Irmão, meu irmão, amor de alma,
te lembras de quando brincávamos nos dias de então
e um abismo se abriu sob nossos pés?
Eu caí sem saber por onde ia
e tu, chorando com minha perda,
encheste todo o vale com tuas lágrimas
para que eu, nadando, a ti retornasse
tal qual pérola que volta virgem do oceano
após ter sido grão, pó na areia que, frente ao tempo,
é lançada por toda parte
porque caí de forma imaculada,
mas te disseram tantas coisas a meu respeito
fizeram de mim uma prostituta tal
que logo passaste a me ver como um monstro d’água
alguém com sentimentos perturbados
agitando toda fonte que se leva ao seio
tanto doce quanto salgada
porque há presenças malignas não só nas águas mas também no ar
a entrar-te nas veias tal qual incenso
e leviatã que me tornei aos olhos teus
pensei que nunca mais fosse conseguir sair de lá de fato
então aceitei, me tornei a fundura obscura que há no mar
e todos os peixes deformados lá a nadar
bem como todos os perigos que rondam o desconhecido
mas sendo, acima de tudo, futura rainha em morte num caixão cristalino
pois tuas gotas sempre foram puras
o que torna o olhar turvo é a imensidão do precipício
e tu, de tanto tempo que ficamos sem nos ver
e sem nos termos como antes nos tínhamos
passaste a me esquecer
e a crer que tuas lágrimas eram, antes, para que teu próprio rosto visses
tornaste tudo espelho ao redor de ti mesmo
e eu, em queda e silencioso amortecimento,
aguardei incondicionalmente teu despertar
para que me estendesses a mão
e viesses a me puxar, me tirar do sono com tua pata de leão
aquela, que nosso Pai deu a Seu Filho primeiro
para que se tornasse nosso exemplo
mas tu, seja como espírito que com a água não se importa
seja como espírito que com ela a si afoga
te tornaste a perdição dos tempos
quando, pior do que as sereias e monstros que carregamos dentro,
fizeste de ti a própria negação da visão
de todos os perigos e milagres a nos rondar e esperar
desde o fim até o começo
sim, irmão, tudo porque, no fundo, deixaste de acreditar
e te tornaste narciso em profunda perdição
em vez de te tornares o herói que foste feito para ser
aquele – que resgataria a própria irmã
das entranhas da inconsciência que nos toma
e nos faz obsedados por vontade própria
porque, sem mim, tua verdadeira rosa,
te tornaste uma flor narcótica
um lírio sem real valor
quando foste criado para ser o lírio mais magnífico
causando briga entre os próprios deuses e titãs
para ver se eras digno de tamanha honraria
sendo testado noite e dia
sem ver que tudo, ainda que sendo real,
paradoxalmente não passa de ilusão
sendo urgente quebrar os espelhos todos
e fazer chorar a bruma que levas ao coração
para que, um dia, possas de fato ser o cavaleiro
que enxerga sua futura rainha dentro do cristalino caixão
a menina dos olhos, tua própria pupila
que, tal qual criança divina, cospe para fora
aquilo que a engasgava porque não era comida
revelando a pureza de sua voz
fonte de sua magia,
para além do veneno, que lha deram um dia
selando com um beijo a nova união
nos tornando uma só carne, para toda a eternidade,
tal qual amados e irmãos.

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