O que é uma conversa?

O que é Conversar?

          Quando eu olho primeiramente para a etimologia dessa palavra: conversar, conversa – eu consigo identificar o con-, que significa junto, e -vertere, que é ‘virar algo, tornar algo, verter algo’.

          Isso me lembra muito um símbolo que é do Homem com um Cântaro de barro, um Jarro vertendo Água, que é símbolo, por exemplo, do Signo de Aquário. Esse Homem, que segura esse Jarro, ele verte essa Água e a partir da hora que tem alguém que se lave nessa Água, que beba dessa Água, que usufrua de alguma maneira dessa Água, isso se torna uma Conversa.

          Nós temos um péssimo hábito, quer dizer, não sei se necessariamente péssimo, mas temos esse habito, de acreditar que uma conversa, um diálogo, é composto de duas pessoas que falam, supõe-se que as duas estão falando, sendo que nem sempre, não necessariamente.

          Diálogo não vem de di-álogo, como se o di- significasse dois – como muitas pessoas pensam, mas vem de diá-, que neste caso significa através, e Logos, que é Palavra. Então isso quer dizer que de alguma forma eu estou atravessando algo com as palavras, causando um atravessamento através das palavras. Não quer dizer necessariamente que duas pessoas falem, até porque a natureza da palavra, para que ela exista, alguém fala e alguém ouve, é preciso que haja mais de um Verbo atuando: o falar e o ouvir. Como duas faces da mesma moeda.

          Assim sendo, conversar é quando nós vertemos juntos esse algo, seja conhecimento (preferencialmente), podendo ser também informação e outras formas daquilo que temos a comunicar. Mas pensando que eu venho até aqui para conversar, isso nos coloca num ponto de observação em que devemos pensar: o que há é que alguém está vertendo algo junto de um outro alguém. Como eu estou gravando e falando, o que pressupõe-se, e é feito trabalho para, é que seja possível que alguém use disso que eu verto, para que isso tenha alguma finalidade, para que isso ganhe alguma finalidade em outros aspectos. E as finalidades podem ser muitas, isso vai depender daquele que chega para verter junto.

          Pois quem chega pode fazer desse verter um local para banhar o corpo, para banhar somente a cabeça, um local para beber essa Água, um local apenas de admiração, de sentar e ver o que está sendo vertido, de observação, de meditação. Pode ser um local apenas para se ouvir o barulho daquilo que se verte, como quem escuta uma Fonte d’Água jorrando incessantemente.

Mas que não haja um equívoco: que é confundir o Homem que segura o Jarro com a própria Água, e o Jarro com a Água.

Nesse símbolo, há três instâncias, há três figuras: a Água, o Cântaro e o Homem.

          Eles não se confundem entre si, ainda que se complementem, e nesse caso só serão completos se houver um quarto elemento que se agregue a eles, pois em si mesmos eles não significam algo em termos de Serviço, de estar servindo a alguma finalidade alheia.

          Se eu chego com esse Jarro já com uma finalidade estabelecida nesta conversa, querendo ensinar algo, convencer de algo, persuadir a algo, induzir algo, mesmo deduzir algo, se eu chego com finalidades já acabadas eu não permito que todos possam fazer uso dessa Água – que não é minha, pois a Água não pertence ao Homem nem ao Jarro.

A Água é a Água. Ela pertence à Fonte.

          E se eu chego com uma finalidade estabelecida eu faço com que esse Jarro vire um chuveiro para se tomar banho, um copo para matar a sede, uma torneirinha, um bidê, e até mesmo um vaso sanitário (desses molhados que a gente usa em casa, não do seco, porque existem sanitários secos, mas), se deturpa de todas as formas, é possível deturpar de todas as formas o símbolo primordial, que deveria ser conservado.

          A finalidade é diferente do dever: o símbolo dever ser conservado é diferente dele guardar em si mesmo uma finalidade já pré-estabelecida. O dever é que ele sirva a todos. Isso não pressupõe uma finalidade, ao contrário, isso abre portas para que várias finalidades se acheguem até ele e façam uso dele.

          Então isso pode levar alguém a deduzir algo, conceber algo, matar a sua sede, se banhar, se refrescar, relaxar, acalmar, enfim, inclusive se afogar. Isso abre portas para várias finalidades, mas para abrir várias portas é preciso que, antes, ele cumpra um dever.

          Então quando eu venho até aqui conversar, quando nós conversamos no dia a dia em qualquer instância, a qualquer momento, com qualquer ser que Há, nós estamos abrindo várias portas – quando conversamos na raiz do que conversar significa, mantendo em sua concretude o símbolo arquetípico que o sustenta.

          Então nós podemos verter juntos: não porque ambos faremos, ou todos faremos a mesma ação de virar o Jarro, mas porque tendo um se proposto a virar esse Jarro, a verter essa Água, os Outros podem ter outras ações em relação a isso. E nisso escutar é também conversar, ainda que não se diga uma palavra.

          É claro que quando alguém termina de falar e eu começo a minha fala, isso pode ser muito bom no sentido de me permitir, permitir a quem primeiro verteu, a também se banhar, também matar sua sede, ouvir, relaxar, meditar, observar etc., abre porta para que o Outro também adentre, para que aquele que primeiro abriu também possa adentrar outros espaços. Mas isso não é algo que aconteça necessariamente.

          Então por que nós ficamos tão chateados quando numa conversa alguém fala e muitas vezes nós não temos tempo para responder?

          É claro que muitas vezes nos chateamos não porque deixamos de participar daquilo, mas porque o outro realmente não abriu portas em termos de ele já vir com uma finalidade: ele veio com a finalidade de que você escute a Água dele e somente isso, não atrapalhe, para que “todos escutem a sua Água” (em tom vaidoso e arrogante). Ele impõe uma finalidade para a ação dele, sendo que não há finalidade para as ações em si.

          Nós tendemos a confundir, como já falei e volto a repetir, finalidades com deveres, responsabilidades, e mesmo intenção. Eu posso verter um Jarro d’Água na intenção de matar a sede de alguém ou possibilitar que alguém se banhe, que alguém lave os pés, isso não quer dizer que saberão fazer uso disso em termos de que irão de fato lavar os pés.

          E tudo bem… se isso servir ao Outro de alguma outra forma, ele encontra uma outra finalidade e continua servindo. Problemático é quando não há serviço, quando já venho com a minha finalidade, esperando que o Outro faça uso dessa finalidade, que o Outro queira essa finalidade, ou venham pessoas com apenas uma única finalidade tal qual a minha, tal qual a que eu intenciono, e privo Outros que poderiam se beneficiar disso enquanto um serviço, enquanto um servir, porque a palavra serviço também está muito deturpada nos dias de hoje, mas enquanto um servir. Eu evito que o Outro possa se servir e que isto sirva e Eu esteja a serviço do Outro.

          Eu passo a servir e a estar a serviço apenas daqueles que me agradam, daqueles que me convêm, daqueles que eu vou com a cara, com os quais eu concordo, que pensam igual a mim, que tomam as mesmas ações que eu, ou que façam uso do que eu tenho… passo a tratar as coisas inclusive como posse, sendo que o Jarro não é do Homem e a Água não é do Jarro, é da Fonte.

          Mas passo a acreditar justamente que aquilo é meu então eu posso embutir uma finalidade e exigir que o Outro esteja de acordo com a finalidade daquilo que é meu, pois Eu estou segurando o Jarro que contém a Água, não é mesmo?

Se a Água pertence à Fonte, o Cântaro – o Jarro, pertence a o quê? A que instância? E o Homem: qual será a Fonte do Homem que segura esse Jarro e que verte essa Água junto de alguém? De onde Ele vem?

Sendo um Jarro um recipiente fechado, ou semi-aberto no sentido de haver uma boca por onde se verte a Água, como é possível que essa Água continue vertendo infinitamente?

Se o Cântaro é de barro, e o Cântaro é o que possui a boca por onde sai a Água, sendo o Jarro de barro feito da terra, feito da matéria: e o Homem que segura esse Jarro?

          Ele não abre a boca, não é dele que sai a Água. Ele é aquele que direciona e que age ao direcionar. Direcionar não de dar uma finalidade, de verter para a esquerda ou direita, mas direcionar no sentido de criar um foco para que a Água caia, criar gravidade.

Se a Água são as palavras que Eu verto, e se elas saem da boca que é este corpo que vos fala, onde está o Homem que me segura? O que é essa instância mais sutil que segura o Jarro para que caia esta Água?

          Não é o agregar dos elementos uma conversa já, ainda mais sutil do que a que temos agora no plano literal das palavras? Se três elementos  (Água, Cântaro e Homem) já estão conjugados, unidos, não estão eles já sendo vertidos um em relação ao outro?

          Pois sem uma conversa entre a Água e o Jarro e entre o Jarro e o Homem, seria possível verter essa Água o Homem?

Essa conversa em que não há uma só palavra, mas apenas silêncio…

E ainda assim é uma conversa de gigantes!

          Então será que quando eu tenho uma conversa dessas temporárias na rua com alguém, em casa, com amigos, em uma festa, ou quando eu desabafo, trocamos ideias, fofocamos ou o que seja, mas dessas conversas em que duas pessoas falam e falam e falam… será que isso é uma conversa de fato?

          Será que para eu reconhecer uma conversa nesse plano material de maneira densa, usando as palavras literais, eu não tenha que saber ter da conversa silenciosa entre as palavras que eu irei pronunciar, o Jarro, que é esse corpo que as carrega e as segura o tempo todo, e esse Homem, que me segura no colo sem que eu caia, sem que eu quebre, sem que eu desperdice uma gota de palavra?

          E o que será que acontece com pessoas que falam vertendo pra todo lado? O que será desse Homem que segura esse Jarro que respiga Água para todos os lados, que afoga pessoas, que dá banhos, que queima com Água quente e que congela com Água fria, que espanta que… que molha o que já é úmido e deixa seco o que há tanto tempo espera por uma Água porque é árido? Aquele que se apega ao Jarro e sua Água e em pleno deserto não compartilha com ninguém, o que acontece com esses homens? Com esses Jarros tão precários, muitas vezes já rachados, pingando, gotejando pelo caminho…

          Será que não é hora de compreendermos que para começarmos a conversar de fato é preciso que as palavras, o corpo, e este Ser representado por um grande Homem que sustenta esse Jarro, será que não é necessário que essa tríplice aliança, essa trindade mais densa esteja alinhada?

          Será que o Homem que está dançando com seu Jarro sabe realmente o que está fazendo quando se lança ao caos e sai freneticamente bailando por aí, segurando esse Jarro, correndo risco de desperdiçar essa Água a qualquer momento, se já não o está fazendo? Será que ele é capaz de ver quando alguém necessita que ele simplesmente pare e silencie e se agache e se ajoelhe para verter esta Água aos pequenos?

          Não será a dança o verter do Jarro em si mesmo? Não será a dança o cair eterno da Água de um Jarro que é limitado, e ainda assim dentro de si encontra alguma Fonte?

O que é uma conversa de fato?

          Será que a gente já conversou de verdade? Evocando esse arquétipo de quem verte junto algo?

          Eu não sei se eu sou capaz de fazer isso, e não venho aqui na intenção e pretensão de me crer cumprindo essa finalidade, pois eu me coloco a serviço da conversa como um dever e espero não fazer dela uma finalidade em termos de restrição para quem se achega.

          É claro que ao escolher palavras, escolher um tema, uma pergunta para que nós observemos até onde ela é capaz de nos levar em termos de espaço, é claro que de alguma forma eu limito, delimito, às vezes até saborizo a Água, vou colocando algo junto disso: temperatura, altura desse Jarro… mas ainda assim, essas são as características necessárias e inevitáveis, pois não é possível, ao menos ainda, que a Água verta diretamente do Homem, sem passar pelo Jarro.

          Então não é possível ignorá-lo, bem como o Homem, não sendo perfeito ainda (ou eu assim supondo), ora vai virar demais, ora de menos, até encontrar o equilíbrio exato desse Jarro. Talvez tenha hora em que fique cansado e isso mesmo altere a maneira como se segura o Jarro e como se deixa verter uma gota e outra gota e já não um fio d’Água, ou já não permite o desperdício, ou de forma egoísta passa a negar uma maior quantidade de Água.

          Portanto façamos bom uso desse Jarro, saibamos apreciar e dar uma finalidade pessoal, do indivíduo, para essa Água (que chega), para que esses três elementos: o Homem o Jarro e a Água possam estar a serviço e servindo de alguma maneira, cumprindo assim o seu dever com responsabilidade.

          Que tenhamos mais portas a abrir ao conversarmos, mais pessoas, para que muitas lavem os pés, muitas lavem as cabeças, as mãos, e a parte que julgarem ser necessária, ainda que nós falhamente olhemos e pensemos: “nossa, ela deveria estar fazendo outra coisa com essa Água”. Mas não nos equivoquemos – isso é um julgamento da nossa parte, é um julgamento de quem ainda busca uma finalidade específica (para a própria Água). É claro que sim, há ações que convêm mais do que outras, então alguém que está limpo não é preciso banhar-se, talvez fosse mais conveniente que bebesse da Água, e não se banhasse na Água.

          É preciso conhecer-se para saber a conveniência daquele servir e então a responsabilidade esteja de fato presente. Não é fazer, nem sempre é fazer o que se deseja, mas saber o que se necessita.

          Isso não é fácil com certeza, mas a gente conversa para tentar isso de alguma maneira. A gente tenta…

          Que tenhamos mais consciência ao tentarmos e ao conversarmos. Mais consciência dos elementos que temos a nosso serviço quando agimos. Quando usamos um Verbo como por exemplo, Conversar, e vertemos juntos algo para que isso nos sirva de alguma maneira, para cumprir algum dever cuja responsabilidade nos espera.

Para conversar nem sempre é preciso responder, às vezes responder é respingar.

          Então que olhemos com mais Amor para essa Água, esse Jarro e este Homem que todos São e carregam, e saibamos que às vezes mesmo alguém com um Jarro quebrado, pingando Água entre os braços, se você se coloca ao lado dessa pessoa e silenciosamente põe as mãos sob essa goteira, ou os pés, é possível que você esteja ajudando, num simples ato silencioso, a fazer com que aquele Homem e aquele Jarro sirvam a algo.

          E a Água… às vezes nós poluímos nossas palavras, mas será que é possível poluir a Água da Fonte Infinita?

          Eu não acredito que isso seja possível, acredito que antes que ela se suje o Jarro seca, mas não beba da Água que julgar que não deva beber, não se lave na Água que julgar que não deva se banhar, mas escolha com consciência:

sabendo que ainda há um Jarro e ainda há um Homem segurando esse Jarro e que isso significa muito mais do que a gente pensa!

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