Guerras e Pandemias e a futura presentificação pelo Amor e pela Cura [uma visão Cristã e Astrológica]

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O ódio (proveniente de Marte) e o medo (proveniente de Saturno) são rasos, fazem parte da temporalidade de um estar usando dessas forças (ambos os planetas) de maneira deformada, “por isso” o ódio e o medo se estendem pela História com poucas mudanças de conteúdo (o Ser) e na adoção de qualquer forma (o Estar) que se fixa como aparência – muda a forma das materializações das armas, por exemplo, mas o conteúdo é o mesmo, independente de quantas armas sejam feitas (pandemia é pandemia, guerra é guerra, só descobre-se diversas maneiras de se amedrontar e matar mais gente); pra odiar e ter medo, ser regido por Saturno e Marte desgovernados, basta a existência…

O Amor (proveniente de Urano) e a Cura (proveniente de Netuno) são profundos (oitavas elevadas) – conteúdos de aparência impalpável por Amar e Curar serem um ato simples, não necessariamente fácil: não é possível enviar amor dentro dum míssil, e nem entregar rosas a garantia de ser amável, assim como tomar remédio não é certeza de cura nem de ser saudável.

No Amor (Urano) e na Cura (Netuno), há a adoção de muitas formas (o Estar), formas mutáveis (os estados) dentro da vivência de cada manifestação, mas o conteúdo (o Ser) é sempre o mesmo: doar-se para o Ser Amado (Vênus com caridade ao próximo – belo Libra – na atuação com Marte via ações sacrificiais – bom Áries), e esquecer-se para ser Curado (Saturno no rigor quanto a si, freando – a própria matéria, a própria personalidade – um bom Capricórnio, junto de Júpiter na misericórdia, tendo um coração miserável, vazio para ser preenchido pela cura proveniente do Pai (o coração galáctico) – um belo Sagitário.

“Por isso” não se vê uma “guerra de amor” nem “pandemia de cura” – não é possível esquecer-se ao lembrar ao mesmo tempo de todos (isso seria onisciência), nem possível ao mesmo tempo olhar no fundo de todos os olhos (isso seria onipresença), é preciso, antes, crer que o ‘todos-juntos’ (Fraternidade, Aquário) está contido em Uma Mente e Um Olho (o Filho no Pai) que nos mira, formando um princípio (Alfa) e um fim (Ômega) para acreditarmos no Caminho (Cristo – o Sol): para Amar e Curar (responder aos influxos de Urano e Netuno) não basta a existência (a personalidade, o Ascendente, o estar encarnado), o Amor e a Cura (o Pai e o Filho) requerem Presença (Eu) na Experiência do Ato (Verbo/Sou). É Ser e Estar no profundo do Outro e de Si (os 7 ‘Eu Sou’s proclamados por Cristo). E assim sermos dignos do Cálice (Plutão) para sermos seres transformadores de realidades – capazes, portanto, de milagres!

Reconhecer o ódio ou medo (Marte e Saturno, Lúcifer e Satanás) como luva, capa ou máscara rasas (ou seja, reconhecer que usamos a personalidade para não nos aprofundarmos em nós mesmos) é necessário: são capas que momentaneamente protegem o ombro esquerdo, o direito, o peito, as mãos ou a boca, mas que precisam ser retiradas, elevadas, usadas apenas quando necessárias, pois o uso prolongado evita que evoluamos e criemos nosso Real Manto: o Manto Nupcial Dourado!

Mas entrar em contato com o profundo assusta, pois é justo desmascarar-se, é desencapar-se e se pôr em risco de choque pela alta tensão como cabos sem proteção (algo parecido com um Urano aflito ou desnorteado): para tentar esse contato com Urano, é preciso antes subir aos picos altos (elevar o uso de Capricórnio, forjar um Saturno em casa ou um Marte exaltado, dignamente aspectados), e mergulhar ao fundo dos mares (aprofundar os efeitos de Câncer, não ter suas paixões rebaixadas por esses mesmos planetas que lá ficam em Queda e em Exílio), é morrer-se indo sem nem saber o que irá encontrar (buscando o Santo Graal, Plutão em Escorpião, a próxima Água), ou morrer após ter chego, crendo que atingiu o aparente ponto final (a ilusão de que alcançar o cálice em si gera redenção automática), quando o Amor e a Cura são infinitos e só por eles é possível Ressuscitar em Verdade.

Há também o constante caso do nosso imenso apego à vida existencial quimicamente-material, e assim morrermos por muitas vezes simplesmente crermos nisso: na morte (Escorpião) trazida pelo ódio (Marte) ou pelo medo (Saturno), como, por exemplo, através de uma doença (Virgem), o que é facilitado pelos bons aspectos que terra faz com água, podendo gerar uma engenhosa armadilha, a velha diferença entre o veneno e a cura. O simples acontecimento (sextil e trígono) que se torna fácil fuga travestida de cegueira ingênua.

Só aquele que aprende a ser breve (viver no corpo denso) pode chegar a ser longo (extrair o corpo-alma): existência (o Estar) é requisito para a presença (o Ser). Mas só o que se sabe sendo longo (tendo consciência no Corpo-Alma) pode compreender o breve (os renascimentos) e ter profunda paz e esperança: a presença que sabe que existir (Estar no mundo) é o 1º passo de qualquer movimento – o único problema é não se mover depois disso, pois não-ação perene é permanente estado de ignorância.

Por isso é preciso compreender que os métodos Orientais Não funcionam e não são desejáveis para Ocidentais, pois todos os métodos oriundos de lá são para lidar com a Existência, e não com a Presença. E mesmo o que chamam de Ser, no Oriente, provém, na verdade, de um Estado desse Ser. Ou seja, lá Saturno ainda rege Aquário, assim como Júpiter ainda rege Peixes, enquanto deveríamos ‘lutar’ para emanciparmo-nos e sermos cada vez mais capazes de sentir a regência de Urano e de Netuno nesses Signos.

Rasidão não sustenta peixe, literalmente, e se algum bicho aparecer na orla: Cuidado! – o raso é lugar de filhotes; e tudo bem ter do raso e fácil quando se é frágil, mas cá uns nunca crescem, ficam para sempre à margem da mente, existindo através do mental fraco, conformados com um Netuno ou Mercúrio problemáticos.

Mas é preciso ter cuidado também com a profundidade (Peixes) e generalidades (Sagitário) – dois Signos de grande espiritualidade, pois ficar só nisso pode levar a uma cegueira ao resto, seja por escuridão ou claridade (sendo Signos de Queda e Exílio de Mercúrio, precisando ter um Júpiter equilibrado para alçar voos e/ou um Netuno afiado para saber ter nados sábios), podendo gerar isolamento por se sentir estando em algo imenso: não no outro que junto forma o símbolo da unidade que une o que pareça ter diferença, como todo ecossistema, mas apenas na vertigem do ar inflado que o faz temporariamente se sentir existindo de forma expandida (Júpiter em Sagitário) ou a vertigem da imensidão marítima ao temporalmente se sentir existindo de forma diluída (Júpiter em Peixes), sem fazer parte (em ambos os casos) da pontual presentificação no ecossistema, levando à explosão (pressão do fogo atmosférico de Sagitário) ou implosão (pressão da água oceânica de Peixes) da materialidade – material esse (éteres) que nos é de responsabilidade, não dando para ignorar que se é da Hierarquia de Peixes e que encontrar outros seres no éter químico, por exemplo, ainda faz parte, sendo um perigo se isolar (egoísmo) ou se dispersar (no coletivismo, tribalismo) ausentando-se da pontualidade, da individualidade na humanidade.

Não há a vivência, em ambos os casos (coletivismo e egoísmo), nem de uma Cura nem de um Amor dissolvidos (verdadeiramente profundos), ou concentrados (verdadeiramente rasos, como essências que concentram em uma gota a propriedade de uma planta toda), menos ainda iluminados, mas dissociados dos indivíduos e, portanto, ilusoriamente estendidos ao coletivo. São vivências de pessoas que creem que existir sentindo-se parte do Todo basta; não, não basta, Amar (Urano) e Curar (Netuno) é o processo de Presentificação (Individuação, Iniciação)existir somente é abrir espaço para o ódio (Marte) e o medo (Saturno) na Mente, ainda que se viva de forma desapegada – eles irão criar guerras (Marte) e pandemias (Saturno) para serem encontrados, confrontados e termos de lidar cara-a-cara, transformando tudo (Plutão) através de Atos (Verbo, sendo que, caso se Seja em Cristo, a transformação pode ser o Graal para a Ressurreição, mas caso não se seja em Cristo, será apenas o conhecido Plutão mortífero, ou seja, a morte carnal sendo enfrentada)!

A grande questão talvez seja, ao saber que há quem morra por fome – por achar que vive sem alimento ao matar tudo (método Oriental, ou mesmo os Filhos da Água e sua mortificação do Corpo), se isolando do mundo -, e que há quem morra por gula – por ter sede da Água da Vida e sair caoticamente inalando e degustando tudo (método Ocidental, especialmente os Filhos do Fogo), encalhando na rasidão do mundo, como, por fim, saber a quantidade de alimento certo para se Presentificar ao Amar e Curar esse mesmo mundo? Talvez a resposta seja apenas uma: não são os Peixes (o homem) que sabem do seu alimento, mas o Oceano (o Pai) – Aquele que provê o sustento antes mesmo que saibamos.

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

O que nos revela que estar sob os influxos de Urano e Netuno, bem como de Plutão, depende da divina Graça, mas há como nos prepararmos através de todos os outros planetas para que, quando isso se dê, eu esteja e seja saudável suficiente para aguentar e saber o que fazer com tamanho talento, dom, dádiva, graça a mim confiado!

Por isso praticar os Exercícios Espirituais, como os que nos são generosamente dados no Conceito Rosacruz do Cosmos, é urgentemente necessário.

Saber viver é dificílimo. Saber onde está o alimento em cada momento, e qual peixe ou mamífero ou ave ou símbolo (os Signos) alimentar dentro de nós é a Busca.

Quem sabe um dia alimentemos um Unicórnio, ou mesmo um Dragão (Cristo e o 13º Signo – todos juntos) – que sobe ao céu e anda na terra, e não perde o fogo quando molhado – seja pelo mar, seja pelas chuvas. E não se deixa levar pelo o ar e a possibilidade de viver só, distante, cuidando da Terra – seja do Sol (como o vaidoso), seja da Lua (tal qual lunático)…

Quem sabe um dia Amemos e Curemos e assim consigamos Ser Presentes ao nos doarmos e nos esquecermos. Sim, virar dragão que não se olha no espelho, que nem se sabe dragão porque não vive para ver seu reflexo se manifestar, mas sim para que, ao Amar e Curar, um dia todos possamos, juntos, voar!

 

Curai os enfermos e Amai-vos uns aos outros.
[Mateus 10:8 e João 15:17]

 

Que as Rosas Floresçam em Vossa Cruz!

 

Fraternidade Rosacruz:
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Deus está morto realmente?

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Deus está morto realmente?

Nietzsche gritou a frase mundialmente conhecida: Deus está morto. Será?

Quando observamos nosso processo de libertação de um antigo eu, ao fazermos exercícios espirituais, ao servirmos espiritualmente, ao criarmos espiritualmente e nos elevarmos pouco a pouco, sabemos que hábitos antigos vão sendo deixados, desejos perversos vão sendo purificados, pensamentos ruins vão sendo sutilizados, tudo dentro do tamanho da nossa Vontade e Força espiritual vai sendo morto e transformado.

Esse processo é conhecido especialmente por ser feito pela Hierarquia de Escorpião, que dá novas formas, gera formas outras, morre e nasce formas oitavadas, elevadas dentro da mesma frequência. Hierarquia essa responsável pelo nosso período atual aqui na Terra.

E assim como deixamos um corpo físico para trás quando morremos, Nosso Deus, ao evoluir, deixa para trás uma espécie de deus morto. Sob a perspectiva de quem se apega à roupa do corpo, há só um deus morto, e ele existe de fato, assim como é realidade os átomos físicos desse corpo, muitos tentam fazer com que esse deus morto reviva, inclusive.

Mas se usarmos a Luz para olhá-lo, saberemos que Deus É Vivo! O Nosso Deus Vive!

Eles não coincidem, assim como Eu não sou esse corpo que visto nem a personalidade que manifesto, Eles são um só enquanto tudo ainda está sendo, e portanto, todas as coisas se interpenetram. Mas quando deixar de estar sendo para se tornar a elevação e união de Deus com seu próximo, assim como Cristo se Uniu ao Pai, então haverá (e já há para quem vivencia o Cristo, provavelmente) o que chamaríamos de dois deuses: um Deus Vivo e um deus morto. Um Deus Bom e um deus mau. Assim como há um Eu superior e um eu inferior.

Numa analogia cinematográfica, é como se a cada Neo que começa a se descobrir Homem-Deus, surgisse um anti-Neo: o sr. Smith.

Não é possível salvá-lo, não há redenção para o sr. Smith, ele não pode permanecer inteiro, vivendo, ele será absorvido, porque ele não é feito da mesma substância que o Neo, mas sendo possível vencê-lo, ainda que seja difícil e lento, assim como é lenta a absorção de uma raiz morta pela terra e depois toda a absorção do corpo dessa árvore morta desde sua queda.

Esse deus morto tem seus filhos: suas cópias, não são pessoas, mas estão existindo entre nós.

No caso, podemos observar também que, assim como há o Cristo para acordar os Filhos do Pai, há um anticristo para manter o estado mortífero dos filhos do deus morto. Tem Filhos do Deus Vivo que estão em hipnose, como zumbis, estando sob forte influência na crença do deus morto, mas Filho que está dormindo, não está morto.

O que isso significa? Significa que há órgãos que ficarão para trás, há um corpo que ficará para trás, há restos que ficarão, e é isso mesmo, não há como aplicar misericórdia a algo efetivamente morto, não há nem que se perder tempo com essa possibilidade. É como tentar reviver um corpo físico depois que um ego já abandonou ele. Cada vez que direcionamos nossas ferramentas para tentar reviver um morto que está aparentemente vivo (que é diferente de curar alguém que está dormindo, um vivo aparentemente morto), é perda imensa de energia nossa.

Por isso é preciso ter muita presença para discernir quem é quem, pois na vida Real um sr. Smith não tem nada que o distinga, sob olhos físicos, de um Neo. Então, por não conseguirmos fazer essa distinção, pois a maioria não sabemos como, é-nos revelado o imenso valor do serviço ao próximo e do estudo próprio de forma  desinteressada (ou seja, não Vaidosa) para o Coração e para a Mente. É importantíssimo não colocar o próprio julgamento no lugar do que é revelado apenas pelo Deus Vivente!

Em outra analogia, quem sabe aqui ainda esteja existindo, em muitas perspectivas, como uma encarnação antiga de Deus, que Ele está deixando para trás (pois depende de qual mundo se olha e para qual matéria, lembrando que elas se interpenetram, inclusive as que não conhecemos de mundos que não temos ainda acesso). Neste sentido, realmente, deus está morto! Há um deus morto, mau, sendo deixado, e com ele fica todo um sistema que também morre.

Talvez haja uma dificuldade tão grande nossa em realmente apreender as transformações e a Luz nova que chega, sempre primeiro cegando os olhos, que demoremos querendo salvar o que não tem salvação, e deixamos de elevar o que tem sutilização.

Não faz mal existir um deus morto desde que saibamos reconhecer o que é morto, não faz mal existir o mal desde que saibamos reconhecer o que é mal, não faz mal existirem coisas que ficarão para trás desde que saibamos reconhecer o presente, não faz mal porque o Cristo Renovou todas as coisas! E isso tudo que está morto deixará inclusive de existir logo mais.

Tudo faz Bem – não no papo piegas de que as coisas julgadas ruins, como um assassinato, faça bem, mas o que é Feito é Bom! As vinganças, por exemplo, são apenas reação. Assassinatos são reação, doenças são reação etc. Se sabemos reconhecer as reações vemos que elas Não Fazem, porque não agem, apenas reproduzem uma ação. E lembremos que estamos na era da reprodutibilidade.

Perigoso é se identificar com tudo esfriando, porque Deus Vivo, nosso Fogo, está se distanciando do passado que reage e reage e reage, e ficarmos tentando ressuscitá-lo com magia negra à força, nos tornando filhos do deus morto realmente, já que assim escolhem alguns, usando do maior presente que Ele nos deu: o livre-arbítrio.

Mais perigoso ainda é ser Filho do Deus Vivo, quente, e escolher estar morno.

Então cristifiquemos, esquentemos, elevemos, sutilizemos.

deus está morto, mas Nosso Deus É Vivo!

DEUS É VIVO!

E nisso vemos e ouvimos que há somente Um Deus em Verdade e Verdadeiro.

Oremos e Amemos, meus Amados-Irmãos-Amigos!

Que as Rosas Floresçam em Vossa Cruz!

 

A Ressurreição – Perugino (Pietro di Cristoforo Vannucci). 

 

Sobre a pintura: Esta representação delicadamente pintada e lindamente calibrada da Ressurreição de Cristo formou a predela, ou base, de um altar junto com quatro outras imagens no Instituto de Arte de Chicago: a Natividade, o Batismo de Cristo, Cristo e o Samaritano, e o Noli me tangere (Cristo e Maria Madalena no jardim após a Ressurreição). Cada cena é emoldurada por um molde fictício; aqueles em Chicago foram transferidos para tela e são menos bem preservados do que o painel no MMA. A predela foi identificada com vários retábulos, incluindo o grande e de dupla lateral para a igreja da Santissima Annunziata, dois painéis dos quais estão no MMA (1981.293.1-2). Alternativamente, Christiansen (1983) sugeriu que a série poderia ser associada a um altar da Crucificação encomendado para a capela Chigi na igreja de Sant’Agostino em Siena. Em 7 de novembro de 1500, o banqueiro Agostino Chigi escreveu de Roma para seu pai em Siena, “sobre a capela, eu vi suas intenções … se o [artista] peruano com quem você diz ter falado é o mestre Pietro Perugino, posso dizer do seu desejo de ter [o trabalho] feito por ele, que ele é o melhor pintor da Itália” (Scarpellini 1984, p. 62). Dois anos depois, em 4 de agosto de 1502, o primo de Agostino Chigi, Cristofano di Benedetto Chigi, assinou um contrato com o Perugino em nome de Mariano. O contrato especificava o tema do painel principal (uma crucificação com Maria, João Evangelista, e João Batista, e os santos Jerônimo, Mônica e Agostinho) e uma predela historiada, de assunto não indicado. A taxa era para ser 200 ducados de ouro. O altar foi concluído em junho de 1506 (Ferino Pagden 1985, p. 62). O painel principal desse altar ainda está na igreja de Sant’Agostino e mede 436 x 287 cm. A largura combinada das cinco cenas sobreviventes é de 220 cm, então havia espaço adequado para elas — ou, de fato, para uma predela ainda mais ampla. Embora tenha sido contestado que o altar de Sant’Agostino foi superado por uma estátua de terracota do Cristo ressuscitado, mencionado em 1575/77, e que, portanto, é improvável que a Ressurreição tenha sido mostrada na predela, que, aliás, pode ter tido mais de sete cenas (Ferino Pagden 1985, pp. 65-66), essas observações parecem insuficientes para excluir a série Chicago-MMA da consideração. Em primeiro lugar, eles só podem ter sido adequados para um altar da Crucificação – o evento-chave não mostrado na série. Além disso, Mancini (2004) observou que cópias da predela foram mantidas pelo Chigi e que uma dessas cenas mostrava, de fato, “A Ressurreição de Cristo com cerca de 1 palmo de altura e 1 ½ de largura numa reprodução não enquadrada de Perugino”. Isso equivaleria a 22,34 x 33,51 cm. Dado que as medidas foram aproximadas, a cena da predela em questão poderia muito bem ter sido uma cópia do painel de MMA. Mancini também observa uma referência a outra cena do Cristo de doze anos de idade entre os rabinos que poderia ter vindo da mesma predela.

O que parece claro é que a série Chicago-MMA, notável pelo pincel solto e coloração delicada, data dos primeiros anos do século XVI. A série era certamente conhecida pelo pintor florentino Bachiacca, por quem há uma pintura no Musée des Beaux-Arts, Dijon, que depende da Ressurreição do MMA (La France 2008).”

Keith Christiansen 2012

Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/437272

I. A. Ireland | Final para um Conto Fantástico | uma crítica poética

          Em um momento fora, em outro dentro, as possibilidades: estar trancado em um recinto; estar num corpo e não conseguir sair, não lograr estar em outros cômodos, em outros estados de si; ao buscar conhecer-se acabar preso; não ser capaz de ir além do que uma única porta permite… E quando o estado de imaturidade é permanente, quando se ainda é moça ou moço por dentro, a chance de cair em armadilhas é maior ainda, pois o adolescente não se rebela contra o crescimento tão inevitável e iminente de si?

          Não é preciso trancar a chave para que o contato com o externo não se dê: basta não ter espaço para estender a mão, basta evitar o toque – uma porta sem maçaneta, basta não ter espaço para a passagem dos olhos, do olhar que leva além, por uma fechadura que revela que há algo do outro lado também, esperando para ser conhecido, aguardando que tenhamos coragem de, um dia, seguirmos viagem, de nos abrirmos, de nos encontrarmos…

        É claro que a porta pode ser também de onde se vem vindo, sendo um estado adolescente da criatividade de quem sabe que, se não se obrigar a crescer na vida, vai ficar sempre nos mesmos lugares. Então é preciso se fechar para que não haja a possibilidade de volta, assim, quem sabe, se descobre uma janela, uma lareira, uma sacada, uma outra porta:

          Talvez como em Alice, a passagem seja tão diminuta que será preciso se despir do corpo com o qual se entrou ali para poder seguir – diminuir de tamanho, ganhar humildade, se ver pequeno, morrer e matar quem se era até aquele momento. Ou quem sabe se tornar ainda maior e mais forte para poder escalar as paredes e ao fim descobrir que era vertical a nova rota – um novo caminho a percorrer, um novo horizonte que se abre sobre nossas cabeças, tal qual ter a vista “trancada” por montanhas para que asas nos nasça ao invés de mãos para inexistentes maçanetas.

Sublimar, transpassar, transformar, transmutar, transfigurar, sutilizar para ressurgir.

          Por fim, o importante é compreender que neste momento do caminho, o que quer que tenha nos levado até ali, chegamos juntos, mas é somente “sozinho” que se conseguirá sair.

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Conto:

Final para um Conto Fantástico

– Que estranho! – disse a moça, avançando cautelosamente. – Que porta mais pesada! – Tocou-a, ao falar, e ela se fechou de repente, com uma batida.

– Meu Deus! – disse o homem. – Parece que não tem maçaneta do lado de dentro. Mas como?, você nos trancou aqui! Nós dois!

– Nós dois, não. Só um – disse a moça.

Passou através da porta e desapareceu.

Guerras e Pandemias e a futura presentificação pelo Amor e pela Cura

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         O ódio e o medo são rasos, “por isso” se estendem pela História com poucas mudanças de conteúdo e na adoção de qualquer forma que se fixa como aparência – muda a forma das materializações das armas, por exemplo, mas o conteúdo é o mesmo, independente de quantas sejam feitas (pandemia é pandemia, guerra é guerra, só descobre-se diversas maneiras de se amedrontar e matar mais gente); pra odiar e ter medo, basta a existência…

         O Amor e a Cura são profundos – conteúdos de aparência impalpável por Amar e Curar serem um ato simples, não necessariamente fácil: não é possível enviar amor dentro dum míssil, e nem entregar rosas a garantia de ser amável, assim como tomar remédio não é garantia de cura nem de ser saudável.

          No Amor e na Cura, há a adoção de muitas formas, formas mutáveis dentro da vivência de cada, mas o conteúdo é sempre o mesmo: doar-se para o Ser Amado, esquecer-se para ser Curado, “por isso” não se vê uma “guerra de amor” nem “pandemia de cura” – não é possível esquecer-se ao lembrar ao mesmo tempo de todos (isso seria onisciência), nem possível ao mesmo tempo olhar no fundo de todos os olhos (isso seria onipresença), é preciso, antes, crer que o ‘todos-juntos’ está contido em Uma Mente e Um Olho que nos mira, formando um princípio e um fim para acreditarmos no Caminho: para Amar e Curar não basta a existência, o Amor e a Cura requerem Presença na Experiência do Ato. É Ser e Estar no profundo do Outro e de Si.

           Reconhecer o ódio ou medo como luva, capa ou máscara rasa é necessário – seja capa fraca que protege o ombro esquerdo, o direito, o peito, as mãos ou a boca -, entrar em contato com o profundo assusta, pois é desmascarar-se, é desencapar-se e se pôr em risco de choque pela alta tensão: é como subir aos picos altos, mergulhar ao fundo dos mares, é morrer-se indo sem nem saber o que irá encontrar, ou morrer após ter chego [crendo que atingiu o aparente ponto final, quando o Amor e a Cura são infinitos] – nosso apego à vida existencialmente material ainda é imenso, e morremos por simplesmente crermos nisso: na morte trazida pelo ódio ou pelo medo, como uma doença.

          Só o que se permite ser breve pode chegar a ser longo: a existência é requisito para a presença. E só o que se sabe ser longo pode compreender o breve e ter profunda paz e esperança: a presença que sabe que existir é o 1º passo de qualquer movimento – o único problema é não se mover depois disso, ainda que o universo, invariavelmente, obrigue, pois não-ação é permanente estado de ignorância.

         Rasidão não sustenta peixe, e se algum bicho aparecer na orla: Cuidado! – o raso é lugar de filhotes, e tudo bem ter do raso e fácil quando se é frágil, mas cá uns nunca crescem, ficam para sempre à margem da mente, existindo através do imaginário fraco. Mas cuidado também com a profundidade, pois ficar só nela leva a uma cegueira ao resto, seja por escuridão ou claridade, gerando isolamento por se sentir presente em algo imenso: não no outro que junto forma o símbolo da unidade que une o que pareça ter diferença, como todo ecossistema, mas apenas na vertigem do ar rarefeito que o faz temporariamente se sentir existindo ao mesmo tempo sem fazer parte da presentificação do ecossistema, levando à explosão ou implosão da materialidade (material que nos é de responsabilidade, não dá para ignorar que se é um peixe e que encontrar outros seres faz parte)…

        Não há a vivência, em ambos os casos, nem de uma Cura e nem de um Amor dissolvidos (verdadeiramente profundos), ou concentrados (verdadeiramente rasos, no sentido de simples), menos ainda iluminados, mas dissociados dos indivíduos e, portanto, ilusoriamente estendidos ao coletivo. São vivências de pessoas que creem que existir sentindo-se parte do Todo basta; não, não basta, Amar e Curar é o processo de Presentificação, existir somente é abrir espaço para o ódio e o medo na mente, ainda que se viva de forma desapegada – eles irão criar guerras e pandemias para serem encontrados e termos de lidar cara-a-cara, transformando tudo através de Atos!

          A grande questão talvez seja, ao saber que há quem morra por fome – por achar que vive sem alimento ao matar tudo, se isolando do mundo -, e que há quem morra por gula – por ter sede da água da vida e sair caoticamente inalando e degustando tudo, encalhando na rasidão do mundo, como, por fim, saber a quantidade de alimento certo para se Presentificar ao Amar e Curar esse mesmo mundo? Talvez a resposta seja apenas uma:

não são os peixes que sabem do seu alimento, mas o Oceano – Aquele que provê o sustento antes mesmo que saibamos.

          Saber viver é dificílimo. Saber onde está o alimento em cada momento, e qual peixe ou lobo ou felino ou ave alimentar dentro de nós é a Busca. Quem sabe um dia alimentemos um Dragão – que sobe ao céu e anda na terra, e não perde o fogo quando molhado – seja pelo mar, seja pelas chuvas. E não se deixa levar – nem pelo ar no céu e a possibilidade de se viver só, distante, cuidando da Terra – seja do Sol, seja da Lua…

          Quem sabe um dia Amemos e Curemos e assim consigamos nos Presentificar ao nos doarmos e nos esquecermos. Sim, virar dragão que não se olha no espelho, que nem se sabe dragão porque não vive para ver seu reflexo se manifestar, mas sim para que, ao Amar e Curar, um dia todos possam, juntos, voar!

 

Curai os enfermos e Amai-vos uns aos outros.
[Mateus 10:8 e João 15:17]

Chuang Tzu | O Sonho da Borboleta | uma crítica poética

Sonhar… e quanto desse verbo pode nos trans-formar? Gerar uma forma outra, que transpõe a barreira do que se imaginava ser possível.

Se sonhar é acordar para o invisível, o que vem depois?

Quanto do que somos vem após sonharmos com nós mesmos? E se temos um pesadelo, a realidade não converte-se naquilo que nos sugere o medo? E a bondade e beleza não seguirão a mesma regra que ele, nos despertando e nos levando à crença de que somos mais do que a materialidade nos oferece?

O casulo que se abre em borboleta  :  não será essa a natureza da vida que nos rodeia, cercando-nos com a limitação dela mesma e sua dureza? Dureza essa que não seria para crescimento de asas que nos levem além desse mundo de visão tão estreita? Ver o céu, tal qual quem voa em liberdade depois de parcamente sequer ter tido pernas…

Para uma lagarta andar é preciso ter coordenação, ao mesmo tempo, em muitas patas. E não são nossos encontros o aprender constante de quem apreende novos passos? Todos juntos, segurando na folha que o vento verga como se quisesse ferir quem está ali parado, quando na verdade o vento não pensa na lagarta, mas apenas no sopro de vida que ali passa, porque, para que haja vivência, é impossível ficar parado…

E não é o movimento o sonho do vento, sendo seu pesadelo ficar estagnado?

E cada novo elemento não traz um olhar que se mescla ao que se tinha, fazendo com que a soma de todos eles seja o que significa, verdadeiramente, estar sonhando acordado para a Vida?

Se uma boa noite de descanso depende de um bom dia de trabalho, não dependerá meu dia de sonho da minha noite de realidade? E da lucidez de ambos não dependerá o voar das infinitas possibilidades?

É a lagarta que sonha em ser borboleta e por isso se transforma, ou é a borboleta que lembra de ter sido lagarta e por isso bate asas?

E como responder, senão se sabendo todas as respostas junto de todas as perguntas que trazem sempre um novo estado a quem dorme, assim como a quem está acordado, no corpo e na mente que se sabe ambos, assim como o espírito só toma consciência de si porque se vê preso a cada humano passo?

A borboleta sonha em ser homem, assim como o espírito sonha em transformar-se em realidade.

O homem sonha em ser borboleta, assim como o corpo sonha em libertar-se do passageiro e voar para a eternidade.

***

Quando a borboleta e a lagarta compreendem que são uma só, em estados diferentes, eis que acaba a noite e o dia e tudo se torna Luz para a consciência que clarifica o dormir e o acordar… ela não deixa de ter pernas, mas as usará apenas para pontualmente pousar, pois passa a se manter em movimento constante e a ir a lugares muito mais distantes por ter produzido, no casulo da dor do mundo físico, uma parte de si ainda mais sutil  : 

a manifestação corporal da onírica capacidade de voar!

“Já não haverá noite: ninguém mais precisará da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará (…)” [Apocalipse 22:5]

 

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O Conto:

O Sonho da Borboleta

Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao despertar não sabia se era Tzu que havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

Alexandra David-Neel | No encalço do Mestre | uma crítica poética

          Os sapatos que levo no corpo moldam meus passos, e os passos, em seu percurso de linhas tortas, com o tempo deixam o sapato roto. A pegada que fica é a das solas, ela será a Forma deixada para os que permanecem em vida quando os pés já tiverem ido embora. Portanto, os sapatos que visto são o que deixará a marca do que foi feito em obra, a indicação de qual foi o caminho percorrido e como se deu a minha história.

          O que é calçar os sapatos de alguém? Em inglês, essa expressão leva à imagem do ‘colocar-se no lugar do outro’.

      Quando estamos no encalço do mestre, desejamos a qualquer momento calçar os solados do mestre, contudo, esse mesmo desejo faz com que nos enganemos, crendo que estes sapatos almejados têm um número específico que nos moldará os pés, deixando também um relevo reproduzível se eu vestir o mesmo número daquele que sigo.

          Assim, a cada situação nos defrontamos com a vontade de apresentar um sapato específico – se por vezes bailarina de sapatilha de ponta que se recusa a diminuir seu nível e pisar nos mesmos solos baixos do outro que me oferece vinho, em outro momento será calçando botas que pisarei e confrontarei violentamente a covardia do outro. Até que, um dia, eu entenda que o sapato mais humano a se usar é o pé de qualquer um que surgir, pois se eu tenho as solas do outro sobre mim, os meus próprios pés podem se despir e, nus no encontro com o outro que estou a vestir, podem finalmente ser arado da terra, com dedos que sulcam e lavram, bem como visíveis a quem chega, sendo exemplo de que somente eu sou portador da real medida do que esses passos vivificam e representam. Pois o tipo de sapato do Mestre é um único: a pele que reveste o espírito que assenta.

E então o verdadeiro Mestre poderá lavar nossos pés e nós lavarmos os pés dos demais, pois, sujos de tanto andar, voltarão a ser exemplo de que sapato algum tem mais valor do que os pés reais.

          Assim, com os pés no chão, poderemos dizer ‘não’ a quem oferecer vinho sem precisar subir na ponta da vaidade de uma falsa verticalidade de quem ergue os calcanhares, negando a horizontalidade do próprio passo, como se não sentisse sede tanto quanto o outro que se embriaga, mas sim sabendo que a negação é por saber que o tamanho da horizontalidade de quem me oferta calçar aquele sapato não é a mesma que a minha, pois cada um tem a medida que lhe é exata para que sejamos honesto naquilo que se vive e se deixa como rastro.

          Que vistamos os pés do Mestre ao lembrarmos de desnudar e lavar os pés uns dos outros, pois a medida do Mestre em nós é aquela que cabe em nós mesmos na honestidade do passo, e não há sapato no mundo que deixe uma marca mais leve, suave e sincera que as do próprio pé na terra.

          Bem como não há melhor exemplo do que ter o andar do Mestre acima do racional da cabeça. Sapatos são escolhidos na vaidade, enquanto o pé que me é dado, seja benção seja fardo, se aceito calçá-lo, o Mestre permanece para guiá-lo.

“(…) Senhor, tu, larvar-me os pés?!
(…) O que faço, não compreendes agora, mas o compreenderás mais tarde.” [João 13:6-7]

Compreenderemos mais tarde, no cemitério, quando a morte deixar os pés após queimar os sapatos…

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O Conto:

          No Encalço do Mestre

          Então o discípulo atravessou o país em busca do mestre predestinado. Sabia seu nome: Tilopa; sabia-o imprescindível. Perseguia-o de cidade em cidade, sempre com atraso.

         Uma noite, faminto, bate à porta de uma casa e pede comida. Sai um bêbado e com voz troante lhe oferece vinho. O discípulo recusa, indignado. A casa inteira desaparece; o discípulo fica sozinho no meio do campo, a voz do bêbado grita para ele: Eu era Tilopa.

         De outra feita, um aldeão lhe pede ajuda para esfolar um cavalo morto; enjoado, o discípulo se afasta sem responder; uma voz zombeteira grita para ele: Eu era Tilopa.

        Num desfiladeiro, um homem arrasta uma mulher pelos cabelos. O discípulo ataca o foragido e consegue que ele solte sua vítima. Bruscamente se vê sozinho e a voz lhe repete: Eu era Tilopa.

        Uma tarde, chega a um cemitério; vê um homem encolhido junto a uma fogueira de enegrecidos restos humanos; compreende, prosternar-se, segura os pés do mestre e coloca-os sobre sua cabeça. Dessa vez Tilopa não desaparece.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

Ah’med Ech Chiruani | Os Olhos Culpados | uma crítica poética

Os olhos (e todos os órgãos) são estrelas do corpo.
Radiantes perante os ensinamentos da vida, seguem em aprendizado constante.
Um céu com estrelas que queimam, apagando a si mesmas, é menos céu em termos de sua grandeza?

          Através desta analogia, eis uma crítica poética ao que Ah’med, em seu conto [ao fim transcrito], nos brinda:

         Toda estrela queima, e queimar é consumir a si para iluminar quem chega.
Portanto o destino de toda estrela é apagar a si mesma.

        Aprender a contemplar a noite é necessário, olhos da matéria que pisca e nos conecta a outros mundos, nos faz conjuntos no amor que deita ao lado, abaixo, no manto escuro que acaricia a paz de ouvir calar tudo, quando todos estão mudos, correndo o risco de se emudecer também perante o dia, depois de acordados.

         A fascinação pelas estrelas pode fazer esquecer de se banhar no sol, de se abrir a porta para a entrada dos raios na alvorada que a cada novo dia chega.

        Não enxergamos pelo brilho físico dos que queimam, mas pelo espaço escuro que, ao transportar a sua luz, arde; pelo azul que se revela junto ao dourado, sendo possível testemunhar, por causa do sol, o infinito que lhe carrega nos braços.

          Arrancar os olhos para a beleza temporária não é fácil, mas é possível apagar de si a chama que engana tantas pupilas que buscam ver algo de bonito, algo de beleza papável, que mesmo sendo uma luz mais sutil do que a da lua que apenas reflete determinado estado, ainda assim faz preciso lembrar que o sol, mais do que estrela, é aquele que ilumina ao contrário  :  Só permite ver a si se se busca o que para além dele se revela ser verdade.

        Quando, à noite, enxergamos apenas pontos brilhantes na abóboda cristalizada, deixamos de ver, ao mesmo tempo, a imensidão que se apaga para que algo específico seja clarificado.

         O belo da noite não são apenas as estrelas, olhos de pérola no útero da madrugada negra, mas a escuridão do fogo latente que dá corpo à mente que, por esses olhos, a tudo observa.

        Por fim, o casal do conto nos ensina que o sol que aprende a sacrificar de si a luz da material pupila, em direção ao buraco-negro se eleva  :  centro que chama de volta para si tudo o que lhe é de valor e devolve, para quem não vê, em seu cerne, o Belo do Amor, as moedas que brilham no visível o preço palpável da vida pesada apenas com olhos físicos.

         “Caso teu olho direito te leve a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena. Caso a tua mão direita te leve a pecar, corta-a e lança-a para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo vá para a geena.” [Mateus 5:29-30]

Imagina o Amor e Valor daquele que corta parte de si para que o corpo do Outro não seja lançado na geena…

 

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O Conto:

Contam que um homem comprou uma moça por quatro mil denários. Um dia olhou para ela e começou a chorar. A moça lhe perguntou por que estava chorando; ele respondeu:

– Tens olhos tão belos que me esqueci de adorar a Deus.

Quando ficou sozinha, a moça arrancou os próprios olhos. Ao vê-la nesse estado, o homem ficou aflito e disse:

– Por que te maltrataste assim? Diminuíste teu valor.

Ela respondeu:

– Não quero que haja nada em mim que te afaste de adorar a Deus.

De noite, o homem ouviu em sonho uma voz que dizia: “A moça diminuiu seu valor para ti, mas o aumentou para nós e a tiramos de ti.” Ao acordar, encontrou quatro mil denários sob o travesseiro. A moça estava morta.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.