Amor de minh’alma, todos os dias morres
languidamente em meus braços, na fragilidade milagrosa de fazer-se carne
apenas para te partirem em pedaços, partes que são pisadas por todos
ao tratarem tudo tal qual jogo, como se a vida
fosse um repetido lance de dados
algo ao acaso, adormecendo os números outros
premiando só a uns poucos sábios
juízes do povo
fazendo de tua noiva a ciência massificada
que, em vez de receber de ti
a coroa da individualidade
do sujeito que surge frente ao mundo,
recebe antes o título de prostituta
por se deitar com a maioria, sem distinguir-lhes a face
numa horrenda orgia
que te dilacera os poros por não olhar-lhes nos olhos
fazendo sair de ti sangue pela pele, de modo a banhar-te
sim, porque é na traição que a ti fazem
que te cravam os espinhos no corpo
sem verem que quem a ti machuca
é tua própria noiva
a rosa ainda em broto, no botão como promessa da aurora
quando o sol desponta lá fora
e ainda estamos presos em nós mesmos
pois ao te condenarmos à prisão na cruz
fechamos os olhos para o nosso Eu verdadeiro
e ainda cegos para a identidade
acreditamos que somos mais um na multidão
apenas para manter nosso vício na vaidade
como quem, em vez de ter um centro de luz como base,
aceita o egoísmo como solução
a escuridão da falsa solitude que assola a humanidade
na prepotência de, isolados, moldarmos o tempo e o espaço
com as próprias mãos
arrogando aos próprios sentidos a retidão da linearidade
e adoentando a noiva, presa à concupiscência na densa materialidade
sem conseguir chorar a teus pés todo seu Amor
pois que quando ela te vê e te sabe
se torna a mais fiel e pura flor
coroa bruta que se revela pétalas suaves
entrelaçadas com o mais fino fio da teia do destino
tal qual véu que é construído
apenas para ser levantado por ti, seu noivo e senhor
assim como neste momento te revelas a mim
e nos beijamos, selando compromisso de seguirmos juntos
caminhando
até que novamente morras em meus braços
ao fim de mais um dia de labor
enquanto oro para que, ressuscitado,
eu te encontre no jardim ao redor do túmulo
para nos despedirmos e levares ao nosso Pai o perfume do nardo
que em teus pés e em meus cabelos ficou
e emanarmos assim a glória da tua vitória
até que chegue a hora de teu retorno
pelo qual anseio com toda a abundância que há em meu peito
cuja riqueza compartilho por onde vou
cumprindo minha missão de esposa e companheira
cuidando de nossa casa, teu escabelo
enquanto tu, meu marido, sai para nos trazer água e pão
e novamente te façam migalhas pelo caminho
e mais uma vez eu te tome em meus braços
ferido
para morreres anônimo
porque as trevas não sabem teu nome
nem veem que a Luz tua, pouco a pouco, as cura
porque é verdadeiro e eterno
o nosso Amor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *