Hierarquia divina, eis aqui uma filha!

Potências, óh essências do que anseio um dia
no peito, com zelo, recriar tal qual filha.
Se consigo isto, por um segundo na vida, pode toda a noite me devorar
que já não dormirei mais
pois saberei que não tarda a hora de novamente praticar
o que nos é dado por ensinamento nesta escola,
humilde casa nossa, do verão que vemos passar…

Eis que o inverno chega e nos assola, e por isso peço
que nos seja dada a glória
de ver todos os nossos como poetas a voar na Palavra vossa
para que hajam no exemplo que pregas
perfurando a alma com princípios que purificam a forma
para então descansar no refúgio e repouso
das asas de tal ser, bondoso, que fez todas as fórmulas
para que sejamos ainda mais cônscios
da Luz que nos acorda…

Ah, que desperto, e sem perder hora
peço, Virtudes honrosas:
me amanheçam do pesadelo de mim!

Em sacrifício oferto o repouso da cabeça em qualquer agora
para eternamente, com louvor, servir
até que seja possível contemplar os que em tronos nos olham
e, juntos, sustentam a vitória
do Amor em todos os poros
na miséria de sentir o coração pleno a cada existir.

Pois, meu Deus, se isso não é ser poesia do começo ao fim
que eu morra, sem que tenham dó de mim.
Mas, se poesia for, que, como poeta, eu seja capaz de forjar em toda dor
por graça e herança hierárquica, tais Seres dentro de mim.

em conversa com a poesia Às Parcas, de Hölderlin:

♥ trad. Manuel Bandeira:

Mais um verão, mais um outono, ó Parcas,
Para amadurecimento do meu canto
Peço me concedais. Então, saciando
Do doce jogo, o coração me morra.

Não sossegará no Orco a alma que em vida
Não teve a sua parte de divino.
Mas se em meu coração acontecesse
O sagrado, o que importa, o poema, um dia:

Teu silêncio entrarei, mundo das sombras,
Contente, ainda que as notas do meu canto
Não me acompanhem, que uma vez ao menos
Como os deuses vivi, nem mais desejo.

♥ trad. José Paulo Paes:

Dai-me, Potestades, mais um verão apenas,
Apenas um outono de maduro canto,
Que de bom grado, o coração já farto
Do suave jogo, morrerei então.

A alma que em vida nunca desfrutou os seus
Direitos divinos nem no Orco acha repouso;
Mas se eu lograr o que é sagrado, o que
Trago em meu coração, a Poesia,

Serás bem-vinda então, paz do mundo das sombras!
Contente ficarei, mesmo que a minha lira
Não leve comigo; uma vez, ao menos,
Vivi como os deuses, e é quanto basta.

♥ trad. Wagner Schadeck:

Pra mim, um só estio, Potestades,
E um só outono de canções maduras,
E, satisfeito desse doce jogo,
Meu coração apronta-se a morrer.

A alma que em vida não servira às leis
Divinas no Orco não repousará;
Mas surgindo o sagrado, que me habita
O coração, sucede-me a Poesia:

Bem-vindo sejas, ó sombrio reino!
Irei alegre, embora a minha lira
Não me acompanhe. Mas por uma vez
Vivera eu como os deuses. E isto basta.

♥ trad. Guilherme Gontijo Flores:

Ó Potestades, peço mais um verão,
mais um outono pra madurar canções,
meu coração tranquilo neste
jogo tão doce e depois a morte!

A alma que na vida não segue as leis
divinas, no Orco nunca recebe a paz,
mas se eu lograr o que é sagrado
no coração, o poema brota.

Bem vinda seja a calma dos ínferos!
Irei alegre mesmo que a cítara
não venha junto — tive um dia
vida de deuses e mais não peço.

♥ Original em alemão:

AN DIE PARZEN


Nur einen Sommer gönnt, ihr Gewaltigen!
Und einen Herbst zu reifem Gesange mir,
Daß williger mein Herz, vom süßen
Spiele gesättiget, dann mir sterbe!

Die Seele, der im Leben ihr göttlich Recht
Nicht ward, sie ruht auch drunten im Orkus nicht;
Doch ist mir einst das Heilge, das am
Herzen mir liegt, das Gedicht gelungen:

Willkommen dann, o Stille der Schattenwelt!
Zufrieden bin ich, wenn auch mein Saitenspiel
Mich nicht hinabgeleitet; einmal
Lebt ich, wie Götter, und mehr bedarfs nicht.

fonte: http://formasfixas.blogspot.com/2019/06/para-as-parcas-de-friedrich-holderlin.html

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