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Lemos na Bíblia, por exemplo, uma das menções ao pensamento mais fortes já feitas: que basta pensar para pecar, sendo que pecar significa literalmente errar o alvo, ou seja, se já em meu pensamento eu posso errar o alvo daquilo que é necessário pensar, errando o ponto, não atingindo o cerne da questão, isso mostra que o pensamento em si é uma possibilidade de manifestação, tal qual soltar uma flecha e acertar um alvo. E se observamos que no físico, como manifestação, nós temos a ação e a reação, e que no emocional, como manifestação, nós temos o sentimento e o ressentimento, no pensamento vemos que nós temos, como manifestação, a produção e a reprodução, como observado também no texto sobre a Poesia da Arte.

Isso nos revela que o pensamento precisa, assim como todas as outras manifestações, da memória para ser ativado. E quando lembramos e chegamos à conclusão de que pensamos o tempo inteiro, que tudo que eu faço há junto uma espécie de voz interior, como um narrador na cabeça, reproduzindo histórias, reproduzindo julgamentos, reproduzindo frases e o que mais seja, inclusive imagens, é preciso observar que essa aparente reprodução de coisas internas – ter imagens e palavras internas todo o tempo – não é de fato um pensar, porque, assim como um gesto real requer uma ação, ao invés de uma reação, assim como uma relação real requer um sentimento, ao invés de um ressentimento, um pensamento real requer uma produção ou creação, ao invés de uma reprodução ou uma recreação, e incluo o recrear-se aqui porque é como crer que só porque eu me divirto ou tenho pensamentos aparentemente leves e inocentes seja um pensar em si, mas o crear não é feito na mente, e sim além dela, contudo uso aqui apenas como figura para melhor ilustrar.

Pensar, verdadeiramente, requer produção no momento em que se pensa. Isso significa que a memória não será acessada para rever maneiras já existentes de se fazer aquilo, mas sim servirá como base para se saber que não se esteve naquela situação antes, mas que também, ao mesmo tempo, não é de maneira aleatória que se pode agir perante aquilo. Em suma, para pensar é preciso, assim como para agir e para sentir, saber que nada se sabe e que ainda não se viveu aquele momento específico, mas que não é qualquer saber e qualquer agir, qualquer pensar, que servirão como base, porque é como fazer novas todas as coisas a cada pensar, contudo, sem que isso destrua a raiz do que seja um pensar genuíno sobre aquele assunto, pois, exemplificando, não é apenas proferindo frases já conhecidas sobre o que é o Amor e também não é deixando de pensar o Amor só porque já se pensou no passado, não havendo nada de novo a se falar, e nem falando qualquer coisa que será Amor de fato, mas sim, a cada vez que se for considerar determinado ‘ponto’ no pensamento, fazer com que ele verdadeiramente seja um ponto que se torne linha pela primeira vez naquele momento, e fazer com que aquela linha de raciocínio ganhe geometria, e assim por diante (como eu falei sobre a construção de um espaço ao falar na Poesia do Ouvir e na Poesia da Personalidade), tudo dentro da capacidade de cada um, e também sem fugir do fato de que pensar sobre qualquer assunto, por mais que seja feito como novo, não está livre de pressupostos, de princípios norteadores –então por um lado a memória esquece e sabe que nada sabe, enquanto por outro ela lembra pela tradição que nos habita, mesmo que conscientemente não se saiba.

Torno a repetir: pensar, verdadeiramente, requer produção no momento em que se pensa. E produzir é guiar para frente e para cima, porque passamos a nos interessar pelo que guardamos no pico de nós mesmos: a mente, em termos físicos, a cabeça. Crear é inventar. Invenção tem sua raiz etimológica em inventio, de invenire, que significa ‘descobrir, achar’, sendo formada por in- ‘em’ e venire ‘vir’. Ou seja, é algo que está ‘a vir’, ‘por vir’. Se eu pressuponho que já chegou, que já está ou já se esteve, não estou inventando nada. A invenção é própria daquilo que está em movimento. Então o verdadeiro pensamento, o verdadeiro sentimento, a verdadeira ação (tudo isso em conjunto) é aquilo que está vindo, aquilo que é em constante recebimento através do espírito.

É preciso distinguir que pensamento não é a mesma coisa que mente, assim como corpo físico não é a mesma coisa que a ação em si. Uma precisa da outra para existir, é certo, são correlatas, mas não equivalentes.

E é claro que, se observarmos mais aproximadamente, veremos que não é a mente que crea, não é o pensamento repetido uma recreação, porque o crear verdadeiro está além da mente, ele vem do espírito – por isso há vidas de seres (humanos) que buscam crear a si mesmos, como se estivessem num laboratório, e outros que buscam a recreação de si mesmos, como se estivessem num parque de diversões. Mas como algumas pessoas não concordarão com o viés espiritual, é possível, como exercício, por um momento, usar essa a creação como “algo surgido da mente”, apenas a título de ampliação das metáforas para compreensão. Ainda que produzir e crear sejam manifestações distintas, porque se dão em instâncias distintas. A produção é vinculada à matéria, a creação, ao espírito –ou seja, o espírito é inventivo enquanto a matéria é fazedora, produtiva/produtora. E claro, sem a prepotência de crer que creamos a nós próprios, eu tenho meu dever junto à creação, mas ela em si não depende apenas de mim, há seres superiores na creação junto de nós, ou seja, há seres espirituais juntos de nós. (Para maiores estudos, recomendo fortemente ler o livro Conceito Rosacruz do Cosmos, escrito por Max Heindel.).

Então, como dito, o pensamento precisa da memória para acontecer, e por o pensamento precisar da memória para ser ativado, compreendemos que há então dois movimentos possíveis distintos, como que dois polos, um negativo e um positivo, na ativação dessa memória e uso dela. Se feita de forma totalmente passiva, inconsciente do uso posterior que darei a ela (porque a intenção não é ser capaz de lembrar de tudo o que já aconteceu, mas sim ser capaz de, sabendo o que aquilo representa, significa, simboliza, eu fazer um uso de apropriação daquela memória), então terei um re-conhecer, eu repito um padrão através da atitude passiva, como ao encontrar um amigo – eu reconheço que é meu amigo e isso traz toda uma carga de julgamento já feita, já analisada e eu o tratarei de acordo com essa carga trazida enquanto reconhecimento memorável e agirei dentro de um padrão esperado, sem me presentificar para novas possibilidades, como a possibilidade daquele amigo ser algo para além do que eu conheço e agir duma forma totalmente nova, inesperada. Essa maneira passiva de se reagir é o que traz ressentimento e reprodução de pensamento, seja para reforçar algo de bom do outro ou algo de ruim. (Para mais, sugiro um texto que já fiz sobre a Poesia da Arte em que falo sobre reação, ressentimento e reprodução.).

