Eu gostaria de conversar sobre qual é a poesia do eclipse, e dele caminharmos e observarmos aquilo que é sagrado dentro da dualidade que se apresenta a partir de um terceiro.

Porque um eclipse nada mais é do que isso:
uma dualidade de Sol e Lua que se revelam desde a perspectiva da Terra.

Se unirmos a dualidade que se apresenta e olharmos para ela de forma sagrada, iremos ver algo que hoje tem sido muito discutido, que é a realidade de um sagrado feminino e um sagrado masculino.

No sagrado feminino se fala da nossa conexão com a Lua e com a Terra, e ‘nossa’ eu digo sobre o feminino de todo mundo, porque os homens também têm seu feminino, mas se quisermos focar apenas nos seres que possuem um útero e o vivem hormonalmente de maneira natural, ou seja, sem intervenções hormonais externas, sabemos que estamos associando estes seres aos ciclos das Luas, ligando toda produtividade e abundância à Mãe Terra, e isso é lindo. Mas é preciso lembrar que a Lua e a Terra ‘só são o que são’ por conta do Sol e que se o Sol desse um peteleco em qualquer uma das duas, elas seriam pulverizadas da face do universo, claro, colocando num radical material físico apenas, porque na espiritualidade sabemos que não é assim, mas apenas usando termos mais rígidos para que possamos analisar essa problemática em relação às falas do sagrado feminino e sua conexão tão forte com Terra e Lua, e podermos então revelar que se esquece, maior parte das vezes, de que ela não existe separadamente: não é questão de patriarcado, não é questão de machismo, é questão de que realmente sem o agente masculino ativo, o feminino deixa de existir.

Assim também é com o Sol, que só tem ‘sentido de ser’ se ele leva vida, porque senão ele estaria se “queimando por nada”, ele existiria, mas ele não seria, e isso não faz sentido – ele queimar por nada – enquanto estrela, porque uma estrela queima para iluminar o Outro que chega, aquele que se aproxima, aquele que olha para ela, a estrela queima para iluminar a visão alheia, para crear vida, justamente, assim como a vida como a conhecemos aqui na Terra, quimicamente falando, materialmente falando, é só pelo Sol, e mesmo em termos de matérias mais sutis, toda nossa matéria vem do Sol, não tem como separar uma coisa da outra, estamos em seu reino, tanto que chama-se: sistema solar.

Então quando se fala de sagrado feminino é importante saber que, sim, existe um sagrado masculino, por mais que feministas possam ficar com pêlos arrepiados de se falar disso, já que supostamente os homens são tão “exaltados socialmente”. O que se revela que no fundo não são, e a gente começa a ver que seriam verdadeiramente exaltados se agissem como um Sol realmente, numa existência de Sol, ainda que não sendo um Sol propriamente, mas numa existência que possibilita o Ser Vivo, e claro, a vida nesse planeta, de Ser Vivo na Terra, é complexa, e sendo assim, isso nos mostra que não dá para definir tão bem assim feminino e masculino, porque no fundo temos uma intuição, percepção, alguns até anatomicamente vivem a reivindicação de que ‘eu sou feminino e masculino’, ou que ‘você está vendo o masculino em mim, mas eu vivo o meu feminino’, e vice-e-versa.

E aí a gente começa a ver como todos nós temos essas duas instâncias dentro de nós, o Sol e a Lua, por assim dizer, e como que viver somente uma identidade puramente masculina é um eclipsar da Lua, assim como viver uma identidade puramente feminina é um eclipsar do Sol. Eclipses são lindos? São maravilhosos. Trazem evolução? Sim, na dor, pois todos sabemos que eclipse é sombra, mas não deixa de ser uma oportunidade ímpar, muito mais milagrosa do que até mesmo as tradições foram capazes de nos trazer, de uma super-evolução.

É através da separação, da sombra, que se aprende através dele (do eclipse), não à toa estamos aqui fazendo papel de homem e de mulher a cada vez (para quem acredita em reencarnação), para aprendermos uma coisa de cada vez: a ser homem quando se é homem e ser mulher quando se é mulher. Então a gente vem vivendo um eclipsar de si há muito tempo através das reencarnações, porque sabemos que espiritualmente somos ambos enquanto potência de manifestação terrena.

Tradicionalmente, há os vários nomes pra gradação dessas forças, dessas energias duais que se manifestam em nós, porque o princípio é o do duplo, princípio da dualidade, e a partir daí há o feminino e masculino, negativo e positivo, yin e yang etc.. E desde os escritos de Platão já se falava sobre essa dualidade presente em nós quando em O Banquete ele explica, através de um dos discursos (o de Aristófanes), como nós éramos andróginos até que fôssemos partidos ao meio.

Essa dualidade se apresenta através de diversos símbolos para nos darmos conta de uma realidade espiritual nossa, de que nós vivemos esse feminino e masculino, positivo e negativo, yin e yang, em nosso Ser verdadeiro, e isso não depende da manifestação física em literalmente viver a androginia, literalmente ser hermafrodita, ainda que possa ser simbolizado por essas vivências, inclusive podendo ser o caso de alguns transgêneros hoje em dia, ainda que uma pessoa cis possa ser totalmente andrógina em sua vivência em relação ao mundo – é preciso olhos para ver isso: ver como ela conduz e crea através dessas energias, até porque observar o que a pessoa leva no meio das pernas não convém, assim como olhar na cara e só porque não sabemos distinguir se é homem ou mulher ser automaticamente classificado como andrógino uraniano evoluidão, a pessoa X da Era de Aquário, não, não é assim, achar que só porque eu fico “performando” (como dizem as teorias de gênero hoje em dia) um gênero e depois outro eu sou mais evoluído e andrógino: não, ledo engano!

Viver a Era de Aquário e a androginia nada tem a ver com simulacros do físico, ainda que o físico apresente a tendência (vejam bem, tendência), numa pessoa uraniana, a ser diferente do padrão, porque ela deixa de se importar com o físico da mesma forma que os outros se importam (vejam, ela não deixa de se importar com o físico, ela apenas não se importa com o físico da mesma maneira que os outros, que a maioria). Ou seja, uma pessoa realmente uraniana não se importa com questões de gênero necessariamente, mas sim com questões para além do corpo, o corpo se torna apenas um reflexo, um espelho de um processo mais avançado internamente, ou seja, não é o externo que faz evoluir o interno, como teorias de gênero pretendem.

As pessoas que alteram o corpo físico para serem mais evoluídas, tudo bem, livre-arbítrio, isso pode fazer parte do processo de se dar conta da androginia, de concretamente ver o símbolo tomar forma e confirmar outros patamares de consciência, mas não existe fórmula, ou seja, esse passo espiritual não se dá assim, ainda que possa ser assim para um indivíduo, mas na maioria não o seja:

A massa que não tem ainda um processo individual continua sendo massa independentemente da figura, porque individuação não é uma questão de forma (estética), mas sim de conteúdo. Ainda que um seja indissociável do outro e um altere o outro, mas, saibamos, pela Lei da Lógica e da Analogia: o céu reflete na água, mas a água não é refletida no céu, ou seja, o processo mental, superior, ou mesmo espiritual é refletido no corpo, então o corpo pode ser uma via para se dar conta de algo espiritual, mas o processo de alteração do corpo não reflete um processo de consciência avançada.

Ou seja, as aparências enganam. Especialmente se elas são vaidosamente alteradas.

Se eu vivo o gênero por estilo de vida, e não por necessidade espiritual, então, no máximo, eu faço parte da nova massa da Era de Aquário, que seja, mas é massa, do mesmo jeito.

Existe dentro de nós a potência de viver esse andrógino, especialmente enquanto força, porque a maior vivência das realidades mitológicas é enquanto forças que colocamos em vigor no mundo, não enquanto aparências, mas enquanto energias intrínsecas. Pois se fosse aparência, pegando a linguagem astrológica como exemplo, uma pessoa jupiteriana, sendo Júpiter ligado à expansão, à benevolência, à bondade, ao doar-se, ela seria necessariamente gorda, grande (ainda que sim, dê para se observar características físicas através dos astros por conta de sermos regidos pelas estrelas, ao invés de sermos amigos delas, pois se eu tenho Júpiter conjunto ao ascendente a tendência será realmente a de ter um corpo gordo, um Júpiter passando por certos aspectos e lugares no mapa pode nos conduzir (não obrigar, mas conduzir) a comer mais). Mas levando em conta uma pessoa que escolhe fazer o bem simplesmente porque é Justo e Belo fazer o Bem, ela não será gorda necessariamente, grande como o planeta.

Então ser andrógino, no mitológico, no simbólico, não é o que os olhos captam, assim como um gordo, alguém jupiteriano às vistas (na aparência), pode ser uma pessoa extremamente egoísta, mesquinha, porque os planetas dependem também de aspectos e instâncias variáveis, tendo uma predominância para a massa, que reagirá da mesma forma aos astros, mas sendo totalmente imprevisível quanto ao indivíduo, que livremente, dentro de seu limitado ganho de consciência, escolherá. Então uma pessoa gorda pode estar sendo convidada a olhar para a sua benevolência e generosidade, assim como um hermafrodita pode estar sendo convidado a lidar com o princípio da dualidade de forma concreta. Não quer dizer que a pessoa aceite o convite, bem como não quer dizer que essa vivência será como se espera, por exemplo, não quer dizer que uma pessoa gorda deva (tenha o dever de) ser generosa, mas talvez seja justo o oposto, ela deva deixar de ser tão supostamente generosa consigo, ao se dar a liberdade, por exemplo, de comer qualquer coisa, ou mesmo de engolir qualquer coisa dos outros, numa generosidade cega.

O físico pode ser um convite como ensinamento para que a pessoa entre em contato com aquela força que nela se expressa de maneira física para que ela tome ciência da lição a ser aprendida: sobre benevolência, doação, expansão até mesmo exagerada do que é supostamente bom, mas ele (o físico) não determina que a pessoa aprenderá aquela lição, assim sendo, um visual andrógino pode levar a pessoa a experimentar de maneira bem primária e superficial esse convite a compreender que ela é sim bissexual em termos de gênero, ou seja, a ver que ela é binária, não quer dizer, no entanto, que ela vá viver isso. Aliás ela pode viver a negação da binariedade. Ou mesmo um convite para deixar de achar que já pode viver o binário e ter que escolher socialmente, no caso de um hermafrodita, qual unidade vivenciar.

Nós todos somos espiritualmente binários, não há como negar a binariedade, mas também não há como forçar vaidosamente a vivência desse fato. Esse papo todo de hoje em dia sobre não-binários e gênero fluido e o nome que seja não foi inventado agora, é tudo apenas uma forma rasa de se falar de algo muito mais profundo e sério que é o hermafrodita ou o andrógino originais, anteriores à queda bíblica, inclusive. Não é de agora isso tudo, ainda que muitas pessoas acreditem e fiquem empolgadíssimas achando que estão inventando a roda.

E eu chamo a atenção para pensarmos juntos justo sobre o sagrado feminino e sagrado masculino porque na verdade é um binário sagrado ou um sagrado binário o que se apresenta, por fim.

É se dar conta de que é possível ser mulher e viver mais concretamente a realidade da Terra e da Lua, dos ciclos, da fecundação etc., e de que estamos aqui vivenciando isso e muito mais, para passarmos por muitas experiências e quem sabe com isso adquirirmos algo de conhecimento que nos conduza à espiritualidade, mas sem deixar de lado o masculino, porque se eu negar, se eu matar a força masculina (e isso não quer dizer ‘usar somente a cor rosa’, mas sim negar a energia masculina, energia positiva que há em mim), eu não germino, eu não produzo, eu morro… porque eu vou viver um eclipse o tempo todo, como se durante a vida toda eu estivesse sob um eclipse solar, e se eu fico eclipsando o Sol, algo tenderá a definhar: o calor não chega, as plantas não crescem, a vida, no mínimo, adoece. Assim como ser homem e ficar só na masculinidade viril de ‘olha como eu sou potente’, bacana, mas o que você faz com essa potência de fato? Quantas pessoas você ajuda com essa força? Quanta vida cresce através de você realmente? Ou você está matando seus filhos? (E não falo aqui de filhos literais, necessariamente, mas inclusive dum gozo estéril, como homens que se masturbam demais ou transam com qualquer coisa que se mexa). Se o homem ainda está vivendo uma realidade em que ele mata seus filhos, aborta-os, abandona-os, vira a cara, nunca mais fala, se ainda está vivendo uma realidade em que ele abomina o que ele cria, ou inclusive não cria, não produz vida ao seu redor, mas sim morte e esterilidade, então ele não está vivendo o Sol Vivo, mas um sol morto, que mitologicamente é Saturno.

Então não é viver uma masculinidade em sua exaltação, em sua oitava mais sublime, por assim dizer, assim como a mulher também, se ela fica vivendo só a Lua, e repetindo os ciclos inconscientemente, ad aeternum, sem produzir nada em si mesma, apenas gozando da luz que nela se projeta, é preciso olhar para a Terra, sim, mas com a mesma pureza da Lua, e fazer com que a matéria daqui, a creação aqui seja mais pura que a da própria Lua – isso é raríssimo de acontecer.

A mulher tem a integração entre ambas (Terra e Lua) um pouco mais dada, não há como desconectar muito uma da outra, até por fisicamente estarem muito unidas, mas um Saturno que está desligado do Sol, não é nada, não é masculino de fato, e é possível também as mulheres cometerem esse erro, na busca do masculino, se tornarem extremamente masculinas de modo saturnino. Saturno, que inclusive é cheio de Luas.

Então é preciso se atentar ao que essas simbologias nos mostram, como elas nos conectam com esse algo sublime que nós vivemos e não percebemos muitas vezes, ou na tentativa de perceber algo mais aprimorado acabamos “pisando na jaca” e errando a mão feio. É preciso começar a suspeitar porque que um Saturno tem muitas Luas cujo domicílio, dele mesmo, é num signo extremamente feminino, Capricórnio, sendo ele próprio um planeta extremamente masculino, como um pai que justamente mata seus filhos, não permite que vivam.

Se nós não somos pessoas produtivas, ou seja, se somos reprodutivos, se estamos apenas nos reproduzindo e reproduzindo as coisas (vivemos na era da reprodutibilidade), não estamos tendo contato com o Sol Vivo, porque o Sol é produtivo – ele produz luz e calor o tempo inteiro, ou seja, deve-se ser produtivo, mas não para si mesmo, de forma egoísta, e sim para o Outro.

Um Saturno tem 62 Luas, imagina… é acontecimento pra caramba, porque se a Lua faz as marés, plantas, rege o ciclo de crescimento, vivência e morte, oras, com 62 Luas ia ser isso de maneira exacerbada, caótica, sob um rigor extremo, pois Saturno é um masculino que exacerba o feminino também, com dois polos extremamente fortes em termos de vivência materiais enquanto simbologias.

Mas o Sol, ele não tem Luas. Ele tem Planetas ao redor dele, não Luas. Porque ele já não crea vida nele mesmo – a Lua é para crear vida em si mesmo, tentar fazer algo nascer, crescer, morrer, em processos de transformação, de gerar algo, ou seja, a Lua é responsável pela geração, mas o Sol… o que gravita ao redor dele são Planetas: são seres que ao invés de fazerem ele ter vida, é ele quem se queima para doar vida para esses seres que o rodeiam.

E é preciso ter vida dentro, não adianta ser só um trabalho, porque as pessoas se equivocam com as aparências, e acreditam que fazer um trabalho lunar, eu pegar e ir doar tudo, ou sair ajudando quem eu encontro pela frente, ou fazendo tudo de graça, será viver a doação, sendo que não, isso é uma luz lunar, e a Lua, por mais que brilhe, não tem brilho por si mesma, ou seja, isso só irá ser real se eu tenho Vida em mim mesmo, porque só pode doar vida aquele que tem vida em si. E doar Vida não é necessariamente doar bens materiais.

Então é preciso, antes de sair doando tudo, dando tudo (aliás, há uma grande diferença entre dar tudo e doar tudo, mas…), antes de sair curando supostamente todo mundo numa super boa intenção, criando aparência de Sol, é preciso, antes, se perguntar se eu sou capaz de, mesmo sem tudo isso, continuar me doando. E me doando no sentido de queimar em mim mesma, de ser e estar em transformaçõesnão para que alguém veja, mas simplesmente porque tem que ser assim, assim como doar para os outros inclusive aceitando e amando quem não queira a doação.

É preciso aceitar que nem para todos os que a gente doa Vida irão gerar vida realmente, tem pessoas que são “só”, entre aspas esse “só”, meteoros, ou asteroides, pessoas que não têm grande capacidade de creação de vida em si mesmas, então a gente pode doar beleza para elas e elas passarem riscando o céu como um cometa Halley e a gente se espantar: uau, que lindo! Mas em si mesmo não chega a ser um planeta, não tem exatamente vida como uma Vênus, um Mercúrio, um Marte, ou mesmo um Saturno. Mas ainda assim o Sol, em sua grande magnificência, faz com que algo tão simples e escasso se torne um show de beleza, sendo que o cometa Halley tem uma órbita que chega próxima ao Sol estando entre Mercúrio e Vênus, bem como tendo seu ponto mais distante na mesma distância que Plutão, e correndo no sentido contrário dos planetas, ou seja, ele dança pelo sistema inteiro, vai no sentido oposto a todo mundo, é supostamente estéril, e ainda assim, vive ao redor do Sol para cumprir com sua digníssima missão: ser a materialização de uma excêntrica beleza!

Então será que estamos preparados para nos doarmos inclusive para seres aparentemente insípidos, estéreis e opostos a tudo o que acreditamos?

Será que a gente é capaz de emanar para qualquer um a nossa força, sem perdê-la?

Porque claro que ao queimar, uma hora o Sol irá se apagar, consumir por completo, mas sabemos também que quando uma estrela chega ao que chamamos de morte, dependendo do tamanho dela, ela vira uma anã branca, ou uma supernova, ou buraco negro, ou mesmo uma gigante vermelha no meio desse processo, e por fim até uma lendária anã negra, ou seja, ela ganha uma impulsão tal que se torna algo ainda espetacularmente mais magnifico, tamanha a sabedoria do universo! Sem entrar em méritos de haver o que chamamos de vida, pois a própria vida da estrela se transforma e com ela se transforma também todo o sistema! Eis a verdadeira beleza e justiça!

Então, será que quando cultuamos um sagrado masculino e sagrado feminino nós sabemos do que estamos falando de fato? Será que temos ciência de que estamos eclipsando forças para aprendermos sobre uma força específica enquanto aparência e a outra enquanto sombra?

Não há problema em se viver somente o feminino ou somente o masculino, mas a partir da hora em que a gente toma ciência de que isso é um processo de eclipse e de obstrução de outras forças para que uma seja preponderante no processo e eu aprenda algo deste rigor, isso também traz sombras, traz impotências, traz doenças e problemáticas com as quais eu tenho que aprender a lidar, todos temos, porque faz parte, é para isso que servem, inclusive literalmente, os eclipses no céu, mas eu só vou crescer de fato com eles se eu aprendo o que eu preciso observar com isso e compreendo que é preciso curar: que para viver o meu sagrado feminino eu preciso curar meu sagrado masculino e para viver meu sagrado masculino eu preciso curar meu sagrado feminino.

Ou mais profundamente: curar no Outro, naquele que queira e esteja pronto e disposto.

Olha que paradoxo! Um paradoxo belíssimo!

Sou eu que muitas vezes deixo de me curar por não conseguir observar com a ciência disso, porque grupos de sagrado feminino muitas vezes deixam a gente mais doente e bitolada. Porque é limitante, está ensinando a lidar com as aparências, mas nem sempre se ensina como lidar com a sombra, só se obstrui a outra força e gera mágoa, ressentimento ou vivência fechada – passando a viver apenas entre mulheres.

Se não observarmos que esses processos de eclipses são de uma obstrução para que se aprenda a desobstruir e com isso trabalhar com o polo oposto enquanto sua sombra, a vida vai continuar morrendo, porque os homens vão continuar tendo eclipses lunares e vão continuar precisando passar por Saturno, com mil e uma luas, sem poderem eclipsar as forças femininas do rigor, da sombra, sendo obrigados a se melhorar quanto ao feminino – ou, se não se melhorarem, veremos as aberrações que sempre existiram: homens que realmente literalmente matam, abandonam, obrigam o feminino (seja em forma de mulher, seja em forma de filho, seja internamente até mesmo no suicídio) a estarem sob seu comando, levando a uma frieza que não gera nada mais, nem uma vida.

Assim como veremos mulheres que vão continuar tendo eclipses solares e vão continuar parindo aberrações, filhos dessas sombras todas, ou ficarão parindo sem parar, continuando a ser apenas um “vaso reprodutor”, como muitos já as tratam, ao invés de se purificarem e crearem algo (seja um filho, seja uma ideia etc.) realmente imaculado, no sentido de único, de pleno de valor por ser pobre, obediente e casta ao invés de submissa, como o mundo exige – porque a pureza que o mundo exige é falsa, a pobreza, a obediência e a castidade, já tratadas no texto anterior sobre a Poesia da Palavra, tem relação com a forma como se crea, gerando uma fórmula única, individual e intransferível de como fazê-lo. Esse seria um feminino emancipado.

Mas voltando a Saturno, é só isso que Saturno causa? Morte, esterilidade, rigidez, abandono, frieza? Não, ele não se reduz a isso, Cronos também pariu um Zeus, é de Saturno que vem Júpiter em termos de hereditariedade, ou seja, a escolha maléfica não é do planeta, mas dos homens! Do ser humano! Porque as mulheres também podem passar por esse processo, lembremos sempre que as aparências enganam, tratar de polo positivo masculino como só homem é um ledo engano. Mas Saturno em si, se aprendemos a lidar com ele, podemos parir um Júpiter! É assim que se rasga o estômago dele e se liberta desse processo tão doloroso que é ser, inclusive, engolido por si mesmo, porque no fundo é isso, a gente consome a vida alheia – pode matar os outros, mas o efeito espiritual disso é de obstrução do próprio crescimento, é a si mesmo que se está engolindo principalmente, porque o outro, se ele é morto, renasce!

A obstrução depende apenas de nós, de não ficar preso a esse ressentimento de ter sido engolido e morto por um Saturno (ou pessoa saturnina). É difícil? Sim, estamos nisso há milênios, nos matando e nos vingando há tempos, mas é da escolha pessoal de cada um ao tomarmos ciência e, cada vez mais, sairmos desse processo saturnino e irmos viver Júpiter, e sendo Júpiter, compreendermos que Saturno é o pai em termos de hereditariedade, de onde eu vim – então honrar a origem material, honrar Saturno é necessário e imperativo para quem queira se emancipar dessa força castradora (que, aliás, paradoxalmente é o caos, mas é também aquele que tem rigor e que sistematiza tudo – quem ama só o rigor ou ama só o caos de Saturno, ainda não aprendeu o caminho do meio do próprio Saturno, é alguém que ainda não compreendeu a amplitude dessas gradações de Saturno, e é aconselhável buscar sempre o caminho do meio de todos os Planetas, se possível, seja como símbolo, seja como força, seja como energia, seja como mitologia, ou como realidade verdadeira).

Mas se eu aprendo a honrar Saturno e honrar a Lua num caminho do meio deles, em que eu pego, por exemplo, o caos que Saturno causa na minha vida e sistematizo através de uma obediência, não de rigor com medo e pânico, mas simplesmente por compreender que as coisas precisam de um sistema para andarem, precisam ter ordem para progredirem, tudo melhora! Sendo que isso lindo! Porque ordenar é progredir, claro que dentro duma esfera de quem sabe que não é a ordem que eu quero, de forma egoísta, mas na evolução das coisas espirituais, ou, para quem não acredita em espiritualidade, das coisas em termos de virtudes, porque sabemos que há homens mais virtuosos que outros, então há ordem e gradação nisso, existe uma hierarquia, isso não significa ser melhor e ganhar troféu e medalha, não precisamos entrar nessas infantilidades de premiar para ser alguém Bom, mas simplesmente sermos Bons porque é Belo e Verdadeiro ser Bom, não preciso ganhar troféu nem ninguém me reconhecer por isso.

Por isso a verdadeira bondade reside na forma como eu penso, e a forma como eu ajo refletirá isso. É o caso já citado do céu que reflete na água.

Há homens de maiores virtudes do que outros, há, e isso nos mostra justamente que há um caminho, é possível se melhorar, ser mais do que essa carnificina do dia-a-dia que nos apresentam em noticiários. Nós enquanto seres humanos somos muito mais do que isso, muito mais, e isso sem colocar espiritualidade no meio, porque se levamos em conta o espiritual: nós somos eternos, para começo de conversa, que dirá as virtudes que nos cercam para que isso seja possível, em verdade. Elas são imensas, são forças que nos elevam de uma maneira que é realmente um êxtase, um arrebatamento!

E aí podemos ver que honrar Saturno é passar pelos processos necessários para que se cresça, pela dor, pelo susto, pelo pânico, assim como pelo espanto, pela dádiva de ver um panorama da vida e obter assim a panaceia que finalmente nos cura, porque Saturno está relacionado com Pã, ser esse que espantava as pessoas pela floresta, sendo Pã a fonte do pânico, da pandemia, mas também do panorama e da panaceia.

Uma mesma origem para coisas que nos atemorizam bem como para as que nos enchem de saúde, assim também é com a palavra ‘sagrado’, que tem em sua origem também o significado daquilo que é santo junto ao que é amaldiçoado! Pois é… o paradoxo da dualidade reside misteriosamente em muitos lugares, pois só no duplo é que nos tornamos verdadeiramente íntegros, unos. Pois toda inteireza é união de contrários.

Então, para chegar ao Sol, preciso ir transformando em ouro todo o chumbo, para daí Júpiter falar: ok, Saturno, eu vim de você, obrigado! Honrei teu propósito, segui suas ordens, mandou: eu fiz, mas meu Pai Verdadeiro, o Pai Vivo a quem eu sigo, é o Sol, porque eu estou no reino dele e, portanto, sigo ao Rei. E seguirmos realmente o Sol, porque é o Sol que está nos levando pro centro de nós mesmos.

É claro que um sistema, enquanto sistema, é estabelecido por um Saturno que ordena, mas sabemos ao mesmo tempo que todo sistema é solar, não é lunar nem saturnino, mas sim solar.

E por mais que se diga que o Sol é Cristo e o Cristo não é exatamente o Pai, ainda assim, Eles são unos, e somente através d’Ele se chega ao Pai Verdadeiro, invisível. Então é preciso fazer com que o Sol seja, por adoção, como um Pai, porque Ele segue o exemplo do Pai.

E o Sol é quando a gente vive a capacidade de ultrapassar esse masculino do rigor e este feminino de procriações cíclicas e “aleatórias”, entre aspas, claro que não é aleatória, mas em termos de inconsciente, para tomarmos ciência do que se crea, para iluminarmos quando se deve, porque não é o tempo inteiro que é dia. E sendo Sol, aprendermos a iluminar mesmo quando é noite através dessa Lua então, que seja… e assim permitir que o outro experimente ser uma fonte de luz também.

Mas sabendo que é o Sol que passa a reger realmente os ciclos, as creações, os sentimentos, as ações que profundamente nos competem enquanto vivência da nossa total potencialidade, porque enquanto é potência não é vivência, potência é latência, é possibilidade de vivência. E é só quando compreendo o Sol em sua inteireza que vou compreender realmente esse sagrado binário e viver sob a luz desse Ser sagrado.

Para se chegar a ele, só passando por um sagrado feminino que exalte e cure o sagrado masculino, e um sagrado masculino que exalte e cure o sagrado feminino.

É preciso se curar, e a cura só vem pelo polo oposto, pelo Outro.

Então que vivamos os eclipses, que exaltemos esses sagrados eclipses, mas não nos enganemos:  a sombra que há não é no outro, somente, mas em nós mesmos. Viver o sagrado feminino e viver o sagrado masculino é viver a sombra em mim: necessário, crucial, eu diria, para um dia se chegar ao Sol, em termos de completude do sistema – para se chegar ao Sol e à Terra, porque o oposto do Sol não é sequer a Lua, mas os Planetas. E, portanto, não ser Sol e Lua enquanto dualidade aparente, mas sim se tornar um sistema completo de Sol e Planetas.

Talvez para se chegar neste ponto só passando pelo sagrado da unidade – do sagrado feminino e sagrado masculino, separados, como se diria, mas nos atentemos ao comprarmos essa ideia que anda sendo tão vendida popularmente hoje em dia, que tomemos ciência do que ela significa, e compreendamos que para viver o sagrado feminino seria preciso realmente viver a sombra do masculino para que se possa curá-la, bem como sendo o inverso verdadeiro. Não é algo bonitinho, não é sobre viver a luz do feminino apenas, mas sim termos em conta aquilo que é necessário para a cura. Sendo que essa sombra sou eu mesmo quem estou fazendo, eu que causo, porque sou eu enquanto planeta, enquanto Terra, que me alinhei de forma tal que eles se obstruem, então eu não sou vítima do Sol e da Lua que se posicionaram de maneira injusta, coitado de mim, mas a minha forma de me posicionar que obstrui a visão de um e de outro. Assim como se são eles que também assim se colocam num alinhamento reto, é porque nossa vida é demasiadamente torta e nós que não estamos acostumados a ver as coisas de maneira mais inteira, com a sombra fazendo parte do processo.

E tudo o que eu posso desejar, seja na humildade ou na vaidade de quem deseja algo que acredita ser o melhor, é que um dia todos nós sejamos um sistema solar – inteiro. Que tenhamos nossas vivências sagradas (do que é sacro e do que é amaldiçoado) e compreendamos que ainda há muito, muito, mas muito trabalho…

Então que oremos sob o Sol e trabalhemos sobre os Planetas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *