Atenção:

Eu sei que a Verdade não pode ser reduzida, bem como nem mesmo seus três pilares: ciência, religião e arte, a uma explanação ou texto, por mais longo que seja. Nada do que se diz aqui pretende ser Teoria de saúde, comportamental, científica, filosófica etc., mas, antes, intenciona-se Poetizar uma Prática (uma possibilidade de Ação Humana) em relação a teorias que se mostram vigentes no mundo que nos cerca. O que faço é usar da Analogia para revelar o estado em que nos encontramos e como podemos alterá-lo através da Vontade, observando melhor nós mesmos e tudo ao redor, bem como tendo mais discernimento dentro do que me cabe enquanto Trabalho de Evolução Interna e Serviço em relação à Evolução do Outro, este sendo especialmente através do espelho: Seja um exemplo Vivo de Ações elevadas dentro de Teu caminhar e o Outro se espelhará em Ti para ver a Si mesmo.

Pela Compreensão, agradeço!

 

Eu gostaria de conversar sobre: o que é uma luta antirracista? O que é racismo, o que são essas lutas e para onde isso nos leva hoje em dia? No USA há manifestações pacificas e manifestações em que as pessoas metem fogo em tudo. No Brasil, dado à nossa cultura, que é muito apaixonada, dado a recentes acontecimentos, doenças, como Covid-19, que vão nos fazendo ficar mais nervosos quanto a mazelas do mundo, enfim, por N motivos, nós acabamos tendo muita opinião, muito pulmão e dedos para digitar muitas coisas e eu gostaria de questionar isso, nossas posturas no dia-a-dia em relação a várias coisas que se relacionam com a vida, à luta pela vida, porque por fim talvez esse nervosismo todo que temos passado possa se resumir nisso: uma luta pela vida.

Uma pandemia se instala, e revela esse Pan. Pan é um deus diabólico grego, a origem dele remonta tradições anteriores à grega, mas ele foi incorporado, e era um deus que não fazia nada com as pessoas além de assustar as que andavam pela floresta. Por causa dele se instaura a palavra pânico, mas Pan não tem só uma face horrenda, ele também dá origem a palavras como panaceia, uma cura… então olhemos com mais cuidado para as coisas que nos assaltam, nos pegam de surpresa pelo caminho, porque o trabalho de Pan é esse: nos pegar de surpresa pelo caminho.

Várias coisas têm nos pego de surpresa, então como citei, as manifestações estão acontecendo nos USA, umas pacíficas outras metendo fogo em tudo, e nós, apaixonados que somos, também acabamos criando hashtags e stickers (não sei o nome) de figuras que colocamos no facebook, sendo que grande parte das pessoas que vejo tendo esse discurso são pessoas, em maioria, brancas, pessoas que talvez ainda não tenham se dado conta, mas só o fato de serem brancas já faz com que sejam racistas, intrinsecamente, pois é inerente à cor de pele delas porque há pressupostos na nossa sociedade de que se você é branco você vai ter certas regalias e privilégios, e isso pode ser simplesmente a maneira como alguém te olha e te julga. Nós todos, humanos que somos, sabemos o quão ruim e pesado pode ser o julgamento de alguém e como podemos ficar doentes imaginando o que o outro pode estar pensando de mim.

Isso se exacerba, isso ganha medidas catastróficas quando eu sou preta, por exemplo, e sei que as pessoas terão uma grande predominância, ainda que inconsciente, de um julgamento que vai me inferiorizar, ainda que num segundo momento elas possam me elevar, mas a primeira tendência é automaticamente haver um julgamento inferior das minhas capacidades.  Então não é tão difícil assim compreender que nós somos estruturalmente racistas, violentos, porque todos vão estar impregnados com uma violência: eu sou cis serei transfóbica, quem é branco será racista, quem é heterossexual será homofóbico e por aí adiante. Porque nós somos violentos por natureza. A natureza é violenta.

Olha esse vírus, esse vírus vem e ataca todos (e não vamos entrar em questões de classe, de quem consegue ou não se proteger), mas a princípio, qualquer vírus qualquer bactéria, gruda em qualquer um que passar pelo caminho dela, ela não faz uma seleção, vai ser seleção natural no máximo de quem passou levou, ela não fala: você é preta, não vou com você, vou lá com a branca, e assim vai… não existe isso, o vírus é cego para a materialidade – neste aspecto, e o vírus é uma natureza extremamente primitiva.

Se nós analisarmos o nosso cérebro ele tem divisões, sub-regiões, e uma delas é nosso cérebro dito reptiliano, de réptil, porque ele está lá no meio e faz com que reajamos ao meio externo, tenhamos reações ao meio, assim como os animais, é como um cérebro instintivo. E durante muitos milhões de anos nós estivemos sob domínio dele, no sentido de que usávamos somente essa parte do cérebro durante muitos milhões de anos. Depois uma segunda parte se desenvolveu com as emoções e aí temos um período também de desenvolvimento dessas emoções, tanto que nós somos, principalmente aqui no Brasil, super apaixonados, melodramáticos, novelas, gostamos de uma história, drama, aventura, enfim, tudo o que gera calor em termos passionais. Nós somos muito passionais, torcidas organizadas que tempo todo são passionais, para o bom e para o ruim… enfim, agimos em prol daquilo pelo qual estamos apaixonados, assim como, se amanhã perdemos a paixão, deixamos de agir em prol daquilo.

E nós temos uma terceira camada, o neocórtex, que é quando a gente começa a ter capacidade de realmente refrear tudo isso e, talvez, ter os primeiros vislumbres de “o que eu quero sentir? O que eu quero escolher?”, ter escolhas mais conscientes. Então deixamos de ser tão reféns das paixões e dos instintos e passamos a desenvolver raciocínio, a ter um cérebro mais racional, a optar por pensar antes de agir, por assim dizer. Isso é muito difícil porque em comparação com o cérebro pequeno reptiliano que nós temos dentro, que por milhões de anos está lá funcionando, o neocórtex é muito mais recente, não tem comparação, então é claro que ele vai ser mais frágil e mais fraco, em certos termos.

Por que estou falando de cérebro e tudo isso? Porque nós temos uma tendência muito grande a agir instintivamente, a reagir às coisas, depois a gente até fala “nossa, onde é que eu estava com a cabeça?”, porque agimos de forma inconsciente, nós só respondemos, revidamos, reagimos, re-agir não é uma ação, eu não estou agindo, escolhendo para agir, estou apenas reproduzindo uma ação, ou seja, eu estou andando atrás da própria cauda, igual cachorro que corre atrás do rabo. Cachorro que corre atrás do rabo está numa reação: ele vê o rabo e corre atrás, ele vê o rabo ele reage, ele vê o rabo ele reage. Em muitos sentidos nós somos assim.

A natureza, as primeiras vidas mais primitivas e aquilo que temos de mais primitivo, não é a igualdade e amor e a beleza, mas justamente o selvagem, a luta, a guerra, o instintivo, a reação, a animosidade, enfim, todo o nosso lado grotesco. Grotesco vem de grotta, que é caverna. Então todo nosso lado cavernoso, grotesco, todo nosso lado caverna de Platão, inconsciente, que a gente acha sempre que é só o outro, mas todos nós temos isso, ele é muito presente, ainda.

Sendo que se nós repararmos, tudo o que é muito novo na natureza, como vírus, bactérias, são vidas recém-formadas, por assim dizer, são sempre vidas pequenas, animais pequenos, quanto menores mais nós conseguimos observar isso, que há algo de primitivo que ataca qualquer um. Um vírus ataca qualquer um, ele não escolhe. “Ah, o covid não é preconceituoso”, há discussões sobre ele ter colocado todos em pé de igualdade, mas todos os vírus colocam todo mundo em pé de igualdade, todas as bactérias, elas não selecionam por você é rico você é pobre, vou te atacar não vou te atacar, mas é claro, pessoas que têm recursos para não chegarem próximas a zonas de infecção, não serão atacadas, então vai-se criando distinções entre quem fica doente e quem não fica por conta dos recursos que cada um tem para não encontrar esse vírus na rua ou bactéria, o que seja.

O que isso tudo tem a ver com racismo?

Isso tudo tem relação com racismo porque nós instintivamente e apaixonadamente queremos um mundo melhor, queremos fazer parte das lutas e fazer a diferença, a gente apaixonadamente realmente quer, mas o simples fato de eu nascer preta, mulata, moreninha, o que seja, afrodescendente, e o fato de alguém nascer branco faz com que não importa o nome que me dê, de morena a mulata a preta, vai ser diferente. Ponto. Por que? Porque é isso, instintivamente nós lutamos uns contra os outros, e nós sabemos que a materialidade nossa, a partir da hora em que fomos ganhando consciência de grupo, nós fomos nos distinguindo um do outro. Então é claro que nós não somos iguais, naturalmente não somos iguais, porque ser preto é diferente de ser branco, ainda que inconscientemente, assim como um cachorro ataca um gato – é tudo animal, mas um ataca o outro porque são naturalmente distintos, então temos um branco e um preto, naturalmente distintos, porque é natural nascer com uma cor de pele, ou ser albino, não ter cor entre aspas, mas se tomamos as etnias ou raças, o cachorro ataca o gato, o gato ataca o rato etc., mas o ser humano, a partir da hora em que fomos criando consciência, a partir da hora em que vamos acordando para a realidade, começamos a ter a capacidade de questionar: por que que eu que sou cachorro estou atacando o gato? Por que eu que sou gato estou atacando o rato? E o grande problema é: nem todo mundo chegou nesse patamar ainda, aliás a maioria não chegou.

