão, como irei modelar o fogo em si mesmo?

Mas se lembramos que o coração é o cerne, e se observamos que o fogo de um fogão nós conseguimos cozinhar porque fazemos com que ele saia num determinado formato, com um determinado tipo específico de quantidade de gás, tendo um controle sobre ele, um direcionamento dele, ou mesmo numa fogueira, o que determina a fogueira é seu cerne, seu centro, que é a lenha ou carvão, ou o que seja que a gente amontoa para que o fogo Esteja ali onde a gente quer que esteja e ele possa Ser ao queimar e consumir aquela lenha, aquele cerne que se queima. E mesmo sem a premissa do controle (porque ela pode nos levar a equívocos), num incêndio não temos controle de onde está pegando fogo, qual é o cerne, o centro daquele fogo, então ele passa a consumir tudo, porque tudo se torna foco dele, então é possível ver que controle, para deixarmos (ele) de lado, aqui se liga diretamente à capacidade de ordenamento da direção do fogo em si enquanto queima. Outras palavras podem ser meditadas como: contenção e disciplina para que haja um real aprender (não quer dizer apreender nem compreender) sobre como se entra em contato com o fogo sem se queimar de verdade, aos poucos.

E se nós temos o coração como cerne podemos ver que ele é a lenha onde se queima o sangue, ele é o carvão onde se acende o fogo do corpo. E é muito lindo porque se observamos um carvão ou lenha que pegam fogo realmente, eles se tornam vermelhos, vermelhos incandescentes como um coração, e se sopramos, eles pulsam; assim como o coração, a brasa pulsa, assim como o pulmão, quando se suspira quando algo de fora nos dá de seu alento, soprando em nossa direção algo de sua essência.

Podemos então notar que a forma de nos curarmos da tendência em pensar em ira e luxúria quando falamos dum sangue que ferve está em lembrar que o cerne é o coração. Se o cerne for o coração, então não haverá incêndio, nem ira nem luxúria nem qualquer outra manifestação do gênero ‘incêndios’, então o coração poderá ser o órgão que contrai a água e dilata o fogo:

Contrai a água ao fazê-la sair por pontos específicos, seja os poros sejam os olhos, puxando toda a água do corpo para que aquela emoção, aquele sentir, saia através de um lugar quase como um funil para que caia do olho feito lágrima, contraindo como quem coloca água nesse funil para que ela encontre um ponto por onde sair ao ser comprimida.

E quanto ao fogo, fazendo-o encontrar seu espaço de expansão por todo o corpo, não sendo incêndio por o cerne ser o coração e o cerne ter a capacidade de apreensão desse fogo a todo momento. É como a luz que apreende as trevas. Não é propriamente uma premissa de controle, nem contenção e nem disciplina dele, mais oitavas superiores numa espiritual modulação – que etimologicamente está ligada a harmonia. Porque não se controla o fogo, mas se tem um entendimento de que o fogo, se há alguma espécie de controle, é através de sua lenha, daquilo que ele queima, sendo o coração a representação direta de seu polo oposto, a água, assim como sendo o cérebro a representação do fogo na dualidade de órgãos (coração x cabeça), ou seja, só se começa a ter um controle, uma contenção, uma disciplina mental, assim como dos próprios desejos (iracundos e luxuriosos, inclusive) se se admite a possibilidade do coração estar realmente, verdadeiramente acima e à frente de tudo isso.

Então, é através do coração que se maneja o fogo do corpo, o sangue, assim como se torna possível ver que é o fogo, ou o sangue, que faz o carvão e a lenha pulsarem no contato com o vento, ou seja, devemos aprender primeiro que é o sangue que pulsa o coração, para depois aprendermos a pulsar o coração acima e à frente de todos os elementos, ou seja, pulsar o coração voluntariamente.

Se o cérebro é o lugar onde digerimos os pensamentos e a mente é onde fazemos essas conexões de pensamentos, onde temos uma produção de pensamentos, tal como uma máquina, e melhor ainda se como brinquedo, ou como um sistema solar, por exemplo, podemos ver as relações se conectando, sendo fiadas como uma renda, conseguimos ver então que observarmos esse fiar é com a mente, ou seja, é nela que produzimos a observação e o discernimento, mas é através do coração que as conexões se dão verdadeiramente, porque é como se a mente fosse capaz de, através dos pensamentos, aprender, como aprender que se está sol é dia, e se está lua é noite, mas eu só apreendo o que significa o sol lá fora e a sua relação com todas as coisas e com a Vida que isso carrega, assim como só apreendo a Lua e as relações que ela carrega, as marés que ela enche e esvazia, as fases que produzem cada uma um efeito, eu só apreendo tudo isso enquanto relação natural através do coração (não porque li e aprendi num livro que lua crescente é boa para crescer algo, mas porque eu apreendi que aquela força que emana se relaciona com a vida de uma determinada maneira).

O aprendizado é através da mente, a apreensão é através do coração!

São movimentos que andam juntos, mas que são diferentes, assim como é possível apreender antes e aprender depois, bem como aprender primeiro e apreender depois, que vai ser a diferença que na Fraternidade Rosacruz será posta como a diferença entre quem primeiro apreende no coração e depois aprende no cérebro, e quem primeiro aprende no cérebro e depois apreende no coração, sendo essa a diferença entre o místico e o ocultista, respectivamente. (Recomendo que se estude o livro Conceito Rosacruz do Cosmos e se possível que se faça os cursos gratuitos da Fraternidade para maiores detalhes).

O místico é primeiro conectado ao coração e depois à mente, enquanto o ocultista é conectado primeiro à mente e depois ao coração, sem juízos de valor, mas sabendo que há diferença entre um e outro. A diferença é que um místico está mais apto a ter uma relação mais elevada do que um ocultista, porque o ocultista tem conexão simbólica com os elementos ar e terra, que são elementos secundários, enquanto o próprio místico tem uma conexão simbólica com os elementos água e fogo, que são os elementos primários, ainda que haja uma grande diferença entre usar os quatro elementos e usar apenas os dois primários e constatar a linhagem de água e a linhagem de fogo, que é como se denomina essas duas vertentes: do místico e do ocultista, respectivamente. A relação com os quatro elementos revela o grau de inevitável superioridade dos santos em relação aos ocultistas, ainda que isso possa doer na científica e cerebral vaidade de vários.

Se olharmos bem, o místico lida muito mais diretamente com forças puramente da água e do fogo do que o ocultista. E me perdoem os leigos nesses assuntos, indico que estudem, pois são fatores a se saber muito importantes, relacionados ao esoterismo e ao exoterismo que, inevitavelmente, todos lidamos, ainda que não tenhamos ciência, consciência nem creiamos nisso.

E aí se encontra a grande importância dos ocultistas, pois é preciso aprender primeiro tudo isso e desenvolver nossa mente, porque o caminho da água tende a uma lentidão incomensurável, por isso, ainda que sendo superior ser um santo, é preciso primeiro, é preferível primeiro aprender a ciência espiritual que nos prepara para os batismos de água e de fogo. É necessário, no entanto, que todo ocultista também se converta num santo, pois, por mais que se estude e aprenda as coisas ocultas, o batismo de água SEMPRE vem antes do batismo de fogo, ou seja, a apreensão é necessária junto ao aprendizado para que a junção de ambos verdadeiramente, em uma oitava acima de água e de fogo, se dê.

Ser um filho do fogo, ou seja, ser ocultista, não significa receber o batismo de fogo, nos atentemos a esse detalhe muito importante, assim como um filho da água, um místico, não quer dizer que recebeu o batismo de água, o que acontece é como se Deus nos tivesse dado ferramentas: pedras e carvões, pedras como Pedro, a cabeça da Igreja, a pedra de fundação de qualquer Igreja que tenha Cristo como princípio, e carvões como João, o coração da Igreja, o centro cardíaco de qualquer Igreja que tenha Cristo como princípio.

Sendo que o fato de termos recebido não quer dizer que saibamos como usá-las, o uso se dá por aprendizado milagroso, não depende da nossa vontade, assim como não depende da vontade da criança aprender a escrever, mas sim da vontade dos adultos em ensinar, mas uma vez aprendido, é de responsabilidade da criança apreender o uso daquilo, ou seja, após a dádiva de hierarquias acima de nós nos ensinarem a usar as ferramentas celestialmente dadas, depende unicamente do Ser humano colocar em prática. Ter pedras ou ter carvão não é o mesmo que receber o batismo, mas o preparo para isso, assim como uma vez ensinado, batizado, iniciado, depende unicamente de nós pormos em prática.

É muito importante compreender isto, porque Cristo fez com que a vinda para a Terra seja automaticamente estarmos na iniciação, termos as pedras e/ou o carvão à vontade, mas somente Sendo iniciado é que se aprende a quebrar o carvão, ou seja, humilhar-se, ter do sofrimento cardíaco, das lágrimas, porque carvão inteiro não queima de maneira apropriada. Então é preciso fazer do coração pedaços! Assim como é preciso ter atrito nas pedras para gerar fogo de fato, e aprender que a direção desse atrito aumenta ou diminui a possibilidade do fogo se tornar um fato, porque há pessoas que em suas vidas jogam o carvão fora ou jogam as pedras fora ou são indiferentes a eles, ou vão bater pedra em algum lugar distante dos carvões, se tornando cada vez mais improvável que ocorra o milagre de acender o carvão e sermos iniciados.

Assim como ficar esperando que o carvão seja acendido por um raio é algo tão lento quanto igualmente improvável. Pois já houve um raio: Jesus, que em sabedorias passadas pode ser chamado de Júpiter ou ainda Zeus. E sabemos, um raio não cai duas vezes sobre a mesma cabeça, ou seja, Jesus veio e já deu o exemplo, agora ele manda seus mensageiros, seus raios, seus apóstolos, mas ficar esperando ser um apóstolo, um santo, para então compreender o que é acender o fogo, bom, demora, se tornando exaustivo e improvável até por muitos serem chamados e poucos os escolhidos de fato. Ou seja, ficar esperando a hora de ser chamado e ser escolhido requer uma evolução espiritual tal que são raros os que sequer se preparam, pois requer ser realmente um Santo, e poucos se dão de coração à devoção exigida para isso, pois significa ter os carvões em pedaços no lugar exato em que cairá o raio, e saber o local dum raio, só com muita, muita, muita cristalina água, ou seja, só tendo uma pureza impecável, como a de Maria, mãe de Jesus.

Quanto aos filhos da água, se um incêndio acende, por milagre, os carvões, é a oportunidade de pegar esses carvões que estão se esfacelando e queimando e levar a um lugar seguro, longe do fogo indisciplinado. Mas haverá uma obrigação de ação, retirando-se do incêndio, sendo como trigo a separar-se do joio. É sempre por milagre que a união do carvão e do fogo se dá. Mas sendo um filho do fogo, dá para aprender a direcionar as faíscas quando as pedras batem, quando o martelo bate, sendo que o carvão só acenderá por milagre divino, contudo, caso o milagre se dê, teremos a oportunidade de pegar a parte do carvão que nos cabe. Isso significa a chance de ser mais rápido do que esperar como um filho da água. Ou seja, não é necessário exatamente ser um Santo, mas sim ter ações que venham a santificar-nos.

Muitas vezes os filhos do fogo, pessoas cerebrais, são como pessoas que estão gerando faíscas, geram faíscas aos montes ao dar marteladas, golpes, pedradas, isso não quer dizer que o fogo interior se acenda, assim como os filhos da água, pessoas cardíacas, são como pessoas que juntam carvões, mas um carvão apagado de nada serve. Então os filhos do fogo ainda são como homens da caverna que batem pedra com pedra e acham o máximo ficar vendo sair faísca, enquanto os filhos da água ainda são como homens da caverna que ajuntam madeiras e falam ‘bom, deixa aí que uma hora o raio desce e o fogo pega’, e ficam orando para que o raio caia em suas cabeças.

É claro que ambas as coisas se dão por milagre, por milagre que uma faísca pode pegar fogo no meio dos carvões e ter o fogo aceso e por milagre apreendermos, assim como, por milagre, um incêndio pode atingir o carvão ou mesmo, por milagre, o raio que caiu em alguém inspirar o outro a se aproximar e o carvão acender ao ser posto ao pé do fogo, da fogueira alheia, sendo sempre milagre, porque só o Pai sabe o momento de acendê-lo. Contudo, é nosso dever nos esforçarmos, facilitarmos para que o milagre aconteça, pois todo milagre tem por definição a Vontade nossa unida com a Vontade divina. Eu me torno um veículo, potencializando e catalisando, ainda que jamais dependa de nós mesmos.

E nada disso significa que os filhos da água sejam melhores do que os filhos do fogo, porque, ainda que o trabalho demonstre que os filhos da água sejam mais avançados em termos gerais, se ambos são verdadeiros Filhos, o verdadeiro Ser de ambos é e está lado a lado, pois fogo e água são os dois elementos primários. O que acontece é que um modula o outro, assim como um irmão mais velho cuida do mais novo.

No fim, o que observaremos é a necessidade da troca do magnetismo em nós, como se tivéssemos o dever de tornar um polo que hoje é negativo, a água e o coração, em um polo positivo, que é um coração voluntário, com desejo direcionado, e tivéssemos que fazer das experiências relacionadas ao fogo de sensação, produção, ação, nascimento, um polo verdadeiramente negativo, o que não significa negar essas coisas, mas não precisar pensar para fazê-las, e se tornarem efeito de causas mais elevadas, ou seja, fazer o sangue obedecer ao coração – não o coração obedecer ao sangue, como é hoje, de maneira ainda inconsciente, até passarmos para a maneira ciente, depois consciente e então haver a troca e nova polarização. A apresentação de tudo isso é a imagem de como um dia o ser humano inverterá os polos magnéticos de si mesmo.

