Chaveiro Celeste

Carrego um molho nas mãos
são chaves que pingam como suor
a abrir portas pelo caminho
sendo o destino um só:
ajudar quem precisa aprender a molhar
o pão para ter permissão
de seguir até o cômodo mais íntimo
aquele cuja saliva guardada na boca fechada
se torna a chave-mestra que, junto da espada,
degola e encerra os que não tiveram os pés molhados
para assim confirmarem os passos
aos que estão mergulhados no labirinto
um mar morto que se torna vivo para que se abra
a boca com sementes de ouro
somente aos que verdadeiramente querem trabalhar
nos jardins do palácio
aprendendo assim a regar todas as flores
através do sofrimento e da alegria
sendo a seiva de toda flor
feita de cada uma de suas lágrimas
tornando-se capaz de ajudar a construir o próprio palácio um dia
porque se exercita com o molho que pinga de seu corpo
arando a terra com os dentes das chaves que lhe foram dadas
sendo a profundidade de cada sulco
o segredo do flagelo que abre as portas do castelo
como quem bate por conta da secura
sabendo, pelo coração, o toque certo
porque é preciso tornar-se a chave última
não a do molho, mas do oceano
porque todo reino é lavrado e erguido
para, ao fim, voltar a ser mar
ainda maior do que fôra antes.

Ressurreto Sísifo

Ressurreto Sísifo, tu, que foste feito para trabalhar
por toda a eternidade, erguendo castelos em glória aos céus
e cuidando dos jardins que te foram dados
tu, que uma vez acordado
carrega pedras de forma incansável
subindo e descendo a íngreme verticalidade
da montanha, que como um dedo aponta
para a imensidão que a cada hora
te fornece uma pedra nova
tal qual astros que carregas nas costas
tu, que recebe tudo isso e arduamente labora
orando para que a brutalidade
ao descer, se desgaste
tornando-se um lápis filosófico
com o qual traças o destino próprio
escrevendo no chão da terra
ao subir de volta
o lirismo de um telúrico Narciso
que em carne se torna a própria roda
que faz girar todas as constelações
não porque está preso e é escravo de si mesmo
mas porque em liberdade se torna o responsável
por costurar as estrelas
e formar o manto dourado do próprio Deus que o comporta
sabendo da honra que é poder subir e descer com pedras
que com esforço rola
ressurreto Sísifo, tu, que foste feito à imagem e semelhança
daquele que trabalha de sol a sol em misericordiosa andança
caminhando sempre, sem ter onde dormir
indo aonde possa ajudar quem sua pedra não aguente
dando água aos que têm sede
e pão aos que a fome faz tremer e quase ruir
tu, que tal qual pai paciente ao filho pequeno acompanha
tu, que tal qual pai sábio ao filho crescido aconselha
tu, que tal qual pai amoroso ao filho adulto, que se julga senhor do mundo
abraça e perdoa, curando para sempre a vaidade alheia
tu, que tal qual pai adotas todas as criaturas do céu e da terra
porque és exemplo de como o último
retorna primeiro
porque humildemente faz-se servo
não só daqueles que em aparência o rodeiam
mas escravo de todo o universo
tu, amado, és também tal qual filho primogênito
aquele do qual tudo foi creado
para que se tornasse teu berço
até que chegasse o tempo
de te ensinar a como se levantar na cruz
para que finalmente descobrisses teu real leito
não da cama onde te deitas e ainda sonhas
mas do trono que, ao te receber ressurreto, é fonte tal qual rio
que corre para o oceano imenso
descobrindo assim que és apenas uma criança
que sai dos braços da mãe
e vai em direção ao pai
e sai dos braços do pai
e vai em direção à mãe
cada vez que um aponta o outro
como dois dedos dados em casamento
um chamado morte, e o outro, nascimento
sendo eles as montanhas
que sobes e desces com tuas pedras
até que tu mesmo, Sísifo ressurreto,
te tornes um diamante
que fracione a semente – Luz de teu ouro
parindo de si o próprio Universo.

Se algo te falta

 

Se algo te falta e te sentes vazio
respira, olha o céu e aprende que todo espaço é aparente…
Se já não aguentas ter calma, ainda assim,
pisa o chão com leveza, porque a terra, com toda sua dureza
nos aguenta em infinita paciência…
Se te afliges com as coisas do mundo
deixa que te suguem feito seiva
e sê fonte que jorra e nutre
para que também sejas consolado por quem te alimenta…
Se te é um fardo a injustiça
carrega-o silenciosamente
não abra a boca para vingar o que julgas
mas apenas para receber o maná
que vem para saciar as dores presentes…
Se teu coração bate mais forte pela miséria alheia
que pela tua, dá-o a todos por quem ele pulsar
e verás que eterno ele se tornará
pois mesmo quando teu corpo estiver morto
os outros, de mão em mão, o palpitarão
como música infinda a os consolar…
Se tens que suportar as impurezas externas
deixa que te sujem de lama e lodo
e assim manchem tua aparente cristalinidade
que o interno faz vir à tona o verdadeiro corpo
tal qual imagem e semelhança
para que se veja e se banhe
na transparência íntima do face a face.
Se por vezes te sentes alvo de guerra
se por vezes ela te sorve a vontade
agradece por não seres filho daquela
que mata a todos por pura vaidade
e semeia a vida, mesmo com cansaço,
pois o que te é tirado hoje
amanhã te será dado a mais
quando fores reconhecido como filho legítimo da paz…
E se és perseguido por seres justo em tuas medidas
saiba que a porta é estreita em largura
te seguirão até que chegues nela, e nela te matarão
para que pela justiça de todas as vidas
passes sem levar nenhuma
e adentres de mãos vazias o reino das criações puras,
pois aquele que sofre com um mundo que tudo lhe tira
ao nada ter adentra o reino verdadeiro

recebendo a alegria por doar a si mesmo
no face a face da eternidade como obra prima.

