O que é Arte?

Se nós observarmos essa pergunta primeiro em seu avesso: o que não é arte, nós podemos nos despir ou tentar nos despir a respeito das cristalizações que já temos em relação àquilo que é efetivamente arte.

Hoje em dia nós vivemos um relativismo absoluto em que tudo pode ser arte, afinal, sua descrição se tornou uma capacidade de abstração tão grande que depende apenas do sujeito dizer que aquele objeto é arte, esquecendo que talvez o cerne da arte em si mesma seja justamente não haver ali um objeto, mas sim dois sujeitos.

Então para começar, observemos seu avesso: o que não é Arte? Se nós olhamos para algo que está próximo da arte hoje em dia, talvez possamos chegar a algum discernimento, por exemplo através do entretenimento, a mídia. Observemos como o entretenimento é capaz de nos levar a diversas esferas, cumprindo justo com a promessa do relativismo absoluto: tudo pode se tornar atração, e eu passo a me sentir atraído por tudo.

Entretenimento vem de entre-tenir que é manter junto, mas um manter junto de segurar, de algo que te captura de ti mesmo, então se observarmos junto de entretenimento a etimologia da palavra arte, encontraremos Ars em latim e Tékne em grego, que significa literalmente técnica. Então podemos ver uma grande diferença entre entretenimento e arte: Arte é a técnica que Eu possuo, entretenimento, ao contrário, é aquilo que Me possui, é aquilo que me mantém junto dele quase como num rapto de mim mesmo. Então no entretenimento, tomando ele como oposto à Arte, dado à etimologia dele mesmo, é aquilo que me sequestra do meu centro para estar preso ao algo que aquela mídia oferece. Então tudo o que me tira do meu centro, tudo o que não me devolve a mim mesmo enquanto técnica, enquanto alguém técnico em termos elevados, é um entretenimento, a priori, ou seja, algo que me entre-tem, me segura dentro de um outro algo.

Então o que é arte? Se arte é a capacidade de desenvolver técnica, para ser artista eu tenho que ter um centro, porque toda técnica vem de uma concentração de um saber, de uma sabedoria, e aqui não estou confundindo a técnica com ultra-especialização, pois a ultra-especialização no nosso mundo, na atual vivência dela, é algo que deturpa, nos faz rasos para todo o resto, não sendo simbologia, não sendo o que me une a algo elevado de fato, mas apenas me separando do todo, me tornando uma fração ínfima solta no espaço. Mas o verdadeiro técnico ou artista, é justo a fração, técnica, a especialização que, por ser profunda, também cria altivez, pois o que é profundo está na verticalidade, então também cria a possibilidade do altivo, da altitude, mas o que me tira do meu centro porque é raso, está na horizontalidade, e tudo o que é raso é possível tocar com os olhos da carne.

Então o mar, por mais profundo que seja, eu apenas verei seu raso, porque quando estou de frente para o mar vejo suas águas correrem até o horizonte, e essa água é o raso dele mesmo, eu só vejo a profundidade de algo que está na orla, vejo a água cristalina enquanto eu ainda estou na orla, porque depois de um momento em que a verticalidade se torna maior, até mesmo extrema , eu já não vejo o fundo, assim como no céu não há fundo, ainda que o mar tenha fundo, sendo apenas metaforicamente a mesma imagem do fundo que não se alcança, ainda que ele exista num primeiro momento, como fundo do poço: não se vê, senão apenas caindo dentro, mas quando se cai, se põe o pé nesse raso e perdemos a noção do que é altivo, do que está acima, pois se nos pautamos apenas na sensação horizontal, apenas no que conheço horizontalmente, eu perco essa noção daquilo que vem de cima.

Se paramos para observar, os pés são talvez a única parte do nosso corpo que está na horizontal de fato, ainda que outras partes possam ficar na horizontal caso eu deseje, minha mão pode ficar na horizontal em relação ao chão quando eu assim deseje, por exemplo, mas a priori, quando relaxado, o corpo todo está na vertical e os pés, se ativos, pisam ao chão, estando na horizontal, assim como o inverso é verdadeiro, quando me deito os pés se verticalizam enquanto o resto do corpo toma horizontalidade e adormece para que outro tipo de profundidade amanheça em mim mesmo.

Então o que não é arte? Não é arte aquilo que justo me mantém na horizontalidade. Pois a arte é a técnica que se aprofunda, porque qualquer um que tenha habilidade técnica sabe que requer muito aprofundamento num conhecimento e numa prática, ou seja, na junção da teoria e da prática por uma grande profundidade de horas, sendo que sabemos que a arte inevitavelmente provém de um profundo, de uma verticalidade, quando é Arte (com A maiúsculo), fazendo realmente uma distinção entre o que é Arte e não-arte, ao invés de supor que qualquer coisa que se faça seja arte, porque nem tudo, aliás a maioria das coisas que nós fazemos, não são profundas realmente, não são uniões de teoria com prática e de aprofundamento em horas na lapidação daquele conhecer. Mas, basicamente, são apenas reproduções, repetições.

Nós hoje estamos na era da reprodutibilidade, Walter Benjamim tem um excelente texto sobre isso, aliás, e se pensamos até em termos de sentimentos, a maior parte dos sentimentos, que julgamos ter, são ressentimentos.

Ressentir é como reagir, é reação emocional, porque a ação quando não é consciente e de vontade do indivíduo, quando não se tem plena consciência do fazer físico, ela é vazia, é fazer por fazer, reprodução de uma ação que conheci um dia: como porque tenho que comer, respiro porque tenho que respirar senão morrerei, mas não faço de maneira a escolher cada piscar, cada falar, cada respirar, cada mastigar…

As pessoas inclusive acham isso insuportável, a consciência de cada ato, de cada simples movimento do corpo físico. E quando há movimento emocional, sentimental, a maior parte das vezes não é genuíno o que eu sinto, porque, na verdade, eu re-sinto.

Eu constantemente estou ressentindo algo que já senti por alguém. E isso não é só no pejorativo, de ressentir de mágoa, de reter um sentimento de paralisia em relação a alguém, como diz um amigo muito amado, uma má-água, mágoa, uma água parada em relação a alguém, não, o ressentimento é também de gostar, de apaixonar, a reafirmação de gostar por gostar também é ressentir a partir da hora em que a relação não é construída novamente em cada encontro. Porque é muito trabalhoso construir relações a partir de cada encontro, é extremamente trabalhoso, então é mais fácil nos pautarmos em relações que já estão supostamente  construídas, então partimos de pressupostos ressentindo tudo o que já foi sentido um dia, e isso obviamente  torna muito mais difícil nós amarmos outras pessoas, gostarmos de outras pessoas, perdoarmos as pessoas, e inclusive vermos quando alguém nos faz mal, porque insistimos ‘eu gosto daquela pessoa, mas eu gosto, eu gosto’, porque aprendi a sentir um gostar, seja pelo motivo que for, então passo a ressentir, reafirmar, reagir a este sentimento ao invés de simplesmente ter coragem de assumir que a partir de agora não gosto mais daquela pessoa porque a relação acabou, inclusive porque o outro não quer mais construir no hoje, no agora.

Quantas mulheres não passam por isso, há homens também, mas sabemos haver uma preponderância feminina em estar em relações abusivas emocionalmente. E por que continuamos nessas situações senão pelo ressentir? E terminamos ressentidas realmente com os homens e as coisas em geral.

Em termos de grupo isso também se dá, as ideias coletivistas de grupos, o ressentir porque eu, enquanto mulher preta, passo por relações de racismo, então me ressinto em relação aos brancos, aí qualquer branco que falar ou me olhar torto eu vou ressentir o racismo pelo que passei e isso me gerará julgamentos em que não darei a chance da pessoa me olhar torto simplesmente porque passei batom na cara e não vi, porque tem alface no meio do meu dente, e não propriamente ser a minha cor o problema, mas um olhar torto em relação talvez a outro fator do meu físico que não aquele ao qual eu ressinto.

É claro que isso é muito complexo porque não temos capacidade de ver, nem de neutralidade nossa em relação ao acontecimento, nem de clarividência em relação ao pensamento, uma telepatia, de ver o que o outro pensa de fato e saber se o olhar é em relação à cor, gênero ou à alface, algo passageiro, ou se inclusive a pessoa me olhou torto pensando no chefe dela, não em mim, ou se eu lembro ela da esposa, amiga, inimiga, sei lá, alguém que seja uma megera, ou seja, se lembrou de alguém e também ressentiu, e por isso gerou um olhar torto, não pra mim em mim mesma, mas porque sentiu através de mim um sentimento lá do passado dela, eu não tenho nada com isso. Nós estamos ressentindo o tempo inteiro e reagindo o tempo inteiro.

Freud, quando nos diz que sentimos atração pelos pais e com eles nos casamos, é ressentimento, estamos ressentindo algo da infância, o desejo de possuir um dos pais na infância. O ressentimento é necessário para a formulação de si mesmo, sim, ele é necessário, mas não é através dele que se avança, não é através de teorias freudianas que se avança. Elas constatam realmente o passado, mas não formulam o futuro. O ressentimento, nós não deveríamos, a priori, usá-lo para nos casar com nossos pais, mas sim com outros seres, por quem sentimos sentimentos novos. Fazer novas todas as coisas realmente.

Então quando aprofundamos essas ideias vemos que muitas vezes os próprios preconceitos estruturais já não existem mais em si mesmos em termos de genuinidade. E prestemos atenção nisso, o que quero dizer com preconceitos estruturais já não existirem em si mesmos em termos de genuinidade, ou seja, os pretos não são inferiores aos brancos, não importa qual teoria se use para pautar isso: de que a pele vai se tornar etérica etc., bem como mulheres não são mais frágeis, bem como ser gordo não significa doença, bem como nascer na África ou no sul do mundo não significa mais ser atrasado, não importa quantos mapas astrais eu use para corroborar este preconceito, pois todas essas visões são sim ressentimentos, são re-sentir um patriotismo, re-sentir um orgulho da raça, da cor, do ser ariano, o que seja, re-sentir uma situação de enfrentamento, que nada tem a ver com o indivíduo que está ali na minha frente, mas por conta de um traço me faz ressentir o passado e portanto também reagir frente à relação que tenho para construir ali, ao invés de construir uma relação genuína presentemente, ou seja, eu acabo construindo com base numa memória ressentida, reagida e portanto, paradoxalmente, não ressignificada, não renovada, mas morta. Não é uma relação viva realmente.

E quando vemos isso em termos do artista, o verdadeiro artista é aquele que consegue ter esse avivamento e fazer com que se crie o espanto. A arte é a capacidade técnica de se criar espanto, espanto nada mais é do que o estupefato, aquilo que te tira do que te prende no dia-a-dia e dá a possibilidade de você voltar ao seu próprio centro, voltar a si mesmo. Para quem conhece astrologia, essa ferramenta romana magnífica, é como Saturno, tão temido, causador de pânico e pandemia em oitavas mais baixas, mas também a panaceia em oitavas exaltadas, quando em Libra. Sabendo que Libra está intimamente relacionada à Arte, bem como Vênus.

É claro que, aí é que está, o que acontece quando não é arte? O que acontece quando é entretenimento é que isso te tira do que te prende no dia-a-dia, mas, para isso, te prende em outro meio, a tal ponto que o estado de estupefação, de estar estupefato, se torna estupidez, porque um estado de espanto prolongado se torna estupidez, que seria como um Saturno em Áries, polo oposto de Libra. Então arte é aquela que te tira das coisas do dia-a-dia, mas tem técnica para te devolver a ti mesmo, porque ela não cria objetos, mas sujeitos.

Uma Monalisa não é um objeto, um quadro simplesmente, mas um sujeito que se apresenta a partir da hora em que você a olha. Isso se dá com qualquer Arte com A maiúsculo, uma verdadeira música, verdadeiro quadro, verdadeira literatura, uma verdadeira escultura. E mesmo uma verdadeira Ciência, uma verdadeira Religião, elas te tiram da lama do dia-a-dia para que se tenha possibilidade de que, encontrando esse outro sujeito que se apresenta, esse outro Conhecimento, uma relação seja construída e você, por ter saído das reações do dia-a-dia, saia também do ressentimento do dia-a-dia, e ali, numa ação genuína, num sentimento genuíno, uma ideia verdadeira seja construída, e nisso, por haver dois sujeitos que ali se unificam, você volte ao seu centro.

Depois de ver uma Obra de Arte a gente volta, no mínimo, mais inteiro para si mesmo.

É como uma boa música que faz você lembrar que tem partes do corpo que já não sabia, isso normalmente quem faz é a doença, uma parte adoece para lembrarmos que ela existe. A arte faz isso de maneira elevada, por isso ela cura, por isso é panaceia, que vem do mesmo pânico que adoenta. Pois ela faz com que você se lembre de todos os pedaços que carrega de si mesmo, claro que dentro da capacidade de cada um, e consciência de cada um, dentro do grau de iluminação ou escuridão de si, isso vai depender de cada um, mas ela em si é uma ferramenta, uma ponte simplesmente.

Já o entretenimento, aquilo que não é arte, te rapta e não te devolve a esfera nenhuma, a ponto de te deixar estúpido, é como pisar na orla: nem areia nem água, é um estado estúpido de entremeios, claro que pessoas com boas intenções dirão: encontrei o equilíbrio, é a orla, entre terra e água, entre a água e o sol.

Mas sabemos que grandes são os sofismas também para compactuar em não ser frio nem quente, nem mergulhado nem secando ao sol, ou seja, não ser inteiro, então fica aquela água dividindo meio a meio, nem lá nem cá, tanto por medo de afogar quanto por medo de secar ao sol, medo de insolação, por assim dizer, de se queimar. Medo do risco do que significa ser e estar inteiro numa experiência.

Então nós criamos dizeres falaciosos para justificar nosso lugar raso de vivência, e o entretenimento compactua com isso, as pessoas passam a inclusive julgar quem vê o entretenimento como problema como elas sendo rasas, afinal podemos ver profundidade em tudo, Deus está em tudo, então posso ver profundidade em qualquer coisa que eu queira.

Claro, eu posso pegar um filme pornográfico e usar como exemplo para ver teorias de Freud, e realmente dá, dá para ver num filme pornográfico como existe um começo, meio e fim e como os atos aliás, as fantasias que ali ocorrem, têm relação com a infância nossa e de quem escreveu aquele filme, se formos levar a um rigor extremo, óbvio que posso usar de qualquer coisa, qualquer prática para unir a qualquer teoria, mas é preciso ter cautela, pois é justo a união de qualquer forma com qualquer conteúdo que cria as grandes deformações que hoje vemos.

É preciso lembrar a todo tempo que se eu sou vivo e busco coisas elevadas, devo ser o exemplo de como se alimentar de coisas elevadas, ao invés de me tornar necrófilo para falar a língua dos que comem mortos.

E aí, com base em me rebaixar para falar com mortos ou com os que ‘dormem’, vemos um bando de entretenimento achando que é algo que me alimenta, quando não é qualquer coisa que eu engulo literalmente pela garganta que seja alimento de fato. Existem alimentos que são mortos, e quem vai levando a vida mais a sério em termos de procurar saúde, não num pieguismo de cartilha, de isso pode isso não pode porque mamãe mandou ou papai do céu gosta ou não gosta, mas simplesmente porque coisas fazem bem e fazem mal, passamos a selecionar o que nos entra, seja pela boca, seja pelos ouvidos, seja pelos olhos. Nós sabemos que qualquer alimento refinado por exemplo faz mal. Quer comer? Problema de cada um. Mas é um alimento de fato? Não é. Porque a maneira como ele chega até nós, já morreu, todas as propriedades que ele tinha já morreram em sua maioria, é no máximo um alimento zumbi, um morto-vivo.

Então vejam que capcioso e difícil, porque nós nos alimentamos de carniça mesmo sendo vegetarianos.

Se vamos tendo mais rigor, nada industrializado deveria entrar no corpo. Corpo que empacotou é porque morreu, está em caixa – caixão – está morto. Pessoas vivas dormem em locais abertos, não hermeticamente fechadas. Então quanto mais fresca e livre a comida, mais será um Alimento com A maiúsculo de fato, mais nos devolverá ao nosso centro.

E mais uma vez não significa que não se deva comer o que se gosta e quer, faça o que você quiser, as contas se acertam solitariamente. Mas tenha nessa conta que o incentivo e oferta de comer porcaria aos que nos rodeiam é de nossa responsabilidade, e haverá consequências em se ofertar cadáver aos outros, ofertar entretenimento quando se poderia e já se sabe que se tem o dever de ofertar Arte, por exemplo.

Cada um aceitará e acertará solitariamente, eu não tenho nada com isso nesse patamar de estar aqui para ensinar alguma coisa, não sou ninguém para isso, mas é meu dever proporcionar a possibilidade de pensarmos em teorias e práticas diferentes das que estamos acostumados no dia-a-dia. Mas é aquilo, quanto mais é dado, mais é cobrado, e não é o outro que cobra, mas nós mesmos, bem lá no fundo, pois sabemos quando um alimento nos faz mal, ainda que tenhamos um imenso vício em relação a ele. Se esse conhecer gerará mudança ou não, é com cada um. Eu não estou aqui para tomar conta de vida de ninguém. No tempo de cada um, e na possibilidade da força interna e do querer de cada um e do dever de cada um, essas vão ocorrendo ou não. Não me compete julgar, não estou aqui para julgar, mas apenas para renovar palavras que já foram ditas de muitas outras formas faz milênios.

Assim sendo, não deveríamos ingerir ou deveríamos, no mínimo, nos acautelarmos quanto às ingestões do entretenimento e tudo o que não é arte. Arte vem de um indivíduo que está minimamente acordado para si mesmo, não precisa ser O iluminado, mas a verdadeira Arte vem de indivíduos que têm consciência um pouco mais a frente do que as pessoas da sua época, como Van Gogh, Beethoven, que por mais que seja aplaudido em seu tempo, demora para cair a ficha sobre o tamanho desses seres, seres extremamente solitários, repudiados, tidos como ignorantes, até mesmo burros, rasos, porque são os outros, as pessoas, que não compreendiam, e às vezes até hoje não veem, a profundidade deles e do que eles ofertavam.

Quem vê com os olhos da carne, vê apenas rasidão no mar inteiro, e julga ser através de qualquer raso que se chega ao profundo, mas quem é capaz de caminhar por cima das águas sabe que é sobre um abismo que se caminha desde o começo, e que é ao abismo que se vence.

É preciso ter um tremendo respeito em relação a isso, porque isso é justamente ter consciência todo o tempo do tamanho da profundidade sobre aquilo que se caminha e se faz, de alguma forma, um verdadeiro trajeto.

E mesmo quando se fala: “vamos ver a parte positiva das coisas, vamos ver o lado profundo”, normalmente das duas uma: ou ver o lado profundo daquilo que é raso, em verdade é raso, é a capacidade da pessoa em, com suas ferramentas, fazer um furo na orla, um buraco no chão e provocar ali uma profundidade, o que se pode dizer que tem seu mérito enquanto obra, ainda que ao mesmo tempo tenha o lado da boa intenção, da qual o inferno está cheio, porque não adianta querer ensinar as pessoas a fazerem furos no raso para tornar o raso profundo, é uma falácia, uma deformação grave, ou, numa segunda hipótese, é maldade e perversidade de quem assim ensina! Então eu não sei, não sei mesmo, se convém ficar nessa busca frenética de hoje em dia de encontrar o lado positivo e profundo de tudo.

Sabe pré-adolescente que a gente não pode dizer: peitos, mamilos, pinto, vagina, que ele ri? Pessoas que são espiritualmente dessa idade: riem quando falamos de magia negra, de bem e mal, de dualidades enquanto eixos, sendo que sabemos que há uma grande possibilidade de hipnose quando se cria entretenimentos que nos levam todos a sentir as mesmas paixões e ver as mesmas coisas, a ter as mesmas conexões, especialmente aquelas que eram a intenção do autor. Por mais que ele tenha da esperteza de se dizer neutro, que ele não tinha a intenção de nada disso, ou inclusive se calar em relação à interpretação daquele texto. A responsabilidade de quem faz algo para a massa é imensa, não vejamos tudo isso com olhos tão inocentes assim. Ainda que não seja preciso criar teorias de conspiração, pois isso também é estar tão doente quanto crer que tudo é lindo e belo em si mesmo, bastando a existência. Basta existir para ser lindo, assim como basta o mal existir para ser a conspiração contra mim, querem me pegar, querem me hipnotizar, quem conhece hipnose sabe: só cai em hipnose aquele que se permite cair em hipnose. Então não é um processo inocente, não é um processo de todo passivo. As teorias de conspiração tiram a responsabilidade daqueles que estão em hipnose em terem se permitido estar sob hipnose. Então nos atentemos. Há Responsabilidade para todos os lados, e é preciso se lembrar todas as vezes dela quando se trata desses assuntos.

Entretenimento é simplesmente raso, não tem lado profundo: um filme pornô é só um filme pornográfico, um filme de terror é só um filme de terror, assim como funk é só funk, não adianta querer escutar notas de violoncelo no meio que não vai ter, ainda que tenha notas, mas não dá para ficar fazendo analogias aleatoriamente.

Esse é o problema do analfabetismo funcional em relação à analogia, por ser um lado da moeda cujo verso é a lei da lógica, ela pode, entre aspas, entre muitas aspas, “prescindir da lógica”, então não há lógica comparar funk com orquestra sinfônica, com filarmônica, contudo, entretanto é tudo música, tudo soa nota, então dá para fazer analogias e metáforas, na qual ambas se cruzem em algum ponto. Realmente em algum ponto vão se cruzar, mas nem tudo convém, nem todas as analogias convêm de serem feitas, então eu não sei, não sei se convém por exemplo usar de noticiários, quando já sabemos (quem está um pouco mais ciente, com a ciência dos fatos) que notícias, seja o jornal que for, há uma hipertendência a subjetividades deformadas, e subjetividades tais que uma mesma teorias pode divergir os olhares, e podemos falar de diversidade, mas no caso da mídia sabemos que não é a diversidade o que ela visa, mas o marketing, a publicidade e venda de si mesma na propagação de ideias ao inclusive contratar pessoas que sabem dar formas um pouco mais definidas aos pensamentos para que essas ideias se propaguem, ou seja, procuram pessoas que são fôrmas para assar o cérebro alheio e vender o bolo. Então não sei até onde convém pegarmos algo assim e procurarmos o lado positivo disso, como quem diz ‘para olharmos o profundo, só chafurdando na merda, indo na lama que nasce a lótus’.

Há uma grande confusão em relação a essa metáfora e analogia da lama: porque lama não é esgoto, lama não é lixo, lama não é merda, lama é água com terra, só isso.

O Buda Gautama vivia em palácio, tinha família, grandes bens, boas oportunidades de vida, como se diria hoje em dia: ele era um privilegiado, tinha suas regalias. E não é a merda que acontece com ele, ele não larga tudo para ir à merda, ele abandona tudo simplesmente para ir conhecer o sofrimento, para ir conhecer o sufoco de não ter uma terra firme onde pisar, nem uma água límpida a ponto de se conseguir ver, ele escolhe se dar em experiências que são crucificantes, que são sofríveis: de privação de lar, de privação de comida, de companhia, de higiene, de planos, privação de várias coisas que hoje nos confortam, inclusive numa zona de conforto mesmo, no termo negativo dessas escolhas, ainda que elas tenham sim seu lado positivo. E assim também, de maneira mais elevada, oitavas acima, mas seguindo analogamente este específico princípio, está o Cristo, que abandona pai e mãe para ir por aí, com galera com pedra na mão para matá-lo, sem garantia de casa, comida, conforto, e nem mesmo de vida, tanto que termina morto.

Então só com esses dois exemplos já conseguimos ver que os espinhos de uma rosa, bem como a lama de uma lótus, não é a mesma coisa que chafurdar na merda do dia-a-dia, não é. As pessoas têm essa falsa crença para si, seja por comiseração de si mesmas, seja por astúcia, por não saírem de sua zona de conforto, seja por mornidão, seja por fraqueza, pelo motivo qualquer que seja, elas repetem para si mesmas que se chafurdar na merda da sociedade, na podridão das relação, na rasidão do entretenimento etc. é fazer os espinhos cravarem na pele e fazer a lama cobrir a semente, quando isso não é real, é ilusório, porque o que esses seres passaram, seja num grau de Buda, seja num grau de Cristo – e entram aqui vários outros de várias tradições – nada tem a ver com a nossa pobreza e miséria nossa cotidiana, tem a ver, sim, com miséria de si mesmo, uma miséria tão grande de si mesmo que se entregam ao mundo com uma plenitude que justamente é dificílimo de ser alcançada, senão todo mundo era Buda e se cristificava, mas isso é dificílimo, dificílimo. Eu sinceramente não sei até onde o esgoto faz parte, não sei, não sei mesmo! Talvez fazer parte inclusive faça, mas aí é que está, por que torná-lo foco? Por quê? O foco não está no adubo, mas na terra que se lavra, o adubo é consequência dos animais que ali mesmo passam. Não é preciso buscar cocô para haver cocô na terra se ali há uma biodiversidade de fato, é diferente.

Não sei até onde isso é só uma astúcia nossa em ficar reproduzindo literalmente merda e nos ensinando a reproduzir e, pior, achar que a merda é necessária para acrescimento e desenvolvimento enquanto homens, sendo que grandes homens, como um Hiram Abiff, jamais perderia seu tempo com outra coisa senão a creação de si mesmo, a busca e o encontrar exercícios que justo o levem para o céu de assalto, que garantam que consiga se elevar, em hora alguma isso é chafurdar na merda. Esses homens não chafurdaram na merda do ser humano, pelo contrário, no máximo, chafurdam na merda de si mesmos, mas isso não significa fazer merda, e sim conhecer a merda que inevitavelmente historicamente se tem feito. Não sei se é possível ver, mas é abismalmente diferente.

Ainda que sim, tenham sido capazes de ver pérolas nos dentes do cachorro, isso é verdade. Mas quando é necessário, quando convém, porque os outros ficavam falando do morto, porque os outros ficavam falando do cachorro morto e falando de morte. Então é necessário vivificar? É, mas sabendo exatamente o que convém falar para que aquilo ganhe beleza, não é com base numa mentira, porque certamente o dente daquele cachorro devia ser branco como uma pérola, não é como se um dente meio podre ou amarelo, por falseamento, Cristo falasse que era como uma pérola, ele não precisava mentir nem falsear para ver a beleza e bondade das coisas, inclusive na morte, inclusive na tragédia.

A tragédia é cheia de beleza, vide os teatros e peças gregas, são belíssimas, titânicas, altamente eletrocutantes, cortantes, castradoras, catárticas, levam para a caverna, sendo que ainda assim, inegavelmente, são belas! Todo o caos, toda a destruição, angústia, obscuridade humanas estão ali, e belas! Não é o negar pelo negar, não é o não ver o morto…

É completamente diferente de ficar procurando elevação onde só há superficialidade, pois também é um ensinamento não jogar pérolas aos porcos, bem como não atirar coisas santas aos cães [Mateus 7:6]. Que dirá ver pérolas e coisas santas saírem da boca de porcos! Certamente esse também não é um ensinamento. E mais, a pérola estava na boca de um cachorro, não de um porco. E ter discernimento para conseguir compreender essa diferença entre os animais é crucial, pois aí reside um ensinamento também. Não se compra gato por lebre, e nem se deve confundir mamíferos só porque aparentemente pertencem a um mesmo grupo. As aparências enganam, para o bem e para o mal, por isso que de boas intenções o inferno está lotado!

É preciso saber o que se vê, ter uma grande observação e um imenso discernimento. Senão a gente fica achando que evolução é aumentar o estado de miséria em que nos encontramos, enquanto que misericórdia é esvaziar o coração dos nossos próprios preconceitos, sendo que preconceito não é só quanto a etnias e coisas de grupos, mas também quando eu preconcebo que tudo é lindo e vou encontrar gota de beleza em algo que é completamente feio, e pior, quando eu não sei ver a beleza real daquilo, por aquilo ser si mesmo, porque a beleza do que é raso é ser raso, e não cavar um buraco e dizer que é profundo porque eu vejo.

Encontrar a beleza daquilo que é o que chamamos de mal está em ser mal em si mesmo, não em transformar em bem, ainda que ele contenha o bem como gota potencial dentro, e podendo vir a se tornar um, quem sabe… Mas as pessoas têm dificuldade em compreender a beleza do mal pelo mal em si mesmo, e quando mostramos que algo é raso e só raso mesmo, elas se ressentem, tornando a ficarem eufóricas e alegres em encontrarem o bem dentro do mal como semente.

O ressentido é aquele que espera sentir novamente um determinado sentimento em relação a algo ou alguém. Nós tendemos, por cegueira nossa, ver como ressentimento apenas aquele que fica triste, frustrado ou com teorias que alimentam uma interpretação torta, deformada em relação ao ocorrido dentro da relação, mas mesmo aquele que sente a alegria e euforia de se contentar com algo dentro de uma expectativa é um ressentido, nós apenas não vemos porque tendemos a analisar ressentimento apenas como algo negativo, de perda.

O entretenimento é raso, a partir da hora em que se interpreta como algo profundo, não se vê o fato em si, e se alguém diz que é raso, a gente se ressente e cava mais um pouco o buraco na orla da praia para se convencer de que ‘olha, é profundo sim, eu vejo’.

É claro que o que é profundo para uns pode ser raso para outros, então claro que uma criança pode dizer, numa análise, que um determinado ponto da praia é profundo para ela, quando um adulto compreende que não é profundo em si mesmo, mas em relação a ela – criança, bem como raso em relação a ele – adulto.

Aí surge uma outra questão: como sair de uma interpretação subjetiva deformada, ou mesmo objetiva, cristalizada, mas que é pautada somente em mim, em um eu adulto ou infantil? A saída talvez seja através dos Outros. É como observarmos uma personagem somente pela sua gênese e nisso dizer se o texto é profundo ou raso, sem vermos as personagens e todos os atos ao redor. Ver o todo depende de ver os seres que ali se encontram e, ainda mais, as relações que foram criadas.

Se sabemos que a analogia, e mesmo a lógica, carrega Outros ao lado, porque na lógica há mais do que apenas uma constatação objetiva baseada em um sujeito – a lógica não pressupõe apenas uma afirmação derivada de mim mesmo, bem como a analogia também faz com que vejamos que, se tomamos um espelho, ao mexer meu braço, as figuras, imagens, os ‘sujeitos’ que estão ao redor irão também se mover de maneira análoga, ainda que não necessariamente idêntica, então temos a oportunidade de ver que algo será minimamente profundo se outros ao redor também aprofundam algo naquele fato em si mesmos, não porque eu cavo um buraco e mostro, mas porque eles aprendem a cavar buracos por si próprios, aprendem a praticar profundamente a teoria que eu mostro, e mais, aprendem a ver que não é preciso que eu abra buracos nem mostre o raso, isso já há em todos os lugares. Ganha-se a capacidade de constatar, de observar, e a partir daí discernir que o verdadeiro ato não está em reproduzir o que já está criado, dado, mas sim em crear uma nova forma de se relacionar com o raso da orla e o abismo do mar em si. Como, por exemplo, ao invés de cavar, voar, ao invés de afundar, levitar, caminhar sobre qualquer superfície que se queira, ainda que não haja sequer lama onde deitar a raiz.

A raiz em si passa a estar naquilo que é invisível aos olhos, sem com isso fazer com que qualquer coisa se torne necessariamente boa.

Há um moralismo em querer transformar, quase que de forma infantil, tudo o que é mal em algo bom, o que é feio em belo, ao invés de se aceitar que são polos, e sendo polos de um mesmo eixo, precisam ser trabalhados como são em si mesmos. Isso é encontrar a possibilidade de um centro. Não precisar transformar o Outro em algo outro senão ele mesmo, ainda que isso signifique rasidão, obscuridade e baixeza.

A palavra vilão, por exemplo, vem etimologicamente de algo que se torna baixo, sem valor. Oras, se tornarmos como exemplo uma moeda antiga, ela não tem valor em si mesma no mercado de trocas, eu não compro nada com ela, mas ela tem valor sim como relíquia, como tendo sido necessária num tempo outro, tendo se tornado sombra da luz de agora. Não é preciso fazer com que ela volte a circular, querer dar valor de mercado para ela, mas sabendo que, se se vende e compra este tipo de moeda, é por conta dos valores além do que ela representa em si mesma. Isso só se torna possível por conta dos valores que a ultrapassam e do mercado de trocas que continua circulando e acontecendo, o mérito não é dela, mas daquilo, ou daquele que a ressignifica e, portanto, a torna nova aos olhos de quem a veja. Mas não é possível conversar sobre valores de mercado, sobre vida corrente, usando moedas antigas como exemplo, querendo fazer delas o valor hodierno, não vai dar certo. O que passou, passou, ainda que seja preciso ter seu grau de valor justo pela mudança que se possibilitou através daquela moeda enquanto ferramenta. Mas veja, enquanto uma moeda circula ela não é vil, porque ela é aquela que simboliza o valor em si mesma, ela se torna uma representante do valor, um símbolo do valor. Ela se torna vil quando deixa de estar em circulação para ser substituída por outra.

Quando nós acreditamos muito no entretenimento podemos observar que ele compõe a cultura. Agora, pensem: um Leonardo da Vinci não é a cultura de um povo, um Shakespeare não é cultura de um povo, por mais que se diga e que seja o maior poeta inglês, maior poeta italiano (eu coloco Leonardo como poeta no sentido tradicional grego, de Diotima), por mais que os países onde eles nasceram os tenham patrioticamente como seus poetas, tais quais seus donos, ainda assim, a verdade é que um país é pequeno demais para comportar nomes como esses, seres como esses, é como se eles fossem não só do mundo inteiro, mas inclusive de outros planetas. É como se fosse pequeno eles pertencerem só à Terra, só à Inglaterra ou uma cidadezinha onde nasceram.

A cultura por outro lado é pontual, cultura daqui, cultura de lá, de um bairro, de uma periferia, cultura de uma cor, de uma etnia… acabou aquele povo acaba aquela cultura, aquele jeito de fazer e pensar, por assim dizer.

Mas um Shakespeare pode nascer e morrer quantas vezes ele quiser, ele nunca vai acabar. Um Shakespeare é eterno, né. E não porque se torna um nome na materialidade, porque os nomes passam: Shakespeare também irá passar, ainda que seja prudente ler até hoje Homero, mas ainda assim tudo o que esses seres construíram vai continuar sendo construído por outras pessoas, individualmente, porque a técnica vai sendo passada para frente e vai elevando cada um que a recebe como dom, como graça, como dádiva celeste.

É justamente por conta do próximo que carrega a técnica que o artista continua vivo. Ele ama o próximo como a si mesmo, em todas as extensões do termo. Ele ama em cada palavra, em cada pincelada, em cada tela, em cada nota, em cada pedra, em cada bater de martelo!

Tudo o que tem a ver com altitude tem relação com fogo: o fogo é vertical, assim como o ar também o é. Mesmo que aparentemente se possa dizer que o ar é horizontal por passar entre nós, seu princípio é verticalizante, quem observa o nariz sabe, pois uma boa respiração revela essa verticalidade.

A maior parte das pessoas respira pela boca, mas a verdadeira respiração é pelo nariz, pelas narinas, e elas são verticais, assim como o diafragma sobe e desce. Então o verdadeiro ar, quando elevado em sua prática, faz com que a teoria se apresente também de maneira elevada por nos elevar até um patamar de centramento em si mesmo, centramento esse em que eu escolho cada respiro que dou – ainda que para muitas pessoas isso pareça absurdo, porque maior parte do tempo respiramos de maneira automática, involuntariamente.

Um bom exercício é ler livros em voz alta, falar em voz alta, sem intenção de nada, sem estar dando aula, sem ter intenção, sem estar proferindo um discurso apaixonado, mas só falar, só ler… e se possível gravar. Nós vamos vendo que a maior parte dos erros, senão todos, que se comete tem a ver com uma inconsciência do respirar. E quanto mais se quer ser assertivo no que se fala, no sentido de ter uma fala limpa e não ter que se corrigir, em uma palavra que se tropeça, ou numa oração, numa entonação ou numa conotação errada que se dá, isso só se melhora se aprendemos a respirar.

Então cada respiro começa a se tornar extremamente importante, e começamos a ver que eles fazem parte do texto junto com as palavras. Que para eu aprender a ter técnica para exalar o ar, porque falar nada mais é que exalar o ar na horizontal, que vem de uma vertical profunda e sai numa horizontal, eu preciso antes aprender a inspirar com o órgão que é mais elevado do que a boca, aliás: um ar superior que entra para que um saber inferior saia, porque obviamente perto d’Aquele que me inspira eu nada sei e nada sou em verdade.

Perto do silencio que me penetra, meu dizer nada é senão vãs palavras.

E ainda assim, paradoxalmente, é necessário dizer, é necessário expirar.

Se observarmos aquilo que é raso veremos que é também infinito, pois se observarmos o infinito, fotos da galáxia por exemplo, é quase como se ela fosse chata, por isso a ideia da Terra plana, ela não existe à toa, ainda que falsa, porque a Terra é redonda, mas a galáxia dá a impressão de ser quase plana, se repararmos, porque o infinito é justo a impressão desse raso aos olhos da carne, o raso que se perpetua até não poder mais, o horizontal, o infinito que é o horizontal, assim como o eterno é vertical, aprofundando ao elevar.

Talvez um dia a gente venha a descobrir que a galáxia também não é essa ideia que nós temos em foto de que é como um rastro de planetas e luzes, como uma nuvem que se estendeu de forma achatadamente espiralar. Talvez um dia venhamos a acordar para uma realidade esférica da galáxia também, e espiralar em profundidade, e não em achatamento.

Tudo aquilo que é esférico possui um centro, porque o que é infinito obviamente em relação ao que é eterno forma a cruz e em um ponto eles se encontram – porque o infinito é horizontal, o eterno é vertical, então o infinito em relação ao eterno forma uma cruz e onde eles se encontram tem esse ponto, e esse encontro, esse ponto, forma o centro. Então quem passa pela cruz, pra quem passa pelo encontro do profundo e elevado com o infinito e raso (superficial em termos não só pejorativos, mas também bons no sentido de que é necessário e belo, sendo no raso que se coloca os bebês e girinos e peixes, no raso que a vida se dá e muito da beleza do nascimento da vida pode ser visto), para quem passa pela experiência da cruz em seu sentido mais simbólico e belo e bom e verdadeiro, claro que é o encontro do infinito com a eternidade e vai ser necessário vivenciar ambos, então vai haver horas de entretenimento e horas de Arte, horas de coisas mundanas e horas de coisas elevadas, celestes, espirituais. Vai haver hora para tudo, contudo, não confundamos: as coisas mundanas já nos são ofertadas a todo instante. Então quando for produzir e ofertar uma experiência, por que não deixar de ofertar o entretenimento para oferecer Arte, e com isso gerar atração, não para a infinitude de quem reproduz à vontade, mas sim para exaltar o que nos eleva por ter eterna profundidade?

Sabemos também, se paramos para pensar em seres elevados, homens e mulheres elevados, que nós os admiramos justamente por sua capacidade de alta técnica, alta capacidade de creação, e não de reação, mas de ação no mundo, não de ressentimentos, mas de sentimentos genuínos e verdadeiros, de concepção de ideias imaculadas, então paremos para pensar: será que Beethoven teria tempo de ir ao cinema, por exemplo? Isso para não citar Cristo, Buda, porque daí é ‘não’ com certeza. Mas claro, um Beethoven, assim como um Cristo e um Buda, eu penso, pode ser inocência minha, mas, se fossem, um Beethoven estaria pensando em quê? Na Música. Um Buda em quê? Na Iluminação. Um Cristo em quê? Na Cura, na Ressurreição. E não vendo o filme propriamente, o cinema seria apenas um pano de fundo, um local em que ninguém fosse incomodá-los, por exemplo – apesar de hoje todos buzinarem na orelha mesmo com um filme na tela e o som no talo.

Mas se pensamos num Fernando Pessoa: ele não saia de sua casa quase, uma Emily Dickinson: ela não saia de seu quarto… Leonardo da Vinci aos trinta anos chegou a escrever que já havia perdido tempo demais… meu deus, se um Leonardo da Vinci, aos trinta anos, perdeu tempo demais, o que tenho eu feito da vida então??? O que nós estamos fazendo??? Perdendo mais e mais Tempo! Porque não é se livrar do Tempo, pelo contrário, não o perca, porque Tempo tem a ver com Cronos, que tem a ver com Pan, eles são figuras que estão relacionadas, arquétipos que estão relacionados em relação de oitavas, e Pan assustava quem andava pela floresta desatento, inconsciente, de maneira involuntária. Se nós perdemos Tempo, Pan com certeza irá assustar-nos.

Será que um Shakespeare teria tempo para ouvir qualquer coisa que fosse da moda? Que fosse da cultura? Eu duvido. Porque eram seres ocupados demais em servir através de um serviço próprio, não porque fossem vaidosos – ainda que isso não signifique que não houvesse vaidade envolvida, não eram perfeitos, a não ser Cristo, mas tomando aqui somente aqueles que não são Deus, ainda, porque sim, seremos deuses, está inclusive na Bíblia e todas as tradições nos trazem isso, porém não sendo ainda perfeitos, há vaidade envolvida, mas  não era apenas vaidade e egocentrismo, mas eram pessoas que queriam genuinamente deixar algo maior para humanidade, porque elas sabiam, olhavam pra tudo e viam, basta a gente parar e olhar pra tudo que a gente vai ver que tudo é reprodutibilidade – tudo é reação, ressentimento e reprodução, e, olha, estamos falando de 500 anos atrás. Imagina hoje em dia, o quanto não necessitamos urgentemente de seres tão elevados quanto! Urgentemente! Que eles tenham piedade e desçam à Terra para realmente fazer novas todas as coisas em conjunto, seguir o exemplo máximo que nos legou Cristo Jesus. Porque é sobre isso que se trata! Sobre renovar essa reprodutibilidade vazia que nos cerca e nos afoga na merda e a gente ainda jura que é o espinho da Rosa que um dia vai ser desabrochada.

Claro que o problema de Leis da Lógica, das Leis elevadas, dos Axiomas herméticos, é que eles dependem muito, senão exclusivamente, de uma alfabetização que está muito além do que hoje a gente é capaz de compreender e apreender; nós repetimos Axiomas herméticos e Leis de Lógica e de Analogia e as usamos de qualquer jeito, quando na verdade se tivéssemos realmente capacidade de ver o que nós fazemos, nós veríamos que, meu deus, nós ainda não sabemos o que fazemos, e Cristo Jesus repetiria uma vez mais: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem. [Lucas 23:34]. Nós não sabemos o que fazemos, e isso não significa sair fazendo qualquer coisa: quanto mais se faz qualquer coisa, mais não se sabe o que se faz.

Nós ainda compactuamos com astúcias e usamos da Analogia e da Lógica e de saídas fáceis, como quem diz ‘assim como em cima, embaixo’ para justificar que se o profundo é sombras, se o fundo do mar é pressão a ponto de implodir, ser obscuro e quase, quase, não haver vida, então tudo bem eu crer que deus está morto e sair explodindo tudo, porque afinal profundidade é implosão, e o que será o elevado senão seu oposto, explosão? E aí fica acreditando em Big-Bang e recorrendo a Leis de Lógica e Analogia que são puro sofismas por conta de um analfabetismo funcional nosso em relação aos Axiomas que são Verdadeiros de maneira muito mais profunda do que temos capacidade de compreender e apreender no atual estado e momento.

Nós começamos a usá-los para analisar qualquer coisa e dizer sandices. E não pretendo com isso fazer um julgamento: isso não é uma corte e uma sentença de nenhuma forma, mas apenas um apontamento, porque nós estamos muito cegos e usamos de nossa ignorância para justificar e continuar reproduzindo cegueira, reagindo, ressentindo, reproduzindo mais do mesmo, e se convencendo que esse ‘mais do mesmo’ é elevação do ser, quando não é, não é! Porque elevar-se tem a ver com técnica, tem a ver com Arte, com propriedade técnica que é Ciência, passa pela Ciência, assim como ela, sendo Conhecimento, passa antes pela Religião – a Religião, que nada mais é do que a aceitação simplesmente, porque é preciso primeiro aceitar as coisas serem como são, para depois parar de se aceitar para querer conhecer propriamente, ou seja, tomar ciência por si mesmo. Se olharmos a sério, não estamos ainda num patamar de ciência de fato, apesar de toda a ciência que falsamente existe de uma técnica rasa, e não elevada, ainda que a técnica elevada, na ciência, haja: porque há a ciência elevada, como a Ciência Esotérica, por exemplo. Então há a medicina de um Paracelso, extremamente elevada, uma ciência extremamente elevada como os alquimistas, enfim, várias tradições e suas escolas, suas sabedorias milenares. Mas para a grande parte da população, essas coisas ainda são desconhecidas, ou mesmo quando se está em um estudo desses são, muitas vezes, rasamente conhecidas.

Então, daquilo que se aceitava enquanto tradição (a Religião) passa-se ao conhecimento, em termos de tomar ciência em si mesmo daquilo que era passivamente aceito, e ainda haverá um momento em que essa ciência será consciência, será uma ciência conjunta, que é o que possibilita a Arte.

Não é propriamente a Religião que religa, a Religião é a ligação natural que já há sendo reproduzida, ou seja, é a reprodução da ligação natural que já existe, mas a Arte, a Arte enquanto ponte, enquanto ferramenta que apresenta um sujeito ao outro, e presentifica o Eu através do Tu que se creou com forças internas de algum creador, de algum homem-creador, a Arte, ela realmente religa no sentido de elevar, de inovar, e nos devolver ao centro de nós mesmo e, nisso, ao voltarmos ao nosso centro, ou talvez estarmos e sermos nele pela primeira vez conscientes, nós temos a possibilidade, não é a Arte que faz isso, mas ela gera a possibilidade de, tendo e sendo neste estado, configurando esse conjunto de fatores sincrônicos e arquetipicamente postos e centralizados, com isso, se abrir uma brecha para que o milagre aconteça, para que Deus apareça e Cristo nos fale.

É claro que eu poderia falar de outras tradições e outros ditos avataras etc., mas meu dever aqui é falar de Cristo, porque Eu Sei que Ele é o centralizador de todas as tradições, Ele é o centro de todas as tradições, ainda que em cada tradição a gente vá encontrar um ser que reflita Ele, que represente Ele, uma possibilidade de faceta d’Ele em cada tradição através de cada ser, de cada mestre espiritual que existiu em cada tradição, e aí cada um irá identificar esse arquétipo dependendo do seu grau de consciência, e tudo bem existirem facetas, mas o maior grau possível de ser alcançado hoje do face-a-face é através do Filho e do Pai, ou seja, não é sequer somente através do Cristo, mas do Pai-Cristo, pois que são um só em Verdade. E claro, sabendo que para além disso, há também o Espírito Santo, que é aquela Forma, aquele Ser que está preparado para se unir a esses Seres mais elevados.

Então é preciso tomar muito cuidado e nos acautelarmos em relação àquilo que ingerimos, porque claro que posso assistir um filme pornográfico, como dito, e estudar teorias psicológicas em relação a isso, nós podemos fazer toda uma abstração semiótica em relação à movimentação e fantasias relacionadas ao desejo daqueles atores, daquele enredo, porque por mais esdrúxula que essa ideia pareça, sabemos que há um enredo a ser seguido à risca, pois filmes pornográficos são muito bem pensados, pois é isso, se não souberem fazer um roteiro e sequência de imagens que mexa duma maneira especifica com o público, a máscara cai facilmente, e não acreditamos no que vemos, fica explicita a vulgaridade do ato, a vulgaridade no sentido mais cru dela mesma, porque o ato sexual em si pode não ser vulgar, o ato mais vulgar num filme pornográfico é o quererem te embutir falsos prazeres e falsas ideias, porque os próprios atores muitas vezes não sentem prazer algum ao fazer aquele ato entre eles, não é algo prazeroso, por assim dizer, é apenas morno… Então a vulgaridade está na perversidade em vender uma falsa relação, a relação mais básica, o sexo animalesco, pois até os animais se relacionam sexualmente, e ainda assim nós conseguimos falsear até mesmo isso, essa é a maior das perversidades: falsidade e vulgaridade num filme pornográfico é isso, e não o sexo em si mesmo. O que não significa que o sexo está liberado, mas são etapas dum processo. Antes um sexo vivo que um sexo morto ou morno, a morte e a mornidão são muito mais vulgares do que um ato, ainda que sexual, vivo. Pois não há vergonha naquilo que é vivo, mas quem é vivo sabe que nem tudo convém. Apenas isso. E sexo passa a não convir depois de determinado tempo.

Claro que consigo usar até mesmo um filme pornográfico para analisar a mente humana, a infância, problemas psicológicos ou não que cada um vai ter, manias, fetiches, taras, parafilias, o nome que se dê. Resta perguntar então, convém fazer isso? Não convém, é desnecessário. Com tantas opções do que analisar, é desnecessário. E é isso, não é sendo moralista, porque a margem faz parte da água, faz parte do oceano, talvez aliás sua grande beleza esteja na praia, no encontro do mar que se torna raso para poder encontrar a terra, mas ainda assim, não se vive somente disso, a quem quer ir longe: é preciso correr o risco de morrer afogado, é preciso correr o risco de morrer de uma insolação, isso separando o sol da água, o fogo da água, porque se unimos, é preciso correr o risco de afogar-se, de andar sobre as águas e afundar, tal qual pedra, mas ainda assim é preciso, primeiro, estar num barco, navegar, e uma hora se despir do barco, descer dele e ver que andar sobre o mar é caminhar sobre o abismo com as próprias asas.

É claro que é inocência acreditar também que as asas são nossas propriamente, mas um dia serão, pois nos são dadas, foram feitas para que nos sejam genuinamente dadas se nós quisermos construir uma relação com elas, fortalecer os músculos nessa caminhada, nesse bater de asas, senão é igual Darwin escreveu: elas atrofiam. Quem não usa determinado músculo, atrofia, bem como determinado órgão, e como pássaros que não usam as asas, nós deixamos de voar um dia, então as asas não são nossas, mas nos foram dadas para que sejam apropriadas por nós. E apropriadas no sentido mais elevado do termo: de tornar próprio, tornar de uso privado, ou seja, tornar de uso do indivíduo algo que é comum a todos. Todos têm a potencialidade de ter asas, mas poucos realizam o trabalho técnico de se apropriarem dessa ferramenta de fato.

Então pensemos melhor sobre o que é Arte e sobre os entretenimentos que escolhemos para que façam parte da orla da praia, que saibamos ter sabedoria em relação a ambos, e, principalmente, que aprendamos a observar e discernir um de outro e saber quando convém cada um, porque há entretenimentos que simplesmente não convêm hora alguma, como jornais que só geram coisas ruins, músicas que só causam ruídos dentro de nós, filmes que não nos devolvem a nós mesmos, mas nos lançam ao furor das paixões baixas e da crendice de massa ou a um passado materialmente histórico violento (remetendo a Marx)…

Que estejamos atentos para que, dentro do nosso espanto e estupefação, não nos tornemos estúpidos demais. Sabendo que faz parte da estupidez crer que a asa é própria, ela é para apropriação, mas não própria do indivíduo: Não somos super-homens (como alegou Nietzsche), mas podemos nos tornar seres que levitam, que voam e que fazem coisas que hoje a nossa imaginação duvida!

Que saibamos ter da estupefação, e que o espanto, acima de tudo, seja na horizontal ou na vertical, nos devolva ao ponto em que nos vejamos realmente postos entre estas duas instâncias, e que vejamos que no meio delas, bem onde se encontram, está nosso Coração. Que nós o ouçamos e que a Arte, a Ciência e a Religião, ou seja, a Verdadeira Espiritualidade, nos tire das reações, dos ressentimentos, das reproduções e nos devolva ao nosso verdadeiro Centro para que possamos verdadeiramente nos ligar a algo superior, algo a mais:

a Arte como ponte ao Outro, Irmão a quem Eu encontro, por finalmente voltar

ao Pai.

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