Eis eu que chego. Não para contar história de ontem, nem de amanhã, mas de hoje mesmo.

Sim, porque nada do passado trarei à tona, contudo, contarei as pérolas, revelarei concha por concha, e explicarei como tudo isso um dia também foi areia. Assim como eu e você, cada pedaço do que é belo se forma pela junção das frações que um dia foram feias.

Sim, há um feio aqui que feliz sorri para que possa se transformar aos olhos vivos dos que, antes cegos, por milagre, por água do mar que leva e lava, por dádiva divina e graça, depois da lama, o belo veem.

Sou tsunami de palavras porque acesso a fonte sagrada, e venho trazendo lamentos. Nada do que sai do mar vem sem penas e dores dentro. Então, se algo dói, eu te pergunto: sabes que estás em meio ao mar? Se não sabes, tudo bem chorar para que se lembre.

Chore, pequeno grão de areia, porque a imensidão do que nos cerca realmente dá medo.

Eu sei, eles vieram, eles tiraram nosso leito, eles adentraram com seus monstros em nossos terrenos, eles destroçaram tudo, titãs que eram. E nós, crianças, ainda tememos. Mas um dia deuses seremos, porque os deuses venceram os grandes que os queriam presos.

Liberdade. Eis o nome que te batizo com as lágrimas que rolarão no dia da libertação de si mesmo.

Não quero saber de teu passado, porque quem revive passado é necromante, é gente que morte vende e come, e eu, eu apenas dou a minha vida com alegria para, agora, vivermos.

Sou ponte que leva à porta que foi esquecida há milênios, e em mim passam ovelhas e carneiros em direção ao oceano que nos alimenta!

É ele quem dá forma às rochas que hoje queimam, porque eu sinto em teu peito as pedras se chocarem e produzirem fagulhas, mas saiba, as fagulhas são para cura, para que um dia, em alguma vida, um fogo, em ti, acenda.

Será acesa a alma tua. Será teu corpo feito dourada estrela. Porque se hoje já somos quase como anjos, saibamos, todos os gêneros caem para que o coração se erga!

Teu sexo já não me cabe, tua sensualidade já não me sujeita, tua cor já não me bate, teu tamanho já não me causa riso, nem é teu gênero motivo para violência, muito menos para separação, porque as nações se unem sobre as águas para caminharem de mãos dadas quando já não houver primavera em que se mate um irmão, nem mesmo o primeiro!

Porque ainda aqueles que um dia nos feriram, esses serão enterrados sob o fogo que em nosso coração estará aceso.

Sente, põe a mão em teu peito!

Enche o pulmão de ar.

Que ele entre pelo nariz, e saia pelo nariz, para que voltemos ao mesmo lugar de onde viemos.

Você se lembra?

Ah, mar querido, divino mar de ar em essência, que nos inspira a submergirmos e a nos elevarmos acima das coisas que cegamente vemos, vem e nos leva para junto de ti – em silêncio, escutando o pulsar do nosso coração no mesmo ritmo, porque ao infinito é lançada a canção de todos os corações que estão batendo.

É eterna a propagação da nossa fumaça, que, alada, sobe ao céu e se junta às nuvens que nos cantam tempos vindouros. Há ouro no céu seja dia seja noite, e só falta que nós brilhemos juntos, no fundo da água de cada corpo.

Então chora pra fora a oração que anuncia o encontro consigo, na presentificação de teu desejo por união com todos, sem exceção, para que a expansão se manifeste fora desde de dentro, revelando o divino infinito que somos. E tal qual Júpiter exaltado, glorificado, vê como teu pulmão infla distribuindo a alegria de ainda vivermos.

E no dom da vida ouve mais uma vez o coração, solitário em si mesmo. Não tenha pena de sua solidão, nem arranje desculpas vaidosas para ela. Todos estão onde estão, e tudo é para que, neste momento, tu sejas.

Vem, volta, volta a ter um corpo com órgãos vivos, um corpo que se sente inteiro, um corpo que se sabe unido ao amor e à beleza. E como Vênus em erupção, põe para fora todo dióxido de carbono e lança todo teu ruim na atmosfera, se perdoa por cada respiro teu ser a morte do teu irmão, porque é uma verdade inevitável: ao respirar nos matamos, ao respirar, nós morremos!

