Eu novamente te convido a caminharmos mentalmente e conversarmos, desta vez sobre qual é a Poesia da Inteligência, a Poesia do Conhecimento e a Poesia da Sabedoria, porque, como veremos, as três andam intimamente ligadas, então não me atreverei a separá-las, mas ousarei observar e meditar uma a uma ao trançá-las.

Se nós analisamos a etimologia da palavra sabedoria, ela vem do latim sapere, que significa ‘saber’ e também ‘sentir o gosto’. Então nós podemos ver que a sabedoria é sentir o gosto de algo, provar um determinado fruto, ser capaz de senti-lo, degustar o saber que ali se encontra. Logo, sabedoria se relaciona com o paladar, com a língua, com a boca.

inteligência vem do latim intelligentia, que significa ‘discernir, compreender, entender’, formada por inter-, que significa ‘entre’, e legere, que significa ‘escolher, separar o que interessa, ler’, ou seja, se ela é o que separamos como que nos interessa isso significa que ela é um passo junto à sabedoria, porque eu só gosto, eu só sinto o gosto, eu só sou capaz de sentir aquilo que eu escolho e separo, seja um separar pelo tato, seja um separar com os olhos, podendo eu separar aquilo que eu nunca comi e que convém ou não comer, assim como separar aquilo que eu já comi e sei que convém ou não voltar a comer.

Podemos, com isso, observar o quanto a inteligência e a sabedoria estão unidas, não significando a mesma coisa, mas andando juntas de mãos dadas, como a Sefirá Binah e a Sefirá Hokhmah, respectivamente (eu não irei tratar aqui diretamente de Kabbalah, mas fica como incentivo para que a estudemos), sendo necessário passar pela inteligência para ir até a sabedoria, ou pela sabedoria para se chegar à inteligência, e nisso vermos também que a inteligência não vem daquilo que hoje acreditamos rasamente ser um estudo enciclopédico das coisas, mas sim da capacidade de escolher quais frutos provar, de quais frutos comer ou não. A pessoa inteligente não é aquela que possui mais frutos, que sabe mais detalhes técnicos necessariamente, mas sim aquele que soube escolher o próprio saber, tendo o discernimento das próprias oportunidades e escolhas. Então uma pessoa que come apenas de um fruto pode ser mais inteligente do que uma pessoa que prova de tudo.

Não há aqui a intenção de propor fórmulas, cada um saberá dentro de si mesmo se deve comer muitos frutos ou um único fruto, mas são apenas analogias que nós vamos construindo junto da lógica para que possamos observar como isso se dá em suas várias possibilidades (e digo analogia junto da lógica porque analogia sozinha é reprodução insana e a lógica solitária é esterilidade racional, então ambas devem andar sempre juntas para criar frutos saudáveis, quem anda só com a lógica ou só com a analogia tende a errar).

Muitas vezes o nosso pensamento é cristalizado em apenas uma faceta de possibilidade, o que faz com que a possibilidade de experiência se torne rasa, fazendo com que a sabedoria seja deformada, como acreditar que no Brasil há somente pessoas desvirtuadas, ou que todas as mulheres são frágeis e histéricas, ou que pretos e pobres são sempre sem educação, só porque eu experimentei desses frutos uma vez, encontrei pessoas assim uma vez, ou ainda que várias vezes, eu deixo de captar o todo que esses frutos oferecem se eu passo a acreditar apenas na parcela que me foi apresentada ou mesmo parcela que meus olhos cegos conseguem ver enquanto vultos – criando então uma separação que causa malefícios diretos e indiretos através, por exemplo, do ódio, nojo, asco, repúdio, sarcasmo a um povo, a uma nação, ao sul e norte do mundo, a uma etnia, a uma classe, a um gênero etc..

Assim também acontece com uma sabedoria que seja pautada numa inteligência que engole de tudo: quem relativiza e aceita tudo como verdade, seja para pôr em prática ou apenas como teoria, não está sabendo escolher, então não é inteligência de fato. Assim, nós começamos a ver que não é questão só de quantidade, uma pessoa pode comer de tudo, pode comer muito, pode comer vários frutos ou apenas um único tipo de fruto a vida inteira desde que ela esteja escolhendo aqueles frutos. A chave está na escolha, se ela se responsabiliza por comer aquilo – se não é uma escolha comer de todos os frutos, ou se não é uma escolha inclusive a abstinência de certos frutos, ou até de todos, se é uma decisão cega, vaidosa, ou mesmo induzida, mandada, coagida etc., então não é inteligência de fato, pois a escolha rasa, fútil ou às escuras revela a ignorância, e, quando muito, a maldade.

Conhecimento vem do latim cognoscere, que significa ‘conhecer; saber’ formado por com- que significa ‘junto’, + gnoscere, que é ‘obter conhecimento, chegar a saber’, então por que é importante ter o conhecimento junto da inteligência e da sabedoria?

Porque, na verdade, para a inteligência passar a ser sabedoria é preciso que ela seja um conhecimento em algum momento desse processo. Assim como para a sabedoria passar a ser inteligência. E sendo o conhecimento algo que ‘se sabe (gnoscere) junto (com-)’ [cognoscere] ou que se ‘obtém junto’, isso revela que é preciso do Outro, de um outro ser para que eu chegue de fato a saber algo, para que eu chegue de fato a degustar algo ou obter algum alimento de fato.

Conhecimento é o mesmo que intuição, mas nós usamos recorrentemente essa segunda expressão sem sabermos da lógica subjacente ao processo intuitivo, contudo, há uma lógica: espiritual. É tua alma que possui um conhecimento prévio (adquirido em outras experiências junto a outros seres) que o disponibiliza na hora, ou algum ser de dimensões superiores, de matérias ditas mais sutis, que se comunica e, por não sermos capazes de vê-lo e ouvi-lo, pensamos ser algo inexplicável. Contudo, isso não se mistura, isso não se confunde com a pseudo-intuição, que advém de pessoas que sentem coisas que não sabem explicar, como em casos de mediunidade (seja por obsessão, seja por uma simples canalização), em que não se entende claramente qual a mensagem, ou mesmo pseudo-intuições que apenas nos dão ganhos materiais ou evitam perdas materiais, mas não geram, de fato, um ganho espiritual, um aumento de ciência e consciência espiritual. A intuição verdadeira nos ensina a seguirmos um caminho cada vez mais independente, ao passo que a mediunidade nos deixa dependentes de outros seres, que muitas vezes sequer sabemos realmente se são benéficos ou maléficos para nossa vivência. Por fim, todos sabemos que “sentir espíritos” não é intuição, e viver sob sugestões deles é correr o risco de se tornar alguém obsedado. Por isso tudo, o Conhecimento, ou a Intuição, se liga à Sefirá Daath (para quem queira estudar através da Kabbalah, e para se compreender porque uso aqui essas três Poesias, essas três esferas de atuação para trançar o conteúdo do texto).

Então, voltando aos alimentos, o conhecimento revela que na verdade os frutos que eu escolhi como inteligência para comer, enquanto algo que eu separei porque me interessa, não é para mim mesmo que devo ofertar – no sentido de que quem põe a mesa para se sentar e se banquetear sozinho -, mas sim um fazer a mesa para que o outro prove daquilo que eu escolhi, porque é preciso ter um movimento e que seja um movimento junto ao outro, para comer junto do outro aquilo que ambos escolhem em algum momento.

A própria palavra ignorância vem de in-, que significa não, + gnarus, que está relacionado a gnoscere, que é justamente o conhecer, ou seja, alguém que não conhece, que não possui a gnose. Então a ignorância não se opõe à sabedoria ou à inteligência, mas ao conhecimento, que é aquilo que nós conhecemos, ou deixamos de conhecer e, portanto, ignoramos, e que ignoramos justamente quando não é junto, quando não fazemos desse saber algo conjunto, algo que se possui junto.

Poderia se argumentar que é um possuir junto de si mesmo, que conhecimento é um cognoscere que não é necessariamente de compartilhar os frutos com o Outro, mas que essa partícula do com- é porque se carrega consigo, mas nós sabemos que alguém que carrega algo, por exemplo, eu, sendo uma mulher que possui biologicamente um útero, ovários e óvulos e os carrego comigo, isso não faz com que eu seja uma gestante, com que eu seja mãe só porque eu carrego tudo isso comigo, só porque eu carrego essa possibilidade de vivência enquanto potência. Porque potência é o quanto um carro pode atingir em velocidade, por exemplo, mas quando essa velocidade é atingida de fato, ela deixa de ser potência para ser realidade, vivência, experiência, ato. Assim como toda pessoa com um útero, a princípio, é potencialmente uma pessoa gestante, sendo que, caso ela venha a gestar, isso deixará de ser um potencial para se tornar um processo factual.

Então nós tendemos a confundir a posse de algo ou o poder algo com a prática efetiva daquilo enquanto uso por consequência (ou seja, causa e efeito: eu transo e engravido) ou por dever (por exemplo: eu tenho a missão de ser uma gestante, então engravido), porque eu posso possuir um óvulo e ele estar junto de mim enquanto algo que eu sei possuir e fazer uso, mas ele efetivamente só se unirá a mim, estará verdadeiramente junto a mim enquanto conhecimento de sua possibilidade de frutificação, de seu uso, se ele for fecundado por um esperma e ficar no meu útero, e lá ambos se desenvolverem juntos gerando um terceiro elemento: a vida enquanto fato espiritual e material concreto – e aí sim permanecer comigo, junto de mim, por muito tempo, sendo que para isso eu preciso do Outro Ser que tem o esperma, mesmo que eu desconheça esse ser, não importa, eu preciso do outro.

Assim também é com os frutos que nós carregamos enquanto frutos em si mesmos, são como espermas e óvulos não fecundados e sem fecundar: podemos dizer que temos vida conosco? Não, nós temos a potência para gerar uma vida, mas não é uma vida de fato, não está comigo em si de fato. Depois de um tempo, aquele óvulo irá sangrar e sair de mim, aquilo irá, de alguma forma, ser ejaculado para fora de mim.

Então em algum momento eu perderei estes frutos se eu não os compartilhar com o outro necessariamente, é somente através do compartilhar, desse movimento conjunto que de fato se torna possível conhecer algo. Então é quando a inteligência se transforma em conhecimento para que, através desse encontro com o outro, dessa alquimia que acontece, desse duplo que se torna um, eu possa, após essa criação conjunta, essa fecundação conjunta, após esse cozinhar junto esses frutos, compartilhando junto esses alimentos, finalmente formular um prato – seja simplesmente na forma de dispor as frutas na mesa, ou no prato para o outro, numa vasilha, numa taça, ou numa combinação simples como numa salada de frutas, ou ainda em algo complexo e elaborado, frito, cozido, assado, mas olhando para aquilo que eu crio através delas, fazendo com que se torne possível nós finalmente degustarmos delas, porque houve um preparo para se degustar aquele alimento.

É claro que há o caso de pessoas que pegam a fruta do pé e comem imediatamente, comem o que está disponível no campo para elas, sendo que o que a natureza lhes oferece elas aceitam, ou seja, possuem uma sabedoria desprovida de inteligência, neste caso é a sabedoria que irá conduzir para o conhecer, porque a pessoa sabe onde há um pé de determinada fruta e pode convidar o outro para ir lá comer desse fruto, por exemplo, e aí o outro gerará maneiras de se provar dele, receitas para se fazer com ele, lugares aonde se pode levar esse fruto e nisso alcançar a inteligência em algum momento.

