Preste atenção, criança minha, não tires do mundo tua alegria

posto que ele sempre te dará tristeza depois

mas, se antes, tiras teu lamento do céu que não tocamos

dos pastos verdes em que não pisamos

da covardia com a qual nos traímos

da vaidade que à nossa moral consome

dos vícios que assolam nossa alma

por evitar que as virtudes se tornem gloriosa vitória

aí então sofrerás em primeiro lugar

para em seguida seres dotada do júbilo divino

aquele que pedra nenhuma atinge

quando tacada pela mão do inimigo

porque tal alegria é uma dádiva

formosa graça irradiada de mundos mais altivos

tudo o que tens de fazer é preparar-te

dotar teu corpo e mente de sanidade

tornando-os odres renovados

prontos para receber o novo vinho d’água

porque já não serão as uvas da terra que te darão vertigem

mas a própria chuva cristalina que são as celestiais lágrimas

porque quando buscas o nascimento de teu Eu mais íntimo

o próprio Deus chora de alegria

e é Dele que recebes, após venceres teus demônios

e tuas sombras com bom ânimo, tal qual Seu filho,

o bálsamo que enche tua face com Luz celeste

porque Ele vê que te lembrastes

de que também fazes parte

de nossa família eterna

sim, criança minha, porque hoje não sabes que de teu próprio pai esqueces

mesmo quando teus lábios pronunciam Seu nome

apenas em materialidade concreta

sem tocar o cerne de teu âmago, sem causar o verdadeiro espanto

de se descobrir longe de casa, com saudades de nossa verdadeira terra

porque amas o que à tua carne invade

e a o que a teus pensamentos semeia

colhendo sempre nuvens para, com a mente,

inventares fórmulas várias

estando cega para o fato de que são elas que trazem a tempestade

que te assalta e te inunda desde dentro

causando um dilúvio de emoções e sentimentos

que ficaram represados por tanto tempo

e que foram vítimas de tuas ideias obscuras

porque crês que podes dar às nuvens

o formato que preferes

sem entender que a existência da maldade

é o esquecimento de tua própria potência

que, desde cima até aqui embaixo, fazer nascer asas quando nos tornamos conscientes dela

e que as nuvens não estão em nós para serem modificadas

retiradas ou forçosamente desfeitas

mas sim para, com paciência, criarmos coragem

de voar na direção de cada uma

para descobrir, assim, que por trás de cada possibilidade de afogamento

há um Sol pronto para surgir e mostrar

como, após a água, o fogo brilha em tudo

com um calor ainda mais pungente

nos ensinando pouco a pouco que é preciso permitir que em nosso universo chova

a fina brisa dos que choram de alegria

por encontrarem seu Pai, seus Irmãos, seus Amados todos

com verdadeira Vida

sendo preciso antes querer para si os dias nublados

para tirares deles os teus lamentos

porque é só aquele que ama a doença vinda do alto

tanto quanto a multiplicação feita na terra

que se torna o cego que finalmente enxerga

porque seu véu é levantado

recebendo a dádiva de enxergar para além das aparências

se tornando o louco na beira do abismo

que ama profundamente ser coxo

porque assim ainda mais caminha

sim, porque se seus ossos não fossem tortos

certamente cairia por andar em linha reta na boca do precipício

sendo devorado a um só golpe

porque a borda da escuridão é um malicioso sorriso

proferindo sempre fórmulas novas

para tentar nos encantar com suas mentiras

sendo assim que a pedra que carregamos por baixo dos poros

se torna a fundação para a salvação que, dançando,

vem a ser, da queda, um reto desvio

porque se usamos da música que nos arde a carne

para fazer bailar o espírito

o passo se torna oposição, não do caminho da alma,

mas sim da possibilidade de cair na lábia do inimigo

assim como o falar do próprio abismo

e o mover de seus lábios nos convidando ao salto em sua escuridão

também se tornam a aparência lógica que nos avisa

que de nada adianta agarrar-se ao tutano da própria vida

crendo que ter dura cerviz

é o mesmo que andar reto, direto para outra dimensão

não, é preciso mais do um Judas que tem a tortuosidade

unida à traição… é preciso antes nascer Cristo

que, sofrendo com a nuvem mais temível:

a do enxame humano tal qual vespas a picar-lhe espinhos,

nos ensinou, em profunda inocência,

a colher ferrão por ferrão

e fazer com eles uma veste que se torna ouro líquido

quando o sangue, purificado ao vencer a dureza do osso,

e a própria caveira, vencedora por se fazer coxa para a malícia da carne labial do desfiladeiro,

revelam o raio d’água que feriu a perna

e o manto dourado que surge ao seu lado

desde a purificação de seu sangue, tal qual azeite prensado para fora da pele

quando a escuridão da tempestade acaba

e o Sol aponta nossa nova morada

sob a guarda dos seres celestes

para os quais éramos cegos até agora

porque colhíamos nossa alegria no mundo de fora

quando é apenas colhendo frustração e tristeza dentro

nos pregando na cruz em meio a nuvens de grande tormento

que tudo pode escorrer de nós e se tornar sabedoria que nos revela a essência

então, criança minha, não colha a tua alegria na tranquilidade das aparências

mas aceita com leveza e suavidade

o fardo e o jugo do dia a dia

pois é no grito do que do ventre nasce

e no brado daquele que na cruz é pregado

que ocorre o milagre de, no atrito do parto

ressuscitarmos para o gozo verdadeiro.

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