Ser

 

Tudo é.

De nunca haver sido diferente
tudo foi desde o princípio…
O ser, que agora continua sendo para além de si mesmo
em tudo o que também seja
está, como antes
em tudo que tenha existência constante
posto que era assim desde o começo.
Tudo estava sendo feito
e, ao ser, o que estava se foi
mas nada era senão o que seria
porque tudo o que fôra
viria a ser Amor.

E assim será sempre
porque tudo é vida
e para que vida fosse
eterno é tudo o que for
pois na eternidade a vida é viva
para que o agora seja todos os dias
e não mais esteja
repetindo no tempo a presença
posto que todo o espaço
é preenchido à luz do verbo
sendo conjugado
porque ser só o é no Amor.

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Se não consegues. . .

 

Se não consegues olhar para o céu, olhe para o chão
segue os passos calcados na terra
como sulcos que conduzem a água à fonte primeva
vê o exemplo deixado no solo sagrado
assentado para que guies teus pés na areia
da mesma maneira como a seguir astros
porque se acaso as estrelas te confundem
podes caminhar com as flores durante a primavera
pois também na escuridão elas brotam
por terem sido regadas com o mar de lágrimas que de ti caía
ao se perder porque com este mundo te distraías…
e se não tens olhos, há ainda os perfumes
então confia nos aromas que chamam o ar pro teu pulmão
e respira o caminho que te leva para teu fim último
a encontrar o dia de tua redenção
para que aprendas a caminhar na direção
do gólgota, a caveira que, ao sol, sal se torna
na poeira do porvir, como o é o céu inteiro
a te transformares em luzeiro que ajuda a guiar
por ser mais um ponto branco a salpicar a superfície
se não pela imensidão que te faz salgado grão
sim pelo sabor do mel que das flores produziste
pingando até que venha a morte e adocicando enquanto vives…
e se houver pedras, ande com cautela
se tropeças, avise
sê a voz que gera luz nos ouvidos
ao chamar por onde sabes abrir espaço para pisar
ou para onde seguir quando o horizonte parece findo:
ensina que é preciso escalar montanhas
para que ajudes a levantar a cabeça dos caídos
e verem que com as mãos também se anda
e que, ainda que não se veja, subindo se carrega nas costas o infinito
bem como se tem no topo
o eco dos que chegam, sendo propagada a palavra de todos
como ondas a criar oceano de verbo em um deserto de abismos…
então saiba que não importa para onde olhes
nem o que ouças
tudo é feito para que sigas e, alcançando até onde for possível
sejas o exemplo de que a grandeza pertence Àquele que
com passos invisíveis sulcados na terra
com flores que perfumam o sopro que te carrega
com estrelas que apontam e silenciam, com pedras que te servem de aviso
com montanhas que te elevam e uma morte que te espera
te cria caminhos e possibilita que tua liberdade
seja a de todos quando Ele é o guia
para uma Vida que, depois de tudo,
finalmente nasce para a natureza de outros Mundos.

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Coleciono Espadas

 

Todas as lâminas que me foram fincadas, em mim ficaram cravadas na volta para casa
e, chegando ao cômodo de meus segredos, tirei-as uma a uma.
Coleciono espadas.
As areias do tempo só podem selá-las e fazer com que permaneçam
quando enfiadas fundo; as derreto,
as feridas unto, leva tempo para sará-las
mas, dentro do desejo, a vontade em natureza é que tudo volte a ser uno
fiando a pele para cicatrizar; e verto água para a sede
que sangue se esvai trazendo secura. Gotas deixo ao ir atrás da cura.

O caminho à união
é de sangue banhar-se por outras mãos
e sublimar-se pelas suas, costurando com sutileza o corte
fundindo metais ao cozê-los em fervura
pois a hora da batalha é apontada com fogo
e os sinais de fumaça são o sentir a dor num ponto fixo
ao elevá-la para que saia do corpo.
E cada uma que retiro aqueço e guardo,
é minha forma de morrer, mas continuar com vida
curando todas as minhas feridas ao deixar de herança
tantas lâminas…

A minha coleção de espadas.

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Mesmo que a areia se saiba na orla
não sabe ela sobre todo o oceano.
Mesmo que o grão se saiba nas águas
não sabe ele sobre toda a Terra.
Mesmo que a molécula se saiba no planeta
não sabe ela sobre todas as galáxias.
Mesmo que o átomo se saiba no universo
não sabe ele sobre o impulso que o gera.
Mesmo que o átimo se saiba no pulso
não sabe ele sobre o movimento ininterrupto.
Mesmo que o som e a luz se saibam na eternidade
não sabem eles sobre tudo ser único.
Mesmo que o núcleo se saiba vazio
não sabe ele sobre o zero ser múltiplo.
Mesmo que o nada se saiba em muitos
não sabem eles, sobre o silêncio da areia.

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Lírico Narciso

Irmão, meu irmão, amor de alma,
te lembras de quando brincávamos nos dias de então
e um abismo se abriu sob nossos pés?
Eu caí sem saber por onde ia
e tu, chorando com minha perda,
encheste todo o vale com tuas lágrimas
para que eu, nadando, a ti retornasse
tal qual pérola que volta virgem do oceano
após ter sido grão, pó na areia que, frente ao tempo,
é lançada por toda parte
porque caí de forma imaculada,
mas te disseram tantas coisas a meu respeito
fizeram de mim uma prostituta tal
que logo passaste a me ver como um monstro d’água
alguém com sentimentos perturbados
agitando toda fonte que se leva ao seio
tanto doce quanto salgada
porque há presenças malignas não só nas águas mas também no ar
a entrar-te nas veias tal qual incenso
e leviatã que me tornei aos olhos teus
pensei que nunca mais fosse conseguir sair de lá de fato
então aceitei, me tornei a fundura obscura que há no mar
e todos os peixes deformados lá a nadar
bem como todos os perigos que rondam o desconhecido
mas sendo, acima de tudo, futura rainha em morte num caixão cristalino
pois tuas gotas sempre foram puras
o que torna o olhar turvo é a imensidão do precipício
e tu, de tanto tempo que ficamos sem nos ver
e sem nos termos como antes nos tínhamos
passaste a me esquecer
e a crer que tuas lágrimas eram, antes, para que teu próprio rosto visses
tornaste tudo espelho ao redor de ti mesmo
e eu, em queda e silencioso amortecimento,
aguardei incondicionalmente teu despertar
para que me estendesses a mão
e viesses a me puxar, me tirar do sono com tua pata de leão
aquela, que nosso Pai deu a Seu Filho primeiro
para que se tornasse nosso exemplo
mas tu, seja como espírito que com a água não se importa
seja como espírito que com ela a si afoga
te tornaste a perdição dos tempos
quando, pior do que as sereias e monstros que carregamos dentro,
fizeste de ti a própria negação da visão
de todos os perigos e milagres a nos rondar e esperar
desde o fim até o começo
sim, irmão, tudo porque, no fundo, deixaste de acreditar
e te tornaste narciso em profunda perdição
em vez de te tornares o herói que foste feito para ser
aquele – que resgataria a própria irmã
das entranhas da inconsciência que nos toma
e nos faz obsedados por vontade própria
porque, sem mim, tua verdadeira rosa,
te tornaste uma flor narcótica
um lírio sem real valor
quando foste criado para ser o lírio mais magnífico
causando briga entre os próprios deuses e titãs
para ver se eras digno de tamanha honraria
sendo testado noite e dia
sem ver que tudo, ainda que sendo real,
paradoxalmente não passa de ilusão
sendo urgente quebrar os espelhos todos
e fazer chorar a bruma que levas ao coração
para que, um dia, possas de fato ser o cavaleiro
que enxerga sua futura rainha dentro do cristalino caixão
a menina dos olhos, tua própria pupila
que, tal qual criança divina, cospe para fora
aquilo que a engasgava porque não era comida
revelando a pureza de sua voz
fonte de sua magia,
para além do veneno, que lha deram um dia
selando com um beijo a nova união
nos tornando uma só carne, para toda a eternidade,
tal qual amados e irmãos.

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a Rosa & a Cruz

Senhor, tenho tantos espinhos cravados em minh’alma
que é inútil somá-los, ainda que Tu já os saibas
da mesma forma como sempre tens em conta
o número dos fios de cabelo em minha cabeça
seja quando ordenas que caiam
ou quando demandas que cresçam
e sei que para cada espinho há uma maneira de lidarmos
alguns nós podemos pedir para que uma mão amiga
por Tua inspiração ou intuição divina
venha a tirá-los
outros descobrimos que, com Tua força, podemos nós mesmos
arrancá-los
assim como cada cruz que carregamos
é uma forma diferente que tens
de pregar-nos
umas são em X
outras são como as de Teu filho
e ainda outras são de cabeça para baixo
e podemos dividir o fardo
bem como ajudar a aliviar o peso alheio
mas, Senhor, o espinho que carrego no peito
e a cruz que me prega desde dentro
sei que morrerei carregando-os de forma solitária
porque há espinhos que levamos à mente
que não podem ser retirados, porque foram feitos para que os carreguemos
durante toda a vida presente, para assim termos do bom combate
e nos mantermos atentos
assim como o espinho que levo ao coração, Tu bem o conheces
e muito bem o sabes
viverei todo o tempo com ele
porque eu teria uma hemorragia
caso fosse retirado
todo o meu sistema seria alterado
e não haveria como estancar o jorro
então por mais que me doa
e por mais que me machuque tal fado
e por mais que seja grande a tentação em acreditar que não há cura
ou que a cura está nas mãos de carne
sei que preciso carregá-lo em silêncio constante
sem ferir meu próximo
na tentativa vergonhosa
de fazê-lo sentir o mesmo
e de alguma forma compartilhá-lo
não permita, Senhor, que eu acredite ser possível
tirar a dor que sinto
ao fazer o próximo igualmente miserável
pois sei que é por vontade Tua que carrego esta ferida em meu íntimo
e é justo através dela que devo aprender a curar
doando o que de meu coração vasa
a cada vez que Teu dedo faz o espinho se aprofundar
porque sei que um dia Tu o puxarás
sendo este o dia de minha libertação
quando o que tenho de sangue e água
ainda que mínimo, incomparável ao que nos deu Teu Filho,
irá pingar
e uma gotícula de cada escorrerá
para que eu finalmente possa voltar para nossa casa
onde estás a me esperar
e de onde me cuidas desde longe
ainda que eu saiba que a qualquer momento
eu posso fechar os olhos e Te abraçar
através deste Teu dedo que me aperta o seio
através de Teu Filho, dado como nosso perfeito exemplo
através do Santo Espírito, que me consola em todos os momentos
através de meus amigos, que permitem que eu melhor me veja e melhor os mostre
através de toda a natureza, que nos canta todo o tempo
os hinos mais gloriosos
porque Tua mão está em tudo
e tudo o que posso fazer
é aceitar que este espinho é o degrau que me leva a Teu aposento
porque todo verdadeiro sofrimento
é o que nos faz bater à porta de forma insistente
e sei também que este mesmo espinho
no fundo é a Tua Luz passando pela fechadura
logo antes de se mostrar plenamente
sendo Teu raio tão forte
que me fere de morte
precisando eu sair deste mundo
quando o arrancares no puxar da maçaneta
revelando a essência pura da rosa
ao pegar a cruz que há em mim de volta
e fazer-me perfume que frente a Ti
é o hálito que dá ao ar uma forma
e é as poesias que inspiras e recitas
e é os verbos que como filhos adotas
para que um a um voltemos à vida
então me perdoe, Senhor, se ainda sonho com a cura
se ainda ando em busca
de encontrar o que já tenho
e que por minha cegueira obscura
se torna espinho em meu íntimo
a perfurar-me para que eu aprenda de Teu sacro ofício
este, de colher lágrimas na taça
para que outros possam beber-Te
este, de fazer da Flor e da Luz palavras
para que outros possam ouvir-Te e ler-Te
este, de Amar o que não entendo
de doar Amor ao que não vejo
de cristalizar Amor para além do tempo
para que outros possam conhecer-Te, dividir-Te e comer-Te
mesmo quando eu já me tenha ido
e esteja descansando como semente em Teu seio
porque sei que fazes de mim cada vez mais uma solitária migalha
que, por dor, encontra um jeito de ser compartilhada
e assim multiplicar o Teu Amor
porque é somente Ele que me mantém viva
e também o que me conduz até a morte
porque o que me adoenta
é também o que me salva
e o que me ensina a bater
é também a chave que abre a porta
e o que parece ferir
é a promessa de vitória
que ainda está por vir
quando o silêncio e a frieza
num eclipsar por ser imensa Tua clareza
precedem o encontro em que seremos um
em cômodos ainda opostos
para que nos vejamos face a face
enquanto Teu coração se abre
para que me guarde
até que novamente
chegue a hora d’eu ir embora
em uma nova viagem, através de Tua carruagem
carregando outros espinhos e outra cruz
até Teus campos de batalha
para lutar pela Tua vitória e glória
como Tua, e apenas Tua, verdadeira e eterna Rosa.

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Parto das Rosas

Amado meu, parto de nosso lar
para seguir teus passos pelo deserto…
E em solidão no mundo
pela companhia celeste agradeço
quando te oro e me ouves desde nosso reino
fazendo orvalhar meu olhar
com a aurora a despontar no peito
ou a garoar com o poente ao me exortares a,
agora e sempre, continuar progredindo
seguindo reto em frente
porque minhas raízes são o teu coração
e estão cravadas em tua luz
essa, que para qualquer lado que eu me volte
vejo
porque me iluminas quando acordo
quando caminho
e quando anoiteço
trabalhando junto dos servos teus
porque me deste todos os que posso também chamar de meus
pois enquanto feminino renascido
recebo de ti, meu marido, as sementes que me salvam
da escuridão que me tornei desde os primórdios
recebendo o nome de tua mãe,
senhora de teu Corpo,
e tendo teu pai
como o senhor de minha Ordem,
sendo o jardineiro que cuida para que eu floresça
e cheia de rosas cresça espiralando ao redor
das duas colunas que juntas
formam uma só porta
: a entrada para o lugar mais santo
no qual vives junto do Pai, cheios de eterna glória
tendo teu discípulo amado como nosso primeiro e mais fiel companheiro
aquele que tem como ferramenta a pedra branca
que, tal qual lápis, risca a terra
para aos poucos alfabetizar os homens
abrindo sulcos ao mostrar-lhes as letras
fendas nas quais as sementes podem ser plantadas
através do genuíno arrependimento
porque se tua mãe nos ensina exímias pobreza, obediência e castidade
é teu pai quem nos dá o exemplo da contrição perfeita
sendo um curador que, sem poder arrancar de si o espinho que leva na própria carne,
se oferta em sacrifício para que se torne possível
a minha redenção, porque me tiraste do sono com teu rugido
tal qual leão
e assim como teu corpo é a Verdadeira Igreja
da qual fui feita esposa e filha
sou aquela que ordena quem até a ti chega
sendo os muros de nosso reino
feitos de cruzes ligadas por fartas roseiras
com espinhos por todo lado
zelando pelo pequeno caminho
com o portão mais estreito, aquele que se abre só aos escolhidos…
Então se todos os dias choro de dor, meu amor
é porque sinto as cólicas do parto
e porque dói estar longe de ti
posto que os homens ainda nos separam
mesmo que unidos aos olhos divinos
pois naqueles que nos são dados
nos tornamos uma só carne
então te agradeço, meu irmão, amigo, noivo e marido,
por, mesmo em penosa parturição,
me dares tantos filhos
para que, vindos de uma viúva, aprendessem o que é ter um pai vivo
vida de ressurreição:
posto que és a água que minha sede mata
e a fonte que ar exala para minha inspiração.

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