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Eu gostaria de caminhar mentalmente um pouco, observar e conversar sobre a poesia em relação ao que falamos, em relação às palavras que proferimos por aí.

Para começar, verifiquemos os lados opostos que a Poesia une: sendo a poesia aquela que pare, a que gera, doadora de vida, aquela que cria palavras novas e novas formas de se nominar o que está no mundo, vejamos tanto o lado da prosa – que procria e reproduz libertinamente mil e uma histórias, sendo responsável por fofoca, novelas, contos, narrativas das mais diversas, quanto o lado do discurso – aquele que silencia, que poda, que enrijece através da política, pois a política é seu maior chefe e ao mesmo tempo, paradoxalmente, sua maior ferramenta, pois é dela que o discurso se serve para ganhar vida entre aqueles que ele circula. Por isso a poesia precisa trazer uma mensagem, assim como o discurso, ou seja, ter um viés específico, contudo, não da política, ou seja, não da polis, mas de algo mais elevado e sublime: de cidades, reinados, jardins superiores aos que nos encontramos materialmente, tal como faziam os filósofos antigamente. E ao mesmo tempo, criar novas perspectivas, novas formas de se narrar, dramatizar e, assim, tornar lírica a vida, vivificando as palavras em tragédias, dramas e versos que trazem sentido à existência, ao Estar no mundo, e ao Ser que tanto lutamos árdua e, ao mesmo tempo, amorosamente para nos tornarmos, tal como fizeram os grandes bardos, como Shakespeare.

Portanto, é preciso se atentar para o que dizemos, mas o porquê nos atentarmos deve ser analisado, pois veremos como pendemos para os lados da politicagem discursiva ou da prosa libertina muito facilmente, então caminhemos e observemos esse pêndulo por um momento:

Hoje é um fato de que há uma política dita do bem, mais conhecida como politicamente correta, para garantir o policiamento e a segurança quanto ao que falamos, porque dependendo do que dizemos podemos ir presos, não é? Pois é… E isto é de um rigor extremo, porque é complicado proibir ou automaticamente taxar alguém de criminoso pelo simples uso de uma palavra. É como ser preso em flagrante delito, mas por algo que se diz, que se vocaliza. Dizer é um ato e sim, ele pode ser criminoso, mas sabemos que o crime, em nossa sociedade, não está tão bem caracterizado assim a ponto de termos pleno discernimento do que é bom e do que é ruim – como quando alguém vai preso porque roubou um real ou uma coxinha para matar a fome antes que a fome matasse ele.

Isso significa então que pode falar qualquer coisa? Não, em verdade, não. Porque falar qualquer coisa é reproduzir falas vazias, e se não sabemos o que estamos falando, há uma grande possibilidade de ali estar contida a intencionalidade de quem primeiro disse aquela palavra, aquela história, com alguma intenção. É como a própria fofoca: por mais que tenhamos a alegre e boa intenção de apenas comentar um detalhe que seja, e, quem sabe, aprendermos algo com aquilo, ainda assim, sabemos que a primeira pessoa que notou e comentou, criando toda a cadeia de palavras e frases que será passada como um telefone sem fio adiante, das duas uma: ou fez por maldade, ou já foi tão deformada a informação inicial, que se torna pura ignorância continuar passando aquelas informações para frente.

Ou seja, ter um rigor policial e criar políticas que proíbam o uso de determinados termos é algo extremamente violento, porque tira o direito inclusive de ignorância do outro, que pode, por ingenuidade, acabar proferindo palavras pejorativas sem saber sobre o que, em sua raiz, se trata. Contudo, não é possível falar qualquer coisa como se queira porque, no mínimo, nosso querer será algo mesquinho e egoísta, quando não vazio e desprovido de real inteligência, afinal, quantos de nós abrimos a boca apenas para dizer coisas que agreguem conhecimento benéfico ao outro realmente? Em vez de narrativas e informações que estão mais próximas de fofocas mórbidas, seja do outro seja de si mesmo…

Se nós tomarmos como exemplo os Anjos, ou mesmo em outras religiões os guias, Orixás, entidades, espíritos, enfim, seres que nos ajudam a crescer através de mensagens, nós iremos constatar e saberemos que em todas as religiões, sempre que há uma mensagem a ser transmitida, seja através de um mestre, um guru, seja através do ser que for e da religião que for, eles, esses mensageiros, não falam qualquer coisa de qualquer jeito, não é permitido a esses seres, que estão num plano mais elevado que o nosso, supostamente, dizer o que “dá na telha”. E mesmo num plano mais abaixo, mesmo o mal, ele não fala de qualquer jeito e não usa de qualquer forma a estrutura, é tudo muito bem pensado, é muito ciente e com muita ciência que se faz as coisas no mal. E ainda que o místico não tenha ciência, não saiba exatamente como faz o que faz, como os profetas em que não compreendem como a conexão se dá, só sabem que foram escolhidos e só, ainda assim não é permitido dizer qualquer coisa, pois ele está ali para passar uma mensagem determinada de uma maneira também determinada.

Então não é de qualquer jeito que as coisas são faladas.

E aonde isso tudo nos leva? Isso nos leva ao ponto de que onde quer que se olhe e qualquer que seja a religião desse mensageiro – seja poeta, político, orador, filósofo, ou seja prosador, é preciso praticar a castidade, a pobreza e a obediência em relação às palavras.

É claro que para o que podemos chamar de espírito puro, como a criança inocente, uma pessoa genuinamente inocente, para um ser desses tudo é lícito, mas nem tudo convém, assim como não convém ensinar uma criança a xingar, a ter raiva, ódio ou desprezo por alguém e como expressá-los (pois é para isso que o palavrão existe, a priori), e a gente só passa a saber que nem tudo convém (inclusive para o mal) quando a gente vê que a mensagem que se passa e a palavra que se profere causam alterações em quem ouve, por menor ou maior que seja a capacidade de quem fala em adentrar o outro, ou seja, ainda que essa alteração não tenha longo alcance num longo tempo de estabilização – como algo que reverbera dentro do outro, ou por mais que ela não saia de perto da pessoa que falou, como que caindo logo aos pés depois de sair da boca, não chegando no ouvido de um outro efetivamente, ainda assim é justamente por isso, por saber que ‘a maneira como nós falamos e nos colocamos’ tem uma força, tem uma vibração, tem uma frequência, tem várias matérias que a englobam e que são modificadas por ela, é justo por isto que nós devemos ter cautela, prudência com o que se fala, pois não se fala qualquer coisa a qualquer hora, nem qualquer palavra em qualquer tempo, então é preciso sair de um politicamente correto, sim, porque aos puros tudo é lícito por não haver maldade no coração, como um amigo virar para o outro e dizer ‘oh, seu filho da puta, corno, desgraçado, vem cá me dar um abraço, seu miserável!’ e a gente saber que no coração é puro, é lícito no sentido de que por mais que não seja ideal falar palavrões ainda assim é com amorosidade que se diz aquilo, então neste sentido é lícito, mas quando há maldade inclusa, quando a gente vai tomando ciência de certas coisas, começa-se a separar o trigo do joio.

Então qual é a diferença do que a gente chama hoje de bullying para o que era antigamente? Porque todo mundo fala que antigamente todo mundo chamava outro de zarolho, negão, varapau, gordo, CDF (que significa cu de ferro), palmitão, branquelo, quatro olhos e isso não ofendia ninguém, e de fato não era problema, por quê? Qual a real diferença? A diferença é que não havia malícia, era apenas a pura objetificação de uma característica da pessoa, eu simplesmente estava materializando uma característica da pessoa verbalmente.

Não tem problema em ser magro, em ser preto, em usar óculos, em ser gordo, vesgo, não tem problema em parecer um palmito ou o que quer que seja, porque as coisas ‘em si’ não têm adjetivos, não são boas ou ruins: uma bola pode ser ótima se a gente vai jogar basquete com ela, se a gente vai jogar frescobol, se vai fazer um esporte, colocar em movimento, construir uma ação, então ser comparado com uma bola não tem nada de ruim, a priori, é apenas uma constatação. Então qual a diferença do por quê hoje em dia passar a ser bullying? Porque se passa a se ter ciência de que aquilo ofende e com isso se tem malícia ao se dizer.

Por isso vai surgindo o politicamente correto, porque na verdade não é correção da palavra que deveria haver, mas sim da intenção que permeia e que materializa e dá força para aquela palavra, porque isso muda a existência dessa palavra, isso muda a forma de ser dessa palavra, assim como se eu fizer um clone meu, é aparentemente uma existência idêntica, mas no fundo, em verdade, é outra existência, é um clone, e digamos que ele vai e mata um monte de gente – ele pode ser idêntico a mim aparentemente, a vestimenta pode ser idêntica, mas o Ser desse clone, a essência muda completamente, revelando ser uma outra existência, porque a intenção é absolutamente outra, contrária à minha, ainda que eu não seja uma pessoa Santa a ponto de fazer uma contraparte de fato com alguém que é um assassino de massas, mas só para, em termos de simbologia, podermos entender essa dualidade que se cria.

Então há problema em chamar alguém de mulata, ou me chamar de mulata, por exemplo? Que deriva de mula… não, em si, na palavra, não, não há problema. Mas tem pessoas que, nós sabemos, usam disso para maliciosamente agir e sabemos pelo forma como ela enuncia, e malícia para qualquer lado: seja sexualizando, como “nossa, aquela mulata, hein” (com desejo) ou “nossa, tinha que ser aquela mulata” (com asco, nojo, revolta, repreensão ou similares), ou seja rebaixando, como quem primeiro disse mulata querendo dizer que o mestiço vale menos, que é estéril, ou mesmo inclusive indo para o radical e literalmente afirmando “aquela mula, é uma mula mesmo” partindo para uma ofensa rasgada.

É claro, é completamente diferente de uma criança inocente e ingênua apontar para mim e falar “ela, a mulata” na inocência inclusive por não saber a etimologia daquela palavra, é completamente diferente uma pessoa simples, do campo, falar essa palavra, enfim, pessoas puras, que podem ser da cidade também, mas que são genuinamente puras, que não têm maldade, elas podem dizer o que quiserem, mas a partir da hora que vamos ganhando ciência, nos tornando cientes, nem tudo convém. A partir da hora em que eu tomo ciência de que aquilo é muito mais usado para ofender: algo deve ser alterado em mim, não porque alguém me bate, me prende e eu sou punido de alguma maneira, mas sim porque eu estou buscando realmente o melhor dentro do meu Ser, pois eu chamar alguém de gordo é muito mais usado para ofender do que simplesmente descrever que é uma pessoa gorda é só gorda, e isso não ter nenhum julgamento de bom ou ruim, bonito ou feio. A partir da hora que eu sei que aquilo traz uma carga histórica com ela embutida de julgamento, fica difícil reproduzir essa palavra todas as vezes, porque a maior parte das coisas que a gente fala são reproduções, e não falas realmente para caracterizar o mundo, para poetizar e denominar as coisas, como um gordo e magro quando havia O gordo e o magro, que ainda se acha vídeos na internet – ninguém estava ofendendo nenhum dos dois, eram apenas pessoas capazes de fazer brincadeiras com a sua própria condição física, e isso é lindo, isso é ótimo, é saudável até um determinado ponto, se feito na inocência verdadeira do palhaço, mas claro que numa sociedade em que a gente vai tendo cada vez mais malícia quanto ao que se diz, é preciso tomar certo cuidado porque nem tudo passa a convir, e estamos cada vez mais crescidinhos a ponto de se tornar cada vez maior o desafio de continuar sendo criança e encontrar a verdadeira inocência e graça. Aliás, talvez a maturidade não nos faça mais rir do gordo e do magro, mas sim ver a Graça dum jogo entre o que a gente chama de ‘bem e mal’, ou seja, entre polaridades superiores às físicas.

As palavras são como alimento: quando a gente passa a saber a origem do alimento muitas vezes a gente deixa de comer, paramos de comer simplesmente porque é nojenta a maneira como é preparada, como uma salsicha – os embutidos, ou simplesmente porque envolve morte, ou ainda porque envolve indústria, sendo algo industrializado, artificial, criado em laboratório, X, a gente não sabe nem a origem, então se passa a ter um receio de usar aquilo, de comer algo morto, de ingerir algo desconhecido, e com as palavras é a mesma coisa, aliás, com tudo na vida!

Quanto mais a gente vai sabendo a origem, mas isso vai dando responsabilidade perante as escolhas que se faz.

Então eu vou poder dizer qualquer coisa só porque sou contra a polícia e política do discurso do bem a qualquer custo na língua? Não, porque se eu quero levar uma vida realmente de alguém que está falando por pureza, eu vou ter que necessariamente tomar como exemplo qualquer ser religioso que seja um mensageiro, observar seres mensageiros para concluirmos que eles não dizem qualquer coisa de qualquer maneira, eles não falam o que eles querem, eles falam aquilo que é necessário que o outro ouça. Ele só vai dizer o que ele quer se for para o mal, o mal, sim, impregna com aquilo que é intenção dele, mas fora este exemplo, deixando de lado o mal, porque, aliás, ele não é exemplo para nada, a não ser de ignorância, ainda assim, bem ou mal, o ser que traz a mensagem se limpa de outras intenções a não ser aquela que é um dever fazer ali naquela hora. O bem e o mal seguem regras afiadíssimas, leis justíssimas, não nos equivoquemos.

Isso não é desculpa nem motivo para se criar um rigor tal em que o simples pronunciar de uma palavra seja motivo para se colocar alguém numa prisão que em pouco tempo atrás seria uma fogueira, o politicamente correto que muitas vezes inclusive abomina pessoas religiosas e movimentos religiosos, bancadas religiosas, são os primeiros a meterem fogo no que consideram como inimigo alheio. O rigor – ele castra de tal forma que se torna impossível semear qualquer coisa numa terra, e, claro, falando de regras e leis que podam o necessário – não para além da conta nem para qualquer lado nem de qualquer jeito, e sem citar e entrar no âmbito de pessoas que sejam um anarquista – eu não vou entrar nesses méritos porque aí não tem como conversar, pessoas que acreditam que “pode tudo” por que não ligam para consequência nenhuma, não se importam com ‘causas e efeitos’ gerados no mundo, a pessoa que idolatra o caos e que, enfim, perde todos os parâmetros de conversa e vivência, fica difícil, e não irei tratar disso aqui…

Mas se nós estamos buscando diretrizes, nós precisamos, é um dever olhar para os extremos delas, seja do politicamente correto, seja do pode tudo, seja do “não vou proibir falar negão” porque tá tudo liberado, pois sou cheio de puras intenções (ainda que não tenha problema algum falar negão em si), ou, o outro lado, seja repreendendo, na tentativa politicamente correta de policiar as intenções alheias, sejam boas ou não. Por que no fundo se trata da intencionalidade da fala, e é impossível policiar as intenções, aliás eu posso proibir uma pessoa de falar determinada palavra, mas no coração ela pode dizer mil vezes, inclusive ela pode falar a palavra afrodescendente com todo o nojo, asco e racismo do mundo porque vai estar na entonação, ou seja, aquilo que o politicamente correto almeja, no fundo, não é através das leis humanas que se alcança, porque não temos recursos sequer morais para realmente discernirmos de forma verdadeira a intenção alheia, quando a maior parte das pessoas não tem intenção alguma de fazer nem o bem nem o mal, porque são mornas grande parte das vezes.

A gente passa ver que há coisas que realmente não convêm serem ditas, frases palavras, expressões, porque elas materializam, elas reforçam na matéria física algo que é ruim, algo que degrada a existência alheia, contudo, é claro, não dá para proibir o mal de existir, no atual momento é impensável e inalcançável este tipo de anseio, por mais que se queira, será apenas vaidade nossa neste momento. Mas devemos buscar sanar a ignorância, e isso significa passar a escolher e sermos responsáveis sim pelas palavras que se vai, se está ou se esteve a proferir.

Então é preciso pensar, buscar formas outras, à medida que eu não consigo educar a intenção alheia, porque isso está muito além da educação, não é a educação que altera a intenção, mas sim realmente um fator espiritual. Só o espiritual, a pessoa se encontrando espiritualmente, que ela vai passar a querer ser uma pessoa melhor realmente, com intenções mais castas, pobres e obedientes. Então não sendo possível educar a intenção do outro, ainda que seja possível não ensinar más intenções, é preciso encontrar uma forma de se tornar imune a esse mal que ronda o mundo até pela mornidão e cegueira alheia que o corrobora, é preciso nos ensinarmos a nos tornarmos acima desse mal, ou seja, aumentar a nossa devoção religiosa e espiritual. Não precisa ser uma religião específica (até porque boa intenção não significa que não sejam más no coração, vaidosas e destruidoras dos outros, pois isso muito vemos quando as religiões matam e perseguem até hoje), falo aqui de uma vida acima de tudo espiritual para que consigamos aguentar o tranco, porque assim como o mal aumenta no mundo, o bem também tem que aumentar, senão esta balança realmente fica descompensada parecendo que o mal está a ganhar. Quando isso é apena aparência a nos enganar. O bem aumenta tanto quanto o mal, senão Mais, a diferença é que um grita enquanto o outro silencia. Sabemos filosoficamente e espiritualmente que quanto mais alguém grita, maior também é a nossa chance em aprendermos a nos calar. E se conseguimos isso, sabemos que cada vez maior o silêncio se tornará.

Então é um dever das pessoas que querem algo melhor se purificarem em muitos sentidos, encontrarem parâmetros de purificação, parâmetros para que sejam mais obedientes, castas e pobres – pobres inclusive de amigos, deixando as pessoas que falam besteiras de lado, por que se fala besteira “então não foi feito para ser meu amigo”, ponto, e tudo bem. Sendo castas ao não repetirem aquilo que o outro já falou que machuca, aquilo que sabemos que não vai trazer nada de espiritual para vida alheia, porque o outro já se olha no espelho e já se constata fisicamente todos os dias, eu não preciso dizer para ele que ele é gordo, preto, vesgo, ele já sabe, ele já se vê no espelho todos os dias, e se eu for falar isso por uma questão de cura, por uma questão da pessoa realmente não conseguir se perceber (porque tem pessoas que demoram para perceber a própria cor, por exemplo), ainda assim, é com amorosidade que se diz, não é “você é preto, assuma; você é branco, se toca”, não é assim, mas com amorosidade que se conhece a si mesmo, do contrário você não estará curando, mas ensinando o outro a duvidar de si mesmo, ou pior, a odiar a si próprio, mesmo com todas as boas intenções do mundo dentro de quem assim o faz.

Então como tornar este dizer que o outro é branco, preto, amarelo, vermelho de maneira amorosa, de maneira que ele ame a cor dele, o tamanho dele, ou o que seja de característica física dele? Isso só para ficar no físico e não ir para adjetivações como idiota, burro, CDF, nerd e não ir para um campo intelectual, mas só ficar no físico nesta caminhada nossa… como ser realmente amável com o que o outro carrega do lado de fora? Essa é a questão, porque se eu não sou amável com a externalidade que ele me apresenta, ainda que torta aos meus olhos, ainda que deformada, ainda que morna, ainda que fria ou quente, se eu não for capaz de amar com toda a sinceridade que pode, inclusive, por amor, me afastar daquela pessoa, porque amor não se confunde com permissividade, mas se eu não for capaz disso, que é algo tão difícil ainda que extremamente simples, como serei eu capaz de amar o que não vejo e que está dentro de todos nós?

É com amorosidade que eu vou fazer qualquer constatação a respeito do outro, é diferente de constatar por constatar, por cegueira ou por vaidade de ter olhos para observar. Assim como amorosidade também tem a ver com a abertura do outro ser, o tempo do outro, não o meu que quero falar, que quero dizer, sendo que não é tempo de dizer, não é para dizer e ponto. É uma falta de respeito falar aquilo que o outro não está preparado para ouvir. Isso é ser desobediente quanto à evolução espiritual geral, porque se está considerando só a sua evolução de que “eu estou preparado para dizer tudo, para ser o mensageiro da verdade” e acaba por perder a noção de que a mensagem é específica, ela não é aquilo que o Anjo, Espírito, entidade ou o ser humano está afim de dizer, eles têm ordens específicas a seguir para aquilo que se tem a dizer.

Quem acha que espiritualidade e religiosidade é bagunça é porque não está sabendo praticar direito, se acha que pode tudo e continua fazendo e falando de tudo, apontando dedo pra tudo, seja no rigor seja na libertinagem, é porque não está se aprofundando de toda maneira possível, eu não julgo aqui a maneira como a pessoa está se aprofundando, se torta ou reta, o que seja, mas apenas constatando que certamente ela poderia ir mais fundo, e não está indo tão fundo quanto poderia, pois a espiritualidade e as religiões oferecem ferramentas de mergulho.

Ou seja, adianta proibir uma palavra de ser dita? Não adianta, porque a intenção continua no coração daquele que diz, o que continua saindo da boca continua sendo podre, e a gente sabe que às vezes não é preciso nem dizer nada, basta a maneira como a pessoa nos olha dos pés à cabeça que a gente já sabe que foi xingado e analisado da pior maneira possível, seja por nojo que o outro sente, seja por desejo sexual, seja por indiferença inclusive e não sermos sequer vistos, como que transparentes, não sermos enxergados, sermos invisíveis perante a sociedade, ou seja por deformações nos olhos alheios que veem em nós o que não somos por se recusarem a nos ver como realmente nos conhecemos e, portanto, nos apresentamos, como no caso de muitas pessoas trans.

Então adianta proibir a palavra? Não, porque as intenções estão para além das palavras, não adianta proibir de falar negão e fazer todo mundo falar afrodescendente, não adianta, mas é permitido sair por aí todo mundo chamando qualquer pessoa de “ôh, negão, ôh, preto, ôh, seu gordo, seu gay, sua bixa, sua lésbica” adjetivando como eu quiser, ou mesmo tratar “esse branquelo, ai, branquitude”, com ressentimento, é correto isso? Essa libertinagem de “eu te chamo do jeito que eu quero porque você me chama do jeito que quer”. Não. Não convém, e não convém simplesmente porque nós sabemos que homens que se tornaram um pouco melhores não fizeram e não fazem isso, não precisa nem ser Anjo, entidade, Orixás, espírito etc., basta observar seres humanos que se tornaram um pouquinho melhores: eles não diziam qualquer coisa, aliás normalmente eles falavam pouquíssimo, pouquíssimo! Porque todas as boas pessoas, e boas no sentido de pessoas que querem verdadeiramente se tornar melhores do que são, buscam praticar algo diferente hoje do que foi praticado ontem, e isso não significa que elas vão ter atitudes de sair salvando o mundo, não são pessoas salvadoras necessariamente, ainda que por fim se tornem curadoras da humanidade por terem encontrado formas elevadas, virtuosas, de curarem a si próprias, sendo pessoas que se tornam melhores hoje porque são melhores do que foram ontem simplesmente.

Seja consciente ou inconscientemente, essas pessoas passam a seguir, elas seguem três diretrizes já mencionadas: da castidade, pobreza e obediência. Castidade – ao saber que o que se diz é puro de coração, é puro de intenção; pobreza – no sentido de não se falar qualquer coisa em termos de materialidade, porque nem sempre, aliás, a maior parte das vezes, não convém ficar descrevendo o mundo, caracterizando e categorizando o mundo, enchendo de adjetivos como se isso fosse tornar rico absolutamente tudo, é uma falsa riqueza, então é uma pobreza de adjetivos, uma pobreza de descrição, por que é só nessa pobreza que se consegue se aproximar daquilo que significa uma contemplação do ser que está realmente à nossa frente; e obediência – porque a gente passa a ver, quando a gente se torna um pouquinho melhor, que só se deve dizer aquilo que é realmente um dever dizer, e o dever não se baseia só no que eu preciso dizer, mas que o outro precisa de nós.

O mensageiro leva uma mensagem que o outro precisa ouvir, e não o que ele precisa dizer, o mensageiro carrega uma mensagem do rei, que o rei precisa dizer, ou seja, para ser dita especificamente para uma ou várias pessoas num determinado contexto num determinado local sobre um determinado assunto e nada mais, ele não acrescenta palavras próprias, ele não passa nenhuma intenção, senão a de verdadeiramente deixar ali a mensagem de quem está acima dele… Por isso que religião não é bagunça, espiritualidade não é bagunça porque estes Seres mensageiros passam por privações (por pobreza, castidade e, portanto, são obedientes), seja privação do corpo porque morreu, seja privação inclusive por não conseguir passar por essa carne, como nós, para trazer certas mensagens (como o caso dos Anjos), seja em qual grau ou motivo que for, ficam privados do contato conosco, e junto a essa privação obedecem os que estão acima deles, obedecem às forças hierarquicamente maiores que eles, ainda que involuntariamente, como no caso do mal.

Então é preciso saber, é preciso compreender que o outro, no mínimo, está acima de mim quando eu vou passar uma mensagem, porque se é sobre o outro que eu vou falar, ele é o sagrado que se apresenta perante mim, não que ele se torne o rei, não, mas é com ele, com o outro, e não com o mensageiro, que o rei quer falar. Então eu não posso dizer qualquer coisa para ele sobre ele mesmo, porque senão eu vou pecar, e pecar, a palavra pecado, tem a sua etimologia em errar o alvo, ou seja, eu vou falar e vou pecar porque aquelas palavras não vão acertar o ouvido, a mente e o coração de com quem eu falo, mas se torna um passar reto pelo alvo, um tangenciar no máximo, esbarrar e “amanhã já esqueceu”,  igual fofoca que não fica nada de essencial ou que impregna da maneira errada e acerta todos os órgãos menos o coração, menos o centro do alvo, então é preciso ter muito discernimento para compreendermos que o politicamente correto não vai nos levar a uma lapidação de intenções, não vai, ele apenas constata que há más intenções no mundo, e irá haver por enquanto, e “só” isso.

Assim como é preciso compreender que a liberdade, que se torna libertinagem, também não cria nada senão as boas intenções que enchem o inferno constantemente.

É ilusório achar que ao falar qualquer coisa se está passando a mensagem do rei.

Mas para quem busca uma forma de se tornar verdadeiramente melhor, uma das maneiras de se aprender a deixar de ter más intenções, sejam voluntárias ou involuntárias, diretas ou indiretas, conscientes ou inconscientes, inclusive podendo ter a roupagem de boas intenções, no fundo se revelando más porque vão para o inferno, é através da poda de si mesmo, porque já não convém falar qualquer coisa para qualquer lado crescendo um galho de qualquer jeito, então é preciso podar as palavras, podar as intenções, podar as conversas, podar o que a gente ouve também, então “eu não vou ser mais seu amigo” e tudo bem, eu não preciso fazer algo contra o outro, só virar as costas e sair andando, não regar mais aquela pessoa, não nutrir mais, porque quando a gente empresta os nossos ouvidos para o outro dizer qualquer coisa nós estamos nutrindo as palavras dos outros, é como dar audiência ou clientela, permanecer é uma das formas de nutrir as palavras alheias porque o outro continua falando, falando e falando mais e mais e mais, então quer ser melhor? Pode, corte, não proibindo o outro de dizer, mas proibindo a si mesmo de continuar ouvindo besteira alheia, pare de regar as palavras alheias, pare de deixar crescê-las em você mesmo, pare de permitir que o outro cause enxertos, porque isso, por mais que a gente não reproduza, cola na gente, por isso é que é complicado, é a velha história de que “eu sou homem estou numa mesa e os amigos são todos machistas fazendo piadas machistas e está tudo bem, porque são primitivos mesmo, são ignorantes”. Não, não está tudo bem.

Não está tudo bem se a pessoa tem real interesse em se melhorar.

Se a gente sabe que aquilo está sendo numa ingenuidade de quem conta a piada machista, faz o comentário machista por exemplo, tudo bem tolerarmos por um tempo, tudo bem caminharmos juntos, mas é preciso observar que chega num ponto em que não convém, porque o outro já sabe que aquilo é não se melhorar, no mínimo, ainda que não seja se piorar necessariamente. Não piora, mas não melhora, não deixa de falar as besteiras. E Eu falo por mim, Le Tícia Conde, eu, por exemplo, quero pessoas que queiram se melhorar ao meu redor, porque todo dia eu busco genuinamente, ainda que possa ser de maneira torta, mas genuinamente me melhorar, então é a velha máxima de “me diga com quem andas e te direi quem és”, porque se a gente não anda com pessoas que procuram se melhorar, então provavelmente nós também não estamos nos melhorando, fazendo as podas que são necessárias, cultivando as sementes que vão crescer e dar novos frutos, fazendo os enxertos que são necessários, queimando os galhos que estão secos, enfim, fazendo todo o ciclo que já aprendemos que é necessário.

Cristo, por exemplo, sempre falava que perdoava, mas também sempre dizia “vai e não peques mais”, ele sempre aconselhava o melhor. É preciso observar que as pessoas que andavam com ele eram pessoas que se melhoravam. “Ah, mas tinha um Judas que não se melhorou, só piorou…” será? Mesmo Judas se arrepende, joga as trinta moedas de prata no chão e vai se enforcar por tamanha vergonha e arrependimento quando ganha consciência do que fez.

Então: é preciso conhecer o coração daqueles com quem nós andamos.

Não adianta haver uma mesa de 12 Judas, sentar no bar com 12 Judas… precisamos nos questionar se isto convém, se estamos realmente seguindo o exemplo do Mestre, isso no caso de cristãos, para dar um exemplo dentro daquilo que eu acredito e vivencio. Mas claro que todas as religiões vão ter seus arquétipos, é possível transportar simbolicamente para qualquer religião esses fatos, se nós nos rodeamos de somente um tipo de energia, há algo estranho ocorrendo, não há um equilíbrio, é preciso suspeitar…

Ou seja, isso significa que começamos a suspeitar que, se ainda não somos capazes de ter plena amorosidade em relação a tudo o que pensamos, falamos e a forma como agimos, se nós não temos essa capacidade amorosa, é preciso, no mínimo, suspeitar que é preciso ter humildade, se humilhar ao assumir humildemente que não temos essa capacidade de amar só por amar, só falar por amor e com amor, só agir por amor e com amor, só pensar por amor e com amor.

Então é preciso seguir as leis com um pouco mais de rigor, trabalhar nas obras sagradas com foco e louvor, num sacrifício de si, matando o antigo eu todo dia e ofertando a quem precisa ver que é possível fazer a mudança acontecer, nem que seja um pouquinho, tornando com isso o sacrifício um sacro ofício, um servir ao divino, seja qual for o nome que se dê, para que então se alcance minimamente alguma melhora, acreditando nesta melhora, crendo nela, porque se a gente não acreditar também não adianta, porque eu acreditar na melhora é análogo a ter Fé, então é necessário cumprir as leis e fazer as obras tendo fé. Se cumprir as leis sem fé, de nada adianta, porque o coração estará impregnado de ignorância ou maldade, então de nada adianta, é só “para estrangeiro ver”, é só para Deus ver, porque no fundo não é real, não é verdadeiro – se, e somente se, não crer… não adianta fazer tipo, máscara, personalidades, personas boazinhas, eu preciso realmente crer na bondade que eu cultivo, é preciso crer, senão em seres espirituais – em um Deus, em almejar o espiritual -, que seja ao menos crer e acreditar nas virtudes. É preciso querer se melhorar acreditando que vai ser possível se melhorar, crendo em si mesmo – no mínimo, no mínimo acreditando que “sim, eu consigo ser alguém melhor” e verdadeiramente fazer todas as obras almejando ser alguém melhor.

Porque no fundo é uma questão de você acreditar que vai ser melhor e se mover em direção a isso, é conseguir ver esta figura de um eu-melhor cada vez mais materializada no pensamento, e é o materializar no pensamento esse ser-melhor que faz com que haja a possibilidade dele surgir realmente, se materializar, não por repetição da visão, mas a repetição da visão leva uma visão final deste ser ideal que faz com que tudo se materialize pela intensidade com que amamos esse alguém que estamos nos tornando e ajudando os outros a se tornarem também.

As coisas estão interligadas, não é possível só acreditar e ficar apenas visualizando um ser melhor e não colocar em prática essa tentativa de ser este melhor, porque isso é não estar sendo. Claro que este ser melhor que eu visualizo não vira realidade de uma hora para outra, ainda que isto seja possível, porque para Deus tudo é possível, mas colocando o mundo dentro do espaço e do tempo que todos estamos acostumados, de algo para ser trabalhado cronologicamente, e não quanticamente, ou seja, olhando para essas mudanças usando Cronos, e não Kairós, não salto quântico e analógico, mas lógico e cronológico, vemos que é preciso trabalhar todo dia, toda hora, todo minuto, todo segundo para que em algum momento isso tudo se materialize, se for da vontade divina alinhar todas as imagens em uma manifestação só. Ou para quem não acredite em espiritualidade, ainda assim, até que sejamos sábios o suficiente para que se manifeste em nós virtudes de uma consciência realmente superior, porque manifestar uma virtude ou outra aleatoriamente qualquer um consegue, por assim dizer, difícil é alinhar a necessidade que o momento me exige enquanto virtude com a minha verdadeira sabedoria superior – através dela.

Então eu vou poder ser liberal e falar qualquer coisa porque tá tudo liberado (afinal, eu sou superior)? Não.

Ter liberdade não é sinônimo de libertinagem, e o lado liberal do mundo está muito mais pendente para o lado da libertinagem de “eu falo qualquer coisa, pego qualquer palavra e cruzo com qualquer palavra e crio qualquer sentença”, numa orgia linguística promíscua que vai permitir a criação de algo novo, sim, mas também vai permitir esse novo nasça deformado, como a criação de novas formas de ofensa, por exemplo.

Isso faz com que, então, tudo esteja proibido? Não posso mais falar nada? Nada sobre a cor do outro, sobre o tamanho do outro, o físico do outro, a característica do outro…? Obviamente que não, não é por aí, porque senão a gente começa quase que a desconstruir a materialidade em si, e não é negando a materialidade alheia que as coisas se dão, mas semeando-a com todo o Respeito e Amor verdadeiros. Isso não se consegue pelo rigor da Lei.

Junto à liberdade verdadeira vem o saber que a liberdade é paradoxalmente pregada ao fato de que “eu não falo o que eu quero”, mas falo aquilo que meu coração pulsa e minha mente discerne para que seja dito da maneira mais clara possível, sem ruído, sem intenções – sejam boas (das quais o inferno está cheio), sejam ruins (que fazem fila atrás das boas para entrar no inferno também).

Intenções são ruídos: se eu venho com a minha finalidade, se eu venho com a intenção de causar algo específico, isso é um imenso ruído. Eu já fiz um vídeo sobre a ‘Poesia da Intencionalidade’ e mostrei lá justamente o lado Belo da intencionalidade, mas sabendo que a intenção e a finalidade não são minhas, mas sim daquele que chega para compartilhar comigo o que eu aqui divido, ou são do rei, são o próprio rei, aliás.

Se eu coloco uma finalidade de “vem cá que eu vou te ensinar como você é, quem você é, vem cá que eu vou ensinar como falar direito, como ter boas intenções, ou mesmo intenções verdadeiras, vou ensinar como ter o coração bom e pleno”, se eu coloco esse tipo de finalidade, qualquer uma, por mais que ela tenha uma roupagem de chumbo ou de ouro, ainda assim é um inferno, porque o que eu quero dar, não é o que o outro quer e precisa receber. Às vezes o outro sequer está preparado para receber o que tenho a oferecer, sendo que o outro é o sagrado que se presentifica na minha frente, e tudo se torna um inferno porque aquele sagrado não vai receber o que eu digo, então eu é que vou para o inferno, pois eu quis forçar um céu para ele e ele disse: não, amiguinho. Ainda que ele possa ir para o inferno comigo se ele abraçar o que eu digo, isso acontece muito hoje em dia: o outro fala aí a gente vai e abraça e desce para o inferno juntinho… não deveria, a princípio, pois o que é do outro é do outro, eu não preciso carregar comigo (e isso não se confunde com ajudar a carregar o fardo alheio, que é algo completamente diferente). É assim se vai para o inferno com boas intenções, porque eu não observo que quem está na minha frente é o sagrado com quem eu devo falar e todo mundo sabe que para falar com um ser sagrado é preciso saber muito bem o que se diz. Até porque se não se vai para o inferno por conta do outro se recusar a ir a qualquer lugar sagrado comigo dentro do que eu invento de mim mesmo e digo, certamente o rei irá exigir a devida conta com o mensageiro que passou a mensagem errada ao seu amigo ou mesmo ao serviçal do reino. E este é o símbolo do que se diz ser o inferno eterno, condenado a ficar sem lar, sem função, sem reinado, sem nada nem ninguém.

As religiões ensinam isso através da oração, de que não se olha de qualquer jeito para si e para o outro, mas se olha com o coração, no mínimo. Que é como nós devemos fazer uma oração: com o coração, ao olhar para Deus e falar do nosso íntimo. E com o tempo a gente vai refinando e vendo que mesmo o que a gente acha que está no coração, não é bem o que julgávamos ser, porque “se está no meu coração que eu quero que alguém se cure, que eu quero ganhar alguma coisa, ter uma vida digna, se está no meu coração é algo bom e frutífero!”, mas a gente passa a ver com o tempo que tudo que nos é dado é aquilo que tinha que ser, que precisávamos para que aprendêssemos algo que a gente nem sabia que precisava aprender.

E parte do plantio está em saber aguentar a poda, o corte, a ceifa, o solo nu e frágil, desprovido de qualquer semente, que só virá quando for o tempo certo para que, com ciência e discernimento, e fé – crença no mínimo em si mesmo -, ela cresça.

Ou seja, a oração do coração passa a diminuir com o tempo inclusive, passa a ser um silêncio, e se tornar muito mais próxima daquilo que Deus quer me dizer, e eu é que não tive ouvidos para ouvir o tempo inteiro porque estava a falar, ainda que com palavras belas, que foram necessárias dentro do tempo delas. Mas que também evitavam que eu pudesse ouvir.

Isso faz ver que se eu não sou capaz de ouvir o outro que está na minha frente, se eu não sou capaz de ouvir que o outro não está afim de ouvir sobre as características dele, por exemplo, porque isso pouco importa, simplesmente porque não importa, então eu não sei lidar com aquele sagrado que está materializado ali e muito menos com o consagrado não materializado na matéria física óbvia. Claro que o sagrado está em tudo, ainda que não de maneira a fazer com que tudo seja sagrado, porque ser é diferente de estar, mas se eu não sei respeitar o sagrado que está na minha frente, que dirá Aquele que eu não vejo de maneira palpável… Eu não vou saber respeitar mesmo caso eu veja seres nas matérias superiores, não vou respeitar algo sagrado para o qual é necessário, antes, que eu me cale se eu não sei me calar e parar de usar certas palavras porque o outro me pede para que pare, e tem fundamento o seu pedido, mas eu continuo insistindo porque eu pendo mais para a libertinagem. Se eu tenho um grande problema em simplesmente fechar a boca e não falar certas palavras para quem simplesmente não está preparado para ouvir, ou simplesmente não quer ouvir mais porque não aguenta mais ouvi-las, porque fere o outro cada vez que alguém diz… se eu não sei fazer minimamente um movimento desses, tão mundano, que dirá um movimento sagrado de silenciamento interior de fato.

Eu não saberei respeitar o sagrado se não sei afrouxar também, do mesmo modo, os laços e abraçar quem se dá a liberdade de errar comigo, de tropeçar nos meus defeitos e qualidades, nas minhas características físicas, intelectuais, psíquicas, e até mesmo espirituais. Se não sei que é humano errar, se eu trato todo mundo como máquina – que precisa aprender da noite pro dia. Se eu não compreendo que é humano errar, e não compreendo que é sagrado perdoar e um milagre o continuar, agora e sempre, a Amar, então eu também não sei e não tenho a menor ideia do que faço. E sou possivelmente mais improdutivo que os libertinos que falam qualquer bobagem, mas pelo menos aos risos se abraçam.

Se eu sirvo apenas como dedo-duro de quem fala x ou y, estou condenando à fogueira, aliás, anda-se metendo fogo de verdade, estou numa santa inquisição condenando à prisão pessoas que podem simplesmente estar exercendo a primitividade delas na busca genuína por compreensão. A política anda de mãos dadas com a polícia, seja nas ruas, seja na cabeça do povo, então é preciso acautelar, permitir que se possa pôr à prova, e saber que exigir 10 de todo mundo é insanidade, é maldade, é perversidade de quem assim o faz.

Então em ambos os casos, tanto do libertino e a forma promíscua de gozar, quanto da política correta de como transar, ambos não sabem o que é orar porque provavelmente, enquanto eu pendo para qualquer desses lados, eu provavelmente estou falando para Deus aquilo que eu acho que Ele quer ouvir, na maior das vaidades e prepotências minhas, porque eu acho que Eu sou capaz de dizer aquilo que Deus quer ouvir, oras, eu sou amigão de Deus, “né, parça”! Ou eu sou quem sabe as palavras que Deus quer ouvir conforme a Lei, o maior e mais fiel servo do senhor, “não é Senhor?!”, tal qual um perfeito puxa-saco! Para dizer o mínimo. Querendo barganhar com o divino.

Então qual é a poesia em relação ao que se fala? Qual é a verdadeira poesia da Palavra? A verdadeira Poesia é o caminho do meio. Um caminho de estreita passagem – é verdade, mas que vale a pena cada segundo cronológico e lógico, bem como cada salto quântico e analógico, ambos, de mãos dadas, para que, por milagre, se chegue ainda mais longe do que sequer se imaginava!

Nos atentemos, porque nós não iremos curar intenções alheias se as pessoas não estão preparadas para serem curadas e, principalmente, se elas não querem a cura, seja para qualquer um dos lados, assim como não é pela libertinagem que se vai fazer uma orgia e conseguir parir algo verdadeiramente Belo, bem como não é pelo rigor que se vai, por pureza forçada, seguindo “o manual da transa casta”, parir criaturas que sejam verdadeiramente Boas, pois ambas as coisas não são Verdadeiras em Verdade.

Pois o que é verdadeiro é creado com Amor.

Então cuidemos com mais Amor das nossas Palavras, com verdadeira castidade, com verdadeira pobreza e em verdadeira obediência ao que acreditamos ser superior – seja o divino no espiritual, seja a virtuose e sabedoria no psíquico e intelectual…

Quem sabe a gente em algum momento consegue fazer um caminho do meio e nos tornarmos Poetas, todos, não ao excluir as extremidades, mas aprendendo a usá-las para amorosa e milagrosamente crearmos e, assim, nos curarmos, em verdade – por inteiro.

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