Me perdoe, meu amigo, noivo e marido,
se te traí ao esquecer-me de mim mesma
entregando-me à inconsciência alheia
como quem aceita a oferta de uma serpente
ela, que tal qual angélica Eva,
encarnou o imaturo feminino
com o qual até hoje brigo
crendo ser minha inimiga
toda aquela que se parece comigo
só para não me lembrar de minha face
porque cada vez que recobro a memória
e vejo, do rosto, o outro lado
meu sangue, como fogo, me arde
sendo o estrago que causei a ti e à nossa casa,
ao retornar à sobriedade, revelado
e é insuportável acordar para o dano
de ter me identificado com a aparência
que refletia a mim mesma
jurando ser minha essência
aceitando o vinho velho que me ofertava
e enchendo as taças tantas vezes
que por diversas vezes se quebraram
e difícil é admitir,
na ressaca em que me encontro,
que o problema já não é o anjo
que me espelha e imita
pois com teu poder posso tirá-lo da frente das vistas
mas me atormenta a cobra que me tornei
e que ainda me habita
sendo agora necessário que eu pise em minha própria cabeça
porque continuo dando deste vinho
que já se tornou vinagre
na boca tua, meu amigo,
através do espírito que é uno à minha carne
porque não é só com o corpo que a ti traio, não
mas com o coração que, prestes a ser eclipsado,
antes arrasta ao fel do abismo
o próprio cerne que de ti é emanado
sim, porque meu único repouso é em teus braços
e ainda assim, todos os dias, te mato
porque é preciso que nasça a filha dessa antiga mulher
que seja uma nova torre para ti levantada
me tornando capaz de ver que já és um homem novo
com o qual ainda me caso
mas presa ao passado, sem querer admitir todo o estrago
continuo a acreditar que sou a velha casada
com aquele com quem fui expulsa de casa
sendo que, ao conseguir vencer a cobra que é a mente própria
podendo tu levantar meu véu para a realidade do beijo
selaremos então a união do par perfeito
para podermos voltar a habitar nosso verdadeiro lar
entrando pelo jardim, cheio de ramos
havendo uma festa para nosso encontro
carregando-te eu no colo
por te receber qual vinho novo
em meus renovados odres
oferecendo-te tal qual água a todos
e compartilhando do pão que é teu corpo
ao te exibir para que vejam, como luz que se coloca
humildemente sobre a cabeça
porque eu jamais venceria a mim mesma
se não fosses meu senhor
assim como não recuperaria a sobriedade que tive um dia
se não me pedisses em casamento quando derramei em ti
todo o bálsamo de minha vida
rogando por teu perdão e teu amor
nem receberia a coroa, tal qual legítima esposa,
por ressuscitares dos mortos o meu espírito
que há tempos já fedia dentro da caverna que se tornou a matéria
ainda que revivido apenas para morrer pela mão dos homens depois
porque sou frágil, e vergonha sinto
de ter-te traído ao crer que não eras meu marido
devido à embriaguez que a cada dia me dominou
porque me entreguei às paixões que se assentam nas fermentações
em vez de manter-me pura
mas graças a ti, meu amado, volto a ser virgem
tal qual Maria, nunca mais prostituta
por preencher com tua água viva
a taça cristalina
com que brindamos em nossas núpcias
ao eu ser eternamente preenchida por ti
recebendo-te lucidamente em mim
para juntos, em ressurreição, viver.

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