Senhor, tenho tantos espinhos cravados em minh’alma
que é inútil somá-los, ainda que Tu já os saibas
da mesma forma como sempre tens em conta
o número dos fios de cabelo em minha cabeça
seja quando ordenas que caiam
ou quando demandas que cresçam
e sei que para cada espinho há uma maneira de lidarmos
alguns nós podemos pedir para que uma mão amiga
por Tua inspiração ou intuição divina
venha a tirá-los
outros descobrimos que, com Tua força, podemos nós mesmos
arrancá-los
assim como cada cruz que carregamos
é uma forma diferente que tens
de pregar-nos
umas são em X
outras são como as de Teu filho
e ainda outras são de cabeça para baixo
e podemos dividir o fardo
bem como ajudar a aliviar o peso alheio
mas, Senhor, o espinho que carrego no peito
e a cruz que me prega desde dentro
sei que morrerei carregando-os de forma solitária
porque há espinhos que levamos à mente
que não podem ser retirados, porque foram feitos para que os carreguemos
durante toda a vida presente, para assim termos do bom combate
e nos mantermos atentos
assim como o espinho que levo ao coração, Tu bem o conheces
e muito bem o sabes
viverei todo o tempo com ele
porque eu teria uma hemorragia
caso fosse retirado
todo o meu sistema seria alterado
e não haveria como estancar o jorro
então por mais que me doa
e por mais que me machuque tal fado
e por mais que seja grande a tentação em acreditar que não há cura
ou que a cura está nas mãos de carne
sei que preciso carregá-lo em silêncio constante
sem ferir meu próximo
na tentativa vergonhosa
de fazê-lo sentir o mesmo
e de alguma forma compartilhá-lo
não permita, Senhor, que eu acredite ser possível
tirar a dor que sinto
ao fazer o próximo igualmente miserável
pois sei que é por vontade Tua que carrego esta ferida em meu íntimo
e é justo através dela que devo aprender a curar
doando o que de meu coração vasa
a cada vez que Teu dedo faz o espinho se aprofundar
porque sei que um dia Tu o puxarás
sendo este o dia de minha libertação
quando o que tenho de sangue e água
ainda que mínimo, incomparável ao que nos deu Teu Filho,
irá pingar
e uma gotícula de cada escorrerá
para que eu finalmente possa voltar para nossa casa
onde estás a me esperar
e de onde me cuidas desde longe
ainda que eu saiba que a qualquer momento
eu posso fechar os olhos e Te abraçar
através deste Teu dedo que me aperta o seio
através de Teu Filho, dado como nosso perfeito exemplo
através do Santo Espírito, que me consola em todos os momentos
através de meus amigos, que permitem que eu melhor me veja e melhor os mostre
através de toda a natureza, que nos canta todo o tempo
os hinos mais gloriosos
porque Tua mão está em tudo
e tudo o que posso fazer
é aceitar que este espinho é o degrau que me leva a Teu aposento
porque todo verdadeiro sofrimento
é o que nos faz bater à porta de forma insistente
e sei também que este mesmo espinho
no fundo é a Tua Luz passando pela fechadura
logo antes de se mostrar plenamente
sendo Teu raio tão forte
que me fere de morte
precisando eu sair deste mundo
quando o arrancares no puxar da maçaneta
revelando a essência pura da rosa
ao pegar a cruz que há em mim de volta
e fazer-me perfume que frente a Ti
é o hálito que dá ao ar uma forma
e é as poesias que inspiras e recitas
e é os verbos que como filhos adotas
para que um a um voltemos à vida
então me perdoe, Senhor, se ainda sonho com a cura
se ainda ando em busca
de encontrar o que já tenho
e que por minha cegueira obscura
se torna espinho em meu íntimo
a perfurar-me para que eu aprenda de Teu sacro ofício
este, de colher lágrimas na taça
para que outros possam beber-Te
este, de fazer da Flor e da Luz palavras
para que outros possam ouvir-Te e ler-Te
este, de Amar o que não entendo
de doar Amor ao que não vejo
de cristalizar Amor para além do tempo
para que outros possam conhecer-Te, dividir-Te e comer-Te
mesmo quando eu já me tenha ido
e esteja descansando como semente em Teu seio
porque sei que fazes de mim cada vez mais uma solitária migalha
que, por dor, encontra um jeito de ser compartilhada
e assim multiplicar o Teu Amor
porque é somente Ele que me mantém viva
e também o que me conduz até a morte
porque o que me adoenta
é também o que me salva
e o que me ensina a bater
é também a chave que abre a porta
e o que parece ferir
é a promessa de vitória
que ainda está por vir
quando o silêncio e a frieza
num eclipsar por ser imensa Tua clareza
precedem o encontro em que seremos um
em cômodos ainda opostos
para que nos vejamos face a face
enquanto Teu coração se abre
para que me guarde
até que novamente
chegue a hora d’eu ir embora
em uma nova viagem, através de Tua carruagem
carregando outros espinhos e outra cruz
até Teus campos de batalha
para lutar pela Tua vitória e glória
como Tua, e apenas Tua, verdadeira e eterna Rosa.

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