Curva Retilínea

Talvez tu quisesses, mas já não sei de teu querer
pois o nosso arco, caso houvesse,
neste momento se quebra e verga
no oposto que críamos ir – para chegar ao Amor:
tal qual flecha, precisávamos, em dois, partir.

Eu aponto, e tu olhas o outro lado,
admirando o braço que te apertou
te estrangulou ambos os calcanhares
ao te prostrar de joelhos, porque não nos foi prometido nada mais
que dor.

E agora a noite arqueira se faz distante pelo sofrer constante
apenas para se revelar, ao alto, como fogo depois…
Já não importa se a queimar no chão ou no éter
pois está a nos purificar, tal qual líquido sol celeste.

E não pinga fumaça na calada da madrugada dentro do peito
de quem, arfando um beijo, entrega a si mesmo
a seus perseguidores? Ao invés de subir, desce!
Ao céu ou à terra, já nada mais me interessa.
Meu caminho torto, em tua companhia percorri.

Quão fracos são os homens, sussurram os altos planos…
Pois bem, assim como permitiram: traí e matei a mim.

Mas eis-me aqui sob as mesmas estrelas, debaixo dos mesmos riscos humanos
para, pela primeira vez, saber o que é ser grato por poder escolher
e ser testemunha de que o prazer da flecha é voar para todo lado
mas que a verdadeira liberdade é sair das mãos do rigor que a segura
para atingir o alvo que, por ele, foi designado.

Em tua companhia eu vi a reta se tornar curva.


Mas foi sozinho, cravado no alvo no meio do caminho,

que vi a curva voltar a ser um ponto retilíneo.

em conversa com o poema Curso da vida, de Hölderlin:

♥ tradução Paulo Quintela

Coisas maiores querias tu também, mas o amor

A todos vence, a dor curva ainda mais,
E não é em vão que o nosso círculo
Volta ao ponto donde veio!

Para cima ou para baixo! Não sopra em noite sagrada,

Onde a Natureza muda medita dias futuros,
Não domina no Orco mais torto
Um direito, uma justiça também?

Foi isso que aprendi. Pois nunca, como os mestres mortais,

Vós, ó celestiais, ó deuses que tudo mantendes,
Que eu saiba, nunca com cuidado
Me guiastes por caminho plano.

Tudo experimente o homem, dizem os deuses,

Que ele, alimentado com forte mantença, aprenda a ser grato por tudo,
E compreenda a liberdade
De partir para onde queira.

♥  tradução Miguel Monteiro

Tu querias algo maior, mas o Amor empurra
nos para baixo, o sofrimento curva-se violentamente,
Mas não é em vão que nosso arco
Se vira para lá donde veio.

Para cima ou para baixo! ou já não impera na noite sagrada,
Onde a muda Natureza a sucessão dos dias medita,
Já não impera nas profundezas do Orco
Uma Medida, uma Lei?

Por isto passei eu. Pois jamais, como os Mestre mortais fazem,
Vós, Celestes, Vós que Sois Sempre,
Que eu tenha sabido, com precaução
Me haveis guiado no caminho certo.

Tudo o Humano põe à prova, dizem os Celestes,
Para que, poderosamente nutrido, aprenda a dar graças por tudo,
E compreenda a liberdade
De partir para adonde deseja.

♥ Original em Alemão:

Lebenslauf

Größers wolltest auch du, aber die Liebe zwingt
All uns nieder, das Leid beuget gewaltiger,
Doch es kehret umsonst nicht
Unser Bogen, woher er kommt.
Aufwärts oder hinab! herrschet in heilger Nacht,
Wo die stumme Natur werdende Tage sinnt,
Herrscht im schiefesten Orkus
Nicht ein Grades, ein Recht noch auch ?

Dies erfuhr ich. Denn nie, sterblichen Meistern gleich,
Habt ihr Himmlischen, ihr Alleserhaltenden,
Daß ich wüßte, mit Vorsicht
Mich des ebenen Pfades geführt.

Alles prüfe der Mensch, sagen die Himmlischen,
Daß er, kräftig genährt, danken für Alles lern,
Und verstehe die Freiheit,
Aufzubrechen, wohin er will.

fontes: http://www.elfikurten.com.br/2016/01/friedrich-holderlin.html
http://pedradaponte.blogspot.com/2016/03/curso-da-vida-um-poema-do-holderlin.html

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

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