Ser

 

Tudo é.

De nunca haver sido diferente
tudo foi desde o princípio…
O ser, que agora continua sendo para além de si mesmo
em tudo o que também seja
está, como antes
em tudo que tenha existência constante
posto que era assim desde o começo.
Tudo estava sendo feito
e, ao ser, o que estava se foi
mas nada era senão o que seria
porque tudo o que fôra
viria a ser Amor.

E assim será sempre
porque tudo é vida
e para que vida fosse
eterno é tudo o que for
pois na eternidade a vida é viva
para que o agora seja todos os dias
e não mais esteja
repetindo no tempo a presença
posto que todo o espaço
é preenchido à luz do verbo
sendo conjugado
porque ser só o é no Amor.

Se não consegues. . .

 

Se não consegues olhar para o céu, olhe para o chão
segue os passos calcados na terra
como sulcos que conduzem a água à fonte primeva
vê o exemplo deixado no solo sagrado
assentado para que guies teus pés na areia
da mesma maneira como a seguir astros
porque se acaso as estrelas te confundem
podes caminhar com as flores durante a primavera
pois também na escuridão elas brotam
por terem sido regadas com o mar de lágrimas que de ti caía
ao se perder porque com este mundo te distraías…
e se não tens olhos, há ainda os perfumes
então confia nos aromas que chamam o ar pro teu pulmão
e respira o caminho que te leva para teu fim último
a encontrar o dia de tua redenção
para que aprendas a caminhar na direção
do gólgota, a caveira que, ao sol, sal se torna
na poeira do porvir, como o é o céu inteiro
a te transformares em luzeiro que ajuda a guiar
por ser mais um ponto branco a salpicar a superfície
se não pela imensidão que te faz salgado grão
sim pelo sabor do mel que das flores produziste
pingando até que venha a morte e adocicando enquanto vives…
e se houver pedras, ande com cautela
se tropeças, avise
sê a voz que gera luz nos ouvidos
ao chamar por onde sabes abrir espaço para pisar
ou para onde seguir quando o horizonte parece findo:
ensina que é preciso escalar montanhas
para que ajudes a levantar a cabeça dos caídos
e verem que com as mãos também se anda
e que, ainda que não se veja, subindo se carrega nas costas o infinito
bem como se tem no topo
o eco dos que chegam, sendo propagada a palavra de todos
como ondas a criar oceano de verbo em um deserto de abismos…
então saiba que não importa para onde olhes
nem o que ouças
tudo é feito para que sigas e, alcançando até onde for possível
sejas o exemplo de que a grandeza pertence Àquele que
com passos invisíveis sulcados na terra
com flores que perfumam o sopro que te carrega
com estrelas que apontam e silenciam, com pedras que te servem de aviso
com montanhas que te elevam e uma morte que te espera
te cria caminhos e possibilita que tua liberdade
seja a de todos quando Ele é o guia
para uma Vida que, depois de tudo,
finalmente nasce para a natureza de outros Mundos.

Coleciono Espadas

 

Todas as lâminas que me foram fincadas, em mim ficaram cravadas na volta para casa
e, chegando ao cômodo de meus segredos, tirei-as uma a uma.
Coleciono espadas.
As areias do tempo só podem selá-las e fazer com que permaneçam
quando enfiadas fundo; as derreto,
as feridas unto, leva tempo para sará-las
mas, dentro do desejo, a vontade em natureza é que tudo volte a ser uno
fiando a pele para cicatrizar; e verto água para a sede
que sangue se esvai trazendo secura. Gotas deixo ao ir atrás da cura.

O caminho à união
é de sangue banhar-se por outras mãos
e sublimar-se pelas suas, costurando com sutileza o corte
fundindo metais ao cozê-los em fervura
pois a hora da batalha é apontada com fogo
e os sinais de fumaça são o sentir a dor num ponto fixo
ao elevá-la para que saia do corpo.
E cada uma que retiro aqueço e guardo,
é minha forma de morrer, mas continuar com vida
curando todas as minhas feridas ao deixar de herança
tantas lâminas…

A minha coleção de espadas.

 

Mesmo que a areia se saiba na orla
não sabe ela sobre todo o oceano.
Mesmo que o grão se saiba nas águas
não sabe ele sobre toda a Terra.
Mesmo que a molécula se saiba no planeta
não sabe ela sobre todas as galáxias.
Mesmo que o átomo se saiba no universo
não sabe ele sobre o impulso que o gera.
Mesmo que o átimo se saiba no pulso
não sabe ele sobre o movimento ininterrupto.
Mesmo que o som e a luz se saibam na eternidade
não sabem eles sobre tudo ser único.
Mesmo que o núcleo se saiba vazio
não sabe ele sobre o zero ser múltiplo.
Mesmo que o nada se saiba em muitos
não sabem eles, sobre o silêncio da areia.