o Poeta

Pois restitui-me os tempos santos,
Em que me formava eu, ainda,
Em que um tesouro de áureos cantos
Da alma me fluía em fonte infinda,
Do mundo um véu cobria os males,
Milagres a alva prometia,
Em que mil flores eu colhia
Que enchiam com abundância os vales.
Nada tinha e o bastante me era,
O anelo da verdade e o gosto da quimera.
Sim! restitui-me o flâmeo ardor,
O imo êxtase, pungente e rude,
A força do ódio, o afã do amor,
Oh! restitui-me a juventude!

– Johann Wolfgang von Goethe, em “Fausto”. [tradução Jenny Klabin Segall]. Editora 34, 2020, p. 41-2.

Poeta

Para isso terás de me trazer
Os anos do meu próprio devir,
Quando uma fonte de canções a nascer
Brotava em mim sem se extinguir,
Quando névoas me escondiam o mundo
E inda o botão milagres prometia,
Quando eu as mil flores colhia
Que enchiam o vale até ao fundo.
Não tendo nada, bastante tinha então:
A sede de verdade e o gosto da ilusão.
Dá-me de novo as paixões sem temor,
A funda e dolorosa felicidade,
Do ódio a força, o poder do amor:
Traz-me de volta a minha mocidade!

– Johann Wolfgang von Goethe, em “Fausto”. [tradução João Barrento]. Lisboa: Relógio d’Água, 1999, p. 35.

e Eu em conversa com Goethe…

Em minha mocidade vi o fundo cheio de futuras flores
botões à beira de abrir a qualquer segundo
e um mundo de fogo pronto a explodir novas cores
com o vermelho como base do porvir…
Assim era em mim que palpitavam as potências todas
fonte pura das canções que, antes, são ruir
pois os ruídos gemem o parto através das dores
que acompanham o Amor quando há de se manifestar
transformando o abismo em jardim.
Eu possuía a possibilidade de toda a criação
acreditava mesmo que as sementes eram minha propriedade
que na inconsciência da puberdade
espalhei por aí
no corpo obscuro de cada cavidade
que é o abismo quando se abre
para que a paixão possa existir.
Mal sabia eu que a mocidade
me usava, na inocência em si,
para, sentindo sede, fazer-me água
que evapora para longe da felicidade que, quando mais nova,
encontrava ali.
Aos poucos, já não me cegava a ilusão da entrega fria
nem me queimava o poder de ser, pelo abismo, recebida
o abraço da queda virava pó de idade em idade
e quanto mais eu caía, mais compreendia
que, na juventude, todas as flores que meu vale enchiam
eram para amortecer o contato com o chão
e que é a velhice a verdadeira criança que nos salva dos espinhos
posto que é a maturidade que torna a queda reto caminho
por o Amor fazer brotar asas no coração.

Le Tícia Conde

One comment on “Goethe: Fausto [o Poeta] . : . e Eu

  • Geneci vitalino Gomes

    Lindo,lindo!

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