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Caminhar é preciso!

Isto sabiam os antigos, isso continuamos a redescobrir a cada momento.

Caminhar é ir de um ponto a outro, traçando uma linha, formando geometrias ao se deslocar pelo plano conhecendo as dimensões que se apresentam, observando e discernindo os passos que são dados no Presente.

Caminhar é a união da passividade e da atividade, pois um bom e belo caminhar pressupõe esquecer-se de si para ver o que nos rodeia. É ser menos egoísta, como quem, parado, puxa tudo para dentro, para se tornar mais centrado por estar no movimento de sair do interno para ir em direção a algo externo, criando poros nas bordas e com isso gerando a possibilidade de haver um movimento pendular entre quem e quem recebe.

O caminhar verdadeiro nos liberta, nos movimenta dos pés à cabeça, começando de baixo e indo para cima, como quem, conhecendo o inverso de si mesmo, faz novo tudo o que nos cerca. Até que em algum momento o ‘dar e receber‘ se torna apenas doação de si mesmo – que de volta nada espera, sendo aquele que segura o pêndulo, sabendo que o caminhar reto, para frente, é também a possibilidade de criar movimentos para um lado e outro, tal qual caranguejo, observando os polos que são criados a cada relação de um eu e um tu que se apresentam. Sim, porque além do eu e tu há um terceiro, e caminhar é aprender a se tornar o que se doa e se sacrifica para que haja a união desses outros membros.

É preciso discernir, contudo, que todo caminhar, inclusive os aqui poetizados, jamais deve pretender e nem mesmo intencionar ser todo o Caminho, ou ser grande parte do caminho, pois que são minúsculos os passos que damos, frações perto de tudo o que é possível andar (o caminhar nosso é uma coisa, o Caminho em si mesmo é outra, sabendo, no entanto, que só quem caminha movimenta a possiblidade de conhecer o Caminho em que se está a caminhar).

Então não tomem, por exemplo, o que eu digo como a única possibilidade ou sequer uma possibilidade fechada em si mesma e perfeita, eu sou tremendamente falha, todos somos falhos, por isso é preciso seguir sempre buscando, cada vez mais, exemplos elevados. No próprio caminho há pedras, buracos, diferenças de texturas, coisas que cada um que for fazendo o caminho irá notar, evitando colocar nisso juízos de valor, apenas vendo um detalhe a mais diferente do que outro notaria – enquanto alguém nota os odores, outro nota as cores, outro as texturas, ou barulhos, ruídos, silêncios que acompanham e compõem a paisagem ao se caminhar… E nisso vamos conhecendo ele como um todo dentro e fora de nós mesmos.

Ao caminhar, veremos árvores de todos os tipos, e é preciso ter em conta que o saber é como o sabor: os saberes que colhemos, e que aqui são ofertados, por exemplo, não são meus e de ninguém que já os tenha dito de outro modo alguma vez, existem autores, sim, porque cada um irá apresentar uma fórmula própria de como se observa o caminho e o que se discerne neste caminho frente ao seu pequenino olhar, mas o Caminho em si mesmo é único e comum a todos os que estão a caminhar.

O saber não reside em quem caminha com ele, assim como o sabor não está na boca que prova da fruta, mas na fruta em si mesma.

Então o saber aqui provado não é da boca, nem sequer do coração ou da mente de quem vos fala, e sim da fruta ou da água a qual apanho diretamente da Fonte para que possamos degustá-la.

É importante conhecer os pés por si próprio e caminhar por si mesmo. É claro que todos estamos aqui para nos ajudarmos e é importante, é crucial que nos ajudemos, contudo, é importante sabermos que deve haver uma independência um do outro ao mesmo tempo, e o justo equilíbrio disso é que possibilita termos acesso à água, aos frutos e seus sabores na hora em que precisamos deles durante a caminhada que fazemos.

Muitas pessoas ainda são como que carregadas no colo pelo caminho, porque quando vou observando aqui, por exemplo, as coisas que lhes apresento, quem não tem capacidade de observação por si mesmo é como se eu carregasse no colo por um momento, então a pessoa tem que tomar os meus passos como sendo os dela por não conseguir ainda dar passos próprios – e está tudo bem precisar disso, mas é importante que todos os exercícios que fazemos durante a vida nos levem a um emancipar-se, seja ao caminhar ao redor de uma quadra, seja ao passar por experiências dos sentidos e gostarmos ou desgostarmos de algo, termos preferências e nos emocionarmos, ou seja ao reproduzirmos pensamentos até chegarmos numa qualificação em que consigamos produzi-los por nós mesmos – o importante é sempre trilhar a senda da independência – sabendo que ela é parte integrante do Caminho que percorremos. A ajuda é mútua, mas ajuda não é dependência, ajuda é diametralmente oposta à dependência. Depender é pender apenas para um lado por estar preso, pendurado.

Por isso é importante que observemos essas poesias todas e caminhemos, mas não porque eu as mostro e reparto esses frutos com quem me lê ou ouve, o principal aqui não é sequer o repartir do fruto em si, mas sim propiciar que aprendamos atos – o ato de buscar o fruto, o ato de caminhar, o ato de pensar, o ato de observar, o ato de discernir, o ato de partir, repartir, compartilhar, o ato de se independer, se individualizar, são todas ações, Verbo, que em âmbitos mais densos ou mais sutis, precisam se concretizar de alguma forma para que tenhamos uma existência que Seja no mundo, para que nos tornemos Seres conscientes de fato do que fazemos, seja esse fazer em qual instância for – na mente (como pensamentos), no emocional (como sentimentos), no físico (como ações)…

Criarmos a capacidade de dramatizar a vida em todos os sentidos, eis o caminhar!

Drama significa ação, drama se produz com conflitos, atritos: o caminhar se faz ao riscar os pés na matéria de maneira reta e constante, e este riscar nos leva ao pulsar do coração no Amor e à concepção de pensamentos Puros, tal qual uma Vida sendo gestada na mente, parindo como novas todas as coisas ao compreender que é pertencendo a este verdadeiro caminho, seguindo o trajeto bondosamente desenhado, fluindo através dessa bela geometria ao dançar as formas como quem baila a justiça pela própria justeza dos passos – como o Sol e os planetas que O orbitam, que se Vive eternamente, indo reto por cima das águas, dos abismos, das flamas ardentes, acalmando furacões e tempestade que todos carregamos dentro e fora de nós mesmos.

A Poesia do Caminhar é o trabalho constante para frente e para o alto de quem labora e ora, labora ao dramatizar e aprender – eis o ato de plantar e colher, e ora ao falar e ensinar – eis o sacrifício ao doar, porque quem fala com D’us ensina o próximo a caminhar, e quem ensina o próximo a caminhar está a falar com D’us… eis o Laboratório e a Vida de quem caminha – o labor no oratório que, passo-a-passo, o Templo edifica.

E, de minha parte, desejo que te seja agradável o sabor de todas as Poesias que, ao longo do Caminho, colhemos e bebemos…

Então caminhemos, meus amados-amigos-irmãos, agora e sempre, eternamente, caminhemos!

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