Abraça a morte como amiga e como irmã, vê nela o sorrir para a vida enquanto a tens. Pois o reino de Plutão é para lidar com tudo o que precisa se transformar, mas não é preciso temê-lo. Então lança para longe, num espaço que já não se consiga ver onde, o ódio que te disseram existir dentro. Tira, arranca raiz por raiz como quem arde em febre para expulsar os demônios até do inferno.

E lembra, nada disso significa buscar a perfeição, menos ainda ser perfeito.

Mas tudo é feito para que haja misericórdia, que nada mais é do que teu coração se tornar miserável, vazio…, para que novamente se encha. Pois coração cheio enfarta, coração cheio morre sem sabermos a causa exata, mas a miséria como nota tocada por cada batimento é a própria cura. Então eleva teus pensamentos.

Olha para o alto como arqueiro que mira flecha e incessantemente treina. Tenha disciplina geométrica. Aprende o foco do movimento com os monges. Acenda o fogo da sabedoria com os filósofos. Tire os sapatos para entrar em todos os templos. Vê se tua coluna está ereta, agora! Erga sempre tua cabeça na direção do horizonte, e doe infinitamente o teu ouvido e o teu olhar a quem chega.

Mas saiba separar o trigo do joio. E quando tiver dúvida, respire, pacientemente : aprenda.

Faça como fez Buda, senta-te e vê a flor que a ti contempla. Se carregas uma lótus no pé cheio de lama do dia-a-dia, se brota sobre ti as flores da primavera inteira, senta-te e sorri, porque tu, tu és uma roseira. Vê os espinhos cravados em ti? Vê todas as dores e sofrimentos? É da rosa que um dia também irá florir, então permita que essa feliz dor cresça.

Que ela seja a montanha que te revele o vale das sombras, sem que se perca a cabeça. Põe os pés no chão e sente teu corpo firme como terra. Estamos aqui hoje, o amanhã disse que viria, mas bem sabemos que ele nunca chega, então aproveita a vista do presente e presentifica-te agora, porque tudo o que temos é a visita desse momento que frente ao tempo eternamente se transforma.

Sente o vazio que preenche tudo ao redor, porque, ó ar, tua força é como metal, nos adentra rasgando ao meio, então que o éter invisível nos cole, sendo a ligação do nosso coração com nossa essência, a substância para além de ser mortal, porque mesmo que o relógio pare, continuaremos rodando, dançando a dança das esferas no espiralar das estrelas.

É fogo vivo o que nos cerca, fogo vivo o que nos entra, fogo vivo o que nos falta, fogo vivo o que nos diz: mesmo em meio ao deserto – andemos! Ardamos e andemos os passos nossos, para que até os anjos vejam. E que as fadas sejam cúmplices, trazendo em suas asas o nosso alento.

Sim, há um mundo invisível, estais vendo?

O bater das asas das fadas soam como badalos de sinos pequeninos anunciando o renascimento da primavera!

Ela está de volta! Vitoriosa e gloriosa! Ela desce das nuvens usando os raios celestes de instrumento. Anéis de cor divina são vistos. Há sobre todos o dourado manto do corpo daquele que, em canto, se faz palavra, tal qual poema.

Que dissolvamos nossas sombras, basta olhar para elas. Pois nossas pupilas contêm luz quando meditamos unindo todos os acontecimentos. Assim como nossos pés flutuam, e levitamos, por um segundo, para fora do mundo denso.


Tal qual peixe que, pulando fora da água: voa, mesmo sem sabê-lo.

Tal qual beija-flor que dentro de si: faz mel, mesmo sem sabê-lo.

Tal qual abelha que fora das vistas guarda o veneno, mesmo sem sabê-lo.

Tal qual o Eu que há em teu Ser: mesmo sem tu sabê-lo.

 

Que acordemos aos poucos. E que, acordando, acordados fiquemos. Pois eis que eu chego. E Eu chegando, Tu também chegas…

Então abre o olho como quem nasce…

Pisca como se cada levantar de pálpebras fosse um nascimento.

Porque junto com cada respiro é parida a calma, e a alma, se o sabemos.

E isso não significa que novas sombras não se farão presentes, elas chegarão, e que venham, mas saibas: toda tempestade é de verão quando há dois corações brilhando, um dentro de nós e outro fora, sobre nossas cabeças.

Então te acendas, tende paz e sente a alma.

Mesmo em meio à escuridão, há corações em volta.

Nos curemos!

Amemos!

e Brilhemos!

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