Sonhar… e quanto desse verbo pode nos trans-formar? Gerar uma forma outra, que transpõe a barreira do que se imaginava ser possível.

Se sonhar é acordar para o invisível, o que vem depois?

Quanto do que somos vem após sonharmos com nós mesmos? E se temos um pesadelo, a realidade não converte-se naquilo que nos sugere o medo? E a bondade e beleza não seguirão a mesma regra que ele, nos despertando e nos levando à crença de que somos mais do que a materialidade nos oferece?

O casulo que se abre em borboleta  :  não será essa a natureza da vida que nos rodeia, cercando-nos com a limitação dela mesma e sua dureza? Dureza essa que não seria para crescimento de asas que nos levem além desse mundo de visão tão estreita? Ver o céu, tal qual quem voa em liberdade depois de parcamente sequer ter tido pernas…

Para uma lagarta andar é preciso ter coordenação, ao mesmo tempo, em muitas patas. E não são nossos encontros o aprender constante de quem apreende novos passos? Todos juntos, segurando na folha que o vento verga como se quisesse ferir quem está ali parado, quando na verdade o vento não pensa na lagarta, mas apenas no sopro de vida que ali passa, porque, para que haja vivência, é impossível ficar parado…

E não é o movimento o sonho do vento, sendo seu pesadelo ficar estagnado?

E cada novo elemento não traz um olhar que se mescla ao que se tinha, fazendo com que a soma de todos eles seja o que significa, verdadeiramente, estar sonhando acordado para a Vida?

Se uma boa noite de descanso depende de um bom dia de trabalho, não dependerá meu dia de sonho da minha noite de realidade? E da lucidez de ambos não dependerá o voar das infinitas possibilidades?

É a lagarta que sonha em ser borboleta e por isso se transforma, ou é a borboleta que lembra de ter sido lagarta e por isso bate asas?

E como responder, senão se sabendo todas as respostas junto de todas as perguntas que trazem sempre um novo estado a quem dorme, assim como a quem está acordado, no corpo e na mente que se sabe ambos, assim como o espírito só toma consciência de si porque se vê preso a cada humano passo?

A borboleta sonha em ser homem, assim como o espírito sonha em transformar-se em realidade.

O homem sonha em ser borboleta, assim como o corpo sonha em libertar-se do passageiro e voar para a eternidade.

***

Quando a borboleta e a lagarta compreendem que são uma só, em estados diferentes, eis que acaba a noite e o dia e tudo se torna Luz para a consciência que clarifica o dormir e o acordar… ela não deixa de ter pernas, mas as usará apenas para pontualmente pousar, pois passa a se manter em movimento constante e a ir a lugares muito mais distantes por ter produzido, no casulo da dor do mundo físico, uma parte de si ainda mais sutil  : 

a manifestação corporal da onírica capacidade de voar!

“Já não haverá noite: ninguém mais precisará da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará (…)” [Apocalipse 22:5]

 

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O Conto:

O Sonho da Borboleta

Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao despertar não sabia se era Tzu que havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu.

Fonte: Antologia da Literatura Fantástica – org. Adolfo Bioy Casares; Jorge Luis Borges; Silvina Ocampo. Tradução: Josely Vianna Baptista. Editora Cosacnayfi.

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