Na escura noite em meu peito
surda, cega e muda
o Amor doou-se a mim como um brinquedo
e sem olhos para vê-lo
coloquei-o na boca, feito fruta
o sabor doce dominou meu corpo inteiro
e passei a saber escolhê-lo pelo cheiro
já que não ouvia nem via coisa alguma;
e para a semente que me brindou ele
busquei, com suave tato, a terra mais fértil
enterrando o Amor onde meus dedos sentiram-na úmida:
o coração, que o mundo vive a dizer que é débil
mas como eu era surda e muda
o fiz em silêncio completo.
E quando ele nasceu na escuridão do peito alheio
eu tentei tocar e mostrar, mas as pessoas, que viam tudo,
juravam de pé junto ser só um fruto pequeno, minúsculo
de uma árvore tão miúda que parecia mais um arbusto
mas eu, imersa no escuro, reconhecia o Amor pelo cheiro
e sabia de seu dulcíssimo perfume
sem me importar se era novo ou se era velho
sem diferenciar se era fruto caído agora ou há tempos
sem querer saber se era banquete ou se era resto
pegando um por um e me alimentando do Amor que,
cega, tocava, primeiro, meus pés
enquanto os outros tentavam alcançar uma única fruta
acima de suas cabeças
que não tinha cor, não tinha aroma, e quase não era comestível
de tão dura!
mas que era bonita de se ver pela altura
de onde todos eram precipitados ao perderem a luta
para ver quem seria o senhor de tão rara iguaria
sendo que ninguém jamais a apanharia
pois ela era apenas a ilusão de quem cria que algo via
porque de tempos em tempos, como uma lâmpada, ela acendia
e nesse momento, imóvel, eu testemunhava a briga…
…e o sabor do Amor, da minha boca, quase que desaparecia…
até que o brilho dele cobrindo o chão
novamente me cegava e eu tornava a saborear
todo o Amor que os outros não queriam, se negavam, não colhiam
e que eu, cega, surda e muda
testemunhava sobrar…

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