Mestre, hoje eu te chamo de boca cheia
pois tenho espaço sobrando no coração, meu estômago da vida,
com tecido que digere  tudo e me une ao mundo
então peço, houve tempo de murmúrio
ouve agora minhas preces. Conduz-me ao caminho das frutas
que já sei dos tempos de sementes
pois sob o sol quente semeei lavoura doura de trigo
para o corpo como sustento – salpicado sal na terra
aprendi a medida das chuvas, choro apenas o tempo certo
apropriado para verter umidade à semeadura;
a raiz presa à terra precisa da sutil fonte para tornar-se barro
modelar às mãos que irão se fartar do futuro pão –
que eu saiba dividir minha seiva, assim como ofertas a todos a tua água.

Mestre, que me ensines a hora exata da colheita
a hora em que o caule em flor está pronto para ser cortado
pois bem sei que a flor tombará beleza seja em solo que lhe faz barriga
seja em arranjos para os olhos alheios
– tenho dentro de casa buquês e vasos espalhados
e do balcão de vidro observo o campo:
é tempo de seca.

Mestre, me ensina a molhar a boca com teu nome
para que eu encha não só os olhos da fome mas também os ouvidos da sede,
sei que no vento vibra o pólen sagrado que faz com que a natureza esteja sempre cheia,
e assim também quero meu pasto, com verdes gramas
para que amorteçam a queda dos que vêm a cambaleantes passos
e eu mostre na matéria as marcas dos que vieram atrás de ti antes.
O vento sopra e traz o pão, este quero ressoar
estremecer a plantação, revelar à visão e audição
que o horizonte é reta que se encurva e sobe
e estamos nela, andando a buscar dias de sol
que também compreendi ser necessário fogo em fragrância de raio
para que o crescimento seja constante; e como oração que alimenta através do ar
que tua luz seja inebriante, pois se à lua tua grandeza já clareia
dividindo o brilho com outras estrelas, é de dia que transferes toda tua força até a quem adormece em profunda cegueira.

Mestre, que eu seja capaz de te chamar em mantras ao constantemente trabalhar
nos crepúsculos, pois as horas em que tua generosidade e força se encontram
é quando a beleza e harmonia se tornam potência de começo e fim
um ciclo comum a todos que têm o suor a pingar no pó junto de tua chama a subir
e as mãos a cozinhar os frutos em fogo brando ao te contemplar em brasas até sumir…

Que o que foi preparado nos ciclos diários seja degustado à mesa, cheia:
de pratos fartos com elaborados sabores, de pessoas boas cuja simplicidade é sua maior riqueza,
que sabem o valor dos ingredientes, que admiram as estações e suas transformações,
que prezam a determinação do tempo em tornar tudo sempre mais saboroso
– aquilo que para uns é mera repetição, e que nós,
ao sentirmos tua energia na iguaria que sustenta nosso corpo,
temos certeza de que é o gosto que se depura
ao nos fartarmos com teu singular manjar de ouro!

Mestre, meu peito oferto a ti, o pedido é sincero
da terra que vejo
da água que verto
do vento que ouço
do fogo que ofereço
faz dos infindos pastos lugar de floreio
que a primavera arda no coração da mata – sei que após as pedras
há um oceano imenso, e entre o mar e minha casa
há que se ter das germinações para que um dia seja flores esta
então me ensina a plantar com perseverança e determinação
com profundidade e altivez ao multiplicar o que é de tua natureza.

Mestre, não peço muito, que nessa vida nada desejo
senão saciar os corações do mundo com o amor que cresce
no quintal que me deste para que junto de ti eu aprenda
a ter humanidade no cultivo
e sabedoria na colheita.

 

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