Enquanto o cérebro e a mente são relacionados às experiências, o coração é relacionado às relações, ao que está diretamente dado para que haja relações. É ele que possibilita que tudo ganhe vida, e a Vida está na relação porque tudo o que é separado de outros elementos, tudo o que é isolado, mesmo um átomo, perde o sentido de ser; pode-se isolar para estudar, mas a capacidade de segregação e isolamento é algo cerebral que a gente faz, assim como a digestão é o quebrar das partículas para que se consiga absorver as propriedades do alimento, o cérebro também quebra o pensamento para que se consiga absorver algo, para que possamos obter algo de aprendizado sobre o mundo, por isso se aprende as letras e depois as sílabas e depois as palavras e depois as frases e depois os textos… é por segregação primeiro e aglutinação depois que se aprende a ciência de do que se faz e como se faz. Enquanto o coração é apenas por comunhão, não tem como propriamente segregar algo, mas se apreende as coisas pelo seu cerne, por isso, apesar de não se saber escrever, ou mesmo falar direito (podendo trocar uma letra por outra), ainda assim se apreende palavras e frases antes de sermos alfabetizados de fato.

Se eu disse na Poesia do Pensamento que a Mente integra o corpo como um todo, o Coração também o faz, mas num sentido diferente e complementar, pois a Mente é integração total enquanto materialização, objetivação de uma ação, sentimento ou pensamento, e o Coração é a integração através de uma espiritualização, subjetivação da ação, do sentimento e do pensamento, no sentido de se tornar único, não pela personalidade (que é o caso da mente), mas pelo espírito.

É preciso deixar claro aqui que eu não proponho teorias nem nada, mas que é preciso haver discernimento quanto a maneiras errôneas historicamente consolidadas de se observar que: a subjetividade não é quem eu acho que sou, ou mesmo o que eu penso sobre mim mesmo e sobre a realidade, a verdadeira subjetividade é o que vem do Sujeito, pois é o que lhe foi lançado abaixo (sub jacere = subjetividade), e objetividade, objetivo (= ob jacere) é algo posto à frente, apresentado de maneira oposta como por espelhamento, algo que se detém na frente dos olhos, e aí conseguimos observar que D’us é o único real e verdadeiro Sujeito que permite que Sejamos em relações, havendo sujeitos por sustentação Sua, como já foi dito na Poesia do Pensamento e em outras também que, ao dois ou mais se encontrarem, um terceiro é quem vela uma causa superior para este encontro – como Cristo diz: onde dois se reunirem em meu nome, aí estou no meio deles (Mt 18:20). E também que a realidade que vivemos é o véu, o espelho, aquilo que nos foi ‘posto à frente’, então é lógico concluir que tais analogias divinas nos permitem ver que o real sentido de subjetividade está relacionado ao espiritual e o real sentido da objetividade está relacionado ao material (sem que com isso se pretenda ou intencione aqui, e em qualquer texto, haver a plena manifestação de toda a possibilidade dessa verdadeira realidade observada, esta é apenas uma fração do prisma, contudo torna-se importante salientar que qualquer outro ângulo adotado não divergirá desta fração do prisma, mas ao contrário, corroborá-la-á. Se houver bifurcação, quão maior for a oposição do argumento contrário ao apresentado, maior será a tendência à mentira e ilusão. O uso etimológico das palavras é uma das formas de provar que não são análises baseadas em opinião, mas sim em testemunho histórico, é uma forma de usar a matéria histórica e comprovar que ela, em si mesma, é obrigatoriamente existente somente devido ao fato de que seres, leis, princípios, forças, superiores à materialidade temporal dela mesma existem e são de fato.).

Em suma, a verdadeira subjetivação é a espiritualização do eu-personalidade, a verdadeira objetivação é a materialização do Eu-espiritualidade; se ambos caminham em direção um ao outro, em algum ponto eles se encontram, o que acontece é que nosso nascimento terreno é uma das formas da objetivação, contudo ela perde o sentido quando não há também, em complementação, um nascimento espiritual através de uma das formas da subjetivação. Claro que em primeiro lugar há o milagre e a graça para que esses nascimentos se deem, mas é preciso ter em conta que o ser humano foi feito tal qual imagem e semelhança, ou seja, é necessário, é urgente, que entendamos que também depende de nós aprendermos e apreendermos para podermos, depois, aí sim por milagre, viver as manifestações do Querer e do Poder em termos de compreensão (que é ter o Coração unido à Mente), da Sabedoria (Coração) unida às Escolhas (Mente) para haver manifestação da Vontade real e verdadeira.

Então o coração nos integra através da subjetivação, tendo o sangue e a lágrima como veículos, através da água e do fogo (sendo necessário primeiro a união dessa água e desse fogo no coração para depois haver a união do Coração e da Mente, também símbolos maiores da água e do fogo em complementar oposição). Então entender que o coração deve deixar de ser um músculo involuntário é necessário, pois ele deve tornar-se um músculo voluntário, porque enquanto ele pulsa, essa lenha hoje queima o fogo do sangue sem que escolhamos que ele queime, pois nós não integramos de maneira ciente – que seria fazer o sangue esquentar de maneira voluntária, ou seja, ter ciência sobre a modulação dos nossos desejos, que dirá de maneira consciente – que seria o coração pulsar voluntariamente, ou seja, pulsarmos somente vontades elevadas.

Hoje, quando o coração atua de forma involuntária em nós, é por pura graça, por trabalhos espirituais que desconhecemos ainda, mas quando vamos acordando para essas outras realidades que compõem juntas essa única realidade química que cientemente vivemos, passamos a nos tornar responsáveis pela Vida de nós mesmos. Obviamente o Mistério continua existindo, mas então passamos a observar que nosso coração espiritual pulsa também por graça de Deus, e um dia também seremos capazes de fazer conscientemente nosso coração espiritual pulsar, mas isso só acontecerá quando nos tornarmos deuses. Lembrando que um coração inevitavelmente só pulsa junto a outro, seja junto ao que está acima (anterior hierarquicamente, de uma espiritualidade mais elevada que a nossa, como irmãos mais velhos), seja junto ao que está ao lado (que é quando passamos a ser verdadeiros Amigos, seja dos Seres humanos, ou das demais hierarquias espirituais), seja junto ao que está abaixo (nos tornando servos de todos os demais).

A verdadeira consciência só acontece junto ao verdadeiro conhecimento, que é a possibilidade da verdadeira gnose, que é a gnose conjunta – cognoscere, porque não existe gnose separada – gnose separada é uma falácia – e caso se afirme que a gnose do místico ocorre, mesmo sem o entendimento, isso só pode acontecer por milagre por estar e ser unido ao entendimento de Deus, mas é diferente da gnose aqui tratada, que é ainda um passo além, uma oitava superior à gnose do místico; então a verdadeira comunhão está na escolha (inteligência, que é o ato de escolher o fruto mentalmente), quando eu escolho soprar a brasa para que o fogo queime, e na multiplicação e oferta dessa escolha (sabedoria, que é o ato de saborear o fruto escolhido junto ao Outro), levando o fogo para todos os membros. É quando meu coração deixa de queimar involuntariamente e eu escolho que ele bata, que ele pulse por aquilo que vale a pena, que é certo, verdadeiro, belo, bom e justo que ele pulse.

Então deixa de fazer sentido o sangue ferver estar associado a experiências de ira e luxúria, e passa a ter relação com o elevado, porque ele passa a ferver por coisas elevadas, porque passamos a querer nos relacionar – principalmente com Deus, que é a relação mais elevada que podemos almejar ter e viver, porque o verdadeiro conhecimento, a verdadeira gnose, é com Deus, porque é nessa relação que se possibilita a relação com todos os outros seres, por isso é amar a Deus acima de tudo: pois é só a relação com Ele que possibilita a relação com o Outro, amando o próximo como a nós mesmos.

Se meu coração (centro do corpo) não se conecta ao cerne (espírito) e ao todo (D’us), se meu coração não está a caminho da essência de mim e do cosmos, então ele não conseguirá se conectar a todas as partes de mim mesmo, e eu, provavelmente, terei problemas na circulação do sangue e problemas cardíacos. Mas também é preciso que este cerne ao qual me conecto, que é meu espírito, (é preciso) que ele também seja um coração e se conecte com o cerne dele mesmo, cerne esse que é Deus. Então eu não me conecto a Deus através do meu coração de carne propriamente, com meu coração eu me conecto com meu espírito e com o coração do meu espírito, com o cerne do meu espírito, eu me conecto com Deus.

É como na Poesia do Pensamento quando falei que a luz que se faz através da lupa, que converge a luminosidade que me esquenta, ela é direcionada pelos olhos espirituais pessoais, mas ela em si e o fogo que brota vêm deste Ser maior (estando relacionado à hierarquia de Gêmeos e os Serafins), assim como a flecha e o arco estão a mercê e a trabalho do arqueiro (relacionado à hierarquia de Sagitário e os Senhores da Mente), assim também é com o coração nosso. O nosso coração também só derrama a água, tal qual o jarro de barro que despeja a água de Aquário, porque nele pulsa o movimento da respiração deste Ser que segura este jarro de barro e seu sair de água.

Assim como esse fogo passa a pulsar por coisas nobres dentro de mim mesmo, num ‘eu’ como um Leão, que simboliza a nobreza do fogo – lembrando que este Leão é o mesmo Leão que mansamente é dominado pela Força interna, tal qual na carta de Tarô, que lhe abre a boca mansamente, mostrando que para meu coração pulsar e entrar em relação com o mundo, isso só é possível verdadeiramente se o espírito modula esse pulsar, sendo a figura feminina complementar à figura masculina de Aquário, podendo, de ambos, nascer o Filho do Homem; ou, se tomarmos Aquário como a figura do Anjo, a Força representa da mesma forma a imaculada capacidade de se tornar senhora até mesmo deles, dos Anjos, ao olhar para eles e seguir seu exemplo, eis o princípio da Virgem Maria, como já citamos.

Então eu não uso esse Leão (símbolo também da individualidade), do coração e do ferver de sangue para assustar os outros através da ira e do rugido, nem para comer os outros, seja numa luta com gladiadores, seja inclusive no sentido luxurioso do termo – da transa e da paixão desenfreada de um leão que domina o outro sexualmente -, mas o sou, sim, como felino nobre.

Sendo que quando eu digo: depende de nós aprendermos e apreendermos para podermos, depois, aí sim por milagre, viver as manifestações do Querer e do Poder em termos de compreensão (que é ter o Coração unido à Mente), o Querer está relacionado a Câncer e à Hierarquia dos Querubins, bem como o Poder se relaciona com Capricórnio e a hierarquia dos Arcanjos, sendo que este eixo zodiacal está justo no meio do eixo de Gêmeos-Sagitário e Leão-Aquário, sendo literalmente o que tem permissão para dividir e unir ambos.

O Coração é dificílimo de ser acessado, porque requer lidar, primeiro, com uma água baixa, que se relaciona com a ira e com a luxúria também de um cérebro baixo, bem como melancolia e futilidade ou apegos desnecessários – como apego a grupos fechados em si mesmos, porque choramos e suamos por coisas carnais e de carência normalmente, em suma: por estilos de vida (seja emocionalmente dependente do outro, como mãe dependente de filho – carência e histeria feminina, seja independente do outro, como no individualismo – egoísmo e machismo masculino) e evitamos as coisas espirituais.

Temos o desafio e dever de fazer com que a mente evite que a água seja um jorrar por jorrar e o coração evite que o fogo seja um queimar por queimar, como quem joga palavras ao vento em relação às coisas e um consumismo como quem quer para si todas as coisas.

Nós conseguimos ver também que o pensamento, a mente, e mesmo o cérebro, por estarem relacionados com o intestino, eles têm a ver com a inteligência, a medida que a inteligência é a capacidade de escolha dos frutos, como eu escolho os frutos e os absorvo; na Bíblia se lê: a boca fala do que o coração está cheio, nos lembrando de que o coração tem relação com a boca e com o estômago, e com o que eu permito que entre ou que saia de mim enquanto um saber, que é o sabor daquilo que eu provo em meu coração, sendo uma sabedoria.

A intuição, o conhecimento, é quando eu consigo unir aquilo que eu separo para comer ou deixar de comer, provar ou deixar de provar (ou seja, aquilo que irá se tornar inteligível) com aquilo que eu saboreio de fato (o saber que eu compartilho, que eu saboreio e compartilho ao ofertar do fruto), porque é praticamente impossível descrever um sabor, senão dando características gerais, mas chegando nem perto de se assemelhar à experiência que é, por si mesmo, saborear – então eu devo ofertar. A união da Escolha e do Saber gera a possibilidade de Conhecimento, e aí indico que se ouça a Poesia da Inteligência, do Conhecimento e da Sabedoria, lá eu falo mais sobre, mas o conhecimento basicamente está na ligação e relação entre o Coração e a Mente – entre o que eu já experienciei e qual sabor aquela experiência deixou em mim, porque o coração é o cerne, o que está em contato espiritual direto com a minha identidade, e o que eu escolhi com a mente, que é o que está em contato com a minha personalidade aqui enquanto manifestação na matéria – porque é como comentado, a mente se relaciona com o externo que entra, enquanto o coração se relaciona com o levar o que chamamos de interno para uma instância ainda mais profunda de nós mesmos.

É como se a Mente fosse a porta e o Coração, a fechadura, eu só consigo de fato abrir a porta se o coração estiver presente preenchido com o que lhe cabe. A Mente é o que envia, faz a ponte, sendo a porta entre a personalidade e o espírito, contudo, é o Coração que revela o que a Mente levará de fato, no sentido de que a escolha primeira é da mente, porque intelectualmente podemos escolher as experiências, mas, a partir da hora que se pega o fruto escolhido e o colocamos na boca, é o Coração que revelará se engole para ser absorvido (função do cérebro e do intestino) e levado até o espírito pela Mente, como Mercúrio que traz e leva as coisas entre os reinos e deuses, ou se será cuspido, vomitado, jogado fora, enfim, defecado… Ou seja, a verdadeira escolha é do Coração. A Mente não leva e não traz o que o coração não quer que seja levado ou trazido, ela obrigatoriamente obedece ao Coração. Se se tenta fraudar esse movimento de alguma maneira, a pessoa provavelmente terá a tendência a sofrer de doenças mentais e do coração, o que não quer dizer que pessoas que sofrem com tais tipos de doenças tenham necessariamente tentado manipular e forçar a fechadura que é o coração com um pé de cabra ou chutado a porta que é a mente etc., mas é uma alta probabilidade que em alguma vida isso tenha ocorrido e a doença venha como um alerta para que se tome, em algum momento, ciência, tanto da chave certa quanto da maneira correta de abrir a porta e usar a mente.

Por isso o verdadeiro conhecimento, cognoscere, a gnose conjunta, é quando ambos trabalham juntos, porque é quando consegue levar e trazer o aprendizado e com isso gerar alimento para o espírito através das lições das escolhas e desse saborear, fazendo com que passemos por transformações, que é quando, depois de passar pelo cérebro, se passa pela necessidade de produzir algo, como algum artesanato, alguma ajuda ao próximo, algum serviço para alguém, enfim, ou quando, depois de passar pelo intestino, se passa pela necessidade de defecar, urinar, enfim, passar por transformações nem sempre bonitinhas, para que o que precisa ser absorvido seja absorvido, pois o próprio bolo fecal só se forma se toda a água necessária for absorvida daquilo que não presta, para daí o resto ser expelido e passar pelas nossas genitálias. No cérebro, a água retirada é a extração do que há de sentido divino naquilo que escolhemos como experiência para que então, ao contrário do corpo que guarda para si o melhor e defeca o resto, aprendamos a ofertar ao Outro o melhor e mantermos em nós a morte do resto…

Por isso astrologicamente Quíron ainda virá a ser também regente de Virgem, pois ele é simbolicamente o representante dessa capacidade de extração da água da experiência e doação de si em morte para que o outro (Prometeu) se liberte da corrente. Em todo esse caminho, apenas para que se possa aprofundar os estudos, a Mente é representada aqui por Mercúrio (Gêmeos), a Boca pela Lua (Câncer), o Coração pelo Sol (Leão), o Intestino delgado e grosso por Mercúrio e Quíron (Virgem), os Rins por Vênus (Libra) e as saídas, nossos orifícios baixos, por Marte, que seria o Pênis ou Vagina, e Plutão, Ânus (Escorpião), com isso é possível se esforçar para visualizar o movimento que estou fazendo ao falar dessas passagens de processo em processo quanto ao que escolhemos, saboreamos e compartilhamos para que a união se faça possível caso, nos seja dada por graça e milagre divinos.

Então é possível ver também que não se trata apenas da Mente e o Coração trabalharem juntos, sendo que a união deles é uma etapa do processo, não é todo o espectro de alcance que o ser humano pode chegar a viver neste momento evolutivo, obviamente o processo não tem final (num sentido ordinário de fim, ponto final), contudo ele é passível de plenitude. O que esse processo todo possui é a finalidade em Cristo (como quando ele diz ser o Começo e o Fim, o Alfa e o Ômega, no Apocalipse), sendo que o que há é diferente de um ponto final como chegou, pode parar tudo, esse pode parar tudo não existe, o que acontece é chegar numa plenitude para seguir para outra etapa de evolução para além da que conhecemos agora como seres humanos. O que quer dizer que, além da integração Coração-Mente, deve haver também, aos poucos e a posteriori, uma integração de todas as partes: anatômicas, zodiacais, planetárias, de corpos materiais (inclusive os mais sutis), de todos os corpos espirituais etc. ou o nome que se dê à objetividade e subjetividade – já mencionadas –, ao manifesto e ao espírito e a unificação dessas possibilidades. (Não cito mais acerca disso porque também é desnecessário e seria exaustivo ficar discorrendo sobre cada pequena etapa do processo e a ligação com os outros órgãos e planetas e signos, pela Fraternidade Rosacruz, seus cursos e livros se pode começar a aprender muito mais sobre tudo isso).

Então, quando eu consigo a gnose conjunta da Mente e do Coração, é quando eu uno o cerne à mente, essa mente que é também como uma flecha. Então é quando, do meu coração, eu lanço essa flecha… meu coração, sendo guiado por Deus, lança uma flecha que atinge o peito do outro. Arco e flecha atingindo o peito do outro é também a imagem de Eros, de Cupido, e se nós já compreendemos que a luxúria nada tem a ver com isso, que o que conhecemos hoje como erotismo e mesmo pornografia – que é a degeneração total do erotismo – nada tem a ver com o sangue ferver de verdade, que é quando ele o faz buscando algo elevado, vemos que o sangue esquenta e gera calor de verdade quando derrete todos os obstáculos podendo moldá-los, evaporá-los, e até mesmo transmutá-los – se a água mole em pedra dura tanto bate até que fura, sangue quente em chumbo interno a fogo lento transmuta em ouro qualquer minério – lembrando que fogo quente modulado pelo coração, que é sua lenha, seu carvão.

Temos, assim, a imagem do Cupido que ama e coloca em relação de Amor todos que têm contato com ele. Que lança uma flecha de coração para coração e une, através dessa flecha, os corações.

Se vemos também o que foi falado na Poesia do Caminhar e do Pensamento, veremos que o verdadeiro caminho reto é aquele que observa o pendular, podendo ser possível finalmente ver que em todo o encontro de dois há um terceiro, ou seja, para além do Eu-Tu há um Ser oculto velando pela causa desse encontro como efeito; então vemos que atuar como Cupido verdadeiramente é possibilitar o trabalho de Eros, do Amor de Deus em seu estado de manifestação mais densa, por assim dizer, porque é um Amor infantil perto de toda a possibilidade, mas que é o começo, é o básico. Então é possível observar como é preciso ter o Coração e a Mente integrados para que se possa verdadeiramente começar a agir com Amor através do Cupido.

Então estar e ser numa relação que requer Mente e Coração integrados é o que possibilita que a intuição aconteça. A intuição é a essência de uma relação, daquilo que se apresenta e se extrai de uma relação, seja de outras vidas, seja deste momento, seja para além dessa matéria, bem como com seres de outras hierarquias que nos sussurram sabedorias e possibilidades, até nossa relação com uma coisa, animal ou pessoa. É ao extrair e unir a sabedoria e inteligência em relação uma com a outra que se gera a intuição. Claro que aqui é possível falar em termos formais em como esse processo se dá e como essas Poesias são, mas obviamente não basta falar para se saber Viver isso, nem adianta ter isso apenas no coração de ‘eu sinto isso, eu sei que vivo isso’ para de fato viver isso, assim como de nada adianta saber intelectualmente ou inclusive expressar tudo isso (como eu aqui faço)…

A expressão de algo não quer dizer que seja a capacidade de vivência do que se expressa, nem o sentir algo a capacidade de vivência do que se sente. Ainda que quão melhor seja essencialmente expressado ou sentido (não aparentemente, mas essencialmente expressado e sentido), maior a tendência de estar a abrir vias para aprender, apreender e compreender de fato, porque é isso, o verdadeiro viver é um movimento integrado das partes, ainda que este movimento não pretenda nem intencione ser o alcance da integração total, como numa onipotência e onisciência, porque isso só Deus, e quem se arroga tal possibilidade sofre de megalomania muito provavelmente… ainda que venhamos a ser deuses, não chegaremos lá senão pela humildade, ao jamais sequer pensar nessa possibilidade como finalidade ao buscar esse movimento integrado.

Por isso, na maior parte do tempo, é mais importante se preocupar em desenvolver as ferramentas por amar Deus e o Próximo, do que ficar querendo se analisar e criar julgamentos de se somos ou não capazes de usar a Mente e o Coração ao mesmo tempo, apenas “amando” a si próprio, ainda que seja importante, sim, ter um sincero pensar sobre estar num bom combate ou não, e vendo os detalhes do porquê se ganha ou se perde um round, por assim dizer. Mas todo lutador sabe que só se analisa e se verifica as qualidades e defeitos da sua técnica para voltar ao ringue e lutar mais uma vez, seja para luta efetiva seja para treino, o que revela que o foco reside na ação.

Por isso é preciso ver que a necessidade em se saber fazer certos exercícios, desenvolver certas ferramentas, como saber fazer escolhas e saber saborear as experiências, é mais importante, neste momento, do que de fato entrar em questões de ser ou não capaz de unir as duas coisas e construir relações, unindo a escolha ao sabor do que se escolhe. Um passo por vez às vezes evita graves erros, como engasgar e até morrer antes do tempo. Assim como é mais importante saborear aquilo que muitas vezes nos é dado, conhecer o sabor, ainda que desagradável, do que ficar escolhendo o que eu quero e não saborear baseado em premissas de um paladar infantilizado ou adolescente, de quem quer só o docinho ou escolhendo o sabor por rebeldia, sem sequer saber lidar com algo salgado, que dirá ácido, azedo ou amargo.

Por isso é preciso ter discernimento para ir conhecendo o próprio caminho… se é primeiro escolhendo os frutos para depois saboreá-los ou se é saborear primeiro para depois aprender a escolher os frutos, porque se sou muito seletivo e faço uma seleção rigorosa, posso deixar de desenvolver certos sabores e sabedorias internas que me são oferecidas dia após dia porque eu vaidosamente só quero comer o que eu quero, fazer escolhas que me convêm. Assim como não aprender a escolher os frutos também é perigoso porque eu saboreio apenas o que me é dado e deixo de entender que nem sempre tudo o que me é dado é para que eu aceite, mas sim para aprender a dizer não, porque o meu sim nada é sem meu não e meu não nada é sem meu sim; então é preciso observar a si mesmo e ver qual o movimento que se faz majoritariamente, e nisso ir se conhecendo se se é uma pessoa mais cerebral (de escolhas) ou mais cardíaca (de sabores e saberes) , por exemplo.

É claro que uma real integração dos dois é algo ainda um tanto raro e delicado de acontecer em plenitude. Hoje em dia estamos muito mal acostumados com analogias deformadas e grandes deformidades de metáforas são criadas e isso deturpa esses dois instrumentos, como, por exemplo, querer falar de Cristo e de comunismo, quando o termo comunismo e o Verbo que é Cristo são impossíveis de serem misturados, quando Cristo (espiritualidade) e César (política) não são sequer dois lados de uma mesma moeda, assim como água e álcool não se misturam, não bastando fazer análises rasas como: são ambos líquidos ou são ambos transparentes. As aparências enganam. Sendo que a aparência do comunismo visa substituir a água, que é Cristo, porque se pretende não haver espiritualidade: por mais que se misture ambos, não se verá a diferença crucial entre água e álcool, e, das duas uma, ou morremos de sede ou envenenados. É preciso escolher: ou se bebe apenas água – Cristo, ou apenas álcool – comunismo.

Já o Coração e a Mente, apesar de serem como água e óleo, aparentando ser um caso análogo ao do álcool, ele não se confunde com o mencionado, ou seja, se difere do mencionado, porque água e óleo se distinguem no conteúdo e na forma, não nos incitando ao erro e ao envenenamento de nós mesmos, óleo este que é combustível representando o fogo aliás, não havendo confusão entre ambos. Sendo que só é possível trabalhar essas polaridades porque haverá um inevitável modular do fogo pela água, porque mesmo sem apagá-lo, mesmo que vejamos pegar fogo no óleo que há na água, é ela que irá carregá-lo, ela que servirá de suporte, de base para continuar a queima constante. Ou seja, a política deverá se submeter à espiritualidade, não o contrário. Não estão sequer em pé de igualdade, ainda que ambos tenham seu grau e seu local de importância, não sendo sequer iguais ou equivalentes para estarem lado a lado. Tanto que, mais uma vez repito, sabemos, por inteligência, sabedoria e conhecimento que os santos, assim como os elevados anjos estão à frente em termos de evolução do que os cientistas e os anjos decaídos. Isso não significa que todos devemos nos tornar santos literalmente, mas significa sim que nos santificarmos é crucial para continuarmos os passos

Agora, claro, não é num mundo politicamente desigual que se consegue ser cientista de fato, a ciência verdadeira também traz a oportunidade de cada um saciar as suas necessidades (não futilidades), contudo isso não se confunde com comunismo nem tecnologização de tudo e o que valha, porque não é distribuir renda nem enlatar tudo de forma fria, mecânica e tendencialmente morta, mas sim cada um viver de acordo com a sua necessidade – e isso varia individualmente, pois não é o paraíso igualitário na Terra, mas sim a Terra como necessidade igualitária de espiritual vivência.

Ou seja, não basta apenas o coração para que um corpo tenha saúde perfeita. Não basta o mundo espiritual sem suas respectivas matérias. Não é fazer o caminho da negação das coisas terrenas, do fogo e da mente, abrindo mão do pensamento, ao contrário, se torna crucial saber que, se para aprender a pensar eu preciso passar pela reincidência (como dito na Poesia do Pensamento), para pensar junto ao coração, produzindo pensamentos intuitivos, eu preciso estar e ser no exercício da matéria, da manifestação, só que não de forma a repetir (que seria o treino), e sim de forma a fluir (sendo o real combate), com um imperceptível trabalho da mente em si, como dirigir um carro, andar de bicicleta, que ao começo é preciso ter todo o foco naquilo e lembrar detalhes, ativar a memória, e depois entender que cada vez que vou dirigir, é única porque não sei que carros estarão na rua, que momento precisarei parar ou acelerar, dar seta e virar, mas já não preciso pensar de maneira mecânica naquilo, de maneira forçosa, e sim fluídica.

O mesmo se dá com pensamentos quanto a relações mais elevadas e matérias mais sutis. Ou seja, eu permaneço atento e presente cada vez mais aliás, mas confiando que o repertório de potencialidades está ali pronto para toda situação que apareça e, especialmente, lembrando que confiar vem de fidelis que é ter fé, mostrando que o acesso a esse repertório se dá pela graça divina de Deus e minha confiança, minha fé n’Ele. Sendo que ao surgir algo completamente novo, aí sim eu aprendo, e tendo aprendido na mente, apreendo, unindo-o ao meu coração, abrindo a possibilidade de vir-a-ser, por graça, a relação de ambos enquanto conhecimento de fato, despertando a intuição verdadeira em seu grau elevado. Se torna um movimento íntimo, de internalização e manifestação de uma potencialidade.

Então o verdadeiro pensar e o verdadeiro sentir são intuitivos, porque intuição é justo o que aprendemos e apreendemos das relações, a essência delas, em qualquer tempo, tornando-se conhecimento quando, por graça, o espírito puder e dever e conseguir internalizá-lo e externalizá-lo, como analogamente o corpo faz com o ar e com o alimento, já citados. Obviamente que tudo isso junto a Deus, aliás, tudo sempre só É junto de D’us.

É preciso querer visceralmente conhecer algo para ter acesso a isso. O que significa que não adianta buscar racionalmente e querer de forma primária e unilateral apenas, pois querer com as vísceras significa estar em estado de fome, de ausência daquilo que se almeja, então se almejo sabedoria, inteligência, conhecimento, eu tenho que visceralmente saber que nada sei, que nada conheço, que nada sei discernir intelectualmente por mim mesmo; preciso saber com os intestinos e com o cérebro isso, sentir a necessidade de apreensão e absorção disso, e a necessidade de assimilar isso de alguma maneira.

Porque com educação e estudos se aprende, mas apreender e compreender se dá pelo Amor, porque ele é a chave do Coração enquanto fechadura que abre a porta da Mente. E para querer visceralmente é preciso não possuir de maneira alguma, pois eu só posso verdadeiramente querer aquilo que eu não possuo em nenhum sentido. E quando eu reconheço que nada possuo, a possibilidade de que eu possa receber apenas o que necessito aparece. E a essencial necessidade nossa, enquanto seres, é nos relacionarmos com Deus e sua divina essência presente nas relações.

Uma outra forma de ver isso é através da Arte

A Mente é a partitura que é orquestrada pelo maestro que é o pensamento, mas as notas, a composição presente naquela partitura como um todo, como pulsação, como as escolhas todas que serão lidas na Mente e regidas pelo pensamento, isso tudo é unificado pelo Coração, porque ele é as notas, o ritmo, melodia, harmonia, tudo em conjunto presente formando a composição em si. O Coração permite a composição. A Mente permite a condução e performance.

Então o Coração é a composição, e a Mente é onde a composição pode se organizar e se objetivar, por isso o espírito está além da Mente e se objetiva na Mente, porque é como se essas notas, essa creação anterior `Mente, ganhassem uma substancialidade ao formar a composição (que são as manifestações espirituais), e uma formalidade ao ir para o papel, no nosso caso, ao ser produzida na Mente e ganhar vida (manifestação física), a partir da hora em que os pensamentos começam a reger e fazer com que os desejos, sentimentos e ações toquem essa música, que é o espírito.

Cada nota, cada pausa, cada vibrar e cada silenciar se tornam cruciais, pois basta um movimento errado para haver uma perceptível dissonância. Em graus mais elevados, ainda viveremos o que a música nos oferece em termos de Palavra. Hoje ela está em seu primórdio, ainda muito rasa, incompreensível e dissonante para a maior parte de nós. Mas ainda chegará o dia em que, para além da música que aparentemente escutamos com os ouvidos, desenvolveremos todos o dom da Poesiaque é a união da Palavra e da Música! Para maior compreensão, hoje ela precisa ser feita em prosa, mas chegará também a hora que será feita em elevados versos e serão mais belas que as músicas mais sublimes já tocadas. Pois os instrumentos nos foram dados para aprendizado, mas eles mesmos já foram alterados para se criar os acordes que hoje estamos acostumados. Necessário? Sim. Mas anunciador de um instrumento maior, que é a voz, esta sim pura, sem que possamos deturpar para caber em algo arbitrariamente construído.

Instrumentos e corpos choram. Vozes oram.
Um dia não será mais preciso chorar, e então poetizaremos a boa-aventurança da humana alegria.

Outra forma de observarmos isto é pela Astrologia:

Certa vez ouvi de um amado-amigo-irmão que o coração é aquele que recém saboreia seu alimento, o sangue, e abre mão de absorver e reter esse sangue para que os outros órgãos possam se alimentar, então o Coração (nosso Sol corporal), assim como a hierarquia de Leão (Leão de Judá), estão relacionados ao sacrifício do ‘eu’ que se construiu em Áries (o Cordeiro a ser imolado), depois passando por Sagitário para ser cravado no alvo, para ter e ser a flecha que mata o primitivo que carregamos, nos elevando, unindo-nos ao Pai, porque o Pai, se estudarmos esotericamente, veremos que Ele é da hierarquia de Sagitário – eis a trindade de fogo; assim como o que comemos em Touro (signo relacionado à garganta e o que a gente põe pra dentro enquanto matéria-prima) a gente absorve em Virgem, sintetiza, discrimina e limpa em Virgem, para que daí se possa trabalhar e estruturar as coisas de verdade, que é chegar em Capricórnio, sendo que a montanha de Capricórnio também é sabedoria, então quando tiramos as impurezas ganhamos uma vista mais limpa, mais clara da realidade espiritual e material – isso também é o que a montanha muitas vezes significa, ainda que não se resuma a somente isso – eis a trindade de terra; assim como passamos para Gêmeos e aquilo que é investigado pelas lentes através dos olhos divinos de Deus, quando vemos, com a Mente e a direção do Coração, Ele pôr fogo e acender todas as coisas, para então encontrar o Amor de Libra, Amor por todas as minúcias, particularidades, criaturas de Deus, harmonizando as diferenças, para seguir até Aquário, quando nos tornamos capazes de elevar esse Amor (sendo que geralmente as pessoas dizem que Netuno é a oitava superior de Vênus, mas estão erradas, a oitava superior de Vênus é Urano, de onde Ela nasceu, desceu como semente imaculada), sendo uma elevação do Amor a um grau que jorra de nós e nos tornamos taças, jarros de Deus.

E por que Aquário, apesar de ser o acesso à Água Viva, é do elemento ar? Porque sai da nossa voz, sendo que a garganta é como o calcanhar de Aquiles se invertemos a anatomia ao deixar de olhar como por espelho para vermos em nós mesmos, só que um espelho vertical, podendo então constatar que é por onde a gente expira o ar profundo ao torná-lo Palavra, e não sai água líquida literalmente, mas há vapor na nossa fala, sendo que quão mais divina é nossa fala, mais cristalino se torna esse vapor, deixando de ser como uma névoa, uma bruma, para se tornar Água Viva que mata a sede do Outro que nos ouve, revelando o cálice da comunhão para todos os irmãos, vivendo em comunhão na boca de todos ao proferirmos a mesma Palavra; por fim, há aquilo que digerimos no estômago cuja regência é de Câncer – se o Coração permite que não se vomite, todo o percurso que se faz até Escorpião é interno, porque a gente não vê a comida passando por digestão, a não ser que se tenha clarividência, mas a priori não se vê, o que significa que é um movimento interno, esotérico, que passa por todo um processo para que, ao chegar em Escorpião, a gente possa pôr para fora as impurezas. Então é como se em Câncer sementes fossem jogadas, e elas crescessem até chegar em Escorpião e, chegando lá, vem o ceifeiro para separar o trigo do joio; muito do trabalho de ceifa começa em Libra, que rege os rins, por isso que Saturno (o ceifador) se exalta em Libra, para em Escorpião a ceifadora chamada Morte separar e eliminar de vez, por isso pode ser um processo doloroso, de separação do bruto, saindo o joio, a degenerescência, para em Peixes, sendo ele o símbolo da Mente verdadeiramente espiritualizada (se nos olharmos espiritualmente e não no espelho da matéria; com Netuno como oitava superior de Mercúrio), pegarmos o trigo que foi ceifado e, ao invés de ficar comigo, guardá-lo, eu doá-lo aos Outros, fazendo do trigo um Presente, um Dom – que são palavras relacionadas à etimologia do Verbo doar, ou seja, multiplicar os dons, o que significa que é somente ao viver em plenitude todo o zodíaco que verdadeiramente compreendemos, de Mente de Coração e corpos inteiros, íntegros, integralmente, o que é Ser o Pão da Vida, como Cristo nos ensinou e está na Bíblia.

A Poesia do Coração, como, por graça, podemos ver, não é possível de ser aprofundada sozinha, pois ela essencialmente anseia pela companhia, não somente para saborear da Árvore do Bem e do mal, que é do que se come quando ainda Coração e Mente estão separados, mas para, em milagrosa união, ofertar a Água Viva e o pão que pende da Árvore da Vida.

Mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede, Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele fonte de água jorrando para a vida eterna.” [João 4:14]

Pois minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida.” [João 6:55]

Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. …quem come este pão viverá eternamente.” [João 6:57-58]

a Poesia do Pensamento . : . [investigador & arqueiro]

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Lemos na Bíblia, por exemplo, uma das menções ao pensamento mais fortes já feitas: que basta pensar para pecar, sendo que pecar significa literalmente errar o alvo, ou seja, se já em meu pensamento eu posso errar o alvo daquilo que é necessário pensar, errando o ponto, não atingindo o cerne da questão, isso mostra que o pensamento em si é uma possibilidade de manifestação, tal qual soltar uma flecha e acertar um alvo. E se observamos que no físico, como manifestação, nós temos a ação e a reação, e que no emocional, como manifestação, nós temos o sentimento e o ressentimento, no pensamento vemos que nós temos, como manifestação, a produção e a reprodução, como observado também no texto sobre a Poesia da Arte.

Isso nos revela que o pensamento precisa, assim como todas as outras manifestações, da memória para ser ativado. E quando lembramos e chegamos à conclusão de que pensamos o tempo inteiro, que tudo que eu faço há junto uma espécie de voz interior, como um narrador na cabeça, reproduzindo histórias, reproduzindo julgamentos, reproduzindo frases e o que mais seja, inclusive imagens, é preciso observar que essa aparente reprodução de coisas internas – ter imagens e palavras internas todo o tempo – não é de fato um pensar, porque, assim como um gesto real requer uma ação, ao invés de uma reação, assim como uma relação real requer um sentimento, ao invés de um ressentimento, um pensamento real requer uma produção ou creação, ao invés de uma reprodução ou uma recreação, e incluo o recrear-se aqui porque é como crer que só porque eu me divirto ou tenho pensamentos aparentemente leves e inocentes seja um pensar em si, mas o crear não é feito na mente, e sim além dela, contudo uso aqui apenas como figura para melhor ilustrar.

Pensar, verdadeiramente, requer produção no momento em que se pensa. Isso significa que a memória não será acessada para rever maneiras já existentes de se fazer aquilo, mas sim servirá como base para se saber que não se esteve naquela situação antes, mas que também, ao mesmo tempo, não é de maneira aleatória que se pode agir perante aquilo. Em suma, para pensar é preciso, assim como para agir e para sentir, saber que nada se sabe e que ainda não se viveu aquele momento específico, mas que não é qualquer saber e qualquer agir, qualquer pensar, que servirão como base, porque é como fazer novas todas as coisas a cada pensar, contudo, sem que isso destrua a raiz do que seja um pensar genuíno sobre aquele assunto, pois, exemplificando, não é apenas proferindo frases já conhecidas sobre o que é o Amor e também não é deixando de pensar o Amor só porque já se pensou no passado, não havendo nada de novo a se falar, e nem falando qualquer coisa que será Amor de fato, mas sim, a cada vez que se for considerar determinado ‘ponto’ no pensamento, fazer com que ele verdadeiramente seja um ponto que se torne linha pela primeira vez naquele momento, e fazer com que aquela linha de raciocínio ganhe geometria, e assim por diante (como eu falei sobre a construção de um espaço ao falar na Poesia do Ouvir e na Poesia da Personalidade), tudo dentro da capacidade de cada um, e também sem fugir do fato de que pensar sobre qualquer assunto, por mais que seja feito como novo, não está livre de pressupostos, de princípios norteadores –então por um lado a memória esquece e sabe que nada sabe, enquanto por outro ela lembra pela tradição que nos habita, mesmo que conscientemente não se saiba.

Torno a repetir: pensar, verdadeiramente, requer produção no momento em que se pensa. E produzir é guiar para frente e para cima, porque passamos a nos interessar pelo que guardamos no pico de nós mesmos: a mente, em termos físicos, a cabeça. Crear é inventar. Invenção tem sua raiz etimológica em inventio, de invenire, que significa ‘descobrir, achar’, sendo formada por in- ‘em’ e venire ‘vir’. Ou seja, é algo que está ‘a vir’, ‘por vir’. Se eu pressuponho que já chegou, que já está ou já se esteve, não estou inventando nada. A invenção é própria daquilo que está em movimento. Então o verdadeiro pensamento, o verdadeiro sentimento, a verdadeira ação (tudo isso em conjunto) é aquilo que está vindo, aquilo que é em constante recebimento através do espírito.

É preciso distinguir que pensamento não é a mesma coisa que mente, assim como corpo físico não é a mesma coisa que a ação em si. Uma precisa da outra para existir, é certo, são correlatas, mas não equivalentes.

E é claro que, se observarmos mais aproximadamente, veremos que não é a mente que crea, não é o pensamento repetido uma recreação, porque o crear verdadeiro está além da mente, ele vem do espírito – por isso há vidas de seres (humanos) que buscam crear a si mesmos, como se estivessem num laboratório, e outros que buscam a recreação de si mesmos, como se estivessem num parque de diversões. Mas como algumas pessoas não concordarão com o viés espiritual, é possível, como exercício, por um momento, usar essa a creação como “algo surgido da mente”, apenas a título de ampliação das metáforas para compreensão. Ainda que produzir e crear sejam manifestações distintas, porque se dão em instâncias distintas. A produção é vinculada à matéria, a creação, ao espírito –ou seja, o espírito é inventivo enquanto a matéria é fazedora, produtiva/produtora. E claro, sem a prepotência de crer que creamos a nós próprios, eu tenho meu dever junto à creação, mas ela em si não depende apenas de mim, há seres superiores na creação junto de nós, ou seja, há seres espirituais juntos de nós. (Para maiores estudos, recomendo fortemente ler o livro Conceito Rosacruz do Cosmos, escrito por Max Heindel.).

Então, como dito, o pensamento precisa da memória para acontecer, e por o pensamento precisar da memória para ser ativado, compreendemos que há então dois movimentos possíveis distintos, como que dois polos, um negativo e um positivo, na ativação dessa memória e uso dela. Se feita de forma totalmente passiva, inconsciente do uso posterior que darei a ela (porque a intenção não é ser capaz de lembrar de tudo o que já aconteceu, mas sim ser capaz de, sabendo o que aquilo representa, significa, simboliza, eu fazer um uso de apropriação daquela memória), então terei um re-conhecer, eu repito um padrão através da atitude passiva, como ao encontrar um amigo – eu reconheço que é meu amigo e isso traz toda uma carga de julgamento já feita, já analisada e eu o tratarei de acordo com essa carga trazida enquanto reconhecimento memorável e agirei dentro de um padrão esperado, sem me presentificar para novas possibilidades, como a possibilidade daquele amigo ser algo para além do que eu conheço e agir duma forma totalmente nova, inesperada. Essa maneira passiva de se reagir é o que traz ressentimento e reprodução de pensamento, seja para reforçar algo de bom do outro ou algo de ruim. (Para mais, sugiro um texto que já fiz sobre a Poesia da Arte em que falo sobre reação, ressentimento e reprodução.).

Mas apenas para exemplificar, eis um pensamento que é repetição padrão do social: toda vez em que se vê alguém gordo comendo, por exemplo, pensar imediatamente: ‘nossa!’ (com repreensão, independente do grau de repreensão), analogamente isso também ocorre com quem toda vez repete um padrão mental de ver algo bom e reforçar isso, como ver chocolate e imediatamente pensar: ‘gostoso, quero’ (com aprovação), sendo que sabemos que nem todos os chocolates são de fato gostosos. Quem isso acha é porque não tem um paladar apurado. Assim como alguém que reforça um gostar ou não gostar, um xingar, um elogiar apenas baseado na apreensão visual, que é aparente, está longe, bem longe (ao menos naquele momento, ainda que um milagre possa ocorrer na próxima vez) de conseguir pensar.

Por outro lado, se a memória é usada ativamente, sou capaz de me lembrar das informações a respeito do meu amigo, mas me manter numa zona de novo conhecimento, ou seja, de confiança e intimidade com aquele amigo de forma totalmente nova e inusitada, de maneira atenta, presente, assim, se a pessoa age de maneira inusual, eu não me ressinto, mas busco compreender o porquê, busco produzir um pensamento sobre aquela escolha dela (usando a mente de forma ativa), ainda que eu possa discordar ou não sentir empatia pela escolha dela.

É claro que é preciso se atentar ao caminho do meio, sabendo que é somente no equilíbrio do que eu já conheço e espero do meu amigo com a possibilidade dele me surpreender e espantar que se gera realmente um uso passivo junto do ativo, ciente das possibilidades e consciente das imprevisibilidades, que é onde reside o milagre, pois todo milagre é imprevisível.

[A presentificação é a união do repetível – memória e passado -, com o irrepetível – milagre e futuro -, por isso toda memória é, em sua base substancial, coletiva (não em termos formativos, porque esteticamente ela se desenvolve de uma maneira distinta com cada um através das experiências, e isso é intransferível), bem como todo milagre, por isso seremos capazes de milagres, como disse Cristo, mas ainda maiores (com outras formas). Um milagre é imprevisível e irrepetível porque se for, por acaso, refeito, não é milagre, mas magia, fórmula etc.. Ainda que obviamente possam ser similares, estarem sob um mesmo arquétipo.]

Então vemos que a memória se torna como uma ferramenta que eu tenho, uma espécie de disco onde guardo todas as informações – seja de forma fria: apenas armazenando fatos e conclusões objetivas; seja de forma já morna: trabalhando com as probabilidades e generalidades, usando de equações matemáticas um pouco mais avançadas para minha comodidade; e de maneira quente, porque são equações específicas para cada caso que geram calor, e que, portanto, são quentes, então neste aspecto (quente) não trabalharei com probabilidades e generalidades, mas sim com uma equação específica para cada encontro, mas tendemos a evitar essa última opção porque dá muito trabalho, é mais fácil usar de generalizações dos padrões, ou seja, reproduzir de maneira morna o que já foi pensado  – lembrando que a ciência é quente à medida que faz experimentações singulares, mas tende a se tornar morna ao pegar cada experimentação singular e firmar leis com base em regras e exceções, podendo gerar avanço, sim, mas também zonas de conforto, ou mesmo imutabilidades – como quem diz ‘eu sou o medíocre e sempre serei, não há nada a fazer’ porque medíocre é o que está na média, no meio, em vez de descobrir o que é sair da média e ser quente em relação ao seu próprio desenvolvimento, sem que a comparação com o de fora seja um parâmetro fixo, mas sim cardinal, de iniciativa a um movimento também interno. Ou seja, sendo alguém aparentemente morno, mas em verdade quente por estar saindo do ponto médio (morno) de si mesmo.

Contudo, obviamente podemos nos diferenciar das máquinas (na frieza da objetividade) e da massa (na mornidão das generalidades), pois temos a humana capacidade de verdadeiramente usarmos as leis da lógica e da probabilidade para irmos adiante e usar da memória para guardarmos formas – por exemplo, sabermos como se faz uma comida – como pizza, e, presentificadamente, atentamente, sermos capazes de produzir fórmulas – quando me torno capaz de, sabendo a base do prato, sabendo a forma de fazer uma pizza, fazê-la pela primeira vez ao integrar detalhes não antes imaginados – como quem inventa um sabor ou dá um toque do chef, chegando num resultado de maneira única, e ainda sendo reconhecível como uma pizza feita por mim, não porque eu disse, mas porque os outros identificam o sabor característico tanto da pizza quanto do que eu faço, que revela meu saber, sendo que sabor e saber são relacionados (sugiro que leiam o texto sobre a Poesia da Inteligência, Conhecimento e Sabedoria), sendo capaz de produzir um prato de alimentos ordinários, do dia-a-dia, com fórmulas únicas, minhas, intransferíveis – igual comida de vó e de mãe, que ninguém faz igual, ainda que possa haver algo parecido e ser algo simples, como o arroz e feijão de todo dia. Ou seja, somos capazes de fazer isso, com tudo, através de formas e fórmulas, inclusive, e especialmente, com as relações entre pessoas.

Se nós temos o grupinho da balada, o melhor amigo para confessar, o conhecido que convém quando não tenho quem chamar etc., se eu ajo com as pessoas de forma mecânica, setorizando e reconhecendo padrões, probabilidades e as mantendo de maneira estática em grupos que irei tratar apenas de um jeito, então sou uma pessoa morna ou mesmo fria que age, no máximo, como máquina, tratando os outros com o máximo de objetividade. Assim, eu não me abro à possibilidade da surpresa, e não me torno capaz de produzir novas fórmulas com qualquer dos ingredientes que me sejam dados – ou seja, não sou capaz de produzir relações (sejam doces ou amargas) com qualquer pessoa que se me apresente.

Isso tudo mostra que o nosso cérebro em si e a mente (que são duas coisas distintas) e as funções desempenhadas por eles são ferramentas que temos para produzirmos e aprofundarmos nossos próprios pensamentos, ao invés de reproduzi-los o tempo inteiro, como tendemos a fazer ainda. Em suma, para fazer novas todas as coisas na mente a cada pensar, fazer novas todas as coisas no emocional a cada sentir, fazer novas todas as coisas no físico a cada agir.

E pode surgir a pergunta: mas, e as pessoas que nos fazem mal, devemos tratá-las sempre, para sempre, como se fosse a primeira vez? Obviamente que não é assim. Se olharmos, qualquer religião e qualquer tradição, em sua maioria (para não dizer todas), irá dar um prazo para nós, seres humanos, aprendermos a ser melhores (seja lá o que melhor signifique para cada uma). Não temos a eternidade para isso, mas sim um tempo finito para esta tarefa, ainda que sejamos eternos. Assim como a criança tem um período para ser criança e a tratarmos como criança, nós temos um período para agirmos de forma inconsciente e sermos tratados como seres inconscientes do que fazemos, no caso de fazermos coisas ruins uns para com os outros, ainda que em atos pequenos.

Aos poucos tomamos ciência, e depois consciência, sobre as coisas que nos acontecem e que são, por nós, acontecidas. É preciso se atentar ao respeito, em primeiro lugar, sendo que essa palavra literalmente significa ‘um segundo olhar’, então sim, devemos buscar ter um segundo olhar em relação às pessoas, pois é isso que torna possível milagres como assassinos se redimirem e serem verdadeiramente perdoados, tanto na Bíblia, como aconteceu com São Paulo, como na vida real, com familiares das vítimas que buscam realmente uma relação de paz e de novo começo com seus algozes.

Obviamente isso requer sinceridade e inocência nos atos cometidos. Um assassínio pode ser um ato inocente? Sim, pode sim, bem como inconsciente. Nós sabemos disso, nossos antepassados matavam por nada, e isso não significa que estão todos condenados e fim da história – do contrário, não teríamos deixado de ser o literal “homem das cavernas”, que dava paulada e matava a troco de nada – independentemente de cor, etnia ou raça. Contudo, eis uma crucial diferença: há quem saiba da maldade e pratique a maldade pela maldade em si, seja por astúcia (o calor do momento) seja por frieza, como sociopatas e psicopatas, e pessoas que mesmo sem qualquer patologia aparente, escolhem ir por este desvio, escolhendo agir friamente. Então é preciso ter imenso discernimento, porque é preciso aprender a ser respeitoso em relação aos outros (ou seja, ter um segundo olhar acerca dos outros e suas escolhas) sem, contudo, perder a capacidade de discernir o bem do mal, a inocência da ignorância. Eu só ignoro algo do qual tenho conhecimento, já a inocência sequer percebe que havia algo ali, ela pisa na jaca por não ter visto a jaca realmente – ela mata, ela bate, ela age de maneira violenta porque realmente acredita ser o melhor ou acreditar ser a única saída, por não ver a maldade em si no seu ato, mas sim algo de verdadeiro, enquanto a ignorância pisa na jaca porque a viu, mas escolheu ignorar que estava ali – ou seja, sabe que tem algo de errado, mas ignora, e a maldade é o grau maior da ignorância quando, sabendo que há a jaca, sabendo que há algo de errado, que há maldade, vai e pisa de propósito.

E o que tudo isso tem a ver com o pensamento?

Porque a vida muda quando ‘nos damos conta’ de que tudo pode ser diferente. Não é sentir aleatoriamente que pode ser diferente, nem agir aleatoriamente de maneira diferente… mas sim apreender e compreender internamente que é só alterando o processo de como eu penso que posso de fato ver a essência dos acontecimentos, podendo, assim, começar a desenvolver a capacidade de, por graça e milagre, um dia fazer novas todas as coisas.

