Os sapatos que levo no corpo moldam meus passos, e os passos, em seu percurso de linhas tortas, com o tempo deixam o sapato roto. A pegada que fica é a das solas, ela será a Forma deixada para os que permanecem em vida quando os pés já tiverem ido embora. Portanto, os sapatos que visto são o que deixará a marca do que foi feito em obra, a indicação de qual foi o caminho percorrido e como se deu a minha história.

          O que é calçar os sapatos de alguém? Em inglês, essa expressão leva à imagem do ‘colocar-se no lugar do outro’.

      Quando estamos no encalço do mestre, desejamos a qualquer momento calçar os solados do mestre, contudo, esse mesmo desejo faz com que nos enganemos, crendo que estes sapatos almejados têm um número específico que nos moldará os pés, deixando também um relevo reproduzível se eu vestir o mesmo número daquele que sigo.

          Assim, a cada situação nos defrontamos com a vontade de apresentar um sapato específico – se por vezes bailarina de sapatilha de ponta que se recusa a diminuir seu nível e pisar nos mesmos solos baixos do outro que me oferece vinho, em outro momento será calçando botas que pisarei e confrontarei violentamente a covardia do outro. Até que, um dia, eu entenda que o sapato mais humano a se usar é o pé de qualquer um que surgir, pois se eu tenho as solas do outro sobre mim, os meus próprios pés podem se despir e, nus no encontro com o outro que estou a vestir, podem finalmente ser arado da terra, com dedos que sulcam e lavram, bem como visíveis a quem chega, sendo exemplo de que somente eu sou portador da real medida do que esses passos vivificam e representam. Pois o tipo de sapato do Mestre é um único: a pele que reveste o espírito que assenta.

E então o verdadeiro Mestre poderá lavar nossos pés e nós lavarmos os pés dos demais, pois, sujos de tanto andar, voltarão a ser exemplo de que sapato algum tem mais valor do que os pés reais.

          Assim, com os pés no chão, poderemos dizer ‘não’ a quem oferecer vinho sem precisar subir na ponta da vaidade de uma falsa verticalidade de quem ergue os calcanhares, negando a horizontalidade do próprio passo, como se não sentisse sede tanto quanto o outro que se embriaga, mas sim sabendo que a negação é por saber que o tamanho da horizontalidade de quem me oferta calçar aquele sapato não é a mesma que a minha, pois cada um tem a medida que lhe é exata para que sejamos honesto naquilo que se vive e se deixa como rastro.

          Que vistamos os pés do Mestre ao lembrarmos de desnudar e lavar os pés uns dos outros, pois a medida do Mestre em nós é aquela que cabe em nós mesmos na honestidade do passo, e não há sapato no mundo que deixe uma marca mais leve, suave e sincera que as do próprio pé na terra.

          Bem como não há melhor exemplo do que ter o andar do Mestre acima do racional da cabeça. Sapatos são escolhidos na vaidade, enquanto o pé que me é dado, seja benção seja fardo, se aceito calçá-lo, o Mestre permanece para guiá-lo.

“(…) Senhor, tu, larvar-me os pés?!
(…) O que faço, não compreendes agora, mas o compreenderás mais tarde.” [João 13:6-7]

Compreenderemos mais tarde, no cemitério, quando a morte deixar os pés após queimar os sapatos…

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O Conto:

          No Encalço do Mestre

          Então o discípulo atravessou o país em busca do mestre predestinado. Sabia seu nome: Tilopa; sabia-o imprescindível. Perseguia-o de cidade em cidade, sempre com atraso.

         Uma noite, faminto, bate à porta de uma casa e pede comida. Sai um bêbado e com voz troante lhe oferece vinho. O discípulo recusa, indignado. A casa inteira desaparece; o discípulo fica sozinho no meio do campo, a voz do bêbado grita para ele: Eu era Tilopa.

         De outra feita, um aldeão lhe pede ajuda para esfolar um cavalo morto; enjoado, o discípulo se afasta sem responder; uma voz zombeteira grita para ele: Eu era Tilopa.

        Num desfiladeiro, um homem arrasta uma mulher pelos cabelos. O discípulo ataca o foragido e consegue que ele solte sua vítima. Bruscamente se vê sozinho e a voz lhe repete: Eu era Tilopa.

        Uma tarde, chega a um cemitério; vê um homem encolhido junto a uma fogueira de enegrecidos restos humanos; compreende, prosternar-se, segura os pés do mestre e coloca-os sobre sua cabeça. Dessa vez Tilopa não desaparece.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

One comment on “Alexandra David-Neel | No encalço do Mestre | uma crítica poética

  • Ana Lúcia

    Não entendi. Achei complicado em uma primeira leitura.

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