Mas apenas para exemplificar, eis um pensamento que é repetição padrão do social: toda vez em que se vê alguém gordo comendo, por exemplo, pensar imediatamente: ‘nossa!’ (com repreensão, independente do grau de repreensão), analogamente isso também ocorre com quem toda vez repete um padrão mental de ver algo bom e reforçar isso, como ver chocolate e imediatamente pensar: ‘gostoso, quero’ (com aprovação), sendo que sabemos que nem todos os chocolates são de fato gostosos. Quem isso acha é porque não tem um paladar apurado. Assim como alguém que reforça um gostar ou não gostar, um xingar, um elogiar apenas baseado na apreensão visual, que é aparente, está longe, bem longe (ao menos naquele momento, ainda que um milagre possa ocorrer na próxima vez) de conseguir pensar.

Por outro lado, se a memória é usada ativamente, sou capaz de me lembrar das informações a respeito do meu amigo, mas me manter numa zona de novo conhecimento, ou seja, de confiança e intimidade com aquele amigo de forma totalmente nova e inusitada, de maneira atenta, presente, assim, se a pessoa age de maneira inusual, eu não me ressinto, mas busco compreender o porquê, busco produzir um pensamento sobre aquela escolha dela (usando a mente de forma ativa), ainda que eu possa discordar ou não sentir empatia pela escolha dela.

É claro que é preciso se atentar ao caminho do meio, sabendo que é somente no equilíbrio do que eu já conheço e espero do meu amigo com a possibilidade dele me surpreender e espantar que se gera realmente um uso passivo junto do ativo, ciente das possibilidades e consciente das imprevisibilidades, que é onde reside o milagre, pois todo milagre é imprevisível.

[A presentificação é a união do repetível – memória e passado -, com o irrepetível – milagre e futuro -, por isso toda memória é, em sua base substancial, coletiva (não em termos formativos, porque esteticamente ela se desenvolve de uma maneira distinta com cada um através das experiências, e isso é intransferível), bem como todo milagre, por isso seremos capazes de milagres, como disse Cristo, mas ainda maiores (com outras formas). Um milagre é imprevisível e irrepetível porque se for, por acaso, refeito, não é milagre, mas magia, fórmula etc.. Ainda que obviamente possam ser similares, estarem sob um mesmo arquétipo.]

Então vemos que a memória se torna como uma ferramenta que eu tenho, uma espécie de disco onde guardo todas as informações – seja de forma fria: apenas armazenando fatos e conclusões objetivas; seja de forma já morna: trabalhando com as probabilidades e generalidades, usando de equações matemáticas um pouco mais avançadas para minha comodidade; e de maneira quente, porque são equações específicas para cada caso que geram calor, e que, portanto, são quentes, então neste aspecto (quente) não trabalharei com probabilidades e generalidades, mas sim com uma equação específica para cada encontro, mas tendemos a evitar essa última opção porque dá muito trabalho, é mais fácil usar de generalizações dos padrões, ou seja, reproduzir de maneira morna o que já foi pensado  – lembrando que a ciência é quente à medida que faz experimentações singulares, mas tende a se tornar morna ao pegar cada experimentação singular e firmar leis com base em regras e exceções, podendo gerar avanço, sim, mas também zonas de conforto, ou mesmo imutabilidades – como quem diz ‘eu sou o medíocre e sempre serei, não há nada a fazer’ porque medíocre é o que está na média, no meio, ao invés de descobrir o que é sair da média e ser quente em relação ao seu próprio desenvolvimento, sem que a comparação com o de fora seja um parâmetro fixo, mas sim cardinal, de iniciativa a um movimento também interno. Ou seja, sendo alguém aparentemente morno, mas em verdade quente por estar saindo do ponto médio (morno) de si mesmo.

Contudo, obviamente podemos nos diferenciar das máquinas (na frieza da objetividade) e da massa (na mornidão das generalidades), pois temos a humana capacidade de verdadeiramente usarmos as leis da lógica e da probabilidade para irmos adiante e usar da memória para guardarmos formas – por exemplo, sabermos como se faz uma comida – como pizza, e, presentificadamente, atentamente, sermos capazes de produzir fórmulas – quando me torno capaz de, sabendo a base do prato, sabendo a forma de fazer uma pizza, fazê-la pela primeira vez ao integrar detalhes não antes imaginados – como quem inventa um sabor ou dá um toque do chef, chegando num resultado de maneira única, e ainda sendo reconhecível como uma pizza feita por mim, não porque eu disse, mas porque os outros identificam o sabor característico tanto da pizza quanto do que eu faço, que revela meu saber, sendo que sabor e saber são relacionados (sugiro que leiam o texto sobre a Poesia da Inteligência, Conhecimento e Sabedoria), sendo capaz de produzir um prato de alimentos ordinários, do dia-a-dia, com fórmulas únicas, minhas, intransferíveis – igual comida de vó e de mãe, que ninguém faz igual, ainda que possa haver algo parecido e ser algo simples, como o arroz e feijão de todo dia. Ou seja, somos capazes de fazer isso, com tudo, através de formas e fórmulas, inclusive, e especialmente, com as relações entre pessoas.

Se nós temos o grupinho da balada, o melhor amigo para confessar, o conhecido que convém quando não tenho quem chamar etc., se eu ajo com as pessoas de forma mecânica, setorizando e reconhecendo padrões, probabilidades e as mantendo de maneira estática em grupos que irei tratar apenas de um jeito, então sou uma pessoa morna ou mesmo fria que age, no máximo, como máquina, tratando os outros com o máximo de objetividade. Assim, eu não me abro à possibilidade da surpresa, e não me torno capaz de produzir novas fórmulas com qualquer dos ingredientes que me sejam dados – ou seja, não sou capaz de produzir relações (sejam doces ou amargas) com qualquer pessoa que se me apresente.

Isso tudo mostra que o nosso cérebro em si e a mente (que são duas coisas distintas) e as funções desempenhadas por eles são ferramentas que temos para produzirmos e aprofundarmos nossos próprios pensamentos, ao invés de reproduzi-los o tempo inteiro, como tendemos a fazer ainda. Em suma, para fazer novas todas as coisas na mente a cada pensar, fazer novas todas as coisas no emocional a cada sentir, fazer novas todas as coisas no físico a cada agir.

E pode surgir a pergunta: mas, e as pessoas que nos fazem mal, devemos tratá-las sempre, para sempre, como se fosse a primeira vez? Obviamente que não é assim. Se olharmos, qualquer religião e qualquer tradição, em sua maioria (para não dizer todas), irá dar um prazo para nós, seres humanos, aprendermos a ser melhores (seja lá o que melhor signifique para cada uma). Não temos a eternidade para isso, mas sim um tempo finito para esta tarefa, ainda que sejamos eternos. Assim como a criança tem um período para ser criança e a tratarmos como criança, nós temos um período para agirmos de forma inconsciente e sermos tratados como seres inconscientes do que fazemos, no caso de fazermos coisas ruins uns para com os outros, ainda que em atos pequenos.

Aos poucos tomamos ciência, e depois consciência, sobre as coisas que nos acontecem e que são, por nós, acontecidas. É preciso se atentar ao respeito, em primeiro lugar, sendo que essa palavra literalmente significa ‘um segundo olhar’, então sim, devemos buscar ter um segundo olhar em relação às pessoas, pois é isso que torna possível milagres como assassinos se redimirem e serem verdadeiramente perdoados, tanto na Bíblia, como aconteceu com São Paulo, como na vida real, com familiares das vítimas que buscam realmente uma relação de paz e de novo começo com seus algozes.

Obviamente isso requer sinceridade e inocência nos atos cometidos. Um assassínio pode ser um ato inocente? Sim, pode sim, bem como inconsciente. Nós sabemos disso, nossos antepassados matavam por nada, e isso não significa que estão todos condenados e fim da história – do contrário, não teríamos deixado de ser o literal “homem das cavernas”, que dava paulada e matava a troco de nada – independentemente de cor, etnia ou raça. Contudo, eis uma crucial diferença: há quem saiba da maldade e pratique a maldade pela maldade em si, seja por astúcia (o calor do momento) seja por frieza, como sociopatas e psicopatas, e pessoas que mesmo sem qualquer patologia aparente, escolhem ir por este desvio, escolhendo agir friamente. Então é preciso ter imenso discernimento, porque é preciso aprender a ser respeitoso em relação aos outros (ou seja, ter um segundo olhar acerca dos outros e suas escolhas) sem, contudo, perder a capacidade de discernir o bem do mal, a inocência da ignorância. Eu só ignoro algo do qual tenho conhecimento, já a inocência sequer percebe que havia algo ali, ela pisa na jaca por não ter visto a jaca realmente – ela mata, ela bate, ela age de maneira violenta porque realmente acredita ser o melhor ou acreditar ser a única saída, por não ver a maldade em si no seu ato, mas sim algo de verdadeiro, enquanto a ignorância pisa na jaca porque a viu, mas escolheu ignorar que estava ali – ou seja, sabe que tem algo de errado, mas ignora, e a maldade é o grau maior da ignorância quando, sabendo que há a jaca, sabendo que há algo de errado, que há maldade, vai e pisa de propósito.

E o que tudo isso tem a ver com o pensamento?

Porque a vida muda quando ‘nos damos conta’ de que tudo pode ser diferente. Não é sentir aleatoriamente que pode ser diferente, nem agir aleatoriamente de maneira diferente… mas sim apreender e compreender internamente que é só alterando o processo de como eu penso que posso de fato ver a essência dos acontecimentos, podendo, assim, começar a desenvolver a capacidade de, por graça e milagre, um dia fazer novas todas as coisas.

Pois nossa percepção mental pode mudar: digamos que eu esteja vendo um prédio de 3 andares… se eu estou longe dele (como num avião), eu posso me enganar e eu pensar que é uma casa, loja, galpão etc. porque eu só vejo o teto, por exemplo, contudo, isso ocorre por a minha percepção estar alterada pelo meu lugar no caminho, sendo que isso não faz com que o prédio deixe de ser prédio e se torne outra coisa porque eu assim penso, sinto ou digo. As coisas, fatos e pessoas não se modificam puramente de acordo com nossa percepção individual, mas é a percepção individual que permite conhecer mais a fundo e mais essencialmente as vidas e existências e, a partir daí, da relação, seja da relação das percepções (no caso de duas pessoas) ou da relação da percepção com a coisa em si (no caso de um arquiteto e um prédio), que algo pode mudar.

É importante notar, no entanto, que a causa da mudança, ou seja, a causa do efeito gerado não está apenas em mim, pois isso precisa ser necessariamente dentro de uma relação, porque a causa de um efeito pode estar em mim – que seria eu observar um prédio e achar que é casa, ou em outra figura, eu observar uma pessoa e achar que ela é apenas aquele pequeno pedaço que se apresenta perante mim, e assim sendo porque eu não desenvolvi recursos ainda para ver o prédio tal como ele é, nem a pessoa tal como ela é, porque vejo apenas um pedaço, uma fração. Mas se o efeito existe, que é ver o prédio tal como ele é, inclusive independentemente do tamanho de como ele se apresenta no meu caminho, seja pequeno ou grande, seja de perto ou de longe, mas se a percepção existe, a capacidade de discernimento de que é aquilo é um prédio, e que toda pessoa é mais do que uma personalidade, mas, acima de tudo, um espírito, isso faz com que se apresentem causas superiores, havendo a chance de algo indeterminado, um prédio, uma pessoa, um espírito, se tornar determinado e específico, porque não é apenas pelo fato de ter percepção que eu acesso isso, mas por entrar em relação genuína com aquele Outro que se apresenta e, nesse conhecer interno e íntimo, nessa gnose conjunta (cognoscere), a causa desse conhecer ser derivada de mim em soma com o Outro. É claro que se aprofundarmos o assunto veremos que a causa em si, ao se somar estes dois, emanará de um terceiro superior, que possibilita, por dádiva divina, esse encontro acontecer, porque todo encontro é sustentado por forças e leis superiores às que se harmonizaram naquele momento, como duas notas que só soam e compõem porque há um único instrumento, ou dois ou mais instrumentos que soam e compõem com um único maestro, um único mestre.

Então o pensamento é a capacidade de abstração e de concretização – porque pensar é produzir sons e imagens, agregar ideias; pensar é uma capacidade mental que temos, similar ao respirar ser uma capacidade corporal que temos, inerente e necessária, inevitável, ou seja, vital para o corpo denso. Pensar é vital para a mente, mas assim como não sabemos respirar direito, nós não sabemos pensar. Então nós reproduzimos pensamentos de maneira mecânica, porque pensar é um ato vital, assim como respirar, então o faremos de alguma maneira, ainda que errônea. Claro que não é preciso pensar na mesma constância com que respiramos, são dois atos distintos e, portanto, com formas diferentes de serem postos em ordem, o que significa que eu respiro em intervalos de segundos, mas não preciso literalmente ter um pensamento a cada intervalo de segundos. Aqui, são atos apenas análogos, para usar de uma lógica intrínseca a ambos, porém não idêntica na sua prática, claro.

Aprender a pensar é tão crucial quanto aprender a respirar – não é de qualquer forma que acontece, ainda que vá acontecer por inevitabilidade de reação corporal e reprodução mental porque senão regredimos e tudo falece. Quanto mais temos problemas para pensar, mais podemos observar doenças mentais se manifestarem, porque doenças mentais não é apenas pensar diferente do resto, mas pensar de forma desagregada do resto, ou seja, sem inteligência, sem sabedoria, sem conhecimento, sem conseguir escolher o que se pensa, sem conseguir saborear o que se pensa, sem conseguir ser e estar em união com o que se pensa, tanto que os próprios pensamentos e falas vão se tornando cada vez mais desconexos (de acordo com a gravidade do problema). Eis a crucialidade em aprendermos a dominar a sua prática, assim como é crucial aprender a respirar, ambos os atos caminham muito próximos, pois sabemos também, para quem estuda minimamente os simbolismos dos elementos – água, fogo, ar e terra -, que o ar tem relação simbólica com o intelecto, com o caminho que leva a pensar. Ou seja, quanto mais orquestramos nossa respiração, mais tendemos a ordenar nossa mente.

Claro que não há uma fórmula de ‘respire de um jeito determinado e terás paz, ou te converterás num gênio’, aliás, esse é um grande cuidado que se deve ter em relação a práticas orientais que nos trazem exercícios fortes quanto a alterações de estado através da respiração. Eu não indico isso a ninguém, até porque a prática oriental da respiração está relacionada, em sua raiz, a crenças que precisam ser conhecidas muito a fundo para que o exercício tenha o efeito que promete, pois é como orar sem ter o menor conhecimento religioso e espiritual sobre orações de fato. A chance de se estar jogando fora palavras ao vento, bem como respirando de maneira a apenas enlouquecer a mente, é grande. Então tenhamos cuidado. Mas claro, cada um tem seu livre-arbítrio a ser exercido e não estou aqui e não sou ninguém para negá-lo. Pessoas oram sem o respaldo do aprofundamento religioso, assim como meditam e fazem exercícios respiratórios sem o respaldo de mosteiros. Apenas não recomendo nem uma coisa nem outra, que ajamos sem conhecer as raízes das nossas ações, especialmente quando estão ligadas tão radical e inescapavelmente a tradições.

De toda forma, ter a prática da atenção quanto à forma como respiramos é um princípio para aprendermos, com o tempo, a termos atenção quanto à forma como pensamos. É um caminho similar ao da meditação, mas, como dito, não proponho aqui formas orientais de se fazer, mas sim ocidentais, ou seja, não é preciso parar tudo para meditar, esvaziar a mente, negando os pensamentos, mas vigiá-los ativamente e usá-los ativamente. Aprender a esvaziar a mente pode ser uma ferramenta que auxilia nesse desenvolvimento, claro, mas deixar de desejar, de pensar, de agir no mundo não é a melhor forma de se estabelecer no mundo, por isso o que eu observo aqui vai na contramão da proposta oriental, que seria o caminho da negação; aqui o que observamos é o caminho da aceitação: em que eu aceito as ações, aceito os desejos, aceito os pensamentos, mas aceito sob a observação constante e o discernimento.

Por isso não é deixar de pensar, mas sim pensar acertando o alvo, ter uma mira, um foco absurdamente treinado, eis o desafio que vemos quando retomamos a fala do pensar ‘ser o estado de pecado’ por se errar.

E quantas vezes dizemos algo que na nossa mente parecia brilhante e ao sair de nossa boca chega no outro de maneira opaca, até mesmo quebrada, em pedaços, ou sequer chega no outro, como uma flecha que cai no meio do caminho, e terminamos incompreendidos…

É através da (por meio da) mente que se dá a integração total do ser. Sem ela, nos tornamos reféns de atos, sentimentos e pensamentos repetidos, ficamos presos nas mesmas reações, ressentimento e reproduções mentais como ratos numa roda, nos tornamos reféns das mesmas situações que se repetem em círculos para que tenhamos a chance de acordar e nos darmos conta de que é preciso ativamente pensar na próxima vez em que aquilo acontecer.

No livro Conceito Rosacruz do Cosmos seu autor, Max Heindel, nos brinda com uma passagem a respeito de como tudo tem seu início no pensamento: quando vemos um homem dando um soco em outro homem, sabemos que a mão de um atingiu o corpo do outro, mas que ela não agiu deliberadamente, veio antes de um impulso desejoso de ferir que, em sua raiz, partiu de um pensamento de ódio. Com isso, vemos como tudo toma forma no pensamento antes de se tornar ação ou reação, porque mesmo o desejo precisa da mente para ganhar manifestação ciente, lapidada, do contrário reagimos de acordo com os desejos, e os outros até mesmo podem ver que ‘agimos sem pensar’ porque a reação em si se torna evidentemente oposta a uma forma emancipada de ação, ou seja, agir tendo o desejo como instrumento é inferior que agir tendo, antes do desejo, o pensamento como maestro. É claro que a mente é como a organização disso num todo, um maestro por si só não sabe o que fazer e irá reger de maneira aleatória e louca se ele não tiver uma partitura a que seguir, ou seja, a mente é a partitura, sendo que quem inventa a partitura, quem crea a partitura é o espírito que está além da mente, ele crea a partitura e ela é usada como base para que o pensamento seja o maestro que orquestra tudo isso, todos os instrumentos e, por sua vez, o som que sai deles através dos músicos que agem, que são as ações.

Então o ato de pensar em si não precisa ser feito toda hora, acerca de tudo, mas sim especialmente nas relações que se repetem – seja repetição de atos, repetições de sentimentos ou repetições de pensamentos em si mesmos.

