O que é a intencionalidade?

O que é a intenção?

O que é Intencionar?

          Se nós olharmos para a etimologia de intencionar, seja com ‘c’ ou com ‘s’, porque intenção tem com ‘ç’ e com ‘s’ (intenção & intensão), nós encontraremos a mesma raiz:  intensio – que significa alongamento, estiramento, esforço .

          Intensio/Intendere :  |in– que significa ‘em’| & |-tendere, que significa ‘esticar’, ‘estender’|.

          Então a intenção é eu esticar algo, é eu ampliar esse algo e ver camadas. Quando eu pego um objeto, seja desde coisa física densa até um assunto sutil, e o estico, e o alongo, prolongo, eu faço com que seja possível ver os detalhes que estão dentro dele, daquele pedaço.

          Assim como, se eu pego um ponto e o estico, ele se torna uma linha.

          Entre a intenção e a pretensão há uma larga diferença. Eu comentei sobre isso no vídeo passado e torno a falar para que nos aprofundemos nessa questão.

          Pretensão vem de praetensus, que é dissimular algo no sentido de ‘apresentar ou alegar uma suposição’. Então a gente pressupõe algo na pretensão: se eu venho aqui na pretensão de ensinar algo, eu estou supondo que eu vou ensinar algo e alguém irá aprender. Isso em si não é ensinar e nem mesmo aprender, pois a pretensão é um ponto parado no Tempo. Por ela ser uma suposição, ela supõe um começo e um fim – então eu traço uma reta, uma linha de um ponto ao outro, tendo começo e fim, supondo que eu farei esse trajeto ininterruptamente.

          Na intenção o que há é o ampliamento, o estiramento de um ponto. Não é eu ir de A para B, mas eu chegar tão próximo ao A ou ao B que eu perco a noção de começo e de fim daquele ponto. Eu sei que ele pode ter um começo e um fim, mas eu perco isso por um momento, eu me descolo no Tempo e crio movimento de aprofundamento através da intenção. Na pretensão se está parado.

          Pretensão em inglês também deriva uma palavra que é pretender, to pretend. Tem uma música do Freddie Mercury que eu particularmente gosto muito, em que ele canta: oh, yes, I’m the great pretender, pretending that I’m doing well… [The Great Pretender]

Pretender é eu fingir algo, é eu fingir um movimento: eu sou um grande fingidor, fingindo que tudo vai bem [tradução livre da música] – então eu finjo um movimento. Na intenção eu sou capaz de produzir esse movimento.

          No vídeo anterior eu comentei sobre o Símbolo de Aquário, da Era de Aquário, Signo de Aquário, enfim, que é o Homem com o Cântaro de barro que jorra Água. Dentro desse arquétipo e dessa analogia que nós fizemos, na Água que cai quando eu coloco uma intenção ou várias intenções eu sou capaz de observar e estar presente e atento ao fato de que, ao cair a Água, esse filamento de Água, eu posso dar uma altura para ele, eu posso sentir a temperatura desse jarro, eu posso colocar características que são inerentes a esse movimento, o movimento de derramar essa Água.

          Então eu sou capaz de dar movimento, intenções que pertencem inerentemente a esse movimento, do jorrar essa Água que cai do meu jarro de barro, esse Cântaro. Eu não transformo a Água em outra composição, eu não altero quimicamente a Água e sua composição, o que acontece é que eu uso de características desse ‘Princípio do Jorrar’ (que é o ‘Princípio do Movimento’ em uma camada mais densa, mais específica) para dar intenções ao cair dessa Água, ao verter essa Água e fazer com que ela atinja uma finalidade, ou várias finalidades.

          Finalidades essas que não sou eu quem concebo, mas quem chega é aquele que a traz. Finalidade que pode ser uma ou podem ser muitas, cabe a quem recebe dessa Água estabelecê-la, assim sendo, por um momento essa Água sai de mim e chega até um outro ser, como você, que me ouve e pensa comigo e fia junto e conversa, ainda que aí, em silêncio e em diferentes tempos.

          Se eu tenho a pretensão de algo, não seria possível aprender em tempos diferentes, não seria possível isso se perpetuar em tempos diferentes, isso se torna uma restrição cada vez maior, mas na intenção aquilo que parte de mim chega até ti e por um momento toca um ponto, ou vários pontos, que é uma finalidade ou várias finalidades.

          E é claro que pressupõe-se, ainda que não necessariamente venha a ser assim, que seja necessária essa finalidade para que essa Água assente, para que as impurezas, que também são inevitáveis, assentem – pois eu não sou e a minha Água não é a Água cristalina e pura como se deveria ser para que houvesse um movimento realmente fluido, mas tendo ela impurezas, é necessário que encontre finalidades em ti e decante, decantando as impurezas, as particularidades.

