Eu gostaria de conversar. Gostaria de caminhar mentalmente e conversar sobre ‘qual é a poesia da literalidade?’.

Qual a problemática que envolve a literalidade em nossos dias.

O problema da literalidade é que 99% das pessoas confundem literalidade com aparência. Quando a gente procura a etimologia de literalidade, literal, ela está relacionada à letra, ao significado restrito da letra. Na Poesia da Evolução já observamos, em todas as Poesias eu trabalho etimologicamente, e na da evolução é possível observar, a história nos mostra, como a sua etimologia está intimamente relacionada ao Verbo, àquilo que é literal, que tem relação com a Palavra e, portanto, tem relação com o Verbo, e por isso o estudo etimológico da palavra necessariamente nos encaminha a Cristo. E não digo termo, porque estudar termo é ir no contracaminho, ele é a antítese da palavra, a palavra viva como aqui coloco.

A literalidade se relaciona com o Espírito Santo, o simbólico com Cristo e o arquetípico com o Pai. A aparência é o lucífero e o literal em nosso mundo se confunde com a aparência. A aparência é lucífera e nos tenta, por indução, ao erro, e nós, por astúcia nossa, não de Lúcifer, mas nossa, nós caímos em tentação, nessa tentação que se nos apresenta. E o problema é que passamos a ter questionamentos absurdos, por exemplo, esses dias eu estava vendo, então irei tratar Maria como exemplo, num questionamento absurdo de como Maria pode ser virgem, se ela deu à luz. E aí fica um debate se ela era literalmente virgem ou não, o que é absurdo de se debater. Contudo, tomarei ela como exemplo, ainda que muitos possam me tomar como herege, como falta de respeito da minha parte usar de Maria para isso, mas eu sei que está tudo bem fazer uso disso, das imagens absurdas que colocarei, porque no estado em que está nossa mente é preciso chegar na absurdez para conseguir minimamente palpabilizar certas astúcias nossas, então através do absurdo mostrarei o absurdo das ideias, que é pior do que as imagens em si. É como dizem, dois negativos formam um positivo – eis a tentativa aqui, usar algo que em aparência é negativo para revelar outro negativo interno a nós buscando, quem sabe, chegar num resultado positivo.

Então quando se tem esse questionamento se Maria era literalmente virgem, óbvio que era literalmente virgem, não deveria haver dúvidas, mas como a mente se uniu à astúcia nossa e a usamos para nos ludibriarmos acerca das respostas claras quanto a certas questões, eis o seguinte: questionar a virgindade de Maria, mãe de Deus, e a não compreensão do que seja literalidade leva à seguinte interpretação errônea dos fatos: eu pergunto – uma mulher que tem seu hímen intato, que é virgem em aparência, mas que já tenha feito sexo anal com um parceiro ou o mundo inteiro, ela é virgem de fato? Só porque seu hímen não está corrompido e ninguém tocou nem penetrou sua vagina, essa mulher é virgem por acaso? Creio eu que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe em seu coração que não, uma mulher, ainda com hímen intato, se ela foi pra cama e teve outras práticas, exceto penetração vaginal, isso faz com que seja prostituta, porque ela se entregou aos prazeres da matéria, então há mácula e, portanto, não é virgem, literalmente desvirginada. Ou seja, não importa se Maria teve seu hímen rompido por um varão ou não, por José ou não. Ela é a virgem sem mácula, imaculada, independente do que a aparência nos mostre.

É possível engravidar sem haver penetração, ainda que havendo uma ejaculação, para não levarmos para o sentido mágico do processo – que pode ter acontecido também, não estou aqui para dizer como Jesus foi concebido, não é esse o caso, o que importa é: independente de como ele foi gerado no corpo de Maria, sua virgindade não deveria ser contestada e duvidada, porque seja por processo mágico – dos anjos a inseminarem, seja por processo humano – de fazer amor com José uma vez na vida, a mando de Deus, a sua virgindade, em qualquer caso, permaneceu intata, assim como a mulher com hímen não rompido teve sua virgindade completamente estraçalhada, rompida e corrompida. Ou seja, a virgindade de Maria não se atrela à aparência de um hímen rompido ou não rompido, isso é a astúcia quem fala. Ah, mas é o científico, pois é, o problema da ciência é que ela é lucífera, e vai partir para a astúcia, sendo que em nosso coração sabemos que alguém que se deita e pratica sexo anal com um ou mil não é virgem. E não adianta ter discursos pseudo-aquarianos de existir vários tipos de virgindade: vagina virgem, boca virgem, ânus virgem… não importa, isso é falso, é malícia nossa querer acreditar nisso – de que perdemos várias virgindades, e tudo bem transar, contudo que não rompa meu hímen que vou pro céu virgem, não, não vai, porque está entregue aos prazeres carnais. Porque a literalidade da virgindade se atrela ao não ser maculada pelos prazeres carnais, o que quer dizer que Maria é Virgem imaculada porque ela não foi pra cama, ela não transou, ela concebeu sem prazer carnal, sem estar maculada pela paixão.

Então é uma outra oitava do que se diz ser virgindade, e por isso a literalidade é diferente da aparência de algo, porque na aparência uma mulher que já fez sexo anal pode ser virgem, pode-se comprovar isso com teste, e uma mulher que aparentemente não é virgem porque teve seu hímen rompido pode ser com certeza virgem, a mais virgem de todas perante os olhos de Deus. Ah, mas então ela fez sexo. Sexo não, porque sexo é diferente de estar com um homem pelo dever, ela não fez por prazer, ela não esteve por prazer com José – seja em casamento ou seja na cama, isso não importa, se foi por processo exclusivamente angélico ou humano – a palavra sexo está atrelada ao prazer da carne, à divisão que há carne enquanto dualidade, assim como com certeza não foi uma transa, mesmo no sentido original da palavra de transação, de um comum acordo entre humanos, porque não foi um acordo entre Maria e José, mas entre Maria e Deus, assim como também entre José e Deus, é diferente, há um mundo, um abismo de diferença. E menos ainda um coito, como se Jesus fosse um coitado, de maneira alguma. Se houve alguma interação íntima entre Maria e José, certamente foi o mais alto grau do que queremos dizer com a expressão ‘fazer amor’, porque com certeza Cristo Jesus, sendo a própria encarnação do Amor entre os homens, só pode ter sido gerado e nascido de um profundo amor de seus pais por Deus e também de um pelo outro.

Por isso Jesus também não tem outros irmãos na carne, Maria pode ser mãe de muitos, mas não na carne, em termos de ‘transou e opa, engravidou, aconteceu’… não, Maria cumpriu um dever, seja lá como isso tenha se dado. Mas se coloca que Maria é virgem antes, durante e após o parto, o que para a ciência e aparência é absurdo a Igreja afirmar isso, porque quando o bebê passar ali, no mínimo ali ela não será mais virgem, mas quem olha para isso em termos de aparência é uma pessoa muito ignorante porque a virgindade, como mostrado, nada tem a ver com o rompimento do hímen. Por isso Maria é sim virgem antes, durante e após o parto. O hímen ele pode simbolizar e simboliza a virgindade, mas é nosso dever passar para um grau acima da aparência da carne. Porque não é a aparência, ou seja, a carne que ganha o céu.

Assim como eu comentei: Cristo Jesus se casa com Maria Madalena. Isso é literal? Sim, é literal, porque faz parte da evolução, e portanto está no Livro da Vida e portanto é Letra, é Palavra Viva; isso quer dizer que casaram na aparência? Não necessariamente.

O que acontece é que, assim como Cristo é a Alma do Espírito, Filho do Pai, Maria é a Alma da Matéria, Filha da Mãe, no melhor sentido disso, apesar da aparência deturpar a expressão Filha da Mãe. E o que é casamento em sua literalidade? A etimologia nos mostra que é habitar uma casa pobre, morar num casebre, ter uma habitação em um terreno, sendo que a palavra casa etimologicamente vem de um casebre, de um lar pobre, humilde.. Cristo Jesus e Maria Madalena são dois seres altíssimos que vieram habitar a Terra e juntos fazem um serviço, cumprem um dever específico na Terra, portanto é literalmente um casamento, porque é o encontro na carne das duas Almas provindas da Fonte. Aliás, um dos significados de Urano ter duas Luas, uma de cada lado, é esse.

Jesus não é simplesmente um homem – o maior iniciado entre os homens, isso é aparência. Bem como Cristo não é simplesmente o maior iniciado dos arcanjos, Espírito Santo, o maior iniciado entre os anjos… essa linguagem é muito válida pra gente iniciar um estudo, iniciar uma compreensão das coisas. Antes de Jesus nós éramos homens em potencialidade. Por isso é importante estudar certos autores… o Jacob Boehme fala sobre Cristo ser o centro, Santo Agostinho fala sobre Deus não ter limite, nem forma apreensível de corporeidade, sendo nós que precisamos criar como imagem rotineiramente. Assim como Frithjof Schuon nos mostra como o homem, em potencialidade e virtualidade, não é homem, que é algo que eu já comentei: Nietzsche, em sua bestialidade, afirma – torna-te quem tu és, só que não, porque és nada, então tens que tornar-te aquilo que não és ainda, mas podes vir-a-ser, e claro que por poder-vir-a-ser, de alguma forma és, pois o futuro está na eternidade assim como o presente, mas enquanto virtualidade, e não atualidade, sendo preciso atualizar o presente a todo o tempo para que as coisas e os seres sejam de fato! É completamente diferente. Então não é porque fazemos parte duma coletividade chamada humanidade que podemos nos dizer homem no singular enquanto indivíduo de fato, ou humano. E isso só se torna possível a partir da hora em que Jesus habita a Terra, antes disso o homem era apenas uma potencialidade, uma virtualidade. Ah, mas Sócrates era sensacional, sim e daí? Antes de Jesus não era possível alcançar esse grau de indivíduo. Nem com as iniciações anteriores, não importa, não se chegava a Cristo e, portanto, não se tornava homem, porque não adianta tornar-se um homem estéril, um homem só é homem se dá nascimento ao Filho do Homem, um homem estéril é uma aberração, e o Filho do Homem só é possível a partir da hora em que Cristo Jesus habita a Terra.

Porque Jesus não é o maior iniciado dos humanos, ainda que isso facilite nossa compreensão atual da espiritualidade, mas mais do que isso, Jesus é o centro do humano. É como Adão, Adão não é um homem, Eva não é uma mulher… eram o próprio centro humano, assim como o Sol não é da mesma propriedade que seus raios, mas seus raios são feitos das propriedades dele, que é o centro, e por isso Cristo, centro solar, se uniu a Jesus, centro humano – assim como o Sol se une à Terra, bem como a mente se liga ao coração – e por isso foi literalmente a manifestação de Deus, e não de um simples homem com um arcanjo. E por isso todos somos Adão, fomos Adão e Eva, e por isso todos nós devemos nos tornar Cristo Jesus e Maria Madalena, literalmente. Se não nos tornarmos Cristo Jesus e Maria Madalena, não habitaremos a Terra de maneira apropriada, ou seja, não estaremos em casamento por dever e a serviço. Porque, como dito, casamento vem etimologicamente do ato de se ter um terreno com uma habitação instalada, de se morar numa choupana, numa morada pobre (que é a etimologia de casa, de onde deriva casamento), sendo o casebre no qual se habita a Terra, a Terra é a casa na qual se mora quando se casa, porque é aqui que podemos de fato ainda prestar os maiores serviços, especialmente no plano denso. Por mais que servir nos outros planos seja lindo, lindo sair do corpo, ter consciência em planos mais elevados, ainda assim é um fato que os maiores ganhos anímicos bem como o verdadeiro despertar passa pela carne, passa pelo corpo físico, pela necessidade de lembrarmos e termos consciência em todos os corpos e nos curarmos e agirmos, de preferência, em todos eles, não deixando um de lado – ainda que certos serviços sejam sim só possíveis e necessários fora do corpo denso. Mas isso não anula o fato de que o corpo físico é a joia mais preciosa e lapidada que temos e que uma cura a partir dele é a cura que possibilita a libertação de fato. Por isso Deus esteve aqui, em carne, em corpo denso, por isso Deus se fez literalmente carne, e inclusive em aparência, não só na literalidade, no simbólico e arquetípico, mas inclusive na aparência, para dar o exemplo e porque é a partir da carne que se retorna para o alto, ainda que a carne em si não retorne para o alto, mas só através do processo por meio dela é que isso se dá, ou seja, sem ela a evolução não se torna possível neste estágio.

Então é possível observar como a literalidade dos acontecimentos obriga a aparência a nos prestar contas, por isso que o que a gente chama de mal, as entidades maléficas vão obrigatoriamente servir ao bem, porque a aparência vai estar atrelada de alguma forma aos acontecimentos, mas não como o ser humano julga e imagina como a aparência astuciosamente nos leva a crer. Em aparência é só mais um homem, em aparência não é mais virgem, em aparência as coisas se tornam banalizadas, mas a literalidade, a Letra no Livro da Vida, mostra que os acontecimentos do nascimento de Cristo Jesus, do parto de Jesus, de Maria e José e seu casamento, do casamento de Cristo Jesus e Maria Madalena, tudo vai mostrando como a aparência talvez não seja como a gente, num primeiro momento, tem a tendência de imaginar, porque nosso pensamento está corrompido, por isso que pensar é pecar, porque o impulso mental que temos normalmente nos leva a caminhos em que nós automaticamente caímos em tentação ao imaginarmos algo diferente do que literalmente é de fato, simbolicamente é de fato e arquetipicamente é de fato, porque a literalidade, o simbólico e o arquetípico são a trindade sob uma outra aparência, uma outra manifestação através dos acontecimentos e das relações que se dão aqui na Terra, e em todo o tempo-espaço e para além do tempo-espaço.

E, claro, também não se deve confundir o fato de Jesus ser o centro humano com ele ser mais importante ou tão elevado quanto Cristo ou mesmo o Espírito Santo, ou, pior ainda, ser um centro em si mesmo, pois ele é centro no sentido de concentração do humano, e não no sentido de centro creativo do mundo, como o é a trindade em si mesma… Jesus é como o nosso coração de carne, mas o coração Real é a pineal na cabeça, Cristo. Assim como a Terra é o coração de carne do sistema solar, sendo o Sol a porta para o coração Real, que só é alcançável depois de tornar as coisas na Terra conscientes. Por isso ambos trabalham juntos e são indissociáveis. O Sol e a Terra se tornaram um assim como Cristo e Jesus também. Quem tenta passar a usar a pineal antes de ter aprendido a tornar seu coração um músculo literalmente voluntário, é uma pessoa que não sabe o que faz e que corre grande risco de terminar muito louca. Vai se queimar. Eu falarei melhor sobre isso em outra Poesia, ainda. E querer se tornar o centro, fazer de Jesus o centro como fazer do humano o centro, se crer mais importante do que Cristo e do que o Sol é o que provocou a queda de Lúcifer, por isso é preciso muito discernimento para compreender que Jesus é o centro dos homens, mas não faz dos homens Deus. E não é porque Deus se uniu ao homem, e Cristo se uniu a Jesus, e o Sol veio para a Terra e fez da Terra um centro no qual se concentram também as forças hierárquicas, toda a atenção vem para a Terra e, portanto, nessa perspectiva as coisas se tornam geocêntricas, ainda assim não quer dizer que isso tome o lugar do Sol. Jesus vem de Cristo, assim como a Terra saiu do Sol, a trindade não se torna quaternária por isso, seria um grande equívoco, ao contrário, é Deus encarnado, mas é como se, usarei uma analogia imperfeita por não me ocorrer algo melhor, me perdoem, mas é como se a nossa consciência inteira fosse focada e encarnasse por um momento somente num pedaço do nosso corpo específico, como a mão… não é porque dela são emanados escritos, poesias de alta beleza, que a mão é Deus das poesias, não, somos nós que vemos a palavra ser emanada apenas daquela parte, e devemos nos tornar como aquela parte porque ela está diretamente nos ensinando como fazer o mesmo, mas na verdade o Verbo surge muito antes da mão expressá-lo, ou o Verbo surge muito antes de Jesus expressá-lo, assim como quando concebemos o poético em si, para então a geometria se casar com o movimento e lograr expressar o Verbo de forma a pari-lo no concreto. Porque todo número, bem como toda letra tem sua origem no geométrico, assim como o número é o movimento, relacionado ao Espírito Santo, e a letra é o Verbo, relacionado a Cristo. E por isso os números nos foram dados antes da escrita, assim como só se torna alfabetizado quem apreendeu a numerologia antes, numerologia no sentido literal de logos através dos números para conseguir, aí sim, apreender do aleph ao beth, ou apreender o alfabeto. Isso é como dizer: se deve passar antes pelo batismo das águas, pelo Espírito Santo, para depois encontrar Cristo, e aí passar pelo batismo do Espírito, de Fogo.

O que acontece é que o Pai, ao conceber o Verbo em Si, precisa casar-se com o Movimento para que O possa parir. Então o Movimento aparentemente vem antes, contudo, o Verbo é aquele que “precisa passar à frente, porque já existia antes”, como disse João Batista, representante do Movimento e do Espírito Santo, no caso citado, sendo o perfeito exemplo de como se dá o nascimento do Verbo não só em carne, mas em espirituais aspectos dentro da trindade, sob este lado do prisma pelo qual vemos, é claro.

Ou seja, a literalidade, a Letra nos mostra que em aparência Jesus era um homem, mas ele é literalmente o centro humano, e Cristo é literalmente o centro solar. E isso é um mistério muito maior do que o que a gente consegue hoje observar, e que muitas vezes a gente só alcança isso tendo uma ideia do simbólico e arquetípico do que isso representa, e que na verdade é debilitado, altamente debilitado, porque se a gente não vê o literal antes a gente não vê bem o simbólico e o arquetípico, não vê; sem conseguir observar o literal, não se observa o simbólico e arquetípico, é uma falácia, ainda que a gente saiba conceitualizá-los. A letra serve para isso, lermos melhor a realidade, acordarmos para o que está acontecendo e acontece de fato, para além do que a aparência nos mostra, porque a aparência pode ser necessária e ser uma boa ferramenta, ótima ferramenta, mas não é ela que nos conduz ao sagrado, ela pode sistematizar para acalmar as nossas dúvidas ou suscitar dúvidas outras, ela pode ser usada inclusive contra o próprio mal, usar da ferramenta lucífera que é a ciência para sistematizar algo para que nós nos acalmemos, acalmemos nossas paixões, falemos ‘ah, tá, entendi’, e a partir daí possamos começar a tentar desenvolver de fato nossa fé e arrependimento, que é tudo o que importa, porque todo o resto é acréscimo. Nada disso, inclusive do que estou falando, importa, a única coisa que importa é tenham fé e arrependam-se. Fé, que pode ser também mostrado como obediência, pobreza e castidade, e arrependimento que é a contrição. Ou seja, só através de Maria e José é que se dá nascimento a Jesus, o centro humano para que esse centro humano possa se ligar ao centro solar, e de fato cristificarmos nosso espírito. É claro que não basta isso, porque o trabalho nunca acaba. O trabalho é para a eternidade, quem não gosta de trabalhar precisa buscar uma forma de aprender a amar o que é trabalho porque o trabalho é eterno, assim como a oração também é eterna, é um eterno laboratório. E não laboratório num sentido científico de ficar fazendo experimentos e experiências, mas eu, como sou da Arte, e acredito e vejo que a Arte é a união da ciência e da espiritualidade, ou seja, do trabalho e da oração, o verdadeiro laboratório, laborar e orar, é a creação artística.

A vida é uma grande obra de Arte!…

E para nós continuarmos trabalhando, é preciso ir erguendo a coluna feminina, erguendo o feminino que decaiu e que vai nos apresentar a necessidade de olhar justamente para Maria, por isso uso aqui Maria como exemplo, tomo essa liberdade e sei que não há nada de errado nisso, apesar de ser um exemplo que talvez vá ferir a muitos, mas que se torna necessário no mundo de hoje em que tudo se duvida e se põe a aparência em primeiro lugar para definir aquilo que é literal, simbólico e arquetípico. E além de Maria, mãe de Deus, também teremos que olhar para Maria Madalena, esposa de Cristo Jesus, esposa e irmã, aliás, irmã, serva, esposa, amiga… E aí outra questão que se nos apresenta enquanto literalidade e se conecta com a observação e discernimento da letra é que: assim como a Igreja Católica é o corpo de Cristo Jesus, igualmente a Ordem Rosacruz é o corpo de Maria Madalena, em ambos os casos, literalmente, ainda que não sejam seus corpos em aparência. Assim como Maria possibilitou o resgate de Adão através de Cristo Jesus, igualmente José possibilitou o resgate de Eva através de Maria Madalena. Isso não significa que fossem irmãos em carne, em aparência, mas, como já falei em outras poesias, isso se dá porque José é a representação primeira da linhagem de fogo submetida à água, mas ainda de maneira não integrada, ou seja, ainda não significando o resgate dos filhos de fogo de fato, nem a sua missão junto d’água de forma elevada, pois isso não é Maria e José, e sim Cristo Jesus e Maria Madalena que representarão de fato. Maria e José são apenas o prenúncio. E assim como Pedro é a pedra de fundação da Igreja, João é a fundação da Ordem, a pedra de fundação da Ordem (por isso se perpetua a confusão entre se pintar João ou Maria Madalena na santa ceia, o que é uma besteira, e quem usa desses conhecimentos para ganhar dinheiro e fama, não sabe o que está fazendo e o inferno que está cavando, pois João é o fundamento de Maria Madalena, mas assim como não se confunde Pedro com Jesus, não há como confundir Madalena com João). E assim como Maria é a Senhora da Igreja, estando acima de Pedro, José é o Senhor da Ordem, estando acima de João.

Por isso só faz parte da Rosacruz, seja Fraternidade ou Ordem, aquele que passa por José, que é a submissão à água e o arrependimento, o aperfeiçoamento da contrição para que o fogo se eleve, dando nascimento ao corpo-alma, que é a manifestação do laço, do anel, de Cristo com Maria, sendo a própria marianização do corpo, por assim dizer, junto da cristificação do espírito. O espírito crístico é manifestado pela presença do corpo mariano, que é o corpo-alma. Ambos são um só. E por isso de nada adianta apenas obediência, pobreza e castidade, pois sem o arrependimento não se torna possível doar Luz ao mundo de fato, por isso Cristo Jesus é filho de Maria e de José através do Espírito Santo, que habitou ambos, como a uma só carne! Assim como de nada adianta o exercício de retrospecção, de nada adianta arrepender-se, se não passamos a verdadeiramente levar uma vida de pobreza, obediência e castidade, pois se torna uma semente desperdiçada, lançada aos porcos, que é um José solteiro, por assim dizer – e este pecado é extremamente grave, é o pecado imperdoável, porque não ter do arrependimento para a submissão, não colocar o fogo na água, apenas ficar diminuindo a chama e a queimada, por assim dizer, é trair o Espírito Santo. Então sim, como diz a Fraternidade Rosacruz, há uma dimensão estreita dessa semente relacionada ao sexo, ao desperdício da energia sexual, mas ficar apenas nisso é atuar apenas no campo das aparências, sendo que o real desperdício e traição do Espírito Santo se dá justo quando sabemos que devemos nos arrepender, e inclusive nos arrependemos, mas não mudamos de fato nossa conduta perante o mundo, não usamos isso para fertilizar, fecundar Maria, nossa obediência, pobreza e castidade. O arrependimento serve para fecundar a obediência, pobreza e castidade. E esse é o verdadeiro pecado imperdoável, literalmente. Quando não o fazemos de maneira completa o ciclo, quando não nos tornamos capazes de nos arrependermos, apesar dos filhos d’água terem muito mais… não sei se exatamente uma facilidade mas uma simplicidade da necessidade sim de arrependimento, pois sabem que ‘minha culpa, minha máxima culpa’, do que os filhos do fogo compreenderem a necessidade e a causa da retrospecção e do arrependimento e da contrição ser de fato a submissão à água, que é a obediência, pobreza e castidade… romper com o laço de união do arrependimento e a obediência, pobreza e castidade esse é o verdadeiro pecado imperdoável, ou seja, Letra Viva no Livro da Vida. E isso toma aparências várias, inclusive do sexo pelo sexo, porque é aquilo que mais imediatamente macula, mas todos os pecados capitais maculam.

Então a literalidade é a forma primeira de ascensionarmos em termos de leitura do que nos é dado, então se eu estudo a letra contida em uma palavra ou um nome, como aqui dou o exemplo sempre ao tratar a etimologia das palavras, indo para além do que a aparência mostra, porque a aparência pode me enganar, eu posso então começar a ter uma chance de, por dádiva divina, vir a observar a simbologia e o arquétipo presentes – o que é relacionado a ir do físico para a alma (simbólico) e alcançar o espírito (arquetípico). Então quando observamos, por exemplo, o nome Lázaro etimologicamente no hebraico vem de Eli’ezer, que significa Deus é meu socorro, o Senhor é meu auxílio, tendo também uma possibilidade de ser lido, na atual conjuntura, como leproso, alguém com chagas – claro, Deus só pode vir ao auxílio e socorro daqueles que se reconhecem doentes e miseráveis, pobres de si – pois aquele que se apega à vida, este a perderá, mas aquele que a perde, este a ganhará; assim como Maria, irmã de Lázaro, na versão hebraica é Mírian, outro nome em aparência, mas literalmente o mesmo, pois a raiz é a da pureza, da virtude, da virgindade – quando associado ao sânscrito, quando olhamos para a raiz hebraica, ela vem de uma raiz egípcia que significa a amada de Ammon, o que é belíssimo de se observar, pois Ammon era um Deus egípcio associado a Zeus na Grécia e Júpiter em Roma, sendo que já vimos como ambos (Zeus e Júpiter) são sombras de Jesus, velando pelo fato de que Mírian ou Maria Madalena é a amada de Jesus; por fim Marta significa patroa, dona do lar, senhora, dama, o mais simples dos nomes relacionado aos corpos, lar nosso, onde podemos nos tornar senhores de nós – não porque eles sejam nosso senhor, mas porque são o meio para tal em termos de ir de baixo para cima retornando e ganhando consciência de nós mesmos.

Assim, uma leitura possível é que Lázaro, Maria e Marta são irmãos e são a exemplificação da trindade de Lázaro enquanto espírito (adormecido e doente, a ser auxiliado por Deus), Maria enquanto Alma pura, virtuosa, virginal que busca a Cristo, sendo a amada, e Marta enquanto corpo que trabalha. Esses três são a literal representação também de uma só pessoa, pois espírito, alma e corpo são irmãos. Aí se pode alegar: mas o corpo não irá ganhar o reino dos céus. De fato, não como o conhecemos em carne hoje, não, assim como o filho pródigo: como pródigo ele não retorna à casa do pai – como pródigo ele sai, mas como filho arrependido ele volta. É o mesmo filho na aparência, mas não do mesmo modo, assim como outros corpos herdarão o reino, sabemos, por exemplo, o corpo-alma, mas não o corpo físico, só que o corpo físico é aquele que dá nascimento ao corpo-alma, por isso ele é importantíssimo, e por isso que o filho arrependido não é o mesmo que o filho pródigo, mas nasce do filho pródigo. Em aparência são os mesmos, mas em essência não, e os corpos nossos também são parecidos, mas não em essência. Ainda que a Essência verdadeira seja imutável. O que torna tudo um paradoxo, mas de simples resolução se compreendemos que é uma questão de que uma essência inconsciente, ou, por exemplo, nós quando crianças não somos a mesma criança de quando crescemos e temos consciência dessa criança interior, que é a mesma, mas por nossa evolução, se torna lapidada e, portanto, outra – filha daquela primeira, ainda que inevitavelmente e paradoxalmente a mesma. A consciência faz com que se reconheça a imutabilidade da criança, mas ao mesmo tempo faz com que sua atuação nos mundos seja outra, muito mais verdadeira. Por isso que na separatividade são essencialmente diferentes, mas na unidade são essencialmente as mesmas, essa é a diferença de aparência e literalidade, bem como se pode dizer o mesmo dos corpos, de toda materialidade e espiritualidade, na verdade, desde que vistos pelos olhos já purificados, sem que o corpo físico deixe de ser inimigo e, ao mesmo tempo, campo de batalha. E como se diz na tradição judaica, no campo de batalha onde se joga contra o time da casa é uma luta muito mais árdua, porque o time da casa tem vantagem, ou seja, o inimigo nos vence com maior facilidade.

Mas a forma de vencê-lo é através do nosso único literal Mestre: Cristo Jesus, porque não se deve chamar de Mestre exceto aquele que é a Luz, pois nenhum irmão, por mais velho ou maior que seja, deve ser assim chamado, pois não se chama um cristal de Luz só porque a Luz passa por ele e o usa como veículo purificado. A Luz é a Luz, a taça é a taça, nenhum irmão deve ser chamado de Mestre, senão Deus. Deus guia, as creaturas – nós – nos auxiliamos, nos ajudamos, fazemos trocas, no máximo, trocas e doações, dentro do possível. Mas mesmo as doações é daquilo que Deus nos dá, então não somos nós que doamos, é Deus que doa através de nós, e mesmo o auxílio, nós auxiliamos porque na verdade somos ponte para que Deus nos auxilie, que é o verdadeiro Lázaro, o verdadeiro espírito. E as maiores possibilidades de crescimento espiritual residem no Catolicismo e na Rosacruz. Não há, é preciso deixar claro que não há grupos, ordens, nada acima da Rosacruz além do Catolicismo, e nada mais importante para o Catolicismo do que a Rosacruz. São os dois pilares, do Filho e do Pai. Só se chega ao verdadeiro Catolicismo, à Santa Igreja interna verdadeira e guardada, ainda, em silêncio, se se passa pela Rosacruz, pois é a Rosacruz que vela pela religião do Filho e o Catolicismo que vela pela futura religião do Pai. Não falo aqui da Igreja Católica externa, nem da Fraternidade Rosacruz, essas instituições são apenas sombras distantes do que viveremos e vivemos nos mundos mais sutis. Elas são apenas, mesmo em campos mais sutis, como no caso da Fraternidade, apenas um andamento ainda do Espírito Santo em trabalho silencioso. Sim, ambos são ainda o que se adora dizer como jeovístico. O trabalho Crístico em si só se dá em sua magnitude na Ordem Rosacruz, bem como o trabalho do Pai se dá pelo Catolicismo, que é o Universal instituído através de seu Filho. Acima da Ordem Rosacruz só o Catolicismo. Não cabe tratar detalhes agora, mas dualidade alguma está acima da Ordem, senão a plena unidade católica.

E enquanto uns afirmam que a Ordem Rosacruz foi instituída por Lázaro ou João, eu digo que a Ordem Rosacruz foi instituída por Maria Madalena. Que a Igreja é o corpo de Cristo Jesus, assim como a Ordem é o corpo de Maria Madalena. E que Maria Madalena e Cristo Jesus é que fazem o trabalho na Terra de Fogo e de Água, e que é esse casamento que deve ser feito (aos que já passaram pela dualidade inferior de Caim e Abel), e eles se casaram, porque são o perfeito exemplo do que nós devemos fazer enquanto seres… o que nada tem a ver com o casamento das aparências que enganam os nossos olhos da carne, mas é o casamento literal verdadeiro, em Letra no Livro da Vida – só que para ele se dar, por exemplo, é necessário que se passe pelo celibato. Assim como Madalena passa pela prostituição, Jesus tem que passar pelo celibato para que nasça Cristo Jesus.

E por isso a literalidade é extremamente simples, ainda que não necessariamente fácil. E por isso Maria, a mãe, é eternamente Virgem. E astuciosamente debater sobre seu hímen é algo que ninguém deveria nem perder seu tempo, retomando aqui o antigo exemplo. Aqui eu uso da lógica e da analogia para mostrar todas essas coisas num campo literal, da Letra Viva, porque chega o tempo em que já não convém mais continuar repetindo mentiras e vai se tornar cada vez mais claro quem continua mentindo para si mesmo e para os outros. Uma coisa é ser inocente, verdadeiramente não entender, não conhecer, não saber, outra coisa é ser ignorante. Só é ignorante aquele que ignora algo, o ignorante é aquele que ignora algo que se apresenta a ele. Existem graus de ignorância, é verdade, porque o tempo todo nós ignoramos coisas que estão acontecendo, enquanto eu aqui falo eu ignoro outras coisas que acontecem ao redor, mas há ignorâncias que não são desculpáveis, há ignorâncias que são de nossa responsabilidade fazer com que parem, com que tomemos conhecimento daquilo da maneira devida e respeitosa como merece ser tomada. Quer acreditar em outra coisa? Acredite no que quiser, ótimo. Mas continuar questionando de maneira astuta e maliciosa as verdades inegáveis… isso já não será mais possível sem passar por grande vergonha.

Chega a hora de crescer e se responsabilizar pelas besteiras que estamos a fazer. Porque não adianta culpar Lúcifer. Essa história de que o mal, a culpa é do mal… o mal tem um trabalho a fazer, e quem não acredita que o mal tem trabalho a fazer, e que Lúcifer caiu porque quis e nunca mais vai evoluir, não importa, a decisão é de cada um quando passa pela tentação, ou seja, a responsabilidade de cair é nossa, não dele. Eu piamente acredito que todo o que cai tem a possibilidade de retorno, nós somos decaídos, porque nós enquanto humanidade decaímos e é preciso que agora nos elevemos, e já foi aberta essa porta através de Cristo Jesus, Ele é a Porta, porque o centro solar veio resgatar o centro humano para que seja possível que todos os homens em sua individualidade ascendam.

Agora, é claro, quando eu falo sobre os anjos decaídos terem a possibilidade de redenção, quer dizer que vá acontecer? Não. Quer dizer que seja provável? Eu não sei. Quer dizer que evoluiriam da forma como hoje são? Óbvio que não, pois nem nós herdamos o reino dos céus como somos hoje, mas é preciso herdá-lo através do nascimento de outro corpo, de outros processos dos quais ainda somos inconscientes maior parte do tempo nessa nossa vida ainda. E os anjos decaídos dependem, inclusive, de nós para evoluírem algo, caso queiram (pois sempre depende do livre-arbítrio) e caso seja possível, porque também depende da vontade divina, acima de tudo. Mas todos temos uma essência divina, e é ela e nela que acredito que possa retornar à casa do Pai. O joio será separado do trigo? Sim, já está literalmente sendo separado todo o tempo, nós que não vemos, ficamos esperando a aparência das coisas se darem, quando a literalidade dos eventos, ou seja, o acontecimento da separação no Livro da Vida através da Letra, é completamente diferente de isso ocorrer nas aparências, e estamos tratando justamente disso – ainda que seja importante frisar que tudo o que acontece de forma reta na literalidade, simbologia e arquétipo de maneira contundente sim se manifesta na aparência, mas não segue a lógica racional humana de causa e efeito como estamos acostumados, mas sim de efeito e causa divinos, e para ver isso, é preciso ter olhos. Um exemplo rápido de manifestação na aparência da retidão da literalidade, simbologia e arquétipo é a prisão de São Paulo, ele se dizia preso de Cristo e em Cristo, na aparência isso seria colocar aparentemente uma algema nele e em Cristo Jesus – faz sentido isso? Obviamente não. Mas as aparências da prisão sim se deram através dos homens, e era necessário que assim fosse para que ele próprio pudesse ganhar maior consciência do que passava. Ou seja, aquilo que a nossos olhos é horrível, em verdade era uma grande benção de ser vivida, pois valida e corrobora sua retidão necessariamente. Por isso Lúcifer, as aparências, quer queira quer não, quando alguém anda reto com Cristo, trabalha para que a ciência se dê para ampliação da consciência, é inevitável. Ou seja, o mal trabalha para o bem, é escravo do bem.

