Dedicado a Fernando!

Comunidade.

Eis uma palavra que tomo a liberdade de usar como brinquedo. Se pensamos nela como um duplo, com dois lados, tal qual moeda (para que de algo nos valha), qual seria seu avesso? Ou ainda, comunidade sendo ‘coroa’, qual palavra seria sua ‘cara’?

Ao olharmos ela de perto nesse brincar, para ver seus detalhes, podemos desmembrá-la, apenas a título de imaginação e curiosidade, em dois termos: uma Comum Idade. Assim sendo, seu avesso seria uma Diversa Idade, ou seja, diversidade – que etimologicamente significa voltar-se a diferentes direções.

Tendo essas duas como cara e coroa desse nosso brinquedo de palavras, recordo o que disse Manoel de Barros em seu poema ‘o livro sobre nada’: “Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”, e assim sendo, sentencio, junto ao laudo poético e Manoel de Barros como meu advogado, por digna, inocente e, portanto, livre essa nossa caminhada.

Tendo Comunidade e seu avesso, Diversidade, podemos observar como nações antigas ou mesmo tribos (que hoje chamamos justo de comunidades indígenas ou aborígenes etc.) carregam o tradicional como forte traço de seu passo. Assim, se analisamos o Japão, por exemplo, vemos um país extremamente rígido quanto a regras e leis, normas que seguem enquanto tradicionalismo, tendo todos, ainda que uns mais velhos que outros fisicamente, uma ‘comum idade’, ou seja, os mesmos valores, mesmos princípios, mesma raiz voltada para o mesmo patamar de consciência, por assim dizer – ao menos em sua maioria, mesmo que isso signifique uma vivência forçada.

Lá podemos ver que há realmente algo de rígido, sendo um dos países com maior índice de suicídio por não aguentarem tamanha rigidez, aliás. O que nos mostra que mesmo que se alegue que há diversidade na forma de se vestir e de se preferir algo, ainda assim, o tradicional é tão profundo, que a tentativa de divergir se torna apenas superficial, externa: na forma como me visto, mas não muda a forma como se relacionam, sendo tão duras as relações que algumas pessoas vivem um isolamento completo, a ponto de preferirem robôs e mecanicidades a interações reais e de vivacidade.

O mesmo observamos, ainda que sob um diferente ângulo, em comunidades tradicionais indígenas. Não irei citar etnias, creio ser desnecessário, mas já passei pela vivência de ouvir em alto e bom tom publicamente um líder indígena dizer que homossexualidade “é doença de branco da cidade, lá a gente mata quando nasce pra não crescer e virar praga”. Sim, ele disse que matam, literalmente matam os homossexuais quando pequenos para não crescerem e acabarem passando essa doença para os outros que são heteros, vulgo, normais – o comum. Mas ninguém quer discutir a homofobia que existe no Brasil, por exemplo, ser diretamente ligada às raízes indígenas, pois, até onde eu saiba, os ‘brancos’ sempre fizeram altas orgias – vide os incestos e endogamia da aristocracia, vide Sodoma e Gomorra: está até na Bíblia!

E onde se chega com tudo isso? Se chega no fato de que romantizamos a ‘comum idade’, pensamos que viver em comunidade é algo belo e primoroso, claro, pois todos temos necessidade de raízes e tradição quanto aos nossos laços. Buscamos isso enquanto sangue, enquanto consciência de grupo com o qual eu busco me identificar por não saber quem eu sou de fato. Então sendo preta irei buscar minhas raízes pretas, sendo indígena idem, sendo branco também (e daí provém o perigo do nazismo, aliás), mas basicamente todas as identificações com etnias vem de uma busca pelo grupo ao qual pertenço, com o qual eu deveria ter uma ‘comum idade’, afinal, temos a mesma raiz, a mesma tradição, nos unem as mesmas crenças e sensações quanto aos fatos vividos e nossos antepassados.

Mas a realidade é que a diversidade se torna cada vez mais preponderante, especialmente no Ocidente: lar que recebeu tudo quanto é tipo de gente. Muitas comunidades vieram para cá, fosse para serem exploradas, fossem para povoar. Aqui se tornou um terreno que recebeu cada hora um grupo diferente, com idades diferentes, criando uma idade diversa na soma de todos eles.

Claro que isso foi e ainda é às custas de comunidades tradicionais. Então surge a questão: como fazer com que comunidade e diversidade sejam realmente uma moeda, não de troca, mas de valor nela mesma? Ou seja, como nos valorizarmos sem destruirmos algum dos dois polos? – Pois uma moeda sem cara ou sem coroa não vale nada, pois deixa de ser ela mesma em essência e em externalidade.

Eis o difícil, encontrar a vivência da dualidade (ou seja, das duas idades) sem que ambas queiram se matar, se destruir, se aniquilar, pois o instinto nosso de sobrevivência é, ainda, o de anulação do lado que nos for oposto, por cegueira nossa em não vermos que todo oposto é complementar.

Proponho poeticamente outra resolução: para um duplo, há que haver algo a colá-los, tornando-os uma unidade em una idade, integralidade em uma íntegra ou integral idade, ou seja, encontrar uma ação comum entre aquilo que é diversidade e comunidade, em outras palavras, encontrar uma comum ação, uma comunicação: uma ação que comunique algo em comum àquilo que seja tradicional e àquilo que seja o novo.

Claro que isso é dificílimo, pois se comunicar é uma das coisas mais difíceis que há, especialmente quando o outro fala uma língua diferente da nossa.

Por certo sempre há os caras-de-pau, que falam tudo errado e não estão nem aí, mas esses não são válidos aqui porque não estão interessados em comunicar de fato, pois alguém que tenha verdadeiro anseio por comunicar algo irá buscar justamente uma ação em comum, irá buscar ser claro, ser verdadeiro, ainda que cometendo erros, mas dará o melhor de si observando se quem ouve compreende, ainda que na mímica ou no desenho.

Ou seja, para falar uma língua que não se sabe ao certo, é preciso ter coragem, que etimologicamente nos remete a uma poesia belíssima que é: agir com o coração!

O pulsar de nossos corações quando encontramos uma solução junto a alguém que é nosso oposto nos torna iguais por um momento.

Isso não faz com que quem fale português passe a falar alemão, nem que quem fale alemão aprenda português, mas por um instante ambos se comunicam até mesmo com os olhos – todos nós sabemos essa sensação, mesmo com animais nós chegamos a ter, em algum momento, esse tipo de encontro, que se dá em nosso centro: o peito.

Podemos ser céticos, nos perguntarmos, mas será? Será que foi tudo isso mesmo? Pois normalmente esses encontros estão para além da compreensão… Contudo, quando se trata de comunidade e diversidade, isso se tornará evidente, pois essa comum ação faz com que o passado ganhe extensões no presente e o presente se justifique no passado, gerando frutos – o que significa desde pensamentos inovadores a fisicalidades, gera desde posturas interiores de respeito, de um segundo olhar para aquele que é diferente, a até políticas comprometidas com ambos os aspectos. Ou seja, gera nobreza e justiça internas e externas.

É simples, ainda que não seja fácil. É difícil, ainda que não seja complexo. Basta agirmos juntos, observando nossos passos, pois uma comum ação é comunicar para além do linguajar de quem verbaliza desejos egoístas e insensatos. É compreender que certas fronteiras devem ser respeitadas, que devemos conservar e, portanto, ser conservadores de raízes – sejam elas do grupo que for: vermelho, preto, amarelo, bem como branco – e também abrirmos as portas para um mundo novo, criando novos galhos – que depois, na hora certa, darão frutos ou serão podados, conforme ditar o tempo, sem pressa e sem pressão, apenas seguindo o curso de crescimento, ou seja, progredindo, sendo progressistas para que a semente que é a tradição multiplique e ganhe mais vida.

Tudo isso, obviamente, está para além de convenções e dizeres de ‘tome sua cerca’ (num viés tradicionalista conservador) e ‘tome seu espaço para crescer esse galho’ (num viés progressista renovador), com desdém e receio um do outro. É preciso, antes, pulsar no sangue, na ação do coração – na coragem – a capacidade de aceitar tanto o sangue arterial (inspiração: dos pulmões para o coração e de lá para os órgãos todos), quanto o sangue venoso (dos órgãos todos para o coração e de lá para os pulmões: expiração), recebendo o que vem como tradição, e colhendo o fruto que sai de nós para doar a quem precisa enquanto nova idade: novidade.

Sabemos que da nossa respiração o que sai é: dióxido de carbono + vapor d’água, sendo que esses dois componentes são justo o que as plantas precisam; assim como as plantas fazem a fotossíntese com: luz solar + dióxido de carbono + água, nos devolvendo oxigênio e açúcares para a atmosfera, tanto em forma de matéria inorgânica, no ar, como em matéria orgânica, nas sementes e frutas. Isso sem contar o oxigênio e açúcar que elas usam para a respiração e manutenção de si mesmas, para além de procriar, que nada mais é do que gerar frutos para colheita.

Ou seja, o homem, o humano, são palavras que vêm de húmus, e portanto dão significado ao ser que vem da terra. Somos a contraparte vermelha de todo o verde, pois as cores verde e vermelho também são opostos complementares. O que nos revela que, assim como a tradição e a inovação, ou, a comunidade e a diversidade se retroalimentam, formando um sistema maior do que a gente consegue observar por mesquinhez e brigas internas, o ser humano e as plantas também se retroalimentam formando um ciclo belíssimo de manutenção entre os mesmos.

Isso mostra que é preciso modificar a natureza como a conhecemos, pois a nossa inovação é a complementariedade da permanência tradicional dela, mas claro, sem matá-la, pois neste caso, assim como temos exemplificado, é também encontrar uma comum ação – comunicação – entre a existência (capacidade de estar – permanência – de algumas plantas) da flora, a senciência (capacidade de sentir – de alguns animais) da fauna e a ciência (capacidade de raciocinar – de alguns homens) da humanidade. Então nem todas as plantas permanecerão, nem todos os animais sentirão, assim como nem todos os humanos raciocinarão, há graus de desenvolvimento e de despertar, mas basicamente, esses são os três passos com os quais temos que lidar.

É realmente trabalhoso encontrar o ponto de isostasia, que é a busca da natureza por equilíbrio, pois o eterno movimento faz com que o que chamamos de equilíbrio ganhe novo rumo a cada momento. Não há um ponto final no trabalho de todos, não há uma linha de chegada…

Tudo o que podemos fazer é nos lapidarmos para tornar a comunidade e a diversidade uma moeda que valha, e integrarmos ambos os lados através de uma comunicação para além de vãs ações e vazios vocábulos.

Então que enchamos nossos pulmões de ar e nossos corações de sangue, que eles pulsem em dilatações e contrações que nos levem à conservação do profundo ao inovarem tudo por serem a latência de uma una idade que retamente enraíza à medida que, a seus galhos, tortuosamente espalha.

Todo o processo é belíssimo!

E somente depois dessa união de contrários através de seres grupalmente individualizados é que nos tornaremos um coletivo, como foi observado e meditado no texto anterior…

Eis a semeadura!

Que cada um seja, conforme a força de seu pulmão e ação de seu coração, um lavrador.

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