Se observarmos como o pensamento é a nossa possibilidade de errar e de acertar, de focar em algo ou desfocar algo, de aproximar ou distanciar, podemos ver que  mente é análoga a uma lupa, um ponto onde eu foco (sendo ele o pensamento) uma luz, um olhar, bem como análoga a um arco, criando uma tensão que possibilita impulsionar a flecha (sendo ela o pensamento) com energia atingindo um alvo, sendo que a lupa põe fogo em algo – no caso da lupa, um lado dela aproxima e o outro distancia, mostrando que a mente também não deve ser usada de qualquer jeito, bem como sendo possível usá-la para ver melhor as coisas ou desnortear-nos, nos afastando do que observamos.

Se o pensar se diferencia da mente, podemos também observar como a mente é análoga ao corpo físico, e, assim como nos mantemos fisicamente através da comida, podemos dizer que mantemos nossa mente através dos pensamentos que temos, o que significa também que é possível ter pensamentos que nos constipem, que causem diarreia mental, que nos adoentem e que nos curem, sendo tão primordial escolher o que se pensa quanto o que se come. Ou seja, além de estar relacionado com o elemento ar, também se relaciona com o elemento terra sob esse belo aspecto. E a ciência corrobora ao nos mostrar que o intestino tem neurônios e mantém uma relação íntima com o cérebro – local em que grande parte dos nossos pensamentos (alimentos mentais) são digeridos.

Pensar significa ‘formar uma ideia’.  Sua vinda do Latim, originalmente como pensare, trazia junto a si o verbo pendere, querendo dizer em sua raiz um ‘pendurar para avaliar o peso de um objeto’. Em espanhol, pienso significava ‘vegetais secos para alimentar o gado’ (toda a etimologia que trato nesses textos podem ser encontradas facilmente no site origemdapalavra.com.br, que faz um trabalho sério e confiável). Assim sendo, temos o verbo pensar também se referindo a uma forma de alimentar-se, que no português chegou como ‘tratar, curar’, pois os alimentos são a forma de tratar a saúde, curando a doença. Ou seja, por fim, pensar também tem o sentido de ‘curativo’ no português e no francês, enquanto no espanhol permaneceu junto ao alimentar. Então observemos como pensar constituía tanto a possibilidade de pesar algo, abrindo brechas para haver dois pesos e duas medidas, bem como sendo potencialmente também um alimento, uma cura, um tratamento para se obter o próprio equilíbrio não estabelecido ou perdido.

E como escolher o que pensar? Assim como escolhemos nossa comida indo a um determinado restaurante, mercado, quitanda, podemos aprender a escolher nossos pensamentos através do que lemos, ouvimos, falamos, estudamos, porque tudo o que entra em nós está, de alguma forma, alimentando nossa mente, inclusive o próprio alimento físico, porque eu o escolho através do que penso antes e depois de comer, reforçando ou não a minha escolha na próxima vez.

Assim sendo, se torna importante questionar: será então que só é possível pensar de fato a respeito de algo que eu já vivi e torno a viver, ou seja, será que um pensamento só é gerado a partir de uma segunda experiência pela oportunidade da reincidência? Porque é como comer algo pela primeira vez, não posso saber se gosto ou não, se me fará bem ou mal comer, ou seja, não tem como sentir ou pensar algo sobre aquela comida senão comendo pela primeira vez, ou seja, talvez o pensamento só exista de fato se eu sou capaz de viver o que penso, estando o viver para além de apenas imaginar, mas conectado ao sentir e ao agir, sendo uma tríade ao atuar.

É importante, no entanto, ressaltar que o pensamento, o sentimento e a ação não precisam ser exatamente iguais, eu não preciso viver todos os tipos universais de situação para pensar sobre cada um, basta que eu vivencie situações que estão sob o mesmo arquétipo, sob o mesmo simbolismo elementar, para aprender a pensar sobre aquela determinada ação, sentimento ou pensamento sem que eu tenha que agir, sentir ou pensar de forma idêntica. Basta estar sob a mesma lógica para se aprender, aos poucos, a lidar com as formas análogas.

Pois a vida nos ensina a traçar parâmetros, princípios: se eu não gosto de doce, posso evitar comer qualquer tipo de doce, porque sei da minha tendência a não gostar, logo, sei que há certos tipos de pensamentos que me farão mal por já ter uma experiência geral dentro do mesmo parâmetro (sempre lembrando de se ter cuidado para a generalidade não virar mornidão da escolha, zona de conforto, e deixar de comer por julgamento generalizante). Assim, vemos a diferença radical entre julgamento e pensamento, pois se eu julgo, eu estou fora daquela experiência que eu julgo, e, por isso, não é um pensamento original o que eu produzo, mas sim uma reprodução, um pré-conceito que eu tenho a respeito de algo que não conheço verdadeiramente, ou julgo conhecer – eu reproduzo pensamentos e sentimentos alheios sobre o que é o sabor doce, reagindo ao doce como os outros inclusive, ao invés de simplesmente me permitir conhecer por mim mesmo, seja para gostar ou não gostar de um doce específico, conhecer em seu sentido original de ter uma relação íntima, um contato íntimo com o que se me apresenta. E se eu não gosto de doce, eu sei que não preciso xingar o doce para justificar isso, eu apenas não gosto, e isso não pressupõe um julgamento de bom ou ruim, de nojo ou qualquer reação que seja.

Mas isso também não nega o discernimento em sabermos que há certos tipos de coisas que simplesmente até podem ser ingeridas, mas não são comidas, não devem ser postas para dentro, como venenos, ou mesmo um alimento já podre – você pode comer, mas não deveria. Isso revela que o pensar também tem a peculiaridade de aprendermos a discernir os pensamentos dos julgamentos, bem como os pensamentos bons dos ruins: há coisas que comemos que julgamos nos dar saúde e vida quando na verdade são alimentos falsos, mortos, seja por aprendermos que não devemos nos alimentar de carne morta, seja por aprendermos que quanto mais industrializado um alimento for, mais morto ele também está, ainda que, claro, haja tempo de tudo, inclusive de comer carne e de precisar de alimentos industrializados, pois a tecnologia em si não é nossa rival, contudo não devemos deixar nas mãos dela a nossa Vida, a nossa vitalidade, só isso – o similar a isso na mente é deixar que as máquinas “pensem” por nós. Quanto mais dependemos de coisas fáceis – alimentos fáceis, sentimentos fáceis, pensamentos fáceis, tudo enlatado, tudo morto, tudo tecnicamente embalado -, mais estaremos enganando a nós próprios a longo prazo, porque, afinal, como serve para nos mostrar a lei do mais forte, Darwin deixou claro que quem cresce na matéria é quem domina as dificuldades, que vence quem é capaz de obter os melhores alimentos, melhores condições gerais, e, por que não?, melhores pensamentos.

O que Darwin não aceitou foi o fato de que o melhor materialmente falando nem sempre é o que nos aparenta ser melhor, pois as aparências enganam. Então podemos julgar que pensar algo ou não pensar algo pode ser bom. Mas será? Para aprender a pensar direito é preciso antes desenvolver o discernimento, pois ele que permitirá saber se preciso passar pela experiência de experimentar para saber o sabor, ou simplesmente não saborear, como por exemplo não precisarmos provar algo podre na vida para saber como será, a experiência do cheiro podre evita que ela venha a se prolongar a um sentido mais – mas ainda assim o saber pelo olfato se dá pelo experimentar (experimentar olfativo, sendo desnecessário um experimentar palatável). O discernimento faz com que seja possível evitar experimentar certos tipos de pensamentos, assim como certos tipos de pensamentos demonstram ser possível evitar certos tipos de experiências na fisicalidade, e mesmo na emocionalidade.

Assim como no arco há uma flecha a ser lançada, assim como na lupa há um fogo, um calor superior a ser concentrado, sendo que até mesmo os olhos são fontes de calor, logo podemos ver que a mente, enquanto ferramenta, também possui uma fonte subjetiva a ser objetivada, a ser focalizada para que possamos ver, porque a lente amplia ou diminui algo, assim como produz fogo a partir de um calor que não vemos, uma luz que não era manifestada como fogo até aquele momento, assim como compreendemos que não é a flecha nem o arco que veem o alvo, mas um outro ser, que os segura. Então seguindo essa lógica, devemos nos perguntar: será que analogamente há algo superior à nossa mente, algo que eu não vejo de maneira manifesta normalmente? Porque eu, corpo, desejos, mente, eu-personalidade, sou como o arco e julgo que sou eu que possuo a flecha, bem como passo a acreditar que eu sou o suporte da lente, ou ainda que eu sou a mão que segura o suporte da lente, e fico acreditando também que, por calor sair dos meus olhos e de outros membros, o fogo foi feito pela concentração da quentura deles… o que são, em ambos os casos, apenas falácias.

Sabemos que na verdade é o calor e a luz do sol que se converte no fogo que vemos, assim como a mente também focaliza através de nossos olhos espirituais, mas não é deles que vêm a luz e o calor que faz com que as coisas aqui no plano físico se manifestem, em atrito com nosso corpo físico ao gerarmos movimento. Há um ser superior que nos dá verdadeira complementariedade e suporte para que, um dia, quem sabe, sejamos capazes do mesmo. Ou seja, a mente sequer focaliza os olhos espirituais, mas sim o calor e luz de Deus. Os olhos espirituais apenas direcionam, afinal, não se forma fogo na sombra.

Contudo, é preciso compreender que, assim como o sabor não está na boca, mas na fruta em si mesma, ainda assim, a boca só sentirá o sabor, bem como nós só apreenderemos o saber, ou seja, ele só se tornará manifesto como pensamento (tal qual sabor que é manifesto como gosto), se houver ferramentas apropriadas para isso e se ela tiver um desenvolvimento adequado, não bastando crer que qualquer coisa que se sinta na boca seja um sabor de fato, bem como achando que qualquer coisa manifestada na mente seja um saber, uma ideia, um pensamento e por aí vai.

É preciso se questionar também: se o corpo físico nós conhecemos através dos cinco sentidos, se ao nosso corpo emocional nós conhecemos através dos sentimentos, se nossa mente nós conhecemos através dos pensamentos, será que, em semelhança ao corpo físico, terá a mente e este corpo emocional outros sentidos que ainda não sabemos nomear, ou sequer sabemos que existem? Será que a mente faz mais do que apenas pensar, assim como o corpo faz mais do que apenas degustar, ou apenas ouvir, ou apenas ver, ou apenas tatear, ou apenas cheirar? Ou o pensar é uma possibilidade que se divide em outras, assim como sentir se divide em sentir com a pele, com o ouvido, com o nariz, com a boca e com os olhos?

A criança nasce, idealmente, com os cinco sentidos, mas os desenvolve de maneira gradual e distinta à medida que cresce. Qualquer mínimo conhecimento teórico sobre psicologia veremos que existem diferentes fases com diferentes características sobre um maior foco em determinado sentido, levando à integração ideal dos mesmos – auditivo, visual, tátil, olfativo e palatável, com o tempo. Talvez com a mente seja a mesma coisa, desenvolvamos capacidades distintas dela em cada fase da vida, mas, sabendo que uma criança não é capaz de produzir pensamentos, ainda que elas naturalmente possam saber constatar a filosofia da vida, assim como enquanto adultos também demoramos para amadurecer realmente (muitos inclusive se mantendo imaturos para aparentarem ser mais novos), se torna de grande valor viver o máximo de anos e envelhecer com saúde para que possamos, após o alcance dessa maturidade interna (cada um em seu grau de madurez), finalmente desenvolvermos os diversos sentidos da mente – se é que ela possui mais de um, pois o próprio produzir um pensamento, a própria capacidade de pensar é, em si, um desafio para a vida inteira.

É preciso atentarmos também para o fato de que, assim como existe a maneira certa de se usar um músculo, articulação e membro do corpo, assim como existe a maneira certa de sentir determinado sentimento e não haver confusão entre sentimentos, havendo também uma maneira adequada de se direcionar os sentimentos, ou seja, assim como para caminhar há que ser um pé após o outro, porque se forem ambos ao mesmo tempo será pular e não caminhar, muda a ação (ainda que ambas possam locomover e fazer ir para frente), e assim como um sofrimento não é uma demonstração de amor, ainda que uma pessoa possa aprender a se amar a partir de uma experiência dolorosa – pois é possível aprender a se amar a partir de uma tragédia, o que não quer dizer que uma tragédia seja demonstração de amor (por isso Deus permite que usemos de nosso livre-arbítrio caso escolhamos sofrer e fazer sofrer – é na liberdade que Ele nos dá que reside Seu Amor -, mas não é Ele quem nos faz sofrer), assim também existe uma maneira correta de se pensar, existe uma forma adequada e que convém ao se usar a mente e se articular os pensamentos, ou seja, não é de qualquer maneira que se pensa.

A conexão de determinados pensamentos, como articulamos eles, significa que se está rastejando com eles, ou pulando, ou andando, ou correndo, ou inclusive voando, então existe sim uma forma correta de se pensar, uma forma adequada e uma inadequada, isso não quer dizer que se deva extinguir quem pensa da maneira inadequada, não apropriada, porque eu posso caminhar com os pés tortos, por mais que isso vá causar deformações no meu corpo a curto ou longo prazo, mas nem tudo convém. Então é possível fazer uma caminhada, seja por minutos ou horas, com os pés intencionalmente tortos, caso eu não os tenha naturalmente tortos, mas não significa que convém, que seja a melhor maneira de o fazer (porque caso eu os tenha naturalmente tortos, eu, inclusive, provavelmente procurarei médicos e maneiras terapêuticas de melhorar a condição ou minimamente evitar que se agrave, o que mostra que até para andar torto há uma maneira mais adequada), e isso tudo não significa extinguir pessoas que caminhem com os pés tortos, bem como nem quem pensa torto, o cuidado que devemos ter é com quem sabe que causa deformações andar torto, pensar torto, e, ainda assim, insiste em assim fazer e, pior, em assim ensinar os outros.

Aprender o movimento correto, seja do corpo físico, seja do emocional, seja da mente, é essencial e crucial – lembrando que o dito correto é de acordo com as singularidades: para uns o movimento correto de andar será sobre uma cadeira de rodas, para outros será com os pés naturalmente tortos, com muletas, com gesso, outros inclusive amputados, e por aí vai – mas todos buscando andar sem que maiores danos sejam causados, porque sempre procurar melhorar a forma como se anda é a essência do que se chamaria correto. Assim sendo, há formas de se pensar que não convêm, há formas de se formalizar coisas, concretizar coisas mentais que não convêm. Não é necessário ler a Bíblia e acreditar que ‘pensar é pecar’, está para além da Religião, é questão Científica e Artística, de Lógica e Analogia. Não requer uma crença pessoal para que isso seja verdadeiro.

Pensar é de uma responsabilidade imensa!

Quando eu aprendo que existe uma maneira certa, adequada de usar minhas mãos, pés, olhos, boca, enfim, cada parte do corpo fisicamente, quando eu aprendo isso em uma totalidade verdadeiramente integrada, eu possibilito que todo o aprendizado que eu tiver dos meus sentimentos também se materialize de forma mais clara. Então compreenderei que tem gestos que são mais adequados, que convêm para demonstrar amor, carinho, e outros que são relacionados à demonstração de ódio, rancor, e que não há como confundir um com o outro – a priori, pois já falamos sobre a inocência de um ato violento e isso altera o que as aparências mostram.

Mas quando eu organizo meu corpo emocional, meus sentimentos, eu também passo a compreender que têm sentimentos que convêm em determinados momentos e outros que não convêm, que o ódio não convém, por exemplo, mas que oposição, divergência podem convir, porque deixar de odiar as coisas não significa se conformar com as coisas deformadas. Claro que com o tempo aprendemos também que basta nossa posição, e não necessariamente oposição, para mudarmos algo, pois basta ser onde estamos – isso faz com que aos poucos as coisas deformadas ganhem formas apropriadas, porque agir por posição é diferente de agir por oposição. Então começamos a compreender e discernir os diversos sentimentos e as nuances emocionais, as possibilidades de movimentos emocionais que nós temos, assim como convém amar a todos, mas não convém sentir tesão por qualquer um ou se apaixonar por qualquer um, por exemplo.

Começamos a ver que sentimentos e pensamentos que muitas vezes são confusos para nós, enquanto sociedade, têm uma clara distinção entre eles, assim como mover meu dedinho mindinho é completamente distinto de mover meu dedão, meu polegar, ainda que ambos estejam em minhas mãos e o movimento seja inclusive similar, indo para frente e para trás, mas sendo duas coisas distintas.

Pensamentos que relativizam tudo, que partem da base do relativismo absoluto, equivalem a achar que qualquer movimento é caminhar para frente, mover para frente, quando fisicamente sabemos que não, é nítido que não. Mas como não conseguimos ainda ver os pensamentos achamos que com eles é diferente, é relativo, porque se os víssemos, veríamos que há distinções e nuances. E, ainda que a aparência engane, ela ao menos ensina sobre não podermos relativizar todas as coisas de maneira caótica e generalizante.

Podemos relativizar que um corpo está indo para frente se usamos como parâmetro outro corpo que se move para trás, mas se deixamos de lado as retóricas astuciosas que nos fazem tropeçar ou andar em círculos através de sofismas, assim como somos capazes de constatar que alguém parado é alguém parado e ponto, há certas maneiras de se pensar que são estagnações e ponto, não se caminha, porque o caminhar, aliás qualquer movimento, é de responsabilidade do Indivíduo – por isso não há como relativizar através de um Outro corpo, através de um Tu. A pessoa pode estar observando algo, vendo uma paisagem, alguém estar caminhando para trás do lado dela, isso não significa que ela esteja caminhando literalmente, nem que algo aconteça no pensamento dela, que o pensamento dela esteja em ação só porque ele reproduz figuras ou sons mentais e o que seja, não está, é passivo. E não confundamos com o passivo-ativo ou ativo-passivo – sem entrar na questão de que parar é uma ação, portanto um mover-se metafórico, eu falo da preguiça, da estagnação, da morbidez daquele que é só passivo, nulo, assim como uma pessoa literalmente parada não anda, ela pode estar tomando fôlego para andar, então pode ser crucial ela parar para continuar a andar, mas estar parado não é andar. Ponto.

Então podemos ver que um corpo físico bem estruturado é um corpo emocional que também se estrutura e ganha clareza de manifestação do campo físico, e um corpo emocional bem estruturado é a possibilidade de melhor estruturar os pensamentos, a mente, e manifestar isso de maneira muito mais adequada através dos sentimentos que por sua vez se manifestarão através das ações.

E quando tenho os pensamentos também organizados eu consigo finalmente ver que há pensamentos que convêm e outros que não convêm, e há movimentos que são falsos também na mente, que são julgamentos errôneos que fazemos quanto a acharmos que estamos pensando, quando, na verdade, estamos totalmente estagnados em pensamento, ou reproduzindo, andando em círculos.

Outra questão que vemos surgir é: se o corpo humano físico tem um padrão ao ser, mas ainda assim possui, cada um, uma combinação própria e singular de manifestação, e assim como os sentimentos são gerais, mas cada um sente de tal forma que não há palavras para descrever e igualar a experiência dentro do outro, mas apenas conhecê-las a partir de uma vivência similar, contudo interna e única, intransferível, ainda que comungável (como pode acontecer em um abraço, ou quando transamos na intenção de fazer amor (caso ambas as pessoas se encontrem indo para as mesmas pulsações emocionais, claro)), terá a mente também semelhança enquanto mecanismo total, mas singularidade enquanto produção individual? Isso significaria, quando todos forem conscientes de como alinhar todos esses campos, corpos, realidades que vivemos, que cada um terá uma forma de pensar, ainda que os pensamentos em si nos sejam gerais – assim como sentimentos nos são gerais, mas únicas as formas de os sentir.

Então busquemos a forma que nos faz singular dentro dessa igualdade que a todos já é dada como graça benevolente. Porque para encontrar a minha forma única de produzir pensamento, de pensar, preciso antes ter uma forma única de caminhar, de me mover, de dançar, de agir com o corpo físico, assim como uma forma única de sentir e me emocionar.

Quando nos deixamos levar por correntes de reações em massa e emocionalismos genéricos, igual à massa, estamos a reproduzir pensamentos alheios, e estamos longe de estarmos e sermos em plena consciência de nós mesmos. Nada contra o grupo, a manifestação popular enquanto unidade, mas creio que isso tudo nos mostra que ela talvez só seja possível com todos como indivíduos singulares – o que ainda não somos -, e não como cópias indistinguíveis uns dos outros em profundidade, como pretendem muitos movimentos coletivistas, aliás, e como pretendem falas humanistas de ‘somos todos iguais, somos todos humanos’.

Aprender a agir, a sentir e a produzir, ou pensar, dá trabalho, pois não basta estar no mundo para que isso de dê de forma ativa. É verdade que passivamente agimos, passivamente sentimos, passivamente pensamos, mas para quem vai observando com mais discernimento, isso tudo passa a ser claramente uma reação, um ressentimento e uma reprodução, porque não estamos ativamente escolhendo como agir, como sentir e como produzir, pensar.

Se hoje ainda erramos em nossos atos, sempre tão falhos, se erramos ao sentir algo indevido – desde atração por alguém que “não deveríamos”, vontade de comer o que nos fará mal, vontade de se matar quando deveríamos prezar o Ser Vivo, imagina o quanto não erramos ao achar que pensamos, ao reproduzirmos pensamentos que sequer sabemos de onde vêm e para onde vão…?

Porque assim como todo ato é direcionado a alguém ou a algum objeto ou meta, assim como todo sentimento é também em relação a algo ou alguém, os pensamentos também têm destinatários certos, e estamos nos enviando pensamentos aleatórios e repetidos o tempo inteiro.

Se o mundo já é caótico em termos das ações e reações que conseguimos ver, pois podemos ver as coisas acontecendo fisicamente, se víssemos os sentimentos de todos e os pensamentos de todos, tal como vemos a matéria química, com certeza nos assustaríamos porque eles são mais caóticos ainda, e os do pensamento então, nem se fale, trevas puras com a pouca claridade de alguns raios. Se já nos agredimos fisicamente, em sentimentos e em pensamentos nos agredimos mais ainda e estamos ainda mais perdidos.

Agora, claro que podemos escolher ativamente focar em ver as ações boas – não ignorando ou reprimindo as ruins, mas fazendo com que as boas sejam o foco, tenham maior peso, ainda que sendo em menor quantidade, mas superiores em qualidade -, assim como é crucial focarmos em sentirmos sentimentos elevados, bem como produzirmos pensamentos castos – castos no sentido de ‘sem exorbitantes maquinações’, pois ficar maquinando mil pensamentos nos agride tanto quanto ficar comendo como glutão até vomitar, ou se alimentando de raiva, ódio, mágoa e qualquer sentimento, eufórico inclusive, que surge como ressentimento e ficar dando soco ou beijos em parede ou em qualquer um ou coisa que passa…

Por isso não é deixar de pensar, como pretendem muitas meditações, ainda que seja um bom exercício para desligar as maquinações, mas sim transformar as grandes máquinas em humildes brinquedos, joias, peças delicadas, ativamente modificando nossa forma enquanto seres.

Por isso é preciso tratar todas essas instâncias como pedras brutas a serem lapidadas, metais a serem purificados, como antigamente os alquimistas falavam de tornar o chumbo ouro. Como os astrólogos falam sobre solarizar o nosso mapa. E como eu devo, posso e quero dizer com tudo isso que: devemos nos cristificar a cada passo.

A realidade é que a Poesia do Pensamento é belíssima, mas ainda acessível a poucos. Enquanto isso, miremos melhor a nossa flecha, nos permitamos tempo para observar, focar, discernir e, sem esforço, acertar o alvo com uma precisão maior cada vez mais, pois sabemos, pela arte esportiva do arco e flecha, e qualquer outro exercício que requeira acertar um ponto específico, que é somente ao começarmos a praticar a concentração sem esforço que passamos a de fato acertar, como num passe de mágica… sem pretensões, sem intenções, sem exibicionismo, sem vaidade, apenas no dever de quem sabe que ainda tem muito o que aprender e deseja humildemente se tornar alguém minimamente melhor, não na imagem monótona de um céu celeste no qual todos tocam harpa e nada mais se faz, mas na atividade poética de quem Crea, Produz, Sente e Age em Paz!

2 comments on “a Poesia do Pensamento . : . [investigador & arqueiro]

  • Elaina Nunes

    Le Conde querida, venho agradecê-la por sua generosidade em compartilhar seu dom através dos audiobooks, você tem me ajudado imensamente. Gostaria de te ajudar para retribuir seu trabalho, estou impossibilitada de uma ajuda contínua mas quero contribuir esse mês, e espero poder contruibuir mais vezes. Você pode me mandar sua conta? Obrigada, obrigada, obrigada

    • Le Tícia Conde

      Elaina, querida, te enviei um e-mail em resposta a este inesperado comentário. Muito agradeço pelas palavras, especialmente por saber que os audiobooks têm ajudado você.
      Eu te agradeço muito muito muito. Muito obrigada!!

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