          Então, se ela sai quente de mim ou sai fria de mim, é necessário que em ti ela encontre a temperatura exata, a tua temperatura para que você saiba absorvê-la. Então por um momento, sim, ela descansa no tempo, mas sendo o movimento sempre necessário, um princípio da vida – e nós sabendo já inclusive cientificamente que água parada é algo que mata a vida, em algum momento é preciso que ela encontre outras intenções para que ela saia de ti e parta em busca de outras finalidades, assim como hoje a minha sai de mim e busca a finalidade em ti.

          E o movimento continua…

          Quando eu verto na intenção de que essa Água encontre um ponto onde ela decante, eu estou fazendo com que esse fio d’água esteja em você, encontre você e esteja em você, para que eu possa fiar esse fio d’água em você, e você possa fiar um outro fio d’água em outras pessoas e em mim também.

          Quando nós fiamos em alguém, nós con-fiamos, pois confiar é fiar juntamente de alguém, e nós confiamos em alguém, nós fiamos juntos em alguém.

          Então para que minha Água verta de fato e para que ela encontre uma finalidade em ti é necessário que nós confiemos uns nos outros. A pretensão, na pretensão, não é necessário: nem movimento nem confiança, ainda que se possa ter um fio. Mas é preciso ver que ir de A até B, partir de um ponto até outro ponto, e formar essa linha, seja ela uma reta uma curva o que seja, é como traçar isso num papel: fica na segunda dimensão.

          É possível ter relações de segunda dimensão? Sim, é possível. Faz parte da realidade? Sim, faz parte da realidade. Mas podemos já ter relações 3D? Sim, podemos e temos! Ou deveríamos ter.

          3D é justamente a profundidade. É quando deixa de ser pretensão, que pode ser boa, porque é a vontade de movimento, mas é quando deixa de ser apenas uma vontade para que se torne movimento de fato! E cause esse aprofundamento.

          Então meu fio sai de mim e vai até ti e adentra novos espaços. Abre campos, se torna rizomático.

          Rizomático é algo que parte de um ponto, mas vai criando tantos caminhos, tantas possibilidades partindo desses outros pontos também que se torna uma teia, não é possível mais encontrar de onde partiu e nem para onde chega.

          E mesmo que sejamos capazes de dizer: partiu dela, momentaneamente, neste momento está partindo dela. Ainda assim quando se olha essa teia, quando se olha a ideia, e não apenas a ação em si, mas o que a ação carrega, nós vemos que é algo justamente muito maior do que um ponto ou dois ou três pontos, é algo que engloba todos os pontos e forma uma grande cadeia, uma grande teia.

          No vídeo anterior eu também falei sobre eu acreditar que talvez não seja possível poluir a Água que cai do Cântaro. Mas a verdade é que eu conscientemente não soube conceber que: não é que eu acredite que a Água não possa ser poluída, mas eu não acredito de que sejamos capazes, digo, de que seja possível poluir a Fonte. Pois a Água talvez sim, talvez seja possível polui-la. Eu não sei, assim como eu também não sei sobre ser possível poluir a Fonte. São conceitos que eu estabeleço neste momento da minha vida para que eu possa justamente aprofundar. Então eu crio esses pontos para aprofundar, e talvez inclusive descobrir que ali não era um caminho.

          Mas hoje creio que talvez a Fonte não seja possível ser poluída, mas que a Água seja sim passível de poluição, porque enquanto essa Água cai eu posso jogar coisas ali junto, eu posso inclusive cuspir nessa Água, assim como principalmente o Jarro: se o Cântaro estiver poluído, sujo, essa Água inevitavelmente cairá de uma forma não muito agradável.

          Não sei se é possível alterar a composição da Água, sei que tem pessoas que acreditam que isso seja possível e tentam. Mas ainda que façamos isso, se torna cada vez mais claro que isso está acontecendo e passa a poder ser evitado, se somos capazes de ter escolhas conscientes: tanto capazes de evitar que minha Água seja poluída, quanto de beber duma Água que esteja poluída, duma Água que esteja deformada, deturpada, enfim…

          Se voltarmos à intencionalidade, se intencionalidade já são as características próprias do cair dessa Água, às quais eu deveria estar atenta minimamente ao despejá-la, ao vertê-la, e se inevitavelmente ela estará presente, isso significa que se eu não estou consciente das minhas intencionalidades, ou uma intencionalidade, quantas sejam, mas se eu não estou consciente das intencionalidades ao derramar essa Água e a estou derramando de toda forma, porque nós nos relacionamos de todo jeito, então isso talvez nos revele que: se eu não tenho clareza da intencionalidade da minha Água, do que eu intenciono com ela a cada momento, a cada vez, a cada palavra, a cada respiro, isso significa que cada gota minha está sendo poluída com a intenção de fora, pois se eu não estou prestando atenção aqui, se eu estou prestando atenção em qualquer outra coisa, eu continuo vertendo e vertendo e vertendo baseada nessa outra coisa que está por aí, e que passa a determinar a maneira como eu verto.