Pois nossa percepção mental pode mudar: digamos que eu esteja vendo um prédio de 3 andares… se eu estou longe dele (como num avião), eu posso me enganar e eu pensar que é uma casa, loja, galpão etc. porque eu só vejo o teto, por exemplo, contudo, isso ocorre por a minha percepção estar alterada pelo meu lugar no caminho, sendo que isso não faz com que o prédio deixe de ser prédio e se torne outra coisa porque eu assim penso, sinto ou digo. As coisas, fatos e pessoas não se modificam puramente de acordo com nossa percepção individual, mas é a percepção individual que permite conhecer mais a fundo e mais essencialmente as vidas e existências e, a partir daí, da relação, seja da relação das percepções (no caso de duas pessoas) ou da relação da percepção com a coisa em si (no caso de um arquiteto e um prédio), que algo pode mudar.

É importante notar, no entanto, que a causa da mudança, ou seja, a causa do efeito gerado não está apenas em mim, pois isso precisa ser necessariamente dentro de uma relação, porque a causa de um efeito pode estar em mim – que seria eu observar um prédio e achar que é casa, ou em outra figura, eu observar uma pessoa e achar que ela é apenas aquele pequeno pedaço que se apresenta perante mim, e assim sendo porque eu não desenvolvi recursos ainda para ver o prédio tal como ele é, nem a pessoa tal como ela é, porque vejo apenas um pedaço, uma fração. Mas se o efeito existe, que é ver o prédio tal como ele é, inclusive independentemente do tamanho de como ele se apresenta no meu caminho, seja pequeno ou grande, seja de perto ou de longe, mas se a percepção existe, a capacidade de discernimento de que é aquilo é um prédio, e que toda pessoa é mais do que uma personalidade, mas, acima de tudo, um espírito, isso faz com que se apresentem causas superiores, havendo a chance de algo indeterminado, um prédio, uma pessoa, um espírito, se tornar determinado e específico, porque não é apenas pelo fato de ter percepção que eu acesso isso, mas por entrar em relação genuína com aquele Outro que se apresenta e, nesse conhecer interno e íntimo, nessa gnose conjunta (cognoscere), a causa desse conhecer ser derivada de mim em soma com o Outro. É claro que se aprofundarmos o assunto veremos que a causa em si, ao se somar estes dois, emanará de um terceiro superior, que possibilita, por dádiva divina, esse encontro acontecer, porque todo encontro é sustentado por forças e leis superiores às que se harmonizaram naquele momento, como duas notas que só soam e compõem porque há um único instrumento, ou dois ou mais instrumentos que soam e compõem com um único maestro, um único mestre.

Então o pensamento é a capacidade de abstração e de concretização – porque pensar é produzir sons e imagens, agregar ideias; pensar é uma capacidade mental que temos, similar ao respirar ser uma capacidade corporal que temos, inerente e necessária, inevitável, ou seja, vital para o corpo denso. Pensar é vital para a mente, mas assim como não sabemos respirar direito, nós não sabemos pensar. Então nós reproduzimos pensamentos de maneira mecânica, porque pensar é um ato vital, assim como respirar, então o faremos de alguma maneira, ainda que errônea. Claro que não é preciso pensar na mesma constância com que respiramos, são dois atos distintos e, portanto, com formas diferentes de serem postos em ordem, o que significa que eu respiro em intervalos de segundos, mas não preciso literalmente ter um pensamento a cada intervalo de segundos. Aqui, são atos apenas análogos, para usar de uma lógica intrínseca a ambos, porém não idêntica na sua prática, claro.

Aprender a pensar é tão crucial quanto aprender a respirar – não é de qualquer forma que acontece, ainda que vá acontecer por inevitabilidade de reação corporal e reprodução mental porque senão regredimos e tudo falece. Quanto mais temos problemas para pensar, mais podemos observar doenças mentais se manifestarem, porque doenças mentais não é apenas pensar diferente do resto, mas pensar de forma desagregada do resto, ou seja, sem inteligência, sem sabedoria, sem conhecimento, sem conseguir escolher o que se pensa, sem conseguir saborear o que se pensa, sem conseguir ser e estar em união com o que se pensa, tanto que os próprios pensamentos e falas vão se tornando cada vez mais desconexos (de acordo com a gravidade do problema). Eis a crucialidade em aprendermos a dominar a sua prática, assim como é crucial aprender a respirar, ambos os atos caminham muito próximos, pois sabemos também, para quem estuda minimamente os simbolismos dos elementos – água, fogo, ar e terra -, que o ar tem relação simbólica com o intelecto, com o caminho que leva a pensar. Ou seja, quanto mais orquestramos nossa respiração, mais tendemos a ordenar nossa mente.

Claro que não há uma fórmula de ‘respire de um jeito determinado e terás paz, ou te converterás num gênio’, aliás, esse é um grande cuidado que se deve ter em relação a práticas orientais que nos trazem exercícios fortes quanto a alterações de estado através da respiração. Eu não indico isso a ninguém, até porque a prática oriental da respiração está relacionada, em sua raiz, a crenças que precisam ser conhecidas muito a fundo para que o exercício tenha o efeito que promete, pois é como orar sem ter o menor conhecimento religioso e espiritual sobre orações de fato. A chance de se estar jogando fora palavras ao vento, bem como respirando de maneira a apenas enlouquecer a mente, é grande. Então tenhamos cuidado. Mas claro, cada um tem seu livre-arbítrio a ser exercido e não estou aqui e não sou ninguém para negá-lo. Pessoas oram sem o respaldo do aprofundamento religioso, assim como meditam e fazem exercícios respiratórios sem o respaldo de mosteiros. Apenas não recomendo nem uma coisa nem outra, que ajamos sem conhecer as raízes das nossas ações, especialmente quando estão ligadas tão radical e inescapavelmente a tradições.

De toda forma, ter a prática da atenção quanto à forma como respiramos é um princípio para aprendermos, com o tempo, a termos atenção quanto à forma como pensamos. É um caminho similar ao da meditação, mas, como dito, não proponho aqui formas orientais de se fazer, mas sim ocidentais, ou seja, não é preciso parar tudo para meditar, esvaziar a mente, negando os pensamentos, mas vigiá-los ativamente e usá-los ativamente. Aprender a esvaziar a mente pode ser uma ferramenta que auxilia nesse desenvolvimento, claro, mas deixar de desejar, de pensar, de agir no mundo não é a melhor forma de se estabelecer no mundo, por isso o que eu observo aqui vai na contramão da proposta oriental, que seria o caminho da negação; aqui o que observamos é o caminho da aceitação: em que eu aceito as ações, aceito os desejos, aceito os pensamentos, mas aceito sob a observação constante e o discernimento.

Por isso não é deixar de pensar, mas sim pensar acertando o alvo, ter uma mira, um foco absurdamente treinado, eis o desafio que vemos quando retomamos a fala do pensar ‘ser o estado de pecado’ por se errar.

E quantas vezes dizemos algo que na nossa mente parecia brilhante e ao sair de nossa boca chega no outro de maneira opaca, até mesmo quebrada, em pedaços, ou sequer chega no outro, como uma flecha que cai no meio do caminho, e terminamos incompreendidos…

É através da (por meio da) mente que se dá a integração total do ser. Sem ela, nos tornamos reféns de atos, sentimentos e pensamentos repetidos, ficamos presos nas mesmas reações, ressentimento e reproduções mentais como ratos numa roda, nos tornamos reféns das mesmas situações que se repetem em círculos para que tenhamos a chance de acordar e nos darmos conta de que é preciso ativamente pensar na próxima vez em que aquilo acontecer.

No livro Conceito Rosacruz do Cosmos seu autor, Max Heindel, nos brinda com uma passagem a respeito de como tudo tem seu início no pensamento: quando vemos um homem dando um soco em outro homem, sabemos que a mão de um atingiu o corpo do outro, mas que ela não agiu deliberadamente, veio antes de um impulso desejoso de ferir que, em sua raiz, partiu de um pensamento de ódio. Com isso, vemos como tudo toma forma no pensamento antes de se tornar ação ou reação, porque mesmo o desejo precisa da mente para ganhar manifestação ciente, lapidada, do contrário reagimos de acordo com os desejos, e os outros até mesmo podem ver que ‘agimos sem pensar’ porque a reação em si se torna evidentemente oposta a uma forma emancipada de ação, ou seja, agir tendo o desejo como instrumento é inferior que agir tendo, antes do desejo, o pensamento como maestro. É claro que a mente é como a organização disso num todo, um maestro por si só não sabe o que fazer e irá reger de maneira aleatória e louca se ele não tiver uma partitura a que seguir, ou seja, a mente é a partitura, sendo que quem inventa a partitura, quem crea a partitura é o espírito que está além da mente, ele crea a partitura e ela é usada como base para que o pensamento seja o maestro que orquestra tudo isso, todos os instrumentos e, por sua vez, o som que sai deles através dos músicos que agem, que são as ações.

Então o ato de pensar em si não precisa ser feito toda hora, acerca de tudo, mas sim especialmente nas relações que se repetem – seja repetição de atos, repetições de sentimentos ou repetições de pensamentos em si mesmos.

Se observarmos como o pensamento é a nossa possibilidade de errar e de acertar, de focar em algo ou desfocar algo, de aproximar ou distanciar, podemos ver que a mente é análoga a uma lupa, um ponto onde eu foco (sendo ele o pensamento) uma luz, um olhar, bem como análoga a um arco, criando uma tensão que possibilita impulsionar a flecha (sendo ela o pensamento) com energia atingindo um alvo, sendo que a lupa põe fogo em algo – no caso da lupa, um lado dela aproxima e o outro distancia, mostrando que a mente também não deve ser usada de qualquer jeito, bem como sendo possível usá-la para ver melhor as coisas ou desnortear-nos, nos afastando do que observamos.

Se o pensar se diferencia da mente, podemos também observar como a mente é análoga ao corpo físico, e, assim como nos mantemos fisicamente através da comida, podemos dizer que mantemos nossa mente através dos pensamentos que temos, o que significa também que é possível ter pensamentos que nos constipem, que causem diarreia mental, que nos adoentem e que nos curem, sendo tão primordial escolher o que se pensa quanto o que se come. Ou seja, além de estar relacionado com o elemento ar, também se relaciona com o elemento terra sob esse belo aspecto. E a ciência corrobora ao nos mostrar que o intestino tem neurônios e mantém uma relação íntima com o cérebro – local em que grande parte dos nossos pensamentos (alimentos mentais) são digeridos.

Pensar significa ‘formar uma ideia’. Sua vinda do Latim, originalmente como pensare, trazia junto a si o verbo pendere, querendo dizer em sua raiz um ‘pendurar para avaliar o peso de um objeto’. Em espanhol, pienso significava ‘vegetais secos para alimentar o gado’ (toda a etimologia que trato nesses textos podem ser encontradas facilmente no site http://origemdapalavra.com.br, que faz um trabalho sério e confiável). Assim sendo, temos o verbo pensar também se referindo a uma forma de alimentar-se, que no português chegou como ‘tratar, curar’, pois os alimentos são a forma de tratar a saúde, curando a doença. Ou seja, por fim, pensar também tem o sentido de ‘curativo’ no português e no francês, enquanto no espanhol permaneceu junto ao alimentar. Então observemos como pensar constituía tanto a possibilidade de pesar algo, abrindo brechas para haver dois pesos e duas medidas, bem como sendo potencialmente também um alimento, uma cura, um tratamento para se obter o próprio equilíbrio não estabelecido ou perdido.

E como escolher o que pensar? Assim como escolhemos nossa comida indo a um determinado restaurante, mercado, quitanda, podemos aprender a escolher nossos pensamentos através do que lemos, ouvimos, falamos, estudamos, porque tudo o que entra em nós está, de alguma forma, alimentando nossa mente, inclusive o próprio alimento físico, porque eu o escolho através do que penso antes e depois de comer, reforçando ou não a minha escolha na próxima vez.

Assim sendo, se torna importante questionar: será então que só é possível pensar de fato a respeito de algo que eu já vivi e torno a viver, ou seja, será que um pensamento só é gerado a partir de uma segunda experiência pela oportunidade da reincidência? Porque é como comer algo pela primeira vez, não posso saber se gosto ou não, se me fará bem ou mal comer, ou seja, não tem como sentir ou pensar algo sobre aquela comida senão comendo pela primeira vez, ou seja, talvez o pensamento só exista de fato se eu sou capaz de viver o que penso, estando o viver para além de apenas imaginar, mas conectado ao sentir e ao agir, sendo uma tríade ao atuar.

É importante, no entanto, ressaltar que o pensamento, o sentimento e a ação não precisam ser exatamente iguais, eu não preciso viver todos os tipos universais de situação para pensar sobre cada um, basta que eu vivencie situações que estão sob o mesmo arquétipo, sob o mesmo simbolismo elementar, para aprender a pensar sobre aquela determinada ação, sentimento ou pensamento sem que eu tenha que agir, sentir ou pensar de forma idêntica. Basta estar sob a mesma lógica para se aprender, aos poucos, a lidar com as formas análogas.

Pois a vida nos ensina a traçar parâmetros, princípios: se eu não gosto de doce, posso evitar comer qualquer tipo de doce, porque sei da minha tendência a não gostar, logo, sei que há certos tipos de pensamentos que me farão mal por já ter uma experiência geral dentro do mesmo parâmetro (sempre lembrando de se ter cuidado para a generalidade não virar mornidão da escolha, zona de conforto, e deixar de comer por julgamento generalizante). Assim, vemos a diferença radical entre julgamento e pensamento, pois se eu julgo, eu estou fora daquela experiência que eu julgo, e, por isso, não é um pensamento original o que eu produzo, mas sim uma reprodução, um pré-conceito que eu tenho a respeito de algo que não conheço verdadeiramente, ou julgo conhecer – eu reproduzo pensamentos e sentimentos alheios sobre o que é o sabor doce, reagindo ao doce como os outros inclusive, ao invés de simplesmente me permitir conhecer por mim mesmo, seja para gostar ou não gostar de um doce específico, conhecer em seu sentido original de ter uma relação íntima, um contato íntimo com o que se me apresenta. E se eu não gosto de doce, eu sei que não preciso xingar o doce para justificar isso, eu apenas não gosto, e isso não pressupõe um julgamento de bom ou ruim, de nojo ou qualquer reação que seja.

Mas isso também não nega o discernimento em sabermos que há certos tipos de coisas que simplesmente até podem ser ingeridas, mas não são comidas, não devem ser postas para dentro, como venenos, ou mesmo um alimento já podre – você pode comer, mas não deveria. Isso revela que o pensar também tem a peculiaridade de aprendermos a discernir os pensamentos dos julgamentos, bem como os pensamentos bons dos ruins: há coisas que comemos que julgamos nos dar saúde e vida quando na verdade são alimentos falsos, mortos, seja por aprendermos que não devemos nos alimentar de carne morta, seja por aprendermos que quanto mais industrializado um alimento for, mais morto ele também está, ainda que, claro, haja tempo de tudo, inclusive de comer carne e de precisar de alimentos industrializados, pois a tecnologia em si não é nossa rival, contudo não devemos deixar nas mãos dela a nossa Vida, a nossa vitalidade, só isso – o similar a isso na mente é deixar que as máquinas “pensem” por nós. Quanto mais dependemos de coisas fáceis – alimentos fáceis, sentimentos fáceis, pensamentos fáceis, tudo enlatado, tudo morto, tudo tecnicamente embalado -, mais estaremos enganando a nós próprios a longo prazo, porque, afinal, como serve para nos mostrar a lei do mais forte, Darwin deixou claro que quem cresce na matéria é quem domina as dificuldades, que vence quem é capaz de obter os melhores alimentos, melhores condições gerais, e, por que não?, melhores pensamentos.

O que Darwin não aceitou foi o fato de que o melhor materialmente falando nem sempre é o que nos aparenta ser melhor, pois as aparências enganam. Então podemos julgar que pensar algo ou não pensar algo pode ser bom. Mas será? Para aprender a pensar direito é preciso antes desenvolver o discernimento, pois ele que permitirá saber se preciso passar pela experiência de experimentar para saber o sabor, ou simplesmente não saborear, como por exemplo não precisarmos provar algo podre na vida para saber como será, a experiência do cheiro podre evita que ela venha a se prolongar a um sentido mais – mas ainda assim o saber pelo olfato se dá pelo experimentar (experimentar olfativo, sendo desnecessário um experimentar palatável). O discernimento faz com que seja possível evitar experimentar certos tipos de pensamentos, assim como certos tipos de pensamentos demonstram ser possível evitar certos tipos de experiências na fisicalidade, e mesmo na emocionalidade.

Assim como no arco há uma flecha a ser lançada, assim como na lupa há um fogo, um calor superior a ser concentrado, sendo que até mesmo os olhos são fontes de calor, logo podemos ver que a mente, enquanto ferramenta, também possui uma fonte subjetiva a ser objetivada, a ser focalizada para que possamos ver, porque a lente amplia ou diminui algo, assim como produz fogo a partir de um calor que não vemos, uma luz que não era manifestada como fogo até aquele momento, assim como compreendemos que não é a flecha nem o arco que veem o alvo, mas um outro ser, que os segura. Então seguindo essa lógica, devemos nos perguntar: será que analogamente há algo superior à nossa mente, algo que eu não vejo de maneira manifesta normalmente? Porque eu, corpo, desejos, mente, eu-personalidade, sou como o arco e julgo que sou eu que possuo a flecha, bem como passo a acreditar que eu sou o suporte da lente, ou ainda que eu sou a mão que segura o suporte da lente, e fico acreditando também que, por calor sair dos meus olhos e de outros membros, o fogo foi feito pela concentração da quentura deles… o que são, em ambos os casos, apenas falácias.

Sabemos que na verdade é o calor e a luz do sol que se converte no fogo que vemos, assim como a mente também focaliza através de nossos olhos espirituais, mas não é deles que vêm a luz e o calor que faz com que as coisas aqui no plano físico se manifestem, em atrito com nosso corpo físico ao gerarmos movimento. Há um ser superior que nos dá verdadeira complementariedade e suporte para que, um dia, quem sabe, sejamos capazes do mesmo. Ou seja, a mente sequer focaliza os olhos espirituais, mas sim o calor e luz de Deus. Os olhos espirituais apenas direcionam, afinal, não se forma fogo na sombra.

Contudo, é preciso compreender que, assim como o sabor não está na boca, mas na fruta em si mesma, ainda assim, a boca só sentirá o sabor, bem como nós só apreenderemos o saber, ou seja, ele só se tornará manifesto como pensamento (tal qual sabor que é manifesto como gosto), se houver ferramentas apropriadas para isso e se ela tiver um desenvolvimento adequado, não bastando crer que qualquer coisa que se sinta na boca seja um sabor de fato, bem como achando que qualquer coisa manifestada na mente seja um saber, uma ideia, um pensamento e por aí vai.

É preciso se questionar também: se o corpo físico nós conhecemos através dos cinco sentidos, se ao nosso corpo emocional nós conhecemos através dos sentimentos, se nossa mente nós conhecemos através dos pensamentos, será que, em semelhança ao corpo físico, terá a mente e este corpo emocional outros sentidos que ainda não sabemos nomear, ou sequer sabemos que existem? Será que a mente faz mais do que apenas pensar, assim como o corpo faz mais do que apenas degustar, ou apenas ouvir, ou apenas ver, ou apenas tatear, ou apenas cheirar? Ou o pensar é uma possibilidade que se divide em outras, assim como sentir se divide em sentir com a pele, com o ouvido, com o nariz, com a boca e com os olhos?

A criança nasce, idealmente, com os cinco sentidos, mas os desenvolve de maneira gradual e distinta à medida que cresce. Qualquer mínimo conhecimento teórico sobre psicologia veremos que existem diferentes fases com diferentes características sobre um maior foco em determinado sentido, levando à integração ideal dos mesmos – auditivo, visual, tátil, olfativo e palatável, com o tempo. Talvez com a mente seja a mesma coisa, desenvolvamos capacidades distintas dela em cada fase da vida, mas, sabendo que uma criança não é capaz de produzir pensamentos, ainda que elas naturalmente possam saber constatar a filosofia da vida, assim como enquanto adultos também demoramos para amadurecer realmente (muitos inclusive se mantendo imaturos para aparentarem ser mais novos), se torna de grande valor viver o máximo de anos e envelhecer com saúde para que possamos, após o alcance dessa maturidade interna (cada um em seu grau de madurez), finalmente desenvolvermos os diversos sentidos da mente – se é que ela possui mais de um, pois o próprio produzir um pensamento, a própria capacidade de pensar é, em si, um desafio para a vida inteira.

É preciso atentarmos também para o fato de que, assim como existe a maneira certa de se usar um músculo, articulação e membro do corpo, assim como existe a maneira certa de sentir determinado sentimento e não haver confusão entre sentimentos, havendo também uma maneira adequada de se direcionar os sentimentos, ou seja, assim como para caminhar há que ser um pé após o outro, porque se forem ambos ao mesmo tempo será pular e não caminhar, muda a ação (ainda que ambas possam locomover e fazer ir para frente), e assim como um sofrimento não é uma demonstração de amor, ainda que uma pessoa possa aprender a se amar a partir de uma experiência dolorosa – pois é possível aprender a se amar a partir de uma tragédia, o que não quer dizer que uma tragédia seja demonstração de amor (por isso Deus permite que usemos de nosso livre-arbítrio caso escolhamos sofrer e fazer sofrer – é na liberdade que Ele nos dá que reside Seu Amor -, mas não é Ele quem nos faz sofrer), assim também existe uma maneira correta de se pensar, existe uma forma adequada e que convém ao se usar a mente e se articular os pensamentos, ou seja, não é de qualquer maneira que se pensa.

A conexão de determinados pensamentos, como articulamos eles, significa que se está rastejando com eles, ou pulando, ou andando, ou correndo, ou inclusive voando, então existe sim uma forma correta de se pensar, uma forma adequada e uma inadequada, isso não quer dizer que se deva extinguir quem pensa da maneira inadequada, não apropriada, porque eu posso caminhar com os pés tortos, por mais que isso vá causar deformações no meu corpo a curto ou longo prazo, mas nem tudo convém. Então é possível fazer uma caminhada, seja por minutos ou horas, com os pés intencionalmente tortos, caso eu não os tenha naturalmente tortos, mas não significa que convém, que seja a melhor maneira de o fazer (porque caso eu os tenha naturalmente tortos, eu, inclusive, provavelmente procurarei médicos e maneiras terapêuticas de melhorar a condição ou minimamente evitar que se agrave, o que mostra que até para andar torto há uma maneira mais adequada), e isso tudo não significa extinguir pessoas que caminhem com os pés tortos, bem como nem quem pensa torto, o cuidado que devemos ter é com quem sabe que causa deformações andar torto, pensar torto, e, ainda assim, insiste em assim fazer e, pior, em assim ensinar os outros.

Aprender o movimento correto, seja do corpo físico, seja do emocional, seja da mente, é essencial e crucial – lembrando que o dito correto é de acordo com as singularidades: para uns o movimento correto de andar será sobre uma cadeira de rodas, para outros será com os pés naturalmente tortos, com muletas, com gesso, outros inclusive amputados, e por aí vai – mas todos buscando andar sem que maiores danos sejam causados, porque sempre procurar melhorar a forma como se anda é a essência do que se chamaria correto. Assim sendo, há formas de se pensar que não convêm, há formas de se formalizar coisas, concretizar coisas mentais que não convêm. Não é necessário ler a Bíblia e acreditar que ‘pensar é pecar’, está para além da Religião, é questão Científica e Artística, de Lógica e Analogia. Não requer uma crença pessoal para que isso seja verdadeiro.

Pensar é de uma responsabilidade imensa!

Quando eu aprendo que existe uma maneira certa, adequada de usar minhas mãos, pés, olhos, boca, enfim, cada parte do corpo fisicamente, quando eu aprendo isso em uma totalidade verdadeiramente integrada, eu possibilito que todo o aprendizado que eu tiver dos meus sentimentos também se materialize de forma mais clara. Então compreenderei que tem gestos que são mais adequados, que convêm para demonstrar amor, carinho, e outros que são relacionados à demonstração de ódio, rancor, e que não há como confundir um com o outro – a priori, pois já falamos sobre a inocência de um ato violento e isso altera o que as aparências mostram.

Mas quando eu organizo meu corpo emocional, meus sentimentos, eu também passo a compreender que têm sentimentos que convêm em determinados momentos e outros que não convêm, que o ódio não convém, por exemplo, mas que oposição, divergência podem convir, porque deixar de odiar as coisas não significa se conformar com as coisas deformadas. Claro que com o tempo aprendemos também que basta nossa posição, e não necessariamente oposição, para mudarmos algo, pois basta ser onde estamos – isso faz com que aos poucos as coisas deformadas ganhem formas apropriadas, porque agir por posição é diferente de agir por oposição. Então começamos a compreender e discernir os diversos sentimentos e as nuances emocionais, as possibilidades de movimentos emocionais que nós temos, assim como convém amar a todos, mas não convém sentir tesão por qualquer um ou se apaixonar por qualquer um, por exemplo.

Começamos a ver que sentimentos e pensamentos que muitas vezes são confusos para nós, enquanto sociedade, têm uma clara distinção entre eles, assim como mover meu dedinho mindinho é completamente distinto de mover meu dedão, meu polegar, ainda que ambos estejam em minhas mãos e o movimento seja inclusive similar, indo para frente e para trás, mas sendo duas coisas distintas.

Pensamentos que relativizam tudo, que partem da base do relativismo absoluto, equivalem a achar que qualquer movimento é caminhar para frente, mover para frente, quando fisicamente sabemos que não, é nítido que não. Mas como não conseguimos ainda ver os pensamentos achamos que com eles é diferente, é relativo, porque se os víssemos, veríamos que há distinções e nuances. E, ainda que a aparência engane, ela ao menos ensina sobre não podermos relativizar todas as coisas de maneira caótica e generalizante.

Podemos relativizar que um corpo está indo para frente se usamos como parâmetro outro corpo que se move para trás, mas se deixamos de lado as retóricas astuciosas que nos fazem tropeçar ou andar em círculos através de sofismas, assim como somos capazes de constatar que alguém parado é alguém parado e ponto, há certas maneiras de se pensar que são estagnações e ponto, não se caminha, porque o caminhar, aliás qualquer movimento, é de responsabilidade do Indivíduo – por isso não há como relativizar através de um Outro corpo, através de um Tu. A pessoa pode estar observando algo, vendo uma paisagem, alguém estar caminhando para trás do lado dela, isso não significa que ela esteja caminhando literalmente, nem que algo aconteça no pensamento dela, que o pensamento dela esteja em ação só porque ele reproduz figuras ou sons mentais e o que seja, não está, é passivo. E não confundamos com o passivo-ativo ou ativo-passivo – sem entrar na questão de que parar é uma ação, portanto um mover-se metafórico, eu falo da preguiça, da estagnação, da morbidez daquele que é só passivo, nulo, assim como uma pessoa literalmente parada não anda, ela pode estar tomando fôlego para andar, então pode ser crucial ela parar para continuar a andar, mas estar parado não é andar. Ponto.

Então podemos ver que um corpo físico bem estruturado é um corpo emocional que também se estrutura e ganha clareza de manifestação do campo físico, e um corpo emocional bem estruturado é a possibilidade de melhor estruturar os pensamentos, a mente, e manifestar isso de maneira muito mais adequada através dos sentimentos que por sua vez se manifestarão através das ações.

E quando tenho os pensamentos também organizados eu consigo finalmente ver que há pensamentos que convêm e outros que não convêm, e há movimentos que são falsos também na mente, que são julgamentos errôneos que fazemos quanto a acharmos que estamos pensando, quando, na verdade, estamos totalmente estagnados em pensamento, ou reproduzindo, andando em círculos.

Outra questão que vemos surgir é: se o corpo humano físico tem um padrão ao ser, mas ainda assim possui, cada um, uma combinação própria e singular de manifestação, e assim como os sentimentos são gerais, mas cada um sente de tal forma que não há palavras para descrever e igualar a experiência dentro do outro, mas apenas conhecê-las a partir de uma vivência similar, contudo interna e única, intransferível, ainda que comungável (como pode acontecer em um abraço, ou quando transamos na intenção de fazer amor (caso ambas as pessoas se encontrem indo para as mesmas pulsações emocionais, claro)), terá a mente também semelhança enquanto mecanismo total, mas singularidade enquanto produção individual? Isso significaria, quando todos forem conscientes de como alinhar todos esses campos, corpos, realidades que vivemos, que cada um terá uma forma de pensar, ainda que os pensamentos em si nos sejam gerais – assim como sentimentos nos são gerais, mas únicas as formas de os sentir.

Então busquemos a forma que nos faz singular dentro dessa igualdade que a todos já é dada como graça benevolente. Porque para encontrar a minha forma única de produzir pensamento, de pensar, preciso antes ter uma forma única de caminhar, de me mover, de dançar, de agir com o corpo físico, assim como uma forma única de sentir e me emocionar.

Quando nos deixamos levar por correntes de reações em massa e emocionalismos genéricos, igual à massa, estamos a reproduzir pensamentos alheios, e estamos longe de estarmos e sermos em plena consciência de nós mesmos. Nada contra o grupo, a manifestação popular enquanto unidade, mas creio que isso tudo nos mostra que ela talvez só seja possível com todos como indivíduos singulares – o que ainda não somos -, e não como cópias indistinguíveis uns dos outros em profundidade, como pretendem muitos movimentos coletivistas, aliás, e como pretendem falas humanistas de ‘somos todos iguais, somos todos humanos’.

Aprender a agir, a sentir e a produzir, ou pensar, dá trabalho, pois não basta estar no mundo para que isso de dê de forma ativa. É verdade que passivamente agimos, passivamente sentimos, passivamente pensamos, mas para quem vai observando com mais discernimento, isso tudo passa a ser claramente uma reação, um ressentimento e uma reprodução, porque não estamos ativamente escolhendo como agir, como sentir e como produzir, pensar.

Se hoje ainda erramos em nossos atos, sempre tão falhos, se erramos ao sentir algo indevido – desde atração por alguém que “não deveríamos”, vontade de comer o que nos fará mal, vontade de se matar quando deveríamos prezar o Ser Vivo, imagina o quanto não erramos ao achar que pensamos, ao reproduzirmos pensamentos que sequer sabemos de onde vêm e para onde vão…?

Porque assim como todo ato é direcionado a alguém ou a algum objeto ou meta, assim como todo sentimento é também em relação a algo ou alguém, os pensamentos também têm destinatários certos, e estamos nos enviando pensamentos aleatórios e repetidos o tempo inteiro.

Se o mundo já é caótico em termos das ações e reações que conseguimos ver, pois podemos ver as coisas acontecendo fisicamente, se víssemos os sentimentos de todos e os pensamentos de todos, tal como vemos a matéria química, com certeza nos assustaríamos porque eles são mais caóticos ainda, e os do pensamento então, nem se fale, trevas puras com a pouca claridade de alguns raios. Se já nos agredimos fisicamente, em sentimentos e em pensamentos nos agredimos mais ainda e estamos ainda mais perdidos.

Agora, claro que podemos escolher ativamente focar em ver as ações boas – não ignorando ou reprimindo as ruins, mas fazendo com que as boas sejam o foco, tenham maior peso, ainda que sendo em menor quantidade, mas superiores em qualidade -, assim como é crucial focarmos em sentirmos sentimentos elevados, bem como produzirmos pensamentos castos – castos no sentido de ‘sem exorbitantes maquinações’, pois ficar maquinando mil pensamentos nos agride tanto quanto ficar comendo como glutão até vomitar, ou se alimentando de raiva, ódio, mágoa e qualquer sentimento, eufórico inclusive, que surge como ressentimento e ficar dando soco ou beijos em parede ou em qualquer um ou coisa que passa…

Por isso não é deixar de pensar, como pretendem muitas meditações, ainda que seja um bom exercício para desligar as maquinações, mas sim transformar as grandes máquinas em humildes brinquedos, joias, peças delicadas, ativamente modificando nossa forma enquanto seres.

Por isso é preciso tratar todas essas instâncias como pedras brutas a serem lapidadas, metais a serem purificados, como antigamente os alquimistas falavam de tornar o chumbo ouro. Como os astrólogos falam sobre solarizar o nosso mapa. E como eu devo, posso e quero dizer com tudo isso que: devemos nos cristificar a cada passo.

A realidade é que a Poesia do Pensamento é belíssima, mas ainda acessível a poucos. Enquanto isso, miremos melhor a nossa flecha, nos permitamos tempo para observar, focar, discernir e, sem esforço, acertar o alvo com uma precisão maior cada vez mais, pois sabemos, pela arte esportiva do arco e flecha, e qualquer outro exercício que requeira acertar um ponto específico, que é somente ao começarmos a praticar a concentração sem esforço que passamos a de fato acertar, como num passe de mágica… sem pretensões, sem intenções, sem exibicionismo, sem vaidade, apenas no dever de quem sabe que ainda tem muito o que aprender e deseja humildemente se tornar alguém minimamente melhor, não na imagem monótona de um céu celeste no qual todos tocam harpa e nada mais se faz, mas na atividade poética de quem Crea, Produz, Sente e Age em Paz!

a Poesia do Caminhar . : . [a edificar o Templo]

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Caminhar é preciso!

Isto sabiam os antigos, isso continuamos a redescobrir a cada momento.

Caminhar é ir de um ponto a outro, traçando uma linha, formando geometrias ao se deslocar pelo plano conhecendo as dimensões que se apresentam, observando e discernindo os passos que são dados no Presente.

Caminhar é a união da passividade e da atividade, pois um bom e belo caminhar pressupõe esquecer-se de si para ver o que nos rodeia. É ser menos egoísta, como quem, parado, puxa tudo para dentro, para se tornar mais centrado por estar no movimento de sair do interno para ir em direção a algo externo, criando poros nas bordas e com isso gerando a possibilidade de haver um movimento pendular entre quem e quem recebe.

O caminhar verdadeiro nos liberta, nos movimenta dos pés à cabeça, começando de baixo e indo para cima, como quem, conhecendo o inverso de si mesmo, faz novo tudo o que nos cerca. Até que em algum momento o ‘dar e receber‘ se torna apenas doação de si mesmo – que de volta nada espera, sendo aquele que segura o pêndulo, sabendo que o caminhar reto, para frente, é também a possibilidade de criar movimentos para um lado e outro, tal qual caranguejo, observando os polos que são criados a cada relação de um eu e um tu que se apresentam. Sim, porque além do eu e tu há um terceiro, e caminhar é aprender a se tornar o que se doa e se sacrifica para que haja a união desses outros membros.

É preciso discernir, contudo, que todo caminhar, inclusive os aqui poetizados, jamais deve pretender e nem mesmo intencionar ser todo o Caminho, ou ser grande parte do caminho, pois que são minúsculos os passos que damos, frações perto de tudo o que é possível andar (o caminhar nosso é uma coisa, o Caminho em si mesmo é outra, sabendo, no entanto, que só quem caminha movimenta a possibilidade de conhecer o Caminho em que se está a caminhar).

Então não tomem, por exemplo, o que eu digo como a única possibilidade ou sequer uma possibilidade fechada em si mesma e perfeita, eu sou tremendamente falha, todos somos falhos, por isso é preciso seguir sempre buscando, cada vez mais, exemplos elevados. No próprio caminho há pedras, buracos, diferenças de texturas, coisas que cada um que for fazendo o caminho irá notar, evitando colocar nisso juízos de valor, apenas vendo um detalhe a mais diferente do que outro notaria – enquanto alguém nota os odores, outro nota as cores, outro as texturas, ou barulhos, ruídos, silêncios que acompanham e compõem a paisagem ao se caminhar… E nisso vamos conhecendo ele como um todo dentro e fora de nós mesmos.

Ao caminhar, veremos árvores de todos os tipos, e é preciso ter em conta que o saber é como o sabor: os saberes que colhemos, e que aqui são ofertados, por exemplo, não são meus e de ninguém que já os tenha dito de outro modo alguma vez, existem autores, sim, porque cada um irá apresentar uma fórmula própria de como se observa o caminho e o que se discerne neste caminho frente ao seu pequenino olhar, mas o Caminho em si mesmo é único e comum a todos os que estão a caminhar.

O saber não reside em quem caminha com ele, assim como o sabor não está na boca que prova da fruta, mas na fruta em si mesma.

Então o saber aqui provado não é da boca, nem sequer do coração ou da mente de quem vos fala, e sim da fruta ou da água a qual apanho diretamente da Fonte para que possamos degustá-la.

É importante conhecer os pés por si próprio e caminhar por si mesmo. É claro que todos estamos aqui para nos ajudarmos e é importante, é crucial que nos ajudemos, contudo, é importante sabermos que deve haver uma independência um do outro ao mesmo tempo, e o justo equilíbrio disso é que possibilita termos acesso à água, aos frutos e seus sabores na hora em que precisamos deles durante a caminhada que fazemos.

Muitas pessoas ainda são como que carregadas no colo pelo caminho, porque quando vou observando aqui, por exemplo, as coisas que lhes apresento, quem não tem capacidade de observação por si mesmo é como se eu carregasse no colo por um momento, então a pessoa tem que tomar os meus passos como sendo os dela por não conseguir ainda dar passos próprios – e está tudo bem precisar disso, mas é importante que todos os exercícios que fazemos durante a vida nos levem a um emancipar-se, seja ao caminhar ao redor de uma quadra, seja ao passar por experiências dos sentidos e gostarmos ou desgostarmos de algo, termos preferências e nos emocionarmos, ou seja ao reproduzirmos pensamentos até chegarmos numa qualificação em que consigamos produzi-los por nós mesmos – o importante é sempre trilhar a senda da independência – sabendo que ela é parte integrante do Caminho que percorremos. A ajuda é mútua, mas ajuda não é dependência, ajuda é diametralmente oposta à dependência. Depender é pender apenas para um lado por estar preso, pendurado.

Por isso é importante que observemos essas poesias todas e caminhemos, mas não porque eu as mostro e reparto esses frutos com quem me lê ou ouve, o principal aqui não é sequer o repartir do fruto em si, mas sim propiciar que aprendamos atos – o ato de buscar o fruto, o ato de caminhar, o ato de pensar, o ato de observar, o ato de discernir, o ato de partir, repartir, compartilhar, o ato de se independer, se individualizar, são todas ações, Verbo, que em âmbitos mais densos ou mais sutis, precisam se concretizar de alguma forma para que tenhamos uma existência que Seja no mundo, para que nos tornemos Seres conscientes de fato do que fazemos, seja esse fazer em qual instância for – na mente (como pensamentos), no emocional (como sentimentos), no físico (como ações)…

Criarmos a capacidade de dramatizar a vida em todos os sentidos, eis o caminhar!

Drama significa ação, drama se produz com conflitos, atritos: o caminhar se faz ao riscar os pés na matéria de maneira reta e constante, e este riscar nos leva ao pulsar do coração no Amor e à concepção de pensamentos Puros, tal qual uma Vida sendo gestada na mente, parindo como novas todas as coisas ao compreender que é pertencendo a este verdadeiro caminho, seguindo o trajeto bondosamente desenhado, fluindo através dessa bela geometria ao dançar as formas como quem baila a justiça pela própria justeza dos passos – como o Sol e os planetas que O orbitam, que se Vive eternamente, indo reto por cima das águas, dos abismos, das flamas ardentes, acalmando furacões e tempestade que todos carregamos dentro e fora de nós mesmos.

A Poesia do Caminhar é o trabalho constante para frente e para o alto de quem labora e ora, labora ao dramatizar e aprender – eis o ato de plantar e colher, e ora ao falar e ensinar – eis o sacrifício ao doar, porque quem fala com D’us ensina o próximo a caminhar, e quem ensina o próximo a caminhar está a falar com D’us… eis o Laboratório e a Vida de quem caminha – o labor no oratório que, passo-a-passo, o Templo edifica.

E, de minha parte, desejo que te seja agradável o sabor de todas as Poesias que, ao longo do Caminho, colhemos e bebemos…

Então caminhemos, meus amados-amigos-irmãos, agora e sempre, eternamente, caminhemos!