Os olhos (e todos os órgãos) são estrelas do corpo.
Radiantes perante os ensinamentos da vida, seguem em aprendizado constante.
Um céu com estrelas que queimam, apagando a si mesmas, é menos céu em termos de sua grandeza?

          Através desta analogia, eis uma crítica poética ao que Ah’med, em seu conto [ao fim transcrito], nos brinda:

         Toda estrela queima, e queimar é consumir a si para iluminar quem chega.
Portanto o destino de toda estrela é apagar a si mesma.

        Aprender a contemplar a noite é necessário, olhos da matéria que pisca e nos conecta a outros mundos, nos faz conjuntos no amor que deita ao lado, abaixo, no manto escuro que acaricia a paz de ouvir calar tudo, quando todos estão mudos, correndo o risco de se emudecer também perante o dia, depois de acordados.

         A fascinação pelas estrelas pode fazer esquecer de se banhar no sol, de se abrir a porta para a entrada dos raios na alvorada que a cada novo dia chega.

        Não enxergamos pelo brilho físico dos que queimam, mas pelo espaço escuro que, ao transportar a sua luz, arde; pelo azul que se revela junto ao dourado, sendo possível testemunhar, por causa do sol, o infinito que lhe carrega nos braços.

          Arrancar os olhos para a beleza temporária não é fácil, mas é possível apagar de si a chama que engana tantas pupilas que buscam ver algo de bonito, algo de beleza papável, que mesmo sendo uma luz mais sutil do que a da lua que apenas reflete determinado estado, ainda assim faz preciso lembrar que o sol, mais do que estrela, é aquele que ilumina ao contrário  :  Só permite ver a si se se busca o que para além dele se revela ser verdade.

        Quando, à noite, enxergamos apenas pontos brilhantes na abóboda cristalizada, deixamos de ver, ao mesmo tempo, a imensidão que se apaga para que algo específico seja clarificado.

         O belo da noite não são apenas as estrelas, olhos de pérola no útero da madrugada negra, mas a escuridão do fogo latente que dá corpo à mente que, por esses olhos, a tudo observa.

        Por fim, o casal do conto nos ensina que o sol que aprende a sacrificar de si a luz da material pupila, em direção ao buraco-negro se eleva  :  centro que chama de volta para si tudo o que lhe é de valor e devolve, para quem não vê, em seu cerne, o Belo do Amor, as moedas que brilham no visível o preço palpável da vida pesada apenas com olhos físicos.

         “Caso teu olho direito te leve a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado na geena. Caso a tua mão direita te leve a pecar, corta-a e lança-a para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo vá para a geena.” [Mateus 5:29-30]

Imagina o Amor e Valor daquele que corta parte de si para que o corpo do Outro não seja lançado na geena…

 

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O Conto:

Contam que um homem comprou uma moça por quatro mil denários. Um dia olhou para ela e começou a chorar. A moça lhe perguntou por que estava chorando; ele respondeu:

– Tens olhos tão belos que me esqueci de adorar a Deus.

Quando ficou sozinha, a moça arrancou os próprios olhos. Ao vê-la nesse estado, o homem ficou aflito e disse:

– Por que te maltrataste assim? Diminuíste teu valor.

Ela respondeu:

– Não quero que haja nada em mim que te afaste de adorar a Deus.

De noite, o homem ouviu em sonho uma voz que dizia: “A moça diminuiu seu valor para ti, mas o aumentou para nós e a tiramos de ti.” Ao acordar, encontrou quatro mil denários sob o travesseiro. A moça estava morta.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

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