Instintivamente aprendemos a atacar um ao outro, fosse por território, comida, grupos atacavam uns aos outros, e isso foi tomando outras configurações, à medida que fomos tomando consciência isso foi tomando outras formas, então já não era possível eu atacar alguém de outra comunidade só porque é outra comunidade, então a gente começa a criar padrões apaixonados: é minha cor, é meu povo, eu sinto algo que me une a eles, preciso proteger o meu, é minha família, minha igreja, meu terreiro.

Nós começamos a criar, para além do instintivo (eu preciso atacar o outro porque é diferente de mim e ponto), maneiras apaixonadas como desculpa para atacar o outro, para continuar fazendo aquilo que aprendi por milhões de anos, porque por milhões de anos eu aprendi que eu tenho que atacar você: morra. Nós fizemos isso por milhões de anos. Milhões.

Depois a gente aprendeu a colocar nossas paixões no meio: eu preciso atacar você porque eu sinto que você é uma ameaça, eu não sei explicar, mas eu sinto, então eu ataco. Claro, à medida que vamos tomando consciência de características, eu passo a sentir que sua cor é uma ameaça, que sua igreja é uma ameaça, que seu jeito, seu tamanho, seu gênero é uma ameaça, enfim… nós vamos usando do racional, do terceiro cérebro, do neocórtex, da nossa capacidade de escolha e de pensar, para corroborar aquilo que eu sinto, porque eu sinto que tenho que atacar o outro por motivos de sobrevivência e então eu encontro motivos racionais para fazer isso. Mas claro, quem está amadurecido sabe que não são motivos racionais, que por mais que se explique e sejam racionais enquanto explicação, não servem para realmente utilizar seu sistema reptiliano, de bicho, para ir lá dar porrada no outro.

Ou seja, estamos numa grande encruzilhada enquanto seres humanos, porque não somos iguais, ‘eu sou preta, e os outros amarelos, brancos, vermelhos’, então somos todos diferentes e sabemos disso instintivamente, assim como eu sinto de maneira diferente as minhas crenças etc., então como nós seremos iguais, se por milhões de anos nós aprendemos que nós somos diferentes? Porque nós somos diferentes! Porque um vírus é diferente de uma bactéria, porque um cachorro é diferente de um gato, e aliás, cada célula é diferente da outra, um dedo não é igual ao outro, assim como as digitais, os DNA, cada fio de cabelo vai ser um diferente do outro, mas sem entrar em questões das particularidades e individualidade do ser, ainda antes, mesmo em grupo: é diferente ser preto e passar pela experiência de ser preto da experiência de ser branco.

Passar pela experiência de ser branco inclui passar pela experiência de ser racista, porque está entranhado, e se tornou estrutural. Se tornou um pensamento preponderante, achar inconscientemente que aquele grupo, o grupo preto, é inferior. Então cada vez que eu identifico uma pessoa que faça parte do grupo de pretos eu automaticamente a classifico como inferior. Até que algo aconteça para que eu mude de ideia, claro, e tome consciência de algo maior. Mas o primeiro passo instintivo nosso é nos diferenciarmos uns dos outros e a maneira como nos diferenciamos uns dos outros ainda é grupal, para a maioria de nós. Então os brancos serão racistas, passarão pela experiência, ainda que inconsciente, de serem racistas.

E onde isso nos leva? Nos leva ao fato de que quando eu coloco num facebook de maneira apaixonada que eu sou antirracista e sou uma pessoa branca, isso é problemático… por quê? Porque o que eu vejo muito são falas de pessoas que são a favor de tacar fogo, destruir tudo, quebrar e dar de louco, sendo que a própria pessoa está muito bem obrigada na casa dela, sem tacar fogo em nada nem ninguém, aliás se oferecerem um trabalho para ela, dificilmente ela irá parar pra pensar: “será que estão querendo me contratar porque sou branca e deixaram de contratar um preto? Não, eu não vou querer esse emprego, contrate o preto no meu lugar”. Dar o seu lugar de privilégio para quem não gozou desse privilégio ninguém quer, não é? Mas incitar a violência, querer que o preto pobre vá lá tacar fogo nos racistas, isso quer. Sendo que se formos levar a sério tacar fogo em racista, a gente queima todos os brancos do país e do mundo inteiro, porque instintivamente todos os brancos são racistas, e isso não é motivo para “ai, coitado de mim, sou branco, sou racista, vou me flagelar porque sou racista”. A gente só é o que é, está tudo bem.

