O que é a Personalidade?         

 

          No vídeo anterior eu comentei sobre o que acontece quando nós usamos, o risco que corremos quando nós usamos a personalidade ao falar e ao escutar. Como que a nossa fala, as nossas palavras são um convite a adentrar um espaço, e como a personalidade é aquilo que enche de alegorias esse espaço, enche de características que são momentâneas, porque elas dependem (a personalidade depende) do que eu estou sendo nesta vida, do meu estado, da minha condição nesta vida.

           É claro que há um espectro que a nossa personalidade comporta, talvez ela seja justamente isso.

          Eu não sei nada de teorias psicológicas, eu não sei nada de teorias. A ideia aqui não é um debate teórico, a ideia não é nem um debate, a ideia é só tentar pensar alguma coisa, alguma tentativa de se chegar a algum caminhar, não a algum lugar, mas a algum caminhar.

          Então, talvez a personalidade de cada um seja a capacidade de espectro, que nós temos, de manifestação do nosso Eu nesta vida. Como a luz, como as ondas – que a gente sabe que algumas a gente capta de um tanto ao outro -, como as do som também, em que a gente sabe de que frequência até qual frequência nós somos capazes de ouvir e ver, até que saibamos que elas em si extrapolam os nossos órgãos sensoriais, as nossas capacidades de sentido.

          A personalidade talvez tenha uma semelhança com isso: à medida que o Eu, o Ser, ultrapassa qualquer capacidade que tenhamos de espectro, de definição de um espectro. Mas cada Ser aqui da Terra, humano, necessariamente – porque animais ainda não têm personalidades, eles ainda não são indivíduos a ponto de terem personalidade, ainda que tenham traços próprios de cada um, como que brotando esse princípio no futuro, uma futura possibilidade de personalidade, mas sem levar isso em consideração por agora, sendo que somente os humanos são capazes de um processo de individuação, de consciência, de uso da mente enquanto uma lente focal para se observar o mundo, a Personalidade talvez seja isso: um espectro do que é o Eu – que não há limite, ou se há nós desconhecemos ainda.

          E dentro desse espectro, nossa capacidade de usá-lo em termos de características que são pertencentes a ele é o que dá cor, vida, som, o que dá gosto, sabores, é o que dá o encontro com o mundo. É a membrana pela qual a gente encosta e sente o mundo, os sentidos pelos quais a gente entra em contato com o mundo, em termos de individuo, em termos de Eu.

          Sob esse ponto de vista (que não é o meu ponto de vista), sob esse parâmetro de discernimento (de que a personalidade é esse espectro e cada um tem o seu), sendo ele necessário para que nós consigamos ter consciência da manifestação do Eu, assim como o limitar das frequências das ondas é necessário para que consigamos estar em contato com as ondas e captá-las (ainda que um dia possamos alargar nossos sentidos e observar outras maiores e menores frequências dessas ondas, mas…), levando em consideração que, para começo de vida, nós precisamos aprender a estar nessa faixa limite para conseguirmos começar a observá-la como um Ser dentro da nossa consciência, a personalidade também se torna necessária para que consigamos nos observar uns aos Outros e a Si mesmo.

          Isso faz com que qualquer fala que eu tenha não seja possível estar fora desse espectro, mas seja possível escolher se em maior ou menor frequência, em qual cor, em qual nota, em qual volume, timbre, tudo, o degradê para que eu fale com o Outro. Então escolher qual frequência da minha personalidade eu irei usar ao falar com o Outro, ver aquela que faz com que o cômodo (o qual eu irei apresentar ao Outro), o espaço (no qual eu irei abrir a porta para que o Outro adentre), seja agradável.

          Então, talvez nós possamos observar que não só as palavras que eu escolho ao falar com o Outro, mas toda e qualquer vibração presente em mim que eu escolha, sendo uma delas a minha personalidade, vai modular, vai dar cor, vai vibrar, construindo esse local em que o Outro irá adentrar enquanto eu falo. Porque o falar é a construção constante deste local.

          Cada vez que eu acrescento uma palavra uma tonalidade, ou uma expressão da minha personalidade, uma característica da minha personalidade, é algo a mais que eu mostro: é um lustre que eu revelo, um móvel que eu coloco dentro, é uma flor, um detalhe, seja qual for, é um papel de parede, e o detalhe que cada um quiser que seja. E aqui é só uma analogia, é claro. Mas nós começamos a ver que, é isso – se eu faço o uso desenfreado da personalidade, isso significa que eu estou abarrotando de coisas muitas vezes, abarrotando de coisas de maneira caótica, porque se eu não tenho consciência do espectro ao qual eu estou sujeito nessa vida e quais são a frequências dentro dele que eu consigo utilizar, e de qual eu tenho consciência (porque às vezes eu tenho o espectro dum tamanho, mas a consciência menor do que ele, tem isso também), se eu tenho consciência só dum pequeno tamanho do espectro, é só isso que irei usar, ainda que meu estar no mundo pudesse ser maior. Então usar a personalidade de maneira caótica, desenfreada, inconsciente faz com que eu coloque uma cama no teto.

          No vídeo passado eu dei o exemplo da luz apagada e o chão cravejado de diamantes ou cheio de pérolas: quem entra em um cômodo escuro, não importa qual pedra preciosa haja no chão, vai ser só uma pedra!

              A preciosidade da pedra não está na pedra em si mesma,
              mas na luz que se lança sobre ela!

          Se eu aprendo a ter consciência da minha personalidade, eu aprendo a manejá-la! Mas não de maneira maniqueísta. (Porque é claro que pode se tornar algo maniqueísta, algo de perverso e há pessoas que fazem isso, nós sabemos, há profissões que inclusive exigem isso em termos de que são recheadas de pessoas imorais porque fazem uso até mesmo do carisma para angariar desejos realizados, fazer com que o povo realize os desejos pessoais da pessoa e ela não realizar os desejos de quem ela prometeu realizar, por exemplo).  Pois há como utilizar a personalidade com fins escusos, sim, há como utilizar a consciência para fins maléficos, mas sem entrar nesses méritos, que não são méritos algum, pelo contrário, mas sem fazer alarde sobre isso, ainda assim, dando a liberdade de cada um fazer o que quiser com o conhecimento, lembrando que há consequência… Sempre há consequência…:

           A consequência é uma Lei, e sendo uma Lei ela é um Ser Vivo, e é um Ser muito mais evoluído do que nós. Então não adianta querer estar acima dela, isso é pateticamente impossível. É possível ser amiga dela, estar acima não. Mas ok. Não entremos nesses méritos também, é desnecessário, mas sabendo que há consequências, ainda assim falemos da personalidade e da maneira de manejá-la…

          Quanto mais nós tomamos consciência da nossa personalidade, a nossa possibilidade do nosso Eu estar aqui, estar agora aqui, mais nós somos capazes de criar coisas dentro desse cômodo: criar ideias, criar arte, criar coisas, criar pessoas, relações… e criar escuridão. Gerar escuridão e também dar espaço para a luz. É uma escolha.

      E quando não se tem consciência dessas escolhas que nós temos que fazer, seja consciente ou inconscientemente, nós acabamos por lançar as pessoas ou em cômodos escuros, ou cômodos abarrotados de coisas, ou cômodos vazios, ou abismos, em caos, tempestades de areia, em desertos (porque tem pessoas que abrem portas que só dão em desertos), e talvez então nós vamos ver que não seja possível realmente, nem desejável, escapar da personalidade, e seja qualquer o tom afetivo que eu use aqui, seja de extroversão ou introversão, de alegria ou tristeza, de ansiedade ou quietude, de bom ou mal, alegre ou triste e os adjetivos que se quiser, serão apenas temporários. E se eles estiverem dentro do espectro da minha personalidade eles serão reais. Então qual é realmente o problema com a personalidade?

          Os orientais veem isso como um problema tão grave, que tradicionalmente se busca o Nirvana, que é justamente a dissolução para que a personalidade não se manifeste, para que nem se corra o perigo de se perder crendo que seu Eu é esse espectro – porque há pessoas que acreditam nisso e que são inclusive aparentemente boas, que acreditam que por serem boas elas são essa bondade, sendo que não, ser bom, bom é um adjetivo, não é o que você É.

            É muito difícil ter consciência do espectro dessa nossa personalidade: até onde a gente consegue ampliar isso e até onde está sendo limitado e usado de maneira desordenada. Mas se ela é uma ferramenta para ofertar ao Outro coisas que eu posso criar para estar em contato com o Outro, então talvez o Outro seja uma boa medida em relação a Eu estar em relação com a minha personalidade.

          É claro que no mundo em que nós estamos é difícil a prática de tudo isso, e não há fórmulas, há Forma: Forma há, porque senão as coisas se deformam. Forma há! Mas forma não é fórmula, e a fórmula para se chegar à forma é que é um mistério. E o passo difícil.

            Se nós partirmos do que foi falado no vídeo anterior sobre a fala e a escuta, sobre as palavras, se eu começo a observar o cômodo que eu construo para que o Outro habite (não importa o Outro estar ou não consciente de que ele está habitando um cômodo que eu construo, não importa ele estar ou não consciente da própria personalidade), eu conseguirei ver ainda assim como construir para que aquele Ser habite, mas para isso é preciso que eu também veja com muita clareza tudo isso. E aí nós entramos numa outra questão que é:

            O que é a visão? O que é eu ver claramente um processo?

       Quando o Outro está dentro do cômodo que eu construo, quando eu vejo o Outro ali, ele pode estar passando mal, se eu me conheço, se eu tenho clareza sobre mim e sobre minha personalidade, eu sei qual parte do meu espectro eu preciso acessar para que eu construa um hospital para o Outro, para que eu ofereça uma cama, um chá, para que eu ofereça uma maca, uma banheira, uma camisa de força se necessária, para que eu ofereça algo que alivie o que o Outro está passando.

          Ah, mas eu quero construir shopping, livraria, eu quero ofertar livro para os outros, em termos de conhecimento, eu quero ofertar bonecas, quero ofertar roupas, quero ofertar carro… teoria, igreja…

          Bom, se você quer ofertar algo para o Outro em termos da sua personalidade e de construção, então muito provavelmente você não tem clareza: nem da construção de si mesmo, muito menos do Outro. Porque essa ferramenta, se nós checamos essa observação de que a minha personalidade é para construir um cômodo para o Outro (em termos de como eu o revisto, com que eu o enfeito, qual tom esse cômodo terá, se é um jardim – quais flores florescerão, quais árvores darão sombra, enfim, a analogia que se tiver a capacidade de imaginar, ou que se tenha capacidade de imaginar), se eu observo e chego a esse ponto de observação: de que a personalidade é para essa construção dos detalhes daquilo que estou a ofertar, então talvez nós possamos observar também que muito provavelmente esse espectro da personalidade não é para que eu construa o que eu quero, que a personalidade não existe para que eu satisfaça os meus desejos: ela existe para que eu ofereça ao Outro algo do meu Eu.

          E nisso nós vamos ver que no mundo, neste ponto em que estamos, há muitas pessoas que justamente não têm a plena capacidade de uso – não direi consciência, porque eu não sei da consciência alheia, eu posso supor que a maioria não tenha consciência da própria personalidade, não tenha uma boa subjetividade, mas ainda que tenha o princípio de uma boa subjetividade, coloquemos assim, creio que ainda é muito difícil encontrar quem tenha o pleno domínio disso enquanto ferramenta: ah, eu sou extrovertida, introvertida, a b c d e f g h i j… enfim, o alfabeto inteiro… Quando eu chego ao ponto de observar que a personalidade está a serviço do Outro, eu compreendo que quando estou alegre ou triste, quando estou deprimida, quando estou feliz, quando estou ansiosa, enfim, de bem com a vida, mal com a vida, quando eu estou em algum estado de ânimo ou desânimo, é claro que isso diz muito a meu respeito, diz respeito à saúde do meu sutil, mas em relação ao Outro, na construção que a gente faz, em termos mais elevados, aquilo que eu estou construindo perante ao Outro, que eu estou sendo perante ao Outro, é para o Outro!

          Então toda possibilidade do espectro da minha personalidade deveria ser pautada na escolha daquilo que eu quero mostrar ao Outro, compartilhar com o Outro, construir com o Outro, vivenciar com o Outro, e à medida que eu faço essa construção junto ao Outro (e o Outro muitas vezes não vai ter a capacidade de observar certos detalhes do meu espectro, assim como ele vai ter capacidade de ver coisas que eu não vejo nesse meu espectro, detalhes desse degradê, dessa tonalidade, dessas frequências para as quais eu não estava desperto, atento, talvez…), isso diz a meu respeito e diz principalmente a respeito do Outro, porque o que o Outro também é capaz de ver nesse meu espectro é de acordo com o limite do olhar dele.

          É claro que eu empurrar alguém, eu colocar alguém em um cômodo escuro com pedras pelo chão, sejam preciosas ou não, é algo que, a priore, parece um equívoco, e que na maior parte das vezes, na nossa humanidade, é um equívoco, porque a gente não sabe que está fazendo isso, e quando nós colocamos alguém em um cômodo de maneira inconsciente é um grande equívoco: a inconsciência, a ignorância, é o único equivoco, único erro real nisso – não exatamente a escuridão em si e nem as pedras no chão, mas eu não ter consciência da escuridão e das pedras, e de que estou colocando alguém lá.

          Mas quando eu sei que estou colocando alguém em um quarto escuro e lanço pérolas nesse quarto escuro e a pessoa não é capaz de ver, porque ela não tem outros sentidos tão desenvolvidos quanto a visão, então ela se apega à visão e estando escuro ela não vai ver o que eu joguei no chão ou em qualquer espaço desse cômodo que seja, pode ser um jardim cheio de flores, se elas não tiverem odor, a pessoa não irá ver… então, ela passa a ter medo, e ela passa a julgar, a ofender, a xingar, e todo julgamento é um equívoco a partir da hora em que eu estou deixando de ver a essência do Outro.

         Porque a minha personalidade está aqui a trabalho do Outro, está a serviço do Outro para que meu Eu trabalhe: a personalidade está a serviço do Eu para que o Eu trabalhe ao Outro, então a personalidade também está a serviço do Outro ao ser serviçal do Eu, do Espírito. E nesse imbricar das situações, eu consigo ver que aquele que não sabe, não tem ou não consegue, ou o Verbo que seja (ainda assim é um Verbo), em relação à sua própria personalidade, aquele que não tem a consciência e manejo da própria personalidade para que saiba me apresentar um cômodo aprazível e saudável, para que me apresente um belo quadro, enfim, frequências elevadas dessa personalidade, ainda que ele me apresente as frequências mais baixas, e obscuras e graves, a minha obrigação, o meu dever, a minha responsabilidade é a de que, a partir da hora em que alguém me coloque num cômodo escuro, cheio de coisas que ela própria não vê, eu use do meus outros sentidos para ver e lançar Luz nessa escuridão.

          Porque a escuridão do cômodo não é o cômodo. Então eu posso xingar a pessoa de ignorante, de chata, de egoísta, mesquinha, de alguém que eu não vou com a cara, que eu não gosto, que é vazia, que é obscura, que é psicótica, maluca, louca, eu posso adjetivar a pessoa como eu quiser: aquilo é a escuridão dela, não é ela, e o fato d’eu estar falando sobre a escuridão dela mostra apenas que eu não tenho algo para além dos olhos. E quando eu não tenho órgãos para além dos olhos, isso me revela que eu sou cego.

           Então o que é enxergar? O que é enxergar?

           É eu ver que a escuridão é escuridão, e que um cômodo é um cômodo, e uma cama é uma cama, uma flor é uma flor, uma pedra é uma pedra, e uma pérola é uma pérola. Mas, para que isso aconteça, para que cada Forma esteja unida ao seu Conteúdo, eu preciso ser capaz de ver para além do escuro que se me apresenta. E isso é difícil. E raro!

          Assim como é preciso que eu veja para além do claro, porque há cômodos de pessoas que querem ser tão cheias de luz, frequência tão altas, tão boas, tão alegres, tão positivas, tão ‘não pode chorar nem sangrar na vida’, que elas também estão cegas e cegando os outros devido a esse excesso de luz. Então também é minha obrigação ver que elas não são essa luz, por mais que seja lindo no pensamento delas que elas sejam, elas não são.

       Talvez nada passe para fora, por fora do espectro da personalidade nessa densidade de vida, nessa materialidade em que a gente se encontra, nesse grau, nível, nessa instância. Mas é possível, e é recomendável, que se faça uso dela para estar a serviço do Outro.

          A personalidade não é para eu ser quem eu gosto de ser. Porque se eu construo um cômodo no qual eu gostaria de habitar e no qual eu passo a habitar, sendo que esse cômodo é aquilo que eu construo através de uma conversa, de um diálogo, de uma observação, de uma meditação, de uma contemplação, adoração (que são escalas que a gente vai subindo nessa escada), isso significa que muito provavelmente eu estou falando sozinho e sou um esquizofrênico, não esquizofrênico clínico, que são casos que eu não pretendo tratar aqui – não é disso que eu falo, da densidade da doença em si, de quem tem alucinações, enfim, quem já foi completamente fragmentado em relação a essa realidade em todos os níveis e apresenta realmente um grau de densidade da doença muito grave -, mas, aquele que está falando sozinho consigo, construindo um cômodo falando sozinho, em nível sutil essa é a sutileza da esquizofrenia, e talvez em alguma vida você venha a ser um esquizofrênico de fato, clínico, porque isso vai se densificando. Vai se cristalizando, se tornando realidade.

           Então, o que é a personalidade?

          Ela talvez seja uma chave, a chave dessa porta que a gente abre para que o Outro habite em nós, em nosso Eu. E não estando o Outro limitado pela nossa personalidade (porque o Outro não sou eu, eu fisicamente, eu Le Tícia, você não sou eu Le Tícia, não estou falando de instância superior do Todo onde Tudo é Uno)… mantendo a nossa individualidade e dentro dessa individualidade em que cada Um é um, o Outro não está limitado pelo meu raio de visão e de abrangência na vida, de vibração (ainda que ele tenha o limite dele, mas), não estando limitado pelo meu, ao ele adentrar um cômodo que eu construo para que ele entre, isso é de uma grandeza tão grande que, se o Outro souber onde ele está entrando, se ele tiver consciência, essa é a hora da oportunidade de entrar e ver o verdadeiro Eu de quem o convida a entrar nesse espaço que se constrói.

         A personalidade, se usada de uma maneira inconsciente, pode fazer com que o Outro se apegue aos detalhes que você colocou ali, e às vezes inclusive quer que ele veja, porque você acha bonito, você gosta, acredita que você é aquilo, nós fazemos isso – não é como se eu não fizesse -, mas se o Outro tiver consciência, se nós tivermos o mínimo de consciência e o Outro também um pouco de consciência ao adentrar esse cômodo, ele vê que o começo são aparências, mas que há um para-além, que se ele souber também observar junto com aquilo que você está propondo que ele observe, talvez aí é que a gente consiga ver e se enxergar: que é quando os detalhes acabam, quando os detalhes são só detalhes.

          A porta é um detalhe da passagem, a porta é um detalhe da parede, que é um detalhe do quarto, que é o detalhe de uma casa, que é o detalhe de uma rua, de um bairro, um país, de um planeta, de um sistema, de uma galáxia, e assim segue, em ninhos de galáxias e ninhos de ninhos de galáxias…

           Nós podemos oferecer uma porta e algumas coisas dentro dessa porta, e talvez o Outro saiba entrar e ver que atrás dessa porta há um lar: um lar onde não são essas coisas que moram, mas quem construiu essas coisas. E então através das coisas, ele talvez consiga ver como é a forma de trabalho desse Ser. Porque as coisas que nós construímos com a personalidade, as nossas criações para o Outro, dizem respeito a quem as criou, então quando eu sei usar o espectro da minha personalidade, quando eu sei fazer escolhas dentro dessa paleta de cores e vibrações e sonoridades e frequências, sutilezas, isso revela que o meu Eu, para além desse espectro, está aprendendo a observar e a fazer escolhas.

          E tal qual uma criança ele pode começar a escolher com qual detalhe desse espectro ele quer brincar. Porque se a gente começa a levar muito a sério também, fica só nisso, e esquece que o espectro pode mudar, porque às vezes a gente acha que um tanto dele é tudo, sendo que poderia ser muito mais. Saber ver para além daquilo que nos é imposto como limite do espectro, ver para-além do limite do espectro com essa leveza da criança, que sabe que tem limite – isso é a consciência e, portanto, criança analogamente em termos de liberdade, mas não de cabeça: há que se ter uma grande responsabilidade, de adulto, perante esse limite – o rigor do foco de saber o que você está escolhendo dentro disso, mas ao mesmo tempo a leveza infantil de quem sabe que um dia pode descobrir que aquilo ali era um tanto pequeno de si, era só um brinquedo, mas tem muito mais, muitos outros brinquedos.

          E que inclusive cada um que chega, se chega de maneira consciente nesse cômodo que a gente cria para quem chega (para cada um é um cômodo especial, ou eu espero que assim seja), esse Outro pode chegar trazendo um brinquedo novo também e sem querer a gente pode descobrir que o espectro que está no Outro é nosso também, e aprender a acessar isso dentro da minha personalidade se eu permitir que o Outro me ensine.

           Se livrar da personalidade seria como jogar fora a minha lente que o espírito usa para olhar e brincar com esse lado material. Mas se eu não souber como usar, isso também pode se tornar um ponto focal onde eu meto fogo em tudo e se torna um caos, um caos horrendo que não é um Caos produtivo do Cosmos. Não. Esse a gente não sabe o que é ainda, e nem está perto de saber, a gente acha que sabe do Caos… a gente não sabe nem ver a escuridão, quando a gente vê a escuridão a gente sai apontando dedo, sai chutando coisa, gritando, com medo. A gente na hora fica perturbado, com receio, incomodado sem ver que, no final das contas, a escuridão alheia acaba falando mais sobre a gente do que sobre o Outro, porque ela revela que eu só me relaciono com ela através de reação: reação em vê-la, e não em compreendê-la para além de si mesma. De entender que ela é uma parte do espectro. E então conseguir fazer com que meu Eu converse com a essência de cada um que está oculta por esta escuridão ou pelo excesso de luz que o Outro, pela sua ignorância, pela nossa incapacidade de manejo das ferramentas que são as possibilidades da nossa personalidade, por falta desse manejo acabamos, enfim, deixando tudo muito escuro, muito claro, muito alguma coisa sempre, muito leve, muito pesado, só rosa, só azul, só verde, só homem, só mulher, só branco, só preto, só baixo, só alto…

             E a gente faz da unidade, do , algo que mete medo.

         Se torna autoritário. Se torna um rigor que é de falta de zelo. Falta de cuidado consigo e com o Outro, porque não se sabe ser um construtor de fato.

       Então usemos a personalidade, mas com consciência, com escolhas do que se está mostrando dessa personalidade, sem usar de desculpas e de respostas fáceis para essas escolhas. Mas com sinceridade de quem experimenta uma pitada de cada possibilidade para ver o que acontece, isso é muito bonito ver, é como a gente começar a observar que quando a gente está alegre, ao redor as pessoas começam a ficar alegres também, e quando a gente ri os outros começam a rir, e quando a gente também constrói um cômodo escuro e começa a falar da escuridão as pessoas também entram nessa escuridão – não é só o sorriso e o riso que são contagiosos, a ansiedade também é contagiosa, a tristeza etc., muito contagiosas. A gente é que não sabe reconhecer que sofreu um contágio.

           E como saber que sofremos um contágio? Quando a gente só vê o escuro, lembra?

           Quando a gente fala sobre a coisa e não sobre a essência. Quando pisa em pedra e acha que é pedregulho, e esquece de ver com os outros sentidos que no fundo era pérola, era pérola o que havia, mas ninguém tinha uma lamparina.

          Então, que da próxima vez e sempre, usemos da nossa personalidade com cautela, com discernimento, com pureza de escolha, com consciência, obedecendo aquilo que é necessário para construir o que sirva ao Outro, sem fazer um manicômio para que eu more dentro.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *