Alegria da Creação

Le Tícia Conde

II

I

 

Amor é a capacidade de conceber, por vontade e imaginação, o Verbo antes do Movimento

porque o Poder de creação faz com que a concepção do Amor se revele

em todos os relevos

– no interno primeiro, no externo depois

por dever se dando em casamento à dança que antecede a verbificação

porque todo nascimento é gerado após a côrte para acasalamento

– que no animal acontece no corpo

e nos homens deve acontecer na mente antes de chegar nos artelhos

pois é preciso pensar para só então caminhar sobre a terra

sendo a cabeça os pés daquele que busca o espiritual para além da matéria

e o joelho, ponte que aponta aonde ir para que o caminho seja feito.

 

É o coração que pulsa articulação entre os Homens e Deus.

 

Quando amamos somos virados de ponta cabeça

e, presos pelos calcanhares

compreendemos que, ao contrário do que os mitos nos contaram

lá, na garganta do pé dos que verdadeiramente falam

reside a eternidade dos que choram o que sentem

porque finalmente lhes fala a Alma do Espírito

desde dentro do ventre…

Sim, há uma Palavra em nós em silêncio

pronta para acordar e cantar a melodia de nossa canção

no ritmo e harmonia que, juntos, estamos sendo

porque em cada átimo de sangue etéreo que pulsa por essa mão

que obscura nos segura para que voemos

essa mão que apenas em aparência parece estrangular nossa respiração

mão que firme nos agarra a garganta, chegando a dar medo

em cada gota que cai dessa nova circuncisão

que pelo ouvido sangra para que, um dia, pela boca verdadeira falemos

caem as lágrimas, duas, uma transparente e outra negra

uma de um olho que nos guia fora

outra de um olho que nos guia dentro

ambas rolando pela mesma face que nos tem como creação amorosa

para que, nos amando e de si doando, aprendamos a amar ao vermos seu outro lado:

a do misericordioso exemplo.

 

E quantos termos estéreis ainda carregamos enquanto crença

esperando a hora certa para nos livrarmos do peso

quando, se soubéssemos o único Verbo que a nós sustenta

tudo ganharia imediata suavidade e leveza

e passaríamos a ter certeza de que o maior dever que jorra de nosso coração

tal qual joelho que nos leva rumo à reta direção

é amar, amar e amar, abolindo toda e qualquer molécula do medo

limpando a mácula que nos leva à castração de nós mesmos

ao deixarmos de doar-nos em relações de real amor

por obscuro receio – temor, não a Deus, mas à sombra que tampa o Sol

fazendo com que o futuro pareça igualmente negro

quando toda escuridão é apenas efeito

de quem dança separando o joio do trigo

assim como para se andar se separa o pé direito do esquerdo…

 

As pernas que crescem estão a avançar

como crianças que, para não cair, dão passos como se estivessem a marchar

erguendo o joelho para o céu, como quem apoia o coração na profundidade do ar

e com o tempo aprende a andar reto

a parir o Verbo tal qual asas no calcanhar

e, em direção ao Amor, em alegre liberdade

simplesmente

agora e sempre

voar…

 

II

 

Assim, a Vontade se casa com o Movimento

para que o Verbo seja feito

parindo sua vibração no negrume anterior ao espaço e ao tempo.

 

Todo voo começa na queda ao inferno

– é preciso se lançar no desfiladeiro

pois logo aprendemos que se não o fazemos por vontade própria

será por empurrão alheio.

E quem não sente os pés do destino em suas costas

sempre pronto para a repetição do abismo que é

conhecer, pouco a pouco, a imensidão do vazio de si mesmo?

Vazio de pré enchimento da Luz que se fará porta

ao abrir a fresta para que o frescor entre

fazendo com que todas as coisas se revelem novas

porque, sim, é preciso primeiro cair para só depois compreender

o que significa ser pleno do Outro

em silencioso coro que canta a respiração dos seres todos

orquestra que, sendo um só corpo

mantém, ao mesmo tempo, a individualidade dos instrumentos.

 

Música é o Amor manifestado em diversos hálitos

e Poesia é a capacidade dos hálitos anunciarem que todo ar respirado

é um único sopro

que a tudo sustenta

em cada eterno hoje…

 

O pão de cada dia é D’us nos digerindo por Amor

até que sejamos transformados

– pois nós somos também Seu alimento.

 

A Palavra inspirada é germe de futura florescência

jardim secreto que no escuro gera fruta

bem antes dos olhos serem capazes de vê-la

– é preciso visualizar a semente no ventre antes

para que só depois ela possa nascer

assim como é preciso cair no sono

para que, acordando, as asas possamos bater.

 

Amor é a inalação que verte pleroma ao mais profundo negrume

para ser filtrado pelo diafragma

– nosso rim do vento

formando o cinto dourado

que nos cinge a cintura

ao aprendermos que é antes do processo de absorção e expiração

que se dá a real escolha dos elementos

sendo preciso aprender a levar Amor a cada canto da escuridão

antes de ser possível aspergir o Verbo liquefeito

tal qual água que jorra dum cântaro

sendo a voz um perfume que se exala

desde o miolo: nosso solar centro.

 

III

 

Para se chegar, do castelo, ao meio

é preciso antes se livrar dos parasitas e dos receios

a corda bamba que faz cair em dúvidas

e escolher amar com todo o peito, com toda a força até exaurir o interno

dormindo de cansaço após tanta luta

por apenas desejar se tornar uno com o Amor

ainda que não com o amante que se carrega dentro.

Não importa se é Amor a um animal ou a um homem

aqui a hierarquia ainda não é lua que se pisa

os degraus apenas observam nossa reação

porque estamos no começo

ação de chorar a distância que há até o adentrar

a porta que nos leva ao cômodo de real assento

para depositarmos nosso coração aos pés do Amor em si mesmo

e entregarmos nosso corpo, alma e espírito

ao sermos designados como eternos combatentes do reino.

 

Sim, o Amor nos toca a espada nos ombros

colocando sobre eles a horizontalidade da mesma

sem que nos toque o fio de sua lâmina

correndo o risco de cortar-nos

porque, perante aquele que sinceramente busca o Amor,

é passivo o estado de atividade de sua agudeza.

E, ao acordar nossas clavículas na ligação delas com a cabeça

pousando a língua que, antes de ser de fogo, é de ferro

em nosso ser, que só através do cansaço chega,

faz com que se inflame nossa floresta

e os animais corram soltos

fazendo deles seres alados em meio ao dourado que

pouco a pouco

entra

cantando todos a glória do retorno ao verdadeiro habitat

pois este é o primeiro retornar

dos muitos combates que ainda travaremos.

Mas a liberdade da corrida faz com que tudo se torne veneno

de repente há uma libertinagem nos passos

e barulho por todo lado

como se cada ser que nos foi dado

falasse algo diferente.

Então, de repente, vemos que o mapa a Magdala

é chegar no estado de caos de si mesmo

é se tornar senhor dos atos e palavras

porque vemos a torre com maior certeza

e em espanto descomunal de suspender qualquer clareza

é-nos dado saber que, tal qual Babel,

os pés não falam a mesma língua que a cabeça

sendo feito o corpo ruínas que serão dispersadas e engolidas

para que a divina torre, tal qual nova taça,

seja erguida, não pelas próprias mãos,

mas pelo único construtor que faz de nós

um Verbo único para a verdadeira Poesia…

 

IV

 

É assim que se sabe que a nobreza ao combate obriga.

Toda a mata e montanha que antes atravessamos

as borboletas que tínhamos

as lagartas que cultivamos

tudo era pó que faz e desfaz a mesma realidade

para que possamos finalmente ver que a realeza

precisa ser conquistada em árduo trabalho.

Sim, eis as gotas a pingar da testa

quando um lobo corre conosco e nos vemos com as quatro patas na terra

naqueles sonhos em que a pele nos cobria de pelos brancos

e ruivos

para que pudéssemos passar à frente

mas o que isso significa, senão que teremos filhos e mais filhos

apenas para terminarmos em solidão extrema?

De nada adianta ser o primogênito se a fome não é de salvação dos homens

e de nada adianta parir tribos

se todas se atacam como diferentes alcateias…

Vemos de súbito que somos nosso próprio inimigo

e vemos também que a espada sobre a cabeça

é a mesma que, na horizontalidade, um dia apontará o pomo

bem na goela

revelando o abismo íntimo sobre o qual devemos construir

junto ao divino, o templo que guardará

o sorriso, as lágrimas, o silêncio e as palavras

sob o véu dos lábios, das pálpebras, do labirinto e do sino

que devem, somente juntos, louvar e levar ao celeste

porque quando a corda é puxada ao ser filtrada antes das narinas

o canto da campânula atravessa o tortuoso caminho

a ser adentrado por martelo, bigorna e estribo

apenas para se chegar, após estreito caminhar,

a derramar água e sangue de cada pupila

para que, em derradeiro instante,

venham a preencher a boca, que como cálice ou como lua

sustenta os pilares para, do ar, haver passagem,

ao nos alegrarmos pela fome e pela sede que ali são saciadas

de forma una.

Assim, somente nos tornamos dignos das alturas

se nossa face se revela mesa a congregar ao redor da mesma

todos os que preparados estejam

tanto para as alegrias quanto para as tristezas

tanto para as inspirações quanto para as expirações

tanto para os nascimentos quanto para as mortes

que se verá ao atravessar a mata

e que se viverá ao partir para se doar…

 

V

 

A doação é intensidade que com lenço se cobre partes

pois que a cada um é mostrada fração da feição

– ninguém tem onisciência sequer da própria integridade

senão o altíssimo, que levanta nosso véu em perfeita santidade

a nos beijar em aliança eterna de casamento em sacramento

o qual nem sequer a morte separa.

Honroso é morrer em campo de batalha

e, vivo em qualquer mundo que seja, continuar fiel aos votos

por saber que um verdadeiro esposo espera sua rainha

ainda que ela seja viúva aos olhos que a vejam

então, mesmo sozinhos, continuamos com aliança no dedo…

Riem as hienas e chegam os abutres

porque a cada pouco mais de luz

revela-se que todos os animais em nossa floresta

ou estão com cobras enroladas em suas pernas

ou foram, em seus calcanhares, picados por elas

certeza têm as sombras

de que todos se deitarão para que sejam consumidos

então há buracos por todo o chão

e a cada instante neles caímos

a terra nos cobre golpe a golpe

e somente com muito esforço nos levantamos e saímos

não porque tenhamos força sozinhos

mas porque ao fim de cada sentença

ao findar de cada oração

somos renovados com a espiritual essência

de quem, do alto, se curva para nos puxar pela mão.

Neste momento entendemos que a aliança que temos

em verdade adorna nosso coração

porque é por ela que somos reconhecidos

para que possamos ser erguidos

como marca na fronte

e como cálice que recebe o pão embebido em vinho

a ser elevado acima daquilo que nos consome no íntimo

ao nos dar eterna oportunidade

de continuarmos pelo caminho

– ainda que os animais continuem vindo…

É preciso saber cuidar de cada um deles

seja em cura de vigília noturna

seja em assunção de sacrifício

é preciso também desviar das tumbas

ainda que sendo inegável o fato de que, em algum momento

inevitavelmente caímos…

Há fundura por todo lado

e todos os passos revelam que em nós há abismos

e quando encontramos outros ao cruzarem conosco

vemos que seus altares estão cheios de corpos

mortos

porque não sabemos nos esvaziar para que nos habite

o infinito…

 

VI

 

E como lançar fora do bosque os animais que matamos

e ainda os que nos devoram?

Como desviar dos ataques e dos botes?

Como não cair em encantamento quanto aos etéricos elementos?

Talvez a resposta resida em saber que toda árvore é grama

quando na humildade se distancia

percebendo que tudo é pasto cujo pastoreio

vem da visão de cima

d’Aquele que desce para nos erguer e assim possamos, com nossos olhos, ver

sendo sanadas as dúvidas que se tinha.

Quando o voo se dá pelo sopro que nos leva

aonde jamais imaginávamos

além das fronteiras do epitélio

além da pele que organiza a carne

além dos poros preenchidos pelo outro

além do sangue embebido em individualidade

quando, por um segundo, se lança em voança a flecha

para que a morte para o mundo se dê

através da mão invisível

que rasga a costela outra vez

e faz renovar a vida da matéria que nos cerca

ao vencer as ilusões e mentiras que cresceram nela

quando, num átimo dum átomo voluntário,

doando a si, nos fazemos presentes

através d’Aquele que é filho do casamento

do espírito com a materialidade

e, nascendo a alma em milagre,

vemos nesse reflexo perfeito mais do que a nossa própria imagem

mas a união do rio com a face

reconhecemos, em espanto, que o azul do oceano

é o terceiro elemento nascido de sua união com a eternidade

– o céu que o olha em misericordiosa constância

dotando-o dum cristalino véu

cuja seda não se rompe nem se rasga

mas é pelo noivo delicadamente levantada

porque é o próprio noivo o véu – o corpo e o rosto

pelos quais se passa

assim como é ele também o que, junto ao suspiro

a expiração e inspiração d’Aquele que descansa e trabalha

nos dota do movimento cuja dança

nos purifica do diário automatismo

assim como nos consola

quando não sabemos os próximos passos

fazendo com que seja um voo de confiança

no qual os membros flutuam

apesar de toda a densidade

que nos puxa para baixo…

 

VII

 

É só descendo, no entanto, que se tem o casamento às claras

o universo inteiro olhando

e a noiva baila

dança a música dos astros que, sentados, são testemunhas de tal milagre

– é realmente quase inacreditável

porque aquela miséria caída e despedaçada

aquela taça de vinho velho já quebrada,

na dualidade, que vence o dualismo de dois que vão para opostos lados cada

é pega pelas mãos e, em imortal enlace, vê seu esposo fazer com que

alma e matéria

se tornem uma só carne…

e como é possível fazer desse corpo alma

como Madalena que se torna filha de Maria

matéria que se torna ressurreta

por receber a aliança dourada da eterna vida?

Como? Senão por Cristo

Aquele que sussurra ao cosmos o seu pedido

e concretiza tudo o que se julgava invisível…

 

O azul se revela luz, e quando respiramos

testemunhamos que as ideias relampejam…

 

É preciso observar a torre e reconhecer nela a pedra

aquela, de fundamento, da qual sai água para a sede

e para que seja revelada a fonte dentro

porque é preciso entregar os tijolos não só aos que passam

desejando pão e nos ensinando a ser pó

mas também ao alto para que, milagre a milagre,

o peso do chumbo que é estar acorrentado

se torne puro ouro

cuja circunferência que antes prendia em altivo aposento

se torne anel de núpcias

– o cumprir efetivo de antigas promessas

sim, porque me lembro, Amor de minha Vida,

de quando me dizias que não importava o que acontecesse

Tu, somente Tu, me resgatarias

ainda que por um momento eu tenha me esquecido

e atentado contra Ti ao te trair

com a imagem que criei de mim mesma

sim, fui adúltera desde o noivado, desde antes que me abrisses passagem

como quem ergue o véu para ser beijada

e ter nosso destino selado

ao ser teu próprio corpo transpassado

pela lança que eu segurei a cada vez

em que cultivei em meus pensamentos o pecado

sim, porque tentei fundir os fios de minha cabeleira

sem levar em conta o mar que deveria desde já cobrir-me a cabeça

eu não compreendia ainda que, a cada filamento, a tecitura

era da coroa de espinhos da qual penderia

o futuro ornamento

nem soube ver que a mão que a mim me tirou do inferno e da solidão

me oferecia lírios a tornarem-se os cravos que me adotariam

como filho para que, dos poros que se abririam,

eu me tornasse fiel jardineiro, em imagem e semelhança

de tal forma que pela voz possam reconhecer em mim

o teu chamado

e vejam, em verdade, a Ti

por termos nos tornado

por Tua vontade, um só corpo

e, em casamento divino, uma só carne.

 

VIII

 

E agora amo-Te, amo-Te em cada um que vejo

em cada um que me dás

para que nós dois amemos

e me torno todos os que Te rodeiam

à medida que necessitas que se cumpra alguma tarefa específica

sendo imbuído de armaduras que luzem

porque toda imagem é Luz em seu íntimo

a mesma Luz que continua vindo

indo em direção aos que sabem tornar duo

tudo o que dança em perfeito casamento

como as asas que juntas andam

porque se os pés caminham um após o outro

quando nos dás a capacidade de voar

já não há o que fique para trás

e o baixar das penas aladas

significa que o centro está, aos nossos olhos, a se elevar

e quando há o erguer do bater

nos é revelado que o cerne do ser

é uma constante reta em meio a todo esse luminoso vibrar.

Aos poucos aprendemos também que o voo não é ter asas em si

mas sim a apreensão do movimento do ar

toque: toda pele é pelo vento que se está a encostar

terra com terra não produz o sensível em si

mas para ser penetrada pelo vento é preciso que ele se torne respiração

porque o respiro contém a água em vaporização

e é a água a chave para o ar a terra adentrar

assim como é pelo fogo calorífico

invisível

que a terra se mistura ao alento

ao virar cinza e reduzir-se a partículas que, em suavidade e leveza

fazem com que ela possa sublimar

ascender aos céus e se elevar

ser coroada como fênix que nada mais é do que o fogo que se fez chave

para que a terra se torna-se verdadeiramente sagrada.

 

Mais que isso não há!

 

Eis todo o amor expresso em rudimento

de pequenos elementos

sedimentos da natura que revelam como tudo

em sintonia

pulsa

sendo, primeiro, sentido como música

para que depois, somados, divididos, subtraídos e multiplicados,

se tornem verbo que vivifica cada uma das sinestesias

em palavras que causam verdadeiro espanto em cada creatura

sim, porque se só expulsamos demônios se os nomeamos

é também nomeando as virtudes, as bondades, as belezas e as manifestações

da verdade

nomeando anjos e santos

assim como é somente orando a Deus e rogando por amor, misericórdia e piedade

que profundamente encontramos o estado de suspensão

para além do bailado

– aquele instante em que, mais do que a soma dos corpos

nos tornamos responsáveis pelo casamento da eternidade

com o tempo e o espaço

e nos damos conta de que o que dançamos

mais do que instrumentos manifestos e falhos

era, agora e sempre, Deus nos sussurrando

em fraternal verbo e paterno silêncio

as maravilhas divinas

para as quais fomos genuinamente creados.

 

IX

 

E então quando sê creação

da água sai para a terra rastejando o que serão pés e braços

a formação do indivíduo, que dar-se-á conta de si

somente mais tarde

porque se do mar nasce-se para a solidez da carne

é somente do fogo, da labareda que nos engloba

e na qual estamos imersos todos,

que saímos individualmente em espírito

para o respiro do ar que sustenta o movimento daquele que vai

aonde se faz chamar, em missão altiva

apostolado dos que são designados e,

recebendo nomes, podem descer da nuvem

diretamente carregados pela bruma

da qual um dia o próprio senhor dela descerá.

 

A consciência vem de, voando, saber baixar

não como borboleta que busca néctar para própria fome

mas sim para levar a gota da matéria-prima aos outros

que, com sede, estão a secar

assim como o pedaço de pão, de cristalização

daqueles que da água não conseguem sair

e se debatem, quase a se afogar…

 

Ah, Amor de minha Vida, nem sequer entendemos

como em tudo nos estás a alimentar

porque se a terra deve ser acompanhada do respiro

sendo a alma aquela que mantém o corpo

sem que possam jamais se separar

é também o próprio alento divino que sopra nossa chama

para que ela nunca venha a se apagar

sendo casamento eterno esse mesmo

em que minha boca toca a tua

como quem, vivo, faz aquela que era morta

ressuscitar

sim, porque me beijas a virgindade dia e noite

e me consertas as quebras e cortes

com teu sussurrar

pronunciando doçuras em minha pele

fogosa e terrestre

que, como torre vegetal cujo final revela o lírio e a rosa

fundidos tal qual pétala que desabrocha,

faz com que o mel de tuas palavras

seja a própria cola dourada

a me sustentar

porque por mim mesma sempre irei cair

mas por ti, tal qual ouro maciço, eternamente me fortificarás

porque a alegria, que é tua força, reluz e reflete a solidez

de teu gozo em nos amar

e eu amo a ti, meu Amor,

amo-te como jamais poderia sequer conceber

porque sem ti sou estéril da inteligência e do saber

jamais chegando a de fato algo conhecer

muito menos o Amor tal qual se nos dá

em doação de morte para todas as coisas passadas

não como quem as destrói ou as vem a negar

e sim como quem restaura a Vida em si mesma

ao sair do descanso de Si

para, na liberdade e no livre arbítrio de sua Amada,

mergulhar, sabendo que não sairia vivo dali

e, por isso, fazendo da morte

justo o impulso vertical para nos salvar.

 

Trocaste então as coisas de lugar

e a morte passou a ser vida

e a vida passou a ser se mortificar

e a mente assentou-se em teu peito

como lança que revela a duplicidade dos eleitos

assim como o coração pousou em tua cabeça

tal qual coroa, a um véu segurar,

sendo de espinhos sua cama feita

para que possa a rosa revelar, ela, tua verdadeira noiva

que, como tua mãe, te faz sangrar

revelando teu aroma liquefeito a todos

para que pudessem ser atraídos até ti

tal qual abelhas, tornando a cruz, cheia de flores, um altar

e teu corpo podermos repartir e de teu sangue

nos embriagar…

Sim, eu estava lá, e eu vi

vi quando até o sol veio a se ocultar

tamanha a luz que amanheceu

no centro do universo

tal qual Coração que em nossos membros

pela primeira vez sentimos pulsar…

E todos os dias, meu Amor, ainda vejo teu centro brilhar

apagando tudo o que me cerca

e iluminando em unidade o universo

silenciosamente

poeticamente

literalmente

sem que ninguém sequer

chegue a desconfiar…

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