Como eu disse, não proponho fórmulas (como: a + b + c = d, ou, c + b + a = d, faça assim ou faça assado), mas há forma (no exemplo citado, a forma seria somar os fatores e gerar uma mesma resposta), mas se tomarmos o caminho que passa pela inteligência e depois pelo conhecimento, aí sim é possível que se torne sabedoria, se nós tivermos tamanha e elevada capacidade de chegar a tal ponto, seja por esforço interno, seja também muito e principalmente por graça, por divina graça celeste.

Assim, nós podemos observar que a sabedoria, se nós chegamos a degustar algo desse banquete, nos fornece duas mãos, dois olhos, dois ouvidos, bem como dois seres, duas bocas a se alimentar, duas formas de pegar, de separar, de sentir, de observar e discernir esse alimento, tanto em termos de entendimento do que eu possuo, tenho, quero, oferto, quanto de confiança quanto ao que me é dado, ofertado, escolhido, provado etc..

Quando se fala em entendimento, ele está ligado à mente, à nossa capacidade de discernir mentalmente, tomando mais ciência das coisas. Já a confiança está relacionada ao coração: quando nós confiamos no processo e permitimos que essa teia que vai sendo fiada seja realmente produzida, mesmo quando a gente não entende muito bem aonde ela leva. Por isso é confiar com o coração, porque nem sempre a gente entende racionalmente os nós e os laços que a vida faz e desfaz todo tempo. A mente e o coração são imprescindíveis para o processo, sendo possível fazer uso de um por vez, ou aos poucos aprender a unificar a ação de ambos, que seria a consciência de fato, tornando uma só vivência o entendimento e a confiança.

Entendimento vem do latim intendere, que significa ‘estender, reforçar’, conotando que para se entender é preciso esticar, estender aquilo que se tem, e isso é muito lindo de se observar, porque justamente, para haver entendimento, é preciso esticar, estender a mão que segura o fruto, o braço ou estender o fruto sobre a mesa (todos os alimentos), para que se possa haver entendimento através dessa inteligência, desse conhecimento e dessa sabedoria ao se passar por todos os atos necessários de escolha, união e degustação, provação (no sentido de provar, que nada mais é do que ‘provar o sabor’ através da experiência, num exame, numa prova de sabores de olhos bem fechados, por assim dizer).

Para entender é preciso expor todo o alimento em cima da mesa e conseguir observar e discernir ‘o que é o quê’: o que é entrada, o que é prato principal e o que é sobremesa, o que é fruta, o que é verdura, o que é legume, enfim, sejam lá quais forem as nuances que tiverem de ser vistas, o que é doce, o que amargo, o que é salgado, o que está maduro, o que ainda está verde etc., e com isso criar a percepção.

Percepção vem do latim percipere que é ‘notar, compreender’, originalmente vem do significado de ‘pegar, agarrar com a mente’, formada pelo prefixo per-, que significa totalmente, + capere, que significa pegar, agarrar, ou seja, a percepção das coisas vem realmente da nossa capacidade de agarrar totalmente esses frutos, apalpá-los, compreender sobre o que se trata esses alimentos e escolher, usando a inteligência junto dessa percepção, aquilo que se quer ou não se quer, mesmo que você leve tudo para o banquete, ou apenas um tipo de fruta, ainda assim, ali vai ser preciso ter percepção para poder agir com inteligência e essa inteligência poder ser junto ao outro, se podendo se tornar um conhecimento ao haver a possibilidade de escolher o que se deve ou não comer – seja escolher dentro da quantidade, da diversidade de frutos, seja dentro da qualidade dos frutos, caso eu tenha apenas um tipo de fruta sobre a mesa. Ou seja, todo ato pressupõe o outro ato como potência – o entendimento pressupõe a percepção como potência, a percepção pressupõe a inteligência como potência, que pressupõe o conhecimento enquanto potência, e assim vai -, mas não quer dizer que vá acontecer: alguém pode perceber algo, mas não ter inteligência para de fato escolher, bem como pode ter inteligência, mas não necessariamente chegar a ter sabedoria, assim como ter sabedoria e não ter inteligência, pois o passar de uma esfera de atuação para a outra depende da graça divina, e não apenas do esforço humano, ou seja, não depende das mudanças na carne, mas no espírito e nas transformações concedidas por D’us.

Mas é importante notar que quando a gente sente o sabor de algo, quando temos algo sendo degustado em nossa boca, isso nos impossibilita de falar, isso nos cala… quando a comida é realmente muito boa muitas vezes nos faz fechar os olhos – a gente fecha bem os olhos e fica imerso nesse mar que se cria de repente através de toda saliva e toda a língua criando ondas e carregando esse alimento para lá e para cá até que nos adentre de fato e quem sabe assimilemos algo, caso seja um alimento apropriado, e apropriado não quero dizer bom ou ruim, mas sim aquele conhecimento que é necessário naquele momento, porque algo ruim pode ser algo que estamos precisando naquele momento, assim como podemos precisar de algo triste. Nós que temos a tendência equívoca de achar que a sabedoria vem apenas de coisas belas, lindas, bonitas e alegres, sendo que a maior parte das vezes a sabedoria vem do abismo, porque é quando a comida cai até o estômago: é preciso muita coragem para saber que após esse abismo há algo, um lugar onde se chega, em que o corpo vai saber sozinho fazer toda a divisão e assimilação daquilo que deve ficar e o que deve ir embora, porque nós não temos (ao menos, ainda) a capacidade de conscientemente escolhermos quais vitaminas ficam no nosso corpo quais vão embora, quanto de suco gástrico se usa e qual líquido interno se evita, o tanto de água a absorver para que se crie o bolo fecal, enfim, quais combinações fazer – nós não sabemos nada disso -, tudo isso é porque nós, de alguma forma, confiamos no processo, confiamos que, a partir da hora que a gente engole e essa comida cai por esse abismo, que é a nossa garganta, ela vai ter seu devido processo.

Então a sabedoria tem a ver com confiança, porque uma vez que se degusta esse fruto – se não se cospe aquilo que se degusta, nem se engasgue, ou seja, caso se engula por vontade própria, não por coação, indução ou similares, mas caso se engula por livre arbítrio -, para chegar ao outro, ao próximo, ele passa por um abismo, é precipitado em um abismo, porque o engolimos na confiança de termos um estômago que o receberá e dará conta – o próximo órgão esperando (o fruto) após a queda pela garganta.

Logo, a sabedoria vem de confiar no outro, porque não é questão de autoconfiança, como se poderia argumentar: “é confiar em mim mesmo, de que eu sei fazer o processo”, só que não, não sou eu que sei fazer o processo de digestão: é o meu corpo. Isso mostra que meu corpo é diferente de mim, do que eu chamo de eu, é no meu corpo que eu confio – que ele vai saber fazer o processo -, porque se dependesse de eu saber quanto de cada produto químico lançar internamente, quanto de cada hormônio, quais movimentos peristálticos intestinais fazer e quando levar o alimento, o sangue, o oxigênio de um lado para o outro, eu estaria perdida, qualquer um morreria provavelmente, não é?

Então nós confiamos que o nosso corpo sabe e que ele fará o que é preciso, ainda que eu não tenha a menor ideia de como isso se dá efetivamente, ainda que um cientista possa me explicar, e ainda que haja corpos que não façam tão bem assim todo esse processo, mas nenhum cientista sabe fazer isso no corpo – como “mandar uma célula morrer e outra se duplicar” – por mais que se possa intelectualmente conceber em potencialidade científica essa ordenação interna, eu não sei fazer na prática (com a ciência) tudo isso ao mesmo tempo, o tempo todo, a vida inteira, a única possibilidade que nos leva a isso é a consciência espiritual dos processos, sabendo que toda parte física tem sua contraparte espiritual, e vice-versa, e assim manter o corpo saudável pelo tempo necessário para cumprir a missão aqui ao ser em união com o espírito – mas isso significa acessar o verdadeiro Eu em um alto grau de pureza, o que ainda é raríssimo de acontecer.

Uma passagem bíblica muito conhecida sobre sabedoria, inteligência e conhecimento, que usarei para exemplificar principalmente que a sabedoria é através da confiança, é a passagem de Salomão: Salomão é considerado o sábio dos sábios, um dos homens, senão o homem mais sábio que já passou neste planeta. Ele era tão valoroso, tão purificado, tão íntegro, que D’us lhe concede qualquer coisa que queira, bastando pedir, e ele, dotado de tremenda retidão, pede sabedoria e conhecimento, pede sabedoria para governar com justiça e saber a diferença entre o bem e o mal, pede um coração entendido que prudentemente discirna entre o bem e o mal, um coração cheio de discernimento capaz de distinguir entre o bem e o mal, um coração cheio de julgamento para discernir entre o bem e o mal (uso aqui as várias traduções bíblicas encontradas de 1 Reis 3, além de muitas outras existentes).

Vejam, ele pede para que soubesse da árvore do bem e do mal e a diferença entre seus frutos, isso é muito próximo, não é igual, mas próximo do que a serpente ofertou: que comêssemos da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas ele pede de maneira reta, justa, não para ser como D’us, como provocou a tentadora serpente e assim nos conquistou: através da ideia de sermos deuses, mas sim para que soubesse como guiar o povo de D’us. Em nenhum momento o povo passou a ser dele por ele ser rei, nem pediu nada para si, mas para o povo e a glória de D’us enquanto seu Senhor.

Uma das passagens mais famosas em relação à sabedoria de Salomão é a de duas prostitutas que são mães e estão brigando por conta de uma criança viva e outra morta, sendo que ambas as mulheres alegam ser a mãe do bebê vivo, e não há quem saiba distinguir quem é a mãe de qual bebê. Então Salomão, sem conseguir distinguir através das alegações quem diz a verdade e quem mente, toma uma sábia decisão para obter esta distinção: pede uma espada e manda cortar a criança ao meio. Nisso, a mãe verdadeira da criança viva imediatamente se manifesta e diz que não é preciso cortar a criança ao meio, pede que deem a criança para a outra mulher, enquanto a outra mãe (da criança morta) passa a afirmar que a criança não deveria ficar com nenhuma das duas, mas que fosse realmente cortada ao meio. Assim Salomão sabe imediatamente quem é a mãe verdadeira: a que havia aberto mão do próprio filho por conta da morte iminente.

Nós podemos nos questionar: por que há sabedoria em dizer que iria cortar uma criança ao meio? Afinal, ele era o rei, e, se até hoje se mata por nada, naquela época se matava por menos ainda, então com certeza se partiria uma criança ao meio e certamente se ele dissesse que era para cortar uma criança ao meio ou em cem pedaços, alguém o faria sem o menor problema, supostamente…

Então, o que há de sábio em mandar cortar uma criança ao meio sabendo que era uma ameaça real, tão real a ponto da mãe abrir mão da criança por saber que irão cortá-la, é um fato, isso vai acontecer, vai ser feito, logo, onde está sabedoria?

A sabedoria reside no fato de que Salomão não sabia se a mãe iria se colocar contra cortar o filho ao meio, ele não sabia que ela faria isso, ele não sabia se ela iria responder ou não para que dessem à outra e não cortassem o filho ao meio, ele não tinha esse tipo de onisciência (que é uma ideia humana romantizada do que seja onisciência, aliás), mas, contudo, entretanto, ele confiou que a mãe verdadeira fosse intervir, ele confiou que ela fosse se manifestar de alguma forma e evitar a morte do filho, podendo assim ser reconhecida como mãe verdadeira.

