Em um momento fora, em outro dentro, as possibilidades: estar trancado em um recinto; estar num corpo e não conseguir sair, não lograr estar em outros cômodos, em outros estados de si; ao buscar conhecer-se acabar preso; não ser capaz de ir além do que uma única porta permite… E quando o estado de imaturidade é permanente, quando se ainda é moça ou moço por dentro, a chance de cair em armadilhas é maior ainda, pois o adolescente não se rebela contra o crescimento tão inevitável e iminente de si?

          Não é preciso trancar a chave para que o contato com o externo não se dê: basta não ter espaço para estender a mão, basta evitar o toque – uma porta sem maçaneta, basta não ter espaço para a passagem dos olhos, do olhar que leva além, por uma fechadura que revela que há algo do outro lado também, esperando para ser conhecido, aguardando que tenhamos coragem de, um dia, seguirmos viagem, de nos abrirmos, de nos encontrarmos…

        É claro que a porta pode ser também de onde se vem vindo, sendo um estado adolescente da criatividade de quem sabe que, se não se obrigar a crescer na vida, vai ficar sempre nos mesmos lugares. Então é preciso se fechar para que não haja a possibilidade de volta, assim, quem sabe, se descobre uma janela, uma lareira, uma sacada, uma outra porta:

          Talvez como em Alice, a passagem seja tão diminuta que será preciso se despir do corpo com o qual se entrou ali para poder seguir – diminuir de tamanho, ganhar humildade, se ver pequeno, morrer e matar quem se era até aquele momento. Ou quem sabe se tornar ainda maior e mais forte para poder escalar as paredes e ao fim descobrir que era vertical a nova rota – um novo caminho a percorrer, um novo horizonte que se abre sobre nossas cabeças, tal qual ter a vista “trancada” por montanhas para que asas nos nasça ao invés de mãos para inexistentes maçanetas.

Sublimar, transpassar, transformar, transmutar, transfigurar, sutilizar para ressurgir.

          Por fim, o importante é compreender que neste momento do caminho, o que quer que tenha nos levado até ali, chegamos juntos, mas é somente “sozinho” que se conseguirá sair.

Caso queira, possa e deva me ajudar financeiramente: https://apoia.se/leconde

 

Conto:

Final para um Conto Fantástico

– Que estranho! – disse a moça, avançando cautelosamente. – Que porta mais pesada! – Tocou-a, ao falar, e ela se fechou de repente, com uma batida.

– Meu Deus! – disse o homem. – Parece que não tem maçaneta do lado de dentro. Mas como?, você nos trancou aqui! Nós dois!

– Nós dois, não. Só um – disse a moça.

Passou através da porta e desapareceu.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *