Oh, noivo de minh’alma, que me espera junto ao poente
dispo-me de toda a roupa da carne
sob a aurora, para fazer-me cada vez mais tua
na virgindade de quem não se esconde sob imagem alguma
senão a que a ti reflete
sim, porque anseio ser teu esteio
para que me deite em teu peito
e enxugue teus pés perfumados
com meus cabelos
sim, noivo que a mim ama, único amor verdadeiro
és dono de meu espírito, posto que és tu quem o emana
assim como fazes de meu corpo teu lar
quando me penetras e me habitas desde dentro
me ensinando a usar de teus raios
para iluminar quem chega, velando pela ponte que é este pão
corpo meu que faço semelhante ao teu
para que seja tua a glória
ao entregar-me como farelo de teu caminho
para que me pisem e até a ti cheguem
sim, porque sou apenas uma fração
de tua inteireza
sem que sequer necessites de mim para que sejas
e ainda assim me escolhas como noiva
pra dar-me na boca do mundo
e quem sabe ser capaz de alimentar alguma diferença
algum gota de evolução
ainda que eu seja apenas pontuação, e jamais, como a ti, um Verbo
ou sequer uma letra
sim, porque sou pequena
e menor a cada dia me faço
para que ao chegar em teus braços
recebas a maturidade que dança como a uma criança
tal qual recebo em minha casa
o voo leve e suave das borboletas
que, carregando o peso de um corpo alado
em meio a um mundo de patas e pernas,
ainda assim fazem com que a simplicidade
seja o que as eleve…
Ah, noivo de minh’alma, que em casamento sagrado me espera
te beijo como quem derrama em ti o nardo em néctar
desde meu abismo, que se torna claridade
quando com a boca te abraço
para que a vibração se torne creação
e o som se revele
sim, porque a saliva é a própria água
que a meus olhos cegos lava
fazendo com que eu a ti veja
e se torne novo o meu barro
tal qual jarro que, retirado das areias do tempo,
em cristalina transparência
permite que seja doada toda a essência
iluminando por toda parte
porque teu fogo lhe arde
desde seu mais puro centro…
Ah, noivo que no altar recebo e na cama vertical, em pequena morte
todo dia gozo o júbilo de poder acompanhá-lo
em seu sofrimento,
como me guardas em tuas mãos
por onde quer que caminhemos
e em lua de mel celebremos
todas as manhãs
porque morre para nós, pouco a pouco,
os espinhos da separação
quando cada vez nos unimos mais
subindo os degraus de Eros a Logos
me resgatando do mais baixo de mim
e seguindo reto até o topo
nos fazendo uma única Vida
ao caminharmos juntos pela estreita via
que leva à porta de nosso aposento
lá, onde te encontro tal qual esposo
pronto para me ensinar a como crear um mundo
dentro de mim mesma
no interior mais profundo
onde teus segredos permanecem selados
sob chaves que só são dadas
pelo nosso Pai aos que Ele escolhe a dedo
lá, onde meu ventre é inundado por tuas sementes de ouro
tornando branca a pedra que te dei como fundamento
para que me ensinasses a erguer, para ti, um templo
e assim podermos nos amar
nos amar até que tudo o mais venha a queimar
restando pó somente
e dele ressuscitando
para a Vida na qual verdadeiramente amamos
eternamente.

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