Não está tudo bem ser racista. Mas aí é que está, como a gente faz para separar? A gente começa a separar quando aquilo que é um impulso inconsciente ganha artimanhas passionais e intelectuais para se viabilizar enquanto ação de violência. Então eu, pessoa branca, penso: “estruturalmente e inconscientemente sei que sou diferente do preto…” aí eu começo a criar teorias, como o nazismo, de supremacia branca, porque “eu tenho que me impor”, então como vou me impor? Com violência. Eu preciso fazer algo para tomar o poder e mandar em tudo.

É usar de algo que é inconsciente e histórico como pressuposto para construção de algo sutil e imediato, então vejam:

quando eu uso da materialidade histórica, sim, materialismo histórico, teoria de Marx, quando eu uso da matéria histórica para basear meu pensamento, eu estou usando meu inconsciente e cérebro reptiliano e passional para me conduzir a raciocínio presente e sutil, ou seja, a-histórico porque ainda não entrou na história, à medida que ele acontece a cada instante, e sutil porque ele ainda não se tornou uma materialidade, então ele está acima da matéria.

O fato de eu usar o cérebro reptiliano instintivo por milhões de anos para nos distinguirmos enquanto grupos fez com que eu depois passionalmente encontrasse desculpas passionais para continuar fazendo a mesma coisa que eu já fazia instintivamente. E depois eu pego um cérebro racional e intelectual para corroborar um cérebro emocional e corroborar um cérebro reptiliano, ou seja, quando eu uso da materialidade histórica, eu uso da matéria que a história me dá. E o que a história me dá? Um cérebro emocional e um reptiliano… quando eu uso desses dois cérebros como base para formar meu neocórtex, meu cérebro racional, intelectual pensante, eu estou usando o materialismo histórico para pautar o meu fazer, as minhas escolhas, e isso vai corroborar com todo o assassínio que se carrega.

É importante conhecer Marx, mas quando achamos que o materialismo histórico vai fazer sair disso, não vai, Marx constatou isso, ele não liberta disso.

Então, para eu parar de ser alguém que inconscientemente reproduz, e, isto é para pretos e brancos (não estou falando só para brancos aqui, não me entendam errado), preciso deixar de usar da materialidade histórica para pautar as minhas escolhas conscientes no presente, ou seja, ativar meu neocórtex sem ser refém do meu sistema límbico e reptiliano.

Se eu uso a matéria histórica para constatar que “eu sou transfóbica, preconceituosa, filha duma Madalena cheia de sete pecados, sou, ok”, vou então usar meu neocórtex para corroborar e continuar sendo? Não, vou tomar decisões outras! Isso faz com que eu deixe de ser uma pessoa violência lá no fundo? Não, porque eu não estou tirando fora o cérebro reptiliano que diz: “mata o outro, é diferente, mata, mata”. MAS sim que só eu, por esforço próprio, aprendo a calar a boca desse cérebro reptiliano, a calar a boca do cérebro límbico, das minhas emoções, do meu sangue que ferve querendo meter fogo em racista, para ouvir a tal da voz da razão que vai me dizer “você pode ser diferente do que você foi durante milhões de anos, porque faz milhões de anos que você está sendo igual. Cada hora é uma desculpa: uma hora é a pele, uma hora é a classe, uma hora é gordura, uma hora é altura, uma hora é território, cada hora uma coisa, um dia vai ser uma pinta na testa, sei lá”. Eu começo a ver que o que se reproduz historicamente feito uma roda que gira em torno de si mesma é o fato de que eu encontro o tempo inteiro, naquilo que é diferente, a desculpa para ser violenta, para agir com violência e passionalidade.

Isso não significa que não deva ter consequências para quem é racista, deve ter! E severas, assim como para qualquer um que tenta ser violento, e principalmente para aqueles que agem com violência racionalmente, que são os que vão pondo pé na psicopatia, esses batem porque “é preto e tem que morrer mesmo”, esse tipo isolemos, põe numa gaiola e isola da sociedade porque não tem jeito – se tem eu não conheço. Acho que tem caso que não tem solução mesmo, mas o caso é, queridos seres humanos:

Faz milhões de anos que estamos reproduzindo violência e encontrando formas instintivas e passionais para agirmos com violência, isso mostra que há pelo menos três tipos de seres humanos vivendo: os que ainda agem, preponderantemente, por instinto, inconscientemente, estando em profundo sono; os que agem, preponderantemente, passionalmente, encontrando desculpas para sua inconsciência continuar agindo, já não é tão inconsciente assim, mas nem tão consciente, é meio um estado de letargia, a massa que vai e não sente, meio letárgico, meio dopado, pessoas que deixam o passional falar mesmo, às vezes tendo vislumbres de “olha, melhor calar a bocaaaaaah mas eu falo mesmo!!! E blablabla”, e acaba que não consegue se segurar, mas ouviu uma voz que dizia algo lá no começo ‘pare, refreie’ – a gente sabe bem como é isso! E o terceiro tipo de pessoa, que são os acordados, que estão acordando, raríssimos, mas há. É claro, tem uns que estão acordados, mas escolhendo fazer maldades ainda assim, e esses… nem ouso dizer que tipo de punição deva ter, ou se é punição mesmo, não acredito em correção, acho que é caso de isolamento mesmo, mas… tem os vários bons, as pessoas verdadeiramente boas, que vão se dando conta de que não vale a pena agir passionalmente: “até sinto vontade, uma vontade inexplicável de matar alguém, de pôr pra fora essa dor de alguma forma, violentar alguém de alguma forma porque me sinto violentada de alguma maneira”, então tenho vontade de reproduzir, e vem a vontade e o sangue pode ferver, inclusive, pois são graus, e no começo o sangue ferve mesmo e grita para que a gente bata… igual meme com um bichinho pegando fogo para dizer aquilo que está corroendo por dentro, e ele se segurando com uma fala dizendo “não vou brigar, não vou.”. Esse bichinho pegando fogo é um excelente exercício, porque não é reprimir involuntariamente.

Se for uma repressão da passionalidade inconsciente, se eu não presto atenção que estou fazendo isso, claro que vira problema, vem Freud e explica como isso pode se tornar um problema inclusive maior se eu simplesmente soltasse meu grito ou escrevesse o que penso, mas se eu faço isso de maneira consciente: “eu realmente Quero parar de agir impulsivamente e passionalmente, quero parar de responder a tudo e todos, quero parar…” no começo vai queimar, claro, vai queimar, porque a paixão queima, paixão é fogo né… “o amor é um fogo que arde sem se ver”, vai ver a paixão seja o fogo que arde e se vê, a gente vê arder, a gente vê quando o outro está doido para dar um soco, para responder e está ali vermelho, o sangue mostra isso, o sangue revela nosso lado passional.

Até que uma hora a gente chega a ser o terceiro tipo de pessoa que é aquele que nem queima, já não passa pela tentação de escrever, falar, bater e agir com violência, a gente começa a romper com essa cadeia de milhões e milhões de anos reproduzindo a mesma coisinha várias e várias vezes, seja por acreditar em várias vidas, seja por acreditar que geneticamente isso vai sendo passado até chegar em mim, de uma forma ou de outra, vivemos isso, nós vivemos o materialismo histórico, em termos intrínsecos, realmente, mas é preciso superá-lo para seguir em frente verdadeiramente.

Não é através do materialismo histórico que nos libertaremos das lutas e de toda a violência. Ele serve para que consigamos ver e passar para depois dele, porque a tomada de consciência é posterior a ele. Mas é através dele que conseguimos ver essa história material anterior e espiritual, para quem acredita… aqui falo tentando deixar de lado a espiritualidade, mesmo ela sendo intrínseca a tudo e saber que ao falar e materialidade estou falando e espiritualidade… esse é o paradoxo: quando se fala de demônios também se fala de Deus. O mal é escravo do Bem. Mas tudo bem, voltemos….

É preciso ultrapassar toda a violência, tudo isso de ruim, essa reprodução que a gente vem historicamente fazendo e se matando… para se ter uma ideia, o Leonardo da Vinci, na Renascença, escreveu uma espécie de regras de etiqueta para os convidados do jantar da nobreza, uma das regras era não ser permitido pessoas se matarem à mesa, mas caso acontecesse, era para ser de tal forma que o sangue não respingasse na comida, na mesa, sendo logo o corpo retirado e trocado pelo próximo da lista de espera. E isso não tem muito tempo. É impressionante, se pensamos 500 anos… descobrimento do Brasil, Shakespeare, enfim… é impressionante como se matava por nada, e não temos ideia, achamos que é só uma peça de teatro, se envenenava, mas era só uma peça. Mas até ontem se queimava pessoas em fogueira. Até hoje se eletrocuta pessoas, ainda existem sentenças de morte, ainda existem pessoas que são sentenciadas à morte por apedrejamento.

Acha que é muita coisa tacar fogo em prédio? Imagina o que é morrer apedrejado! Procure um vídeo, eu já vi num programa sobre algum local do Oriente Médio, onde existem países em que as pessoas podem apedrejar. As pessoas enterram até à cabeça o sentenciado, deixa só a cabeça e pescoço de fora, enterrando braço e tudo, e junta gente para tacar pedra. Imagina! Faça esse exercício de empatia de imaginar teu corpo imobilizado dentro da terra e pessoas tacando pedra na tua cabeça até você morrer, porque “deu na telha”.

A verdade é que a gente arranja desculpa para matar até hoje, não só pretos, lésbicas, mulheres, gays, trans, travestis, gordos… a gente mata porque a gente aprendeu isso por milhões de anos, porque a matéria histórica que nos forma, inclusive cerebralmente falando, ela é assassina. É claro que é horripilante nos darmos conta disso, é amedrontador, causa pânico…

Mas pânico vem de Pan e Pan também gera Panaceia. E Panaceia é a possibilidade de cura, de bem-estar a todos, e isso significa que ao nos darmos conta de que somos seres materialmente históricos feitos para matar, nós podemos fazer algo para pararmos de matar, para pararmos de tratar mal, para pararmos de julgar, para pararmos de criar diferença.

A Simone de Beauvoir tem uma frase muito conhecida que diz “não se nasce mulher, torna-se.”. Eu não li ela, tentei, mas não foi pra frente, não sou muito fã. Contudo tomo a liberdade de usar essa frase para dizer algo que é: nós nascemos desiguais. Ou seja, “nós não nascemos iguais, nós nos tornamos iguais”, e nos tornamos a partir da hora em que eu uso do meu pensamento para refrear as minhas paixões e coordenar o meu instinto, e nisso frear com uma cadeira histórica que vem gritando que eu tenho que matar o outro porque o outro é diferente. O que acontece é que o outro não vai passar a ser igual porque eu meto fogo, dou porrada… não adianta eu tacar fogo nos brancos isso não vai fazer brancos serem iguais a pretos, somos diferentes! Assim como a experiência de ser mulher é diferente da experiência de ser homem, ponto. E para isso seja trans seja cis, é diferente. Cada experiência é diferente.

Mas o fato de sermos capazes de raciocinar faz com que nós possamos nos tornar iguais em algo superior à matéria. O materialismo histórico me mostra que um preto é diferente de um branco, mas se eu ultrapassar a história e encontrar algo para além da matéria, então nós podemos nos tornar iguais.

Esse é o difícil!

O materialismo histórico serve para isso: nos fazer olhar e constatar o que nos trouxe até aqui materialmente, mas não serve para nos mostrar para onde vamos. Quando usamos dele para nos mostrar para onde vamos, quando a gente acredita que temos que lutar etc., ou seja, seguir nossas paixões, continuamos reféns do cérebro límbico. Procurem essas coisas, estudem, vejam o que significa vivenciar cada um desses cérebros, como isso se liga a teorias, como essas teorias servem de apoio para compreensão de certas coisas, mas para outras é atraso…

Pois, quando eu sou a favor de tacar fogo em tudo, mas não estou tacando fogo em tudo, é o que eu questiono: se você é a favor de tacar fogo então VAI, taca fogo em tudo, faça, a sério! Vai e mete o louco, faça o caos. Se precisa tacar fogo pra ver que não adianta, vai e taca fogo que vai ver que não adianta, porque se guerra adiantasse de algo, se guerra gerasse igualdade, o mundo não estava como está. Não é guerra que gerou igualdade.

O ser humano bate em outro ser humano desde que o ser humano é ser humano no sentido mais animalesco, inclusive, do termo. Os animais se batem o tempo todo, no sentido de caça etc., aliás, o tempo todo não, eles são muito mais desenvolvidos em termos instintivos, eles não ficam brigando aleatoriamente mais, a gente vê muitos vídeos bonitinhos de cachorros que se dão com gatos e espécies diferentes interagindo muito bem, coisas inesperadas né. Até os animais estão num processo que é possível ver que é superior ao nosso em termos de cérebro reptiliano e límbico, são mais avançados, então é possível notar isso, como nós e o fato de brigarmos o tempo todo, tudo usarmos de violência, é um atraso, e acreditar que é por violência que vai mudar, desculpe, mas é um equívoco e imaturidade de nossa parte…

Agora, claro, tem pessoas que estão num sono tão profundo, que são tão profundamente reptilianas ainda que só na agressão que vão acordar e ver que tem algo acontecendo, mas parem e pensem: cérebro reptiliano é um cérebro animal, e alguém que não pensa e não sente a gente normalmente dá nome de sociopata e psicopata, essas pessoas não vão passar a sentir, não importa quanto se bata e tamanho do fogo que se gere. Então é preciso tomar cuidado para onde essas brigas todas levam.

Se a revolução realmente acontecesse, se o povo mais miserável (não eu e você que podemos ver isso na internet), as pessoas que não vivem com 1 real por dia para comer, ou seja, nem 30 reais por mês, se essa galera resolve tacar fogo na gente… porque todos que eu conheço que querem tacar fogo e matar não percebem que nós somos o topo da pirâmide deles, nós estamos acima e se a galera da base realmente resolve tacar fogo em tudo… para pra pensar no que vem depois – todos os miseráveis tacam fogo em todos que estão acima deles, eu pergunto: eles sabem ler, sabem fazer cálculos matemáticos? Sabem fazer alguma coisa? Eles sabem fazer algo efetivamente em termos científicos?

Isso não é menosprezar “eles não sabem fazer nada”, com ironia. Eles só não sabem, não sabem porque não têm acesso! Não adianta dar diploma e enfiar debaixo do braço (igual gente que anda com bíblia debaixo do sovaco), e que só por entrar na faculdade e ir passando de ano acha que sabe! Não sabe! Isso é uma grande mentira! Abrir universidade e colocar todo mundo dentro e dar diploma não faz de nós pessoas pensantes, que saibam construir um futuro. Mentiram para nós, e eu sinto muito!

Mas a galera que realmente não tem recurso, se eles matam quem sabe usar dos recursos, o que acontece é que logo eles vão morrer, porque esse país volta a ser uma selva. Literalmente. Isso não é menosprezar, não é preconceito. Se você larga uma criança no meio da mata, ela não vai transformar a mata, a mata vai transformar ela. E o mesmo acontece com quem não tem recurso. E pior!: se em meio aos cegos um caolho ficar vivo, ele vira rei! E todas essas pessoas não vão depender de várias que estão acima delas, vão depender de um só, e isso se chama ditadura, autoritarismo do mais grotesco nível possível.

Ou seja, a gente precisa ter muito cuidado quando acredita que meter fogo, matar todo mundo, guilhotinar geral vai adiantar alguma coisa. Tem que se tomar muito cuidado. Especialmente com quem você vai deixar vivo, porque se quem ficar vivo for mais espero do que você, vai tirar vantagem. E se você não tiver recurso intelectual para discernir que estão pisando em você, estão tirando vantagem de você, aí a coisa realmente fica problemática.

Isso não quer dizer que isso não aconteça em larga escala, em muitos sentidos isso ainda acontece porque a gente reproduz o que vem fazendo por milhões de anos. Governos fazem guerras, então claro que continuamos fazendo e propagando muita coisa ruim até hoje, e é claro que os que estão acima estão pisando nos de baixo. E com tudo isso não estou querendo fazer uma apologia ao opressor, a única coisa que acontece é:

É ilusão achar que matando todo mundo que está em cima a gente vai saber o que fazer depois.

Não tem fórmula fácil.

O único jeito é aprendendo. Se educando. Se conhecendo.

Uma criança não aprende que todos são iguais se você bater nela. Digamos que você tenha um filho e esse filho trata o outro amiguinho, pelo motivo que for, racial ou não, enfim, só por ser um outro diferente dele, trata mal, a gente pode bater no próprio filho: “não, você não pode fazer isso porque tem que tratar bem pois o outro é um igual!”. Vai aprender? Ou vai sentir mais raiva ainda porque ele apanhou por conta daquele que é diferente?

A criança não tem a lógica do ser humano adulto, maduro, ela não vai pensar: “ah, ok, me bateram porque realmente eu fiz algo errado, compreendi, obrigada, papai, por ter me batido”. Ela vai se re-sentir (re-agir passionalmente), vai virar mais um trauma e ela ainda vai ficar com mais raiva do outro, porque ela apanhou por causa do outro. Ou seja, além dela querer bater no outro naturalmente, instintivamente, ainda por cima ela apanhou, então ela vai querer bater mais ainda. Ou seja, isso se torna um mecanismo consciente passional para bater realmente, para revidar, se vingar, reagir.

A gente cresce, mas não muda. É como se fossemos crianças ainda. Tem criança que você tem que dar um grito mesmo para ela parar de puxar o cabelo do amiguinho, então grite quando for necessário, meta fogo quando for necessário… mas não incite os outros a fazerem isso. Não incite pessoas pretas ou pessoas pobres a irem tacar fogo enquanto você vai continuar fechadinho em casa com medo até de covid. Tem medo de um vírus que nem se vê e acha que vai tacar fogo em alguém?! Vamos cair na real, né! Menos, sabe… vamos ser mais ‘ser humano’.

Hoje em dia a gente está cada um com uma luta de estimação porque assim eu posso ensinar pro outro o que é ter valores. Você já se perguntou hoje se você já aprendeu um valor novo hoje? Não é se você tem, porque talvez todos tenham um valor ao menos, sendo otimista, então não é se perguntar se eu tenho ou não tenho valor, mas se perguntar todo dia sinceramente na frente do espelho: eu aprendi um novo valor hoje? Eu aprendi a ser alguém realmente melhor hoje? Eu taquei fogo em algum preconceito meu hoje? Eu quis usar meu cérebro reptiliano, eu quis meter fogo em alguém e aprendi a usar meu neocórtex hoje? O quanto estamos realmente interessados em nos lapidarmos antes de lapidar o outro? A gente não sabe usar nem o neocórtex e quer ensinar o outro a usar o límbico, é isso?

Porque a galera que se mata é galera reptiliana, os preconceituosos que não sentem empatia, porque os que não sentem algo não tem um sistema límbico muito bom, são pessoas que não tem um cérebro límbico muito ok, estão ainda no reptiliano, sendo animaizinhos, reproduzindo muitos preconceitos e besteiras animalescas, e a gente, só porque deu um passo, passa a querer ensinar o outro que tem que vir um degrau acima, então mete fogo no reptiliano…

É claro que é como eu falei, pessoas que são maldosas é diferente, maldade é outra história, mas a partir da hora em que a pessoa é presa, que tem consequências racionais, tudo bem. Então é isso, vá ser juiz, vá ser alguém que possa ir atrás dessas pessoas usando o neocórtex sabe, porque pessoas maldosas sabem usar o neocórtex, aliás, elas não usam o sistema límbico como nós, por isso são muito safas, elas sabem arquitetar coisas inimagináveis.

Mas pessoas que são preconceituosas simplesmente porque estão reproduzindo algo em uma grande dormência, se elas não estiverem pisando no pescoço de alguém, larguem elas falando sozinhas, porque na solidão não tem como ser preconceituoso com ninguém. Larga sozinho!

Tomo a liberdade para citar um exemplo, quem sou eu para ser exemplo de algo, mas já tive colegas que vieram querendo que eu ensinasse a ser menos machista e ‘sai pra lá’, não vou ensinar, não vou, não sou essa pessoa. Mas a gente gosta de ter uma luta de estimação para dizer: “eu ensinei um cara a ser menos machista, desconstruí um macho hoje.”.

Que mérito há nisso? Se a pessoa se tornou alguém melhor, o mérito é dela ter se tornado alguém melhor, e não de quem ensina ou deixa de ensinar. É claro que há um trabalho mútuo, uma troca, isso significa então que ambos devem ter se tornado pessoas melhores após o aprendizado: não só o outro ter se desconstruído enquanto racista, machista etc., mas eu também me desconstruído da minha visão de julgamento em relação aos brancos aos homens, como “homem é assim mesmo, não muda” e eu passo a ver que, olha, homem muda! E que brancos podem ser estruturalmente racistas, isso não quer dizer que precisem expressar esse racismo e que não tenham e façam a opção de refrear isso e falar “não, não vou corroborar com o que é me dado historicamente, não vou corroborar com essa matéria, eu vou procurar algo acima da matéria para me tornar igual a você”. Isso é dificílimo! Dificílimo!

Porque se começamos a falar sobre o que está além da matéria, começamos a entrar em outros papos: espiritualidade, energia, vibração, calor, emanações outras que não só a pele.

Então, saibamos o porquê das coisas e realmente existem falas que são falaciosas, são enganosas, não é através da violência que vai mudar algo, não vai. No máximo através da violência a gente vai tornar alguém que é instintivamente preconceituoso em uma pessoa apaixonadamente preconceituosa, porque ela vai passar do reptiliano pro límbico, ou seja, mudou algo? Não mudou, profundamente não é tão grande a mudança assim. Mas se temos a capacidade de, ao invés de tacar fogo, pensarmos… aí nós nos tornamos iguais, mesmo em meio a tanta diferença.

O fato é que enquanto um polo ensina a fazer coquetel molotov e o outro polo quer armas, revolver, espingarda, ambas as coisas são armas, as minhas mãos ficam atadas… é preciso estar desarmado para segurar uma caneta, um caderno, um lápis, pra segurar algo além, inclusive, de celular, copo, bebidas, cigarro, coisas que são só prazerosas, estimulam sempre só o límbico. Sempre que a gente está só no límbico é complicado, porque estamos só no passional, e tudo bem “há tempo para tudo, há tempo de tudo”, viva as experiências que você tiver que viver, só não queira ditar para os outros as experiência que o outros devem ter, porque pode ser que o outro tenha a capacidade de usar um cérebro que no fim das contas o atrasado seja você.

E isso não é uma competição, mas assim digo para que consigamos ver que há algo muito além de onde até onde a gente chegou. É muito bom ter chego onde chegamos. É muito bom que quando precisou de fogo tenhamos agido com fogo, foi o que tinha que ser, mas podemos também fazer diferente. Podemos pensar daqui pra frente. Não num raciocínio e racionalismo iluminista bobo, em que se continua acreditando em revolução e decepar cabeça. No fundo aquilo não era racionalismo né, não na beleza do que significa ser racional, porque ser racional de fato não vai usar da paixão para cometer atos de carnificina, e sim para Criar, para agir com criatividade afetiva.

Que pensemos melhor sobre tudo isso, porque um futuro muito, muito melhor certamente nos aguarda!

 

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