Mas voltando para a questão da evolução e dos decaídos, há seres que provavelmente não conseguirão seguir neste tempo evolutivo? É provável que sim, eles ficarão num eterno inferno, ainda que não sem fim, pois só a eternidade é eterna em si, e qualquer adjetivação quanto a algo eterno significa que pode deixar de sê-lo quando convir. Por isso não existe vida mortal, pois enquanto se morre, se está em morte, literalmente, literalmente se está morto, pois a Vida é a própria ausência de mortalidade, ou seja, não significa nem que ela em si seja a eternidade, mas que a finitude da consciência é algo ilusório, podendo-se então afirmar que a Vida é Eterna, ainda que ela em si mesma não seja a eternidade, podendo o inferno e a morte ser eternos também. Pois o que ocorre eternamente não quer dizer que não termine em algum momento, que mude em algum momento, pois a eternidade é sempre o presente em acontecimento na atualização do passado e do futuro. Enquanto se vive o júbilo e a alegria, se está literalmente eternamente sendo alegre, quando se vive a cegueira, se está eternamente literalmente vivendo no inferno. E ambos podem acabar a qualquer momento. Porque a eternidade não é ausência de movimento. Somente Deus é imutável, nós estamos e seremos sempre a mutabilidade enquanto vivência, ainda que perene sim a nossa Essência, que é o que vem de Deus e temos de mais semelhante com Ele, e por isso estando Ele mais em nós do que nós em nós mesmos, como disse Santo Agostinho quanto a si perante Deus, porque raramente estamos em nosso centro, em nosso cerne. Assim como Deus também, ao se fazer presente nas Suas obras, também nos mostra como a mutabilidade e movimentação e evolução é algo que devemos almejar para nos tornarmos mais nós mesmos, pois Deus é em si mesmo, Ele é, mas ser Deus, para se ser Deus, é preciso sair de si e caminhar em direção ao outro, ou seja, é preciso doar-se e sair de seu próprio cerne como ser puro. Para Deus, que É Aquele que É, não há necessidade nem sequer de ser Deus, enquanto denominação, é como dizer: Deus é, não é preciso dizer Deus é Deus, Ele não precisa tornar-se objeto de si próprio para se tornar o que é, pois Ele É e isso basta, mas nós sim temos a necessidade de nos tornarmos Deuses, porque nosso processo é inverso: é preciso se tornar um Deus para se chegar de fato ao ponto de Ser, pura e simplesmente. Pois é como um retorno.

E eu, que amo os do fogo tanto quanto os da água, eu particularmente acredito piamente na salvação de todos os decaídos, inclusive de anjos decaídos, talvez numa grande inocência minha ou mesmo astúcia interna, ainda que seja muito improvável tal evolução, porque é preciso querê-la, e eu não sei dizer se aqueles que trabalham como mal querem evoluir de fato, mas creio! Assim como é sempre possível, ainda que improvável, a queda de quem está no alto – e por isso, sempre filtrem o que eu e todas as pessoas falam, principalmente os que considerarem grandes, quanto mais alto se sobe, mais baixo se cai… porque não é porque Jacob Boehme falou que é toda a verdade, pois a nossa limitação limita o conhecimento que é passado, e por isso a Bíblia é o perfeito exemplo de que o que é grande é trançado por várias mãos, vários indivíduos, portanto não adiantando ler apenas um livro de um dos santos para ter conhecido toda a vida de Cristo ou todos os ensinamentos do alto, não, é preciso ler todos os livros de todos os que escreveram a Bíblia, porque precisamos da visão coletiva para chegarmos ao cerne (não sendo um único humano capaz de resumir todo o conhecimento numa obra, seja ele filho do fogo ou da água, não importa), e Deus não fará isso porque Cristo Jesus não deixou ele mesmo nada escrito, pois somos nós que temos o dever de obrar esse tipo de trabalho, Deus veio e deu exemplo das obras ao contar as parábolas, por exemplo, mas a cristalização disso para aprendermos e passarmos para frente esse conhecimento, somos nós os responsáveis (junto das hierarquias, claro), sendo o ser humano responsável pela matéria química e o que nela se estrutura a longo prazo. O que um diz apara a necessidade de transformação no que o próximo fala, nós damos acabamento uns para o trabalho dos outros, não há isso de um ser humano conter toda a verdade e esperar todos se iluminarem por aquele livro e acabou (por isso a Bíblia é uma coletânea de livros, aliás), e é ainda preciso ver que há a necessidade humana, e de aprendizado com o próprio Deus, de inovação da creação, e, portanto, de evolução dos próprios ensinamentos, ainda que certos ensinamentos em essência sejam imutáveis, como os da própria Bíblia, a sua paradoxal inovação pelo próprio Deus é demonstrada, por isso um Antigo e um Novo Testamento e ao mesmo tempo Cristo dizer que não veio revogar as Leis, não anular o Antigo Testamento, mas ao contrário, cumpri-las e, aliás, estreitá-las.

A possibilidade de queda de um ser de Luz é para que a gente continue tendo humildade, para ver que a nossa luz e bondade nada são e que o Sumo Bem é Deus, e que se somos seres capazes de alguma irradiação, de algum calor, de algum Amor, é porque Deus nos dá esse dom, e que a qualquer momento podemos cair, podemos negá-lo, porque Ele nos dá essa possibilidade, assim como podemos também não trabalhar de maneira apropriada e Ele deixar de dar esse dom a nós, se não temos capacidade de carregá-lo e exercê-lo de alguma forma. Assim como a possibilidade de redenção do mal – não que o mal vá se tornar algo bom, porque o mal é mal, mas a essência, a possibilidade da essência de que ele foi feito, porque mesmo a ignorância, tudo provém de Deus, ainda que seja sombra – a sombra provém da existência do Sol, ainda que não seja o próprio Sol que produza a sombra, mas um resultado da formação de suas criaturas, então, ainda que essas sombras sejam, no fundo, pertencentes a existências que foram concebidas em Deus, e por seu processo e escolha passaram a produzir e viver para essa sombra, ainda assim, a possibilidade de redenção dessas existências decaídas – que somos nós, porque não falo só de Lúcifer, porque nós caímos, então quando falo de existências decaídas somos nós, humanos comuns, e também os anjos decaídos, porque para passar ao Ser e sair da mera existência é preciso se cristificar através da fé (que é obediência, pobreza e castidade) e do arrependimento (que é retrospecção e contrição) – então a possibilidade da redenção dos decaídos é para que nos mantenhamos também em alegria, porque é a própria misericórdia de Deus manifestada em seu mais alto grau.

Então a possibilidade de queda é para nos mantermos humildes, e a possibilidade de redenção é para nos mantermos alegres, termos bom ânimo e vencermos o próprio mundo, o mundo no qual astuciosamente acreditamos, confundindo literalidade com aparência. E não importa a probabilidade de ambas as quedas e redenções acontecerem, não importa os números, ou quantos conseguem alcançá-lo enquanto feito. O que importa é que Deus assim fez para que o céu e o inferno sejam eternos, mas havendo possibilidade de fim para ambos de acordo com nossas escolhas, pensamentos, desejos e ações a todo momento. Por isso a Vida, a Vida verdadeira, a Vida a todo momento, ela é seríssima, ela é a maior responsabilidade que temos, ela é a joia mais rara e preciosa, a pérola mais perfeita que já foi feita, e nos foi dada de graça, nos foi dada eternamente, nós que estamos cegos e somos mortos ainda para toda a sua glória, porque Deus fez de modo tal que devemos merecer tal graça. A Vida é uma graça, e é de graça, porque não há um preço a se pagar por ela, mas há sobre ela toda a eternidade enquanto responsabilidade, e isso naturalmente faz com que seja presente o fato de que devemos fazer por merecer para que ela a nós se revele e também seja revelada. Pois essa Vida de que falo é a que vem da Árvore da Vida, para além de todo bem e mal que se conheça, se intelectualize e se saiba. Mas para se chegar nela é preciso antes Conhecer, com tudo o que conhecer nos traz enquanto carga, ou seja, comer da Árvore do Conhecimento – sendo que já falei um pouco sobre isso na Poesia da Inteligência, do Conhecimento e da Sabedoria, basta procurar.

Por isso é preciso orar e trabalhar, fazendo com que o que está na Luz permaneça nela e o que está na sombra vá até ela, seja apreendido por ela, por isso somos responsáveis também pela evolução uns dos outros, e por isso quando um se ilumina, por menor que seja essa iluminação, mas no sentido de que deu um passo na evolução e chegou um passo mais perto de Deus, todos as existências decaídas ao seu redor andam com ela e se abre a porta para que deem um passo também. Claro que muitos se afastam, muitos sentirão repulsão, e não atração em continuarem com ela, caminharem com ela em direção a esse novo raio que surge, ainda que mínimo aos nossos olhos. Mas há quem sim tenha sua sombra apreendida um pouquinho mais nesse processo.

Por isso não é sobre a Minha salvação enquanto pessoa individualizada, espírito cristificado e matéria marianificada, não é sobre isso. O meu dever, enquanto evolução pessoal, está muito além de mim, porque quando me torno um indivíduo é a partir daí que se torna de fato a colheita, colheita está etimologicamente ligado àquilo que acontece em coletivo. Evoluir, crescer, num primeiro momento é pra gente mesmo, para encontrar a si mesmo, pra voltar pra Deus, pra ser alguém melhor etc., mas com o tempo, com a maturidade, vemos que evoluir é de fato a única maneira de Amar o próximo, Amar os inimigos, curar o próximo e, acima de tudo, Amar a Deus, porque não é quando um filho volta, mas é quando se abre a possibilidade para que vários filhos voltem, e não há maior alegria para um Pai do que, em vez de ver apenas um filho voltando, ver, junto deste um, vários outros vindo atrás dele, não porque é herói ou exemplo de algo, pelo contrário, mas porque, como Cristo, ele se fez servo de todos eles, então ele não é aquele que chega soberano em cima do carro, mas é o burro de carga que vai na frente carregando o Cristo dos outros nas costas, como fez nosso próprio Deus, como Cristo Jesus e Maria Madalena.

E é claro que todo filho só volta com os próprios pés, não é sendo puxado numa charrete ou carroça que se volta para Deus, mas é como se pudéssemos dar uma carona para que cheguem mais longe do que seriam capazes se estivessem sozinhos, e são eles que ditam o ritmo, as paradas etc., ainda que seja sempre o burrico, o jumento que vai levando, até onde seja possível levar, até onde o Pai quiser que assim seja e o outro também quiser e aguentar.

Que sejamos literalmente aqueles que carregam a evolução nas costas, pois isso se conecta também com as letras estarem literalmente em nossa coluna verticalizada, assim como os números, bem como a escada, e o fogo que por ela sobe. É tudo simbólico e arquetípico, mas saibamos que é, antes de tudo, literal. É literatura, meus amigos, está nas Letras, está dado no Livro da Vida, basta pedirmos olhos para ler o que está escrito e ouvidos para ouvir o que nos é dito, pois tudo isso nos é cantado o tempo todo em gloriosos hinos.

Então que possamos, literalmente, simbolicamente e arquetipicamente caminhar…

Eu ainda falarei mais sobre tudo isso. Aos poucos seguimos…

Que caminhemos sob e sobre a mão de Deus a nos guiar e nos guardar.

Amém.

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