O que é Ouvir? 

       

        Quando nós conversamos, cada vez mais é possível ver que há no mundo muita surdez, muita gente que fala muito sem saber o que está falando.

        Muitos dizem o que sabem, poucos falam sabendo-o.

     A palavra nos foi dada como um dom: a linguagem, que é algo tão elevado, tão desenvolvido para que possamos ser uma comunidade para além das aparências, inclusive das línguas, porque linguagem é trabalhar com signos e símbolos para além de apenas a forma, unindo a forma e o conteúdo deles. Como estamos em um estado em que a palavra foi deturpada a tal ponto que, mesmo quando é pronunciada, nós estamos surdos e não conseguimos ouvir, quando alguém diz, quando alguém fala algo, quando eu me coloco aqui para falar algo e alguém escute o que estou me propondo é abrir uma porta e quem me ouve automaticamente adentra essa porta: é uma escolha me ouvir, mas a partir da hora em que se está me ouvindo, eu te transporto para outro lugar, um quarto, um cômodo, e existem várias formas de se lidar com nossos cômodos, quartos e espaços, sejam quais forem, que estão atrás dessas portas.

     Quando nós usamos da personalidade para falar, quando nós falamos ‘porque eu sou assim e gostamos de ser assim’, então usamos esse ‘assim’, este estado que é a personalidade, para nos comunicarmos, a gente pinta esse quarto, a gente enfeita esse quarto, esse cômodo. A maneira como nós escolhemos nos comunicar, falar, é a maneira como nós apresentaremos esse espaço ao qual nós convidamos o outro a adentrar. 

     Quando nós não pensamos no outro, mas apenas em nós mesmos, nós não adaptamos esse cômodo para as necessidades do outro que irá nos ouvir, nós não sabemos se ele ouve em libras, em português, inglês, espanhol, alemão, chinês, em algum dialeto, em tupi-guarani, em alguma língua morta: latim, nós não sabemos, e deixamos de nos importar com quem ele É e mesmo com quem a pessoa Está Sendo neste estado de vida.

     Nós não levamos em conta nem a Personalidade do outro nem o Ser do outro.

     Quando eu falo do jeito que ‘eu quero, como eu quero, porque eu sou assim e porque eu gosto assim, porque eu gosto de rosa então vou pintar o quarto de rosa e enfiar as pessoas num quarto rosa e elas que se virem se gostam ou não de rosa’, é algo mesquinho da nossa parte, ao menos me parece.

     Quando não levamos em consideração até mesmo a capacidade do outro ouvir, sendo uma pessoa de idade mais avançada que normalmente, nem sempre, mas normalmente, tem dificuldade em ouvir no mesmo volume que pessoas mais jovens, nós não nos importamos em colocá-la em um ambiente que tenha uma melhor acústica, que tenha um volume apropriado, às vezes inclusive a gente grita, porque fica injuriado em ter que fazer uma modificação em nós para que o outro ouça.

     E ao invés de levá-la a um teatro, a um lugar de ópera, de concerto, de shows – que tem uma acústica boa: nós gritamos. Ao invés de alterarmos os espaços dentro de nós, nós queremos que o outro altere o espaço dele, o ouvido dele para nos ouvir.

     Eu espero e trabalho para isso, para que a minha fala chegue até você de alguma forma que não seja só o que eu preciso dizer, mas também o como você precisa ouvir, mesmo sem nos conhecermos, e que possamos adentrar esse espaço que seja agradável a ambos, pois hoje em dia, nesse mundo caótico, é muito visível o quanto nós não nos escutamos. É o excesso de informação, é a falta de conexão com nós mesmos, sem conhecer meus espaços internos eu não sei que espaço oferecer ao outro, eu não sei se ele escutará melhor num jardim, em uma praça, em um quarto, em uma sala, até mesmo num banheiro cheio de azulejos, enfim, para se cantar no chuveiro, ser cúmplice de alguma brincadeira – sem malícias é claro.

     Mas é possível ver o quanto falamos, falamos e não falamos nada, tentamos nos comunicar, porque muita gente quer ser ouvida: nossa surdez é tanta que nós falamos sobre nós mesmos o tempo inteiro esperando que alguém escute, ao invés de sermos simplesmente aquele que fala sobre o outro para que ele veja que está sendo ouvido. 

      Então como fazer para que haja realmente uma escuta? Como reconhecer a surdez do outro sem que eu julgue com mão pesada, severa? Ainda que sem deixar de fazer a crítica, sem deixar de ver que há uma dor imensa no mundo, porque não ser escutado e não escutar é de uma grande solidão.

     Há quem diga que a surdez física é o sentido que mais causa um isolamento e uma solidão neste mundo, os surdos-mudos, imagina – isso é num campo fisiológico, físico, mas há uma instância que está para além disso, que se a gente parar para reparar bem, nós sabemos: por mais que possamos não ter religião, ou tenhamos religião, mas estando para além de religiões, para além de certos paradigmas imediatos das crenças que seguimos, há uma instância que não foi feita para ser ou não seguida, porque não se segue a eternidade, ela só É, e, Sendo, ela permite que nós entremos em contato com a dor que é nós vermos que nós não sabemos ser dentro dessa instância. Que momentaneamente nós conversamos e buscamos, conversarmos e nos comunicarmos, mas que profundamente não estamos sendo ouvidos.

     E se há tantas pessoas que sabem que estão numa solidão profunda porque não estão sendo ouvidas, isso também significa que nós não estamos sabendo falar, nós acreditamos que estamos falando e que são os outros que não estão ouvindo o tempo todo, mas somos nós que também não sabemos falar.

     Nós não sabemos mais o que as palavras significam, a etimologia mesmo da palavra e o que ela no meu coração quer dizer e no coração do outro, porque os corações se ligam.

     Para além de ideologias de uma palavra significar algo ou outra coisa em ideologias, mas saber realmente o que essas palavras significam em termos psicológicos, conscientes e inconscientes, simbólicos, arquetípicos, não do que eu creio que elas signifiquem, ‘ah, mas eu acho que, eu creio que’, não! É aquilo que o Todo me diz historicamente e metafisicamente, espiritualmente, o que ela significa.

     Quando eu falo uma palavra: fome, quando eu falo a palavra: fome – todo mundo sabe o que isso significa. Nem todos passaram pela dor de senti-la fisicamente, mas todos sabem o que ela significa em alguma instância, em algum nível, em algum grau.

     A realidade é feita de camadas, das mais sutis às mais densas, como os gases: os gases se misturam, mas se eu pegar na tabela periódica, se eu for analisar cientificamente, eles se separam e tenho os átomos isolados, e sei que um gás é um gás e o outro é o outro. Mas em termos sutis quando eu olho o espaço eu não sei o que há aqui, eu posso saber teoricamente, mas na prática, se há algum gás venenoso aqui eu não sei, eu virei a morrer, mas eu não sei enquanto eu não densifico essa sutileza e a observo em microcosmos atômico, eu não sei da existência dela, mas sei que ela existe, sei que é possível ter um gás venenoso aqui ainda que eu não veja. Não é preciso que eu saiba, em termos micro, aquilo que é macro para que o macro seja macro: o Todo é o Todo, independente d’eu saber identificá-lo, independentemente d’eu crer ou não.

     E essa identificação, essa densificação desse sutil, passa por várias camadas, por vários graus de densificação até chegar no mais denso de todos, o grau químico, uma tabela periódica de fato.

     É como a água, desde seu sólido e evaporar, subir e descer, não é possível mostrar o grau intermediário entre um e outro, nós sabemos que há e está ali, mas não é possível ver, nós sabemos quando já se tornou vapor e quando ainda é líquido, mas entre o liquido e o vapor nos não conseguimos observar quando ela é ambas as coisas, nós temos essa dificuldade em saber ver o todo inclusive em suas etapas de intermediação, de mediação de uma fase para a outra. Nós vemos etapas completas.

     E esses graus, eles também existem para a fome: ela não existe só no grau atômico de eu sentir fome no estômago e me faltar minerais e propriedades, ela existe também em nível sutil, e aí é preciso se perguntar: o que é a fome em nível sutil? O que são as palavras em seu nível sutil de vivência?

     Quando eu penso na fome, quando eu medito sobre a fome, ela é a falta de algum nutriente que me é essencial para a vida. Se em uma instância física é a falta de mineral, de vitaminas, de alimento, arroz e feijão, de elementos químicos de uma tabela periódica no meu corpo, para que isso se transforme em energia ou o que seja, se faz falta inclusive como excremento, porque é preciso que o corpo todo mantenha seu metabolismo e função, então eu preciso urinar e defecar, e se o alimento me auxilia inclusive nisso, não só em matar a fome, mas pôr para fora o que eu não necessito, o que será a fome em termos sutis?

     E quando eu falo da surdez e de uma mudez sutis, o que se quer dizer com isso? Como é possível nós estarmos falando e não falarmos nada? Como é possível estar comendo uma comida e não estar comendo? É quando aquilo é algo ilusório. Não que eu pretenda dar uma resposta, mas tentando pensar sobre e desenvolver em termos palpáveis, é quando eu estou comendo algo, mas é um junk-food, é uma comida que não presta, que não me traz a saciedade de minerais, de vitaminas, de proteínas, de carboidratos que eu necessito de fato. É quando é um alimento supérfluo.

     É preciso se perguntar: quando há algum mendigo de rua, algum pedinte e eu dou uma bolacha, eu estou alimentando essa pessoa? Eu estou matando a fome dessa pessoa? Se eu compro um lanche, qual marca seja, mas esses fast-foods, eu estou matando a fome dessa pessoa? Ou estou matando a minha necessidade de me sentir confortável perante uma situação que eu não sei resolver de fato?

     Nós sabemos que já existem inclusive experimentos de pessoas que passaram dias comendo essas comidas que não são alimentos, que não alimentam o corpo, causam distúrbios, tem documentários, nós sabemos muito bem, em termos de informação nós a temos, mas e quanto às palavras? Será que já paramos para perceber que aquilo que se dá em termos materiais de alimento, se dá também em termos de espírito? Se nós não nos ouvimos, e desejamos ser ouvidos, nós temos fome disso, temos fome da audição alheia, e temos fome de palavras, e para além disso temos fome para que consigamos colocar inclusive as nossas palavras para fora.

     Para isso é preciso que elas sejam alimento, mas para elas serem alimentos, como saber se elas irão nutrir? Como saber que elas têm propriedades que irão nutrir o outro?

     Hoje nós já sabemos também que por mais que tenha tabelas que digam que eu tenho que me alimentar com 2500 calorias por dia, ainda assim se fazem mil e uma dietas e discussões porque no fundo nós sabemos que cada um tem uma necessidade, assim como o físico do corpo não diz nada sobre a saúde da pessoa, ele também não diz sobre o que ela necessita. 

     Nós podemos tentar tabelar que mulheres precisam de tantas calorias, homens de tantas calorias, mas existem tantas exceções já, nós estamos rumando a etapas da nossa evolução humana de individuações que se dão em campo denso também, não só psicológico, mas denso também em que cada um vai precisar de um tipo especifico de alimentação, que então só você se conhecendo vai saber qual alimento o teu corpo está pedindo naquele momento.

     E assim sendo, cada um também precisa de um tanto de palavras específicas. E como é possível oferecer ao outro a palavra que ele precisa?

     Só se eu conseguir ver a real necessidade do outro, ver a fome do outro. E se eu souber pegar daquilo que eu tenho como fonte de alimento, como fonte de nutrientes verbais para dar ao outro.

     É quando eu pego a minha palavra e faço dela ação ao dar para o outro, para que o outro se nutra dela, mas para isso é preciso saber discernir que, assim como há alimentos que nos enganam e não são alimentos de fato porque não alimentam por mais que encham o estômago, há palavras que enchem o ouvido, mas que não se diz de fato e não se escuta, porque são ocas, não fazem sentido, não são cheias de sentido, pois quais são os nutrientes de uma palavra? As suas significações.

     É preciso conhecer as palavras desde etimologicamente, que é algo formal, até o que elas reverberam na gente. Isso não quer dizer que uma pessoa que não saiba pegar um dicionário e ver seu significado, assim como uma pessoa que faça isso de maneira mecânica não quer dizer que quem faz de maneira mecânica está realmente aprendendo o significado de uma palavra, assim como quem não faça não tenha acesso ao significado dessa palavra, porque assim como o dicionário existe em campo denso na matéria, também existe um dicionário num campo sutil da matéria, para além da matéria. E muitas pessoas que são simples têm acesso a esse dicionário, que é mais sutil, que temos no inconsciente do nosso todo, do nosso coletivo.

     Só que nós, na nossa correria, na nossa vida de hoje em dia, temos muita dificuldade em acessar esse dicionário sutil, assim sendo é preciso estudar então o dicionário formal. Antigamente muitas pessoas de zona rural por exemplo, em contato com exercícios com trabalhos muitas vezes pesados para o corpo inclusive, mas que mantinham a mente focada, permitiam que elas tivessem acesso a saberes, e muitas que ainda estão nessa vida focada, simples, humilde, têm acesso a esse saber que é coletivo, que é de quem aprende a ter uma capacidade de observação, porque está ali cultivando o solo de sol a sol todo dia. Esse é o rigor dessa pessoa, ela é obrigada a acordar cedo e ir lavrar o campo, tirar o leite da vaca, o que seja, ter seus trabalhos. E ela faz isso com rigor, porque ela sabe que se ela não fizer não há quem faça. Nós no dia-a-dia da cidade grande nos tornamos altamente substituíveis, se eu não vou pro trabalho, amanhã ou depois contratam outro. O que eu não faço alguém faz, e se eu não faço bem alguém faz melhor. Nós termos essa falsa percepção de sermos substituíveis e de que se eu não faço alguém faz, afrouxou o nosso rigor.

     É claro, muito trabalho que há no campo é um trabalho escravo, forçado, não é sobre isso que estou falando, tenhamos discernimento pra saber o que é alguém que trabalha no campo porque leva uma vida rural de campo, de massa operaria que é explorada no campo, há uma grande diferença, mas mesmo os operários, mesmo alguém que trabalha no canavial, mesmo alguém que é obrigada a ter esse rigor, muitas vezes ela se torna muito mais sábia do que aquele que acredita que não precisa ter rigor algum, ou que não vê a necessidade do rigor, porque não está sendo obrigado a vê-la. Ninguém deveria ser obrigado a vê-la, senão a escravidão seria um ótimo exemplo de evolução, e não é, é algo execrável, mas se podemos tirar lição de todas as coisas que nos acontecem na vida e procurar pérolas em meio a essa lama, lótus que brotam desse pântano, talvez seja isso, de que toda vez em que alguém está sendo obrigado a realizar serviços de rigor, essa pessoa ao mesmo tempo está tendo a oportunidade de se tornar uma sábia em algo, porque se ela souber utilizar o rigor, ela vai aprender a arte da meditação através da observação.

     Hoje poucas pessoas aguentam ver um vídeo ou ler um texto como esse, em que se fala de maneira pausada, baixa, de cara lavada, despida de qualquer resquício do que seja possível da minha personalidade, sem tentar convencer de nada, nem pelo emocional nem nada, tentando preencher com sutilezas e não densidades temporárias.

     Mas tendo pouco tempo e tendo dificuldade da gente lidar com isso, nós passamos a acreditar que o rigor não é necessário ou é algo execrável, algo que cansa muito rápido, sendo que o rigor físico realmente pode se tornar justamente uma escravidão, um fascismo, e o rigor mental também pode levar à loucura, a uma falsa sabedoria que também se torna uma tirania do saber: do ‘eu sei em um mundo de ignorantes’. Mas, a partir da hora que, por conta de ter existido e existir as pessoas que fazem do rigor algo execrável, algo doentio, nós passamos a aboli-lo completamente, isso também é um equívoco, porque as extremidades são sempre polos.

     É possível trabalhar com polos? Sim, mas machuca muito. É muito sofrido trabalhar com polaridades extremas, ainda que tudo seja polarizado: isso é uma Lei, um Axioma da realidade, Axiomas, Leis são seres vivos, como eu e você, mas isso fica para outra hora.

     Trabalhar com polaridades extremas é difícil porque machuca muito, é como querer trabalhar com o vapor e com o gelo, segurar o vapor numa mão e o gelo na outra, vai doer. Em uma, você não vai conseguir segurar o vapor, e na outra, não vai conseguir segurar o gelo e muito provavelmente você irá queimar a mão, porque vapor queima e gelo também, então vai machucar feio, vai deixar em carne viva, vai aprender algo? Vai, mas existe outra maneira? Sim, existem muitas maneiras nessa vida.

     Então, como saber se minha palavra nutre?
E como saber se estou sendo nutrido pelas palavras?

     Através do rigor dos seus significados e significações, através do rigor da observação e da meditação acerca disso, de cada palavra que eu escolho falar, porque todo esse texto, todo esse vídeo e toda frase, oração que seja, toda sentença é eu te colocar num cômodo, é eu te oferecer um espaço, e cada letra é um detalhe desse lugar.

     Eu saber observar para compor esse lugar é de extrema preciosidade. Então é preciso saber ter esse rigor, o rigor de quem lavra a terra do outro para que cada palavra encoste nessa terra e semeie algo, para que eu não jogue sementes numa pedra, para que eu não jogue sementes ao ar, ou mesmo ao mar, crendo que eu vou semear uma lavoura.

     E é muito interessante pensar também, por exemplo, quando eu falo o que eu quero e o que eu penso e o que me vem à cabeça em termos impensados, em termos de não estar em observação de si, quando eu estou sendo levado pela minha subjetividade, daquilo que eu gosto ou deixo de gostar, que eu vi ou deixei de ver, de coisas temporais, que estão no tempo e vão passar, porque pode ser que amanhã eu não goste mais de algo que eu gostava, ou goste de algo que não gostava, enfim, essas densificações que se tornam migalhas… É muito bom pensar que, se eu pego minha personalidade e minha subjetividade, que são temporais enquanto estou aqui nessa Terra neste momento sendo essa pessoa, e uso dela para falar algo, isso pode sair de muitas formas.

     Porque eu posso usar da minha personalidade para falar de um jeito alegre, expressivo e usar da minha emoção para tentar transmitir algo de bom e falar ‘acreditem porque é possível a gente conversar e se ouvir, eu acredito e espero que você também.’. Não indo para autoajuda, porque não é isso, eu não estou aqui para ajudar ninguém, porque eu não consigo ajudar nem a mim, que dirá aos outros, mas usar da minha personalidade para brincar com tudo isso e quem sabe fazer pensar um pouco, e vocês pensarem ‘ah, eu gosto dela ou não gosto, ela é legal, ela é chata’, enfim.

     Mas existe um risco quando eu faço isso, que é me deixar levar por essa subjetividade, pelas emoções, pelas minhas impressões, por aquilo que eu quero parecer para vocês e não simplesmente ser aquilo que eu sou. E quando nós fazemos isso, quando usamos da nossa personalidade de maneira não observada, por nós todos sermos muito surdos e cegos, é como se eu colocasse vocês todos num cômodo com a luz apagada, e aí entra todo mundo e eu posso estar falando várias pérolas, eu posso estar dando algo extremamente mágico, mas por isso estar encoberto por uma personalidade, por algo tão temporal, tão pueril, por algo tão… eu jogo vocês no escuro, e vocês acabam prestando atenção em coisas que não deveriam prestar atenção, ou pisam nas pérolas e acreditam que pérolas são pedregulhos, e começam a reclamar que está doendo e pedindo para que ‘me tirem daqui porque meu santo não bate’.

     Todo santo sabe que existe um santo dentro do outro, não tem essa de santo não bater, enfim, talvez tenha num nível mais denso. Mas é isso, tem personalidades não se darem, tem eu ser uma pessoa introvertida e não me dar com uma pessoa extrovertida, tem eu gostar de futebol e não gostar de futebol, tem eu achar que política se discute ou não se discute, tem várias coisas, coisas… mas o Eu está em todo mundo. O Ser está em todo mundo. Porque todos nós Somos.

     E para chegar nessa instância, a gente sofre muito antes. E se não sofrer tem algo errado, está empurrando para debaixo do tapete, tá? Mas também fica para outra hora isso, o caso é: se eu me deixo levar pelas minhas emoções, personalidade, subjetividade, eu empurro as pessoas para dentro dum quarto com a luz apagada, porque elas não estão conseguindo ver quem eu realmente sou, elas estão vendo quem eu estou no momento: se eu estou nervosa, ansiosa, alegre, triste, de bem com a vida, de mal com a vida, elas veem como eu Estou, e isso apaga a luz para aquilo que eu Sou.

     Então elas entram num quarto, num cômodo escuro, eu enfio vocês em um cômodo escuro, e mesmo que o chão seja cravejado de diamantes, não é possível ver e eu vou julgar que diamantes são pedregulhos, e eu vou querer sair dali correndo, porque se eu estiver descalço não vai ter condições, dependendo do sapato que eu estou, se estou num salto também não fico, chinelo pode ser escorregadio, enfim, todas as variações possíveis disso, mas a analogia básica é: vamos supor que estejamos todos descalços, de pés limpos, descalços, vai machucar, vai doer, e eu não vou saber observar, até porque eu só aprendi a ver as coisas com esses olhos físicos…

     Se eu contar que tenho olhos nos pés, se eu contar para vocês que nós temos olhos em todos os poros, fica difícil de crer. Mas se eu piso numa pedra eu vejo ela, talvez se eu pisasse por mais tempo em cima dela, eu visse ela melhor ainda. Ah, mas isso é o tato… é… a gente ainda está tateando, isso é verdade.

     Quando eu uso da minha personalidade para falar, quando eu falo levando em consideração só quem eu estou, como estou, como eu acho que, como eu penso que… eu não levo em consideração o outro, não levo em consideração o sapato que o outro está vestindo, não levo em consideração o outro ter ou não olhos nos pés, não levo em consideração o outro ter ou não uma lanterna nas mãos, não levo em consideração a capacidade de ver no escuro ou não, eu só: empurro, e ponho ele em um cômodo e fico falando que tem diamantes, mas ele não vai ver, o que ele vai ver é a escuridão. E ele vai contar para todo mundo que você é uma pessoa escura, horrível em termos de trevas (e eu não estou falando de negritude, ok? Por favor! Não vamos confundir alhos com bugalhos).

      A escuridão em si não tem nada de ruim.

     Mas no momento em que estamos, ela não nos permite ver, e assim sendo isso se torna uma limitação, então quando você for colocar o outro dentro de um cômodo, preste atenção se tem alguma luz que você possa acender, uma janela que você possa abrir, algo a oferecer. E se for colocar num jardim, cuidado com o sol de meio-dia, cuidado com a chuva, tempestades… cuidado para não estar oferecendo dunas, tempestades de areia…

     E eu espero que isso contribua em alguma medida para que as palavras nutram e sejam um pouquinho mais cheias.

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