Dedicado a Marília.

Coletivo significa ‘colheita’, ‘colher junto’.

 

Uma colheita: imaginando um campo vasto, ele até pode ser colhido por uma pessoa, mas não faz sentido, podendo ter a ajuda de várias. Contudo, para se colher, é preciso dividir o terreno – quem colhe cana, por exemplo, sabe que o trabalho é por metragem, é tendo divisões com medidas certas que se arranca, ou seja, não tem fórmula para o arrancar em si, mas há uma Forma para que seja feito por todos ao mesmo tempo, tendo cada um seu pedaço.

Assim sendo, não é possível abrir mão da individualidade, ou melhor, coletivo se baseia justo em seu oposto complementar: é preciso ser indivíduo e ter seu espaço privado para se colher junto, pois o ato de juntar está implícito também, o que demonstra que é preciso que cada um tenha o que apresentar enquanto resultado, enquanto frutos dessa colheita.

Então cada Ser, individualmente, é responsável por semear e colher em determinada parte. Se um não faz seu serviço direito, outros serão, com o tempo, obviamente, sobrecarregados. E mesmo que, sendo um espaço demarcado, outros não possam colher no lugar de quem se recusa a fazer o trabalho, ainda assim, o terreno inteiro, das duas uma: ou tem um único dono, acima de todos, que estipulará quem colherá no lugar do folgado, ou é de todos, resultando na sobrecarga dos que já terminaram seus individuais trabalhos.

Quando se fala de respeito para viver coletivamente, de fato, é importante respeitar-se.

Respeito vem de literalmente ter um segundo olhar sobre algo. Logo, sim, ele é necessário para se viver em coletivo, inclusive para se ver uma segunda vez se o que o outro trouxe é trigo ou joio, ou mesmo para ver uma segunda vez “a cesta” do outro que, em momento anterior, pode não ter trazido nada, voltando desta vez cheia. Então é preciso ter um segundo olhar, ter respeito, com aqueles que, num primeiro momento, se negam a lavrar, semear, plantar, colher, enfim… ter das ações que fazem crescer de fato!

Contudo, respeito não inclui um terceiro olhar, é preciso se atentar que respeitar não inclui aceitar tudo por tempo indeterminado. Mas significa, sim, ser tolerante com quem faz algo diferente do esperado. Como dar uma segunda chance.

Viver em coletivo também significa que pode ser que o campo não seja dividido de maneira proporcional e igualitária, mas sim que a colheita, o Fruto, o alimento seja repartido entre todos, independentemente de quem colheu mais ou quem colheu menos. Assim como independente de gostos pessoais, como: eu gosto mais de abóbora e eu gosto mais de milho – não importa, a divisão será de acordo com a união do que cada um tem para dar, não sendo possível gostar mais ou menos do que o outro planta, mas sim tendo discernimento sobre o que se planta, sendo tanto abóbora quanto milho necessários para uma saúde plena, bem como quem gosta de plantar o que não serve para a saúde-alimentar, como erva-daninha e outras, como grama etc., não sendo conveniente, podendo ser cortado do coletivo também, pois a colheita é para que se possa comer, e não se divertir ou plantar o que dá na telha. A saúde-alimentar é o imperativo, não as opiniões e gostos pessoais imaturos e inconsequentes.

Assim, isto revela que, enquanto não se superar o próprio individualismo (o indivíduo doente em si mesmo, egoísta), não será possível haver coletivo.

O ser humano está muito atrás nesse quesito, o que faz crer que qualquer tentativa de coletivo, por termos uma ideia romântica e, portanto, deformada do que é viver de fato essas palavras, será ruim, pois, como vemos, requer deixar de lado a passionalidade imatura de gostar ou não gostar de alguém ou de algum ato, mas sim observar e ter discernimento quanto ao que simplesmente é necessário, doa a quem doer – e aliás, fazendo a dor parte do processo de colheita, pois só quem lavra, ara, semeia, rega, espera e colhe sabe o que é carregar o sol sobre a cabeça e ter do próprio suor pingando o sal na terra, literal e metaforicamente. Ou seja, não temos tamanha maturidade, pois isso significa, acima de tudo, saber viver o Privado para só então não privar-se de compartilhar o que é, solitariamente, gerado.

 

Nenhuma gravidez se dá em dois úteros, mas qualquer filho é criado para o mundo.

É preciso ter o Si mesmo em primeiro lugar, não por egoismo, mas por Espírito que encontra seu Centro independente do caos alheio.

Ainda vai demorar para colhermos… antes disso, é mais prudente se privar e ser solitário. Sem frutos não há colheita juntos, e hoje o que há são reuniões de pessoas que não produziram nada. Não digo que sejam todas, mas a maioria.

 

Viver a colheita (o coletivo) não é algo possível sem Ser um indivíduo individualizado.
E isso é extremamente raro.

O que não quer dizer também se isolar, num niilismo trágico, não é isso, mas sim fazer parte do movimento do mundo sabendo o tempo todo que o que chamam de coletivo não é coletivo de fato, é preciso estar acordado e não acreditar na mentira que contam, e, acima de tudo, se saber independente (ou seja, não depender – especialmente emocional e espiritualmente) do grupo em que se faça, temporariamente, parte. Pois é completamente diferente pertencer a grupos, que significa um ‘amontoado’, de fazer parte dum coletivo de fato.

Não devemos permitir que o “coletivo” de hoje dite as fórmulas de como devo ser e como devo agir – pois a única forma de ser é semeando e multiplicando e a única forma de agir é colhendo os frutos e os doando, sendo que os grupos devem nos ajudar nisso: criar momentos em que fazer parte de algo maior nos permita expandir a nós mesmos enquanto lavradores do nosso pedaço de campo. Lembrando sempre que: não há fórmula, mas há forma…

Ou seja, pertençamos – sabendo que somos um Ser Verdadeiramente à parte.

 

 

One comment on “o Coletivo e a Colheita

  • Ana Lucia Faria

    Interessante

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