Então a sabedoria dele não está em mandar matar a criança em si, em cortá-la ao meio, mas sim em dizer isso confiando na mãe, o que o fez sábio foi a sua confiança nessa outra pessoa. Ou para além das aparências, em sua confiança em D’us, pois confiar vem de confidere, com e fides, ou seja, ‘com fé’.

A confiança vem do coração, de quem tem a coragem de confiar que o outro vai saber o que fazer dentro do processo (sendo que coragem vem de coraticum, de cor, que significa coração, + aticum, um sufixo usado para designar uma ação referente ao radical anterior, então temos um coração que age: coragem), confiando que o outro irá interferir no processo de maneira devida como lhe é exigido pela vida.

Porque o papel, a missão, de uma mãe, enquanto arquétipo de mãe, é resguardar pela vida de seu filho. Então Salomão confiou que ela fosse cumprir a sua missão enquanto mãe e velar pelo seu filho, evitando que ele fosse morto, assim ele agiu com o coração, inclusive tendo coragem de ameaçar cometer um ato brutal, um ato que poderiam dizer que é injusto, mas que não seria injusto se a mãe não se manifestasse, porque a justiça nada tem a ver com o bem e o mal que nós qualificamos: a justiça tem a ver com aquilo que é necessário fazer e ponto – o dever a cada instante! E, naquele momento, era necessário resolver, aquela foi a melhor forma, fazendo aquela ameaça.

Então era sim justo ele ameaçar, e a sabedoria de Salomão possibilitou que a mãe verdadeira também foi sábia porque ela correspondeu à sabedoria dele, ela fez o seu papel, cumpriu a sua missão como mãe naquela hora (ainda que ela pudesse ter uma missão de vida para além daquilo, porque uma coisa são os deveres do momento, outra coisa é o dever a se cumprir em uma vida – vida enquanto soma de todos os momentos), revelando também que a sabedoria de um em confiar em D’us se torna também a sabedoria do outro que ali se encontra, havendo a possibilidade de um milagre acontecer. Com isso, a mãe possibilitou que uma justiça ainda mais nobre fosse manifestada, porque mesmo as virtudes, nós sabemos que elas têm graus, e assim como seria justo cortar a criança ao meio caso nenhuma das mães se pronunciasse, mais justo e nobre foi a mãe ter aberto mão do próprio filho para que ele não morresse, porque aí sim seria injustiça Salomão matar na frente daquela mãe, tendo ela já se manifestado, porque injusto é ter a solução dada por milagre de correspondência entre as partes – ele e a mãe verdadeira – e ainda assim levar a cabo o comando anterior apenas por poder, em um tremendo abuso de autoridade. Então Salomão foi novamente justo e sábio ao entregar o filho para a mãe verdadeira.

Hoje em dia muitas vezes temos dificuldade em reconhecer a justiça nos atos, em ver como que aquele que abre mão de algo muitas vezes é aquele que justamente mereceria levar embora aquele algo, ficar com aquele algo.

Por não haver mais pessoas como um sábio rei Salomão nos guiando de maneira concreta, a injustiça abunda e abusa entre os poderosos, porque é claro que temos guias espirituais, que são mais concretos, aliás, do que qualquer guru físico, então claro que temos guias, e neste sentido não estamos nem um pouco desamparados, pelo contrário, estamos melhor amparados do que nunca, mas pela falta de ter a expressão de um Salomão no mundo em carne e osso enquanto decisões realmente políticas, por exemplo, seja em casos pequenos ou grandes, se torna difícil conseguir observar como aqueles que abrem mão de algo muitas vezes são os que mereceriam estar com aquele algo – como pessoas que muitas vezes silenciosamente deixam algo para trás, por conta de uma briga, serem as que o tempo todo carregaram aquilo verdadeiramente no colo.

É claro que não havendo Salomão para devolver as crianças às suas verdadeiras mães, se torna um dever nosso, enquanto mães (e aqui falo arquetipicamente para homens e mulheres sobre aquilo que nós creamos), aprendermos a ver realmente essas creações como emancipadas e independentes, a caminhar pelo mundo como for possível em direção ao outro, já que os outros também querem reivindicar essas creações. Então que saibamos abrir mão realmente e crear filhos independentes, sermos cada vez mais mães menos umbilicais, ou seja, nos tornarmos mais arquetipicamente pais, e que saibamos realmente dizer não e não permitir que matem as creações, por mais que isso implique em os outros levarem embora, já que Salomão não as devolverá para nós, mas somos nós, como pais, que temos a oportunidade de seguir o exemplo mais altivo que nos foi legado: o divino sacrifício de Cristo, o filho primogênito, e passemos a doar nossas creações, nossos filhos, em sacrifício ao outro que ainda não é capaz.

Até porque essas três instâncias, Sabedoria, Inteligência e Conhecimento, também têm relação lógica e análoga, respectivamente, com o Filho, o Espírito Santo e o Homem ascencionado (consciente), sendo necessário um passo espiritual além para se chegar ao Pai, que corresponde à Sefirá Kether. Lembrando que, para o Homem ascencionado, é possível ver como todos os passos de uma esfera para a outra, indo e vindo, subindo e descendo, descendo e subindo, são puros e divinos milagres.

Mas voltando à tragédia nossa do dia-a-dia, algo trágico que nós também vemos muito hoje é que, mesmo duas mães brigando pelo filho, nenhuma abre mão, e acabamos por cortar a criança ao meio – matando a vida, criando separatividade, dualidades irreconciliáveis, oposições horrendas. Quantos casais não fazem isso com seus próprios filhos, não são duas mães literais, mas são a mãe e o pai que arquetipicamente se tornam duas mães prostitutas da pior espécie ao fazerem isso com próprio filho, sufocando-o, igualzinho na Bíblia, e sequer se dão conta do grau de injustiça que estão cometendo por pura vaidade, porque onde não há sabedoria há injustiça.

A justiça só é possível diante da sabedoria, e a sabedoria só anda acompanhada da confiança, então é preciso confiar no outro para haver sabedoria, confiar no processo para saber que está tudo bem eu engolir a comida e ela cair neste abismo, pois o meu corpo vai dar um jeito dela chegar ao estômago e ser digerida.

Então que tenhamos cada vez mais ciência desse processo de percepção – de quem pega totalmente algo; de inteligência – que escolhe os frutos, escolhendo o que irá comer ou não; de entendimento – que estende a mão, o braço ou a mesa com esses frutos; de conhecimento – do fruto junto ao outro, aprendendo as combinações, receitas, cozimentos, preparos para o saber ser ofertado da melhor forma possível para a digestão do outro, facilitando o processo de assimilação, e então transformar tudo, quem sabe, em sabedoria para que, através da confiança, se chegue em algum lugar melhor do que se estava antes de toda essa colheita, um lugar de verdadeira Liberdade e Justiça, ou seja: de Amor!

É claro que o processo não é necessariamente linear como aqui está, mas quão mais reto é possível fazê-lo, inegavelmente melhor se tornará a vivência do mesmo. Assim como é claro que alcançar a sabedoria não significa estagnar, não é uma linha de chegada, mas sim um ponto alto, sublime, de onde se contempla algo muito maior e se retorna para continuar trabalhando eternamente por Amor a todos aqueles que ainda não conseguem fazer o mesmo.

A Poesia da Inteligência, a Poesia do Conhecimento e a Poesia da Sabedoria por fim podem ser resumidas em escolher os Frutos, unir-se ao Outro e degustar, saborear, sentir a Vida, ou seja, Viver a Vida de Forma Plena, que em essência, na verdade, é transformar a Árvore do Conhecimento do bem e do mal em Árvore da Vida … quem consegue isso tem a boca preenchida por aquilo de que o coração está cheio, ou seja, se cala, pois acima disso, só há inefáveis palavras:

O resto é silêncio.

Hamlet, de Shakespeare

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