Querido, sempre me disseste que por poder teu
eu poderia tornar-me senhora de mim
e hoje entendo que
sendo minha própria mãe
tenho de me parir
como Madalena que dá nascimento a Maria
tendo vindo de Eva
: vó, mãe e filha
três idades dentro de mim mesma
até me tornar novamente menina
uma criança que corre até a ti
ao descobrir que pelo caminho
há que se ir quebrando todos os espelhos
estilhaçando cada reflexo que me cristaliza no tempo
em que ainda não conhecia
essa que hoje é
tua amiga, noiva e esposa, eterna rainha
sim, porque fomos prometidos um ao outro
quando eu era apenas uma semente
nem sequer um broto
que dirá a rosa que hoje te oferto
através do perfume de meus afetos
quando canto desde minha torre
ou quando com a voz faço chover no deserto
porque a ti chamo
e tu, comovido pela alegria de ver que meu espírito
em sono profundo ainda te espera, não estando de todo morto
choras desde o íntimo
trazendo abundância aos locais
que eram estéreis até há pouco
e que, sob a tua viva fonte de vida
a jorrar desde teu cerne,
se revelam plenos de grãos que sonhavam
com o tempo certo para germinarem
e se tornarem testemunhas do encontro
de minha rosa com tua cruz
ao juntos nos tornarmos apenas um
sob a benção do nosso Pai celeste
unidos como uma só carne
tal qual peixe e pão
que, em multiplicação,
alimentam os justos de mente e coração
dando-lhes o essencial para suas necessidades
curando-lhes as enfermidades
ao sermos exemplo verdadeiro
do que significa ter uma vida reta
ao passarmos pelo caminho estreito…
então te agradeço
por toda a paciência e espera
porque estiveste no altar, me aguardando,
até que viesse a primavera
e tudo se tornasse claro de novo
na renovação dos votos, que desde antes de nascermos
já haviam sido dados como eternos
posto que somos a imortal dádiva um do outro
pois perante Deus não existe separação
mas apenas inviolável ressurreição
e por isso hoje sei, meu querido,
que tinhas razão em me murmurar todas as promessas
ainda que ao começo eu não entendesse coisa alguma
sendo ingênua, inconsciente, e até mesmo perversa
astuta, como cobra que a pele troca
e de aparência muda
flagelando-te a cada investida
porque não permitia que chegasses perto
matando-te a cada picada desferida
porque, não bastando o ataque
havia sempre que aplicar-lhe doses de veneno
te ferindo desde o sangue
fazendo dele teu inimigo
e sendo eu mesma a responsável por tais danos
sim, porque a Eva e a Madalena que em mim existiam
eram como duas taças que pela embriaguez foram quebradas
te injetando vinagre
pelos cortes feitos com os pedaços que delas restaram
sendo que hoje entendo o que significa fazer com que eu, em mim mesma, nasça
para poder receber de ti e por ti
o dom da pobreza, obediência e castidade
fazendo com que meu odre se renove em perfeita cristalinidade
sem mácula, para receber de tua água
me tornando discípula também de tua mãe
para na verticalidade de tua madeira
e nos degraus feitos dos espinhos de minha roseira
unirmos eternamente rosa e cruz
num aspecto de pura redenção
como quem em trígono
une um mesmo elemento com graus distintos
compreendendo finalmente o que minhas três idades
me cantam ao coração
podendo então descansar ao teu lado
recebendo junto de ti a coroa
posto que em casamento te tomo como ressurreta esposa
a nos fazermos a verdadeira escada
que aos que buscam
leva à nossa presença sagrada
para brindar conosco a nossa união.

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