          É claro que todas as coisas alteram as nossas intenções, alteram o jorrar dessa Água – é claro que ao ter, por exemplo, um grande barulho lá fora eu passo a falar do barulho lá fora, mas se eu sei de maneira consciente a forma como isso me afeta e afeta o meu jorrar, eu uso isso a favor. Então nós podemos deixar essa pedra passar, esse pó passar, esse momento passar…

          O que não quer dizer que ele não tenha a sua pureza em si, que seja necessariamente poluído, pois é isso – a poluição talvez comece no fato de não termos consciência ou negarmos e eu começar a gritar fingindo que nada está acontecendo lá fora, pressupondo que se eu gritar não se vai ouvir o barulho grande que está lá fora, então eu finjo e grito ao invés de assumir que isso altera e faz parte, ao invés de confiar no movimento do mundo e naquilo que ele me oferece, deixar que venha esse fio de fora e fie junto comigo o que eu aqui traço, o que eu aqui fio também.

          Então é muito importante que se tenha clareza das intenções quando vertemos a nossa Água, cada gota dela, pois se eu não a determino, algo externo a determinará. Assim como muitas vezes estarei julgando estar vertendo e estarei segurando o jarro sem verter de fato. Nós vemos isso acontecer, é simples, é como estar pondo um suco num copo, chá, água num copo e alguém nos chama ‘fulano, fulana’ e por um momento a gente presta atenção em outra coisa e acaba derramando ou para de derramar para que possa prestar atenção – muitas vezes nós paramos e não vemos, não percebemos que paramos: nós não fizemos uma escolha consciente, foi o corpo que automaticamente parou porque ele conhece esse caminho. Mas há corpos que não conhecem esse caminho, e justamente derramam, continuam vertendo e acabam fazendo uma lambança.

          E não tem problema algum em fazer lambanças de vez em quando ou não verter, o problema reside sempre, sempre, na inconsciência, na ignorância do que se está fazendo. Se somos uma pessoa estabanada, que sempre derrama, é preciso aprender a tomar consciência de quando se está um momento antes de derramar para que se evite esse derrame.

          É um dever aprender a estar fiando de maneira a con-fiar no mundo e fazer com que o mundo possa con-fiar conosco, ainda que ninguém tenha obrigação disso porque “ninguém é obrigado a nada” – como dizem por aí, mas há deveres a se cumprir, e nós devemos fiar de maneira que o mundo possa confiar conosco, e se os nossos atos são estabanados sempre, de maneira que nunca alteramos isso ou nem tentamos, o mundo não pode confiar em nós e nem conosco. Se torna mais complicado, mais difícil.

          É possível poluir a Água? Eu não sei. Mas no meio do caminho talvez seja possível alterá-la. E é preciso então lembrar que a intencionalidade é aquilo que convém, pois não convém eu vir aqui ofertar algo que eu gosto para uma criança por exemplo: uma criança não bebe álcool, se eu gosto de álcool, eu não posso – não convém que eu ofereça uma bebida alcoólica a uma criança, assim como a um diabético não convém que eu ofereça algo com açúcar como um refrigerante, assim como alguém que não gosta de suco não convém que eu ofereça suco.

E aí talvez comecemos a perceber porque que é Água o que cai do Cântaro, o que é vertido do Cântaro. A Água: esse solvente universal!

          Pois não convém lavar as mãos em chá. Nem lavar os pés na lama. E talvez, talvez, nós ainda estejamos em uma fase em que ofereceremos (o que gostamos) uns aos outros – e eu esteja aqui já a fazer isso (pois é claro, como eu disse já, não é Água pura o que cai aqui), mas talvez oferecendo com o máximo de honestidade e sinceridade e clareza e consciência aquilo que eu tenho para oferecer porque eu gosto e, principalmente, aquilo que eu tenho para oferecer e neste momento convém oferecer porque é o melhor que eu tenho, então aos poucos veremos que o movimento da intencionalidade um dia irá se purificar, pois o princípio desse movimento – do cair da Água do Cântaro – é o de, justamente, encontrar outros pontos, conectar vários pontos.

          E não é possível, ainda, conectar todos os pontos se um oferece refrigerante, o outro oferece chá, e o outro vinho e o outro, cerveja, enfim… são Águas poluídas, por mais gostosas que sejam. Pois o ‘Princípio da Água’ é a cristalinidade (ou seja, a Pureza).

          E aí talvez, um dia, quando todos os Cântaros forem limpos e a Água de todos os Cântaros se tornar cristalina, a intencionalidade, a profundidade venha a encontrar uma quarta camada e flua… para além do que é profundo, conectando todos esses pontos, encontrando em todos algo para além de finalidades, formando o Todo.

          Que possamos purificar as nossas Águas. Assim confiaremos uns nos outros e descobriremos o que é a União, de verdade!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *